
O Assunto
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Ep 582Os “sem-nada” são quase 30 milhões
Em um contexto no qual a inflação se aproxima dos dois dígitos e o desemprego nas faixas de menor renda atinge um terço da população, o mês de novembro marca o fim da última fase do auxílio emergencial e a substituição completa do Bolsa Família, criado há 18 anos, pelo Auxílio Brasil. Uma operação que vai empurrar para a pobreza mais brasileiros - a maior parte mulheres, negras, jovens, com filhos, sem trabalho formal e moradoras de periferias e favelas, como descreve Lucia Xavier, assistente social há mais de 30 anos e coordenadora da ONG Criola, que atua no Rio de Janeiro. Ela relata que vê pessoas sem condições de comprar até medicamentos e comida, sobretudo proteínas animais. “As pontas das carnes eram compradas em açougues ou mercados, mas, agora, o recurso não alcança”, conta. O economista Marcelo Neri, diretor da FGV-Social, dimensiona e analisa: a renda dos mais pobres caiu 21,5% desde o início da crise sanitária. “É um Brasil bem pior do que antes da pandemia”. E com sinais econômicos apontando para mais deterioração. Neri explica que, ao olhar para trás, observam-se duas grandes crises - a recessão brasileira de 2016 e a mais recente, agravada pela pandemia. Mas, ao mirar à frente, a paisagem aponta estagflação. E um governo incapaz de focalizar sua política social. Diante de um “apagão de informações” que atrapalha a aplicação das políticas públicas, a vulnerabilidade é a nova regra. “Os mercados gostam de estabilidade, mas são os beneficiários desses programas que precisam muito mais dela”.

Ep 581Argentina em seu labirinto pós-eleitoral
O presidente Alberto Fernandez terá que atravessar os dois anos remanescentes de mandato sem maioria no Senado e com vantagem estreita na Câmara. E, nessas condições, enfrentar uma inflação que neste ano já supera 40%, mesmo percentual da população que vive na pobreza. Em conversa com Renata Lo Prete sobre desdobramentos das eleições legislativas de domingo passado, o jornalista Ariel Palacios resgata o histórico de uma crise econômica que vem de longe, foi agravada pela pandemia e agora cobra a conta do condomínio peronista instalado no poder central. “Condomínio que mais parece um hospício”, diz o correspondente da Globo em Buenos Aires. Ele se refere, principalmente, à disputa permanente entre os apoiadores de Fernandez e de sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner - também derrotada nas urnas. Ariel analisa ainda mudanças dentro da coalizão oposicionista, com perda de poder do ex-presidente Mauricio Macri. E recomenda prestar atenção à chegada da extrema-direita ao Congresso, com a eleição do economista “antissistema” Javier Milei.

Ep 580Lockdown: agora para não-vacinados
Diante da quarta onda de infecções por Covid-19, a Áustria resolveu resgatar uma medida dos primeiros tempos da pandemia. Pelos próximos dias, vai impor restrições drásticas à circulação de pessoas, mas, desta vez, apenas aquelas que não se imunizaram. Direto de Viena, a jornalista Amanda Previdelli conta que, para entender o presente, é preciso lembrar do que aconteceu desde o verão passado: o distanciamento foi derrubado, e uma hora a vacinação “empacou”. Em parte porque, segundo ela, “o governo falhou em conversar com as pessoas”. Já efeito do isolamento recém-anunciado foi imediato: “filas para fazer teste de PCR e tomar vacina”. Participa também do episódio Bianca Rothier, correspondente da Globo na Suíça. Ela dá um panorama de medidas adotadas por países como Alemanha, Holanda e Dinamarca - num momento em que a Europa voltou a ser o epicentro da pandemia. E mostra que a situação é pior onde a vacinação menos avançou - casos de Rússia, Romênia e Bulgária, por exemplo.

Ep 579Inflação: a do Brasil e a do mundo
A aceleração de preços é global. Mas aqui ela não apenas alcança taxas mais elevadas como tem motores específicos. Com a ajuda de dois estudiosos do tema, este episódio procura explicar tanto o fenômeno geral quanto as peculiaridades do caso brasileiro. Para a primeira tarefa, o convidado é Otaviano Canuto, ex-diretor-executivo do FMI e do Banco Mundial. De Washington, onde dirige o Centro para Macroeconomia e Desenvolvimento, ele analisa o momento histórico “extraordinário”, no qual o aquecimento da demanda (especialmente nos países ricos) não encontra correspondência na oferta (ainda impactada pelo efeito disruptivo da pandemia nas cadeias produtivas). Canuto descreve as faces da crise de energia em diferentes regiões e a escassez de mão-de-obra nos Estados Unidos - onde a inflação anualizada é a maior em três décadas. Na comparação com ciclos passados, ele vê vantagem no fato de hoje não haver a “dinâmica perversa da corrida entre salários e preços”, nem economias tão fechadas, o que oferece “possibilidade maior de substituição de produtos”. A questão principal, diz, é “quando os agentes privados acham que a situação vai se estabilizar”. E conclui: não antes do meio de 2022. Renata Lo Prete conversa também com André Braz, pesquisador do Ibre-FGV, que aponta o espalhamento como um dos traços distintivos da inflação brasileira. Puxada sobretudo por energia elétrica e combustíveis (estes sob efeito permanente de uma desvalorização cambial acima da média), ela hoje está disseminada por todos os preços da economia, e em outubro atingiu o maior patamar, para esse mês, desde 2002. Braz chama a atenção para outro elemento complicador: “como nossa inflação não é de demanda, e sim de custos, aumentar a Selic ajuda pouco a resolver”. Ele se refere à elevação da taxa básica de juros que o Banco Central vem promovendo. Melhor remédio, avalia o economista, seria o fiscal. Mas ele mesmo acha improvável que, com uma campanha eleitoral pela frente, governo e Congresso tomem medidas relevantes de corte de gastos.

Ep 578Avanços e frustrações: saldo da COP-26
A mais aguardada cúpula climática desde o Acordo de Paris (2015) vai chegando ao fim com resenha mista, feita neste episódio por Daniela Chiaretti, repórter especial do Valor Econômico. Com a experiência de quem cobriu esta e as 12 conferências anteriores, ela destaca, entre os ganhos, o entendimento para cortar drasticamente as emissões de metano - ainda mais poluente que o gás carbônico. Aponta como revés o fato de EUA, China e Índia terem pulado fora de compromisso para reduzir a produção de carvão. E reconhece que, no cômputo geral, os resultados do evento devem ficar aquém da “palavra mágica” que o precedeu: “ambição”. Até porque o financiamento das medidas para conter o aquecimento do planeta “é sempre um problema”, lembra Daniela. Também participando do episódio direto de Glasgow, na Escócia, a administradora pública Natalie Unterstell, especialista em mudanças climáticas, analisa o papel desempenhado pelo Brasil, que chegou à COP-26 “como pária”. Isso obrigou a diplomacia do país a adotar posição “muito humilde” em várias discussões. Para além de gafes cometidas pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, o que fica de mais surpreendente, segundo ela, são concessões feitas num ponto central: os mercados de carbono.

Ep 577Vacina para crianças: a hora do Brasil
No mundo todo, a prioridade dada a grupos mais expostos às formas graves de Covid-19 empurrou a imunização dos pequenos para o final da fila. Desde setembro, porém, ela é realidade em muitos países, e por aqui a Anvisa analisa pedidos nesse sentido. Nada mais oportuno, na avaliação de Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Num momento em que outras faixas etárias já estão mais protegidas, é natural que a participação das crianças no universo de doentes aumente, e com ela a conveniência de vaciná-las. Além disso, diz Sáfadi, a “desproporcionalidade” com que a doença colhe vítimas entre os mais idosos “faz com que a gente se distraia” de uma estatística cruel: o Brasil tem uma das mais altas taxas de mortalidade por Covid entre crianças e adolescentes. Na contramão do Ministério da Saúde, que até aqui manifesta desinteresse em incluí-los no plano nacional, o infectologista defende a medida e prevê que “não vai parar por aí”: logo mais, segundo ele, estaremos discutindo a vacinação de bebês.

Ep 576Enem: retrocessos em série
Já são quase 3 anos (com uma pandemia no meio) de ideias fora de lugar no Inep, responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio. Todas no sentido de enfraquecer uma ferramenta essencial de avaliação do aprendizado, que desde 2008 funciona também como maior vestibular do país. Agora, a menos de 2 semanas do Enem de 2021, mais de três dezenas de servidores do instituto entregaram seus cargos, muitos de coordenação do exame. Denunciam um quadro que inclui de assédio moral a fragilidade técnica do comando. “E eles têm provas”, afirma com conhecimento de causa a pedagoga Maria Inês Fini, uma das idealizadoras do Enem, que esteve à frente do Inep entre 2016 e 2018. Para ela, o desmonte do órgão, que no governo Bolsonaro já teve quatro presidentes, não é acidental, e sim um “processo programado de exclusão” - a prova deste ano tem o menor número de inscritos desde 2005. Na entrevista a Renata Lo Prete, ela resgata a história do exame e sua importância para a democratização do acesso ao ensino superior. Participa também do episódio a jornalista da Globo Ana Carolina Moreno, para lembrar que o desmantelamento em curso tem consequências mais amplas do que se imagina: hoje o Inep não divulgou os dados relativos à prova passada, instrumento estratégico para conhecer o perfil dos alunos e definir políticas públicas.

Ep 575Curto-circuito no Orçamento secreto
Ao mandar suspender o pagamento das “emendas de relator” e determinar a publicidade das informações acerca dos beneficiários desses recursos, a ministra Rosa Weber deu um nó no sistema que sustenta o governo Bolsonaro no Congresso. Nesta “superterça”, como define a jornalista Vera Magalhães, o plenário virtual do Supremo estará recebendo os votos dos colegas de Rosa para confirmar ou rejeitar a decisão liminar. Enquanto isso, em outro ponto da Praça dos Três Poderes, o presidente da Câmara pretende votar em segundo turno a PEC dos Precatórios - mesmo diante de questionamentos da própria ministra, relatora também de ações que apontam desrespeito ao regimento na primeira e apertada aprovação do texto. Colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura, Vera relata o bastidor do tribunal quanto a essa questão. Na conversa com Renata Lo Prete, ela aposta numa “saída conciliatória”, que preserve prerrogativas do Legislativo e, ao mesmo tempo, restaure alguma transparência no manejo do dinheiro público. O diagnóstico é compartilhado por Valdo Cruz, colunista do g1 e comentarista da GloboNews, que participa deste episódio para analisar os humores do Congresso e do Palácio do Planalto. Ele fala da urgência, para Bolsonaro e Lira, em aprovar a PEC que viabilizará a vitrine eleitoral de um (Auxílio Brasil) e o instrumento de poder do outro (mais recursos para emendas parlamentares), às custas de um drible no teto de gastos. E relembra votações anteriores igualmente regadas com o pagamento de “emendas de relator”. Também para deputados e senadores, “o que está pesando é o ano que vem”, quando muitos enfrentarão recondução difícil a seus mandatos.

Ep 574Moro e Dallagnol: Lava Jato vai às urnas
Em 2018, com Lula preso, quase duas centenas de outros personagens condenados e mais de R$ 12 bilhões recuperados para os cofres públicos, a operação viveu o apogeu de sua influência. Ajudou a eleger o presidente da República e outros nomes que se apresentaram como desafiadores da corrupção e do “sistema”. Agora, às vésperas de um novo ciclo eleitoral, os dois principais símbolos da República de Curitiba preparam sua entrada na pista. Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro, está com filiação marcada ao Podemos. Foi “um dos poucos partidos que se dispuseram a abrigá-lo”, conta Andréia Sadi, repórter da Globo, colunista do G1 e apresentadora da Globonews. Moro mira o Planalto, buscando espaço no miolo em que se acotovelam vários “candidatos a candidato” da chamada “terceira via” -pelotão hoje distante de Lula e Bolsonaro, primeiro e segundo colocados nas pesquisas, respectivamente. Já Deltan, que acaba de anunciar seu desligamento do Ministério Público Federal, almeja cadeira na Câmara dos Deputados. O mandato lhe daria algo que sempre criticou: imunidade parlamentar, útil diante das denúncias que enfrenta pela atuação na Lava Jato. Na conversa com Renata Lo Prete, Andréia reconstrói as movimentações de ambos e avalia cenários para cada um. Ainda neste episódio, o consultor Mauricio Moura, fundador do instituto Ideia, aponta o grau de conhecimento que o eleitorado tem de Moro como principal ativo dele na comparação com outros postulantes da “terceira via”. Por outro lado, Mauricio mostra com números como a aprovação ao ex-juiz caiu desde seu desembarque do governo. E projeta que, em 2022, a conversa se dará principalmente sobre temas como emprego, inflação e pobreza. “É a eleição na qual a pauta econômica terá mais peso desde 1994”.

Ep 573PEC dos precatórios: como ler a votação
Perto do limite do tempo regulamentar, o governo conseguiu colocar de pé seu “plano A” para 2022: um programa social que entre no lugar do já extinto Bolsa Família. Para que ele saia do papel, venceu a tese do calote constitucionalizado em dívidas da União e do abandono do teto de gastos. A PEC dos Precatórios é a torneira da qual sairão recursos para o Auxílio Brasil e também para encher ainda mais o tanque das emendas parlamentares no ano da eleição. “Todo governo faz barganha, mas este se reduziu a isso”, resume Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da rádio CBN. Na votação da PEC em primeiro turno na Câmara, a operação funcionou, mas por pouco: a proposta passou com apenas 4 votos acima do mínimo necessário. E para isso contou com todo o empenho do presidente da Casa, que permitiu até votação remota de deputados que estão fora do Brasil. A “chicana de Arthur Lira”, explica Maria Cristina, está relacionada à compreensão de que a “lógica das emendas de relator vai morrer” - e que portanto o Centrão precisa se mobilizar para garantir seu naco no Orçamento do ano que vem. Na conversa com Renata Lo Prete, ela analisa ainda o racha em partidos como o PDT (que levou Ciro Gomes a “suspender” sua pré-candidatura ao Planalto) e PSDB (reflexo do “drama tucano” de ver se esvaírem suas condições de liderar uma eventual “terceira via” na disputa presidencial).

Ep 5725G: o leilão e o que muda depois dele
A disputa pela exploração das frequências da internet de 5ª geração, marcada para esta quinta-feira, é o primeiro passo para revolucionar a conectividade no Brasil. “O 5G realmente é a próxima internet”, reforça Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade. Essa tecnologia não só permite conexões até 100 vezes mais rápidas do que as atuais -melhorando, por exemplo, a qualidade de chamadas de vídeo- como irá impactar a estrutura das cidades, a produtividade da indústria e a eficácia dos transportes. Sua implementação será fundamental para que a chamada “internet das coisas” vire realidade. “A experiência será muito mais presente”, diz Fabro em entrevista a Renata Lo Prete. “Talvez passe a ser até estranho ter algo em sua casa que não seja conectado”. Ele alerta, no entanto, que até o ano que vem teremos apenas um “5G caviar”, aquele do qual “só se ouve falar”: a perspectiva é de que a implementação completa leve até 10 anos. Também neste episódio, a repórter Ivone Santana, do Valor Econômico, explica as condições impostas pela Anatel às operadoras, os prazos previstos para o início da prestação do serviço e por que a chinesa Huawei -mesmo depois do lobby contrário do então presidente Donald Trump- não foi impedida de atuar no país, como grande fornecedora de equipamentos ao setor.

Ep 571A cultura do sigilo na era Bolsonaro
Às vésperas do aniversário de 10 anos da Lei de Acesso à Informação, o direito ao conhecimento de dados públicos nunca esteve tão ameaçado. Assistimos a uma série de embargos centenários impostos a itens que vão desde a carteira de vacinação do presidente da República até registros da presença de seus filhos na sede do governo, passando pelo julgamento que absolveu o general Eduardo Pazuello após flagrante manifestação política. “São exemplos até caricatos”, resume o advogado criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, que presidiu, entre 2001 e 2004, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos. Na conversa com Renata Lo Prete, ele descreve tipos de informações estratégicas e, portanto, passíveis de sigilo -- e pondera que, no caso de autoridades públicas, “não se pode usar destes mesmos princípios para esconder” nada. “O que prevalece é a coisa pública”. Comentando o fato de que o Ministério da Defesa é o que mais reduziu o atendimento de pedidos via LAI, Luís Francisco observa que a “tradição de sigilo das Forças Armadas é exagerada”. E lembra que Bolsonaro, por sua vez, já descumpriu sigilos que haviam sido determinados pela Justiça: “Aí entramos no caminho da delinquência política”. Participa deste episódio também Jorge Hage, ex-ministro-chefe da Controladoria Geral da União à época da implementação da LAI. “O Brasil se integrou a toda uma mobilização internacional em uma crescente evolução para medidas de transparência”, relata. A questão atual, para Hage, é que, ao momento da elaboração tanto da Constituição quanto da lei, “não se imaginava a realidade de hoje” no quesito fake news. “O problema não é o governo apenas resistir a abrir suas informações, mas ainda patrocinar a divulgação de informações falsas”.

Ep 570CLIMA: jovens à frente do movimento
Os seis anos que se passaram desde o Acordo de Paris viram a frustração das metas de corte das emissões de gases que aquecem o planeta, mas também a ascensão do ativismo para salvá-lo. A sueca Greta Thunberg é a figura mais conhecida entre milhares de jovens que, primeiro, foram às ruas em várias cidades do mundo, para em seguida ganhar voz também nos grandes fóruns globais. Neste quinto e último episódio de uma série especial preparatória da COP-26, O Assunto traz depoimentos de jovens brasileiros que participam do evento iniciado neste domingo em Glasgow, na Escócia. E uma entrevista com a baiana Catarina Lorenzo, de 14 anos -- estudante, surfista e embaixadora da ONU para Águas Internacionais. Aos 12, ela discursou na sede do Unicef, em Nova York, depois de ter apresentado, junto com outras 14 novas lideranças, uma reclamação formal contra o Brasil por não agir no enfrentamento da crise. Na conversa com Renata Lo Prete, ela relata como se deu conta da destruição do meio ambiente cedo e na prática -- estranhando a temperatura da água e o embranquecimento dos corais ao mergulhar na região de Maraú. “Quando depois aprendi sobre mudanças climáticas na escola, acendeu uma lâmpada em minha cabeça”, relata. “E eu precisava agir”.

Ep 569Máscaras: nova fase, novas regras
Desde o início da pandemia, elas foram incorporadas ao figurino e se tornaram essenciais para conter o avanço do contágio. Com a chegada dos imunizantes, países que progrediram mais rapidamente na aplicação começaram a deixá-las de lado - e alguns se arrependeram. Agora, com cerca de metade da população totalmente vacinada, o Brasil revê seus protocolos - em mudanças já decididas ou em estudo por Estados e municípios. Em entrevista a Renata Lo Prete, o engenheiro biomédico Vitor Mori, integrante do Observatório Covid 19 BR, afirma que esse debate deve tratar de modo diferente ambientes abertos e fechados: nos primeiros, já cabe falar em flexibilização; nos outros, os riscos ainda são grandes. Ele defende “políticas de incentivo” ao uso de espaços abertos e a adoção de critérios além da taxa de imunização para definir a hora de suspender a obrigatoriedade das máscaras. Participa também a imunologista Ester Sabino, para analisar um fator embutido nessa discussão: o efeito aparentemente controlado da variante Delta no Brasil, ao contrário do que se viu em outros países. Ester levanta hipóteses que explicam o fenômeno, mas recomenda cuidado: é preciso “trabalhar dia a dia” para evitar retrocessos. Ela conclui que, no melhor cenário, o Brasil pode servir de laboratório para responder a uma pergunta central: quando será possível não se preocupar mais com o uso de máscaras?

Ep 568Combustíveis nas alturas: os efeitos
Desde o início do ano, a gasolina subiu mais de 73%, e o diesel, 65%. A arrancada dos preços bate mais duro em categorias como motoristas de aplicativo e caminhoneiros, mas já modifica hábitos até de quem simplesmente tinha no carro particular seu principal meio de locomoção. E a perspectiva é de que o patamar “continue elevado” por um bom tempo, afirma a economista Julia Braga, da Universidade Federal Fluminense. Os motivos, que ela explica na conversa com Renata Lo Prete, devem ser buscados primeiro no mercado internacional, onde o valor do barril de petróleo vem batendo seguidos recordes. E dizem respeito tanto à demanda (turbinada pelos países em recuperação mais acelerada na pandemia) quanto à oferta (limitada pelos produtores reunidos na OPEP). Soma-se a isso um fator interno de grande peso: o câmbio. O real vem se desvalorizando mais do que a maioria das moedas, e a Petrobras, desde 2016, pratica preços que acompanham as flutuações externas - embora ainda com alguma defasagem. Julia analisa, do ponto de vista técnico, o embate entre o presidente Jair Bolsonaro e governadores em torno das alíquotas do ICMS, imposto estadual que incide sobre os combustíveis. Ela não descarta ajustes (“algum nível de política tributária ajuda”), mas crava: “O ICMS não é o responsável pelo aumento que estamos assistindo em 2021”.

Ep 567Mentiras que matam: fake news na pandemia
A falsa associação feita por Jair Bolsonaro entre vacina contra a Covid e risco de contrair o vírus da Aids recolocou na ordem do dia o efeito letal da desinformação numa crise sanitária. Um processo acompanhado de perto por Roney Domingos, jornalista do g1 que integra o projeto de checagem Fato ou Fake. Neste episódio, ele lembra que, enquanto o coronavírus atacava sobretudo na China, vídeos e outras montagens fraudulentas procuravam maximizar o horror. Mas, quando a doença chegou com força ao Brasil, houve uma “inversão de sinal”, e negacionistas passaram a usar o mesmo expediente para subestimar o perigo, promover tratamentos sem eficácia e boicotar o distanciamento social. Entre tantos personagens que acompanhou nessa cobertura, Roney não se esquece de Iomar, irmão gêmeo do enfermeiro Anthony Ferrari, que espalhou dezenas de fake news sobre a Covid até morrer da doença, junto com vários familiares. “Em 15 dias, perdeu as pessoas que mais amava” e se foi, conta sobre Iomar. Renata Lo Prete conversa também com Fernando Aith, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP. O professor lista pelo menos quatro crimes contidos na fala mais recente de Bolsonaro. Avalia o que esperar do procurador-geral da República, Augusto Aras, principal destinatário do recém-aprovado relatório da CPI. Analisa também os esforços, aqui e no mundo, para regular as plataformas digitais, que “lucram, e não é pouco, com fake news”, diz. “A gente ainda pode evoluir com a legislação brasileira, assim como outros países estão tateando nesse sentido".

Ep 566Orçamento secreto, obra de Bolsonaro
No momento em que o governo tenta disseminar a falsa ideia de que vai furar o teto de gastos porque não haveria outra maneira de bancar um programa social, O Assunto trata de uma deformidade que perpassa esse debate: as chamadas “emendas gerais do relator”, um instrumento adaptado para garantir recursos polpudos (R$ 19 bilhões este ano) a deputados e senadores aliados do Palácio do Planalto que, além de tudo, têm seus nomes mantidos em sigilo. “Se você não conhece o autor de uma solicitação de repasse e a motivação, todo o processo fica opaco”, afirma o repórter Breno Pires, que desde maio vem revelando, no jornal O Estado de S. Paulo, os meandros do Orçamento secreto. Ele explica o funcionamento dessa verdadeira “bolsa reeleição” dos parlamentares, repleta de indícios de irregularidades na aplicação do dinheiro. E aponta “as digitais do Planalto” nas mudanças que viabilizaram o chamado “tratoraço”. Em sintonia com as informações de Breno, o cientista político Fernando Limongi, da FGV e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), chama a atenção para o equívoco de atribuir esse estado de coisas principalmente ao Congresso. O presidente Jair Bolsonaro endossou tudo, lembra Limongi, em busca de proteção contra o impeachment e também porque “não tem a menor ideia do que fazer com o Orçamento”. Ele ressalta que a participação do Legislativo na destinação dos investimentos é legítima, e que mesmo o caráter impositivo das emendas individuais não é, em si, um problema. Já as emendas do relator, em sua forma atual, representam a volta ao padrão de descalabro revelado no célebre escândalo dos “Anões do Orçamento”, no início dos anos 90. E com “transparência zero. O que significa que o retrocesso é ainda maior”.

Ep 565CLIMA: a parte do agro na crise e na solução
No mundo, o sistema de produção de alimentos responde por aproximadamente um quarto das emissões de gases do efeito estufa. No Brasil, a parcela é ainda mais significativa, superada apenas pela do desmatamento. Num círculo vicioso, agricultura e pecuária são diretamente afetadas pelo aumento da temperatura global, em produtividade e qualidade. Neste quarto episódio de uma série especial preparatória da COP-26, O Assunto discute o papel dessas atividades no enfrentamento da crise. O engenheiro agrônomo Carlos Eduardo Cerri, professor do Departamento de Ciência do Solo da Esalq (USP), explica como sistemas integrados de cultivo estimulam a “fixação de carbono e a redução das emissões”. Ele detalha usos que resultam em solos saudáveis, capazes de dar às plantas mais “chance de sobreviver em períodos de eventos extremos”. E mostra como o Brasil pode seguir avançando para ser menos poluente num dos pilares de sua economia. Renata Lo Prete conversa também com Leonardo Resende, sócio e gestor da Fazenda Triqueda, em Minas Gerais. Cofundador do projeto Pecuária Neutra e Regenerativa, ele lembra que “pastagens degradadas” ainda são realidade em 70% das fazendas do país o que fez para reverter esse quadro em sua propriedade. “A pastagem é um ser vivo. Precisa ser bem manuseada para produzir bem”, diz. A série especial é publicada às segundas-feiras até a Conferência do Clima da ONU, que começa no próximo dia 31 em Glasgow, na Escócia.

Ep 564A implosão do teto e da equipe econômica
O governo rasgou o que restava de sua fantasia de responsabilidade fiscal ao executar manobra que abrirá espaço de R$ 83 bilhões no Orçamento de 2022. Na prática, isso rompe o limite de gastos introduzido na Constituição em 2016. Parte desse dinheiro será usada para bancar o Auxílio Brasil, substituto do Bolsa Família que Jair Bolsonaro pretende usar como ativo na campanha do ano que vem. E parte é cobiçada pelo Congresso na forma de mais emendas. Neste episódio, o professor João Villaverde, da FGV, explica a gambiarra e suas consequências de longo prazo - entre as imediatas está a debandada de vários secretários do ministro Paulo Guedes, além de novo tombo da Bolsa e empinada do dólar. Autor do livro “Perigosas Pedaladas”, sobre a contabilidade criativa que precipitou a ruína do governo de Dilma Rousseff, João descreve a "esculhambação institucional" do atual momento. Ela está em tantas áreas que “você não sabe nem para onde olhar: Orçamento secreto, precatórios, caminhoneiros”, lista ele na conversa com Renata Lo Prete. Participa também a economista Tereza Campelo, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (2011-2016), para lembrar que a discussão sobre o Auxílio Brasil não pode ser apenas fiscal. Ela considera no mínimo impreciso tratá-lo como um Bolsa Família “rebatizado”, porque são dois programas muito diferentes. Este, "simples e muito claro em seus objetivos", acaba de completar 18 anos, tendo gerado impactos positivos "generalizados" e mundialmente reconhecidos. O novo é uma “árvore de Natal” da qual pouco se sabe, repleto de condicionantes e diferenciações que acabam por "excluir pessoas". Fora as incertezas sobre o valor do benefício para além do ano eleitoral.

Ep 563CPI: o relatório e o que vem agora
Ao final de 6 meses de investigações, a Comissão Parlamentar de Inquérito mais importante da história do Brasil decidiu indiciar o presidente da República por crime contra a humanidade e mais 8 tipos penais. As ações e omissões que legaram ao país mais de 600 mil mortos na pandemia renderam acusações a outras 65 pessoas - entre elas 4 ministros, 2 ex-ministros, deputados, empresários e 3 filhos de Jair Bolsonaro. “O governo deixou uma série de digitais nas cenas desses crimes”, resume Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN. Falando direto de Brasília, onde acompanhou a apresentação do relatório, ele faz com Renata Lo Prete um balanço dos trabalhos da CPI. Destaca contribuições decisivas, como elementos de prova da macabra aposta do presidente e seu gabinete paralelo na imunidade de rebanho por contágio, bem como do corpo mole na compra de imunizantes. “Bolsonaro não trouxe o coronavírus, mas se aliou à doença contra a população que deveria proteger”, diz Bernardo. A comissão avançou também sobre o “camelódromo de vacinas com personagens do submundo” (caso Covaxin), além de bater no iceberg do escândalo Prevent Senior. Por outro lado, o jornalista aponta a timidez dos senadores na responsabilização dos militares e o pouco interesse em ir a fundo na questão indígena. O episódio contempla ainda o próximo capítulo dessa história, em que as atenções se voltam para o que fará o procurador-geral da República, Augusto Aras.

Ep 562PEC da vingança: de quem contra quem
Uma disputa que tem, de um lado, parlamentares de variados partidos, e, de outro, o Ministério Público. No meio, uma proposta de emenda à Constituição para mudar a forma como são indicados os integrantes do conselho fiscalizador das atividades dos procuradores - que, por sua vez, fiscalizam o poder público. Nesta terça-feira, por falta de consenso, o presidente da Câmara adiou mais uma vez a votação da matéria, enquanto entidades de representação do MP seguem reivindicando alterações num texto que qualificam como retrocesso institucional. Neste episódio, Renata Lo Prete coloca na balança, em conversa com Julia Duailibi, argumentos das duas partes. “Os mecanismos de investigação precisam ser protegidos”, lembra a apresentadora da GloboNews e colunista do g1. “Mas também aperfeiçoados". Julia resgata a Operação Lava Jato, com seu saldo inédito de condenações de empresários e políticos, como origem “do sentimento de autoproteção” que move o Congresso nesse e em outros projetos - como a recém-aprovada mudança na Lei de Improbidade. Ao mesmo tempo, “o Conselho Nacional do Ministério Público, como está, talvez não dê respostas suficientes à sociedade”. Ela se refere, por exemplo, à reação tíbia do CNMP às revelações da “Vaza Jato” sobre irregularidades na atuação da hoje extinta força-tarefa de Curitiba. “Agora, não é o controle via Centrão, como está sendo proposto, que vai resolver a situação.

Ep 561Aula presencial: hora de reverter a evasão
Retomado há tempos em outros países, o ensino 100% na escola só agora volta a ser realidade em grande escala no Brasil. Cerca de metade dos Estados já se decidiu pela volta plena - em 3 deles, ela entrou em vigor nesta segunda-feira. Falando de São Paulo, da Bahia e do Mato Grosso, respectivamente, os repórteres Zelda Melo (TV Globo), Camila Oliveira (TV Bahia) e Leonardo Zamignani (TV Centro América) atualizam a situação. Descrevem a emoção de alunos, professores e funcionários. E acidentes de percurso: em São Paulo, por exemplo, parte das unidades da rede ainda terá que seguir no modelo híbrido, por falta de condições de cumprir protocolos básicos da pandemia. A despeito das diferenças regionais, um traço se mantém em todo o país: muitos estudantes perderam totalmente o contato com a escola, e vice-versa. Entrevistada por Renata Lo Prete, a pedagoga Julia Ribeiro, oficial de Educação do Unicef no Brasil, fala sobre o imperativo de empreender uma “busca ativa” para resgatá-los. Ela lembra que, em 2020, mais de 5 milhões de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos não tiveram acesso à educação, o que levou o fundo da ONU a alertar para o risco de o país “regredir duas décadas" nesse quesito. Julia destaca ainda que o abandono está longe de ser homogêneo, comprometendo o futuro principalmente de estudantes pobres - negros, pardos e indígenas.

Ep 560CLIMA - o desafio maior das cidades
Em menos de 2% da superfície, elas concentram mais da metade da população e respondem por 60% das emissões de gases que aquecem o planeta. Sentem particularmente as consequências –na forma, por exemplo de temperaturas extremas e inundações– e são, ao mesmo tempo, território para a busca de soluções. É esse o tema do terceiro episódio da série especial que O Assunto publica como preparação para a Conferência da ONU sobre o Clima -a partir de 31 de outubro em Glasgow, na Escócia. “Os lugares para começar a atuar dentro das nossas cidades são aqueles onde vivem os mais vulneráveis”, afirma o geógrafo Henrique Evers, gerente de desenvolvimento do Instituto WRI Brasil. Ele se refere a áreas de risco urbanizadas no atropelo, e explica por que, a esta altura, será preciso não apenas mitigar as ameaças, mas também inventar adaptações a mudanças climáticas já em curso. Na conversa com Renata Lo Prete, Henrique detalha experiências como a dos “jardins de chuva” e apoia a ideia de cobrir de plantas toda a superfície possível das cidades. A natureza, lembra ele, não é barreira, e sim “fonte de solução”. Participa também o arquiteto e urbanista Roberto Montezuma, professor da Universidade Federal de Pernambuco. Ele analisa problemas e experiências de Recife, capital especialmente exposta a um dos efeitos mais dramáticos do aquecimento global: a elevação do nível dos oceanos. A série especial será publicada às segundas-feiras, até o início da COP-26.

Ep 559Os vereadores mortos na Baixada Fluminense
No ano eleitoral de 2020 houve quase uma centena de assassinatos de políticos no Brasil. Em 2021, mesmo sem urnas, a violência continua solta. Embora disseminada pelo país, ela tem sido mais recorrente no conjunto de municípios que concentra quase 60% dos votantes do Rio de Janeiro. Na maior dessas cidades, Duque de Caxias, 3 dos 29 vereadores foram mortos apenas nos últimos 7 meses. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, o repórter Luã Marinatto, do jornal Extra, detalha o caso de Sandro do Sindicato (Solidariedade), atingido por tiros de fuzil nesta quarta-feira, assim como os de Danilo do Mercado (MDB) e Quinzé (PL) - ocorridos, respectivamente, em março e setembro. Luã relata ainda a própria experiência de crescer temendo pela segurança da mãe, que foi vereadora em Nova Iguaçu. Participa também o sociólogo José Cláudio Souza Alves, autor do livro "Dos Barões ao Extermínio: Uma História da Violência na Baixada Fluminense". Ele explica a relação de muitos desses crimes com disputas por territórios e negócios, progressivamente controlados pelas milícias e pelo tráfico de drogas. Lembra que as milícias jamais teriam chegado ao atual patamar de domínio sem conexão direta com o Estado, do qual saem seus quadros. E aponta uma mudança alarmante de padrão no fato de haver tantos assassinatos de políticos mesmo longe do próximo ciclo eleitoral.

Ep 558Bolsonaro na terra sem lei do Telegram
Em números absolutos, a rede social nascida na Rússia em 2013 ainda não se compara a gigantes como o WhatsApp. Seu crescimento, porém, é vertiginoso. Isso vale tanto para o percentual de smartphones que carregam o aplicativo quanto para a audiência de usuários ilustres, como Jair Bolsonaro. O presidente da República acaba de ultrapassar a marca de 1 milhão de inscritos em seu canal oficial nessa rede que adota a “filosofia da mínima moderação”, como explica Guilherme Caetano, repórter do jornal O Globo. Guilherme foi aos subterrâneos do Telegram, abriu “portas secretas” e voltou para descrever um ambiente no qual prosperam conteúdos impróprios e mesmo atividades criminosas. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Giulia Tucci, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para entender por que o Telegram virou uma ferramenta valorizada pelos políticos, em especial de extrema direita. Ela resgata o histórico das postagens de Bolsonaro e prevê dificuldades para enquadrar o Telegram em qualquer regramento da Justiça Eleitoral para a campanha de 2022. Até aqui, a plataforma - atualmente sediada em Dubai - nem mesmo respondeu às tentativas de contato do TSE.

Ep 557Em busca das árvores gigantes da Amazônia
Elas se erguem muito acima da média do dossel da floresta. Como conseguem crescer tanto e não quebrar é algo que sempre intrigou estudiosos. Na expedição mais recente, quatro guias e quatro engenheiros florestais partiram da pequena Cupixi, na região central do Estado do Amapá, e se embrenharam durante três dias no rio e na mata com o objetivo de chegar à segunda mais alta já identificada pelos radares do Inpe: um angelim vermelho de 85 metros, marca que o faz superar um prédio de 30 andares ou duas vezes a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Concluída a missão - repleta de áudios captados especialmente para este episódio do podcast - o professor Diego Armando Silva conversou com Renata Lo Prete a respeito da importância do projeto que coordena. "As árvores gigantes são as mães da floresta", diz. “Além de resistir ao vento, à luz e às tempestades, elas precisam sustentar o próprio peso". A observação de perto, o inventário e a coleta de informações nos ensinam não apenas sobre elas, mas sobre “a estrutura da floresta”. E ele não tem dúvida: ainda há muitas gigantes por mapear e conhecer na Amazônia.

Ep 556CLIMA: quem pagará a conta das mudanças?
No segundo episódio de uma série especial, O Assunto aborda “a discussão que vai pegar” na Conferência das Nações Unidas, a partir de 31 de outubro em Glasgow, na Escócia. Quem alerta é Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima. Ele lembra que a responsabilização dos países ricos, historicamente os maiores emissores dos gases que aquecem o planeta, esteve na pauta da cúpula de Paris, 6 anos atrás. Mas nem por isso foi cumprida a promessa de que eles alocariam US$ 100 bilhões por ano para medidas de mitigação. Agora, num contexto econômico degradado pela pandemia, a negociação promete ser ainda mais dura. “Os países ricos não querem ver isso como compensação. Não vão produzir provas contra si próprios”, diz o jornalista. Renata Lo Prete conversa também com Ana Toni, ex-presidente do conselho do Greenpeace Internacional e diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade. A economista defende “uma conversa séria” não apenas sobre investimentos, mas também sobre como são empregados os recursos que já existem - dando como exemplo o fato de que governos continuam a subsidiar a indústria de combustíveis fósseis. O Brasil, afirma, chega à COP-26 em posição delicada: “Querem ação e entrega. E a entrega brasileira continua terrível.” A série especial será publicada às segundas-feiras, até o início da cúpula.

Ep 555Malária: por que a vacina é um evento histórico
Uma das doenças infecciosas mais antigas do mundo, que ainda atinge 200 milhões de pessoas por ano. E que colhe a ampla maioria de suas vítimas num continente e numa faixa etária: das cerca de 400 mil mortes anuais, 94% acontecem na África, onde há "hospitais carregados de crianças com quadros graves de malária", relata Carolina Batista, integrante da organização Médicos sem Fronteiras. Elas respondem por dois terços dos óbitos. Convidada de Renata Lo Prete neste episódio, Carolina conta o que viu participando de missões na região entre 2007 e 2018. Ela descreve barreiras geográficas, financeiras e culturais para cuidar dos pacientes e narra em detalhes a história de uma menina que conseguiu salvar por um triz. Participa também o infectologista Marcus Lacerda, doutor em medicina tropical e pesquisador da Fiocruz Amazônia. Ele lembra que “a imunologia praticamente começou com o estudo da malária”. As décadas que se passaram até a recomendação de uma vacina pela Organização Mundial da Saúde dão testemunho da dificuldade em desenvolver um imunizante contra o parasita causador. Apesar da eficácia relativamente baixa do produto aprovado, Marcus não tem dúvida de que se trata de uma virada de jogo: de saída, será possível "evitar 30% de mortes” num universo de 260 mil crianças africanas a cada ano. Marcus fala ainda do Brasil, que não se beneficiará neste momento, porque seus casos são majoritariamente de outro tipo, menos agressivo. O especialista conta o que o país fez para reduzir a transmissão e tratar os infectados, obtendo queda consistente no número de casos e de óbitos ao longo do tempo.

Ep 554PSL+DEM e outras costuras para 2022
“O DEM entra com a experiência, e o PSL, com os recursos”. Assim o repórter da Globo Nilson Klava resume a fusão, agora formalizada, dos dois partidos. Neste episódio, ele faz o balanço dos dotes de cada um - em fundos e tempo de TV - e narra cenas do casamento que deu origem ao União Brasil, de saída dono da maior bancada da Câmara. Desse ponto, Renata Lo Prete parte para uma conversa com Fabio Zambeli, analista-chefe da plataforma Jota, sobre o significado desse e de outros movimentos de acumulação de forças a um ano das próximas eleições. Ele mostra como o DEM, sigla tradicional porém declinante da centro-direita, vinha se ressentindo dos avanços do concorrente PSD, de Gilberto Kassab. E como o PSL, que passou de nanico a grande em 2018, teve que se virar depois de “perder a alavanca” representada por Jair Bolsonaro. O jornalista acrescenta ao quadro o PP, “Centrão raiz”, do presidente da Câmara, Arthur Lira, e lembra que o jogo que se trava no momento é principalmente parlamentar: “Ser o partido de maior peso no Congresso equivale a mandar nos rumos do país talvez até mais do que o presidente eleito". Seja ele qual for, acrescenta.

Ep 553Guedes e Campos Neto nos papéis de Pandora
O ministro da Economia e o presidente do Banco Central figuram como donos de empresas offshore numa coleção de quase 12 milhões de documentos, relativos a mais de 300 personagens de 91 países, trazida à luz pela investigação jornalística internacional Pandora Papers. A prática é legal, desde que informada à Receita, mas suscita todo um debate sobre conflito de interesses quando se trata das duas principais autoridades econômicas do país. Agora, ambos foram chamados a prestar esclarecimentos a comissões do Congresso. Campos Neto encerrou as atividades de sua empresa 15 meses depois de entrar no governo. Mas a de Guedes - ministro que, além de tudo, conduz uma proposta de reforma do Imposto de Renda - permanece aberta, e atualmente abriga o equivalente a R$ 51 milhões. “Em 28 de setembro de 2021, ele ainda aparecia como controlador”, pontua Carlos Andreazza. Na conversa com Renata Lo Prete, o colunista do jornal O Globo e apresentador da rádio CBN chega ao seguinte resumo: “A rigor, o patrimônio fora do Brasil protege Guedes do governo do qual faz parte”. Participa também do episódio Tathiane Piscitelli, professora de direito tributário e finanças públicas da FGV, para explicar o que diz a legislação brasileira sobre abertura e manutenção de empresas em paraísos fiscais. E como as restrições são maiores para agentes públicos, submetidos ao Código de Conduta da Alta Administração Federal. Tathiane analisa também o crescente movimento global por maior transparência e justiça fiscal, ilustrado pelas revelações em série desse consórcio de jornalistas.

Ep 552O apagão do WhatsApp
Foram mais de 6 horas sem três das maiores redes sociais do planeta, todas pertencentes ao império de Mark Zuckerberg. As consequências atingiram bilhões de usuários -interrompendo comunicações, comprometendo a execução de tarefas cotidianas e causando muitos prejuízos. No caso do próprio Facebook, o tombo no valor de mercado foi de US$ 6 bilhões em um único dia. Para dimensionar, discutir hipóteses de causa e extrair lições do que aconteceu, Renata Lo Prete recebe Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. “Um apagão de larga escala", ele explica, no qual o “mapa da internet" parou de funcionar para o Facebook e todos os serviços do grupo, incluindo Instagram e WhatsApp (este último, de longe o aplicativo de troca de mensagens mais usado no Brasil). Ele também descreve o funcionamento das “fazendas de servidor", galpões gigantes onde ficam computadores armazenadores de dados. E analisa o impacto desse tipo de evento sobre uma sociedade que, cada vez mais, "constrói formas de trabalhar e viver que dão como certo o fato de você sempre ter acesso à internet", que ele chama de "a nova eletricidade".

Ep 551CLIMA: onde estamos 6 anos depois de Paris
O histórico acordo de 2015, firmado entre mais de 190 países, pretendia reduzir as emissões de gases do efeito estufa a um patamar capaz de conter o aumento da temperatura do planeta. Não aconteceu. Nem mesmo a recessão pandêmica derrubou as emissões na proporção necessária. Agora, em meio a eventos extremos como a seca que aflige vários Estados brasileiros, e sob pressão global de ativistas, uma nova cúpula do clima patrocinada pelas Nações Unidas pretende atualizar compromissos e lançar “um alerta vermelho para a humanidade”, nas palavras do secretário-geral Antonio Guterres. No episódio introdutório de uma série especial a ser publicada todas as segundas-feiras até a COP-26 -- que tem início marcado para 31 de outubro em Glasgow, na Escócia -- Renata Lo Prete recebe Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP. A conversa é para entender a ciência que pauta o debate público sobre o tema, e Nobre não poderia ser mais claro. Ele mostra a velocidade sem precedentes da escalada da temperatura na Terra. Explica a diferença entre conseguir limitar a alta a 1,5 grau Celsius até 2100 (como queriam os signatários do Acordo de Paris) ou deixá-la subir 3 graus. Dá exemplos de adaptações, como agricultura regenerativa, que precisarão ser feitas mesmo no cenário menos catastrófico -- porque parte das mudanças climáticas já está contratada. E é assertivo ao enunciar a consequência maior de subestimar a emergência: “As novas gerações vão viver num mundo muito mais perigoso”, diz. “Num outro planeta, muito pior, em todos os sentidos, para a vida humana e para as outras espécies.”

Ep 550Botijão de gás a R$ 100
Os preços dos combustíveis são uma questão global - agravada, no Brasil, por um dado básico da equação macroeconômica: câmbio. O real está entre as moedas que mais se desvalorizaram na pandemia. Também a inflação aqui bate forte - puxada, no momento, justamente pelos combustíveis. Assim, o item usado por 90% das famílias para cozinhar está custando, em média, R$ 93, e consumindo 10% do salário-mínimo em 16 Estados. Entre os mais pobres, passou a ser substituído por lenha e outros produtos tóxicos. Nesta semana, quase ao mesmo tempo, a Câmara e a Petrobras ensaiaram resposta a esse quadro de risco social. Os deputados aprovaram uma espécie de “vale-gás” - ainda a ser examinado pelo Senado. E a estatal anunciou que vai subsidiar o botijão para consumidores de baixa renda. Neste episódio, o repórter Raphael di Cunto, do jornal Valor Econômico, explica a ciranda de pressões políticas por trás dessas duas medidas. Pressionada pelo presidente Bolsonaro, principalmente por causa dos preços da gasolina e do diesel, a Petrobras correu para sinalizar algum alívio no gás de cozinha tão logo saiu a decisão da Câmara. Renata Lo Prete conversa também com o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, que defende uma “tarifa social” mais duradoura, como existe no setor elétrico”, para enfrentar o problema. “Muitas pessoas não têm noção do que famílias passam para cozinhar" o mínimo.

Ep 549Escândalo Prevent: a hora da ANS
A sequência estarrecedora de revelações deixa no ar a pergunta: como foi possível a operadora ir tão longe no desrespeito à vida de seus clientes e na prestação de serviços ao Palácio do Planalto? Parte da resposta está nas revelações da CPI da Covid, atualizadas neste episódio por Octavio Guedes, colunista do G1 e comentarista da GloboNews. Ele destaca a convicção da Prevent Senior -relatada no depoimento da advogada de médicos da empresa - de que jamais seria incomodada por órgãos de fiscalização, dado seu relacionamento estreito com o “gabinete paralelo” de assessoramento do presidente na pandemia. Com as costas quentes, a Prevent se sentiu à vontade para conduzir um “campo de experimentos anticientíficos”, diz Guedes. Outro depoimento, o do empresário Luciano Hang, desnudou o empenho dos governistas em boicotar qualquer tipo de lockdown em nome de “salvar a economia”. “Mas nunca foi a economia”, lembra Guedes. “Sempre foi a reeleição de Bolsonaro”. A segunda parte da resposta Renata Lo Prete foi buscar em entrevista com o advogado Matheus Falcão, pesquisador do Núcleo de Direito Sanitário da USP e assessor jurídico do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Ele mostra como funciona a Agência Nacional de Saúde Suplementar, órgão regulador que apenas nesta semana, quando a pilha de denúncias graves já transbordava, emitiu a primeira autuação contra a Prevent. A ANS, explica Falcão, tem corpo técnico qualificado, formado por servidores públicos concursados, mas suas decisões finais ficam a cargo de uma diretoria composta por cinco indicados pela Presidência da República. Ele fala também do Conselho Federal de Medicina, que até aqui fez cara de paisagem diante das pressões para que profissionais da Prevent empurrassem aos pacientes remédios ineficazes contra a doença. Matheus conclui como esta situação "chegou ao limite" e demanda ação do Estado.

Ep 548Explosão dos despejos, agora suspensos
De um lado, perda de emprego e renda. Do outro, alta do aluguel -mais de 30% em 12 meses. Resultado: crescimento exponencial do contingente de famílias removidas de suas casas ou vivendo sob essa ameaça. Pessoas que precisam escolher entre "pagar o aluguel ou colocar comida na mesa", conta o repórter da TV Globo Giba Bergamin, que acompanha de perto movimentos por moradia há quase duas décadas. Ele narra como, na esteira desse drama agravado pela pandemia, uma ocupação na Zona Leste de São Paulo saltou de 200 famílias em julho para 800 agora. Participa também deste episódio Bianca Tavolari, pesquisadora do Cebrap e professora do Insper. É ela quem analisa a decisão do Congresso de derrubar o veto do presidente da República à lei que estabelece uma espécie de moratória dos despejos até 31 de dezembro. "Pela primeira vez, temos uma proteção importante" a pessoas em situação de vulnerabilidade habitacional. Mas a medida é paliativa e de curta duração, alerta. Bianca aponta ainda a escassez de dados oficiais sobre o problema, o que dificulta a elaboração de políticas públicas acertadas, e resume: "Para além da pandemia, ter uma moradia é porta de acessos a direitos".

Ep 547Térmicas: emergência ou longo prazo?
Diante da situação crítica dos reservatórios, o governo vem recorrendo progressivamente a uma energia mais cara e mais poluente do que a extraída da água. O movimento agora ganha contornos de estratégia, a ser implementada por meio de leilões que vão implicar na manutenção, por vários anos ainda, de fatia generosa para as termelétricas na nossa matriz (hoje, elas respondem por cerca de 32% do total gerado, enquanto as hidrelétricas amargam sua menor participação histórica, em torno de 50%). Letícia Fucuchima, repórter do jornal Valor Econômico, traz detalhes sobre esses leilões e mostra como a atual política não favorece a expansão de energias limpas como a solar e a eólica. "O racionamento de 2001 inaugurou uma safra de termelétricas", relembra Diogo Lisbona, pesquisador do Centro de Estudos e Regulação em Infraestrutura da FGV, também entrevistado por Renata Lo Prete. Ele explica por que o consumidor não deve esperar refresco tão cedo. "Tem termelétrica que gera energia ao custo de R$ 2 mil o megawatt hora", compara, enquanto no mercado o custo médio é de R$ 250.

Ep 546O público de volta aos teatros
Foram necessários 2 anos, 70 pessoas trabalhando diretamente e outras 400 na prestação indireta de serviços para colocar de pé um espetáculo que, depois de apenas 9 apresentações, saiu de cartaz em março de 2020. “Fomos os primeiros a parar e os últimos a retornar”, resume, em depoimento ao Assunto, a atriz Karin Hills, que faz o papel-título no musical sobre a trajetória da cantora disco Donna Summer. Em conversa com Renata Lo Prete, a produtora-geral e coreógrafa Barbara Guerra narra uma saga de ano e meio vivida por boa parte da classe artística: morte de colegas por Covid, contas a pagar sem receita para cobrir, luta para garantir algum suporte financeiro à equipe. Mesmo compartilhando com todos a emoção da reestreia, ela faz questão de frisar: “A pandemia ainda está aí. Voltamos, mas com protocolos e muita disciplina”. Para o sociólogo Danilo Santos de Miranda, há mais de três décadas diretor do Sesc-SP, a cena cultural brasileira passa por uma “euforia do retorno”, mas é preciso lembrar que ele ocorre num contexto de crise econômica, sanitária e sobretudo política -diante do “desmonte perpetrado” pelo governo federal numa área que, até a pandemia, respondia por cerca de 2% do PIB e abrigava 6% do total de pessoas ocupadas no país. “O presencial é indispensável à cultura”, afirma. “E nós vamos restabelecer isso, porque conhecemos o caminho”.

Ep 545Os números maquiados da Prevent Senior
Subnotificação de óbitos de pacientes que participaram, sem conhecimento, de experiência com cloroquina. Mortes registradas com outras causas, ocultando a verdadeira. Reclassificação sistemática de prontuários, apagando a referência a Covid. As evidências que se acumulam contra uma das maiores operadoras de saúdes do país são detalhadas neste episódio por Guilherme Balza, repórter da GloboNews que investiga as práticas da empresa desde o início da pandemia e já revelou capítulos importantes dessa história. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Daniel Dourado, médico, advogado e pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP. "Não se pode fazer pesquisa dessa maneira", pontua Daniel sobre as evidências de que pacientes participaram de estudos sem consentimento. Ele esclarece as possíveis consequências contra a empresa e o governo. Para Daniel, a punição às autoridades federais pode ser pensada de duas maneiras: "indicações penais e dos crimes de responsabilidade". Ele sinaliza ainda quais cuidados clientes de operadoras de saúde podem adotar para se proteger.

Ep 544Precatórios: pedalada ou calote?
São R$ 89 bilhões em dívidas judiciais da União a pagar em 2022, montante que o Executivo quer reduzir drasticamente para encaixar no Orçamento do ano eleitoral um Bolsa Família turbinado e que Jair Bolsonaro possa chamar de seu. Depois de algumas movimentações mal-sucedidas, surge um esboço de acordo entre os presidentes da Câmara e do Senado e o ministro da Economia. A proposta - detalhada neste episódio pela repórter Julia Lindner, do jornal O Globo - prevê limitar o desembolso com precatórios no ano que vem ao patamar de 2016, quando foi instituído o teto de gastos. Em valores corrigidos, R$ 40 bilhões. O restante - mais da metade, portanto - seria objeto de algum “encontro de contas” ainda por definir ou simplesmente empurrado para 2023. Também entrevistado por Renata Lo Prete, Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente, dá nome às coisas: ele explica por que algumas das manobras em discussão constituem pedalada fiscal, quando não configuram calote puro e simples. Uma “bola de neve” arriscada e, no entender de Salto, desnecessária: “É possível pagar” os precatórios em sua totalidade e elevar o valor do Bolsa Família, avalia o economista, autor de uma proposta alternativa baseada no remanejamento de recursos discricionários.

Ep 543Crise da Evergrande e impacto no Brasil
A ameaça de calote da segunda maior incorporadora chinesa, cujo passivo chega a US$ 300 bilhões, levou pânico aos mercados na largada da semana. "O risco financeiro é dentro da China, não fora", sintetiza Rodrigo Zeidan, professor da Universidade de Nova York em Shangai, de onde fala com Renata Lo Prete. Zeidan descreve a importância do setor imobiliário num um país em que mais de 1 bilhão de pessoas migraram do campo para as cidades nos últimos 30 anos. "Imóveis são vistos como algo que traz riqueza para a família", explica, lembrando o peso do setor no PIB. Zeidan diz ainda que, ao contrário da crise com o banco norte-americano Lehman Brothers, em 2008, agora a expectativa é que a China socorra e “estanque a crise financeira", mais do que a empresa, mas pondera que é difícil saber o "tamanho certo" da intervenção. Participa também do episódio Lívio Ribeiro, pesquisador do Ibre-FGV. É ele quem detalha os possíveis efeitos para o Brasil, principalmente para empresas do setor de mineração. Lívio pontua como 85% das exportações brasileiras para a China são de minério de ferro, soja e petróleo. Por isso os impactos podem ser sentidos aqui, principalmente pela desvalorização da moeda brasileira e da queda do preço das commodities.

Ep 542Submarinos para a Austrália e o conflito do futuro
O anúncio de que os Estados Unidos fornecerão submarinos à Austrália, atropelando um acordo de mais de US$ 50 bilhões que a França havia firmado para o mesmo fim, provocou uma crise diplomática entre Washington e Paris - de onde fala, neste episódio, a jornalista Adriana Moysés, da Rádio França Internacional. Ela explica por que, para o país, tratava-se do “contrato do século”, tanto do ponto de vista econômico quanto de ambição estratégica. E interpreta o ocorrido como mais um sinal do esvaziamento da Otan - a aliança militar que uniu americanos e europeus desde o final da 2ª Guerra Mundial. Também entrevistado por Renata Lo Prete, o cientista político Mathias Alencastro usa justamente a expressão “Otan do Indo-Pacífico” para se referir à nova parceria entre EUA, Austrália e Reino Unido, que tem como pano de fundo a competição entre americanos e chineses. Para ele, o que se encena na região é o “conflito do futuro”, enquanto o recém-encerrado em Cabul seria o do passado. A União Europeia, diz Alencastro, já foi mais impactada por 6 meses de Joe Biden do que por 4 anos de Donald Trump, e será obrigada a se reinventar.

Ep 541IOF maior: novo improviso na economia
Sem ter de onde tirar recursos para turbinar o Bolsa Família, Jair Bolsonaro e Paulo Guedes engoliram as próprias palavras e adotaram uma solução por decreto: aumentar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras. Isso deve bastar para o lançamento do programa rebatizado, principal aposta eleitoral do governo, “mas não há nada garantido para o ano que vem”, avisa Adriana Fernandes, repórter especial e colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Para que o benefício vigore em 2022, “há uma conta de R$ 60 bilhões a ser fechada” no Orçamento. Conta que passa, explica Adriana, pela encrencada negociação, com Legislativo e Judiciário, para reduzir o saldo de quase R$ 90 bilhões de precatórios da União a pagar nesse período. Jornalista que acompanha há mais de duas décadas a agenda econômica em Brasília, Adriana analisa, na conversa com Renata Lo Prete, o potencial impacto negativo da elevação do IOF sobre a atividade já enfraquecida. Interpreta a medida como mais um sinal do “improviso” que tem pautado as decisões do governo, e aponta o vespeiro bilionário no qual ninguém quer de fato mexer: os chamados incentivos fiscais.

Ep 540CPI e as cobaias humanas da pandemia
Revelados pelo repórter da GloboNews Guilherme Balza, os indícios de acordo entre o governo Bolsonaro e a Prevent Senior para empurrar cloroquina a doentes de Covid estão na mira da Comissão Parlamentar de Inquérito. Depois de receber denúncia formal de médicos da operadora, os senadores vão ouvir seus dirigentes para tirar a limpo relatos de fraude em estudo sobre o medicamento e estímulo à circulação de pessoas em plena primeira onda da doença no Brasil. Neste episódio, além de conversar com Balza, Renata Lo Prete entrevista a jurista Deisy Ventura, professora titular de ética da Faculdade de Saúde Pública da USP. Coordenadora de um levantamento que tipificou ações e omissões do governo na pandemia, ela mostra como o caso Prevent Senior, assim como o desabastecimento de oxigênio em Manaus, pode acabar enquadrado na mais grave das categorias: crime contra a humanidade. “Houve banalização das mortes”. E muito mais do que incompetência: “O elemento da intencionalidade é fundamental para entender o que aconteceu”.

Ep 539Mix de vacinas: por que e como fazer
A estratégia de aplicar diferentes imunizantes contra a covid na mesma pessoa tem sido usada em países como EUA, Canadá, Alemanha, Israel e Coreia do Sul. Estudos preliminares indicam que, a depender da combinação, a resposta imune cresce. E até “dilui o risco de eventos adversos”, explica o professor Edecio Cunha-Neto, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica e Alergia da Universidade de São Paulo. No Brasil, a prática passou a ser adotada por necessidade, em resposta a um apagão de Astrazeneca no início de setembro. Em estados como São Paulo, quem estava com a segunda dose pendente completará o esquema vacinal tomando Pfizer. A repórter da TV Globo Mariana Aldano conta como a população reagiu nos postos: de início teve dúvidas, mas logo entendeu a eficácia do arranjo e, principalmente, a importância de tomar as duas doses. Mariana mostra também como, mais uma vez, os governos federal e paulista se desentendem sobre como administrar a campanha de vacinação. E Edecio opina sobre outro ponto de discórdia: a ciência, ele afirma, dá razão aos que recomendam evitar a Coronavac como 3ª dose (o reforço) para os mais idosos, ao contrário do que prega a gestão Doria.

Ep 538Bolsa Família: fila e incertezas
Enquanto o governo busca espaço no Orçamento para chegar ao ano da eleição com uma versão turbinada do programa, na vida real cerca de 1,2 milhão de famílias aptas a receber o benefício seguem desassistidas. Um drama que se desenrola em meio ao aumento da pobreza no país, prestes a se agravar com o fim do auxílio emergencial da pandemia, explica Fernanda Trisotto, repórter do jornal O Globo. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com a socióloga Marta Arretche, professora titular da USP e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Ela mostra como o Bolsa Família, embora visto como ativo eleitoral pelos políticos, é vulnerável a cortes e roda hoje em patamares muito inferiores aos do passado. “O programa é pouco protegido contra estratégias silenciosas de retração”, ao contrário do que acontece, por exemplo, com o Benefício de Prestação Continuada, inscrito na Constituição. “Seu tamanho depende da disposição do governo de plantão”. Marta não acredita que a solução seja “constitucionalizar” o Bolsa Família, mas defende clareza e respeito a critérios de elegibilidade e fontes mais estáveis de financiamento.

Ep 537Quanto dura o Bolsonaro “moderado”?
O golpismo escancarado do presidente da República no 7 de Setembro provocou palavras duras de autoridades importantes, mas, apenas dois dias depois, a temperatura baixou, e a perspectiva de alguma consequência concreta desapareceu, por obra de uma operação de socorro capitaneada por ninguém menos do que Michel Temer. “A turma do deixa-disso barrou o impeachment", resume o sociólogo Celso Rocha de Barros, colunista da Folha de S. Paulo. Ele reconhece que o impedimento de Jair Bolsonaro via Congresso nunca foi cenário provável, mas avalia que o crime de responsabilidade enunciado com todas as letras na avenida Paulista colocou as coisas em outro patamar. E, como o presidente continua “sem a menor intenção” de mudar, pretendendo de fato "melar a eleição" de 2022, a sustentabilidade do arranjo endossado por boa parte do establishment político ainda está por ser demonstrada. Na conversa com Renata Lo Prete, Celso também analisa os protestos do fim de semana passado, capitaneados por ex-apoiadores de Bolsonaro como MBL e Vem pra Rua, e as dificuldades de construção de uma Frente Ampla. E lembra que, enquanto o país segue em suspense na trama do golpe, “não está nem por um segundo” se debruçando sobre seus graves problemas reais.

Ep 536Estagflação: perigo real e imediato
A escalada dos preços foi sentida primeiro e não parou mais: a taxa acumulada em 12 meses vai se aproximando dos dois dígitos. Recentemente, somaram-se a isso sinais de que a retomada da atividade patina: o PIB ficou negativo no segundo trimestre. “Não chega a ser recessão, mas praticamente não tem crescimento; e, apesar disso, a inflação está muito elevada”. Assim a economista Silvia Matos, do Ibre-FGV, define o quadro de estagflação que, em seu entender, já se configura no Brasil. Como em outros países, parte do problema se deve à pandemia, mas ela aponta pelo menos dois diferenciais: desvalorização da moeda local muito além da média e acentuada instabilidade política. “O governo contribui para a depreciação cambial”, diz. Embora reconheça o efeito perverso sobre a atividade, Silvia não vê alternativa ao aumento dos juros promovido pelo Banco Central, que tenta ser “bombeiro” enquanto o Planalto “joga gasolina” na inflação. Para abrir espaço no Orçamento aos programas sociais, ainda mais urgentes diante da corrosão da renda das famílias, ela defende o enfrentamento de algumas perguntas inconvenientes. “Precisamos de R$ 35 bilhões para emendas parlamentares?” ou de tantos “benefícios fiscais ineficientes?”.

Ep 535A ameaça do bolsonarismo de caminhão
Por dois meses, o presidente da República insuflou a mobilização de caminhoneiros para o 7 de Setembro. No dia seguinte, o país viu rodovias bloqueadas e, com elas, o fantasma da grande paralisação da categoria em 2018. E daí Jair Bolsonaro teve que “desarmar a bomba que ele próprio armou”, diz Valdo Cruz. O colunista do G1 e comentarista da GloboNews se refere à mensagem de áudio que o presidente enviou, para espanto desses apoiadores, pedindo que liberassem as estradas. Para desativar outra bomba - a da ofensiva contra o Supremo - foi chamado ninguém menos do que o ex-presidente Michel Temer, completando o dia de ressaca do golpismo. Neste episódio, Valdo narra e analisa o bastidor desses eventos, enquanto o economista Claudio Frischtak explica por que a perspectiva de caminhões parados assusta, em especial diante da atividade já fraca e da inflação em alta. Ele observa que desta vez o movimento - estimulado por empresários bolsonaristas - tem demandas "predominantemente políticas". E que, se não for controlado, "todos nós perderemos".

Ep 534Um repórter pelo mundo pós-11 de Setembro
Os atentados fundadores do século 21 produziram alguns de seus efeitos mais duradouros bem longe dos Estados Unidos, onde aconteceram. Para discuti-los, Renata Lo Prete recebe neste episódio o jornalista da TV Globo Marcos Uchôa, que ao longo dessas duas décadas visitou 22 países do mundo islâmico. O primeiro foi aquele em que a chamada guerra ao terror começou e do qual os americanos só agora se retiraram. Ele conta que nunca, em sua trajetória profissional, sentiu tanto medo quanto no Afeganistão. E que, ao mesmo tempo, se lembra de saraus vespertinos "para conversar sobre poemas de 800 anos com idosos, mulheres e crianças". A alternância de análise política e memórias do cotidiano das pessoas que encontrou dá o tom do depoimento de Uchôa sobre suas passagens por lugares como Iraque, Tunísia e Síria. Prestes a lançar uma série no GloboPlay com esse rico material, ele conclui que, duas décadas depois, a questão do terrorismo está longe de ser resolvida. “A vitória do Talibã traz a mensagem de que a violência funciona”, diz.

Ep 533O golpismo permanente de Bolsonaro
O 7 de Setembro não trouxe ruptura, mas deixou claro que o presidente continuará dobrando a aposta na depredação institucional para se manter na cadeira. Ao discursar em dois dos eventos que convocou para a data, ele escalou mais um degrau, declarando abertamente que não pretende respeitar decisões do Supremo (no momento, as do ministro Alexandre de Moraes) e do Congresso (que já enterrou o voto impresso, ressuscitado por Bolsonaro na pregação desta terça). “Uma reação para tentar sair do cerco”, resume Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da Rádio CBN. Ela se refere tanto à ausência de respostas do governo para as crises econômica e social quanto ao avanço de investigações que vão das fake news às rachadinhas da família presidencial, passando pelas suspeitas de corrupção na compra de vacinas. “Bolsonaro pode estar fraco para se reeleger", mas tem ainda um dispositivo para "dar cara de povo a seu golpismo", diz a jornalista, que esteve no ato da avenida Paulista. Na conversa com Renata Lo Prete, Maria Cristina prevê que os ataques a Moraes acabem por “unir ainda mais” os ministros do Supremo. Quanto ao Congresso, embora a palavra impeachment tenha voltado a ser pronunciada, tudo continua a depender do grande ausente neste 7 de Setembro: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).