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O Assunto

O Assunto

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Ep 831Teto de gastos: o que virá depois dele

Meia década atrás, em resposta à escalada da dívida pública, o Brasil adotava uma nova âncora fiscal, que limita o crescimento da maior parte das despesas da União à inflação do ano anterior. De lá para cá, essa construção balançou e sofreu muitos remendos, diante de realidades como a pandemia e o vale-tudo da campanha pela reeleição. “Estamos no limite do teto há muito tempo”, afirma Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for Internacional Economics e professora da universidade Johns Hopkins. E os seguidos truques para burlá-lo acabam por “minar sua credibilidade”. Na conversa com Renata Lo Prete, a economista credita parte do problema ao “desenho” definido no governo Temer, rígido demais e sem “válvulas de escape” para usar quando a situação do país exigir. Para ela, a largada de um novo governo “abre boa oportunidade” para que se estabeleça uma regra fiscal melhor, não sem antes atender ao imperativo de “reconstruir a base dos programas sociais”.

Nov 8, 202223 min

Ep 830A cara da direita no pós-eleição

No primeiro pronunciamento depois da derrota nas urnas, Jair Bolsonaro festejou seu mandato como o período no qual “a direita surgiu de verdade em nosso país”. Ex-ministros e outros colaboradores do presidente se deram bem em disputas por governos estaduais e vagas no Legislativo federal, movimento paralelo ao do avanço do Centrão. A despeito do estímulo ao golpismo e de outras potenciais encrencas com a Justiça, "Bolsonaro está muito bem posicionado” para liderar esse campo político no qual “a extrema-direita hegemonizou a direita”, afirma o filósofo Marcos Nobre, presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). E conta, para isso, com o “partido digital” que o promove e destrói adversários desde 2018. Na conversa com Renata Lo Prete, o autor de “Limites da Democracia” explica de que maneira esse quadro impacta o governo eleito. Para Nobre, a estabilidade política dependerá não apenas da capacidade de Lula de entregar alguma prosperidade e ampliar a coalizão para muito além do PT. “É fundamental também que surja no país uma direita democrática”, capaz de concorrer com os bolsonaristas.

Nov 7, 202228 min

Ep 829Bolsonaro na trilha de Donald Trump

Ambos passaram os respectivos mandatos lançando descrédito sobre o sistema eleitoral pelo qual chegaram ao poder. Derrotado na tentativa de obter o segundo mandato, o americano investiu meses na contestação do resultado, até insuflar a invasão ao Congresso em 6 de janeiro de 2021. Por aqui, a apuração rápida e segura, encerrada na noite do próprio domingo, inviabilizou qualquer questionamento à Justiça Eleitoral, a despeito das ameaças prévias do presidente. E este então se recolheu num silêncio de dois dias que foi a senha para os bloqueios ilegais em rodovias. Na comparação com os Estados Unidos, o Brasil padece de duas desvantagens, avalia Guilherme Casarões, professor da FGV-SP e coordenador do Observatório da Extrema-Direita. Primeiro, “um ímpeto golpista mais presente”. Depois, a opacidade das Forças Armadas, que se associaram ao atual governo e jamais manifestaram de forma inequívoca seu compromisso com a ordem constitucional. O cientista político chama a atenção para a ambiguidade das falas de Bolsonaro - que orientou os manifestantes a sair das estradas na mesma mensagem em que voltou a estimular outros atos de cunho golpista. Segundo Casarões, o presidente derrotado “vive um dilema”: quer manter seus radicais motivados e, ao mesmo tempo, não se inviabilizar como líder da oposição ao futuro governo petista.

Nov 4, 202225 min

Ep 828PT: a história e os desafios à frente

Fundado em 1980, na esteira de uma greve de metalúrgicos que deu projeção nacional a sua principal liderança, o Partido dos Trabalhadores chegou à Presidência da República 22 anos depois e lá ficou por dois mandatos de Lula e “um e meio” de Dilma Rousseff - alvo de impeachment em 2016. A partir daí, o partido atravessou um longo deserto até receber das urnas, no último dia 30, a missão de voltar ao Palácio do Planalto e “reorganizar a democracia”, em processo muito semelhante ao levado a cabo por Ulysses Guimarães e o PMDB ao final da ditadura, avalia Celso Rocha de Barros, convidado de Renata Lo Prete neste episódio. Autor do livro recém-lançado “PT, uma história”, o sociólogo avalia que se trata do “último grande partido ainda de pé” no país. Para ele, neste terceiro mandato de Lula é possível que a militância passe por uma “crise de identidade”, a partir da necessidade de fazer alianças mais ao centro - com personagens como Simone Tebet (MDB) e Eduardo Paes (PSD). Ele explica como a transição Bolsonaro-Lula pode definir a política econômica na largada do novo governo. “Quando Lula assumiu em 2003, sabia que não tinha ninguém pronto para dar golpe, o que lhe permitiu tomar medidas impopulares na economia”, lembra. E conclui falando sobre o desafio de lidar com Bolsonaro. “Essa é a grande questão da política brasileira”: com o futuro ex-presidente liderando a oposição será preciso “se preparar para uma década de instabilidade”.

Nov 3, 202234 min

Ep 827A baderna a serviço de Bolsonaro

Os dois dias de silêncio do presidente da República serviram de combustível para o bloqueio de rodovias em 24 estados por seguidores inconformados com a derrota nas urnas, movimento antidemocrático que causou prejuízos de todo tipo, além de deixar Bolsonaro isolado até dentro do próprio governo. Quando finalmente se pronunciou, passou a mão na cabeça dos desordeiros e não mencionou o adversário eleito, mas reconheceu implicitamente o resultado ao agradecer os votos recebidos e dar púlpito ao ministro da Casa Civil para declarar iniciada a transição. “Ele tentou tirar as meias sem descalçar os sapatos”, diz Maria Cristina Fernandes em conversa com Renata Lo Prete. Para a colunista do jornal Valor Econômico, Bolsonaro adotou tom de “vitimização” já de olho em eleições futuras e porque tem uma “bola de ferro amarrada nos pés” - pela primeira vez em mais de três décadas, não desfrutará de foro privilegiado. Na avaliação de Maria Cristina, a toada será essa nas próximas semanas: “ele vai esticar a corda até o último dia”.

Nov 2, 202229 min

Ep 826Os primeiros passos da transição

Vinte anos depois de ser eleito pela primeira vez, Lula terá que lidar com uma troca de guarda em tudo diferente daquela de 2002. A começar pelo fato de que, mais de 24 horas depois de anunciado o resultado, o adversário ainda não havia se pronunciado sobre a derrota. "Entre uma opção pacífica e o confronto”, o governo de Jair Bolsonaro (PL) “sempre escolheu o confronto", diz Thomas Traumann, pesquisador da FGV e colunista da revista Veja, que volta ao podcast para dar sequência à conversa com Renata Lo Prete sobre os resultados do 2° turno. O jornalista relembra “a transição modelo” entre Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula. Agora será outro padrão, prevê ele. Thomas explica as regras previstas na lei que rege as transições, como a indicação, pelo presidente eleito, de nomes que terão acesso a documentos e informações antes da posse, em 1º de janeiro. Autor do livro “O Pior Emprego do Mundo”, sobre ministros da Fazenda, Thomas elenca os perfis dos possíveis escolhidos para o cargo na próxima administração. Para ele, a experiência de negociação com o Congresso é um dos ativos mais importantes, o que poderia render a indicação a quadros petistas como o governador Rui Costa (BA) e o deputado federal Alexandre Padilha (SP). Mas Thomas pondera que uma conjuntura econômica mais delicada poderia favorecer “um nome de maior confiança” do mercado, como o de Henrique Meirelles. Para ele, os sinais emitidos até aqui pela equipe do presidente eleito sugerem "um governo menos petista que os dois primeiros de Lula".

Nov 1, 202228 min

Ep 825A vitória de Lula para 3° mandato inédito

Estavam apuradas mais de 98% das urnas quando o TSE anunciou o resultado oficial da eleição para Presidente. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou a maior votação da história do país: foram mais de 60 milhões de votos, o que garantiu a ele 50,90% do total de válidos - diante de um uso nunca visto antes da máquina pública a favor de Jair Bolsonaro (PL). “Uma vitória nos minutos finais da prorrogação”, sintetiza Thomas Traumann, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas. Na madrugada desta segunda-feira, ele e Renata Lo Prete analisaram os dois discursos do presidente eleito: o primeiro para seus correligionários, e o segundo, para a militância, na Avenida Paulista. “Foram mensagens muito claras”, afirma o jornalista. Lula sabe que vai assumir um “país partido” e que precisa pregar um governo de amplo espectro. O petista também reconhece “que o PT sozinho não teria ganho essa eleição”: daí a importância da ampla aliança construída no 2º turno com Simone Tebet (MDB), Marina Silva (Rede) e o grupo de economistas responsáveis pelo Plano Real - além da presença de seu vice, Geraldo Alckmin (PSB). Para Traumann, no entanto, essa “grande tenda” organizada por Lula tem contradições naturais: “O que unia todo mundo era o movimento contra Bolsonaro”. Agora, entende, o presidente eleito – que assume o Planalto em 1º de janeiro de 2023 - terá que aglutinar essas forças para serem “a favor de outras pautas”.

Oct 31, 202234 min

Ep 824Taxa de abstenção: a incógnita final

Mais de 32 milhões de brasileiros não compareceram ao 1º turno, número que representa quase 21% do total de aptos a votar. “É um problema para a sociedade”, considera o cientista político Antonio Lavareda, convidado de Renata Lo Prete neste episódio. Na avaliação dele, não é natural que tantos abdiquem de participar do “principal momento da democracia”. Professor colaborador da Universidade Federal de Pernambuco e presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), Lavareda explica como, em uma reta final tão acirrada, a abstenção se tornou variável de peso, e por que ela tem potencialmente mais impacto sobre o desempenho de quem está na frente - no caso da disputa presidencial, Lula (PT), que aparece com 5 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PL) no Datafolha divulgado nesta quinta-feira. Lavareda discute o papel da gratuidade do transporte público, ampliada no 2º turno, para garantir o exercício do voto aos eleitores mais vulneráveis. “Tirar dinheiro do bolso para votar afasta compulsoriamente muitos brasileiros da urna”, diz. E recomenda olhar com especial atenção para o comparecimento no Sudeste e no Nordeste: “A abstenção pode alterar profundamente o desenvolvimento dos fatores políticos de um país”.

Oct 28, 202222 min

Ep 823O papel de Minas no desfecho da eleição

Segunda maior concentração de votantes do país, único Estado do Sudeste a dar vitória a Lula (PT) em 2 de outubro. Ali, a vantagem percentual do petista sobre Jair Bolsonaro (PL) foi praticamente a mesma do resultado nacional. Isso porque, explica Bruno Carazza, Minas Gerais é, sob vários aspectos, uma síntese do Brasil. Na conversa com Renata Lo Prete, o colunista do Valor Econômico analisa o desempenho dos dois candidatos por região do Estado no primeiro turno e as seguidas visitas de ambos nas últimas quatro semanas. Avalia o peso da máquina comandada pelo governador reeleito Romeu Zema (Novo), agora a serviço do presidente. E elenca também os apoios reunidos por Lula, que luta para conservar ao menos parte dos cerca de 600 mil votos de dianteira que obteve entre os mineiros. Carazza chama a atenção ainda para os números da abstenção, que foi elevada em partes do interior. Em Minas, conquista estratégica para a vitória nacional, “cada voto conta”.

Oct 27, 202223 min

Ep 821Eleição: a batalha do salário mínimo

Na cabeça de Paulo Guedes desde a largada do governo Bolsonaro, a ideia de desatrelar o mínimo das aposentadorias (que assim não teriam mais correção pela mesma regra) voltou ao noticiário. O vazamento, em pleno segundo turno, de um estudo do Ministério da Economia sobre formas de cobrir o rombo fiscal deixado pelo esforço pró-reeleição obrigou o presidente a jogar a bola para o mato. Bolsonaro agora promete dar aumento real ao salário (o que não fez no primeiro mandato), sem, no entanto, esclarecer o que aconteceria com as aposentadorias. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Valdo Cruz, comentarista da Globonews e colunista do g1, para entender a disputa dentro do governo e por que o comparativo com a gestão Lula é especialmente desfavorável a Bolsonaro nesse quesito. Participa também João Saboia, professor de emérito da UFRJ. É ele quem explica a centralidade do salário mínimo na discussão econômica brasileira e seu papel na redução da pobreza e da desigualdade.

Oct 26, 202224 min

Ep 821Caso Jefferson: baderna bolsonarista

Depois de desrespeitar seguidas vezes as condições que lhe permitiam cumprir pena em regime domiciliar, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) recebeu com dezenas de tiros de fuzil e três granadas os policiais federais que foram cumprir a ordem judicial de prendê-lo. De gravidade inédita, o incidente suscita uma série de perguntas ainda sem resposta, começando pela mais flagrante: “como um condenado tinha esse arsenal em casa?”, indaga Andréia Sadi, apresentadora do Estúdio i (GloboNews) e colunista de política do g1. Em conversa com Renata Lo Prete, ela mostra como o evento de domingo desnorteou as milícias digitais a serviço de Jair Bolsonaro. De início, elas formaram uma espécie de corrente de defesa do criminoso - que, ao reagir a bala e desrespeitar o Supremo, nada mais fez do que seguir, de forma literalmente explosiva, a cartilha do presidente. Só que este, ao perceber o risco eleitoral envolvido, procurou se dissociar do aliado. Operação difícil, considera Sadi. “Ele esqueceu de combinar com a turma e deixou o bolsonarismo nu”, diz. Fora os rastros da ligação entre ambos, como o onipresente Padre Kelmon (prestador de serviços para Bolsonaro no primeiro turno, “negociador” na cena da rendição do delator do mensalão). A jornalista avalia ainda as semelhanças com o caso Daniel Silveira, outro petebista de extrema-direita condenado, ao qual o presidente concedeu perdão. Para Sadi, tudo indica que Bolsonaro se inclinava a fazer o mesmo com Jefferson, mas a campanha eleitoral e o atentado contra os agentes inviabilizaram esse caminho.

Oct 25, 202233 min

Ep 820Amazônia urgente: o impacto no clima

O desmatamento acelerado da floresta está no topo das preocupações globais com o aumento das temperaturas e os eventos extremos em diferentes pontos do planeta. E há razões de sobra para isso. Neste episódio do podcast, a cientista Luciana Gatti detalha os resultados do mais recente estudo coordenado por ela no Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo esse trabalho, as emissões de gás carbônico na região dobraram no período 2019-2020, “principalmente por desmantelamento na aplicação da lei”. O volume de precipitações caiu 12% no acumulado (na estação chuvosa, a queda chegou a 26%), e a temperatura média subiu 0,6°. “É a nossa grande fábrica de chuva”, define Luciana. “Que estamos transformando em acelerador das mudanças climáticas”. Na conversa com Renata Lo Prete, ela explica consequências que se estendem para pontos distantes do país e atingem setores essenciais, como a produção de alimentos. Independentemente de quem vencer a eleição presidencial, Luciana não tem dúvida quanto a um ponto: “A Amazônia não aguenta mais quatro anos de destruição”.

Oct 24, 202224 min

Ep 819O TSE e a avalanche de desinformação

Na largada da campanha, o presidente da Corte, Alexandre de Moraes, prometeu coibir abusos de forma “célere, firme e implacável”. Mas o volume de fake news e outras distorções tem desafiado o ministro e seus colegas, em especial neste segundo turno. Em resposta, o tribunal aumentou a pressão sobre as plataformas, abriu investigação em torno de uma rede de notícias falsas que atuaria em favor de Jair Bolsonaro (PL) e concedeu quase duas centenas de direitos de resposta - a maioria à campanha de Lula (PT). Na noite desta quinta, eles foram suspensos, até julgamento em plenário, pela ministra Maria Claudia Bucchianeri. O conjunto das medidas revela “uma estratégia combativa”, nas palavras de Rafael Mafei, professor da Faculdade de Direito da USP. Muitos, no entanto, se perguntam se o cerco não deveria ter começado mais cedo, considerando que se trata da eleição mais mentirosa e violenta já vista no país. “O TSE responde aos desafios do momento”, pondera Mafei. “E o desafio do momento é esse”. Em conversa com Renata Lo Prete, ele recupera os anos de ofensiva planejada de Bolsonaro contra a Justiça Eleitoral e seus principais representantes. E explica como essa operação de desgaste se relaciona com as dificuldades para conter o presidente dentro das regras agora.

Oct 21, 202226 min

Ep 818O voto e o peso do agro em 2022

No cinturão do agronegócio brasileiro, que atravessa os estados do Sul, passa por São Paulo, integra o Centro-Oeste e chega a porções do Norte, o resultado das urnas no primeiro turno traduziu o expressivo apoio que o setor oferece a Jair Bolsonaro. Os elementos que explicam esse fenômeno, afirma Caio Pompeia, autor do livro “Formação Política do Agronegócio”, são “em parte econômicos e em parte ideológicos”. Em conversa com Renata Lo Prete, o antropólogo e pesquisador visitante na Universidade de Oxford recorda que o “agro se beneficiou muito nos governos petistas”, mas sempre houve resistência a políticas trabalhistas, sociais, agrárias e ambientais implementadas nas gestões Lula e Dilma. A insatisfação se misturou bem à “agenda antiesquerda” promovida pelo atual presidente desde antes da chegada ao Planalto. Assim, ele atraiu para sua órbita principalmente a pecuária e a sojicultura, dois segmentos que, neste ano, se opuseram “ferozmente” aos agroempresários dispostos a dialogar com Lula. “Os líderes do setor são muito conservadores”, ressalta Caio, e muitos foram cooptados para a promoção de pautas “antidemocráticas e contra o STF”. Nos números, o PIB nominal do agro, informa Marsílea Gombata, repórter do jornal Valor Econômico, chegou a R$ 2 trilhões - avanço muito superior, nos últimos quatro anos, ao do conjunto da economia. A expansão, explica a jornalista, tem mais motivações externas do que internas: a alta recorde no preço das commodities, a desvalorização do real diante ao dólar e a integração do agro ao mercado internacional.

Oct 20, 202224 min

Ep 817Bolsonaro e a infância roubada

Em pelo menos três ocasiões, o presidente da República não apenas sexualizou menores de idade venezuelanas como sugeriu que elas estariam se prostituindo. Um caso entre vários protagonizados por ele e por aliados como a ex-ministra Damares Alves, reveladores de um modo de enxergar a infância e a adolescência. Trata-se de mistura de fake news com uma espécie de “solidariedade seletiva”, explica neste episódio a jornalista Fabiana Moraes, do Intercept Brasil. Em “perigosa instrumentalização”, diz, “eles escolhem crianças que possam trazer rendimentos políticos claros”. Enquanto isso, ao longo do atual governo, foram reduzidos drasticamente o volume de recursos e o número de programas voltados para a proteção e promoção de crianças e jovens. Quem detalha esse processo, em conversa com Renata Lo Prete, é Thallita de Oliveira, assessora técnica do Instituto de Estudos Socioeconômicos. Na atual gestão, “a palavra adolescente sumiu do Plano Plurianual (PPA)”, observa ela, integrante de um movimento que reivindica prioridade política e orçamentária para essas faixas etárias. Mantida a atual situação, “o recado é que a gente não quer evoluir como sociedade”.

Oct 19, 202231 min

Ep 816Bolsonaro com Moro: qual é a jogada

Colocado para fora do governo em 2020 com requintes de humilhação, o ex-juiz falou o diabo do presidente - e vice-versa. Frustrado em seu projeto original de concorrer ao Palácio do Planalto, candidatou-se ao Senado pelo Paraná, e obteve sucesso justamente quando se associou de novo à imagem do ex-chefe. Este, por sua vez, levou-o a tiracolo ao debate de domingo para “encarnar a memória do antipetismo”, analisa Carlos Andreazza, âncora da rádio CBN, apresentador do podcast 2+1 e colunista do jornal O Globo. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista diz que o time de futuros parlamentares ao qual Moro pertence consagrou o bolsonarismo e “anistiou criminosos da pandemia”. Como o “discurso da Lava Jato já não servia mais”, Moro topou representar a “radicalização no sentimento antipetista”. Bom negócio para Bolsonaro, avalia Andreazza, mas de ganho incerto para Moro. Se Lula vencer, o ex-ministro da Justiça ainda poderá tentar se cacifar como alternativa da direita para 2022, a despeito de sua pouca entrada com as forças políticas. Em caso de reeleição, Bolsonaro se afastará rapidamente de Moro, no qual nunca confiou - e vice-versa. “Ambos com razão”, completa Andreazza.

Oct 18, 202224 min

Ep 815Populismo: do que estamos falando?

A resposta a essa questão, que dá título ao livro recém-lançado dos cientistas políticos Thomás Zicman de Barros e Miguel Lago, passa pelo uso do termo no plural. “São populismos”, afirma Thomás. Em conversa com Renata Lo Prete, o pesquisador do Centro de Estudos Políticos da Sciences Po Paris conta que a dupla se interessou pelo tema ao constatar a utilização indiscriminada da palavra para descrever ideias e práticas de personagens tão díspares quanto Jair Bolsonaro (PL) e Lula (PT). Uma confusão que “normaliza a extrema-direita" e “estigmatiza a esquerda". Para Thomás, embora existam elementos comuns a diferentes tipos de populismo (como a oposição discursiva entre "povo" e "elites" e uma espécie de transgressão das formas tradicionais de fazer política), um abismo separa os dois projetos em questão. Em sua avaliação, o populismo de Lula é “emancipador”, porque incorpora ao debate setores subalternizados. Enquanto o de Bolsonaro seria “reacionário”, permanentemente mobilizando ressentimentos e medo de transformações sociais. Ao atrair ex-adversários, o petista “reforça sua característica conciliadora”, na contramão do entendimento do presidente de que o oponente é sempre "alguém a ser destruído".

Oct 17, 202223 min

Ep 814A guerra nada santa de Bolsonaro

No intervalo de cinco dias, o candidato à reeleição pelo PL compareceu a duas das maiores festas do calendário católico. No sábado, foi ao Círio de Nazaré, em Belém (PA). Na quarta-feira, à missa em homenagem à padroeira do Brasil no Santuário de Aparecida (SP). Em ambos os casos, estava em busca de “fotos com uma multidão cristã”, mirando em especial os votos dos não-praticantes, afirma Rodrigo Toniol, pesquisador de sociologia das religiões e professor na UFRJ e na Unicamp. O descontentamento manifestado por integrantes do clero diante do espetáculo eleitoreiro ameaça atrair para o presidente a imagem de “desrespeitoso” e “fariseu”, diz. Em conversa com Renata Lo Prete, o antropólogo avalia os desdobramentos dessa espécie de “motociata em Aparecida”, na qual bolsonaristas hostilizaram funcionários de emissora de TV ligada à Igreja Católica e vaiaram falas do arcebispo. Toniol detalha ainda a “tradição de conservadorismo” entre determinados grupos católicos ao longo do século 20. Participa também do episódio André Eler, diretor-adjunto da Bites Consultoria e autor da newsletter “Didaquê do Jair”, sobre a relação do presidente com os evangélicos. Ele compara o impacto desses eventos de campanha entre os públicos evangélico e católico. De um lado, alerta para a ação pró-Bolsonaro dos “influencers espirituais”, que reúnem mais de 30 milhões de seguidores em redes sociais. De outro, aponta o risco de o candidato se consolidar como uma figura pouco crível, um “camaleão religioso”.

Oct 14, 202227 min

Ep 813Bolsonaro: crônica da autocracia anunciada

Ao retomar a conversa sobre ampliar o número de ministros do Supremo, o presidente explicita o que pretende fazer no eventual segundo mandato. Além de avançar sobre o tribunal, principal muro de contenção das arbitrariedades do Executivo nos últimos 4 anos, trata-se de controlar imprensa, universidades e instituições independentes de maneira geral, até reescrever a Constituição para “tornar ilimitada a possibilidade de reeleição”. Quem expõe a cartilha neste episódio é o cientista político Fernando Abrucio, da FGV-SP. “Esse é o projeto que está na cabeça de Bolsonaro”, afirma o professor, lembrando precedentes em países como Hungria e Venezuela. Em conversa com Renata Lo Prete, ele avalia o saldo de apoios para cada um dos finalistas neste acirrado segundo turno, analisa especialmente o quadro no interior de São Paulo (hoje maior reduto bolsonarista do Brasil) e diz que a história “cobrará um preço” das elites que convalidem, por ação ou omissão, o projeto autocrático.

Oct 13, 202224 min

Ep 812Guerra: a represália da Rússia

A explosão de um caminhão-bomba na ponte que liga o território russo à península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014, foi a senha para um ataque como não se via desde as primeiras semanas da invasão, em fevereiro. Mísseis atingiram as maiores cidades ucranianas, entre elas a capital, Kiev, matando ao menos 14 pessoas e ferindo quase uma centena. Boa parte desses lugares ficou sem energia. O incidente ainda mal esclarecido na ponte Kerch e a “resposta vigorosa” de Vladimir Putin inauguram “um novo momento da guerra”, afirma Daniel Sousa, comentarista da GloboNews e criador do podcast Petit Journal. Em conversa com Renata Lo Prete, ele rememora como se chegou a esse ponto. E destaca, entre os eventos recentes, a anexação formal pelos russos de províncias no leste e a recuperação de territórios pelo país invadido. “Foi um ressurgir da Ucrânia na guerra”, afirma Daniel, que é também professor de economia do Ibmec. Agora, a perspectiva é de “absoluta indefinição”: nos dois lados da fronteira, soam alertas de que grupos radicais podem ganhar espaço e forçar ações ainda mais violentas. Pressões internas e externas “fragilizam” a situação de Putin, que promete reagir de forma ainda mais brutal - até mesmo com armas nucleares táticas - diante de novas hostilidades. “Seria o cruzamento de uma linha vermelha, que colocaria todo o mundo em perigo”.

Oct 11, 202228 min

Ep 811Assédio eleitoral: casos em série

No Pará, um empresário foi flagrado em vídeo oferecendo dinheiro a funcionários para que votem em Jair Bolsonaro no 2º turno, em 30 de outubro. Em Mato Grosso do Sul, um boiadeiro passou a ser boicotado por fazendeiros depois de revelar a um amigo, em mensagem de áudio, sua preferência por Lula. No Rio Grande do Sul, uma empresa comunicou em nota que fará drástica redução de investimentos caso o candidato petista vença. "Para o Ministério Público do Trabalho, isso é assédio", afirma Fernanda da Escóssia, editora da revista Piauí e coautora de reportagem que elencou vários incidentes e ouviu autoridades de fiscalização. Elas relataram que vêm recebendo denúncias desde agosto, e que o quadro piorou a partir da reta final do primeiro turno. Na conversa com Renata Lo Prete, Fernanda, que é também professora de Jornalismo da UERJ, chama a atenção para o duplo problema envolvido: "é infração trabalhista e crime eleitoral". E para a urgência de combatê-lo: “o importante é que o direito ao voto livre seja garantido".

Oct 10, 202220 min

Ep 810Lula x Bolsonaro: status da disputa

Concluída a apuração do primeiro turno, os dois finalistas iniciaram a temporada de anúncios de apoios. “O presidente saiu na frente”, afirma Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da rádio CBN. “Mas ele tem uma distância maior a percorrer”, pondera, referindo-se à vantagem de cerca 6 milhões de votos do ex-presidente petista. O candidato à reeleição pelo PL foi bem-sucedido em obter a adesão dos governadores dos três maiores colégios eleitorais do país (pela ordem, SP, MG e RJ). Isso conta “porque na política as peças se movem pela expectativa de poder”. Na reta final da campanha, “20% dos indecisos correram para Bolsonaro”, observa ela, “resultado do antipetismo, que vem da saga da corrupção”. Do lado de Lula, a chegada de Simone Tebet (MDB) agrega na comunicação com “o agronegócio, o público feminino e o eleitorado antipetista”, avalia Maria Cristina. Ela analisa a pressão para que Lula sinalize antecipadamente quem seria seu ministro da Fazenda. E, ainda nessa seara, o significado do apoio recebido de economistas “com a grife do Plano Real”. Nas três semanas restantes de campanha, a pauta deve se concentrar em dois eixos. Um deles é o “debate dos costumes”, que já vem agitando as militâncias nas redes sociais. No entender da jornalista, seria uma “cilada” para Lula enveredar por esse campo. No outro estão os “pujantes problemas da vida real”, que Bolsonaro tenta atacar com sua “metralhadora de benefícios”. Mas ele segue com dificuldade em virar votos na base da pirâmide: “um recado importante das urnas foi que o pobre não vende o seu voto”, conclui Maria Cristina.

Oct 7, 202229 min

Ep 809Autodeclaração racial nas eleições

Os negros (aí incluídos pretos e pardos, na classificação do IBGE) representam 56% da população brasileira. Já na Câmara dos Deputados recém-eleita eles são, oficialmente, 21%. E mesmo este tímido percentual embute uma ilusão. A Casa “é mais branca do que a gente imagina”, afirma Luiz Augusto Campos, coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e um dos autores do livro “Raça e Eleições no Brasil”. Estudo conduzido pelo sociólogo encontrou discrepâncias no caso de 60 dos 135 eleitos (eles registraram as candidaturas se apresentando como negros, embora não sejam socialmente “lidos” assim). Renata Lo Prete conversa também com Samuel Vida, coordenador do programa Direito e Relações Raciais na Universidade Federal da Bahia, para entender como evitar fraudes sem perder os avanços obtidos com a autodeclaração, que efetivamente contribui para o aumento da representatividade. Ele destaca a importância de ações para combater o racismo institucional. “Não podemos reduzi-lo a manifestações de ódio individual”, diz.

Oct 6, 202225 min

Ep 8082º turno: o papel dos palanques estaduais

Dois dias depois de fechadas as urnas, Jair Bolsonaro (PL) já obteve a adesão declarada dos governadores dos três maiores colégios eleitorais do país. Uma movimentação rápida que busca reverter, pela via das alianças, a vantagem de cerca de 6 milhões de votos obtida nas urnas por Lula (PT). Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Bernardo Mello Franco sobre a importância das máquinas públicas locais para dar capilaridade e tração às campanhas. “São Paulo é decisivo”, afirma o colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN. Bolsonaro precisa aumentar sua vantagem no Estado e, para isso, conta com a associação ao favorito na disputa local, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o recém-conquistado “apoio incondicional” do atual governador, Rodrigo Garcia (PSDB). Do outro lado, Lula enfrenta um “uma situação crítica” para conquistar novos votos dos paulistas, dada a força demonstrada pelo bolsonarismo, especialmente no interior. No Rio, Cláudio Castro (PL) deve mobilizar “a maioria esmagadora dos prefeitos e deputados estaduais” em favor do presidente. Em Minas, avalia Bernardo, o empenho real do reeleito Romeu Zema (Novo) ainda “é uma incógnita”. O jornalista analisa também a situação na Bahia e no Rio Grande do Sul.

Oct 5, 202231 min

Ep 807O novo desenho da Câmara e do Senado

No segundo de dois episódios de resenha dos resultados eleitorais, Renata Lo Prete conversa com Thomas Traumann sobre o desfecho da disputa pelas 513 cadeiras da Câmara e por 27 das 81 do Senado. Na contramão da altíssima taxa de renovação de 2018, agora foram reeleitos 287 deputados – maior número desde 1998. Em comum, afirma o jornalista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, ambas votações impuseram ondas conservadoras no Congresso: o PL, partido de Jair Bolsonaro, terá a partir de janeiro de 2023 a maior bancada na Câmara e no Senado. Efeitos de um combo que inclui mudança na legislação eleitoral, financiamento público bilionário de campanha e a imposição do orçamento secreto – que somente este ano liberou R$ 36 bilhões em emendas. “Foi uma reação à antipolítica de 2018, e a tática deu certo”, afirma. Soma-se a isso a consolidação do bolsonarismo como força política-ideológica: “Muitos candidatos só conseguiram votos com o carimbo de Bolsonaro”. Thomas aponta que a avalanche de aliados eleitos no Senado demonstra de forma mais clara este “carimbo presidencial”, mas, no caso da Câmara “o vencedor não é necessariamente ele, mas Arthur Lira (PP-AL)”. Na composição total do Congresso, as demais forças políticas perderam espaço. Para o campo da centro-direita, o cenário é de “terra arrasada” - em especial ao PSDB, que já elegeu presidente da República duas vezes e, agora, fica sem o governo de São Paulo pela primeira vez em 28 anos e com apenas 13 deputados. Na esquerda, o “PT teve uma vitória” ao aumentar sua bancada, mas o resultado da aliança com PSB e demais partidos foi “abaixo do esperado e a legenda ficou mais fragilizada que em 2018”. Renata e Thomas analisam também os cenários em caso de vitória de Lula ou Bolsonaro. Se o petista vencer, afirma o jornalista, precisará entender rápido que o Congresso “mudou muito e tem outra capacidade de pressionar e ser protagonista”. No caso de reeleição, “a prioridade política de Bolsonaro será controlar o Supremo”, avalia. “As questões institucionais brasileiras estariam em risco muito maior do que nos últimos 4 anos”, conclui.

Oct 4, 202231 min

Ep 806O resultado do 1° turno das eleições

Na madrugada desta 2ª feira, uma vez encerrada a maratona da apuração na Globo, Renata Lo Prete foi ao estúdio do g1 no Rio de Janeiro e de lá conversou com o jornalista Thomas Traumann, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas sobre os resultados eleitorais de domingo, com foco na disputa pelo Palácio do Planalto. Para Thomas, o desempenho de Lula (48,43%) e de Bolsonaro (43,20%) retrata um “antibolsonarismo muito forte, mas um antipetismo também”. A dupla comenta as principais surpresas das urnas, caso da disputa pelo governo de São Paulo – onde Tarcísio de Freitas chegou à frente de Fernando Haddad, contrariando o que indicavam as pesquisas. Agora, afirma o jornalista, os institutos vão precisar “investigar o bolsonarismo escondido” que não foi captado nos últimos meses – e que teve resultados expressivos também na eleição de aliados do presidente na Câmara e no Senado. Na disputa do segundo turno, Bolsonaro larga com “o vento a favor” e com a possibilidade de confirmar o apoio dos governadores reeleitos Romeu Zema (Minas Gerais) e Cláudio Castro (Rio de Janeiro), dois importantes colégios eleitorais. “Se isso acontecer, vamos ter uma eleição muito mais apertada do que temos hoje”. Para Lula, avalia Thomas, além de fechar a presença de Simone Tebet e Ciro Gomes em seu palanque, será necessário “negociar parte da sua proposta econômica” para derrotar o incumbente no dia 30 de outubro. Considerado o desempenho expressivo de seu campo político, Bolsonaro terá que vencer uma diferença de mais de 6 milhões de votos para conseguir uma virada inédita. “Lula segue favorito”, conclui Traumann.

Oct 3, 202239 min

Ep 805Como são contados os votos para deputado

Para presidente, a maioria já fez sua opção, dizem as pesquisas. Para o Legislativo, porém, persiste até a última hora muita indefinição. E se trata de uma fase importante do roteiro a ser cumprido diante da urna eletrônica: além de seu papel essencial ao equilíbrio da ordem democrática, os parlamentares adquiriram, nos últimos quatro anos, poder sem precedentes sobre o destino dos recursos do Orçamento. Com tudo isso em mente, O Assunto desta sexta-feira é um episódio explicativo do mecanismo pelo qual são definidos o tamanho da bancada de cada sigla na Câmara e quais serão os ocupantes das cadeiras. Em conversa com Renata Lo Prete, Lara Mesquita, do Centro de Política e Economia do Setor Público da FGV-SP, faz uma exposição didática sobre o caráter proporcional do sistema. Ao teclar os 4 números (5 no caso dos deputados estaduais), o eleitor está, na verdade, fazendo duas escolhas: primeiro no partido, depois no nome que, a seu ver, deve ficar no topo da lista de opções oferecidas por aquela agremiação. Daí o nome “lista aberta”, em contraste com países onde ela é “fechada”, ou seja, a cúpula da legenda decide o ordenamento. “Não é tão complicado”, garante Lara, que nesta entrevista destrincha conceitos como “quociente eleitoral” e “voto de legenda”, além de esclarecer o papel, por vezes enganoso, dos “puxadores de voto”. Na avaliação da pesquisadora, o sistema funciona bem e “permite que a sociedade esteja representada em sua diversidade no Poder Legislativo”.

Sep 30, 202221 min

Ep 804A reta final da disputa pela Presidência

A três dias de uma eleição em que as últimas pesquisas têm se movido quase que exclusivamente dentro das margens de erro, o grande suspense diz respeito ao encerramento ou não neste domingo. Analisando precedentes históricos e dados de conjuntura, a consultoria internacional Eurasia estima entre 20% e 25% as chances de Lula (PT) vencer no primeiro turno. Mas, segundo seu diretor-executivo, Christopher Garman, essa previsão ainda pode ser revista, para mais ou para menos, em função de pelo menos duas variáveis: “o voto útil dos eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) e o impacto do debate da Globo” (a ser realizado na noite desta quinta-feira). Em conversa com Renata Lo Prete, Garman fala também das expectativas externas em torno do próximo mandato presidencial. “Os investidores estão divididos, mas a maioria acredita que o cenário com Lula seria mais construtivo”, afirma, entre outras razões porque dele esperam “reversão total de curso no tema ambiental”. Quanto à possibilidade de reeleição de Jair Bolsonaro (PL), que a Eurasia hoje avalia ser de 30%, a resenha dos investidores varia entre “reconhecimento de que a gestão macroeconômica não tem sido ruim” e preocupações “com o ruído institucional” que o presidente provoca. Segundo o analista, “eventos curtos” de questionamento dos resultados por Bolsonaro, em caso de derrota, “não devem ter grandes consequências” para o mercado, embora não sejam “saudáveis para nenhuma democracia”.

Sep 29, 202224 min

Ep 803Indígenas: recorde de candidaturas

São cerca de 300 povos originários, que hoje somam mais de 1,1 milhão de pessoas. Seus direitos estão inscritos na Constituição Federal, mas nenhum outro segmento da população brasileira é tão pouco representado no Congresso: atualmente está lá apenas a deputada federal Joênia Wapichana (Rede-RR). Um quadro que tem chances de melhorar este ano, quando há um número inédito de postulantes: 180, de várias etnias, a diferentes cargos em disputa. “Quanto mais nos sentimos ameaçados, mais criamos instrumentos de defesa”, afirma Keyla de Jesus da Conceição, liderança pataxó, advogada e pesquisadora da Universidade de Brasília. Para ela, o crescimento da participação no processo eleitoral reflete a escalada de violações e ameaças ao longo do atual governo. Na conversa com Renata Lo Prete, Keyla celebra a Carta de 1988 como marco do “reconhecimento da autonomia dos povos originários” e resgata o papel histórico do primeiro deputado federal indígena - Mário Juruna, eleito em 1982 pelo Rio de Janeiro, filiado ao PDT de Leonel Brizola. Participa também do episódio a escritora e ativista Márcia Kambeba, que em 2020 se candidatou a vereadora em Belém (PA). Não teve sucesso nas urnas, mas se tornou a primeira indígena a ocupar um posto de primeiro escalão na Prefeitura da cidade, o de ouvidora geral. “Política indígena é feita todo dia na aldeia”, diz Márcia. Ela acredita que essas candidaturas têm por objetivo “construir uma ponte entre dois mundos” e fazer valer a lógica do “bem viver” como “eixo central da prática política”.

Sep 28, 202227 min

Ep 802Itália: neofascismo vitorioso nas urnas

Desde a queda de Benito Mussolini, durante a Segunda Guerra Mundial, os italianos já tiveram 44 primeiros-ministros. Cada um deles durou, em média, 1 ano e 8 meses no cargo, dado revelador da vocação do país para a instabilidade política. A despeito de muitas diferenças, nenhum deles defendeu explicitamente pautas ultranacionalistas da extrema-direita, até a renúncia, em julho, de Mário Draghi, ex-presidente do Banco Europeu. Em seu lugar deve entrar, pela primeira vez, uma mulher: Giorgia Meloni, de 45 anos, cujo partido (Irmãos da Itália) é herdeiro do movimento inspirado nas ideias de Mussolini. Com os resultados da eleição de domingo, ela deverá formar o novo governo tendo como parceiros nomes conhecidos da direita: os ex-premiês Matteo Salvini (Liga) e Sílvio Berlusconi (Forza Italia). “Ela se projetou como outsider, convencendo o eleitor de que poderia resolver problemas que a classe política não consegue”, analisa Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV-SP. Em conversa com Renata Lo Prete, ele explica o contexto no qual a ex-militante do movimento neofascista conseguiu apoio a pautas xenófobas e de restrição a direitos de minorias. Mas alerta que urgências de outra ordem se colocarão diante de Meloni agora: “A Itália é um país que enfrenta desafios estruturais profundos, como o alto índice de desemprego entre os jovens”. Associada à economia há “a relação com a União Europeia”. E também o posicionamento diante da invasão russa à Ucrânia (Salvini e Berlusconi são admiradores declarados de Vladimir Putin).

Sep 27, 202224 min

Ep 801Para entender a sucessão no Ceará

Liderada desde a pré-campanha por Capitão Wagner (União Brasil), a disputa pelo governo agora embolou: com 29% na mais recente pesquisa Ipec, o deputado federal e ex-PM está tecnicamente empatado com o deputado estadual Elmano de Freitas (PT), que obtém 30%. Em seguida, com 22%, aparece o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Claudio (PDT). A presença simultânea de Freitas e Claudio na pista marca o fim da longa aliança entre o clã Ferreira Gomes e o PT no Estado. Para entender esse quadro, Renata Lo Prete conversa com o jornalista Inácio Aguiar, da TV Verdes Mares, afiliada da Globo. Ele explica os motivos que levaram Ciro, candidato a presidente, a bancar internamente a opção pelo ex-prefeito. E também a saia-justa criada para seu irmão Cid: o ex-governador, hoje no Senado, tenta se apresentar como “bombeiro” na relação com os petistas. E já indicou que apoiará Elmano se Claudio não chegar ao segundo turno. Na avaliação de Aguiar, os três nomes “são competitivos”, e o desfecho da eleição, “imprevisível”. Com Lula forte no Estado, e o ex-governador Camilo Santana (PT) favorito para a vaga disponível de senador, Ciro está sob risco de colher este ano, em sua base, o pior resultado de todas as suas tentativas de chegar ao Palácio do Planalto.

Sep 26, 202223 min

Ep 80030 anos do massacre Carandiru

No dia 2 de outubro de 1992, o maior complexo penitenciário da América Latina, encravado na cidade mais populosa do Brasil, abrigava cerca de 7.500 mil presos, quase o dobro de sua capacidade. No pavilhão 9, uma briga de grupos rivais saiu de controle, e a PM foi acionada. Sob ordem do governo estadual para “resolver o conflito”, cerca de 500 policiais conduziram a mais sangrenta ação da história prisional brasileira, que deixou, oficialmente, 111 mortos. “As autoridades assumiram o risco do desfecho trágico”, afirma Marta Machado, coordenadora, na FGV, do Núcleo de Estudos sobre o Crime e a Pena. Neste episódio, que é o de número 800 de O Assunto, Renata Lo Prete entrevista a professora sobre as circunstâncias da carnificina. A começar pela inversão de prioridades no calor da hora: “Não houve esforço de negociação, e os policiais agiram com alto poder letal”. Os sobreviventes, ela recorda, passaram horas “sob humilhações”. Em seu projeto de pesquisa, intitulado “Carandiru não é coisa do passado”, Marta registra que eles foram obrigados a carregar corpos (alterando a cena dos crimes que haviam acabado de presenciar), agredidos nus no pátio e atacados pelos cães. Três décadas depois, o quadro é de absoluta impunidade. Nenhum dos policiais envolvidos cumpriu pena de prisão, muitos seguiram na corporação e vários ascenderam de posto. Hoje, o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo e metrópoles ainda mais violentas do que à época. “É importante que o Carandiru fique na memória coletiva, para que aquilo nunca mais volte a acontecer”, diz ela.

Sep 23, 202232 min

Ep 799Voto útil: em que medida ele pode influir

A menos de duas semanas da votação, as pesquisas permitem a Lula (PT) sonhar com a possibilidade de liquidar a disputa com Jair Bolsonaro (PL) no 1º turno - no Datafolha e no Ipec mais recentes, o ex-presidente tem, respectivamente, 48% e 52% pelo critério de votos válidos, que exclui brancos e nulos (para vencer na etapa inicial, é preciso obter nas urnas 50% dos válidos e mais um). Nesse cenário, muito se especula sobre o papel do chamado voto “útil” ou “estratégico”, aquele em que o eleitor “rejeita tanto um candidato” a ponto de votar principalmente para derrotá-lo - ainda que, no processo, abandone seu postulante favorito, define Mauro Paulino, comentarista da GloboNews. Em conversa com Renata Lo Prete, ele avalia as chances de eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) migrarem para o petista nesta reta final. É possível, afirma o sociólogo. Ele alerta, porém, para o fato de que muita migração já ocorreu, e as taxas de convicção estão elevadas, restando pouca margem para “surpresas”. Paulino recomenda prestar atenção, em 2 de outubro, à taxa de abstenção, “que pode aumentar devido às ameaças de violência”. Tal hipótese, segundo ele, tenderia a prejudicar o candidato do PT: historicamente, são os mais pobres (entre os quais a liderança de Lula é absoluta) que mais se abstêm.

Sep 22, 202221 min

Ep 798Orçamento Secreto, o bolsa-reeleição

Dos 513 integrantes da Câmara, 87% tentarão renovar o mandato, percentual recorde que coincide com um Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões, triplo do valor disponível em 2018. Deputados e senadores ganharam "uma série de instrumentos” para disputar em melhores condições, avalia Antônio Augusto de Queiroz, ex-diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) e colunista do site Congresso em Foco. Em conversa com Renata Lo Prete, ele analisa também a mudança de ventos: “criminalização da política" quatro anos atrás, Centrão no comando agora. Também participa deste episódio Breno Pires, da revista piauí, um dos repórteres que revelaram, no jornal O Estado de S.Paulo, a existência do Orçamento Secreto. Ele lembra que este supera em muito o Fundo Eleitoral - cerca de R$ 50 bilhões, desde 2020, para as chamadas emendas do relator, que fazem “girar o moinho da reeleição” dos atuais parlamentares. Para Breno, trata-se “do ponto alto do processo de captura do Orçamento”.

Sep 21, 202227 min

Ep 797Voto envergonhado terá peso este ano?

“É quando o eleitor se considera minoria dentro de seu grupo social”, e não fica à vontade para “expressar sua opinião real”, deixando para fazê-lo apenas na urna, define Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria e professor da Universidade Federal de Minas Gerais. Em conversa com Renata Lo Prete, o cientista político afirma que esse fator surpresa ocorreu na eleição de Donald Trump (2016) e também na de Jair Bolsonaro (2018). Este ano, a partir de três estudos, o cientista político conclui que o fenômeno pode acontecer com sinal invertido na disputa presidencial: "o eleitor do Lula tende a não falar sobre seu voto, principalmente quando identifica a presença de um eleitor do Bolsonaro", que seria, em suas palavras, “mais vocal e engajado”. E especifica: "são as mulheres e a população mais pobre que mais sofrem pressão". Num ambiente político conflagrado, no qual um dos lados estimula permanentemente a violência, o medo é o motor do voto envergonhado, acredita Nunes. Ele avalia, porém, que um outro tipo de voto - o estratégico, também conhecido como “útil” - tende a ser ainda decisivo para definir se a disputa acabará ou não em 2 de outubro.

Sep 20, 202221 min

Ep 796Para entender a sucessão em Mato Grosso do Sul

Este colégio de aproximadamente 2 milhões de eleitores, sétimo menor do país, é a base de duas candidatas à Presidência da República: Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil). “Fato histórico” para um Estado implantado há pouco mais de quatro décadas, observa Daniel Miranda, professor da UFMS. Berço também de dois nomes que despontaram na cena nacional em anos recentes e agora buscam a vaga ao Senado: os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura), esta na liderança das pesquisas. “Ela tem amplo arco de alianças e apoio do agronegócio”, afirma o cientista político. Em conversa com Renata Lo Prete, ele explica as características da única disputa equilibrada para o governo entre os Estados da região Centro-Oeste. O ex-ocupante do cargo André Puccinelli (MDB) lidera, acompanhado mais ou menos de perto por um segundo pelotão em que aparecem Marquinhos Trad (PSD), Rose Modesto (União Brasil) e Eduardo Riedel (PSDB). Em patamar um pouco inferior está Capitão Contar (PRTB) -que, assim como Riedel, apresenta-se como candidato de Jair Bolsonaro. Tanto Puccinelli quanto os outros três mais bem colocados representam, segundo Miranda, “o retorno dos profissionais da política”, em inversão da onda antissistema que varreu o país em 2018. Digna de nota também é a ausência da esquerda do quadro de candidaturas competitivas - o PT, que governou o Estado de 1999 a 2006, é inexpressivo agora. Apesar disso, a liderança de Bolsonaro sobre Lula é estreita entre os sul-matogrossenses.

Sep 19, 202220 min

Ep 795Indígenas: assassinatos em série

Apenas na primeira quinzena de setembro, seis representantes das etnias Guajajara, Pataxó e Guarani Kaiowá foram mortos em diferentes pontos do país. Entre eles, dois adolescentes. Intensificada nas últimas semanas, a onda sangrenta começou a se formar bem antes: 2021 teve o maior número de casos de violência contra essas populações dos últimos 9 anos, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário. “Há grande pressa em fazer invasão de terra, desmatamento e garimpo antes da eleição", afirma a antropóloga Lúcia Helena Rangel. Professora da PUC de São Paulo e coordenadora do mais recente relatório do Cimi, ela descreve como invasores “fortemente armados” agem para acuar e amedrontar os povos originários, culminando em “assassinatos brutais”. E relaciona o aumento de invasões - que triplicaram em relação a 2018 - e a omissão do Estado aos ataques criminosos recentes. Participa também Alvair José Nascimento, cacique Pataxó da TI de Barra Velha, no sul da Bahia. É ele quem relata o ataque de pessoas que se aproveitam da ausência de autoridades para atacar as comunidades. “Estamos sujeitos a qualquer momento a sofrer ataque”, diz. Nesta quinta-feira, lideranças de nove etnias se reuniram para denunciar os atos de violência contra os povos originários e marcharam pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Sep 16, 202226 min

Ep 794Bolsonaro: licença para atacar jornalistas

O caso de Vera Magalhães, agredida pelo presidente em um debate e, dias depois, por um apoiador dele em outro, é o mais recente da longa lista. Ofensas dirigidas sobretudo a mulheres e com método: insinuações de cunho sexual e comentários demeritórios a respeito de intelecto ou aparência para “perturbar o debate público”, explica a antropóloga Isabela Kalil, e deixar sem resposta perguntas incômodas, seja sobre as rachadinhas da família, seja sobre a gestão desastrosa da pandemia. Em conversa com Renata Lo Prete, a coordenadora do Observatório da Extrema Direita lembra que Bolsonaro começou a praticar “violência política de gênero” anos antes de mirar repórteres como Patrícia Campos Mello e Miriam Leitão. Em 2014, ele ganhou atenção nacional “exatamente por insultar uma mulher”, a então deputada petista Maria do Rosário - e mais ou menos na mesma época surgiu nas redes sociais a plataforma “Bolsonaro presidente”. Participa também do episódio a advogada Taís Gasparian, especialista em direito civil relacionado à imprensa. Ela destaca que a tentativa de cercear a atividade jornalística por meio de intimidação “é uma forma de censura”, e que, ao praticá-la, Bolsonaro “dá uma espécie de salvo-conduto” para que aliados como o deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos-SP), agressor de Vera, façam o mesmo.

Sep 15, 202229 min

Ep 793Guerra: contraofensiva da Ucrânia

Na última semana, as Forças Armadas do país retomaram dos russos cerca de 6 mil quilômetros quadrados de território na província onde fica a importante cidade de Kharkiv. Um triunfo como não se via desde abril, quando o exército invasor foi obrigado a desistir do cerco à capital, Kiev. "A ajuda que os EUA vêm fornecendo à Ucrânia, por meio de artilharia de médio alcance e inteligência, é chave para entender essa vitória", afirma Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor avalia que dois objetivos foram cumpridos. Primeiro, “convencer o Ocidente de que a ajuda é fundamental e precisa continuar". E também “evitar que a Rússia faça plebiscitos em áreas ocupadas no leste, o que poderia legitimar a presença de suas tropas”. Em Moscou, a recuperação ucraniana faz crescer diferentes pressões internas sobre Vladmir Putin, inclusive de setores ultranacionalistas que defendem intensificar o conflito iniciado em fevereiro. Para Loureiro, o cenário mais provável ainda é o de uma guerra que siga se arrastando, mas agora em uma “terceira fase”. Nela, avalia, estará com os ucranianos “a iniciativa de decidir onde o confronto se dará".

Sep 14, 202222 min

Ep 792PEC 275: como ela muda o Supremo

No 7 de Setembro transformado em comício, Jair Bolsonaro pediu “uma reeleição” para trazer às “quatro linhas” (nas quais jamais se enquadrou) “todos aqueles que ousam ficar fora delas”. Recado nada velado ao tribunal que, em várias ocasiões, conteve o ímpeto autoritário do chefe do Executivo. Nos quatro anos de mandato, várias ideias para inchar o STF, reduzir suas atribuições e facilitar a indicação de amigos foram colocadas para circular. A do momento resgata uma proposta de emenda à Constituição apresentada em 2013, que prevê elevar de 11 para 15 o número de ministros, delegando ao presidente do Senado a tarefa de indicar os 4 novos. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista Felipe Recondo aponta o casuísmo da iniciativa patrocinada por Bolsonaro e parte do Congresso. “Desde que o Supremo foi criado, em 1891, a forma de indicação é a mesma. Qual a justificativa para essa mudança?" Ele mesmo responde: “É uma tentativa de ingerência”, levada a cabo, com diferentes desenhos, em países onde a democracia foi solapada, como Venezuela e Hungria. Sócio-fundador da plataforma Jota e autor de dois livros sobre a Corte, Recondo lembra quem pela última vez aumentou o número de ministros e quando isso aconteceu: foi o presidente Castelo Branco, na ditadura militar (1965).

Sep 13, 202221 min

Ep 791Para entender a sucessão na Bahia

No Estado em que o PT venceu as últimas quatro disputas no primeiro turno, pesquisas apontam alta chance de mudança este ano. E desenham um quadro diferente da polarização nacional: lá, quem lidera por ampla margem (56% no Ipec mais recente) é o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), que nunca esteve ao lado de Lula nem está com Jair Bolsonaro (PL). "Se as urnas confirmarem isso, a Bahia pode se tornar um laboratório da terceira via", diz o cientista político Paulo Fabio Dantas, referindo-se ao campo que tentou viabilizar uma alternativa às duas candidaturas protagonistas da corrida ao Planalto. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor da UFBA analisa a “grande diferença de contexto” que separa as atuações de Neto e do avô, o ex-governador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007). Paulo Fábio aponta desgaste após 16 anos no poder e fragilidades de Jerônimo Rodrigues (13%), o ex-secretário da Educação escolhido para representar o PT na disputa, como fatores que ajudam a explicar por que o partido está ameaçado de perder seu principal reduto, apesar da dominância de Lula no Estado. A entrevista trata ainda dos papéis do distante terceiro colocado, João Roma (PL), hoje com 7%, lançado para dar palanque a Bolsonaro, e do MDB de Geddel Vieira Lima, que indicou o vice da chapa petista.

Sep 12, 202223 min

Ep 790Elizabeth II, a rainha e seu tempo

Em sete décadas de reinado, o mais longo da história britânica, ela testemunhou mais de 30 guerras e lidou com 7 papas, 14 presidentes americanos e 15 primeiros-ministros de seu país. Coroada pouco depois da morte de Josef Stalin, assistiu, décadas depois, ao fim da União Soviética, à queda do Muro de Berlim e à saída do Reino Unido do bloco europeu. Em conversa com Renata Lo Prete, a jornalista Barbara Gancia analisa a trajetória e o legado da monarca, que morreu nesta quinta-feira, aos 96 anos, no castelo de Balmoral, na Escócia. “É o fim de uma era”, diz. Barbara fala da figura de Elisabeth como símbolo de estabilidade em meio a revoluções e mudanças de toda espécie e de sua "humildade em servir a uma causa maior”. Discute as seguidas crises da família real e as perspectivas para o reinado de Charles III.

Sep 9, 202232 min

Ep 789A cartada de Bolsonaro no 7 de Setembro

Com dois discursos, o primeiro em Brasília e o segundo no Rio de Janeiro, o presidente fez das comemorações dos 200 anos da separação do Brasil de Portugal um grande comício, bancado com dinheiro público. "Não se ouviu nem a palavra 'bicentenário', nem independência'", atenta a jornalista Maria Cristina Fernandes. Em conversa com Renata Lo Prete, a colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN avalia que, tendo passado impune pelo discurso golpista de 2021, Bolsonaro voltou a afrontar o Judiciário, desta vez "ainda mais do que se tivesse xingado". Ao mesmo tempo, a ausência de chefes de outros Poderes no desfile militar em Brasília "revela um presidente acuado" por um eleitorado que dá vantagem expressiva a Lula (PT) nas pesquisas a menos de um mês do primeiro turno. Os gritos autocongratulatórios de seu suposto desempenho sexual, analisa Maria Cristina, afastam Bolsonaro de um grande “contingente de votos de mulheres” e sinalizam que ele "coloca a virilidade em primeiro lugar e o Brasil em segundo". A adesão foi grande nessas duas praças e também em São Paulo, mas ao candidato resta o desafio de reduzir a vantagem de seu adversário até 2 de outubro. O 7 de Setembro, analisa a jornalista, ficará marcado como mais uma etapa de uma campanha para aumentar as abstenções: "O objetivo é gerar medo, especialmente de insegurança nas ruas".

Sep 8, 202229 min

Ep 788A Independência para além da Corte

“Até os anos 50, a história da Independência foi contada do ponto vista do Rio de Janeiro", diz o historiador Evaldo Cabral de Mello. Ele é autor do livro "A Outra Independência", que trata das movimentações políticas entre a Revolução Pernambucana, em 1817, e a Confederação do Equador, em 1824. A resistência na província contra o projeto centralizador da Casa Real é o ponto de partida deste episódio com Renata Lo Prete. De acordo com o integrante da Academia Brasileira de Letras, a emancipação brasileira foi composta por "dois golpes de Estado dados por dom Pedro I": o primeiro contra Portugal, celebrado no 7 de setembro, e o segundo na dissolução da Assembleia Constituinte, em 1823. Para Evaldo, boa parte das dificuldades na administração do Brasil vêm de seu tamanho: "Portugal nunca deveria ter violado o Tratado de Tordesilhas". E de uma chaga essencial: a ausência de políticas de inserção social para aos negros recém-libertos após o 13 de maio de 1888. "O Brasil foi definitivamente comprometido pela escravidão", afirma.

Sep 6, 202228 min

Ep 787O agosto incendiário na Amazônia

Abrindo a pior fase da temporada seca, o mês não registrava número tão alto havia mais de uma década: 33 mil focos de incêndio, muitas deles na divisa ente os Estados do Amazonas e de Rondônia. O repórter Alexandre Hisayasu, da TV Amazônica, afiliada da Globo, foi até lá e registrou “vários flagrantes de desmatamento”. Em conversa com Renata Lo Prete, ele relata o que viu: pelo alto, “áreas imensas destruídas, consumidas pelas chamas”; por terra, “na beira da rodovia, inúmeras queimadas”. O objetivo, afirma, é abrir caminho para pasto e cultivo de soja. Três anos depois do infame “Dia do Fogo” (superado em destruição no último 22 de agosto), Alexandre conta sua surpresa diante da atividade criminosa exercida “sem qualquer preocupação” por grileiros -comportamento diferente do observado em 2019, quando ainda havia algum “medo dos órgãos de fiscalização”. A geógrafa Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), explica que o “fogo representa a última etapa no processo de desmatamento”. Do total de floresta devastada, mais da metade estava dentro de terras públicas -caso das reservas indígenas, unidades de conservação e florestas públicas não destinadas. E pode ser ainda pior em setembro: “se o clima estivesse mais seco, seria um inferno”.

Sep 5, 202225 min

Ep 786Por que o voto feminino será decisivo

No Datafolha recém-divulgado, Lula (PT) aparece com 13 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PL). Entre os homens, ela cai para 6 pontos. Já entre as mulheres, que representam 53% do eleitorado, sobe para 20. “Olhando os dados desde 1989, nunca antes observamos uma discrepância de gênero como esta", afirma Maurício Moura, à frente do instituto Ideia. Na conversa com Renata Lo Prete, ele enumera motivos que ajudam a explicar a preocupação das campanhas com esse público, começando pelo percentual de indecisas na pesquisa espontânea, maior que o de homens na mesma situação. No caso específico de Bolsonaro, o professor da Universidade George Washington destaca a perda de eleitoras, sobretudo da classe C, que apoiaram o candidato em 2018 e agora resistem a reconduzi-lo. Para Moura, esse segmento, guiado essencialmente por fatores econômicos, tem tudo para ser o fiel da balança em outubro.

Sep 2, 202222 min

Ep 785Família Bolsonaro: opção pelo dinheiro vivo

Desde 2018, acumulam-se indícios de “rachadinha” nos gabinetes parlamentares do clã e da possível relação dessa prática com negócios envolvendo filhos, ex-mulheres e o próprio presidente. Agora, reportagem publicada pelo UOL dimensiona outro traço comum a esses personagens: o gosto pelas transações em espécie. Foram 51 imóveis comprados por eles total ou parcialmente assim desde 1990, de um total de 107 examinados pelo portal. Estudioso do uso do mercado imobiliário para lavagem de dinheiro, o pesquisador Fabiano Angélico, da Universidade de Lugano (Suíça), observa: “São várias evidências de que houve geração de recurso ilícito onde se percebia circulação de dinheiro em espécie”. Ou seja, a partir do recolhimento de boa parte dos salários dos funcionários, muitos deles fantasmas. “Isso forma um conjunto indiciário muito forte”. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com a jornalista Malu Gaspar, que relembra as encrencas da família desde a descoberta, ainda antes da posse de Jair Bolsonaro no Planalto, do papel do ex-assessor Fabrício Queiroz no esquema. A colunista do jornal “O Globo” analisa o desmonte do “aparato de combate à corrupção" em anos recentes e a “blindagem” judicial que conteve investigações, especialmente contra o senador Flavio Bolsonaro. Ela vê baixo potencial de impacto das novas revelações na campanha eleitoral, seja pelo elevado percentual de consolidação do voto, seja porque o presidente-candidato agora diz não ver problema nenhum no farto uso de dinheiro vivo para adquirir patrimônio, o que em 2018 ele condenava com veemência.

Sep 1, 202233 min

Ep 784Paralisia infantil: queda livre da vacinação

O Brasil registrou um caso de poliomielite pela última vez em 1989. Porém, desde 2015 a cobertura vacinal vem caindo, fechando o ano passado em apenas 67%. E a adesão à campanha nacional em curso ainda é muito baixa. Em conversa com Renata Lo Prete, o infectologista Marco Aurélio Sáfadi destaca a importância de recuperar “o número mágico” de 95% na faixa etária de 0 a 5 anos. Só ele pode garantir que, mesmo diante de um ou outro caso vindo de fora, o vírus não encontre “condições para circular" no país. Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Sáfadi lembra que a paralisia, especialmente dos membros inferiores, é o “resultado dramático” verificado nos casos mais graves de polio, doença transmitida pela boca e pelas fezes cujos sintomas incluem febre, mal-estar, vômitos e diarreia. Ele também elenca fatores que ajudam a explicar o tombo da curva de aplicação de uma vacina supereficiente contra uma doença para a qual não existe tratamento. Entre eles, notícias falsas e e falta de comunicação adequada por parte das autoridades.

Aug 31, 202223 min

Ep 783O desmonte do combate à fome

Na sexta-feira, Jair Bolsonaro (PL) disse que não existe “fome pra valer” no Brasil. Dois dias depois, questionado a respeito por Ciro Gomes (PDT) em debate, o presidente do país que tem 33 milhões de pessoas vivendo nesse desespero recomendou a quem “passa necessidade” se cadastrar para receber os R$ 600 de auxílio do governo federal. Por mais essencial que seja o benefício, ele não basta para reverter um quadro que aflige 125 milhões de brasileiros quando se adota o critério da “insegurança alimentar” (não ter como fazer 3 refeições por dia). Para alcançar esse objetivo, é preciso devolver “centralidade, no Orçamento da União”, a uma série de políticas públicas interligadas de combate à fome, afirma Daniela Frozi, integrante da coordenação executiva da rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, ela detalha as consequências “desastrosas” de decisões tomadas pelo atual governo, como a extinção do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável), o brutal corte de recursos para o Programa de Aquisição de Alimentos e o recente veto de Bolsonaro ao reajuste para o Programa Nacional de Alimentação Escolar que o Congresso havia aprovado. Daniela, que também é professora do programa de pós-graduação da Fiocruz, destaca sobretudo as consequências para as crianças, “que terão impactos cognitivos e biológicos no futuro”.

Aug 30, 202225 min

Ep 782Para entender a sucessão no Amazonas

Quatro anos atrás, em plena onda antipolítica, o Estado elegeu um ex-apresentador de TV que, em 2020, escapou do impeachment, na esteira de um escândalo de malversação de recursos para o enfrentamento da Covid. Agora, amparado por ampla base de na Assembleia Legislativa, Wilson Lima (União Brasil) busca a reeleição. Segundo a pesquisa Ipec mais recente, tem 30% das intenções de voto, empatado com Amazonino Mendes (Cidadania), veteraníssimo da política local que já ocupou o cargo quatro vezes. Em segundo lugar, com 16%, aparece outro ex-governador, Eduardo Braga (MDB). Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Rosiene Carvalho, colunista de política da BandNews Manaus, para entender a disputa no 15º colégio eleitoral do país, segundo maior da Região Norte. A jornalista recorda dois capítulos dramáticos da pandemia no Amazonas: o da “compra superfraurada de respiradores" e o do colapso no sistema de saúde “na crise da falta de oxigênio”. E mostra que, apesar deles, Lima segue competitivo. Rosiene explica ainda o xadrez dos palanques de Lula (aliado a Braga e líder no Estado) e Bolsonaro (apoiado, até aqui, tanto pelo governador quanto por Amazonino).

Aug 29, 202225 min