
Pergunta Simples
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Ep 116Miguel Crespo | Informar ou desinformar?
Tenho boas e más notícias. Os portugueses estão a consumir notícias. Boa notícia. Os portugueses sentem que estão a ser manipulados. E muitas vezes. Péssima notícia. Os portugueses têm milhares de fontes de informação. O que quer dizer diversidade. O que quer dizer informação mais localizada ou mais nacional. Excelente notícia. Mas quase 90% mesmo grupo de portugueses que respondeu a um inquérito do Observatório Ibérico IBERIFIER que estuda o fenómeno da desinformação e o seu impacto na sociedade, confessa que vê as notícias nas redes sociais. Será uma boa ou má notícia? São ambas: por um lado as redes sociais garantem acesso mais alargado, por outro as fontes nem sempre são fiáveis. Estamos a falar do Facebook da RTP, Expresso ou Antena 1? Ou contamos com as últimas publicações da tia Amélia, que adora cães, detesta a prima Ana e acredita em OVNI´s, milagres e nos produtos de televendas, embora faça um leite-creme divinal? Por isso não é de admirar que 97% dos respondentes dizem ter visto desinformação no último mês. E os temas da política e do futebol são estrelas neste campo. Além da publicidade que se faz passar por notícia para atrair cliques e visitantes aos sítios ‘web’ de vendas. A qualidade da informação tem muito a ver com a fonte. E 25% do território nacional não tem sequer uma publicação local a falar sobre as notícias da terra. Logo as fontes são tudo menos fiáveis, factuais ou neutras. Miguel Crespo é investigador do fenómeno da desinformação e no comportamento dos média e dos cidadãos. E o observatório de que faz parte tem agora uma fotografia da perceção dos cidadãos e um mapa. As notícias são feitas por pessoas e para pessoas. O que implica desde logo uma subjetividade. Por exemplo, na maneira como se escolhem os temas para dar notícia. E que ângulo, titulo ou forma damos ao contar uma história. Finalmente, e mesmo que tudo seja feito de forma honesta e equilibrada, tudo depende da forma como os leitores, ouvintes ou telespectadores recebem a informação e a interpretam. E essa passagem é todo um mundo novo. A mesma notícia é vista com lentes diferentes conforme o contexto dos recetores. As suas crenças, a sua condição social, as suas ideias, as ansiedades e desejos. É tudo menos matemático. Talvez isso explique o sucesso da informação que explora os temas mais populistas. O crime, o sexo, o poder. São temas populares, mas parece que estamos todos sempre a vê-los pelo buraco da fechadura. Também é uma maneira de olhar o mundo. Fiquem com os principais dados do estudo e ouçam um outra conversa com Miguel Crespo aqui: MIGUEL CRESPO | COMO COMBATER AS ‘FAKE NEWS’? “O Impacto da Desinformação na Indústria de Media em Portugal e Espanha”Estudo IBERIFIER87% dos inquiridos contacta com notícias através das redes sociais.37% depara-se com desinformação várias vezes por dia.97% detetou desinformação no último mês.77,6% identifica a fraca qualidade do jornalismo, nomeadamente erros factuais, cobertura simplista, como principal problema na desinformação.72,1% sublinha o problema dos factos parcialmente manipulados.48,5% destaca as peças que imitam notícias, mas que são, afinal, anúncios.71,3% aponta a política como o tema mais visado na desinformação.59,2% é a quantidade de respostas que sublinham o assunto guerra e conflito armado como o tema mais tratado sob efeito da desinformação.84% elege a política como o tema em que a desinformação mais preocupa.72% declara que deixou de confiar num meio de comunicação depois de ter detetado nele desinformação.23% diz que não se pode confiar nas notícias a maior parte das vezes.77,2% declara que não pode confiar na maior parte da informação das redes sociais.78,7% escolhe os cientistas e 56,2% os jornalistas como as fontes em quemais confiam. IBERIFIER LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO 0:13 Ora, vivam. Bem-vindos ao pergunta simples ou voz podcast sobre comunicação, isto é, o episódio 116 e vamos falar sobre informação sobre como nós nos informamos, de onde bebemos a informação que os jornais, que rádios que a televisões, o que Facebook, Twitter e afins usamos para saber como vai o mundo. 0:33 Se gostarem do episódio, partilhem com amigos que queiram ouvir ou pensar sobre estas coisas da comunicação subscreva gratuitamente na página perguntasempre.com ou no Spotify desta vida se é a primeira vez que está a ouvir este programa, aproveite e espreite outros episódios anteriores a lá. 0:50 Muitas conversas interessantes vamos ao programa, vamos a isso. 1:05 Tenho boas e más notícias. Os portugueses estão a consumir notícias. Boa notícia, os portugueses sentem que estão a ser manipulados e muitas vezes, péssima notícia. Os portugueses têm milhares de Fontes de informação, o que quer dizer diversidade, o que quer dizer informação mais localizada ou mais nacional? 1:27 Slant notícia, mas quase 90%, o mesmo grupo de portugueses que respondeu ao inquérito do Observatório ibérico que estuda o fenômeno da desinformação e o seu impacto na sociedade, confessa que vê as notícias

Susana Romana | Quanto vale uma boa história?
Este é um episódio torrencial.Um record absoluto de palavras ditas por minuto.De argumentos, piadas e perplexidades. De cada vez que um actor fala há um autor que lhe criou um texto para dizer.De cada vez que um apresentador aparece seguro de si a olhar para a câmara e a dizer as palavras certas na hora certa, então, muito provavelmente, há um argumentista que lhe escreveu o texto.No fundo, todos os conteúdos de entretenimento como as peças de teatro, filmes ou séries, ou telenovelas tem o dedo destes escribas.Nesta edição vamos ao fundo do baú dos escritos de Susana Romana.Ela tem mil palavras no currículo. Desde o seu “Macaquinhos No Sotão” da rádio M80, ao 5 para a meia-noite ou até, a mítica série “Inspector Max”, o cão que deslindava crimes.A conversa é torrencial, aviso já. E vai em excesso de velocidade.Deu para tudo: para falar da importância das histórias na nossa vida, do valor das palavras e da falta de capacidade das pessoas interpretarem o que foi dito ou escrito.O que se presta a discussões acirradas, mas profundamente binárias sobre a causa das coisas. Do humor, do riso e do choro.De todas as histórias que nos emocionam.E que convivem com o mais básico dos básicos, como as etiquetas que nos colocam.A começar pela definição do que somos ou fazemos. E quem diria que um cão de nome Max se ia tornar memória viva.É um excelente exemplo da força das histórias.E d e algumas histórias que saltam barreiras de gerações.Como o dos filmes portugueses de comédia dos anos 40 ou a guerra do Raul Solnado.São palavras que levam entranhadas a mitologia da cultura de Portugal.A par da grande poesia, do folclore ou da tradição oral escondida na memória dos velhos nas aldeias mais longínquas.Tudo boas histórias. Tudo boas narrativas.Basta estar atento e ser curioso.

Ep 114João Goulão | As drogas têm uma linguagem?
Nesta edição falamos das drogas que dão prazer, que anestesiam angústias ou que destroem vidas e famílias. As vozes sobre as drogas e o seu uso vão da exclusão proibicionista até à liberalização radical. E dessa contradição insanável entre o risco e a liberdade. Entre o prazer e a morte. Do consumidor recreativo ao traficante da rede de crime organizado. Num Portugal onde 1% da população chegou a ser dependente de drogas como a heroína. A somar às clássicas dependências do álcool e tabaco. As drogas são um dos temas a que dediquei uma parte da minha vida. Como observador, como perguntador profissional e como narrador de uma realidade que chegou a atingir grande parte das famílias portuguesas. A droga causa de mil sofrimentos. E de mil prazeres. Essa contradição cria uma tensão social, psicológica, humana. E isso expressa-se na linguagem. Nos rótulos. Nos preconceitos que cada um cola nas realidades para assim facilitar o processo de entendimento de realidades complexas. O fenómeno da toxicodependência tem todos esses matizes. Do slogan antigo “Droga, loucura e morte” do livro da minha adolescência “Os filhos da droga - Cristian F.” Até à proximidade com o fenómeno na escola secundária. Do mais inocente cigarro atrás do pavilhão desportivo a dramáticas histórias de amigos que acabaram no caminho da toxicodependência pesada. Da heroína injetada, da cocaína e das mil drogas sintéticas. E a sociedade reagiu como em tudo o mundo: ora a isolar os toxicodependentes como culpados de todos os males do mundo; ora a acolhê-los como doentes para os ajudar. É que as famílias descobriram rapidamente que os toxicodependentes não eram uns alienígenas marginais, mas sim os seus próprios filhos. É nessa linha que Portugal inventou uma fórmula de sucesso: redução de riscos, prevenção dos consumos e recuperação de pessoas. Descriminalizar sem despenalizar. Combater o tráfico, mas ver o toxicodependente como um doente crónico. É esse olhar que trago hoje aqui pela voz de João Goulão, médico de família e face da equipa que tornou Portugal único a responder a um problema complexo. Afinal, porque as drogas dão prazer e matam. O tempo é de reconstrução da estratégia de resposta à toxicodependência. Suspeito que com o agravar da crise económica o fenómeno do consumo das drogas terá um aumento significativo nos próximos anos. As crises criam desamparo e a algumas drogas oferecem anestesia para as dores de alma. É um caminho curto para se ficar dependente. Com um preço social e humano relevante.

Ep 113Márcio Barcelos | Como fazer um bom podcast?
Hoje é dia de falar de conteúdo. Pode ser recheio. Pode ser enchimento. Pode ser narrativa. Podem ser boas histórias. No fundo, conteúdo é uma expressão da gíria da comunicação que quer dizer o que se diz, faz, pinta, fotografa, relata, escreve ou filma. O conteúdo é a mais importante parte de um qualquer programa ou evento. Gosto de lhe chamar “carninha para o assador”. Tenho um amigo que se refere às longas horas em que é preciso inventar, literalmente, conteúdo para ocupar tempos de televisão ou rádio com a expressão “há que alimentar o cavalo”. Entenda-se falar, falar, falar. Ocupar espaço em antena. No fundo, conteúdo é a base. E esse conteúdo tem depois uma forma. Escrevemos um livro ou fazemos um programa de televisão? Fazemos uma foto ou pintamos um quadro? Este programa pode parecer um episódio sobre ‘podcasts’. Mas é, de facto, uma conversa sobre como criar e alimentar a comunidade com bons conteúdos. Neste caso, conteúdos para serem ouvidos. Por exemplo, os ‘podcasts’ são uma forma nova de fazer rádio? Ou uma maneira de juntar pessoas que se interessam pelo mesmo tema de conversa? Estas duas perguntas navegam na conversa que mantive com Márcio Barcelos. Ele desenvolveu durante os últimos cinco anos um Festival chamado Podes. A sua vertente mais conhecida culmina na atribuição de prémios aos melhores ‘podcasts’ portugueses. São 15 categorias para os 15 melhores ‘podcasts’ portugueses, por votação de um júri independente e numa das categorias, pelo público. Por exemplo, o prémio do melhor ‘podcast’ do ano foi atribuído ao 45 graus de José Maria Pimentel. O tema dos ‘podcasts’ é um pretexto para falarmos de criação de conteúdos, de discussão pública e do sentido de comunidade. Nesta edição passamos pelos melhores entre os melhores mas também por programas com menos qualidade. Ou qualidade de som, ou, pior ainda, falta de bom conteúdo. Por isso e desde já arrumamos esses programas sem bom som nem boa palavra. Sobrando a pergunta: como se faz um bom programa? Um bom ‘podcast’. Os bons programas ficam sempre na memória. Porque são bons. Porque nos disseram algo que nos marcou. Porque quando estivemos a partilhar um bom conteúdo sentimos-nos especiais. É que para conseguir oferecer essa sensação alguém pensou entregou algo bom para o nosso ouvido. Para o nosso cérebro. Para o nosso coração. Festival Podes - Melhores podcasts 2023 Podcast do Ano: 45 Graus Narrativa: Noite sangrenta Ciência, tecnologia e educação: 110 Histórias | 110 ObjetosNarrativa: Noite SangrentaEntrevista: Humor à Primeira vistaLifestyle: Cartão de Embarque:o podcast de todos os destinosRádio: Fala com ElaJogos e Passatempos: SupermegabitHumor: Duas Pessoas a conversarDesporto: MatraquilhosPolítica, Economia e Informação: 45 GrausCinema e Televisão: In VitroQuestões Sociais: O Ar é de TodosArte e Cultura: PBXPrémio Vozes: Um Género de ConversaPrémio do Público: IncompletaMente

Ep 112Eduardo Costa | Quanto vale a saúde?
Estou entre a matemática das coisas e a frase “é a economia, estúpido”. Estas coisas dos números sempre me fascinaram. Talvez um pouco menos do que as palavras. É que é mais difícil encontrar poemas numa folha de cálculo. Quero partilhar convosco a minha difícil relação com a matemática. Com aquela matemática das letras misturadas com números, de equações nublosas e resultados incompreensíveis. Fascinam-me estes desenhos de contas. De representação de uma realidade que não compreendo. Mas deixem-me por um momento contar a pequena história da minha relação com a matemática. Junta escola, e saúde. Eu era um bom aluno a matemática. Adorava aquilo. Fazia questão em resolver problemas em contra-relógio e tudo na matemática me fascinava. No fundo, dominava o código. Sabia daquilo. E de súbito o meu pequeno apêndice, uma espécie de pequena tripa aqui em baixo na barriga, do lado direito, decidiu inflamar. A mais clássica, típica e popular apendicite. O resto da história é o da viagem para o hospital de Viana do Castelo, uma bateria de análises e palpações, uma roda de médicos e um cirurgião a anunciar que eu ia direto e de imediato para a tábua cirúrgica onde as suas mãos munidas de um bisturi me iam salvar a pele. E assim fui. Contrariado e assustado. Talvez este momento tenha contribuído fortemente para a minha hipocondria. E, por isso, dediquei-me, mais tarde, ao estudo da política e da comunicação em saúde. Mas isso interessa pouco. Volto aos meus 12 anos, salvo pelo SNS e internado por uma semana no hospital. E depois mais uns dias sem escola, para recuperar, vestido com uma faixa tipo toureiro para me salvar de alguma hérnia. Esses 15 dias e uma perda de capacidade de me concentrar durante um par de meses foram fatais para a minha relação com a disciplina da matemática. Passei a ser, quase, o pior aluno do planeta. E a matemática uma ciência oculta para mim. Pelo menos a grande matemática. Das equações, modelos e engenharias financeiras várias. Esta pequena história cruza educação com saúde. Na educação, quando um aluno perde o pé, tem mais dificuldade ou simplesmente tira más notas, ganha uma etiqueta invisível de “não vale a pena investir nele”. Um bom aluno, pelo contrário, merece sempre mais apoio, estímulo e caminho. E já repararam como estes dois sistemas se comportam de forma completamente inversa na sua relação com os utilizadores: A educação investe mais nos bons alunos e menos nos piores. Na saúde a regra é a contrária: quanto pior está o doente, mais o SNS investe para o salvar. E quando custa esta solidariedade? Esta filosofia de lutar por todos e cada um? De investir na vida, na saúde, na batalha contra o fim. Uma balança emocional e técnica, de medicina e cuidados especializados, mas também de custos e benefícios. Para o cidadão e para a sociedade. É sobre isto este programa. Com Eduardo Costa cumpro a minha missão de tentar descodificar o orçamento da saúde. Quando gastamos, em que gastamos e para que gastamos. Só há uma certeza: quem paga a conta somos nós. Eduardo Costa é economista e professor na Nova SBE e um especialista em economia da saúde. Portanto, domina a explosiva arte que junta saúde com dinheiro. Uma conversa sem preço, mas de valor.

Ep 111Joana Azevedo | Como falar ao ouvido?
Nesta edição mergulhamos de cabeça na rádio em direto. Na mágica mistura da empatia, fluidez de discurso e criação permanente de uma relação entre quem fala e quem escuta. A fala da rádio é vertiginosa, inspiradora e entra-nos no ouvido. Mas aquilo que parece uma fala informal, com traços de quase improviso, esconde uma cuidada preparação e anos de experiência. Mas isso não chega. É preciso ter uma avassaladora paixão pela rádio e pela comunicação ante de dominar as regras do ofício. Nesta edição converso com Joana Azevedo uma das mais populares radialistas portuguesas. Podemos segui-la, diariamente, ao fim da tarde, na mais ouvida estação de rádio nacional: a rádio comercial. O que é surpreendente durante toda esta conversa é a mistura que a Joana Azevedo empresta ao seu olhar sobre a comunicação. A ideia do que se pode dizer ou deve evitar-se. Da relação que se cria com a audiência ou da maneira absolutamente desarmante como confessa que os erros são uma matéria-prima da fala pública. A viagem passa pelos podcasts, pela química no ar com Diogo Beja e com a mais contagiante gargalhada que ouvirão aqui. Ter a felicidade do trabalho ser uma paixão uma grande vantagem na vida. Falar com os outros não é um mero cumular de palavras organizadas em frases. Falar com os outros é uma forma de relação. Em cada palavra seguem emoções, sentimentos, ideias e oportunidades de continuar a conversa. Na dúvida, riam-se. Uma boa gargalhada é como uma janela aberta. Entra ar fresco, luz e abre-nos o mundo.

Ep 110Paulo Pena | Verdade ou consequência?
Como vai a vossa verdade?A minha vai bem, obrigado.A edição de hoje resume o conceito de verdades diferentes.É estranho, não é?Verdades diferentes. Factos diferentes.Sem prova nem demonstração.São assim porque alguém os declara como existentes.Podia ser uma rábula, mas é um sintoma dos dias de hoje.E expressa-se na comunicação global.Preparem-se assim para defender verdades mil.Afinal, a verdade é um conceito elástico no mundo moderno. Navegamos por entre muita informação, talvez demasiada informação, e uma aparente transparência que esconde muitas coisas.Estamos na era da informação e da desinformação.As duas coisas em simultâneo.Até agora os factos eram os factos, as opiniões eram as opiniões.Agora vivemos uma espécie de distopia informativa.A cada novo virar de página da realidade aparece alguém a reclamar que tem a sua verdade. Não a sua opinião ou perspetiva. Reclama a sua verdade. Que pode diferir da verdade dos outros.A verdade tornou-se assim um conceito fluído. Uma pós-verdade onde se misturam factos, perceções, intuições e convicções.É o terreno fértil para toda a cultura da desinformação. Das “fake-news” as falsas notícias. Numa contradição extrema rotulando de falso o que é, por definição, verdadeiro. Ou pelo menos honesto.Esta conversa é sobre estes fenómenos mas também sobre um antídoto chamado bom jornalismo. Sobre a importância de ter uma opinião pública mais bem informada e consciente. Com menos dogmas. Com menos viés. Com menos crendice cega e mais cidadania.Paulo Pena é cofundador de um projeto de jornalismo de investigação internacional. Junta jornalistas europeus de 11 países. Para melhor entender e explicar este nosso mundo. Do mais verdadeiro ao mais lunático.

Ep 109Inês Meneses | Há uma arte de escutar?
Viva 2023! Chegou o Ano Novo. E merece ser celebrado. Quem inventou esta coisa da passagem de ano, da renovação do ciclo das coisas, foi um génio. Já imaginaram: alguém inventou um calendário, com um dia final de ano e outro, imediatamente a seguir, a que chamou primeiro dia do ano novo. Como este simples passo de magia, tudo parece mudar. Desejamos coisas para o novo ano. Juramos mudar comportamentos. Acreditamos que agora é que vai ser. E isso funciona. Pelo menos na nossa cabeça. É um sintoma muito parecido com o que me acontece quando ouço a voz de Inês Meneses. Não é só o timbre, nem as palavras alinhadas e esteticamente polidas. É o resto. É uma espécie de pirilampo de energia existencial. E exerce esse magnetismo escutando pessoas. Que feitiço tem Inês? Pede para que falem com ela e desconfio que muitos dos seus entrevistados se descobrem no meio das conversas. A arte de escutar tem muitas regras escritas e outras tantas informais ou implícitas. Desde logo estar calado para ouvir. Mas imediatamente indagar para participar na troca que ideias. O bom perguntador, neste caso a boa perguntadora, tem uma arte e uma regra rígida. A arte é movida pelo combustível da curiosidade insaciável. É isso que a faz querer saber tudo do outro. A regra postula que o importante na conversa que conduz são os entrevistados. Ouvir é assim um ato de curiosidade humilde. Só assim as conversas são um serviço aos outros. E cumprem-se sendo significativas. Autora do programa “Fala com Ela”, agora em forma de livro, contraponto de Júlio Machado Vaz no “O amor é”, da nossa psicanálise coletiva. Mas hoje é a Inês que fala comigo. E conversa é uma série de ‘matrioskas’, com dezenas de camadas. Cintilante é uma forma perfeita de descrever esta conversa. A arte da escuta implica empatia para compreender e aceitar o outro. Mas também exige que ofereçamos aos outros o nosso sentido da vida. No fundo, uma conversa é uma espécie de fusão das páginas dos diários de duas ou mais almas. E por isso tem de ser cintilante. Tem de ser significativo. Ter de ser humano. Há que cultivar essa generosidade porque ela é multiplicadora. Falei com ela e ouvi tudo. Está inaugurado o ano novo. Bom ano de 2023
Ep 108Pedro Lourenço | Vale a pena reclamar?
Quero reclamar. Quero reclamar contra o ano 2022 Quero reclamar contra a guerra. Quero reclamar contra a inflação. Que dizem ser de 9%, mas a comida encareceu bastante mais. Quero reclamar contra a subida dos juros. Contra o aumento da prestação da casa. Quero reclamar contra a apatia geral. Contra a fúria binária dos utilizadores raivosos das redes sociais. Contra os populismos interesseiros. Quero reclamar contra a corrupção. Esta reclamação parece populista. Retiro esta reclamação Mas continuo a ter razão. Há tantas reclamações para fazer que só me apetece reclamar contra mim mesmo. Reclamar porque não reclamo o suficiente. Porque reclamo da boca para fora, mas menos com a caneta no papel. Porque os livros de reclamação são tantas vezes não lidos por funcionários robôs que escrevem respostas-tipo. Apesar de tudo, os portugueses tem reclamado mais. E as marcas começaram a levar a sério a opinião dos seus clientes. Coisa que não acontecia há poucos anos. E até os reguladores formais parecem ter acordado. Hoje os consumidores mergulham em portais de opiniões e reclamações mesmo antes de fazer a sua compra. É uma nova forma do exercício da cidadania. Fazer valer a sua voz. De uma forma rápida e digital. O convidado desta edição é Pedro Lourenço que em 2009 criou o Portal da Queixa. E hoje há mais de 2 milhões de consumidores por mês que lá passam, principalmente para procurar informação sobre produtos ou serviços que querem comprar. Portanto, as 15 mil reclamações que lá são escritas por mês servem de base informativa para as decisões de futuros clientes. E as melhores marcas das 10 mil citadas no portal passaram a levar a sério a voz dos clientes e as suas dores. Porque afinal reclamar é um instinto natural. Todos temos histórias com os nossos "bolycaos" particulares. Normalmente o que mais nos irrita nestes episódios nem é tanto o facto de algo ter corrido mal. Mas a sensação de que não nos ligaram nenhuma quando ensaiamos o nosso protesto. Ou que os mecanismos de reparação são frágeis. E isso faz com que nos sintamos todos frágeis. Ou pior, que fiquemos com a sensação de que somos uma espécie de objetos, chamados consumidores, e que logo que a venda fique fechada já não interessamos para nada. É o sintoma do mundo transacional. Do mundo antigo. E eu como consumidor, cidadão, pessoa ou reclamante quero mais do que isso. Quero ter uma relação. Que tem de gerar vantagens mútuas e não exclusivamente de compra e venda. Qualquer bom vendedor sabe disso. Os consumidores descobrem pouco a pouco que podem mudar o mundo. Simplesmente falando.
Ep 107Nuno Rosário Fernandes | Deus existe?
Esta é uma conversa sobre Deus. E sobre a condição humana. Tempo para falar do acto de ouvir. De escutar o outro. Para acolher. Para entender. E, principalmente, não julgar. Em semana do Natal é tempo de falar de Deus. De vocação. De gratidão. De amor. Na importância do silêncio. E de perguntar “para quê?” ao invés do “porquê?” Esta é a conversa entre dois amigos, que começaram juntos a sua carreira de jornalista, na rádio pública há mais de 30 anos. Um crente. Que descobriu a sua vocação e o mistério da fé. E outro, eu, um discreto agnóstico, com mais dúvidas que certezas. Ambos somos apaixonados pela comunicação e por escutar os outros. E tendo a concordar que o único Deus que existe é aquele que se expressa no amor. Um bom tema nesta semana do natal. Com o padre e jornalista Nuno Rosário Fernandes Os natais são sempre lugares de cheiros. Quem não se lembra do cheiro da cozinha nos dias de natal. Do frenesim das panelas a bufar vapor. Da ansiedade pela hora que nunca mais chegava para abrir as prendas. Dos abraços e beijos de toda a família. Do sentido de comunhão. Do estar em família. O natal será sempre um momento de restauro da humanidade. Feliz Natal!
Luís Cristóvão | Futebol, Portugal, Ronaldo e mais 10?
Portugal perdeu. Ainda não desta que somos campeões do mundo de futebol. Habituámo-nos mal com o europeu de 2016. Pior ainda, perdemos com Marrocos a jogar precisamente da mesma maneira como jogávamos nessa conquista. Fechados atrás, oportunistas na frente. Nesta edição viajamos no fascinante mundo da comunicação à volta do mais popular desporto do mundo. O futebol desperta paixões. As palavras têm sempre um peso emocional demasiado grande. E até sobre os factos cada claque tem verdades diferentes. Eu disse verdades diferentes? Pois, é um facto. Se concordaram, claro. E neste mundo pós-moderno aparentemente os factos e a verdade podem ser variados, podem ser alternativos, podem ser até contraditórios. Portanto, uma vitória da narrativa, por mais lunática que ela seja, sobre a realidade. No futebol poucos estudamos ou sequer vemos jogos suficientes para aprender. Mas todos nos sentimos aptos para sermos o próximo selecionador nacional. E com alguma sorte, ou falta de noção, ainda acreditamos que sabemos tudo sobre todos os assuntos, vendo uns resumos, uns vídeos e uns artigos de opinião. Os fragmentos da realidade ou da pós-verdade, repetidos 'ad-nauseum', muitos deles plantados nas redes sociais, limitam a nossa capacidade de pensar. E o futebol é um excelente laboratório da vida em geral. Esta conversa com Luís Cristóvão não é sobre futebol. É sobre todas as coisas. Expectativas, falas, birras, heróis e vilões. O futebol é um pretexto. Uma forma de emular a vida. Os nossos sonhos, o nosso esforço, a alegria das vitórias, a dor das derrotas. O mais fascinante neste desporto é que os heróis são sempre brilhantes e vulneráveis. Como todos nós. E na sua linguagem própria, de bola nos pés, falam-nos à alma. Também com palavras, abraços e lágrimas. São os intérpretes dos nossos desejos e fracassos. Falam connosco quase sem palavras. E como se viu neste mundial, às vezes as palavras atrapalham mais do que dominar uma bola sobre a relva.
Regina Duarte | Como encontrar um bom livro para ler?
Ai que prazerNão cumprir um dever,Ter um livro para lerE não o fazer!Fernando Pessoa Assim cantava Fernando Pessoa no poema “Liberdade. Logo ele que tantos livros escreveu e muitos mais leu. Uma ironia. Uma vibrante contradição. Uma provocação. Um exercício de questionamento e prazer como são todos os poemas. Como são todos os livros. Os livros oferecem uma comunicação em diferido, mas presente. O Escritor escreve. Escreveu lá atrás, algures no tempo. Mas a leitura é reescrita. Cada um de nós reescreve o livro no tempo presente. Os livros são mágicos. Os grandes livros provocam orgasmos mentais. Pelo menos. Todos os grandes livros abrem portas a universos que nunca imaginamos. São portas que nunca mais se fecham. E os salões do nosso baile mental são cada vez maiores, com mais gente, com mais personagens, com mais histórias, com mais vida. De tudo isto vem o desassossego, a angústia, as perguntas, o espelho perante a condição humana, as lágrimas e as epifanias. Quando se lê um grande livro é como se o universo se expandisse. Não como descrito nas ideias de Einstein, mas como desenhado na nossa cabeça pelos poetas maiores. A fechar, uma nota pessoal. Este é um episódio onde quero agradecer-vos. Não só porque ouvem o programa. Porque subscreveram. Porque são parte da comunidade que quer comunicar melhor. Mas porque o Spotify, sim, o Spotify, o gigante distribuidor de música e ‘podcasts’ acaba de me informar que o Pergunta Simples está no restrito grupo dos 10% mais partilhados pelos ouvintes, no mundo. O que me enche, mais do que de orgulho, de gratidão. Este reconhecimento é vosso, ouvintes que partilharam o programa. Obrigado.
Correia de Campos | O que guarda a gaveta das reformas da saúde?
Quão difícil é fazer reformas na saúde em Portugal? Será possível que algum ministro ou ministra sobreviva politicamente mais do que os dois anos e pico da praxe na pasta da saúde? Com um par de exceções conhecidas. A área da saúde é das mais visíveis, importantes e sensíveis da nossa vida coletiva. Todos vamos tolerando os atrasos nos tribunais, a má adaptação da escola à vida real ou a tirania das finanças na nossa vida, mas quando o assunto toca a saúde a música é diferente. Recorremos habitualmente à saúde em situação de vulnerabilidade. Quando estamos doentes. Quando estamos feridos. Quando corremos risco de vida. E nestas circunstâncias — nossas ou de familiares e amigos próximos — a nossa tolerância e paciência são mínimas. Reformar um sistema aberto 24 horas por dia, 365 dias por ano, distribuído pelo país, que custa 15 mil milhões de euros, pagos pelos contribuintes, fora os extras de cada cidadão, os seguros e a ADSE, é difícil. Poderia dizer, quase impossível. Esta conversa de hoje tem como pretexto um livro que Correia de Campos escreve. Ele tem o bom hábito de escrever livros a prestar contas, a explicar contextos e a abrir pistas para o futuro. O livro tem o título provocador de : “A gaveta de reformas”. Numa interpretação livre podemos ler aqui que as gavetas podem guardar muitas reformas. Reformas metidas na gaveta. Ou reformas tiradas da gaveta. Cada um que decida. A mim sempre me fascinaram os estrategas, decisores, administradores e servidores da causa pública da saúde. Deixo uma reflexão muito pessoal. Estas pessoas passam anos a pensar e desenhar soluções para resolver os problemas dos cidadãos. Em particular dos doentes. E depois preparam-se para tomar decisões. O melhor, entre várias opções. O menos mal. O melhor custo-benefício e outras tantas árvores de decisão. Portanto, estudam muito e sabem decidir. O melhor que podem e sabem. Mas no terceiro pé são menos competentes: na comunicação. Não, não falo de técnica ou sequer de transparência. Estou a falar sobre não incluir os cidadãos, a audiência e as suas expectativas no processo de comunicação. E antes disso, no processo de estudo e decisão. Sim, todos sabemos que a economia conta muito. Os recursos limitados. As necessidades infinitas. Mas um bom sistema de integração do cidadão no processo de decisão, numa medição das suas expectativas e num envolvimento na comunicação dariam uma grande ajuda. EstaEstá dado o meu contributo para a gaveta dos comunicados das reformas da saúde. Vamos ler o livro? Entretanto, vale anotar: Os ganhos em saúde são notáveis e crescentes. Mas muita coisa há que fazer. E a expectativa dos cidadãos é elevada. Será que os estudos sociológicos e psicológicos do sentimento da população não poderiam começar a ser parte do processo de decisão? E as ferramentas de audição dos utentes? Até podíamos ir mais longe: convidar cidadãos a ocupar lugares executivos ou consultivos nos centros de decisão. Assim as decisões seriam mais nossas.
João Proença | Como fazer um bom acordo?
Este programa é sobre uma mesa de negociações. Já pensou que passamos a nossa vida a negociar coisas com outras pessoas. A negociar guloseimas quando somos crianças. A negociar saídas à noite na adolescência. A negociar… se calhar a palavra é errada… a negociar com os nossos amores os termos do nosso futuro amor. Do casamento. Do número de filhos. A negociar as condições de um novo emprego. A compra do carro da família. O empréstimo da casa. Das coisas muito grandes e importantes até às mais singelas e básicas. É sobre tudo isto e sou guiado pela voz de um dos mais experientes negociadores portugueses. Negociar é uma arte. E uma necessidade. Mas não raras vezes muitas negociações não conseguem um bom final porque há quem acredite que para eu ganhar tu tens de perder. E os grandes negociadores sabem que um bom acordo tem de ser relevante para todas as partes e oferecer ganhos e compromissos mútuos. No fundo, uma negociação acontece quando as partes acreditam num caminho comum, mas tem de esbater as diferenças entre ambos. Negociar é seguramente um exercício mais de cooperação para resolver um problema comum do que uma competição para quem ganha e quem perde. Há em Portugal uma mesa de negociações com grande influência na nossa vida: é conhecida como a “concertação social”. Uma mesa onde se sentam o governo, os patrões e as centrais sindicais. É por natureza um palco de consensos após semanas de troca de pontos de vista. Das grandes diferenças ao grande acordo. Salários, impostos, leis do trabalho, pensões de reforma, prestações sociais… tudo está na mesa. João Proença dedicou grande parte da sua vida política como negociador do lado da UGT. Hoje é Presidente do Conselho Geral e de Supervisão da ADSE. Também falamos deste importante sistema de apoio na saúde dos funcionários públicos. Começamos a conversa pelo trabalho que há que garantir antes de partir para a negociação. É preciso ler e estudar bem os temas. Por isso gravamos numa sala cheia de livros e arquivos com milhares de páginas de informação útil. Os bons acordos são robustos. Os bons acordos garantem ganhos para todos. Os bons acordos perduram no tempo. O pior do mundo é não conseguir chegar a acordo. Normalmente uma rutura negocial representa uma perda para todos. Um bom acordo exige boa e aturada comunicação. Ouvir o outro e construir, cooperar, desenvolver soluções boas para todos. É um processo que exige estudo, preparação e vontade. E treino. Muito treino.
Ep 102Nuno Artur Silva | Qual é o lado cómico disto?
Qual é o lado cómico disto? Esta pergunta explica toda a conversa com Nuno Artur Silva. Ele passa pela vida munido de um perigoso bloco de notas e de uma letal caneta. Mas o mais perigoso nele é um cérebro treinado para ver o lado cómico da vida. E o resultado é um espelho onde todos nos revemos. Este é um programa sobre a liberdade. Sobre a sagrada liberdade de expressão. E sobre vários choques entre a liberdade e os arautos da mordaça. Sejam mais visíveis e vocais, sejam mais obscuros e silenciosos. Nuno Artur Silva encheu os atores de palavras escritas. E recebeu de volta interpretações que agitaram o mundo. Que alargaram os limites da liberdade. Nos intervalos formou uma escola por onde todos os históricos argumentistas portugueses de nova geração passaram: as Produções Fictícias. Ricardo Araújo Pereira, Nuno Markl, Eduardo Madeira, João Quadros. E muitos outros aprenderam nesta forma sem fronteiras e limites. Foram aspergidos pela água benta laica dos limites do humor. Neste caso da falta de limites. Nuno Artur Silva está a escrever o seu novo espetáculo, cena em janeiro. Com recurso ao seu bloco de notas, e a duas viagens de estudo. Uma à RTP e outra ao Governo. E volta com histórias, sempre novas histórias. As histórias da nossa vida. O conta-me como foi que enche o nosso imaginário e dá um sentido de comunidade de pertença. É essa mitologia feita de histórias, personagens e jornadas heroicas que reforça esse sentimento de identidade. As palavras escritas e ditas oferecem esse conforto de pertencer. E muitas das melhores palavras são organizadas em textos de escritores, poetas, argumentistas, dramaturgos ou artistas de variedades. Precisamos tanto de todos eles como de médicos, engenheiros ou economistas. E de liberdade, sempre de liberdade. Este programa foi gravado na Pousada de Palmela, a quem agradeço o acolhimento e o espaço.
Ep 101Marta Rebelo | O algoritmo, o cérebro e nós. Quem manda nisto?
Por esta altura o Grande Irmão que tudo vê, tudo ouve e tudo calcula já sabe que gostam de ouvir podcasts. E que a comunicação é um tema interessante no vosso mapa de gostos. Se isso não vos preocupa, continuem a ouvir. Em alternativa apaguem já este programa. Apaguem a luz. Não vão ao facebook. Não vejam o twitter. Não publiquem ou interajam com o instagram. Muito menos com o TikTok. Se forem, vão por vossa conta e risco. E se quiserem arriscar tudo subscrevam o Pergunta Simples no Spotify, no Apple Podcast ou no Google. Assim ficam todos a saber. Todos os algoritmos. Os big brothers. A inteligência artificial que tudo processa. Vocês é que sabem. Afinal já foram apanhados. Na rede. Fomos todos. O mal está feito. Os algoritmos são sequências de raciocínios encadeados que servem para resolver problemas. Foram enunciados por um matemático árabe no século IX. E hoje estão na ordem do dia. São uma base principal da maneira como funcionam os computadores. E por maioria de razão são também parte central da maneira como funcionam as redes sociais. São redes de ligação entre seres humanos. Só que o algoritmo não é neutro. Pouco a pouco começamos a vislumbrar que o algoritmo sabe de mais. Não só sabe como usa esse conhecimento para nos manipular. Para manipular de forma muito subliminar a nossa vontade. Seja para controlar ou estimular os nossos ímpetos básicos de consumo, seja até para interferir na maneira como votamos. As eleições norte-americanas ou o Brexit britânico foram palco do uso deste tipo de ferramentas. E desconfio que não sabemos da missa nem pela metade. É sobre isto esta conversa com Marta Rebelo. Ela é comunicadora, estratega de posicionamento e aconselhamento de presença em redes sociais, ativista social e criadora de agenda públicas. Falamos de algoritmos digitais, das fórmulas da chamada inteligência artificial. Mas não só. Falamos da nossa máquina de pensar. Do nosso cérebro e mente. Do tempo em que todos falam tanto de inteligência artificial e parece que cada vez de se usa menos a inteligência natural. E claro, há a felicidade. A felicidade vem das coisas simples, mas cheias de significado. É essa energia emocional a que provavelmente os algoritmos digitais são míopes. Pare ser humano, pensar humano e sentir humano não basta amontoar e processar milhares de dados sobre os nossos comportamentos. Há a memória, as emoções, a empatia e a criatividade. Ainda temos tempo. Basta desligar a máquina e ligar a um amigo. Para falar. Para ouvir. Para ser humano. Vale ler o aviso de Yoshua Bengio: “Há inteligência dos humanos que não queremos ter nas máquinas” Yoshua Bengio é um cientista canadiano conhecido pelos seus estudos sobre no mundo da inteligência artificial. Vale a pena conhecê-lo e ao seu pensamento. Assim como ouvir Noam Chomsky, sobre os riscos da inteligência artificial no campo da linguística e do contacto humano.
Ep 100Luis Mateus | Vamos ser campeões do mundo de futebol?
Além da música e, talvez, da matemática, o futebol é uma linguagem universal. Hoje no programa ouvimos as falas da bola. Da tática mais erudita à paixão cega do adepto mais efervescente. Rola a bola… chuta Ronaldo! O mundial de futebol começa este mês. E Portugal jogará esse mundial, no Qatar. Como sempre apuramo-nos com sobressalto, resmungamos contra a tática de Fernando Santos, elogiamos jogadores e preocupado-nos com Cristiano Ronaldo. O facto é que os deuses acabaram por ajudar e por isso metade dos portugueses acreditam de fé cega que agora é que vamos ser campeões do mundo e outra metade acha que nem de matraquilhos quanto mais num mundial. O futebol é terreno fértil de paixões. E de fortes correntes de comunicação pura. Sejam as declarações de jogadores e treinadores, seja a maneira como cada intérprete cria a tática, fala com as bolas nos pés ou contraria as leis da física num golo que juramos impossível. É sobre tudo isto a conversa com Luís Mateus, jornalista de desporto que acompanha o fenómeno do futebol há muitos anos. Ele decidiu olhar para os 21 mundiais de futebol e sublinhar os momentos mágicos que os jogadores de outro mundo nos ofereceram. E também das táticas e jogos mentais que os treinadores jogam ainda antes da bola rolar na relva. Sim, falamos do Cristiano Ronaldo, de Messi, de Mbappé ou Haaland. E celebramos Maradona, Pelé ou Cruijff. Porque ficamos fascinados pela maneira como estas pessoas trataram uma bola, 11 contra 11, num campo de futebol? Não sei. Mas também eu me confesso apaixonado pelo jogo. Pelas coleções de cromos. Pelos passes de 50 metros, pelo calcanhar do Madjer, pelos golos infinitos do Cristiano e pelo golo do Éder. Que chegou marcou um golo de campeão europeu e foi-se embora. Efémero e belo. Como o futebol. O campeonato do mundo está à porta. Fernando Santos escolherá os 26 portugueses que nos vão representar e inventar uma forma de jogar e ganhar às outras equipas. Veremos bom futebol ou iremos de empate em empate até à vitória final? No fundo pouco interessa a tática, a teoria, a dinâmica e outros pensamentos profundos. A mim interessa-me a beleza do jogo. Das defesas impossíveis aos golos jamais desenhados. Mas também acho divertidos os jogos mentais à José Mourinho e à possibilidade sempre presente de uma equipa mais fraca ganhar à mais poderosa. É essa incerteza que a bola é mesmo redonda. O livro "O Campeonato do Mundo": A História e as Estórias" é um livro do jornalista Luís Mateus onde o leitor tem acesso a informação detalhada sobre cada um dos 21 Mundiais já realizados, a todos os resultados e marcadores e ao seu enquadramento histórico, e ainda à antevisão do que será o Qatar-2022, o primeiro a realizar-se no inverno. Conhecerá todos os heróis das fases finais, a evolução tática que acompanhou o jogo e as estórias imperdíveis de cada torneio. Luís Mateus é jornalista desde 1996. Coordenador Geral e comentador d' A Bola TV, é ainda atualmente colunista do jornal A Bola. Foi diretor do jornal MaisFutebol e comentador residente do programa televisivo com o mesmo nome na TVI24, além de editor de desporto da TVI e da TVI24. Colaborou com os jornais Expresso e Público, e com o site zerozero, e foi analista desportivo na TSF e na Eleven Sports, com comentários de jogos em direto das principais ligas e outras participações. É autor do espaço de crónicas "Era Capaz de Viver na Bombonera" e um apaixonado pelo lado mais puro do futebol e do desporto.
Ep 164Afonso Borges | A ética desapareceu?
Hoje cruzamos o atlântico para redescobrir o Brasil. Para colher a voz de um perguntador: “E aí Brasil, como vai você?” O que dizem os intelectuais, os escritores, os músicos. O que se percebe do povo em vésperas de eleições. Faltam poucos dias para que os brasileiros escolham o seu presidente. É já na segunda-feira dia 30 que 156 milhões de eleitores escolhem entre Jair Bolsonaro e Lula da Silva. Uma eleição que, segundo as sondagens, parte ao meio o Brasil. A comunicação entre candidatos e apoiantes é agressiva. E o uso de palavras ofensivas é o pão nosso de cada dia. Na televisão. Nos debates. Nas entrevistas. E pior, nas redes sociais, sem curadoria, sem freio nem bom senso. É o quase vale tudo. As acusações de mentir, de corrupção, de comportamentos antidemocráticos é moeda de troca em todos os choques entre facções. Ainda assim quis tentar perceber o que se passa no Brasil. Para além do óbvio. E da agressividade verbal. Recorri a Afonso Borges, brasileiro, jornalista, escritor, gestor cultural. Ele cria festivais literários. É um recordista de entrevistas a escritores, músicos e intelectuais de todo o mundo. O seu “Sempre um Papo” tem 30 anos e mais de 600 programas gravados. Falámos de comunicação, de ética e do silêncio.
Sandra Fernandes | Quando acaba a guerra?
O medo do nuclear, a derrota de Putin, a propaganda e o jogo dos espiões. Um olhar sobre a dinâmica e a comunicação da guerra na Ucrânia. A maneira como as forças em confronto usam a comunicação para influenciar o curso da guerra. Sandra Fernandes é professora de Relações Internacionais e estudiosa da Rússia e saberes na área da guerra híbrida que hoje vivemos. O mundo está incerto. O discurso público é cada vez mais um sinal dessa incerteza. Dessa dúvida. Desse não dito. Como se não dizer apagasse os factos. O mentir fosse uma nova forma de fingir verdades enganadoras. Nesta edição voltamos olhar a guerra. A tentar antever para além do fumo e da poeira. A poeira real e a percecionada. Vamos às perguntas? Quando acaba a guerra? Como acaba a guerra? Quando voltamos a ter paz? Como este é um ‘podcast’ de perguntas simples hoje dedico-me a fazer as mais diretas, fáceis e óbvias. As respostas podem ser mais complicadas. Ficou-me por estes dias uma frase do historiador Timothy Snyder citado por Teresa de Sousa no jornal Público. “No princípio, ninguém conseguia imaginar que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia poderia começar. E, no entanto, começou. E agora ninguém consegue imaginar como é que vai acabar. E, no entanto, acabará.”Timothy Snyder As guerras começam sempre por uma decisão política e terminam exatamente da mesma forma. Seja por acordo, seja por rendição. A história está repleta de exemplos desta dinâmica. Na edição de hoje falámos de comunicação, de propaganda, de verdade e de perceções. Tudo misturado. Os discursos políticos sobre a guerra vão variando conforme a situação no terreno. O que está a acontecer ou não está a acontecer é sempre objeto de uma cuidadosa e sistemática manipulação comunicacional. Seja pela divulgação ou pela ocultação de factos. Seja pela inclusão de fórmulas de retórica, ameaça ou diminuição do outro lado. Com tanta incerteza floresce a ciência certa da propaganda, das notícias falsas ou claramente tendenciosas. Proponho que percam uns minutos a ler a opinião dos jornais ou os comentadores de televisão. Escolham os mais aguerridos. Os mais próximos ou opostos de um determinado facto. E ouçam com atenção. Não com vontade de contrariar ou seguir a tese do comentador, ou líder. Ouçam com pensamento crítico. Verifiquem os factos lendo peças jornalísticas de jornais de referência. E muitos dos factos jurados como reais são afinal tigres de papel usadas para criar perceções nos mais distraídos. O discurso do uso potencial de uma arma nuclear, o corte do gás, as narrativas do tipo da guerra fria, com apelos a armar-nos até aos dentes, são bons exemplos do efeito da comunicação interessada e nada neutra na nossa vida. Para perceber a esta guerra, o está por de trás dela e como se encontra o caminho da paz, conversei com Sandra Fernandes, professora de Relações Internacionais e estudiosa da Rússia e saberes na área da guerra híbrida que hoje vivemos. Numa palavra, o conflito aberto hoje em curso na Europa trouxe uma surpresa diária. Como é fácil perceber Sandra Fernandes mantém contactos com colegas cientistas sociais na Rússia e por isso escolhe proteger a sua identidade e até o que muitos podem pensar, mas tem de calar. Talvez a coisa principal que se joga hoje na Ucrânia, tal como outrora noutros movimentos militares, é a liberdade. A liberdade de autodeterminação. De expressão e ter uma vida em paz. Sem liberdade toda a comunicação é mera caixa de ressonância. Ou de silencio forçado, ou cúmplice. E falar aberta e livremente é vital para o nosso modo de vida.
Ep 97Miguel Alves | Como fala um político?
Hoje jogo em casa. Já vos explico porquê. Mas tem tudo a ver com Caminha, a minha terra. E tudo a ver com comunicação política. Uma conversa sobre comunicação, cidadãos e eleitores. Ser político profissional exige vários talentos. Além da empatia e de pensar propostas para os eleitores, um político depende da sua capacidade de comunicar. Este é um episódio sobre comunicação política. E de como conquistar eleitores. Não há candidato que se preze que não tenha passado por uma eleição local. São provas difíceis e onde a habilidade do candidato é posta à prova diariamente. Numa eleição para uma câmara municipal o candidato a presidente ou deputado está com os seus potenciais eleitores cara a cara. E depois de eleito, continua a ter de prestar contas numa base diária. Os eleitores estão próximos do poder. E podem em qualquer momento, formal ou informal, interpelar o seu candidato. Isto significa que a confiança tem um peso ainda mais relevante do que numa eleição nacional. E todas as decisões têm reação imediata. O convidado desta edição foi presidente da minha terra, Caminha, durante dois mandatos e meio. É um político da nova geração, um negociador nato com uma caixa de ferramentas de oratória com muitos instrumentos. Talvez estes ingredientes tenham sido chave para que o Primeiro-ministro o tenha ido buscar para seu braço direito. Para Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-ministro.
Ep 96Sérgio Dias | Como fazem os cientistas perguntas?
O que motiva uma pergunta? Ou o que impulsiona uma resposta. Um sim, um não, um talvez. A maioria das perguntas são automáticas e imediatas. Há as perguntas utilitárias: "Que horas são?" "Onde fica o café central?"2 Vai chover?" E há as perguntas filosóficas: "Quem sou eu?" "De onde venho?" "Para onde vou?" No meio destes dois tipos há uma miríade de outras perguntas. Das mecânicas e para fazer conversa. Das perguntas de seguimento. Para manter a conversa ao lume. E depois as mais técnicas. Não há líder que se preze que deixe de perguntar 5 vezes porquê. E, por que pergunta 5 vezes? Porque leu num livro ou aprendeu num curso instantâneo que assim consegue aprofundar a conversa. Até pode ser verdade, mas a premissa ignora que tem de haver do outro lado alguém que queira responder por 5 vezes à mesma fórmula de pergunta sem se aborrecer. Para mim as perguntas tem de ter brilho nos olhos. Vontade de saber. Porque sim. Porque assim ficamos mais ricos. Mais humanos. As perguntas são varinhas mágicas, não colheres de pau ou calçadeiras de sapatos apertados. Os perguntadores de que mais gosto são os cientistas. É verdade que eles depois complicam um bocadinho a coisa. Chamam às perguntas hipóteses. E às respostas conhecimento. Mas o que mais gosto é de que quando são contrariados pelos factos, quando erram no que imaginaram ser certo, voltam a formular mil outras perguntas. Não 5 porquês. Mas mil e um. É por isso que vos trago hoje um cientista desses. Sérgio Dias. Pergunta coisas sobre o cancro. E eu quero as respostas dele. A ciência faz-se de dúvidas e pequenos passos. Como os diálogos. E agora também quero saber como as células de um cancro invadem a nossa tubagem sanguínea.
Ep 95Alexandra Bento | O que vamos comer?
Hoje temos um menu completo.Com dieta mediterrânea na mesa. E uma calculadora na mão. Os preços dos bens alimentares sobem radicalmente.Os cálculos apontam para uma subida de mais de 12% desde fevereiro.Os combustíveis, a guerra, afinal a inflação empurra o preço da comida para valores difíceis de comportar.Nesta semana soubemos que o leite pode subir mais 10 a 15% e a carne 15 a 30%.Será que é o fim da superabundância consumista em que estivemos mergulhados nos últimos anos?Ou uma pausa no consumo excessivo e frenético de bens e serviços das últimas gerações?Seja como for, os consumidores vão rapidamente adaptar-se. Que remédio. E a economia não tarda a travar às 4 rodas.Depois da inflação virá a recessão?E como ela o disparar do desemprego, a redução do rendimento disponível no bolso das famílias e uma espiral negativa?Não percebo nada de economia, mas estas nuvens negras ameaçam o meu otimismo crónico.O programa de hoje não é sobre isto. Mas também é sobre isto.Alexandra Bento é nutricionista e neste momento Bastonária da ordem.E é uma especialista no campo do consumo e nutrição.O episódio podia chamar-se: "fomos ao supermercado ver as prateleiras da comida."Ouçam e não se esqueçam, mandem uma mensagem no WhatsApp 932 808 117.
Ep 94Álvaro Beleza | Portugal tem futuro?
O mundo está incerto. Está complexo. Está cansativo. Está imprevisível. E às vezes insuportável. Não sentem isso? Ainda se lembram da euforia do Euro 2004? Da Expo-98? Da entrada na União Europeia? Ou do Nobel do Saramago? Pode ser impressão minha, mas desde a crise financeira de 2008 que isto não se endireita: Portugal faliu. Levamos com a troika. Apertamos o cinto e suspeito que ele continua dois furos abaixo do nosso respirar. Agora guerra, a carestia do gás e da gasolina. O preço da eletricidade a subir em flecha e a inflação brutal a ameaçar os 10%. E sem nenhum vislumbre de que algo vá melhorar. Por isso precisei com urgência de encontrar um optimista para esta primeira edição da nova série. Álvaro Beleza, médico, também político, também ativista social. Preside à SEDES e acredita que podemos duplicar a nossa riqueza nacional em 10 anos. A promessa deste podcast mantém-se: falar da maneira como entendemos o mundo. Do efeito da linguagem para descodificar o nosso mundo. E o mundo é complicado. Cada vez mais complexo. Cada vez mais incerto. Há por isso dois caminhos para perceber o planeta: O primeiro é simplificar tudo. Tentar simplificar tudo. Uma espécie de régua com um sim/não, branco/preto, ligado ou desligado. É este o modelo sonhado pelos populistas. Acreditar e fazer acreditar os outros que há sempre uma solução fácil, rápida perfeita para problemas complexos, difíceis e duradouros. Normalmente corporizados por um homem ou mulher providencial que vem para nos salvar. Prefiro os pragmáticos e incorrigivelmente optimistas. Como é o caso de Álvaro Beleza.
Como fazer um podcast?
Esta edição é sobre ‘podcasts’. Sobre como fazer. Como pensar e realizar um ‘podcast’ pessoal e intransmissível. Para quem está mais longe deste universo dos podcasts do que estamos a falar é de uma espécie de programa de rádio, com algumas e importantes diferenças, que está disponível para ser ouvido em qualquer lugar e a qualquer hora. Está na internet. E cada ouvinte pode escolher onde e como quer ouvir. Essa é uma diferença importante em relação à telefonia. Um ‘podcast’ é igualmente um conteúdo de nicho. Normalmente fala de um tema e com isso vai agregando mais pessoas para a comunidade. E há ‘podcasts’ sobre tudo e mais alguma coisa. Que exploram os novos territórios do podcast. Os podcasts podem ser um vislumbre do futuro da comunicação digital. Pelo menos uma nova forma de comunicação já são. Quem gosta do tema, fica para ouvir, comenta e partilha. Ora precisamente para falar de ‘podcasts’ e em particular da minha experiência neste tipo de formato, fui convidado para uma partilha com estudantes finalistas da Escola de Comunicação Social em Lisboa. Os sortudos têm com professor um dos meus mestres, Francisco Sena Santos. Por isso foi um duplo prazer esta partilha e este diálogo com alguns dos mais talentosos jovens jornalistas que chegam agora ao mercado de trabalho E posso dizer-vos, é gente com talento, curiosidade e generosidade.
Ep 92Rosário Carmona e Costa | Como usar a caixa de ferramentas emocional?
Rosário Carmona e Costa é psicóloga e psicoterapeuta. Dedica-se a estudar aquilo a que podemos chamar inteligência emocional. Dentro dessa imensa caixa estão temas tão abrangentes como a autoconsciência, as formas de autorregulação ou a prática da empatia. Também a nossa habilidade social, como nos motivamos e até onde chega a nossa resiliência. Rosário Carmona e Costa não se limitou a pensar teoricamente sobre estes temas. Usando estas ferramentas nas suas consultas ou como inspiração para as atividades de férias de grupos de crianças. Ela teve de usar essa mesma caixa de ferramentas e todas as outras de que dispõe para resistir a uma grave infeção colocou a sua vida em risco. Ela conta a sua experiência no livro Salva Vidas
Rui Garcia | Como falar com pronúncia?
Uma das coisas mais interessantes e belas de qualquer língua são as pronúncias locais. O sotaque do Porto, dos Açores ou do Alentejo são por demais bem conhecidos. Nesta edição conhecemos uma pronúncia que às vezes mais parece um dialeto. É de Setúbal. Carregar nos R´s é uma das marcas da maneira de falar setubalense. Marca mais pronunciada nas gerações mais velhas e das comunidades piscatórias locais. Há mais de 10 anos surgiu na cidade o projeto “Charroque da Profundura”. Um projeto de divulgação desta forma de falar que usa o Charroco, um peixe, também conhecido como Peixe-Sapo. O Charroque da Profundura é uma forma de recolha informal da tradição oral da cidade de Setúbal. O "Charroque" é o alter ego de Rui Garcia. Há mais de uma década que reúne em frases e ditos, impresso em T-shirts e outras peças de quem quer celebrar os ditos que cruzam o falar dos pescadores com os franceses que investiram na indústria conserveira de Setúbal.
Ágata Roquette | Como perder peso?
Estamos no verão. Já em pleno mês de férias. E metade do país está a pensar "como perder peso?" Calor, sol, e corpos esbeltos espalhados pelos areais. Ou então não. Metade dos ouvintes acaba de correr para o espelho para confirmar que o inverno, a pandemia e a vida sedentária passou fatura e acrescentou uns quilos à balança. Sem pânico. A única dieta que vos posso prescrever é ouvir este podcast. Que como sabemos é baixo em calorias e rico em boas conversas.
Ep 89Rogério Alves | Como falar bem?
É um comunicador nato e explica como o faz todos os dias. Tribunais, aulas ou televisão são os seus palcos naturais. E partilha alguns dos seus truques principais para manter a audiência interessada. Hoje falamos de quem nasceu para falar. Todos conhecemos pessoas que falam bem. Que falam muito bem mesmo. Será que nasceram assim? Será que treinaram arduamente para chegar a um nível superior? Exploramos estas pistas no episódio de hoje. Tenho sempre uma lista atualizada das pessoas que me apetece ouvir falar. Pessoas que seriam, potencialmente bons conversadores para partilhar com a audiência. Mas a minha lista não uma simples sequência de nome e papéis. Além do nome e da função social ou motivo para a conversa escrevo uma pequena descrição e logo a seguir a pergunta inicial, a curiosidade inicial que me fez pensar que aquela pessoa deve ser convidada. Neste caso particular podia ter escrito: Rogério Alves, advogado. Mas não escrevi. Porque me interessava falar com ele sobre comunicação pura. Em particular sobre comunicação oral. Sobre a arte da oratória. Por isso escrevi no meu caderninho: "Rogério Alves, um homem que sabe falar" E parti em busca de saber como é que ele se organiza mentalmente para que depois apenas nos sirva palavras ordenadas, simples, rápidas e facilmente percebidas. Claro que a conversa não fica só numa reflexão sobre a arte de comunicar. Seria impossível ficar só aqui. E lá fomos nós desfiando palavras e pensamentos sobre a ética, a governação do mundo e a maneira de se ser humano. O talento natural para falar é uma bênção. E o treino dá uma boa ajuda. Quem nasceu com o dom da comunicação pode atingir mais rapidamente a excelência. Quem for menos dotado tem de aprender e repetir mais vezes para chegar à mesma bitola. Mas nada dispensa o saber da matéria sobre a qual se fala. É que falar sem conteúdo é propaganda vazia. Comunicar mal um bom conteúdo é uma perda de tempo. Esta edição tem múltiplas dicas de como bem comunicar. A mais relevante de todas: a audiência é quem manda. O comunicador está ao serviço da audiência e não de si próprio. Quem não seguir esta regra arrisca fazer monólogos para o seu espelho. E isso não é comunicar. É autoestimulação do ego.
Sónia Marques | Como ler os sinais?
Com a pandemia mudamos hábitos e pontos de vista. Com a ajuda da semiótica vamos em busca de sinais e sintomas dessa mudança. O vírus não mudou só o panorama da saúde. Teve igualmente um impacto importante na linguagem, nos significados e na razão das coisas. Signos, sinais, significados, tabuletas, etiquetas, expressões. Tudo isto mudou. Criaram-se neologismos, modificaram-se significados e adaptaram-se expressões.A ideia do tóxico. A de que o outro podia ser uma ameaça. Nos podia pegar o bicho. O medo da Covid-19, a esperança na vacina, a fé na proteção da máscara cirúrgica azul, a branca espacial FP2 ou as de pano de mil cores. Mas sempre, ou quase sempre a dois metros. Com beijos e abraços cancelados. Congelados. Amedrontados. Depois envergonhados. Como se tudo fosse um pecado lesa-saúde.E depois os jovens, fartos de tudo isto, que mandaram às urtigas todas as regras e atiraram-se de cabeça para viver de novo. Porque precisamos de viver.Todos nós seguimos esse caminho. E com isso os números voltaram a subir. É sobre este iô-iô de comportamentos e linguagem que resolvi realizar este programa. Pode ser que nas palavras e frases encontre o sentido das coisas. Uma edição com a especialista em semiótica Sónia Marques. Para nos ajudar a ler os sinais.
Ep 87Conceição Gomes | Como se faz justiça?
Hoje é dia de falarmos sobre a justiça. Sobre como comunica a justiça connosco. O que nos diz. O que percebemos. Quem entende uma sentença de um tribunal? Sim, calma, sim, eu já aprendi que de chama habitual acórdão. Porque normalmente há mais do que um juiz. Mas isto é um podcast sobre comunicação e a mim, interessa-me particularmente como se comunica. Neste caso como comunica o sistema judicial com os cidadãos. Por isso falo das longas, palavrosas, complexas, cheias de referências cruzadas, e encriptadas decisões judiciais. Sendo que o tribunal é aquele sitio mágico onde os cidadãos vão reclamar que se garantam os seus direitos à luz da lei. Não posso deixar de partilhar a minha experiência pessoal, como testemunha, num par de processos. Senti-me pequenino, quase intimidado, e profundamente desconfortável. Nem sei bem porquê. Seria da mise-en-scène? O peso do formalismo? Da linguagem? Das vestes? Da luz? Dos juízes ocuparem um dois degraus acima de mim, do ministério público e advogados estarem um degrau acima. E eu, cá em baixo, a muitos metros de distância de quem decide. Isto também é comunicação. Quis discutir o tema com Conceição Gomes do Observatório da Justiça. Será que a nossa justiça é justa connosco, cidadãos? Em todos os sentidos da palavra As fronteiras da lei são formalmente claras. Mas a sua interpretação depende e muito de pessoas com convicções e olhares distintos. Tudo depende da função social e do contexto. A justiça tem uma tarefa difícil. Tem de decidir entre o devido e o dano. Entre o direito e o dever. Mas como tantas vezes acontece em sistemas complexos o cidadão é mais objecto do que beneficiário. Cabem-lhe poucas perguntas com muitas respostas codificadas. Nestes momentos penso num livro do escritor Franz Kafka, chamado “O processo”. Nele o personagem Josef K. é acusado num longo e incompreensível processo por um crime não especificado. É uma boa leitura para refletir sobre o tema da justiça e do seu relacionamento com o cidadão. Mas isso é coisa da fantasia dos livros. Nunca da vida real.
Ep 53Daniel Rijo | Estamos a ficar mais violentos?
Hoje falamos de violência. Violência na linguagem. Violência psicológica. Violência física. Em particular no seu efeito nos mais jovens. Neste programa falaremos da maneira como estamos ouvir o som, a filtrar as imagens e a construir perceções sobre o tema da violência. Em particular a violência e a delinquência juvenil. Pensei que esta ideia do incremento da violência juvenil era uma coisa da minha cabeça. Da minha perceção da realidade. A final não. O relatório de segurança interna mostra um aumento da delinquência juvenil. Seja em número, seja em gravidade. Há mais casos. E há mais gravidade nos casos. Nomeadamente no uso de armas com capacidade de matar pessoas. O aumento e a visibilidade dos casos de violência juvenil em miúdos dos 12 aos 16 anos disparou todos os alarmes e o governo acaba de criar uma comissão para estudar o tema. Um dos investigadores com mais trabalho feito junto de jovens delinquentes que estão em centros eucativos e prisões é o Psicólogo Daniel Rijo, da Universidade de Coimbra. Tentei perceber se a exposição à violência, por via da comunicação mediática, pode ter alguma influência no comportamento mais violento dos jovens. A violência causa sempre um impacto na nossa mente. Do caso extremo das vítimas da guerra aos casos mais próximos da violência criminal. Seja em adultos sejam em mais jovens. O que aprendemos dos estudos é que a violência deixa sequelas e no caso da delinquência juvenil a maioria dos autores destes crimes sofrem de algum tipo de perturbação mental. A violência juvenil tem muitas vezes raízes em famílias disfuncionais. Estes jovens agora violentos foram muitas vezes vítimas de várias violências. De alguma maneira a violência é a sua forma de expressão. Provavelmente ninguém os ouviu antes. Daniel Rijo é Psicólogo clínico, doutorado em Psicologia Clínica e Professor na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC). Investigador do Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo Comportamental (CINEICC) da Universidade de Coimbra na área das perturbações da personalidade e do comportamento antissocial
Ep 85Rui Caria | Como fotografar uma guerra?
Nesta edição fotografamos o horror da guerra. Como se fotografa uma guerra? Esta era a minha pergunta iniciática para esta edição. Vários repórteres portugueses foram reportar a guerra da Ucrânia. Todos nos mostram o que viram. O que captaram com as suas câmaras e sensibilidade pessoal. Escolhi o jornalista, fotojornalista e repórter Rui Caria para viajar até à mais quente zona de conflito da Ucrânia: até ao Dombass. A região russófila que a Rússia reclama querer proteger. E em particular a cidade-chave de Severodonetsk. É o palco principal dos combates entre as tropas ucranianas e russas. Provavelmente a segunda cidade mártir depois de Mariupol. Rui Caria esteve nesta cidade. Viveu, comeu, dormiu e fotografou. Fotos que mereceram de resto a partilha do Presidente Zelensky. A atração pela guerra é histórica na vida dos grandes repórteres mundiais. Ir ver a humanidade no seu extremo. Na confluência entre a vida e a morte. Tudo isso está expresso nas fotografias e reportagens de Rui Caria, um dos olhares portugueses sobre o regresso da guerra à Europa.
Miguel Castanho | Como comunicar ciência?
Hoje fazemos a prova científica dos factos. A pergunta inicial ou a hipótese em cima da mesa é: O que a ciência provou como verdadeiro é tábua de lei? A resposta simples é: depende. E o programa de hoje é sobre as certezas certas da ciência em confronto com as certezas flutuantes dos decisores e a opinião pública que adora contradizer-se. Deixem-me ser claro: os cientistas têm mais voz que nunca nos jornais, rádios e televisões. O que é uma boa notícia. Os jornalistas descobriram com a pandemia que existem bolsas de pessoas cuja função social é investigar e saber profundamente sobre um tema. É essa a vida delas. Podem ser cientistas, médicos, psicólogos, engenheiros ou militares. A descoberta dessas bolsas de saber e a vontade destas pessoas finalmente ocuparem o seu espaço, resultou numa discussão pública dos temas mais importantes, com mais inteligência. O que significa também menos recurso aos chamados “eu falo sobre tudo, mesmo que de nada saiba” Mas isso é só metade do trabalho. É que nem sempre algo provado acabou por ser a base da decisão política, social e administrativa. E a opinião pública muda de sentimento a quase diariamente.
Ep 83Cláudia Lucas Chéu | O que é uma boa história?
Escritora, cronista, dramaturga, poeta, actriz. Trabalha com as palavras ditas e escritas para dizer. Ou escritas para nos inquietar. Cláudia Lucas Chéu tem como trabalho escrever. Escreve para atores no palco ou na televisão. Escreve também regulamente crónicas para a imprensa onde dá voz às suas próprias inquietações e problemas. Sobre tudo os isto o programa de hoje. Com algumas curiosidades: como se escreve uma telenovela? Ou uma peça de teatro. Escrever para vários formatos é um trabalho intenso. Muitas vezes sem um plano escrito à partida. Esta edição é sobre como criar emoções e interrogações na cabeça dos leitores e espectadores. O mais divertido é que entre guiões e roteiros, Claudia Lucas Chéu não usa nenhum mapa de caminhos para viver. É andar, comunicar e viver.
José Pedro Teixeira Fernandes | Como parar a guerra?
Os dias passam e a guerra continua. Está a acontecer o que sempre nos acontece: cansado-nos da repetição das notícias. Aconteceu com a COVID-19, acontece com a Ucrânia. Os picos de atenção e reação descem com o tempo. Até poderia ser uma coisa boa, se a guerra estivesse a um passo da paz. Todas as guerras terminam em paz. Releio a frase e, se fosse completamente rigoroso, diria: todas as guerras passadas terminaram num acordo de paz. Olhando a história as guerras extinguiam-se ou, porque uma das partes capitulava, ou de alguma maneira o agressor desistia. Na maneira mais clássica a guerra começava precisamente por uma declaração de guerra de um país a outro. E terminava num armistício. Contudo, esta guerra tem grandes diferenças e múltiplas incertezas. Em primeiro lugar ninguém declarou a guerra. A retórica do lado de Putin informa-nos que é uma operação militar. A segunda diferença é que ao contrário de todas as previsões iniciais o lado mais forte não está a ganhar facilmente. O que significa o arrastar do conflito. Com mais destruição. Mais vítimas. Mais sofrimento. Busco em José Pedro Teixeira Fernandes, Professor e especialista em Ciência Política e Relações Internacionais pistas para encontrar uma saída para a guerra. Esta conversa fala de combates, de palavras, de energia e de recursos. E a pergunta de sempre: como se pára isto? Olhando os movimentos geopolíticos em confronto na Ucrânia é mais ou menos óbvio que o tabuleiro é muito mais largo. Os valores da liberdade, democracia e modo de viver estão em choque. Mas a energia, com a transição energética e as energias limpas e renováveis versus o petróleo, carvão e gás estão também na mesa. E longe, mas perto, os gigantes Estados Unidos e China estarão a desenhar os planos de controlo geoestratégico do planeta nas próximas décadas.
José Manuel Rosendo | Como se conta uma guerra?
Fazer reportagem de guerra é uma arte jornalística que exige coragem, sangue-frio e bom senso. Diariamente há que enfrentar um dilema complexo: o que se mostra e o que se evita. O que se relata e o que se guarda só para nós? As grandes histórias do jornalismo tem um sinal em comum: o drama da condição humana. As histórias de vida e de morte, de desgraça e de superação são as que mais impacto tem na nossa mente. Conta-se, quase como mantra dos repórteres de guerra, que os jornalistas são aqueles que correm para um sítio de onde todos querem fugir. Vemos a guerra pelos olhos de quem é testemunha profissional. Sobram as perguntas. Como se conta uma guerra? Como se chega lá? Como se sobrevive? Como se descreve? O que sobra na ressaca da volta a casa? Nos últimos meses vários jornalistas portugueses percorreram a Ucrânia para nos contarem a guerra com a nossa maneira de ver o mundo. É isso que os jornalistas fazem num conflito militar como este. Vamos à Ucrânia com o repórter José Manuel Rosendo, jornalista da Antena 1 e da RTP. Um veterano de várias guerras e conflitos. Do médio oriente, ao norte de África e à Europa. Iraque, Egipto, Turquia, Líbia, Faixa de Gaza e agora Ucrânia. Esta conversa tem segredos revelados: como se movimenta um repórter na guerra? Onde se pode ir? Quem nos ajuda? E depois? Importa saber o que se traz na mala. (Foto tirada no Iraque em 2004 por Francisco J. Gonçalves)
Ep 80Pedro Brinca | Ficamos mais ricos ou mais pobres?
Vamos ficar mais ricos ou mais pobres? Suspeito que a resposta não seja fácil de dar. Talvez seja mesmo impossível. Por mais que os economistas saibam, por melhores computadores e dados que tenhamos, a economia depende de algo incontrolável: a expectativa. E a comunicação, em particular a perceção, joga um papel-chave. Aprendi nesta conversa que em economia o futuro interfere com o passado. Parece estranho. Mas de facto se cada um de nós souber ou entender que vai faltar pão — mesmo que isso seja falso — logo vamos reagir e comprar pão. E talvez comprar mais pão do que precisamos. Com esse simples movimento coletivo de açambarcamento o pão pode mesmo faltar. Não porque haja escassez, mas, porque o nosso medo esgotou o que havia nas prateleiras. Por estes tempos aparecem na minha cabeça, expressões que me lembro de quando era criança. Por exemplo, a carestia de vida. O efeito da inflação. O preço da gasolina. E de tudo o resto. Sempre a subir. Dos salários que pareciam que subiam muito em percentagem, mas menos que o aumento dos preços. Estaremos de novo aí? Está conversa é sobre economia. Como o Professor de Macroeconomia da Universidade Nova Pedro Brinca. Para mim a economia é uma espécie de ciência oculta. Mas uma ciência oculta que me fascina. Mas a pergunta é óbvia: vamos ficar mais ricos ou mais pobres? Quando economia fica mais turbulenta há que poupar e investir melhor. Embora este conselho possa provar desde já a minha incompetência a falar sobre economia. É que os maiores danos da subida dos preços é para as pessoas mais pobres. Quem tem menos recursos pode deixar de conseguir até comprar os bens mais básicos. Estou a falar de comida. Mas o efeito estende-se de forma contagiosa a todas as pessoas. Fecho com uma ideia que me deixa perplexo mostra porque nunca serei rico. Que raio de sociedade reduz cada vez mais o rendimento de quem produz batatas ou leite e pag -a mais a quem faz programas de computador ou telemóvel. Sim, eu sei, digam comigo: “É a economia, estúpido”
Ep 79Joaquim Furtado | Como se diz Liberdade?
Viva a Liberdade!Viva o 25 de Abril!Não tarda nada e comemoramos os 50 anos da revolução.Hoje é dia de falar do papel da comunicação e do seu contributo para a Liberdade.Sim, é dia de falar de liberdade de expressão, de jornalismo e de mensagens que marcaram o 25 de abril de 1974. Com a “voz” do 25 de abril.Às 4 da madrugada do dia 25 de abril de 1974, esta voz anunciou a revolução,Portugal celebra já hoje mais dias a viver em democracia e liberdade do que os dias que vivemos em ditadura.Em poucos dias celebramos mais um aniversário do dia inaugural que Sophia de Melo Breyner desenhou em 4 versos imortais “Esta é a madrugada que eu esperavaO dia inicial inteiro e limpoOnde emergimos da noite e do silêncioE livres habitamos a substância do tempo” A mensagem poética cruzada com o sincopado da mensagem militar.A revolução foi teve três D's: Democracia, Descolonização e Desenvolvimento.Os 13 anos de guerra colonial foram um dos principais motivadores do movimento dos capitães de abril.Esta conversa com Joaquim Furtado corre o tempo da Guerra Colonial, inscrita na série feita para a RTP, espreita o tempo do jornalismo atual e começa no momento zero: A madrugada da revolução dos cravos.

Ep 78Como sobreviver à guerra? | Vítor Cotovio
A inquietação. A inquietação que nos desassossega. Pode ser ansiedade. Pode ser medo. Pode ser até depressão. Não sei se vos está a acontecer, mas as notícias da guerra, em filme contínuo, provoca-me uma tensão na cabeça. Primeiro a surpresa do início da invasão à Ucrânia. A estupefação de ver um país invadir outro. Da ideia de guerra na Europa sair de qualquer possibilidade sensata. Os dias passam. As notícias de coisas terríveis invadem-nos constantemente. Sempre na rádio e televisões. Ao segundo nas redes sociais. Entre a verdade e a propaganda. E a nossa cabeça à roda. Entre a necessidade de parar de ver e o medo de perder algo importante. O acumular de tudo isto gera ansiedade. Gera esse desassossego que faz estragos no nosso espírito, na nossa mente. Convidei para esta conversa o médico psiquiatra e psicoterapeuta Vitor Cotovio em busca de chaves para despressurizar. Da guerra que sucede a uma pandemia. Como é que acontecimentos como a guerra e a pandemia de COVID-19 nos afectam a cabeça e como nos podemos defender melhor a nossa saúde mental? Numa conversa sobre a nossa mente na sociedade dos 5V e dos 5C. A saber, os 5V: volume (muito), velocidade, volatilidade, voracidade e vacuidade. Numa sociedade que vive os 5C: consumo (muito), competição, concorrência, cosmética e caos. O resultado não pode ser bom para a nossa cabeça.
Ep 77Maria de Belém Roseira | Como desenhar o futuro da Saúde?
Estamos na semana da saúde. Dia 7 de abril é o Dia Mundial da Saúde. Não precisávamos de uma pandemia para nos lembrarmos quão importante é a nossa saúde. E agradecer o facto de vivermos num país com um dos sistemas de saúde mais avançados do mundo. Sim, estamos sempre a reclamar. Sim, aborrece-nos que nem todas as pessoas tenham médico de família. Ou que a consulta do especialista demore mais do que esperávamos. Mas o SNS, os hospitais privados, as farmácias, os convencionados e o sector social oferecem uma rede redundante de cuidados de saúde que responde de forma adequada ao que precisamos. E depois há as exceções. As coisas que tem de correr melhor. Mas são infinitamente mais pequenas que os benefícios de ter uma saúde pública, universal, e quase gratuita quando precisamos de ajuda. Gratuita é uma palavra curiosa. Porque, a verdade é que a saúde é paga pelos cidadãos - contribuintes. É portanto paga antecipadamente. Com um princípio de que gosto muito: para o SNS cada um paga conforme o que pode e recebe cuidados conforme precisa. São os princípios que nos dão uma bússola e um mapa para navegar. No caso dos países democráticos liberais, como o nosso, há leis e regras universais a que todos estamos igualmente sujeitos. E essas regras são vitais. Esta conversa com Maria de Belém Roseira, jurista, humanista, duas vezes ministra e pessoa muito atenta aos direitos, liberdades e garantias era para ser sobre saúde. E tudo o resto. Mas o não respeito pelo direito internacional no caso da guerra em curso obrigou a começar por aqui.

Ep 76Nélson Olim | Como curar as feridas da guerra?
O olhar de um cirurgião de guerra português sobre o trabalho dos médicos em situação de catástrofe como as guerras e conflitos, mundo fora. A guerra na Ucrânia é apenas mais uma para Nelson Olim. Médico-cirugião português com passagens pela Cruz Vermelha Internacional e agora Organização Mundial da Saúde. Ele, como ninguém, aprendeu que o bisturi consegue reparar alguns feridos, mas nunca todos. Como cirurgião de guerra responde no meio do caos. Ordenado por um método escrito num livro sem palavras onde lhe cabe escolher que ferido deve ser operado primeiro. Também que muitos dos não escolhidos vão morrer. Por os ferimentos serem extensos. Porque as equipas médicas não chegam. Porque as balas, granadas, mísseis, obuses e outros engenhos foram feitos para matar. E nem os deuses conseguem parar esta carnificina. As Ucrânia é só mais uma história na vida das guerras dos humanos. Nelson Olim perdeu a conta às missões. Esteve, por exemplo, no Iémen, Sudão do Sul, Nigéria ou Afeganistão. Nesta conversa recolho o seu olhar sobre as imagens que nos chegam da guerra na Ucrânia. Sobre a maneira como as equipas médicas respondem. Como comunicam entre si. Como sobrevivem e ajudam a sobreviver.
Ep 75Rui Mergulhão Mendes | Como ler uma pessoa?
Hoje é dia de tirar-vos a "pinta". Conhecem a expressão: tirar a "pinta"? Ou, de forma mais descritiva, é um programa que explica alguns dos mistérios da avaliação quase relâmpago que fazemos das outras pessoas. Quando comunicamos somos imediatamente avaliados pela nossa audiência. Seja uma plateia gigante ou simplesmente um só interlocutor. Comunicar não é um simples momento em que debitamos palavras. Ou em que pensamos, falámos e escutamos à vez. Não, comunicar é muito mais vasto do que isso. Grande parte da comunicação é não verbal. Os nossos gestos, a postura, a maneira como olhamos e somos olhados. O timbre de voz, o movimento dos olhos, da boca ou das sobrancelhas. Tudo em simultâneo. E nessa dança há micro expressões que reforçam a verdade das nossas palavras ou denunciam mentiras mais ou menos dissimuladas. Há toda uma ciência à volta da interpretação destes sinais. Muito úteis, por exemplo, para uma investigação criminal ou validação da credibilidade de uma testemunha num tribunal. Ciência ou arte?
Ep 74Mónica Dias | Como fazer as pazes?
É preciso dar espaço à Paz. Levamos 19 dias de guerra na Ucrânia. Com incontáveis vítimas. Mortos, feridos. Militares e civis. Com imagens chocantes em todo o lado. Somos diariamente encharcados com histórias, relatos, visões do horror. Para fugir à guerra centenas de milhares formam uma coluna de refugiados para dentro das fronteiras da União Europeia. A guerra é feia. Nesta edição procuramos com Mónica Dias perceber o tabuleiro da guerra. As motivações. As decisões e as consequências. E uma inquietante imprevisibilidade. Ela é professora na Universidade Católica. Mónica Dias é uma estudiosa da Paz. Nem que seja da paz imperfeita como escreve nas primeiras palavras do título do seu doutoramento. Mas todo o saber do mundo não a impede de ficar apreensiva com esta Guerra
Ep 73Como explicar a guerra? Mendes Dias
Guerra. Dizer a palavra arranha-me a garganta. Fui tentar compreender a guerra. Rapidamente percebi que o nevoeiro da guerra nos impede de saber muitas coisas importantes. Num conflito a verdade é sempre uma vítima. As partes envolvidas tem objetivos, narrativas, caras, ações e intenções. A informação, contrainformação e a propaganda são armas usadas deliberadamente na contenda. A conversa de hoje tenta chegar a um modo de visão mais alargada, menos emocional. O que é difícil. A guerra na Ucrânia é uma guerra em casa. Isso choca-nos. A destruição. A morte de pessoas. Os refugiados. Por que razão a guerra aparece sempre desde tempos imemoriais quando os homens não se entendem? O convidado desta edição é um militar com sólida formação em assuntos de geoestratégia global, em relações internacionais e ciências Sociais. É o Coronel Mendes Dias. Ele esteve na guerra da Bósnia, a última antes desta. A ideia inicial da conversa era falar da maneira como a comunicação é usada num conflito. Mas tudo se alargou a uma lição de geografia e sede de poder ao longo da história. A zona da Ucrânia e da Polónia foi sempre palco central da cobiça de vários impérios. Dos Vikings, aos Romanos e otomanos, aos nazis e aos russos. Aquelas fronteiras foram mil vezes redesenhadas. Milhões de pessoas sofreram. Mas agora vemos o conflito ao vivo e em direto. Nas redes sociais. Na televisão. Por isso a pergunta que mais me inquieta: como explicamos a guerra às nossas crianças? Logo agora que todos lhes tínhamos prometido paz, educação, prosperidade e felicidade. A pergunta que me sobra não tem resposta fácil. Como se resolve este problema? Como se calam as armas? Como se protegem os indefesos? Como voltamos a algo parecido com a normalidade? Quatro perguntas ao invés de uma. A diplomacia e a comunicação tem agora um papel-chave.
Filipe Duarte Santos | Como explicar a ameaça do clima?
As alterações climáticas são um tema sério e sentido diariamente. Apesar de tudo, fingimos preocupação, mas pouco fazemos pessoalmente. Por que razão não estão as mensagens do clima a ser eficazes? Neste inverno em que faz sol. Demasiado sol. E quase nada de chuva. Vemos a consequência: seca. Com isso começamos a perceber melhor aquilo a que os mais entendidos chamam alterações climáticas. O tema é sério. E pouco falamos dele. Ou melhor, falar, falámos. Mas mudar hábitos ou comportamentos é francamente mais difícil. Falar de alterações climáticas é falar da vida dos nossos netos. Assim dito até parece estranho. Mas se pensarmos que abusar do carro, consumir e deitar fora sem regra ou desperdiçar sem freio tem um impacto nas próximas gerações, então podemos começar a ficar angustiados. Quando combinei esta conversa com Filipe Duarte Santos tinha uma ideia de pergunta inicial para abrir o caminho: por que razão num tema tão importante, as mensagens não passam? Sim, todos vemos os efeitos do aquecimento global. Sim, todos estamos a sentir, a ver a olhos vistos, as barragens a secar , as florestas a arder e o mar a subir. Sim, aqui, em Portugal. Não num sítio longínquo. Não noutro povo. E, todavia todos continuamos na mesma vidinha. É um facto que vamos reciclando. Que os sacos plásticos do supermercado já tem alternativas reutilizáveis. Que os passes dos transportes públicos são agora mais acessíveis. Mas o uso do automóvel é permanente. Cada vez há mais carros. Mais estradas boas e cidades com demasiadas pessoas concentradas. A agricultura consegue produzir alimentos em vários ciclos anuais, com consumos de água astronómicos e a industrialização, por exemplo, da eletrónica inventa aparelhos que se cansam num par de anos, porque há outro novo na loja. E porque não ligamos as duas coisas na nossa cabeça? As nossas escolhas enquanto sociedade e os efeitos que eles têm no planeta-casa-terra?
Duarte Cordeiro | Como ganhar uma maioria absoluta?
As máquinas eleitorais são uma das coisas que mais me fascinam. São na prática organizações políticas, com ideias e pessoas que querem convencer os seus concidadãos que tem uma forma melhor de resolver os problemas de todos.A máquina pode ser quase unipessoal, com a das candidaturas às juntas de freguesia. Como o candidato, a mulher, os filhos e pouco mais.Ou ser grande, nacional e envolver milhares de pessoas. Desde militantes, quadros do partido e fornecedores.Quem teve de organizar uma dessas máquinas complexas foi Duarte Cordeiro, coordenador da campanha do PS nas últimas eleições.Conquistar o poder é o objetivo de qualquer partido político.Conseguir uma maioria absoluta é o pináculo desse sonho.É que com uma maioria absoluta o partido que a conquista conseguirá aplicar sem ter de fazer grandes concessões o programa eleitoral com que se candidatou.O sistema eleitoral português está feito para dificultar a conquista de maiorias absolutas.A começar pela forma de distribuição proporcional de deputados eleitos por círculo. Ao contrário de outros sistemas onde o partido vencedor de um círculo elege um representante e os outros nada.Nas últimas eleições o partido vencedor conquistou 41,5% e até agora 119 deputados. Faltam atribuir os 2 mandatos do círculo europeu.O homem escolhido por António Costa para organizar a campanha eleitoral foi Duarte Cordeiro.Ele passou os últimos anos na posição de Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares como negociador entre os partidos e o governo. Em particular a dura negociação do orçamento do estado.Mas não só. Tinha outra missão: perguntar aos ministros se cumpriam o acordado com os partidos da oposição.Esta conversa é também sobre negociação. Entre agendas, pessoas, objetivos e sobre sincronismo.
Ep 70Luís Paixão Martins | Como perder uma eleição?
Ganhar três maiorias absolutas é obra.E o feito não está no currículo de nenhum político, mas sim de um homem da comunicação. Luís Paixão Martins era o estratega da comunicação do PS e do candidato António Costa nas últimas eleições.Dirá ele, entre a sua visão da verdade, alguma humildade e uma fina ironia, que apenas foi o consultor.Como se alguém, que não ele, criasse o plano de batalha de comunicação que levou à maioria absoluta socialista.Sim, a campanha era dirigida pessoalmente pelo candidato e experiente político, mas também "marketeer" António Costa, mas por alguma razão o reeleito primeiro-ministro o foi buscar à pacata reforma em Idanha-a-nova. Luís Paixão Martins tem um histórico, esteve no papel do estratega de comunicação na segunda eleição de Cavaco Silva como Presidente da República e com José Sócrates na primeira maioria de sempre do PS. Agora esteve na maioria de António Costa.Mas a política é apenas uma parte do seu percurso. Locutor e jornalista desde 1971 e relações-públicas a partir de 1986 ele cria a LPM uma empresa que introduz o conceito de comunicação híbrida entre organizações e grande público.Mas finda a campanha, aproveitei o pretexto para ver por dentro os segredos de uma batalha eleitoral, mas não só.Esta conversa tem uma metalinguagem. Tem que é dito, o não dito e o sugerido.É sobre boa comunicação, controlo da mensagem e motivações.
Duarte Nuno Vieira | Os mortos falam?
Hoje vamos falar muito do silêncio.De fazer perguntas a quem já não consegue responder de viva voz.Mas dá respostas. E essas respostas são pistas para descobrir a verdade.Caminhos que explicam o que aconteceu a alguém num determinado momento.Sim, hoje vamos falar de ouvir os mortos.Mas não só.Todos já vimos as séries com os CSI nas televisões.O trabalho da polícia cientifica é muito esse: descobrir pistas, contextos, tempos e factos que ajudem a esclarecer um crime.E aqui a medicina legal e forense dá uma grande ajuda.Duarte Nuno Vieira é um especialista nesta área com trabalho feito em meio fundo.Da autópsia mais simples, se é que há isso de autópsia simples, até à investigação de casos de tortura algures no globo terrestre.E a minha curiosidade em pulgas para saber como se interrogam aqueles de quem já não podem usar as palavras.Os mortos falam?
Desidério Murcho | Lógica ou falácia?
Saber a causa das coisas é um dos principais motores da curiosidade humana.As dúvidas filosóficas são uma maneira de organizar o nosso mundo.Quem somos?De onde viemos?Para aonde vamos?Mas convidar um filósofo para esta edição teve uma motivação inicial:Saber se estamos a usar bem as ferramentas do entendimento e decisão para construir um país melhor. Um mundo melhor. E chegamos a dois temas em que o filósofo Desidério Murcho tem pensamento e fala habitualmente.Estou a falar da lógica, pois claro, da lógica, do raciocínio lógico.E das falácias.Sim, isso mesmo.Das coisas que se dizem e nos parecem verdadeiras, mas são falsas.Sim, declarações que juntam a retórica com retalhos de lógica, pouco lógica.No fundo, comunicação pouco verdadeira ou com intenção de manipular.
Isabel Nery | O que sentimos ao ler reportagens escritas como livros?
Este é um programa cheio de histórias e narrativas cruzadas.Não fora a convidada uma jornalista, escritora e investigadora do jornalismo que se faz.Isabel Nery escreveu, por exemplo, a biografia de Sophia de Mello Breyner e como doente, súbita e urgente, descreveu o que sentiu deitada numa maca, sem ninguém acertar com o diagnóstico.Durante vários anos escreveu na Visão.E escreveu num modo que junta factos, dos quais os jornalistas são escravos, com uma escrita praticamente literária.Estes rios de experiências, formas de ver e contar o mundo, redundaram na tese de doutoramento que defendeu recentemente.A tese avalia o impacto que os textos jornalísticos têm em nós.Comparando textos escritos da forma mais comum, das notícias do dia-a-dia, com textos do chamado jornalismo literário.São, por exemplo, as crónicas escritas em grandes reportagens.Se leram Ernest Hemingwey está lá tudo.Todavia não são romances. São descrições de factos e emoções reais.Neste caso usando uma das mais belas descrições de um dos mais terríveis acontecimentos da humanidade: o retrato da vida dos sobreviventes (e vítimas) da bomba atómica em Hiroxima, no Japão.Este é um programa sobre a honestidade subjetiva da fórmula jornalística moderna. A foto de Isabel Nery foi tirada por Marcos Borga