
O Assunto
1,762 episodes — Page 28 of 36

Ep 408São Paulo de joelhos diante da Covid
“Estamos enxugando gelo no calor". É assim que o médico Márcio Bittencourt define a situação do sistema hospitalar no Estado mais rico do Brasil. Mestre em saúde pública e integrante do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, ele é um dos entrevistados de Renata Lo Prete neste episódio, ao lado de Ismael Pérez Flores, intensivista em dois hospitais da capital. Ambos mostram como São Paulo, que com muito esforço conseguiu se manter à tona na primeira onda, sucumbiu nesta, e agora assiste impotente à morte de doentes na fila por vaga nas UTIs. Márcio alerta que abrir leitos é urgente, mas igualmente importante é radicalizar o distanciamento e os demais cuidados, para reduzir o contágio. E chama a atenção para o aumento do número de jovens sem comorbidades entre os casos graves. "Pacientes de 22 anos intubados. Mãe internada com filho, gente que perdeu familiar e ainda não pudemos contar". Ismael vai na mesma linha, relatando o impacto, sobre os profissionais da saúde, da perda de pacientes nessas condições. Ele diz ainda o que sente ao ver a história se repetir - e de maneira mais grave. "Frustrante. Em nenhum momento a gente saiu da pandemia”.

Ep 407Brasil: celeiro de Covid, ameaça global
Além da OMS, vários países deram o alerta: enquanto a transmissão do novo coronavírus estiver fora de controle aqui, toda a América Latina e até regiões mais distantes seguirão sob risco. Os convidados de Renata Lo Prete neste episódio são Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo, e Mathias Alencastro, doutor em Ciência Política e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Ethel explica como o Brasil se tornou terreno fértil para novas variantes do Sars-CoV-2: “Cada vez que o vírus é transmitido, a gente dá a ele a chance de fazer uma mutação". Para ela, "a preocupação é com o que ainda está por vir". A epidemiologista resgata ainda importantes ações de controle, como as adotadas em Wuhan no início de 2020. E compara: “Nós não tomamos nenhuma medida, e continuamos como se nada estivesse acontecendo". Mathias Alencastro analisa o custo para o país no longo prazo. "Estamos num contexto internacional em que os diplomatas são tão importantes quanto médicos e enfermeiros". Ele lembra a crise global na busca por vacinas e a relevância de negociações neste momento da pandemia. E aponta como os brasileiros terão que lidar com um "passaporte desvalorizado" para viagens de turismo, estudos e negócios.

Ep 406Lula livre para a eleição de 2022
A decisão caiu como uma bomba na tarde da segunda-feira: o ministro do STF Edson Fachin resolveu, sozinho, anular todas as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato, o que devolve ao ex-presidente a condição de ficha limpa e lhe permite participar da próxima sucessão. “Fachin concordou com o que a defesa sempre disse: que as investigações não tinham a ver com a Petrobras, e portanto, não deveriam ficar na 13ª Vara de Curitiba, onde atuava Sergio Moro", explica o jornalista Felipe Recondo a Renata Lo Prete neste episódio. Repórter do Jota, veículo especializado em notícias jurídicas, e autor de um livro essencial sobre o Supremo (“Os Onze”), Felipe detalha a decisão de Fachin, inclusive no que se refere a Moro - o ministro considerou que as ações de contestação à imparcialidade do ex-juiz agora perdem a razão de ser. E prevê o que acontecerá quando o plenário analisar o despacho de Fachin: “O cenário de reversão é improvável". Participa também o sociólogo Celso Rocha de Barros. É ele quem analisa os efeitos eleitorais da anulação para o próprio Lula e para os demais pré-candidatos. No terreno que vai do centro à esquerda, "Ciro Gomes vai ter que correr para montar sua coalizão". Ele pondera ainda que, numa eventual polarização Bolsonaro-Lula, o atual presidente pode ver o apoio do Centrão ruir, a depender de sua taxa de aprovação mais adiante. "Se Bolsonaro conseguir se segurar, repete-se o desenho de 2018. Mas em condições piores para Bolsonaro".

Ep 405Mulheres, as mais prejudicadas na pandemia
“Minha barraca, às 5h da manhã já tava aberta. E até 20h30 da noite eu já fiquei nessa barraca. Mas aí, pronto, veio a pandemia”. Essa era a rotina de Elisangela Amâncio, de 46 anos, que todos os dias vendia cachorro-quente no bairro de Itapuã, Salvador. Ela é uma das milhões de mulheres que perderam emprego e renda durante a pandemia – e que também perdeu um ente querido, seu irmão, para a Covid. A retração nos empregos afetou sobretudo o gênero feminino: já são mais mulheres fora do mercado de trabalho do que dentro, o maior recuo em 30 anos, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Neste episódio do Dia Internacional das Mulheres, Natuza Nery ouve a história de Elisangela e conversa com a economista Juliana de Paula Filléti, professora e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da Facamp. Elisangela conta tudo que passou nos últimos meses: a impossibilidade de trabalhar, o luto pela morte do irmão, os filhos sem aulas online, a dificuldade financeira e a depressão que a acometeu – uma pesquisa da USP informa que 40,5% das mulheres brasileiras apresentaram sintomas de depressão em algum momento da pandemia. “O pior é querer trabalhar e não poder. E também o medo de sair na rua, passei por uma quase depressão e só voltei agora a fazer minhas coisinhas”, relata. Juliana detalha o custo da sobrecarga do trabalho doméstico, detalha o impacto do fim do auxílio emergencial e explica a relação entre crise no setor de serviços e o desemprego entre mulheres – sobretudo, as negras. “Elas são maioria nas vagas de trabalho mais precárias”, diz.

Ep 404Máscaras: a importância no descontrole da Covid
Pelo sexto dia seguido, a média móvel de mortes bateu recorde no Brasil. Na quinta-feira (4), foram 1.361 óbitos na média dos últimos sete dias. E enquanto a vacinação segue insuficiente e novas variantes, mais contagiosas, se espalham pelo país, é importante reforçar medidas de proteção. Distanciamento social e uso de máscaras. “A inalação de gotículas é a via mais importante de transmissão. E a ideia da máscara é reduzir esse mecanismo”, resume Vitor Mori, doutor em engenharia biomédica e pesquisador na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos. Neste episódio, Vitor explica a Natuza Nery, ponto a ponto, a importância de sempre, em qualquer ocasião, usar máscaras. “Se puder, fique em casa. Se tiver que sair, prefira ficar ao ar livre. Agora, se for inevitável ficar em ambiente fechado, use máscara de melhor qualidade”, recomenda. As do tipo PFF2 são as que garantem melhor nível de proteção, podem ser compradas por menos de R$ 5 a unidade e permitem reuso. O CDC dos Estados Unidos sugere também o uso combinado de máscara cirúrgica com máscara de pano – juntas, garantem o bloqueio de mais de 90% de partículas do ar. Vitor explica também como testar a qualidade de uma máscara e os melhores procedimentos de limpeza.

Ep 403Como é sentir na pele o colapso na Saúde
“A equipe médica falou: ‘ele precisa de um leito’. E não tem”. Matheus Magalhães, de 30 anos, passou mais de 24 horas atrás de uma vaga de UTI para o pai, que já estava com mais de 50% do pulmão comprometido pelo coronavírus. Ivanildo, de 71 anos, foi infectado dias antes, quando tratou de uma perfuração no intestino em um hospital de Natal, capital do Rio Grande do Norte – onde a ocupação dos leitos para Covid chega a 100%. A piora no quadro clínico de Ivanildo desesperou a família. “Tentei ser forte, não sei se consegui. Por mais que soubesse que ele poderia esperar mais um pouco por um leito, não via luz no fim do túnel”, se emociona Matheus. Neste episódio, ele relata a Natuza Nery a saga do pai até a entubação em um hospital militar de Recife. Participa também a enfermeira Stephanie Pinheiro, de 25 anos, que trabalha no Centro de Terapia Intensiva de um hospital privado de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – estado que também chegou a mais de 100% de ocupação de leitos de UTI. “A gente passou por muitas dificuldades em um ano de pandemia, mas, de fato, a gente nunca enfrentou algo como estamos enfrentando hoje”, diz. Stephanie conta como é o dia a dia dos profissionais de saúde diante da escassez de vagas e de recursos, e relata como são tomadas as decisões mais difíceis, como a entubação de um paciente. “A parte mais dolorosa é lidar com a família, porque quem morre de Covid morre sem ver os familiares”, conta. “No trabalho, às vezes a gente vai no banheiro e chora, desaba ali. Mas na frente da equipe a gente demonstra mais força do que a gente tem.”

Ep 402A disputa de Bolsonaro com governadores
1.726 mortes em 24 horas, mais um recorde do Brasil, que enfrenta nesta semana alta generalizada de casos e óbitos. "Liderança, coesão e coordenação", assim o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão enumera o que é necessário para enfrentar este momento da pandemia. Temporão é um dos entrevistados de Natuza Nery neste episódio. Ex-ministro, o médico sanitarista e pesquisador da Fiocruz detalha como podem atuar municípios, Estados e o governo federal no controle da Covid-19. Diante do que ele caracteriza como "inércia" do governo federal em relação à compra e vacinas, Temporão diz ver com esperança as tentativas de prefeitos e governadores de comprarem doses sem depender do Ministério da Saúde. Depois de analisar a relação entre governo federal e Estados do ponto de vista da saúde pública, Natuza Nery conversa com Thomas Traumann para analisar o embate político entre Jair Bolsonaro e governadores. Jornalista e analista político, Traumann explica o que o presidente calcula ao se colocar contra a vacina e medidas de contenção da Covid. Segundo ele, desde o início da pandemia "o presidente se coloca como o único político que entendia a preocupação, na ponta, com a possibilidade de perder o emprego", diz. Para ele, Bolsonaro reforça a ideia de que é igual à população. Traumann pondera, no entanto, que agora em 2021 a situação é muito mais grave e que o novo valor de R$ 200 do auxílio emergencial pode pesar na avaliação do presidente.

Ep 401EUA, Israel e Reino Unido: efeitos da vacinação
Líder global no ranking de vacinação por habitantes, Israel já superou a marca dos 50% da população imunizada pelo menos com uma dose. E os resultados apareceram rapidamente: redução em até 95% do risco de adoecimento após a aplicação das duas doses e diminuição de hospitalizações e mortes em mais de 98%. No Reino Unido, a Escócia teve 80% menos hospitalizações apenas quatro semanas depois da aplicação da primeira dose. Nos EUA, mais de 50 milhões de doses foram aplicadas em pouco mais de um mês – a meta do presidente Joe Biden é atingir 100 milhões em 100 dias. “À medida que você vacina e mantém as medidas de proteção, você consegue reduzir rápido [a transmissão do vírus], e mais rapidamente pode voltar a sonhar de novo e viver uma vida melhor”, afirma Fatima Marinho, epidemiologista da Vital Strategies, organização que auxilia 63 países no combate à pandemia. Fatima e Felipe Santana, correspondente da Globo em Nova York, são os entrevistados de Natuza Nery neste episódio. Fatima detalha as campanhas de Israel e Reino Unido para vencer as fake news e gerar confiança nas vacinas e explica por que a imunização dá resultado tão rápido. Felipe relata o caso norte-americano: com uma população de 330 milhões de habitantes, o país tem doses suficiente para imunizar mais de 400 milhões de pessoas. Além do ritmo de vacinação recorde em mais de 2 milhões de aplicações por dia e um aporte bilionário na economia e na estrutura de saúde. “Há muito investimento e o presidente faz pressão para que Estados aumentem o ritmo”, conta.

Ep 400A tragédia do Brasil na pandemia
Mais de um ano após a chegada do coronavírus, o Brasil enfrenta o pior momento da pandemia. Recorde de mortes e de novos casos diários, UTIs lotadas, fila em hospitais... Diferente de 2020, agora vários Estados enfrentam ao mesmo tempo o colapso em seus sistemas de saúde. "Eu até não acreditava nesse vírus, mas foi uma lição", diz André Luis da Rosa, de 40 anos, um dos entrevistados de Natuza Nery nesse episódio. André perdeu o irmão Adilmar (46) para a Covid em Boqueirão do Leão, no interior do RS, um dos Estados onde a taxa de ocupação de UTI está perto do limite. Ele relata a evolução rápida da doença. "Ele ia ser transferido, só que meia hora antes, faleceu", lembra. Depois da morte do irmão, André conta como está a recuperação da família, que foi toda infectada pelo coronavírus. O outro convidado do episódio é o neurocientista Miguel Nicolelis. Para ele, "é como uma guerra. O inimigo tomou boa parte do território nacional e o exército do lado de cá já não tem mais energias, nem munição, para conseguir combater esse inimigo mortal". Professor da Universidade de Duke e ex-coordenador no Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio do Nordeste, Nicolelis reflete sobre como chegamos até aqui e o que fazer para evitar uma catástrofe ainda maior. Para ele, a situação é "muito pior do que a primeira onda. E tende a se agravar".

Ep 399Imunidade parlamentar: os limites e a lei
No mesmo dia em que a Câmara manteve a prisão do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), anunciou uma proposta que muda regras da imunidade e da prisão de parlamentares. A toque de caixa, a Câmara fez o texto andar, sem passar por nenhuma comissão. A PEC da imunidade parlamentar ficou conhecida como PEC da impunidade. Neste episódio, Natuza Nery recebe dois convidados, Conrado Hubner Mendes, professor de Direito Constitucional, e Weiller Diniz, jornalista com 35 anos de cobertura política em Brasília. A rapidez com que a PEC andou na Câmara é para "neutralizar críticas e reações contrárias", diz Weiller. Ele pontua como, numa Casa onde 200 parlamentares têm algum tipo de pendência com a justiça, a PEC é vista como "uma forma extra de proteção". Segundo ele, o trâmite e os interesses resgatam "velhas práticas e antigos privilégios" dos deputados. Conrado explica por que a imunidade parlamentar existe e como ela surgiu. "É um meio para proteger a democracia e o Parlamento, mas também para qualificar e melhorar esse parlamento", lembra. Ele lembra que, além dos deputados, outros interessados deveriam participar do debate de Propostas de Emenda à Constituição e como este tema não "perde urgência" no momento do país. E conclui: "Não é autoritário pensar em restrições à liberdade de expressão. É autoritário pensar que a liberdade de expressão não permite limites".

Ep 398A nova rodada de restrições contra a Covid
"Um tsunami de casos." Assim o médico Flávio Arbex descreve a Natuza Nery a situação em Araraquara, cidade do interior de SP que prorrogou medidas de restrição para tentar controlar a nova variante do coronavírus. Pneumologista, Flávio é coordenador da enfermaria de Covid da Santa Casa da cidade. O médico relata a mudança de perfil dos infectados e descreve a doença como uma "tragédia familiar". E lembra de pacientes que, ao serem internados, perguntam: "vou ver meu filho de novo, vou ver minha filha de novo?". Neste episódio participa também o epidemiologista Guilherme Werneck, pesquisador e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. É ele que enumera os vários indícios de mais um cenário de descontrole geral da pandemia, no momento em que estados como São Paulo anunciam medidas mais duras de restrição de circulação. Guilherme aponta que estamos "colhendo frutos de um período relativamente longo de contato social", ao lembrar das festas de fim de ano e do carnaval. E explica por que a alta de casos demora a ser percebida nos números. "As pessoas mais jovens podem desenvolver formas mais leves, mas transmitem. Elas vão para casa, transmitem para o pai e para o avô. E são essas pessoas que vão aparecer nas estatísticas, um mês depois". O epidemiologista alerta que a situação pode ser agravar nas próximas semanas. "Atuar agora pode não resolver o problema, mas vai trazer frutos positivos um pouco mais adiante".

Ep 397Vacina da Pfizer, o que muda com a liberação
Em dezembro, o imunizante do laboratório norte-americano foi o primeiro a ser aprovado e aplicado no ocidente. E, nesta terça-feira (23), foi também o primeiro a receber o registro definitivo pela Anvisa – a Coronavac e a Oxford-AstraZeneca estão autorizadas apenas em caráter emergencial. Mas, até agora, o Brasil não tem nenhum acordo assinado para a compra da vacina. “A Pfizer tentou negociar com o Brasil desde junho de 2020, mas, segundo o ministro Pazuello, com ‘clausulas leoninas’”, recorda a jornalista Mariana Varella, editora do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP. Mariana e Daniel Dourado, médico e advogado do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP são os convidados de Natuza Nery neste episódio. Mariana explica as diferenças entre o registro emergencial e o definitivo. Ela detalha a tecnologia do imunizante, que, de acordo com pesquisas recentes, tem 85% de eficácia já na primeira dose. Daniel analisa o processo de análise da Anvisa e a atuação do Supremo para aumentar a oferta de vacinas no país. “Chama a atenção a atuação do STF, que pressupõe a incapacidade do governo federal na vacinação", diz. E diante das tratativas para permitir a compra de imunizantes pela iniciativa privada, alerta para a importância do Plano Nacional de Imunização. “No atual momento, qualquer vacina precisa ser incorporada ao PNI. Não há outra maneira de vacinar a população que não seja grátis, no SUS e em fila única”.

Ep 396Petrobras - o que Bolsonaro quer ao intervir?
Em apenas um dia, o valor das ações da maior estatal brasileira caiu quase 21%. Desde que o presidente Jair Bolsonaro indicou o General Joaquim Silva e Luna à presidência da estatal, a perda foi de R$ 100 bilhões em valor de mercado. Resultado direto da interferência do presidente, feita em reação ao quarto aumento nos preços do diesel e da gasolina deste ano, empurrados pela alta internacional do petróleo. E o presidente disse que mais mudanças virão. “Bolsonaro não fará um governo liberal, não é um projeto de respeito às regras da economia de mercado, ele fará intervencionismos populistas. É o projeto dele”, afirma a jornalista Miriam Leitão, comentarista da TV Globo, colunista da Rádio CBN e do jornal O Globo. Ela é a convidada de Natuza Nery para explicar as consequências da intervenção de Bolsonaro na Petrobras. Miriam explica os movimentos do governo para viabilizar o nome de Silva e Luna no conselho da empresa, e compara as diferenças e similaridades com a política de controle de preços praticada pelo governo Dilma. “Hoje, o empresário terá que lidar com um risco Brasil 14% mais alto”, diz. E avisa: Bolsonaro se beneficia com a ação. “Ele está pensando em 2022. É uma jogada de marketing populista.”

Ep 395Como a Covid-19 levou um povo à beira da extinção
Vítima da Covid, morreu aos 86 anos Aruká Juma, o último homem de sua etnia. Os Juma eram, até a década de 1960, mais de 10 mil, mas uma série de massacres dizimou este povo. Aruká é um dos mais de 960 índios que morreram após a contaminação pelo coronavírus. “O vírus foi levado de fora para dentro porque não há barreira sanitária e barreira de controle”, afirma a historiadora Neidinha Bandeira, pesquisadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, que atua na Amazônia. Neidinha Bandeira e a médica sanitarista Sofia Mendonça, professora da Unifesp e coordenadora do Projeto Xingu, são as convidadas de Natuza Nery neste episódio. Neidinha relata o desafio de levar vacinas e alimentos aos índios de uma aldeia Uru-Eu-Wau-Wau, povo irmão dos Juma: grileiros fecharam a passagem que dá acesso à Terra Indígena e o grupo de atendimento teve que ser escoltado por policiais. Ela também conta o que será das tradições da etnia após a morte de Aruká. “Diante da ameaça de extinção, os herdeiros se autodeterminaram Juma Uru-Eu-Wau-Wau. Ele passou adiante essa ideia de residência, de que o povo não pode deixar de existir”, relata. A sanitarista Sofia Mendonça explica por que nem 30% dos índios que vivem em aldeias foram vacinados, mesmo estando entre os grupos prioritários. “Falta comunicação correta e há muitas fake news, principalmente entre os jovens”. Ela sugere que se forme grupos com pessoas e organizações de confiança para levar informações corretas às aldeias.

Ep 394Covid em Portugal e os brasileiros retidos
Nos anos que antecederam a pandemia, o trajeto era só de ida: do Brasil para Portugal. Em 2019, o número de imigrantes bateu recorde, depois de três anos de alta na migração. Agora, após um janeiro trágico da pandemia e a crise econômica, centenas destes brasileiros querem voltar à terra natal. É o caso de Claudia Soares, 35 anos, que há dois se mudou com a mãe para o país europeu. Claudia é uma das entrevistadas de Natuza Nery neste episódio. "O custo de vida ficou muito elevado. Só conseguia pagar o aluguel", conta. Médica veterinária, ela conseguiu se recolocar no mercado de trabalho do Brasil, onde espera começar em 1 de março. Mas com a suspensão dos voos entre os dois países para barrar a variante brasileira do Sars-CoV-2, ela vive a insegurança de não chegar a tempo. Claudia relata a sensação de insegurança e a expectativa da volta: "quero muito pisar no meu país e me sentir acolhida". Participa também o correspondente da Globo Leonardo Monteiro. Direto de Lisboa, ele relata como Portugal foi de exemplo no combate à pandemia ao total descontrole. "O verão chegou, e todo mundo relaxou", diz. No fim de 2020, com a chegada do inverno, o número de casos e de óbitos voltou a subir. "O governo não agiu", diz. Com viagens permitidas e com festas de fim de ano, "a conta chegou. E chegou logo". Ele lembra como autoridades portuguesas ignoraram o alerta dado pelo Reino Unido sobre a variante britânica e, agora, tentam barrar a entrada da variante brasileira.

Ep 393Daniel Silveira preso e a relação dos 3 poderes
Deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro na fase crescente da onda bolsonarista de 2018, Daniel Silveira (PSL) subiu o tom no discurso antidemocrático. Em um vídeo, sugeriu agressão física aos ministros do Supremo e fez apologia ao AI-5, instrumento de repressão mais duro da ditadura militar. Na noite de terça-feira, o deputado foi preso pela Polícia Federal a mando do ministro Alexandre de Moraes. Nesta quarta-feira, o STF foi unânime ao confirmar a legalidade da prisão - que precisa ser confirmada pelo plenário da Câmara. “O porão das Forças Armadas nunca aceitou a abertura democrática. Hoje, esse porão é formado por aqueles que afrontam as instituições e o Estado democrático de direito e está abrigado sob as asas do presidente da República. É o caso do deputado Daniel Silveira”, afirma Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN. Ela é a convidada de Natuza Nery neste episódio. Maria Cristina explica como o enfrentamento ao bolsonarismo radical une o Supremo, dividido pelas reações à Lava Jato. E detalha as consequências da prisão para a relação entre Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). “Se Lira acolhe a prisão, afeta seus planos de desidratar as instituições de controle da corrupção. E se rejeita, estará afrontando o Supremo, onde é réu”, analisa. “Para Bolsonaro, Daniel Silveira prestou um baita serviço. É uma novela que vai desviar as atenções do que realmente importa, a condução da pandemia e o futuro do Brasil”.

Ep 392Poucas doses, vacinação paralisada
Um mês depois do alívio pelo início da imunização, agora capitais param a campanha por falta de doses. E justo no momento em que uma variante mais transmissível da Covid-19 se espalha pelo país. Qual o risco de interromper a campanha agora? "Estamos perdendo a oportunidade de salvar vidas", diz o infectologista Julio Croda, um dos convidados de Natuza Nery neste episódio. Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, ele pontua como desmobilizar a população para ir se vacinar pode ser prejudicial. E aponta qual deveria ser a meta de vacinação diária: "Precisamos atingir no mínimo 500 mil, 1 milhão de pessoas por dia". Participa também a jornalista Flávia Oliveira, comentarista da GloboNews que esmiúça quantas doses o Brasil já recebeu e quantas estão prometidas. "A estratégia [de diversificar a compra de vacinas] deveria ter começado no segundo semestre do ano passado e não ao fim do primeiro trimestre de 2021”, diz. Ela analisa a atuação do Ministério da Saúde. “O tempo da ciência é soberano e agora a política quer se impor à ciência. Isso não pode acontecer”, afirma.

Ep 391Mais facilidades para garimpo ilegal
Enquanto o governo federal ainda encontra dificuldade para fazer avançar seus planos de liberação ampla e irrestrita da atividade mineradora, dois Estados da região Norte vão tentando atalhos. Rondônia autorizou o uso de dragas e balsas para retirar minérios de seus rios. E Roraima foi mais longe: legalizou a exploração, sem necessidade de estudos prévios, em terras estaduais. E com um agravante que vai na contramão de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil: a utilização de mercúrio. Substância que “contamina os rios, os peixes e as pessoas”, descreve James Alberti, jornalista do Fantástico que é um dos convidados deste episódio. Participante de uma investigação internacional que traçou a rota do contrabando de mercúrio aqui e em países vizinhos, Alberti identifica as duas portas de entrada, Bonfim (RR) e Guajará-Mirim (RO) e explica: “O garimpo clandestino não é mais como antigamente, é uma estrutura milionária. Usam máquinas de R$ 700 mil, R$ 2 milhões, e cooptam falsas lideranças para entrar em áreas protegidas”. O outro convidado é o procurador Edson Damas, do Ministério Público de Roraima, que começa por esclarecer a ficção de que o garimpo se daria em terras estaduais: na verdade, o que existe para ser extraído está principalmente em terras indígenas. Ele analisa a inconstitucionalidade da lei, já sob contestação no Supremo: ela trata de “bens da União e invade competência exclusiva da União”.

Ep 390A reinvenção dos sem-Carnaval
Uma das maiores festas populares do mundo é também, para milhares de brasileiros, trabalho duro, que se estende pelo ano inteiro. Limitados pela Covid-19, eles foram à luta. Os bonecos gigantes de Leandro Castro este ano não desfilarão pelas ruas do Recife e de Olinda, mas serão vistos em exposição, e com novidades: “Não poderia faltar homenagem à classe guerreira de médicos e enfermeiros", ele diz. À frente de um projeto voltado para a inclusão de jovens em São Paulo, a percussionista Silvanny Sivuca viu no bloco online a chance de manter o grupo coeso: “É a maneira que a gente encontrou de alimentar o coração de nossos batuqueiros, que na pandemia foram salvos pela música”. Em Salvador, Bira Jackson colocou suas três décadas de Olodum em modo de espera e foi trabalhar como motorista de aplicativo para sustentar a família: “As contas não param de chegar, e não estamos fazendo shows”. Os três, que contam suas histórias neste episódio, têm em comum a esperança na vacinação em massa como único e verdadeiro passaporte para a volta da folia.

Ep 3892022: polarização em alta, centro à deriva
O rearranjo de forças produzido pela troca de comando no Congresso mandou o impeachment para o freezer e favoreceu a reedição do confronto do segundo turno de 2018, enfraquecendo a postulação de diversos nomes que transitam do centro à direita do espectro político. “Foi o campo mais ferido”, diz Bernardo Mello Franco, um dos convidados de Renata Lo Prete. E não aconteceu por obra do acaso, completa Carlos Andreazza, que assim como Bernardo é colunista do jornal O Globo e também participa do episódio: “Desarticular, engessar o tabuleiro e garantir a polarização foi uma jogada clara de Bolsonaro”. A partir desta conclusão inicial, eles debatem a luta interna de siglas como DEM, PSDB e MDB. E também o movimento de Lula, que, com quase dois anos de antecedência, acaba de ungir Fernando Haddad para ser novamente o candidato do PT ao Planalto. A dupla avalia também quanto espaço resta para o surgimento de novos nomes e que fatores ainda podem desestabilizar o cenário que o presidente considera o mais favorável para sua reeleição.

Ep 388Vacinas x variantes: o que já sabemos?
É a questão da hora: em que medida os imunizantes disponíveis contra a Covid-19 respondem às três novas e mais contagiosas versões do coronavírus identificadas, respectivamente, no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, o biólogo e divulgador científico Atila Iamarino começa por explicar as características dessas mutações e por que apareceram a esta altura da pandemia: “Teve tempo suficiente para o vírus mudar, e mudar na presença da imunidade de quem já se curou. E conseguir escapar dessa imunidade". Lembra ainda o traço comum aos países onde elas surgiram: nos três o contágio está fora de controle. Ele detalha a tecnologia de diferentes vacinas em uso no mundo para mostrar quais têm, em teoria, melhores condições de funcionar contra as variantes. E diz que esse processo não é desconhecido: “O vírus da gripe é assim, muda todo ano. Todo ano tem duas reuniões da OMS com o mundo inteiro discutindo para onde mirar a vacina da gripe". Sem deixar de lado a urgência de fazer a vacinação avançar no Brasil, Atila destaca que ela não elimina a necessidade de investir em testes, rastreio e medidas de contenção. “Se a gente contar só com a imunização, estaremos dando força para o vírus mudar e escapar da vacina”.

Ep 387Combustíveis: quem é quem nessa briga
Desde o início do ano, a Petrobras já reajustou duas vezes o preço do diesel e três o da gasolina. Os caminhoneiros estão insatisfeitos. Jair Bolsonaro, que tem na categoria uma importante base de apoio, também está. E o mercado se preocupa com a nova política de preços da estatal, que amplia o prazo para acomodar as oscilações do mercado internacional. Além de carregar os traumas do intervencionismo (governo Dilma) e de uma greve de caminhoneiros que parou o país e derrubou o PIB (governo Temer). Neste episódio do podcast, Renata Lo Prete conversa com Álvaro Gribel, repórter do jornal O Globo, que detalha a formação do preço dos combustíveis e prevê outros aumentos para breve: “A empresa ainda não conseguiu zerar sua defasagem”. Ele analisa o fator câmbio, o impacto sobre a inflação e a ideia, ventilada por Bolsonaro, de resolver o problema reduzindo o ICMS, imposto que sustenta os Estados. “A solução proposta não é uma solução”. O mesmo pensa Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Estamos em uma crise profunda, e a arrecadação este ano será frágil para Estados e União. Não tem espaço fiscal para cortar impostos”, afirma. Vale aposta num cenário de alguma acomodação do governo com os caminhoneiros, mas sem interferência na Petrobras. E num avanço modesto da agenda econômica do governo no Congresso, sem reformas de grande impacto.

Ep 386Geopolítica da vacina: os emergentes
A população mundial já protegida contra a Covid-19 é ínfima (0,5% do total) e concentrada em países ricos. Eles, que abrigam cerca de 16% dos habitantes do planeta, abocanharam 60% das doses até aqui disponíveis. Os demais “ficaram com uma espécie de xepa” de vacinas como as das farmacêuticas Pfizer, AstraZeneca e Moderna. A imagem é da economista Monica de Bolle, professora na Universidade Johns Hopkins, com especialização em imunologia e genética pela Escola de Medicina de Harvard. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, Monica explica que, no vácuo deixado pelas compras desenfreadas dos ricos, três países entraram em cena com imunizantes próprios e vontade de ampliar seu papel: Rússia, China e Índia. “São eles que estão atuando para a cooperação global, claro que pensando também nos próprios interesses". Papel ainda mais estratégico, lembra a economista, quando se verifica que o consórcio coordenado pela OMS nem de longe dará conta de suprir as necessidades dos países menos bem posicionados na corrida da vacinação. Para o Brasil, que precisa - e muito - das vacinas de seus parceiros de BRICS, pode haver outra oportunidade: ainda dá tempo de o país se posicionar neste mercado, usando sua experiência de produção e imunização em larga escala.

Ep 385Ser escravo doméstico no século 21
Desde 1995, segundo dados oficiais, mais de 55 mil pessoas foram libertadas de situações análogas à escravidão no Brasil. A maioria estava no campo, mas o crime ocorre também nas cidades, com uma frequência que chama a atenção das autoridades envolvidas nos flagrantes. No caso mais recente a ganhar destaque no noticiário, uma mulher de 63 anos passou quatro décadas a serviço de uma família que, além de submetê-la a condições humilhantes, ficava com toda a sua suposta remuneração -inclusive o auxílio emergencial da pandemia. Os responsáveis "tiram as referências da vítima e se aproveitam disso", explica Alexandre Lyra, auditor fiscal do trabalho que participou dessa operação de resgate, num bairro do Rio de Janeiro que se chama Abolição. Com base em longa experiência, ele enumera o que precisa ser feito para mudar esse vergonhoso quadro: “O tripé do enfrentamento precisa funcionar. Prevenção, repressão e reparação do dano, com punição do empregador". Lyra, porém, não consegue se lembrar de nenhum que tenha sido preso. A outra entrevistada neste episódio é a psicóloga Yasmim França, que integra o Projeto Ação Integrada, desenvolvido pelo Ministério Público do Trabalho em parceria com a Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro. Ela descreve o processo de infantilização das vítimas, que muitas vezes ignoram seus direitos mais básicos, e os sentimentos conflitantes quando encontradas pela fiscalização: “Carinho, raiva, indignação e culpa se misturam". Yasmin destaca ainda o quanto o panorama geral de desemprego e precarização do trabalho dificulta a reinserção dessas pessoas na sociedade.

Ep 384Sputnik V: mais opção para o Brasil
Sem a conclusão de todos os estudos e com poucos dados disponíveis, a Sputnik V gerou desconfiança no meio científico internacional quando aprovada para uso na Rússia, em agosto de 2020. Agora, depois de a Anvisa derrubar a exigência de estudos da fase 3 feitos no Brasil para aprovar o uso emergencial, o governo federal promete negociar a compra de 30 milhões de doses da vacina russa e também da indiana Covaxin. Antes, a Bahia já tinha ido ao Supremo para tentar adquirir o imunizante. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe dois convidados: Álvaro Pereira Jr, jornalista da Globo que acompanha tudo sobre vacinas na pandemia, e Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, mestre e doutora em neurociências e coordenadora da Rede Análise Covid-19. Álvaro relata como a Sputnik V entrou no cardápio de vacinas pelo mundo e se tornou uma opção para o Brasil. E como a ideia de produzir doses no laboratório brasileiro União Química, fabricante de cremes dermatológicos, gerou surpresa. Mas conta que os russos também adaptaram laboratórios para produzir doses da Sputnik. Álvaro, que esteve em Moscou no fim de 2020, conta como a população russa lida com a vacinação. Melanie detalha como o imunizante age para proteger o organismo contra o Sars-Cov-2 e explica os resultados dos estudos. Ela fala ainda dos efeitos da decisão da Anvisa, em um cenário onde há menos de 10% das doses necessárias pra aplicar nos grupos prioritários. "Vacinas como Moderna, Novavax e Covaxin podem agora ter uma possibilidade mais concreta de pedir aprovação de uso emergencial", afirma.

Ep 383Vazamento de dados: você foi exposto
Nas palavras de Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, é “o vazamento do fim do mundo”. Endereço, nome dos familiares, salário, status na Receita Federal, número de celular... Tem de tudo atrelado aos CPFs de mais de 220 milhões de brasileiros, entre eles alguns que já morreram. Na avaliação de Lemos, um dos entrevistados neste episódio, pouca coisa sobrou sob o devido sigilo. “Está todo mundo exposto" -inclusive o presidente da República e ministros do Supremo. E exposto a todo tipo de golpe. Ainda não se sabe de onde veio o material, nem quem vazou, e a Polícia Federal abriu inquérito para apurar o caso. Lemos explica que o excesso de concentração de informações numa mesma base de dados aumenta o risco de eventos como este. Ele usa a imagem dos modernos navios petroleiros para defender outro modelo: “A gente tem que ter dados em compartimentos estanques, específicos e interoperáveis", diz. Renata Lo Prete entrevista também Nina da Hora, cientista da computação pela PUCRio e colunista do Gizmodo. Ela orienta sobre o que fazer e, principalmente, o que não fazer agora. "A primeira coisa é não confiar em soluções imediatistas, como site que diz que vai verificar se o seu CPF foi vazado ou não". Nina ensina como criar senhas muito seguras e formas de se proteger, como a dupla autenticação. E fala da importância de ajudar familiares mais idosos para reduzir danos.

Ep 382Sucessão no Congresso, parte 2
No segundo de dois episódios sobre a troca de comando no Legislativo Federal, Renata Lo Prete conversa com o filósofo Marcos Nobre, professor da Unicamp e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap. Ele prevê união sólida entre o presidente Jair Bolsonaro e o deputado Arthur Lira (PP-AL), agora no comando da Câmara. “Um casamento de chantagem mútua, em que os dois são o mesmo lado da moeda". Mas com trepidações, até porque Lira dificilmente conseguirá entregar tudo o que prometeu aos 302 colegas que votaram nele. A chamada “agenda de costumes”, eufemismo para retrocessos em diferentes áreas, tem agora condições de prosperar. “Rodrigo Maia foi um biombo”, diz Nobre. Nesse aspecto, “o verdadeiro governo Bolsonaro começa agora”. Ao mesmo tempo, ele vê um “me engana que eu gosto” na ideia, expressa pelo mercado e pelo próprio ministro Paulo Guedes, de que Lira venha a abraçar reformas amplas ou qualquer pauta mais fiscalista da agenda econômica. Nobre concorda que o impeachment foi afastado do horizonte por um bom tempo ou mesmo definitivamente. Apenas pondera que ele nunca chegou a ser uma perspectiva real, nem na era Maia.

Ep 381Sucessão no Congresso, parte 1
O ano legislativo começou com vitória maiúscula de Jair Bolsonaro, que emplacou seus candidatos na presidência da Câmara (Arthur Lira, PP-AL) e do Senado (Rodrigo Pacheco, DEM-MG). Um fôlego e tanto para um governo que lida com a dupla pressão do fiasco no enfrentamento da pandemia e da recuperação econômica que não veio. Na Câmara, a vitória é antes de tudo do Centrão, que volta a ocupar a segunda cadeira mais importante da República seis anos depois da ascensão de Eduardo Cunha. Como foram construídos os resultados desta segunda-feira? E que impacto terão sobre o biênio final do mandato de Bolsonaro? É o que O Assunto vai procurar responder em dois episódios. Neste primeiro, Valdo Cruz, comentarista da Globo News em Brasília, detalha o quadro no Senado. E Bruno Carazza, colunista do jornal Valor Econômico e autor do livro "Dinheiro, Eleições e Poder", esmiúça as manobras do Palácio do Planalto para amarrar apoio a seus candidatos. "Oportunismo, criatividade e muita negociação de bastidor”, resume Carazza ao descrever a operação que destinou R$ 3 bilhões em créditos extraordinários do Orçamento do ano passado a 250 deputados e 35 senadores, viabilizada por uma decisão do TCU no apagar das luzes de 2020. “Abriram um balcão em que os parlamentares indicavam obras que serão contratadas pelo governo ao longo deste ano”. Sem deixar de reconhecer que Bolsonaro venceu, Carazza avalia que o preço a pagar será elevado: um presidente cada vez mais refém do Centrão.

Ep 380A vida de Ana no covidário em Manaus
Na faculdade, Ana Galdina se encantou com a infectologia por ser a especialidade que permite olhar simultaneamente para “o doente, a doença e sua inserção no ambiente”. Estudou as pandemias do passado, mas jamais imaginou as cenas que há 11 meses fazem parte de seu cotidiano na ala de pacientes graves de Covid-19 no Hospital 28 de Agosto, maior porta de entrada para atendimento na devastada capital do Amazonas. “No começo, era o medo do desconhecido”, recorda, referindo-se ao sentimento dela e de colegas diante dos sintomas e da evolução dos primeiros casos. “Hoje, nosso medo é da desassistência”. No relato de Ana Galdina, 42, a Renata Lo Prete se misturam angústia, frustração e resiliência. Em sua voz, a pressão sem trégua a que estão submetidos os profissionais da linha de frente. Na sucessão interminável de plantões, a lembrança de muitas datas se perdeu, mas de duas ela não esquece: 15 de abril de 2020, quando 21 pessoas morreram em seu turno, e 14 de janeiro de 2021, o dia em que o oxigênio acabou nas UTIs de Manaus. “A gente já teve que escolher, sim, quem receberia. E ainda tem que escolher”, diz. Casada, mãe de dois filhos, ela conta que, em face de tanto sofrimento, nem voltar para eles é simples. “Eu tenho minha rotina: chego em casa e vou tomar banho. Lá eu choro, choro e choro. Preciso dessa passagem para poder estar com minha família”.

Ep 379Vacina: vale usar todas na 1ª dose?
Enquanto o governo federal diz não ter pressa para decidir se fará uma compra adicional de 54 milhões de doses da Coronavac, o Plano Nacional de Imunização contra a Covid-19 segue em marcha lenta, e o país debate a conveniência de atrasar a segunda dose, ampliando em troca o número de pessoas que estão recebendo a primeira. Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Marco Aurelio Safadi explica neste episódio o mecanismo pelo qual a vacina protege o indivíduo e o quanto é possível adiar a aplicação do reforço sem comprometer a imunização desejada -o intervalo máximo varia a depender do tipo de vacina e mesmo de uma marca para outra. Tudo considerado, Safadi aprova a adoção da estratégia neste momento: “É importante reconhecer que o Brasil tem carência de doses”. Outro que vota a favor é o médico sanitarista Gonzalo Vecina, um dos fundadores da Anvisa e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. Mas com uma condicionante: tem que haver um cronograma crível de chegada de novas remessas, de forma a garantir que as pessoas recebam a segunda dose em prazo aceitável. Sem isso, “é muito arriscado”. Vecina acrescenta que a medida seria apenas paliativa, e que o fundamental é o governo comprar mais doses sem demora. Daí ele julgar inexplicável a atitude do Ministério da Saúde quanto aos 54 milhões do Instituto Butantan. “Neste momento, há tanta desconfiança em relação ao Ministério da Saúde que eu tiraria o comando da campanha da pasta e entregaria ao Conselho Nacional dos Secretários de Saúde”, afirma.

Ep 378O auxílio emergencial vai voltar?
Pandemia agravada, vacinação ainda incipiente. Amarrada ao destino da crise sanitária, a economia custa a se recuperar, e no momento tem quase nada a oferecer a milhões de brasileiros que, desde a virada do ano, estão privados da tábua de salvação de 2020: o auxílio emergencial. É nesse contexto que se desenrola um cabo-de-guerra em Brasília. De um lado, a equipe econômica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, resiste à recriação de uma despesa gigantesca, num quadro fiscal explosivo. De outro, lideranças do Congresso e do próprio Executivo defendem o resgate do programa, de olho no risco de turbulência social e no efeito negativo do fim do benefício sobre a popularidade do presidente Jair Bolsonaro. "Dentro do governo, muitos ministros acham que o auxílio não deveria ter acabado", conta Ribamar Oliveira, colunista do jornal Valor Econômico, um dos entrevistados neste episódio. Ele desfaz uma confusão frequente ao explicar que "o auxílio não é um problema de teto de gastos, mas sim de dívida pública". Participa também Cecília Machado, professora da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV. Cecília reconhece que, num cenário econômico de grande incerteza, cujo elemento principal são as dúvidas quanto ao avanço da vacinação, a volta do auxílio cumpriria um papel essencial: “É o responsável pela segurança alimentar de muitas famílias”. Mas ela considera que ele só poderia voltar com alcance e valor mais modestos, e acompanhado de corte de outras despesas, para afastar o perigo de insolvência das contas públicas.

Ep 377Público x privado: fila paralela da vacina?
Sem doses suficientes nem mesmo para o primeiro dos grupos prioritários, o Brasil vê surgir uma discussão que em outros países não prosperou, em torno de delegar à iniciativa privada parte da compra e da oferta de imunizantes contra a Covid-19. A Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas propôs a aquisição de 5 milhões de doses da indiana Covaxin. E nesta terça o presidente Jair Bolsonaro confirmou ter dado sinal verde para que um grupo de empresários encomende 33 milhões de doses da AstraZeneca - metade iria para funcionários e familiares dos compradores, metade para o SUS. Problema: a farmacêutica já avisou que, neste momento da pandemia, não tem como atender clientes privados. “A gente precisa concentrar todos os recursos disponíveis para vacinar as pessoas mais vulneráveis", diz o médico sanitarista Adriano Massuda, pesquisador do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da FGV, um dos entrevistados de Renata Lo Prete neste episódio. Ele lembra que os vulneráveis, no caso, não são apenas idosos e portadores de comorbidades, mas amplas fatias da população brasileira especialmente expostas ao contágio - e que não teriam acesso à vacina na rede particular. Com isso, o objetivo central, de alcançar a imunidade coletiva, ficaria cada vez mais distante. Participa também Geraldo Barbosa, presidente da associação das clínicas. “Vamos somar, não concorrer", defende ele.

Ep 376A esnobada do Brasil na Pfizer
Em setembro, o diretor-executivo global da farmacêutica ofereceu ao país 70 milhões de doses de sua vacina anti-Covid. Ainda que, em dezembro, o Ministério da Saúde tenha anunciado a intenção de comprá-las, a Pfizer revela agora que jamais recebeu resposta. E o governo brasileiro reage classificando como “abusivas” as cláusulas apresentadas e atacando a empresa por supostamente almejar um efeito de marketing ao vender para o Brasil. A nova celeuma se desenrola enquanto o país volta ao patamar de mil mortes diárias por Covid-19. “E o que nós temos de vacina até agora não é suficiente nem para atender ao primeiro grupo prioritário”, lembra Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin, que atuou por duas décadas no Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. Ela vê risco real de a vacinação ser interrompida, pois a conta de doses a chegar e do tempo que falta para o início da produção local ainda não fecha. Participa também do episódio o economista Thomas Conti, professor do Insper e integrante do Infovid, grupo interdisciplinar dedicado a divulgar informações sobre a doença. Ele desmonta ponto a ponto as alegações do governo para fustigar a Pfizer e alerta para a repercussão do caso: “O que mais preocupa é a negociação com outros laboratórios. Nossa prioridade deveria ser atrair e fazer acordos que não fizemos no ano passado. Estamos no caminho contrário”.

Ep 375Carteirada na fila da vacina
Prefeitos, secretários municipais, empresários, médicos, jovens sem comorbidade alguma: tem de tudo (até negacionistas) na lista de brasileiros que estão burlando a ordem de prioridades estabelecida no plano federal de imunização contra a Covid-19. O espetáculo desavergonhado do “eu primeiro” acontece mesmo diante da escassez de doses disponíveis -no momento, elas são insuficientes até para proteger o conjunto dos profissionais da saúde, prioridade das prioridades. Em Manaus, a mais devastada das capitais do país, a vacinação chegou a ser suspensa para que o Ministério Público investigue casos de fura-fila. Em entrevista a Renata Lo Prete, Daniel Dourado, médico e advogado do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP, lembra que burlar esse tipo de determinação das autoridades em plena pandemia configura crime previsto no artigo 268 do Código Penal, com punição que pode variar de um mês a um ano de detenção, mais multa. Ele explica o critério que deve nortear a sucessão de fases do plano: vacinar primeiro quem cuida dos doentes e, na sequência, as pessoas mais vulneráveis às formas mais graves da Covid, justamente aquelas que, se contaminadas, precisarão de leitos nos hospitais sobrecarregados. Um princípio fácil de entender quando se vê a vacina como proteção coletiva. “Mas há quem enxergue como benefício meramente individual”. Para Dourado, a falta de comunicação clara e de uma efetiva coordenação nacional contribui para as infrações.

Ep 374Brasil x China: como fica a vacina?
Depois de dois anos de provocações infantis do governo brasileiro, está nas mãos da superpotência emergente o futuro do nosso Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19. Ele só ganhará escala quando houver produção local. E tanto a Fiocruz quanto o Instituto Butantan dependem do IFA, insumo vindo da china. Correspondente do jornal “O Globo” em Pequim, Marcelo Ninio relata neste episódio as justificativas dadas pelo governo chinês para o atraso na liberação do material, todas de ordem burocrática. “O discurso é de interesse na colaboração com o Brasil”, diz. Mas ele não descarta que a China venha a aproveitar o episódio para reduzir as resistências à sua participação quando for introduzida aqui a tecnologia 5G. O outro convidado é Fausto Godoy, diplomata de carreira que serviu na embaixada brasileira em Pequim. Ele lembra que o interesse chinês no Brasil, essencialmente como provedor de alimentos, é de longo prazo e supera qualquer eventual desejo de retaliação pelos ataques de Jair Bolsonaro, do filho Eduardo e do chanceler Ernesto Araújo. Mas alerta que também não devemos esperar especial boa vontade na solução do impasse. E que, para além dele, o problema maior foi o atual governo ter colocado o Brasil na contracorrente do mundo, começando por negligenciar o papel que o século 21 reserva à China.

Ep 373Desafios de Biden na Casa Branca
Depois da transição mais conturbada da história, o democrata tomou posse como o 46º Presidente dos Estados Unidos. Biden assume um país em guerra interna, e que perde cerca de 4 mil vidas por dia para a pandemia de Covid-19. "A posse ocorre sobre o signo da divisão profunda da sociedade americana", diz Rubens Ricupero, convidado de Renata Lo Prete neste episódio. Historiador e diplomata, o ex-embaixador do Brasil em Washington traça um paralelo entre a posse de Biden e a de Abraham Lincoln, em 1861. Ricupero detalha como Biden terá que lidar com as consequências da recente invasão ao Capitólio e com o discurso do agora ex-presidente Donald Trump de que as eleições foram roubadas: "O grande primeiro desafio é esse, restabelecer a verdade dos fatos". O diplomata explica ainda como ficam as relações com China, Europa e com o resto do mundo. "Hoje esses parceiros todos estão cada um deles procurando seus próprios caminhos".

Ep 372Vacinação começou, e agora?
Depois da liberação da Anvisa para o uso emergencial, profissionais da saúde começaram a ser vacinados em todo o país. Mas as 6 milhões de doses da Coronavac que foram distribuídas não são suficientes para imunizar nem metade deste que é um dos grupos prioritários na fila da vacina. Outras 2 milhões de doses que devem vir da Índia não tem data para chegar. E além da escassez de doses, há ainda outro problema: a falta de insumos vindos da China para produzir localmente, o que daria mais capacidade e autonomia para uma vacinação em massa. "Ter doses é o grande gargalo", diz Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira em Imunizações, uma das convidadas de Renata Lo Prete neste episódio. Isabella lembra ainda que o Programa Nacional de Imunizações consegue vacinar muitos brasileiros em pouco tempo: "A gente sabe fazer". Participa também Fabiane Leite, jornalista da TV Globo especializada em saúde, que detalha quais são as metas estipuladas pelo Ministério da Saúde explica de onde vem o material que pode dar tração à produção local.

Ep 371Erros na pandemia: quem vai pagar?
Negação da ciência, incentivo às aglomerações, piadas sobre a vacina... Desde a chegada do coronavírus ao Brasil, o presidente Jair Bolsonaro colocou em dúvida e desafiou recomendações de autoridades de saúde para frear o avanço da pandemia. Mas não foi só ele. A tragédia assistida em Manaus expõe uma série de erros, passando pelo ministro da Saúde, pelo governador do Amazonas e o prefeito da capital. Existe espaço responsabilização dos agentes públicos? Para responder a esta questão, Renata Lo Prete recebe dois convidados neste episódio: Vanja Santos, integrante da Mesa Diretora do Conselho Nacional de Saúde, órgão vinculado ao Ministério da Saúde, e Oscar Vilhena, diretor da FGV de São Paulo e integrante da Comissão Arns. Ela diz que ministério mal se reuniu com o conselho e não seguiu nenhuma de suas recomendações. "A gente fica meio à deriva", afirma ela ao contar sobre relação entre os dois órgãos. Oscar Vilhena detalha quais são as consequências jurídicas e políticas a que Bolsonaro e Eduardo Pazuello podem ser submetidos. "Há duas formas de enquadramento, uma de crime comum. Outras, de crime de responsabilidade", o último que pode acarretar processo de impeachment. Ele explica que autoridades estaduais e municipais também podem ser responsabilizadas. "Estamos pendurados na Câmara dos Deputados. A cobrança deve ser feita em relação aos deputados", ele conclui, ao lembrar que quem pode fazer andar um processo contra o presidente são esses parlamentares.

Ep 370Polícia com mais poder: para quê?
Greves recorrentes apesar de ilegais, envolvimento crescente na política, letalidade em alta: é nesse ambiente, e com a simpatia do Palácio do Planalto, que corporações da segurança pública tentam fazer avançar no Congresso uma nova lei orgânica das polícias. Entre outras medidas de cunho autonomista, o texto retira dos governadores a prerrogativa de escolher o comandante-geral da PM (que passaria a sair de lista tríplice elaborada por coronéis), bem como de dispensá-lo, mesmo em situações de insubordinação ou crise de gestão (ele teria mandato fixo). O retrocesso é evidente. “A polícia não pertence aos policiais. Ela representa o braço armado do Estado, que tem, portanto, a obrigação fazer o controle disso”, pondera José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da PM-SP, ex-secretário Nacional de Segurança Pública e um dos convidados deste episódio. Renata Lo Prete entrevista também Arthur Trindade, diretor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele afirma que o projeto fere, além da Constituição, a própria lógica federativa, pela qual policiais civis e militares respondem aos governos estaduais, dos quais sai sua remuneração. O que está em curso é mais amplo, explica Trindade: “Não é de hoje que o presidente Jair Bolsonaro faz movimentos para cooptar as polícias”. E tem precedentes históricos: “Controle maior delas pelo poder central é algo típico de nossos períodos autoritários”. Para saber que filme é esse e como termina, o pesquisador recomenda olhar para a reforma feita na polícia de um país vizinho: a Venezuela.

Ep 369Enem da pandemia: chegou a hora
Adiado por causa do novo coronavírus, o exame que envolve quase 6 milhões de estudantes começa no domingo, 17 de janeiro. Apesar do apelo alunos, entidades e alguns prefeitos, a prova está mantida por decisão do TRF-3 - menos no Amazonas, onde a primeira instância suspendeu a realização. Mas como será fazer o exame neste momento de alta de casos de Covid? Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Luiza Tenente, repórter de educação do G1. Luiza explica as orientações em meio ao processo de judicialização e da carência de explicações do governo sobre o que vai acontecer com quem estiver em cidades onde a prova não será aplicada. Ela detalha cuidados a tomar e o que levar na hora de fazer a exame: máscara e caneta preta. "A recomendação dos médicos é que o estudante leve um lanche rápido", diz. E dá uma dica: ter foco e combater a ansiedade.

Ep 368Eleição no Congresso na reta final
Uma disputa sem povo, mas que determina muita coisa no país. Assim Maria Cristina Fernandes, colunista de política do jornal Valor Econômico, define a corrida para as presidências da Câmara e do Senado, que terá desfecho no início de fevereiro. Ainda que novos nomes possam surgir - e eventualmente surpreender - até a última hora, o quadro se afunilou para dois confrontos: entre os deputados Arthur Lira (PP-AL) e Baleia Rossi (MDB-SP), e entre os senadores Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e Simone Tebet (MDB-MS). Lira e Pacheco apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro. Rossi e Tebet, por grupos que pregam a independência do Parlamento na relação com o Palácio do Planalto. Em conversa com Renata Lo Prete, Maria Cristina explica o que está além dos termos mais simples dessa equação. “É uma disputa por espaços dentro e fora do Congresso”, que envolve negociação de cargos no governo, alianças com vistas a 2022 e até acerto de contas entre lavajatistas e seus críticos. Nos dois casos, ela indica quem tem a vantagem no momento, lembrando, porém, que sempre há tempo para surpresas e mudanças de lado nesse colégio eleitoral restrito, mas influente.

Ep 367A saída da Ford e o derretimento da indústria
Primeira montadora a se instalar no Brasil, em 1919, a Ford anunciou que vai fechar suas fábricas de produção aqui – a de Camaçari (BA) e a de Taubaté (SP), imediatamente; e a de Horizonte (CE), ainda em 2021. Reflexo da crise de um setor que amarga quedas desde meados da década passada e que se vê diante de duas importantes transformações: na matriz energética e na relação do consumidor com os carros. "A juventude não tem mais a ambição de comprar o carro e há um movimento de trocar os veículos a gasolina por elétricos”, mapeia o economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e sócio da MB Associados. Convidado de Renata Lo Prete neste episódio, Mendonça de Barros explica também por que as gigantes automobilísticas têm tanta influência nas decisões do governo federal e as consequências do emagrecimento do parque industrial brasileiro. “É indispensável à indústria do Brasil aumentar seu investimento em tecnologia e melhorar sua produtividade”, afirma. Participa também o repórter de economia do G1 Luiz Gerbelli. Ele relembra como este é mais um capítulo do processo de reestruturação da empresa, que fechou a tradicional fábrica do ABC em 2019. "Uma filial que precisa ser socorrida com frequência. A operação ficou inviável." Gerbelli explica ainda como a situação econômica contribui para a fuga. "O Brasil não tem mais força, pelas questões econômicas e pelas sucessivas crises, para fazer esse mercado crescer e absorver tantos veículos."

Ep 366Trump banido das redes
Na esteira de um inédito ato de insurreição estimulado pelo presidente dos Estados Unidos, outro movimento sem precedentes: sua remoção do Facebook e do Twitter. Quase ao mesmo tempo, Apple, Google e Amazon retiraram de suas lojas virtuais o aplicativo que mantinha ativa a rede social Parler, usada por apoiadores do presidente para organizar a invasão ao Congresso e pregar, entre outros crimes, o assassinato do vice Mike Pence. Tudo isso enquanto Washington se prepara, sob pesado esquema de segurança, para a posse de Joe Biden, no próximo dia 20. O expurgo digital do homem mais poderoso do mundo, que apenas no Twitter comandava 88 milhões de seguidores, suscita uma série de questões, que Renata Lo Prete discute neste episódio em entrevista com Pedro Doria, colunista do jornal O Globo e editor do Canal Meio. As gigantes de tecnologia passaram dos limites agora, praticando censura, ou demoraram a agir, tolerando, enquanto lucravam muito, quatro anos de seguidas incitações à violência e ilegalidades várias? “Estamos falando de um chefe de Estado, que ativamente usou como estratégia política bem mais do que mentir, mas criar uma realidade paralela", diz o jornalista. Se a conversa online exige marco regulatório, a quem cabe a arbitragem? “Se a gente pensa nas redes sociais como a praça pública, quem deve tomar a decisão sobre as regras é o povo, representado pelo Congresso”, afirma. Doria lembra ainda que a história não deve terminar no presidente americano, e vê o Brasil nesse roteiro: “Bolsonaro é quem mais imita Trump, é um caso-chave. Estamos no olho do furacão”.

Ep 365Covid: por que monitorar os viajantes
Num momento em que a pandemia se agrava em vários continentes, convém examinar os resultados obtidos por países que apostaram no controle de entrada, aliado a testagem e quarentena, como forma de erguer uma barreira de contenção do contágio. É o caso da Coreia do Sul, onde quem chega faz exame ainda no aeroporto e, na sequência, encara um rígido isolamento de 14 dias. “Um aplicativo no celular te monitora o tempo todo. Há estrangeiros que foram deportados por violar a quarentena”, conta Carlos Gorito, jornalista brasileiro que vive em Seul desde 2008. Fato é que, apesar de um rebote recente no número de casos, o país de 50 milhões de habitantes ostenta uma das mais baixas taxas de mortalidade por Covid-19. O episódio traz, além do depoimento de Carlos detalhando os protocolos sul-coreanos e seu impacto no cotidiano, entrevista de Renata Lo Prete com o médico Márcio Bittencourt, mestre em Saúde Pública que trabalha no Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP. Ele explica a função de cada uma das três fases de controle de fronteiras, destaca o uso da tecnologia para reduzir as transmissões e analisa a situação do Brasil: “Aqui, o maior problema é interno. Precisamos monitorar o fluxo entre cidades e entre Estados”, diz. E também do que jamais tivemos na pandemia: "Uma boa estratégia de comunicação, com mensagens uníssonas das autoridades”.

Ep 364EUA sob ataque de Trump, parte 2
O dia em que o presidente americano incitou uma turba a invadir o Congresso foi seguido por uma madrugada na qual deputados e senadores ratificaram a vitória de Joe Biden. Mas os eventos da quarta-feira em Washington continuam a reverberar. Desdobraram-se em baixas na Casa Branca, na suspensão de Trump do Facebook por tempo indeterminado e, principalmente, num movimento de parte do establishment para removê-lo do cargo antes do próximo dia 20, data da posse de Biden. Pressão suficiente para levar o presidente a divulgar, na noite desta quinta, um vídeo em que, pela primeira vez, fala em tom conformado sobre a iminente saída do poder. Tudo isso tem consequências que vão além do prazo de validade do atual governo - e muito além das fronteiras dos Estados Unidos. Para avaliá-las, Renata Lo Prete recebe neste episódio o cientista político Houssein Kalout, pesquisador da Universidade Harvard. “Trump rebaixou a estatura da democracia americana", diz ele. Embora enxergue pouca chance de impeachment ou outra saída antecipada prosperar a esta altura, Kalout acredita que os atos de insurreição e vandalismo não ficarão impunes. “Pessoas morreram. Alguém terá que responder por isso". Para ele, o Partido Republicano está "diante de um teste de fogo: ou se reinventa, ou afunda com Trump". Kalout explica ainda o que significa para o mundo a percepção de fragilidade da democracia americana. O que inclui o Brasil: “O roteiro para 2022 está dado".

Ep 363Congresso invadido, Trump fora de controle
Era para ser apenas um rito formal no processo de transição, mas virou um dia inédito na história dos EUA. Incitados pelo presidente Donald Trump, manifestantes invadiram o Capitólio, onde congressistas estavam reunidos para ratificar a vitória de Joe Biden no Colégio Eleitoral. Extremistas interromperam a cerimônia, parlamentares foram retirados às pressas e uma mulher morreu baleada. "O que estamos vendo aqui é um grande teatro", diz Daniel Wiedemann, coordenador do escritório da TV Globo em Nova York, em entrevista a Renata Lo Prete. Ele relembra a estratégia de Trump, como a eleição na Geórgia selou a derrota dos republicanos e o que esperar até dia 20 de janeiro, quando Biden toma posse. Participa também Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV em São Paulo. Stuenkel analisa como, mesmo derrotado, Trump continua sendo a figura mais popular do Partido Republicano e como fica a relação entre ele e seu vice, Mike Pence: "está instalada uma espécie de guerra civil no partido." Stuenkel esmiúça como a instabilidade política interna pode afetar a influência norte-americana no mundo: "Biden vai ter que gastar muito tempo e energia para pacificar." E conclui como a troca de poder nos EUA pode complicar a vida de populistas ao redor do mundo, entre eles do presidente Jair Bolsonaro.

Ep 362Manaus de volta ao inferno da Covid
“Não há macas, não há leitos, não há nada." Assim o repórter Alexandre Hisayasu, da Rede Amazônica, resume a situação. Em conversa com Renata Lo Prete, ele conta que, em hospitais sobrecarregados, até o espaço antes usado por funcionários para bater ponto agora abriga pacientes de maneira precária. Acompanhando a pandemia no Estado desde os primeiros casos, Hisayasu tem a sensação de assistir a uma reprise trágica: nove meses depois de Manaus apresentar ao Brasil o colapso produzido pelo novo coronavírus, está de volta a via crucis de ambulâncias que não têm onde deixar os doentes. Assim como a adaptação de cemitérios onde falta espaço para sepultar os mortos. Participa também do episódio o infectologista Júlio Croda, pesquisador da Fiocruz, que até março de 2020 respondia pelo Departamento de Imunizações do Ministério da Saúde. Ele atribui a vulnerabilidade de Manaus, antes de tudo, à estrutura hospitalar do Amazonas, a pior do país em termos de leitos de UTI por 100 mil habitantes. Qualquer aumento no número de casos (e o atual é expressivo) leva o sistema ao limite. E frisa que nunca houve imunidade de rebanho por lá, ao contrário do que alguns chegaram a especular: "A imunidade coletiva depende das medidas preventivas". Croda é assertivo: "Vacina é a única forma segura de superar a pandemia".

Ep 361O estrago da versão mais contagiosa do corona
A mutação B.1.1.7 do coronavírus já foi registrada em mais de 30 países, entre eles o Brasil. Primeiro a identificá-lo, o Reino Unido registra mais de 50 mil casos diários há uma semana. Para tentar conter o avanço da nova variante, o premiê Boris Johnson reagiu e decretou o terceiro lockdown no país - este, mais longo, pode durar até março. Para explicar a trajetória desta variação do vírus e suas particularidades, Renata Lo Prete entrevista a jornalista da TV Globo em Londres Natalie Reinoso e a imunologista Ester Sabino, professora da Faculdade de Medicina da USP e primeira cientista a sequenciar o genoma do coronavírus no Brasil. Natalie detalha as medidas de restrição no Reino Unido e os dados de contágio atualizados. Ester explica por que esta é a mutação que mais preocupa e sugere o que podemos fazer para frear sua disseminação: "Deveria ter um cuidado maior com as pessoas que estão chegando de fora do Brasil". Segundo ela para "diminuir o número de entradas" da nova variante por aqui. Ester fala que este é o momento de manter os cuidados para evitar a propagação: "Não tem outra saída até que a vacina esteja disponível para toda a população".

Ep 360A matemática da vacinação
O biólogo Fernando Reinach descreve 2021 como a pista de uma corrida a ser disputada entre o novo coronavírus e a imunização, para ver quem chega antes às pessoas. Na largada, o primeiro está em clara vantagem. As posições se inverterão quando o mundo “vacinar mais do que o vírus contamina”, explica neste episódio Reinach, autor do livro “A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil” e colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”. No caso brasileiro, ele calcula que seria necessário aplicar cerca de 500 mil doses por dia, ao longo dos 365 dias deste ano, “para a vida do vírus ficar muito difícil”. Desafio imenso, especialmente quando se leva em conta que, à diferença de cerca de 40 países, não começamos a vacinar nem temos data definida para fazê-lo. Na entrevista a Renata Lo Prete, Reinach diz que começar é necessário, mas que o mais importante a observar é quantas pessoas conseguiremos imunizar por dia e qual será a taxa de eficácia do produto usado -variável essencial na hora de estimar quantos brasileiros precisarão ser vacinados até que se chegue ao controle da doença.

Ep 359Revisitando Maria em Ingazeira
Neste final de ano, O Assunto resgata quatro de seus episódios mais marcantes, protagonizados por brasileiros que tiveram a vida duramente transformada pela pandemia. Da escassez de testes à sobrecarga dos hospitais, da falta de emprego ao luto sem despedida, suas histórias representam as grandes dificuldades do país no enfrentamento do novo coronavírus. Aqui você vai ouvi-los em dois momentos: o do relato original feito a Renata Lo Prete e agora. No quarto e último da série, a entrevistada é a agricultora pernambucana Maria Assunção Araújo, 40 anos, representante de um fenômeno social explicado na participação do doutor em demografia José Eustáquio Diniz Alves: a migração de retorno. Maria é uma entre muitos brasileiros que partiram em busca de oportunidades nos grandes centros do eixo Sul-Sudeste e, sob o efeito combinado de covid e crise econômica, terminaram por voltar à terra natal. Ouvida em 13 de julho, quando havia acabado de se instalar novamente em Ingazeira, Maria resumia assim sua experiência de um ano na cidade grande, com marido e filho pequeno: “São Paulo é bom pra passear. Mas São Paulo é uma ilusão". Cinco meses depois do retorno ao sertão, trabalho ainda é problema, mas dá-se um jeito: “Estamos estabelecidos, compramos uns animaizinhos, alguns deram cria, então a gente tá repondo o que vendeu”. E a mensagem para 2021 é de esperança: “Que seja um ano de paz e prosperidade pra todo mundo, que a pandemia se afaste e que volte a reinar a saúde”.