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O Assunto

O Assunto

1,786 episodes — Page 23 of 36

Ep 682Braga Netto: modos de Bolsonaro usar

Em seguidos eventos, o presidente da República vem renovando os ataques a ministros do Supremo e os sinais de que não pretende se conformar com uma eventual derrota nas urnas em outubro. Faz parte do pacote o aceno permanente aos militares - como na cerimônia recente em que qualificou o Ministério da Defesa como superior aos demais “por ter a tropa na mão”. É da Defesa, aliás, que Jair Bolsonaro retirou o general da reserva recém-filiado ao PL dado como certo no posto de vice da chapa. Walter Braga Netto seria “uma espécie de Hamilton Mourão, porém fiel e sem agenda ou cabeça própria”, nas palavras de Christian Lynch, professor no Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ. E ainda renovaria o seguro anti-impeachment do presidente - assim como o vice atual, é uma figura que o Congresso não se animaria a instalar no Palácio do Planalto. Na conversa com Renata Lo Prete, Lynch passa em revista a trajetória de Braga Neto, que foi interventor federal no Rio de Janeiro durante o mandato de Michel Temer e teve atuação para lá de questionada como coordenador, na Casa Civil, do enfrentamento da pandemia. O cientista político avalia que as ameaças de Bolsonaro vieram para ficar. “Precisa encenar o tempo todo que teria o poder de dar um golpe”, diz ele, que prevê alta instabilidade em caso de fracasso do projeto reeleitoral.

Apr 8, 202226 min

Ep 681Fake News: o que muda com o projeto de lei

Desde o vale-tudo das eleições de 2018, instituições do Estado e organizações da sociedade buscam formas de combater a desinformação. No Congresso, o tema ganhou força a partir de uma CPI Mista instalada em 2019, mas seguidamente esbarrou em interesses econômicos e políticos conflitantes. Agora, a seis meses do primeiro turno, a Câmara está prestes a votar o PL 2630, que regula plataformas de mídia social com o anunciado propósito de conter a disseminação de notícias falsas. Embora ressaltando que “o PL, na verdade, trata pouco de desinformação", o professor da USP Pablo Ortellado enxerga avanços: “O público é beneficiado, principalmente pela moderação de conteúdo". Mas quem ganha mesmo com a versão atual do texto são os parlamentares, diz a Renata Lo Prete o colunista do jornal O Globo, pois a imunidade de que desfrutam é estendida à sua atuação nas plataformas, garantindo uma espécie de “passe livre” no meio digital. Participa ainda do episódio o repórter do Valor Econômico Raphael Di Cunto, que resgata a origem do projeto, explica o jogo de forças em torno dele e antecipa os próximos passos da tramitação.

Apr 7, 202225 min

Ep 680Bolsonaro e Petrobras: por que deu ruim

Depois de derrubar dois presidentes da estatal na tentativa de interferir nos preços dos combustíveis, Jair Bolsonaro se associou aos donos do PP no patrocínio ao nome do consultor Adriano Pires, que acabou abdicando da indicação de forma constrangedora. Assim como já fizera Rodolfo Landim, que seria alçado ao comando do Conselho de Administração, Pires saiu de cena antes que viesse a público a varredura da Petrobras nos currículos de ambos, mostrando conflito flagrante de interesses (ligações estreitas com empresas privadas do setor de petróleo e gás). Em conversa com Renata Lo Prete, Maria Cristina Fernandes analisa “o consórcio” que promoveu a malsucedida iniciativa, destacando o movimento do presidente da Câmara, Arthur Lira, para reinserir o PP num espaço de poder do qual o partido foi excluído com a Operação Lava Jato. Lembrando o controle que Lira e aliados já exercem sobre o Orçamento da União, a colunista do Valor Econômico e comentarista da CBN resume: “O que resta? Voltar a dominar a Petrobras”, segunda maior empresa do país. Dentro dessa lógica, não espanta a contrariedade de Lira com o fiasco - nesta terça-feira, chegou a defender a mais do que improvável privatização da Petrobras. Já Bolsonaro, avalia Maria Cristina, não se abala com o impasse: “É o que ele sabe fazer: oposição ao próprio governo”. A jornalista também avalia os possíveis desfechos de uma situação com prazo apertado - no próximo dia 13, os acionistas se reúnem para definir o novo comando, que terá de passar pelo mesmo escrutínio que inviabilizou Adriano Pires.

Apr 6, 202229 min

Ep 679Centrão no topo e com Bolsonaro

As três siglas mais próximas do presidente emergem como principais vitoriosas da recém-encerrada temporada de trocas partidárias. O PL, ao qual ele é filiado, tem agora a maior bancada da Câmara dos Deputados. PP e Republicanos também registraram crescimento expressivo. Para além da completa volta por cima dada por legendas fortemente implicadas nos maiores escândalos de corrupção do passado recente, trata-se de um processo de consolidação da direita parlamentar e de um sinal inequívoco da destinação de seu investimento eleitoral. Esses políticos “apostam que Bolsonaro é o caminho mais seguro para a continuidade de benesses", diz Bruno Carazza, colunista do jornal Valor Econômico. Na conversa com Renata Lo Prete, ele analisa também a soma zero no campo da esquerda (apesar de um pequeno incremento no número de seus deputados, o PT caiu no ranking geral e ainda viu o encolhimento de aliados como o PSB) e a atrofia de partidos como MDB e PSDB, mais um reflexo do beco aparentemente sem saída em que está a chamada “terceira via”. A esta altura, avalia Bruno, a disputa presidencial é “um jogo de ganha-ganha” para personagens como Valdemar Costa Neto (dono do PL), Arthur Lira e Ciro Nogueira (caciques do PP). Ganham mais, claro, se Bolsonaro se reeleger. Mas qualquer outro também terá de se entender com eles.

Apr 5, 202223 min

Ep 678Voto jovem: como e por que incentivar

O TSE vem intensificando, nas redes sociais, o esforço para estimular jovens de 16 e 17 anos a tirar o título de eleitor e comparecer às urnas em outubro - o que para eles é facultativo. Mas o resultado ainda está muito aquém do desejável, e o prazo se encerra em 4 de maio. Mesmo com artistas e influenciadores participando da mobilização, o levantamento mais recente do tribunal mostra que, em fevereiro, apenas 13,68% dos 6,1 milhões de brasileiros nessa faixa etária possuíam o documento. A ativista Helena Branco, 19, uma das criadoras da campanha #SeuVotoImporta, conta a Renata Lo Prete o que escuta de potenciais eleitores e quais argumentos podem convencê-los a participar do processo eleitoral. “O que nos move é o poder dos nossos milhões de votos, não a cobrança impositiva de que a gente carrega o peso dos rumos do país", resume. Ainda neste episódio, o consultor Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisas Ideia, elenca fatores que influenciam o voto jovem e a disposição de se envolver na política.

Apr 4, 202225 min

Ep 6773ª via em transe: Moro fora e o teatro do PSDB

Na reta final do prazo para mudar de partido e se desincompatibilizar de cargo Executivo, dois postulantes à Presidência dividiram as atenções nesta quinta-feira. O ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro trocou o Podemos pelo União Brasil, abrindo mão da pré-candidatura no mesmo movimento. Já o tucano João Doria ameaçou permanecer no Palácio dos Bandeirantes, alimentou por um dia inteiro o suspense sobre seu destino e terminou por deixar o cargo, como previsto, para disputar o posto máximo da República. Em conversa com Renata Lo Prete, o sociólogo Celso Rocha de Barros analisa a situação de ambos e os possíveis reflexos na corrida eleitoral. Moro “é o general que tentou lutar a guerra passada", diz o colunista da Folha de S. Paulo, numa referência a 2018. Desprovido de condições materiais e políticas, estagnado num distante 3º lugar nas pesquisas (8% no Datafolha mais recente), seu destino provável é mesmo a Câmara dos Deputados. Já Doria (2%) conseguiu afastar o perigo imediato de uma rasteira interna, mas a luta no PSDB continua -e Eduardo Leite, agora fora do governo gaúcho, está a postos para tomar-lhe o lugar, se chance houver. Embora aposte na continuidade do processo de “seleção natural” dos nomes da chamada terceira via, Celso ainda considera estreito o espaço para que algum deles venha a romper a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro (43% e 26%, respectivamente).

Apr 1, 202225 min

Ep 676Donbass: a guerra antes da guerra

No momento em que Vladimir Putin dá sinais de redimensionar suas ambições na Ucrânia, vale a pena olhar para o conflito que se desenrola há 8 anos no leste do país, com saldo de mais de 14 mil mortos. Seu palco são as províncias separatistas de Donetsk e Luhansk, que Putin declarou “independentes” pouco antes da invasão de 24 de fevereiro. Ligadas à vizinha Rússia por laços estreitos que precedem a formação da extinta União Soviética, no início do século passado, elas foram “isoladas do mundo” e “pararam no tempo” como resultado da guerra civil, explica neste episódio Fabrício Vitorino, mestre em cultura russa e jornalista do g1 Santa Catarina. Renata Lo Prete conversa também com Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP, para entender o papel de Donbass (região onde ficam as duas províncias) na pauta de negociações por um cessar-fogo. Ele aponta os bombardeios à capital, Kiev, nesta quarta-feira como evidência de que Moscou não quer paz. Mas avalia que as dificuldades encontradas até aqui podem mesmo levar Putin a abandonar “demandas maximalistas” e se concentrar em retirar da Ucrânia o leste e a “ponte terrestre” que liga a região à Crimeia, anexada pelos russos em 2014.

Mar 31, 202226 min

Ep 675O 'pacote verde' nas mãos do STF

São sete ações que o plenário do Supremo Tribunal Federal começa a examinar nesta quarta-feira. Cada qual com seu objeto, todas contestam o desmonte de políticas de preservação ao longo do governo Bolsonaro. Para Maurício Guetta, consultor do Instituto Socioambiental, trata-se de julgamento histórico, por levar o enfrentamento das mudanças climáticas à mais alta corte brasileira, a exemplo do que vem ocorrendo em outros países. Na conversa com Renata Lo Prete, o representante do ISA recomenda prestar especial atenção à ADPF 760, primeira das sete em pauta. Uma “ação-caminhão”, resume o ambientalista, “que abrange praticamente todos os tópicos trabalhados nas demais". E que reivindica, antes de mais nada, a retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia. Diante do atual alinhamento entre Executivo e Congresso nessa área - e da inércia da Procuradoria-Geral da República - os olhos se voltam para o Supremo como última esperança de interromper a marcha da destruição.

Mar 30, 202221 min

Ep 674O tapa que roubou a cena no Oscar

Era para ser a festa que marcaria a retomada da indústria do cinema, depois de dois anos de estragos e adaptações por causa da pandemia. As estatuetas, porém, foram eclipsadas pelo incidente envolvendo o ator Will Smith e o comediante Chris Rock - o primeiro agrediu o segundo por fazer uma piada de mau gosto com o cabelo da mulher de Smith, curtíssimo em razão de uma doença. Diante da imensa repercussão, a Academia condenou a atitude de Smith, anunciando uma “revisão formal” do caso. E ele mesmo - vencedor pela atuação no filme “King Richard”- divulgou um pedido de desculpas. Para discutir os limites do humor, a questão racial e o espírito do tempo, Renata Lo Prete recebe Helio de la Peña, um dos criadores do grupo Casseta e Planeta. “Will Smith é maior do que este episódio e hoje está sendo reduzido a ele", lamenta o humorista, admirador também do trabalho de Chris Rock. Mesmo reprovando o comentário dele sobre Jada Pinkett-Smith, Helio considera que Will teria conseguido resultado muito melhor defendendo a mulher com palavras. Helio fala ainda da reverberação nas redes sociais: “Hoje em dia tem muito essa onda do comentário sobre o comentário, da opinião sobre a opinião”.

Mar 29, 202222 min

Ep 673O futuro do dólar no mundo

Cerca de 90% das transações cambiais do planeta usam a moeda americana, que responde por quase dois terços das reservas de todos os Bancos Centrais. Uma dominância que data do fim da 2ª Guerra e se tornou completa a partir da década de 70. E que agora está sujeita a debate, na esteira das sanções econômicas impostas à Rússia por ter invadido a Ucrânia. Além das reações de Moscou, movimentos recentes feitos por países como Arábia Saudita e Índia colocam em pauta a perspectiva de “desdolarização” do sistema financeiro internacional. Mas estamos longe disso, avalia o professor Ernani Torres, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em conversa com Renata Lo Prete, ele resgata o histórico da ascensão do dólar, a partir dos acordos de Bretton Woods (1944), e explica que mesmo o yuan chinês ainda não faz cócegas nessa hegemonia. “O sistema internacional é parte do americano”, diz, e não o contrário. Participa também do episódio Solange Srour, economista-chefe de Brasil do Banco Credit Suisse. É ela quem trata da trajetória de queda do dólar aqui, fruto da valorização que a guerra provocou nas commodities que exportamos e da contínua elevação da taxa básica de juros pelo BC.

Mar 28, 202222 min

Ep 672Água como arma de guerra

O alerta partiu da União Europeia: em lugares como Mariupol, os russos “estão usando a ameaça de desidratação para forçar a cidade a se render”. Um expediente tão antigo em conflitos armados quanto cruel: privar a população do item mais básico de sobrevivência. Direto de Kiev, o documentarista Gabriel Chaim relata as condições de infraestrutura e abastecimento da capital no momento em que a invasão completa um mês. Por lá, a situação ainda é bem melhor do que, por exemplo, na vizinha Irpin, onde faltam “água, comida e eletricidade”. Ele resume: “só tem bomba e bala”. Renata Lo Prete conversa ainda com Guga Chacra, comentarista da Globo em Nova York, que classifica o corte no fornecimento como “crime de guerra”, praticado para “estrangular os ucranianos”. Guga traça um panorama de guerras recentes em que essa prática também ocorreu, casos da Etiópia, Líbia, Síria e Iêmen.

Mar 25, 202226 min

Ep 671O esquema dos pastores no MEC

Às portas da campanha eleitoral, vem à tona um novo “gabinete paralelo” no governo Bolsonaro. Sem cargo ou formação para tanto, Arilton Moura e Gilmar dos Santos negociavam com prefeitos a liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, revelou o jornal O Estado de S. Paulo. Com a anuência do ministro Milton Ribeiro, que, em áudio descoberto pela Folha de S. Paulo, orienta que sejam atendidos “todos os amigos do pastor Gilmar”, “um pedido especial do presidente da República”. Há anos dedicado à cobertura dessa área, o jornalista Antônio Gois (O Globo, CBN e Canal Futura) participa do episódio para explicar o que é o FNDE e que critérios devem, segundo a lei, pautar a partilha de suas verbas. Ele mostra ainda a completa anormalidade da conduta da dupla e de quem lhe deu cobertura. Renata Lo Prete conversa também com Vera Magalhães - colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura - sobre o sequestro de um dos ministérios mais essenciais da Esplanada por um grupo de interesses diretamente ligado a Jair Bolsonaro. Vera lista os possíveis crimes cometidos no caso e observa como o procurador-geral da República tenta, mais uma vez, “ganhar tempo para não fazer nada”. Enquanto isso, Milton Ribeiro balança na cadeira, cobiçada pelo Centrão - que já manda muito na pasta, mas assim teria “controle total do MEC”.

Mar 24, 202230 min

Ep 670Alckmin, o improvável que virou vice

Depois de meses de tratativas e várias opções contempladas, o ex-governador de São Paulo, um dos fundadores do PSDB, filia-se ao PSB para ser o companheiro de chapa de Lula na disputa pelo Palácio do Planalto. Uma união que fez tremer as bases do petismo, por fim enquadradas pelo ex-presidente, e emparedou antigos aliados do ex-tucano, como seu sucessor no Bandeirantes, João Doria. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista Fábio Zambeli sobre a surpreendente construção que devolveu protagonismo a um político escanteado por seus próprios correligionários depois da derrota em 2018, quando ficou em 4º lugar na corrida presidencial, com menos de 5% dos votos. E também sobre a ironia do destino: o escolhido por Lula, líder de todas as pesquisas para o pleito de outubro, foi, sob vários aspectos, um eterno estranho no ninho dos grão-tucanos - de perfil orgulhosamente modesto, à direita em questões de comportamento e mais pragmático como administrador. Analista-chefe da plataforma Jota em São Paulo, Zambeli aposta que, na campanha, Geraldo Alckmin cumprirá missões pontuais, em áreas onde transita bem, como o agronegócio. “Ele sabe que não faz sentido disputar espaço com quem está encabeçando a chapa e tem os votos", resume. Mesma lógica em caso de vitória, avalia o jornalista, lembrando que Alckmin foi um vice 100% leal a Mario Covas no governo paulista: “Lula já disse a pessoas próximas que confia nele nesse sentido”.

Mar 23, 202225 min

Ep 669Rússia x Ucrânia: guerra de exaustão

Quando o conflito começou, em 24 de fevereiro, muitos imaginavam uma “conquista rápida”, típica de situações nas quais há “grande assimetria de poderio militar”, lembra Oliver Stuenkel. Quase um mês depois, assistimos a uma “guerra de atrito”, ou “de exaustão”, na qual o exército invasor avança pela lenta asfixia do adversário e à custa de extrema violência, inclusive contra civis. Na conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais da FGV resgata a história desse tipo de enfrentamento, que remonta à 1ª Guerra Mundial. E diz que o mais trágico exemplo dele, no momento, é Mariupol, onde centenas de milhares de pessoas permanecem sitiadas, há 3 semanas, progressivamente privadas de água, comida e energia elétrica. Mesmo depois de reduzir a cidade portuária a escombros, os russos viram negado, nesta segunda-feira, seu ultimato para que o governo ucraniano entregasse Mariupol. Um impasse alimentado por um paradoxo, explica Stuenkel: as cenas de horror tendem a alavancar a ajuda externa à Ucrânia e, portanto, sua capacidade de resistir, mais um sinal de que a guerra está longe do fim.

Mar 22, 202223 min

Ep 668Arte e guerra: de Tolstói à Ucrânia

Afastamentos voluntários e compulsórios. Apresentações suspensas. Obras e autores cancelados. Tudo isso se vê em resposta à invasão, num boicote tão ou mais global que o das sanções econômicas, capaz de descartar inclusive artistas que, em seu tempo, foram perseguidos exatamente por se opor ao autoritarismo e a aventuras militares. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe o jornalista e tradutor Irineu Franco Perpétuo, autor de “Como Ler os Russos” (Todavia), para entender o que se perde com esse movimento. Ele começa por falar de Liev Tolstói, o pacifista que escreveu “Guerra e Paz” e “Contos de Sebastopol” - este baseado em sua experiência na Guerra da Crimeia (1853-1856). Ainda nos clássicos, trata de nomes que por si só representam o entrelaçamento histórico dos países agora em conflito - como Gogol, nascido no que foi o Império Russo e hoje é uma cidade ucraniana. Nesse sentido, Irineu aponta como especialmente emblemático o caso da Nobel de Literatura em 2015 Svetlana Alexijevich, cidadã bielorrussa nascida na Ucrânia e que escreve em russo (“Vozes de Tchernóbil” e “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, entre outros). Música e cinema também fazem parte desta conversa sobre o lugar da arte em tempos de guerra.

Mar 21, 202225 min

Ep 667O que poderia parar a guerra

Enquanto o mundo assiste à tragédia humanitária em cidades ucranianas, sinais contraditórios emergem da mesa de negociação que reúne representantes de Kiev e de Moscou. Organismos multilaterais protestam contra ataques a alvos civis em termos cada vez mais duros. As palavras, porém, não têm surtido efeito. Para entender o que poderia interromper a destruição, Renata Lo Prete conversa com o historiador, diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero, que recomenda tomar com cautela as declarações de autoridades participantes desses encontros. “Em geral, a negociação só evolui quando os dois lados têm mais a perder do que a ganhar com a continuidade do conflito”, diz Ricupero, que foi embaixador do Brasil em Washington. Ainda não é o caso da Rússia, diz ele, muito superior ao oponente em termos militares. Mas pode vir a ser, completa, porque a guerra custa caro, e vai se revelando mais longa e difícil do que imaginava o Kremlin. Na entrevista, Ricupero enumera os principais pontos que, em seu entender, eventualmente conseguiriam balizar um cessar-fogo - da “neutralidade” à aceitação de perda de território por parte dos ucranianos. Não descarta, porém, que a Rússia aceite um acordo apenas para ganhar tempo e mobilizar mais tropas. Estabelecendo comparações com outras guerras, ele afirma que, desta vez, Putin involuntariamente fortaleceu os laços da Otan, desencadeou o rearmamento europeu e “reativou como nunca o sentimento nacional dos ucranianos”.

Mar 18, 202228 min

Ep 666Bolsonaro: sinais de recuperação eleitoral

Depois de longo período de desgaste, o presidente da República retoma fôlego em pesquisas sobre o pleito de outubro. Embora continue ampla, a distância que o separa do primeiro colocado, Luiz Inácio Lula da Silva, diminuiu um pouco, movimento que analistas atribuem a pelo menos dois fatores: população com menos medo da pandemia (ainda um dos quesitos de maior desaprovação a Bolsonaro) e iniciativas do governo de impacto direto para os mais pobres, notadamente o Auxílio Brasil. Neste episódio do podcast, Renata Lo Prete conversa com o cientista político Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Ipespe e professor-colaborador da Universidade Federal de Pernambuco. Ele avalia as chances de consolidação dessa curva ascendente, considerando as incógnitas no front que, a seu ver, será determinante na disputa de 2022: o da economia, que, com a guerra na Ucrânia, ficou ainda mais vulnerável. Para Lavareda, o novo status de Bolsonaro estreita bastante o caminho que poderia levar algum nome da chamada “terceira via” a tomar-lhe o lugar no segundo turno. É esse ponto do calendário que o presidente já mira, tentando vitaminar o antipetismo, do qual foi o grande beneficiário em 2018. Missão complexa, prevê Lavareda: “Esta eleição será necessariamente sobre o governo dele”.

Mar 17, 202222 min

Ep 6653ª Guerra: do que estamos falando

Poucos dias depois de Joe Biden reafirmar que um eventual ataque a país integrante da Otan terá resposta defensiva, os russos bombardearam uma base militar ucraniana a apenas 25 km da fronteira com a Polônia - que integra a aliança. A proximidade entre os dois eventos, somada à escassez de progressos no campo diplomático, faz crescer o alerta em torno da possibilidade de o conflito na Ucrânia ganhar dimensão planetária. Um cenário que o professor de Relações Internacionais Tanguy Baghdadi considera improvável, porque indesejado por ambos os lados e também pelo potencial destruidor, que transformaria as duas primeiras Guerras Mundiais em mero “ensaio". Ele reconhece, porém, que alguns elementos característicos de um conflito global - como envolvimento, em algum grau, de todas as potências - estão presentes na atual conjuntura. E que a situação pode sair de controle. Direto de Lviv, o jornalista Lucas Ferraz explica a posição estratégica da cidade e da região onde ela fica: “O oeste ucraniano é a porta de saída dos refugiados e a porta de entrada de ajuda humanitária e equipamentos militares”. A única que restou: as fronteiras norte, leste e sul do país já estão quase que inteiramente sob domínio russo.

Mar 16, 202231 min

Ep 664Pandemia: por que ainda não acabou

Em março de 2020, a OMS conferiu à doença provocada pelo então “novo” coronavírus o status que ela tem até hoje. O mundo acumula mais de 6 milhões de mortes e quase 500 milhões de casos conhecidos de Covid, mas a curva descendente dos indicadores no Brasil, depois do arrastão produzido pela variante ômicron, faz com que muita gente desconsidere duas realidades. Primeiro, a de que ainda morrem, em média, mais de 400 pessoas por dia da doença no país. Segundo, a escalada de contágio que se vê no momento em regiões da Europa e da Ásia - sobretudo na China. A esta altura, está claro que “o vírus vai ficar entre nós”, afirma a epidemiologista Ethel Maciel, e que precisamos agir para “reduzir os danos”. Em entrevista a Renata Lo Prete, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo aponta as principais omissões do governo brasileiro nessa tarefa: ausência, até hoje, de um programa consistente de testagem e falta de medicamentos eficazes contra a Covid (e já aprovados pela Anvisa) no SUS. Fora a “intensa campanha de desinformação”, liderada pelo presidente e pelo ministro da Saúde, contra a vacina pediátrica. Tudo somado, e derrubada a maioria das medidas de restrição, resta ao brasileiro analisar por si “como se comportar”. No caso específico das máscaras, Ethel recomenda usar em pelo menos 3 situações, mesmo sem a obrigatoriedade: ambientes pouco ventilados, aglomerações e na presença de pessoas pertencentes a um dos grupos de maior vulnerabilidade.

Mar 15, 202224 min

Ep 663Rússia: o fechamento do regime

Enquanto proliferam imagens da destruição na Ucrânia, está cada vez mais difícil obter informações confiáveis sobre o que acontece no país invasor. Em paralelo à ofensiva militar, o Kremlin acelerou o processo de silenciamento da imprensa independente, transformou os veículos oficiais em máquinas de propaganda e obteve do Congresso uma nova lei de censura, que permite encarcerar alguém simplesmente por chamar a guerra pelo verdadeiro nome, e não de “operação especial”. Quem protesta enfrenta a mão pesada das forças de segurança, que têm prendido até idosos e crianças em manifestações. “Regimes autoritários se sustentam em três pilares”, lembra Vicente Ferraro, mestre em ciência política pela Escola Superior de Economia de Moscou: ideologia (desumanização do adversário e união contra suposta ameaça externa, por exemplo), repressão e sensação de bem-estar material por parte da população. O professor da USP explica que os dois primeiros elementos estão presentes na conjuntura russa — e podem trazer ganhos de popularidade a Vladimir Putin, como já ocorreu na esteira de outras aventuras bélicas sob seu comando. Mas a prosperidade do início dos anos 2000, época do conflito na Chechênia, não existe agora. A Rússia é o país mais sancionado do mundo, e a população já começa a pagar por isso. Na avaliação de Vicente, é cedo para saber se a Rússia migrará da autocracia para o totalitarismo puro e simples. “Há um um esforço do governo para obter controle total da sociedade, mas ele ainda não tem capacidade de exercê-lo plenamente”.

Mar 14, 202224 min

Ep 662Chile: a largada do governo Boric

Foram quase três meses desde a vitória nas urnas. De lá até a posse, nesta sexta-feira, o ex-líder estudantil Gabriel Boric colecionou ineditismos, começando pela própria idade. Com 36 anos, é o mais jovem ocupante do Palácio de La Moneda - e o primeiro sem origem em nenhum dos dois grupos políticos que se revezaram no poder desde o fim da ditadura militar, em 1990. Montou um ministério diverso, de maioria feminina e ampla troca de guarda geracional. “É uma novidade bastante grande para a região, o que cria expectativa”, sintetiza Claudia Antunes, editora de Mundo do Jornal O Globo. Na conversa com Renata Lo Prete, ela analisa também a decisão de indicar, para o comando da economia, o presidente do Banco Central do agora ex-governo de Sebastián Piñera. Um movimento de composição de forças e aceno ao mercado, diz a jornalista, que deve ser entendido à luz de duas circunstâncias deste início de mandato: falta de maioria no Congresso e uma Assembleia Constituinte ainda em curso. É nesse ambiente volátil que Boric terá que atender, como ele próprio admite, “pelo menos parte” das demandas por mais serviços públicos e menos desigualdade social que o levaram à Presidência.

Mar 11, 202220 min

Ep 661X-Tudo: projeto para liberar geral em terras indígenas

O apelido vem do amplo espectro do texto enviado pelo governo Bolsonaro ao Congresso. Além de garimpo, autoriza construção de hidrelétricas, exploração de petróleo e até cultivo de transgênicos. “É a pior” de quase duas dezenas de propostas apresentadas para regulamentar a mineração nessas áreas desde que entrou em vigor a atual Constituição, em 1988. A avaliação é de Marcio Santilli, que foi deputado constituinte, presidente da Funai e um dos fundadores do Instituto Socioambiental. “Uma aberração”, continua ele, patrocinada pelo Palácio do Planalto com apoio engajado do comando da Câmara - nesta quarta-feira, a Casa aprovou urgência para levar o PL 191 a votação. Se for aprovado, vai parar no Supremo, aposta Marcio, tão flagrantes são suas inconstitucionalidades. E isso reforçará o ambiente de insegurança jurídica, benéfico apenas à “garimpagem predatória”, que “já vem barbarizando” essas terras há muito tempo e ao arrepio da lei. Para Alessandra Munduruku, primeira mulher a presidir a Associação Pariri, que representa aldeias do médio Tapajós, trata-se de “um projeto de morte”, ao qual ela promete resistir: “Jamais vou me ajoelhar diante de quem quer destruir meu povo”.

Mar 10, 202228 min

Ep 660Deu a louca nas commodities

O anúncio do boicote dos EUA a petróleo e gás da Rússia é o novo motor de uma escalada de preços que começou ainda antes da invasão à Ucrânia e já levou o barril a quase US$ 140, recorde em 14 anos. Um movimento em linha com “a narrativa” da Casa Branca em resposta à guerra, mas de efeito interno limitado, já que os americanos compram menos de 10% de seus estoques dos russos. Quem pondera é a professora da FGV Fernanda Delgado, observando que países europeus, mais dependentes de Moscou nessa matéria, optaram até aqui por outras sanções. Em entrevista a Renata Lo Prete, a diretora-executiva do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) analisa o esforço diplomático dos EUA para encontrar alternativa inclusive com desafetos, como Venezuela e Irã, além de tentar convencer a Arábia Saudita a aumentar sua produção. E opina que a crise atual pode acabar atrasando a tão desejada transição para energia limpa. “O investimento de longo prazo seguirá com essa preocupação, mas, no momento, segurança é mais importante do que transição ou preço”, diz ela, que prevê aumento da demanda por carvão, por exemplo. Participa também Lucilio Alves, professor da Faculdade de Agricultura da USP, para tratar de outras commodities em disparada, em especial trigo e milho. Juntas, Rússia e Ucrânia responderam por 30% e 18%, respectivamente, das transações globais desses dois produtos nos últimos cinco anos. Enquanto países “buscam outros fornecedores”, a inflação dos alimentos seguirá pressionada, ele afirma, lembrando que o Brasil depende da importação do trigo.

Mar 9, 202225 min

Ep 659Crimes de guerra: violações da Rússia

Imagens de ataques a alvos civis e de áreas residenciais alvejadas na Ucrânia correm o mundo. É o caso do vídeo, feito por uma equipe do jornal The New York Times, do momento em que uma mãe e seus dois filhos são mortos por um explosivo quando tentavam fugir do cerco russo a Irpin, cidade próxima à capital, Kiev. É uma “guerra em tempo real”, afirma Flavia Piovesan, ex-secretária nacional de Cidadania e ex-integrante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Ela se refere ao contínuo compartilhamento desses registros, do qual resulta um fenômeno que o jornalista americano Thomas Friedman chama de “globalização do repúdio moral” à invasão. Em entrevista a Renata Lo Prete, ela lembra que mesmo conflitos armados precisam respeitar “limites éticos e jurídicos”. Aperfeiçoado desde o fim da Primeira Guerra Mundial, esse regramento está hoje inscrito no Estatuto de Roma, assinado em 1998, e os casos afeitos a ele são analisados pelo Tribunal Penal Internacional. No entender da professora da PUC-SP, o que está acontecendo na Ucrânia dá margem a investigação e processo por crimes de guerra, contra a humanidade e de genocídio. Ela reconhece que não será simples fazer Vladimir Putin se curvar ao TPI, mas defende a importância de a comunidade internacional perseguir esse objetivo: “Para que não sejam punidos apenas os executores, mas os arquitetos da destruição”.

Mar 8, 202223 min

Ep 658Guerra na Ucrânia: oligarcas na mira

Alexei Mordashov, Alisher Usmanov, Igor Sechin. São alguns dos homens que construíram imensas fortunas privadas a partir dos escombros do Estado soviético, no início dos anos 90. Um “processo obscuro”, resume o jornalista Jaime Spitzcovsky, azeitado por laços estreitos com o governo russo, que lhes permitiu dominar setores como energia, mineração, telecomunicações e finanças. Na conversa com Renata Lo Prete, o ex-correspondente em Moscou, hoje colunista da Folha de S.Paulo, explica a origem, as relações e como essa elite foi enquadrada internamente. “Desde o início, o projeto do Putin é claro: restaurar o poder do Kremlin”, corroído nos anos de Mikhail Gorbatchov e Boris Yeltsin. Agora, com sanções que vão do congelamento de fundos ao sequestro de alguns dos apartamentos e iates mais valiosos do mundo, os EUA e seus aliados pretendem indispor esses bilionários com Moscou. Ainda é cedo, avalia Jaime, para saber se vai funcionar. “O que já dá para dizer é que a vida deles vai ficar bem menos confortável”, ironiza. Participa também do episódio Rodrigo Capelo, jornalista do ge e do Sportv. Especializado na cobertura de negócios do esporte, ele analisa a ascensão dos oligarcas russos no futebol e, em particular, a trajetória de Roman Abramovich, que na esteira das sanções anunciou a decisão de vender o Chelsea, clube inglês que comprou em 2003.

Mar 7, 202223 min

Ep 657Guerra na Ucrânia: a ameaça nuclear

Vladimir Putin prometeu “consequências nunca vistas antes” a quem tentar impedir o avanço de suas tropas. E já acenou explicitamente com uma carta que provoca o maior de todos os medos. Afinal, ninguém supera a Rússia hoje em número de ogivas - são mais de 6 mil. Na avaliação de Vitélio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, trata-se da situação mais perigosa desde os “13 dias que abalaram o mundo”, durante a Crise dos Mísseis, que envolveu EUA, União Soviética e Cuba em 1962. Na conversa com Renata Lo Prete, ele explica que o arsenal global diminuiu 80% com o fim da Guerra Fria, mas se tornou mais destruidor - as atuais bombas são milhares de vezes mais poderosas do que as lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Fora o descontrole: menos respeito aos tratados em vigor, mais integrantes no clube dos países que têm esse tipo de armamento. Apesar da ausência de limites demonstrada por Putin na operação ucraniana, Vitélio considera que o presidente russo tenta tirar os adversários do prumo, mas não executará uma ameaça que representaria a “destruição total”. Para o professor, “mesmo na guerra os líderes tomam decisões racionais”.

Mar 4, 202222 min

Ep 656Notícias de Kiev, por Gabriel Chaim

No momento em que os russos intensificam os ataques contra as principais cidades ucranianas, O Assunto ouve Gabriel Chaim, um dos poucos jornalistas brasileiros a permanecer na capital do país. Fotógrafo e documentarista, com larga experiência na cobertura de guerras, ele chegou a Kiev dias antes da invasão, encontrando um centro urbano repleto de vida e história, que o fez lembrar de Praga, na República Tcheca. Não mais: o cenário que Gabriel descreve agora mistura o desespero de quem tenta ir embora e as estratégias de sobrevivência de quem decidiu ou simplesmente se resignou à ideia de ficar. Na principal estação ferroviária, milhares de pessoas que não sabem “qual será o próximo trem e para onde ele vai”. Em residências semidestruídas pelos bombardeios, “principalmente idosos, com menos mobilidade e menos recursos” para fugir. O momento “é crítico”, diz Gabriel, referindo-se ao cerco à capital e aos limites da resistência da população. “Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã”.

Mar 3, 202234 min

Ep 655Guerra na Ucrânia: os refugiados

Em uma semana de invasão russa, mais de 600 mil pessoas deixaram o país - de trem, carro e até mesmo a pé. A ONU e a União Europeia estimam que esse número pode chegar a 4 milhões em questão de dias. Uma tragédia humanitária narrada neste episódio por dois repórteres, um de cada lado da fronteira. O fotojornalista André Liohn conversa com Renata Lo Prete a partir de Lviv, cidade a cerca de 60 km da Polônia que virou um “lugar de separação”. Como o governo tornou obrigatória a permanência de homens entre 18 e 60 anos, muitas famílias precisam seguir viagem partidas. “Uma menina, criança, perguntou para o pai: 'numa guerra todo mundo tem que lutar?’” André completa o relato: “Ele respondeu apenas que mulheres e crianças não, mas percebeu que a filha havia compreendido que eles se separariam". Da Polônia, onde os que têm sucesso na fuga chegam exaustos, depois de jornadas que duram dias, em condições precárias e sob frio gélido, fala o correspondente da TV Globo Rodrigo Carvalho. O país já recebeu mais de 370 mil pessoas, numa política de braços abertos no momento adotada também por Hungria, Moldávia, Eslováquia e Romênia - e que contrasta com barreiras impostas, no passado recente, a refugiados vindos da África e do Oriente Médio. Rodrigo resgata histórias duras, “que levamos tempo para processar”, como a de um idoso que mal conseguia caminhar com as próprias pernas no posto de imigração. O jornalista descreve também o fluxo contrário - muito menor, mas mesmo assim surpreendente. São ucranianos vindos de outras partes da Europa para combater em seu país de origem. Ou casos como o da mulher que disse a Rodrigo estar voltando, mesmo ciente do perigo, para cuidar da mãe idosa em Lviv.

Mar 2, 202229 min

Ep 654Guerra na Ucrânia: asfixia econômica da Rússia

Cinco dias depois dos primeiros ataques ao território ucraniano, Moscou sente o aperto total das sanções. Enquanto o exército de Vladimir Putin tenta tomar Kiev, o Banco Central russo vê congelada boa parte de suas reservas internacionais, hoje estimadas em US$ 630 bilhões. Fora a exclusão do Swift, sistema internacional que interliga pagamentos ao redor do mundo. Para conter a queda livre das ações, a Bolsa de Moscou foi fechada - e assim permanecerá nesta terça-feira. O rublo mergulhou 30% frente ao dólar, e o BC dobrou a taxa de juros, na tentativa de estancar a fuga de moeda e a corrida aos bancos. “Neste momento, o BC está encurralado”, explica Miriam Leitão em conversa com Renata Lo Prete neste episódio. Comentarista da Globo, apresentadora da GloboNews, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN, ela detalha como, mesmo com a provável ajuda da China, a Rússia não conseguirá impedir que seu sistema financeiro tombe diante da ação coordenada dos Estados Unidos e de seus aliados, especialmente na Europa. "A Rússia está exposta porque os países entraram em acordo para atacá-la ao mesmo tempo". Miriam também fala dos efeitos colaterais, que serão sentidos inclusive no Brasil.

Mar 1, 202223 min

Ep 653Carnaval e pandemia: há um século e hoje

Em 2021, uma segunda onda feroz, quando a vacinação contra a Covid ainda engatinhava, impediu qualquer folia. Neste ano, a variante ômicron cuidou de adiar novamente a retomada plena da festa. Mas houve uma vez, muito tempo atrás, em que foi possível sair de uma tragédia sanitária e social direto para a celebração da vida. Uma história -ou “coleta de histórias”, como ele prefere- trazida pelo jornalista David Butter no recém-lançado livro “De Sonho e de Desgraça: o Carnaval Carioca de 1919”. Até onde dá para separar mito de realidade nessa matéria, ainda mais a tamanha distância no tempo, David concorda: aquele foi, sim, um Carnaval de extravasamento e superação no Rio de Janeiro. “Uma reunião na rua de sobreviventes” da gripe espanhola, que em meados de 2018 contaminou mais da metade da população, matando, em registros sabidamente subestimados, 15 mil pessoas, numa cidade então habitada por menos de 1 milhão (hoje são cerca de 6,8 milhões). Na conversa com Renata Lo Prete, David explica de que maneiras a memória da doença superada se fez presente nas marchinhas e nas fantasias. E aponta inovações introduzidas naquele ano que chegaram até os dias atuais, como o Cordão da Bola Preta. Ao comparar o efeito catártico do Carnaval de 1919 às limitações que o coronavírus ainda impõe, ele nota que, agora, há uma “desigualdade no alívio”, por enquanto privilégio de quem “pode pagar ingresso” em eventos fechados. O episódio tem participação especial da apresentadora da GloboNews Maria Beltrão, lendo trechos de jornais e outros documentos da época.

Feb 28, 202230 min

Ep 652Guerra na Ucrânia: aberta a caixa de Pandora

Depois de meses estacionando tropas na fronteira, a Rússia fez o que os Estados Unidos repetidamente disseram que ela faria. Uma invasão em ampla escala do território ucraniano, do tipo que a Europa não via desde o fim da 2ª Guerra Mundial, há quase 8 décadas. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel explica que o ataque em curso marca o fim do sistema unipolar que vigorou no mundo desde a dissolução da União Soviética, no início dos anos 90. A despeito das palavras duras e de novas sanções econômicas, os americanos e seus aliados da Otan nada farão pela Ucrânia do ponto de vista militar. “A não ser, mais adiante, armar a resistência”, diz Stuenkel, lembrando que os EUA seguiram essa trilha no Afeganistão, na época da ocupação soviética, e mais tarde colheram resultado amargo. O professor chama a atenção para a retórica “pré-2ª Guerra” de Putin, que rasgou o princípio fundador da estabilidade no continente: respeito às fronteiras. Isso abre uma “caixa de Pandora” da qual sairá, além de uma nova onda de refugiados, muita instabilidade global.

Feb 25, 202232 min

Ep 651Ucrânia invadida: as sanções contra a Rússia

Enquanto a Rússia avança sobre o leste da Ucrânia, a comunidade internacional vai anunciando represálias econômicas. “Elas são um tipo de pressão, sem caráter bélico”, resume Fernanda Magnotta, pesquisadora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Neste episódio, a professora começa por resgatar exemplos históricos do uso desse instrumento de dissuasão, destacando diferentes medidas impostas pelos Estados Unidos contra Cuba, Iraque e Irã, além da própria Rússia, quando esta anexou a Crimeia, em 2014. Se naquela ocasião Vladimir Putin conseguiu se virar sem maiores concessões, agora isso é ainda mais provável, explica Fernanda, pelo menos no curto prazo, porque o governo russo vem aumentando sua poupança em ouro e hoje tem patamar confortável de reservas internacionais. Providências que lhe “dão fôlego” caso tenha que socorrer bancos oficiais, integrantes da elite econômica e parlamentares atingidos pelas sanções. Na conversa com Renata Lo Prete, Fernanda avalia o alcance desses bloqueios financeiros e comerciais, apontando um paradoxo: quanto mais amplos, maior a chance de atingirem seu objetivo coercitivo; por outro lado, maior a probabilidade de um efeito bumerangue, com perdas não apenas para a Rússia. Esse “movimento em cadeia” tende a atingir, de imediato, os preços da energia e dos alimentos em escala global, com “mais pressão inflacionária”.

Feb 24, 202221 min

Ep 650Militares e urnas: que confusão é essa?

Em nova ofensiva contra o sistema de votação que o levou à Presidência da República, Jair Bolsonaro distorceu informações ouvidas de um general indicado pelo governo para uma comissão de transparência criada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Na esteira da tentativa de golpe no 7 de Setembro, o TSE fez, além desse, um outro movimento para se aproximar dos militares: convidou o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva para assumir a direção administrativa da corte, oferta da qual ele acabou declinando, por motivos ainda não completamente esclarecidos. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista Bernardo Mello Franco analisa a sucessão de eventos que contribuiu para dar às Forças Armadas um protagonismo no processo eleitoral brasileiro incompatível com o regime democrático. Colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, ele lembra que o papel delas nessa matéria é essencialmente de apoio logístico, não lhes cabendo coordenar nem fiscalizar nada. Até porque, completa Bernardo, “os militares não são observadores desinteressados”, menos ainda neste governo, que lhes garantiu cargos em abundância e uma série de demandas atendidas. Ele também avalia as condições para se desativar, agora, uma armadilha para a qual a Justiça Eleitoral involuntariamente contribuiu. Convencido de que, se perder, Bolsonaro tentará desrespeitar a vontade das urnas, Bernardo recorre à comparação com Donald Trump: “Lá o golpe não deu certo, as Forças Armadas não deixaram. E aqui, como seria?”

Feb 23, 202223 min

Ep 649Putin avança sobre o leste da Ucrânia

Dois movimentos do Kremlin, nesta segunda-feira, colocaram em novo patamar uma crise que tem repercussões mundiais. Primeiro, o reconhecimento da independência de duas regiões separatistas no território ucraniano: Donetsk e Luhansk. Horas depois, o anúncio de que elas receberão tropas russas, em missão de “pacificação”. Com isso, Vladimir Putin “mexeu completamente no tabuleiro” de um jogo que vinha se desenrolando há meses na base da troca de ameaças entre Moscou e Washington, em meio a tentativas de mediação de líderes europeus. É o que explica, na conversa com Renata Lo Prete, o comentarista da TV Globo em Nova York Guga Chacra. Ao analisar o discurso feito por Putin, o jornalista observa que não se trata mais de exigir que a Ucrânia permaneça fora da Otan, mas de algo muito maior: questionar a própria existência do país como tal, advogando implicitamente a restauração geral do mapa que existia antes da dissolução da União Soviética, no início da década de 90. A partir de agora, analisa, o diálogo entre Putin e Joe Biden fica cada vez mais “complicado e improvável”. Para Guga, os próximos passos do governo de Volodymyr Zelensky serão determinantes para o desenrolar do conflito. Se a Ucrânia revidar, “poderemos caminhar para uma guerra aberta”.

Feb 22, 202220 min

Ep 648Os 50 anos do 'Clube da Esquina'

Foi um lugar -o encontro das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte. E também um movimento que reuniu talentos excepcionais, como os irmãos Lô e Marcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brandt, guiados “pela inquietação e pela genialidade” de sua figura maior, Milton Nascimento. Quem relembra é o jornalista e antropólogo Paulo Thiago de Mello, autor de um livro sobre o Clube da Esquina e seu principal fruto: o disco homônimo lançado em março de 1972, divisor de águas na história da música brasileira. Um álbum duplo (dos primeiros a sair no país) de sonoridade sofisticada e caráter sinfônico, no qual se mesclam influências que vão das raízes mineiras aos Beatles. Na conversa com Renata Lo Prete, Paulo Thiago resgata o contexto histórico em que vieram à luz canções como “Cais”, “Trem Azul”, “Um Gosto de Sol” e “Nada Será Como Antes”. Elas refletem “a angústia e a asfixia” da pior fase da ditadura militar. Sinal disso, diz ele, é a presença de estrada em quase todas as letras, como um “portal para um universo que está no interior, e que só quem bota a mochila nas costas poderá encontrar". Chamado a comparar “Clube da Esquina” a outros discos seminais que saíram naquele ano (como “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos), Paulo Thiago afirma que Milton e seus amigos levaram “o interior para a beira do mar". “A revolução deles foi musical”.

Feb 21, 202237 min

Ep 647Celular roubado: muito além do aparelho

Quem ainda não foi vítima tem pelo menos um familiar ou conhecido que já foi. Ver o telefone ser levado por ladrões, em abordagens cada vez mais violentas, vai se tornando cena recorrente nas cidades brasileiras. O choque do momento pode se desdobrar em meses de transtornos, porque ali está armazenada boa parte da vida da pessoa, inclusive o que mais interessa aos criminosos: dados financeiros. Repórter da Globo em São Paulo, César Galvão descreve neste episódio o modus operandi das quadrilhas e por que seus integrantes se expõem a risco em ações espetaculosas, que incluem quebrar vidros e “mergulhar” dentro de carros em pleno congestionamento: “eles querem o celular desbloqueado” para “ter acesso a senhas e contas bancárias”. César mostra ainda o despreparo de parte da polícia para lidar com um crime que atinge simultaneamente vários tipos de patrimônio. Renata Lo Prete conversa também com Thiago Ayub, especialista no desenvolvimento de ferramentas de segurança digital. Ele fala da responsabilidade das empresas fabricantes e recomenda “pensar na proteção do celular assim como pensamos na proteção da nossa casa”, tamanha a importância das informações que ele carrega.

Feb 18, 202220 min

Ep 646Desastres naturais: adaptação urgente

O maior volume de chuva em 24 horas registrado em quase um século de medições na região serrana do Rio de Janeiro. A água deslocou imensos blocos de terra dos morros, transformou as ruas de Petrópolis em rios de lama e foi destruindo tudo pelo caminho, numa tragédia que, na madrugada de quinta-feira, já passava de uma centena de mortos. “Água acima de 2 metros. A sensação era a de estar sendo engolido”, descreve o André Coelho, repórter da GloboNews. Do Morro da Oficina, um dos pontos mais afetados, ele contou a Renata Lo Prete o que viu ao chegar à cidade. Natural da vizinha Teresópolis, André detalha a geografia local, explicando os fatores de vulnerabilidade: “Encosta muito grande de rochas, vegetação insuficiente e ocupação desordenada”, uma mistura que, somada à omissão do poder público, faz com que os episódios de devastação se repitam. Participa também o economista Sérgio Margulis. Um dos autores do estudo "Brasil 2040”, ele lista providências que os governos precisam tomar. A primeira, afirma, é “estar atento e levar muito a sério” os impactos das mudanças climáticas. Do ponto de vista de infraestrutura, “as soluções são conhecidas e, agora, têm que ser implementadas”, e as autoridades deveriam estar dispostas a “pagar qualquer coisa para não deixar acontecer de novo”.

Feb 17, 202222 min

Ep 645Lula em hora de vento a favor

A pouco mais de sete meses da eleição, a liderança nas pesquisas segue folgada e estável. Dentro do PT, diminui a resistência à escolha do ex-tucano Geraldo Alckmin para vice. Uma conjuntura a que agora se somam duas novidades: um manifesto em defesa da candidatura, assinado por apoiadores tanto históricos quanto recentes; e uma entrevista na qual o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, avalia que o mercado financeiro já digere bem a possibilidade de vitória de Lula. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe Maria Cristina Fernandes, colunista do Valor Econômico e comentarista da Rádio CBN, para discutir esse quadro e o que pode alterá-lo. Na conversa, elas tratam também das dificuldades enfrentadas pelos nomes da chamada “terceira via” e do que esperar de Jair Bolsonaro na campanha: “Ele tentará reeditar o antipetismo, que foi a maior força eleitoral de 2018”. O problema é que há “outro fenômeno mais poderoso agora”, o antibolsonarismo.

Feb 16, 202223 min

Ep 644Violência no campo: em alta e impune

Em 2020, primeiro ano da pandemia e o último com dados consolidados disponíveis, o Brasil registrou mais de 1.500 conflitos de terra, recorde desde 1985. A Comissão Pastoral da Terra, ligada à Igreja Católica, aponta ainda aumento de 30% nos assassinatos derivados desses conflitos - crimes cuja investigação não raro dá em nada. “É uma impunidade recorrente”, afirma Carlos Lima, um dos coordenadores nacionais da CPT. Em entrevista a Renata Lo Prete, o historiador avalia de que modo as políticas do atual governo contribuem para disseminar, entre os agressores, a certeza de que “matar índio, quilombola e sem-terra” não resulta em condenação, menos ainda dos mandantes. A análise vem no momento em que ganha o noticiário um caso particularmente chocante: um menino de nove anos, filho de dirigente de sindicato de trabalhadores rurais, morto a tiros dentro de casa, diante da família, por homens encapuzados. O repórter Ricardo Novelino, do g1 em Pernambuco, recupera a história de Jônatas e explica o conflito em Barreiros, na Zona da Mata pernambucana.

Feb 15, 202221 min

Ep 643Amazônia ilegal: modelo de subdesenvolvimento

Dois anos e meio depois do evento que ficou conhecido como Dia do Fogo, quando criminosos se organizaram para incendiar centenas de hectares de floresta, uma área do sudoeste do Pará onde havia vegetação nativa hoje está tomada por extensa plantação de soja. “Eu consegui ver duas realidades”, conta Daniel Camargos, jornalista da organização Repórter Brasil, que esteve no local nos dois momentos. “A soja levou dinheiro, mas também violência, medo e morte”. Na conversa com Renata Lo Prete, ele narra a “expulsão” dos pequenos agricultores que, antes da destruição, seriam assentados perto da cidade de Novo Progresso (PA). Uma história, explica Daniel, de assédio para que arrendem ou vendam seus lotes, transformando-se em “laranjas da soja”. A despeito de investigações abertas pela Polícia Civil e pela PF, o que aconteceu no Dia do Fogo “entrou para a gaveta”, diz. Participa também do episódio Caetano Scannavino, coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria e integrante do Observatório do Clima. É ele que traz o contexto da “cultura da ilegalidade”, vigente em boa parte da região. “O que já era ruim agora está catastrófico”, afirma. O ambientalista explica por que deu errado: já foi desmatada uma área equivalente a duas Alemanhas e, no lugar, dois terços viraram pastagem de baixa produtividade. “É a insistência em um modelo de subdesenvolvimento”. E com consequências severas para o planeta: se fosse um país, o território que os mapas descrevem como Amazônia Legal seria um dos dez mais poluentes do mundo, tamanha sua emissão de gases do efeito estufa. “O agronegócio deveria ser o primeiro a se preocupar com as mudanças climáticas”, acrescenta Caetano. A solução, aponta, é investir no aumento da produtividade e em novas tecnologias da floresta. “Dá para tornar a Zona Franca de Manaus em um Vale do Silício da bioeconomia”.

Feb 14, 202227 min

Ep 642Bolsonaro na Rússia em meio à crise militar

O presidente brasileiro desembarca em Moscou no início da próxima semana para encontrar o russo Vladimir Putin. Na sequência, se reúne com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, em um giro de três dias numa região que vive tensão extrema: a estimativa é de que 130 mil soldados russos estejam perto da fronteira da Ucrânia, sinalizando risco de invasão iminente. Neste episódio, apresentado por Natuza Nery, o historiador Felipe Loureiro explica como a intenção de Putin ao receber Bolsonaro é mostrar “que a Rússia não está isolada” na atual crise internacional. Coordenador do curso de Relações Internacionais da USP e do Observatório da Democracia no Mundo, Loureiro avalia os significados do encontro de Bolsonaro com Putin e Orbán, dois líderes autoritários. O professor lembra como a Rússia é conhecida por interferir em eleições de outros países e alerta para o risco de a viagem servir como “laboratório” de métodos que possam causar disrupção na votação brasileira deste ano. Loureiro pontua ainda como Bolsonaro pode fazer aguar o esforço da diplomacia brasileira – que defende uma solução pacífica para o conflito entre russos e ucranianos. Segundo ele, uma eventual declaração desastrada de Bolsonaro prejudicaria a relação do Brasil com os EUA e ameaçaria até a prometida entrada do país na OCDE.

Feb 11, 202220 min

Ep 641Agrotóxicos: o que muda com o PL do Veneno

Desde 2015, o Brasil vem engordando a lista desses produtos autorizados para uso nas lavouras. Uma conta que disparou a partir de 2019 e no ano passado bateu recorde de liberações: mais de 560. Nesta quarta-feira, a Câmara aprovou o projeto de lei que facilita ainda mais a liberação. Um material extenso, “quase um código”, que “não deixa muito espaço para futuras regulamentações”, explica Rafael Walendorff. Em conversa com Renata Lo Prete, o repórter do Valor Econômico resgata a tramitação do PL e detalha os argumentos de quem o defende (“mais celeridade e segurança para o setor produtivo”) e de quem o rejeita (“abre muitas brechas e aumenta as pressões” pelo registro de mais agrotóxicos). Ele também aponta quem sai ganhando: “O Ministério da Agricultura fica com mais poder”, afirma sobre um dos pontos mais controversos do PL, que tira da alçada da Anvisa e do Ibama a decisão final sobre produtos potencialmente danosos à saúde humana e ao meio ambiente. “Vai ser um desastre”, prevê Luiz Claudio Meirelles, pesquisador da Escola de Saúde Pública da FioCruz e ex-gerente de toxicologia da agência. O agrônomo alerta para os riscos de permitir que mais defensivos agrícolas cheguem à mesa dos brasileiros. E lembra que o glifosato, embora declarado cancerígeno em 2015, ainda é o agrotóxico mais usado do país. Luiz Claudio aborda também o problema do monitoramento: “caro, demorado e não garante proteção”. Para ele, o caminho é justamente o contrário do previsto na nova lei: liberar cada vez menos.

Feb 10, 202225 min

Ep 640Alfabetização: o pior dos retrocessos

No início do ano letivo, aparecem as consequências de quase dois anos de apagão no ensino presencial regular. O quadro inclui evasão elevada, déficit de vagas na rede pública e a conclusão dramática de um levantamento feito a partir de dados da Pnad Contínua (IBGE): quase 41% dos alunos de 6 e 7 anos não sabem ler nem escrever, um salto de 66% na comparação com 2019. “Antes da pandemia, já era um desafio garantir que todos aprendessem”, diz a pedagoga Anna Helena Altenfelder. “Agora, piorou”. Na conversa com Renata Lo Prete, ela explica por que o ensino remoto funciona particularmente mal para essa faixa etária, além de ampliar as desigualdades. E defende que a criação de vagas é tarefa para ontem: cada dia sem aula é “um dia a mais de direito negado e um dia a menos de aprendizado”. Participa também do episódio a educadora Sônia Madi, que discorre sobre o comprometimento do futuro do aluno e da sociedade quando falta a base (leitura e escrita). Para ela, é o sistema que precisa se adequar a essa criança carente de ajuda para aprender, e não o contrário: “Não adianta apenas saber em que pé ela está. Precisa saber como faz para ela avançar”.

Feb 9, 202221 min

Ep 639Imposto sobre combustível: o que pode mudar

Já apareceu posto com o litro de gasolina acima de R$ 8. Em vários estados, ele está custando, em média, mais de R$ 7. Desde o início do ano passado, a alta acumulada é de 77%, uma das mais sentidas pelo consumidor, com efeitos que se espalham por toda a economia. Se antes as autoridades já temiam o custo político desse processo, que dirá agora, a oito meses da eleição. Por isso, sob pressão do presidente Jair Bolsonaro, o Congresso está coalhado de projetos que prometem colocar freio aos aumentos. Quem explica cada um deles neste episódio é a jornalista da GloboNews Bianca Lima, que resume assim: “Sobram propostas, falta consenso”. Ela se refere, por exemplo, à resistência dos governadores a perder arrecadação de ICMS (responsável por 70% das receitas dos estados). Ou da equipe econômica diante da possibilidade de se criar um fundo, com recursos da União, para amortecer as oscilações do preço do petróleo no mercado internacional. Com o barril superando os US$ 90 e o real se desvalorizando, o problema não será resolvido pela via dos tributos, explica o repórter Alvaro Gribel, do jornal O Globo. “Petróleo e câmbio: são esses os dois fatores”, diz. Na conversa com Renata Lo Prete, ele faz o histórico de como diferentes governos lidaram com a Petrobras e os preços de combustíveis, desde o período Lula. E examina a viabilidade das propostas dos pré-candidatos à Presidência nessa matéria.

Feb 8, 202220 min

Ep 638Moradia primeiro: um serviço essencial

Nas grandes cidades brasileiras, é visível, quando não gritante, que há mais gente vivendo nas ruas. Em São Paulo, censo recém-divulgado pela prefeitura detectou aumento de 31% entre 2019 e o ano passado, mas nem esse percentual dá conta da realidade, pois ainda existe muita subnotificação. Um quadro em que se misturam desemprego elevado, renda em queda e inflação acentuada do aluguel. E que provoca também mudança de perfil dos desalojados: “Agora você encontra mais famílias e crianças”, alerta Samuel Rodrigues, coordenador, em Minas Gerais, do Movimento Nacional de Pessoas em Situação de Rua. Ele, que já viveu 13 anos assim, conta como a ausência de políticas públicas está impondo a milhares de pessoas a necessidade de revirar lixo em busca de alimento. “O grito pela comida, neste momento, é o mais forte”. Na conversa com Renata Lo Prete, Samuel reforça a importância de pensar em moradia “não apenas como mercadoria, mas como serviço”, dentro da ideia de “housing first”, que gerou experiências exitosas em diversos países. Também entrevistado no episódio, o pesquisador André Luiz Freitas reforça que moradia é “o eixo condutor de acesso a outros direitos”, como saúde, assistência social e cultura. Professor e coordenador do programa Polos de Cidadania, da UFMG, ele explica como a carência de dados oficiais e confiáveis sobre a população de rua descumpre responsabilidades previstas na Constituição Federal e acaba resultando em “políticas de morte”.

Feb 7, 202222 min

Ep 637A Funai contra os indígenas isolados

Somente dentro dos limites da Amazônia Legal, são mais de 100 povos que optam por viver reclusos na floresta, muitas vezes pela lembrança de um passado sangrento. “Para eles, a proteção da Funai é vital. Literalmente vital”, resume Beto Marubo, integrante da Univaja, organização que luta pelos direitos desses grupos no Vale do Javari (AM). No entanto, o órgão federal incumbido da tarefa está na berlinda por fazer o contrário: deixá-los à mercê de desmatadores e grileiros. No comando, “um presidente da Funai que não gosta da Funai e que é contra a Funai”, diz Marubo, referindo-se ao delegado da PF Marcelo Xavier da Silva, que ocupa o posto desde julho de 2019. O capítulo mais recente do desmonte é a dificuldade para renovar portarias que restringem o acesso a áreas habitadas por esses povos - e até hoje não demarcadas. “Parece que existe intenção de ganhar tempo até que se encontre ambiente para uma decisão que agrade” os invasores, diz a Renata Lo Prete a advogada Carolina Santana, assessora jurídica do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados. Morador de uma das regiões com maior presença deles, Beto alerta para a contradição de abandonar justamente quem mais precisa do zelo do Estado: “Além de covarde, é criminoso”.

Feb 4, 202229 min

Ep 636Juro básico de volta aos 2 dígitos

Em menos de 12 meses, a Selic saltou de seu piso histórico (2% ao ano, em março de 2021) para os 10,75% anunciados nesta quarta-feira, num acréscimo de 1,5 ponto percentual. E com nova alta já contratada para a próxima reunião do Copom. O movimento tende a frear ainda mais uma atividade econômica já vagarosa, mas, na avaliação Sergio Lamucci, editor-executivo do Valor Econômico, não restava alternativa: “O Banco Central está sozinho” na causa de conter a inflação. Ele analisa como, em um cenário de câmbio desvalorizado, incerteza eleitoral e risco fiscal, o BC lança mão da política monetária para tentar reduzir à metade o IPCA, o que mesmo assim manteria a inflação acima do centro da meta para 2022 (3,5%). Como dano colateral, além da redução da atividade, ele prevê a retomada da trajetória de crescimento da dívida pública. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com o economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, sobre o fim da era de juros muito baixos no mundo, que terá como próximo e importante capítulo o início, em março, de um ciclo de aperto monetário nos EUA. “O que se espera é a redução do fluxo de capitais para países emergentes, como o Brasil, e um dólar ainda mais forte”.

Feb 3, 202220 min

Ep 635O Brasil que lincha: o caso Moïse

Agredido com socos, chutes e pauladas porque, de acordo com depoimentos da família, reivindicava dois dias pendentes de remuneração no quiosque onde trabalhava, na orla da Barra da Tijuca. Moïse Kabamgabe, 25 anos, encontrou a morte no país que sua mãe escolheu para criar os filhos, de modo a afastá-los da instabilidade violenta do Congo. Um caso no qual racismo e xenofobia se misturam a uma barbaridade que tem raízes profundas em nossa história: os “justiçamentos de rua”. Estudioso do tema, sobre o qual escreveu um livro, o sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da USP, identifica no assassinato brutal de Moïse “um novo tipo de linchamento dentro de uma cultura de linchamentos”. Novo porque associado não a acusações de furto ou estupro, mais recorrentes, e sim a relações de trabalho, que vêm sofrendo um visível processo de degradação. Na conversa com Renata Lo Prete, Martins reflete sobre o “comportamento de multidão” dos linchadores. “Na multidão, o responsável pelo crime é sempre o outro”, observa. E portanto, sob a ótica dos agressores, não é ninguém. Ele lembra que linchamentos são também uma expressão de medo -do novo e do diferente. E que nossa sociedade é, com o estímulo do governo, cada vez mais “uma sociedade do medo”. Participa ainda do episódio Luana Alves, repórter da TV Globo no Rio, que conversou com a mãe e os irmãos de Moïse: “Uma família que fugiu de uma realidade difícil em sua terra natal e, mesmo assim, permaneceu unida e afetuosa”.

Feb 2, 202224 min

Ep 634A vida na Ucrânia à espera dos russos

Há 9 meses o país assiste ao deslocamento de um contingente que hoje soma mais de 120 mil soldados em suas fronteiras. Nos últimos dias, escalaram também as ameaças de Washington a Moscou, as réplicas desafiadoras de Vladimir Putin e o bate-cabeça de líderes europeus (mais expostos do que os EUA às consequências de um eventual descontrole na região). Mas, e os ucranianos? Consideram a invasão iminente? O que pensam sobre ser palco de um conflito em que se chocam interesses das grandes potências? “Uma frase que circula aqui é ‘se a gente sentir medo, eles venceram’”, conta o correspondente da Globo Pedro Vedova, enviado especial a Kiev. “É um país com mais resistência mental do que se pode imaginar”. A situação é diferente, ele explica, em áreas já ocupadas por forças russas ou pró-russas. “No leste da Ucrânia, não é tanto uma questão de se vai ou não ter invasão. É se vai ou não ser pior do que agora”. Na conversa com Renata Lo Prete, Vedova trata ainda da impopularidade do governo de Volodymyr Zelensky e das dificuldades econômicas que o país atravessa. “Antes da revolta de 2014, 12% dos ucranianos eram favor da Otan (aliança militar liderada pelos EUA). Agora, mais da metade são”.

Feb 1, 202222 min

Ep 633Deportados: o duro caminho de volta

Mais de 200 brasileiros devolvidos pelos EUA em um único voo, que chegou a Minas Gerais no último dia 26. O total já supera 3.800 desde que, em 2019, o presidente Jair Bolsonaro resolveu facilitar o processo de expulsão dos ilegais pelas autoridades americanas. Presente ao desembarque no aeroporto de Confins, o jornalista da TV Globo Dener Alano relata o que viu: predominantemente famílias, com “muitas crianças” (90, segundo a Polícia Federal). E ouviu: “São pessoas que tinham colocado uma expectativa grande. Largado emprego, feito empréstimo”. E que revelam ter sofrido, no centro de detenção no Estado do Arizona, vários tipos de agressões, além de passar frio e fome. “Uma refeição por dia”, diz Dener. Às vezes, “só bolacha”. Participa também do episódio o repórter Pedro Figueiredo, que no fim do ano passado cobriu, para o Fantástico, uma operação da Polícia Federal contra esquemas ilegais de entrada nos EUA. Entre eles, o “cai-cai”: “Basicamente, a pessoa se entrega na fronteira em troca de talvez entrar, talvez não. Se estiver acompanhada de criança ou mulher grávida, a chance aumenta”. Daí o uso crescente dos pequenos, expostos a todo tipo de risco. Pedro conta ainda o que descobriu sobre desilusão e ausência de perspectivas conversando com deportados. Um deles, depois de perder tudo o que tinha, está juntando dinheiro para tentar de novo.

Jan 31, 202220 min