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O Assunto

O Assunto

1,786 episodes — Page 28 of 36

Ep 432A importância da 2ª dose

"Duração maior da proteção", resume o médico Marco Aurélio Sáfadi. Em conversa com Renata Lo Prete, ele explica o imperativo de tomar o reforço, no caso das vacinas contra a Covid-19 disponíveis no Brasil (a Coronavac e a do consórcio Oxford-AstraZeneca). Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Sáfadi ressalta que só completando o processo de cada imunizado (e aumentando muito o número geral de doses aplicadas por dia) conseguiremos controlar o contágio. Segundo o Ministério da Saúde, 1,5 milhão de pessoas que receberam a primeira dose não retornaram para a segunda. Ainda que secretarias estaduais e municipais apontem exagero nesse dado, o problema existe, mas pode ser sanado com medidas práticas e melhor comunicação. “Se cada comunidade faz uma coisa diferente, sem coordenação nacional, dificulta. A população fica confusa", analisa Carla Domingues, que chefiou o Programa Nacional de Imunizações entre 2011 e 2019 e também participa deste episódio. Para ela, ainda há tempo de colocar os retardatários de volta no bonde da vacinação, com uma grande campanha de conscientização, além de mutirões e providências locais para localizar os faltosos. Estes, por sua vez, não devem desistir, orienta Sáfadi. Seja qual for o atraso, “basta ir tomar a segunda dose para que ela ofereça a proteção necessária".

Apr 15, 202122 min

Ep 431A multiplicação das armas

À margem do Legislativo, por meio de dezenas de decretos e portarias, o governo Bolsonaro vem executando sua principal política: a de facilitação ampla do acesso a armas de fogo, tal como afirmado pelo presidente na famosa reunião ministerial de um ano atrás. Em 2020, o número de registros de posse por colecionadores, atiradores e caçadores mais do que dobrou. E o crime organizado não encontrou dificuldade para se apoderar de parte expressiva desse arsenal. Na véspera da entrada em vigor de quatro decretos, ainda mais permissivos, a ministra do Supremo Rosa Weber suspendeu vários de seus artigos, e o caso agora será examinado pelo plenário do tribunal. Neste episódio, o jornalista Marcio Falcão, da TV Globo em Brasília, analisa as perspectivas para esse julgamento e lembra que não é inédito um ministro do STF conceder liminar na contramão da escalada armamentista promovida pelo atual governo - Edson Fachin já fez o mesmo. Renata Lo Prete conversa também com o advogado Bruno Langeani, gerente do Instituto Sou da Paz. Ele chama a atenção para o tipo de arma que vem sendo liberada: “Algumas são mais potentes que as da polícia”. E estabelece a conexão: “A maioria esmagadora das armas apreendidas com criminosos é nacional é foi comercializada antes do desvio para o crime”.

Apr 14, 202124 min

Ep 430Bolsonaro no redemoinho

“Quando o presidente viu que a bomba das mortes e de todo esse desastre ia cair em seu colo, decidiu jogar no ventilador e espalhá-la”, diz Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da rádio CBN. Neste episódio ela analisa, em conversa com Renata Lo Prete, de que maneira o conteúdo do telefonema entre Bolsonaro e o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) se encaixa na tática presidencial de empastelar a CPI da Covid, se não for possível evitá-la. Vazado pelo senador, o diálogo mostra tentativa explícita de interferir nos poderes Legislativo e Judiciário para tirar as ações e omissões do governo federal na pandemia do foco, diluindo as investigações por Estados e municípios. Como tal comportamento pode configurar crime de responsabilidade, muita gente não entendeu quando Kajuru revelou que divulgou a conversa autorizado por Bolsonaro - que no dia seguinte se declarou “traído”. Maria Cristina explica também como o Orçamento aprovado pelo Congresso entra nesse cenário turbulento. Para se proteger da CPI, o presidente precisará dos parlamentares, que, neste momento, cobram dele que preserve a generosa parcela que lhes coube na peça de 2021. “Se Bolsonaro sancionar sem vetos, incorrerá em outro crime de responsabilidade. Se vetar, pode azedar a relação e levar a Câmara a engrossar o coro por impeachment”.

Apr 13, 202126 min

Ep 429O golpe mortal no Censo

A pandemia já atrasou, em um ano, a única radiografia completa da população brasileira, feita a cada década, desde 1940. E ainda impõe dificuldades sanitárias à realização dessa ampla e detalhada pesquisa do IBGE. Mas o que realmente ameaça sua sobrevivência é a asfixia de recursos. Com custo estimado, ainda em 2019, de R$ 3,4 bilhões, o Censo Demográfico foi sendo lipoaspirado pelo Executivo e pelo Legislativo até ficar, no recém-aprovado Orçamento de 2021, com minguados R$ 71,7 milhões, valor que inviabiliza o levantamento. Um falso barato que sairá caríssimo, alerta o economista Sérgio Besserman, presidente do IBGE entre 1999 e 2003, hoje integrante da Comissão Consultiva do Censo. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, ele começa por lembrar do básico: “Além de vital para a elaboração e a eficiência de qualquer política pública, o Censo serve de base para outras pesquisas. Sem ele, vai se eliminando a racionalidade”. Para além desse aspecto, estamos falando de um direito da cidadania, em especial diante da devastação do último ano: “A sociedade brasileira precisa saber o que aconteceu com as populações mais vulneráveis e com o sistema de saúde, balisada pelas informações censitárias”. Participa também Lucianne Carneiro, repórter do jornal Valor Econômico. Ela trata da demissão da presidente do IBGE e do cancelamento do concurso que recrutaria mão-de-obra para o Censo, além de pesar argumentos favoráveis e contrários à sua realização enquanto o país estiver pouco vacinado e com o contágio nas alturas.

Apr 12, 202124 min

Ep 428Henry: o horror que ninguém viu

Depois de um mês de investigações, a polícia do Rio de Janeiro reuniu indícios suficientes para mandar prender o padrasto e a mãe do menino de 4 anos agredido até a morte no apartamento onde vivia o casal, na Barra da Tijuca. “A perícia técnica foi fundamental”, avalia o repórter da Globo Carlos de Lannoy, que acompanha o caso desde o início. É ele quem detalha, neste episódio, o histórico de violência contra crianças do vereador Dr. Jairinho e as evidências de que Monique Medeiros tinha pleno conhecimento dos maus tratos sofridos pelo filho. Eles agora são investigados por homicídio duplamente qualificado e tortura. Lannoy explica também a rede de conexões políticas que por muito tempo protegeu Jairinho -no quinto mandato, ele é influente na Câmara Municipal, onde integra o Conselho de Ética. Renata Lo Prete entrevista ainda o advogado Ariel de Castro Alves, do Instituto Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. “Trabalho há quase 30 anos na área, e nunca vi um caso como esse”, afirma.

Apr 9, 202128 min

Ep 427A privatização da vacina

“Em português claro, é uma maneira de furar a fila”. Assim o médico e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão traduz a decisão da Câmara dos Deputados de liberar a compra de vacinas contra a Covid-19 por empresas privadas sem necessidade de repassar todas as doses ao SUS, executor do Plano Nacional de Imunização. E de permitir que essa aplicação paralela aconteça antes mesmo de o PNI alcançar todos os grupos prioritários. Entrevistado neste episódio, Temporão explica de que maneira a fila dupla rompe a lógica sanitária de imunizar em etapas, considerando o grau de risco de quem vai receber a dose. E aponta ainda a incongruência de favorecer funcionários de empresas, aleatoriamente, num país em que o trabalho informal predomina e o número de desempregados é altíssimo. Renata Lo Prete ouve também a empresária Luiza Trajano, que está à frente do Unidos pela Vacina, movimento de apoio atuando em quase todos os municípios brasileiros. Há meses mergulhada nessa questão, ela aponta, em primeiro lugar, a ociosidade do debate: “O problema é que não tem vacina sobrando para comprar”. Luiza se refere ao superaquecimento da demanda global e à consequente decisão, por parte dos principais fabricantes, de por enquanto vender somente para governos. Se alguma empresa conseguir, “ótimo”, ela diz. E completa: “tem que ir para o SUS”.

Apr 8, 202124 min

Ep 426A fábula do tratamento precoce

Durante meses, enquanto outros países se concentravam na aquisição antecipada de vacinas, o governo brasileiro investiu pesadamente em comprar e distribuir cloroquina, um antigo medicamento até hoje sem eficácia demonstrada contra o novo coronavírus. A pregação do presidente Bolsonaro encontrou eco em parte da classe médica, que receitou sem pudor nem critério esse e outros itens do chamado “kit covid”. As vendas dispararam, e agora se multiplicam também as notificações à Anvisa de complicações sofridas por pacientes. Neste episódio, Ricardo Melo, repórter do Fantástico em Minas Gerais, relata alguns desses casos - há quem tenha ido parar na fila do transplante de fígado. “Tem gente usando como profilaxia, acha que vai evitar a doença”, conta. Ele também mapeia a rede de fake news que promove o consumo do kit e ações que já tramitam na Justiça para responsabilizar agentes públicos. Renata Lo Prete entrevista também o cardiologista Bruno Caramelli, professor da USP e diretor do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. Ele é o autor de uma representação para que o Ministério Público investigue o papel do Conselho Federal de Medicina nessa história. “O CFM não só não condena como aprova”, diz. Caramelli questiona ainda a ideia de que a “autonomia médica” impediria a atuação do poder público, como sugere o novo ministro da Saúde. “Prescrever medicamento para o qual não existe evidência científica não é autonomia, é erro”.

Apr 7, 202130 min

Ep 425A guerra em torno do Orçamento

Foram sete meses de tramitação, três dos quais já no ano de vigência. E ao final saiu uma peça de ficção, no entender quase unânime dos especialistas. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Cristiano Romero, diretor-adjunto, chefe da Sucursal de Brasília e colunista do Valor Econômico, para entender as despesas subestimadas, os cortes de gastos obrigatórios e o milagre da multiplicação das emendas parlamentares. Uma disputa que tem o ministro da Economia de um lado, aliados do governo no Congresso de outro, e o presidente Jair Bolsonaro com um pé em cada canoa - e os dois olhos mirando a eleição de 2022. “Paulo Guedes já esteve para sair do governo inúmeras vezes”, lembra Romero. Se Bolsonaro não vetar os desarranjos da peça aprovada, “não haverá momento melhor para o ministro sair do que agora”. O jornalista explica que irregularidades tão flagrantes “podem até criar motivo técnico para impeachment”, como ocorreu com Dilma Rousseff, em 2016. E avalia que a eventual decretação de uma nova calamidade pública, para escapar das exigências fiscais, será uma grande derrota para Guedes.

Apr 6, 202122 min

Ep 424Diplomacia sob Bolsonaro: terra arrasada

Os objetivos perenes de toda política externa cabem num enunciado simples, ensina o embaixador Marcos Azambuja, ex-secretário geral do Itamaraty e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais: “Se dar bem com os vizinhos, se dar bem com os fregueses e manter relação de confiança com o mundo”. Por qualquer um desses critérios, fracassou miseravelmente a gestão do chanceler Ernesto Araújo, que no entanto só chegou ao fim, após dois anos e três meses, porque empresários e o Congresso perderam a paciência com um fiasco em específico, o das negociações para obter vacinas contra a Covid-19. Em entrevista a Renata Lo Prete, Azambuja passa em revista diferentes aspectos do que chama de “erro sistêmico”, que considera menos “ideológico” do que resultado de “desatinos sem pé nem cabeça”. E alerta: a questão ambiental, principal fonte de descrédito do país no exterior, está longe de ser atacada, que dirá resolvida. Embora reconheça que o substituto de Araújo, Carlos Alberto França, foi escolhido sobretudo por ter caído nas graças da família presidencial, Azambuja vê chance de alguma correção de rumo. “A realidade dos fatos é irresistível”, diz. “No fim, é o que ganha”.

Apr 5, 202128 min

Ep 423Colapso até para enterrar os mortos

A cada minuto dos últimos 7 dias, duas pessoas morreram de Covid no Brasil. Um ritmo do qual não dá conta nem o sistema funerário da maior cidade do país, dotada de uma rede de 22 cemitérios públicos. “Além de espaço, falta também estrutura física e material e até carros para levar os corpos”, relata o repórter da Globo César Galvão. Na conversa com Renata Lo Prete, ele conta como foi seu trabalho de acompanhar sepultamentos noturnos em São Paulo. E compartilha histórias como a de “um filho que disse que não conseguiu prestar uma última homenagem à mãe e ainda teve que enterrá-la no escuro”. Participa ainda deste episódio Lourival Panhozzi, presidente da Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário, que procura dimensionar a tragédia: “O número de mortes que estamos vendo só seria alcançado no Brasil, dentro da normalidade, em 2045”. O impacto, diz, atinge também quem trabalha no setor: “Sou funerário há 45 anos. Sempre vi famílias chorando nos velórios. Agora eu entro no velório e o que vejo é a minha equipe chorando”.

Apr 1, 202122 min

Ep 422Os militares e Bolsonaro: e agora?

Primeiro o presidente demitiu o ministro da Defesa, alegando falta de apoio a ideias de exceção como decretar estado de sítio. Em resposta, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica tomaram a inédita iniciativa de entregar conjuntamente seus cargos. “Ficou mais difícil para Bolsonaro dar um golpe”, avalia o cientista político Octavio Amorim Neto, professor da FGV no Rio de Janeiro. Isso diante da sinalização, dada pelos generais do Alto Comando do Exército, de que a maior das três Forças Armadas não pretende embarcar em aventura golpista. O que não significa que Bolsonaro não irá tentar. Ou que inexistam ambiguidades na relação dos militares com um governo que vem lhes garantindo uma série de benefícios, explica Amorim. De todo modo, ele vê mais risco de adesão de policiais que de militares a uma eventual escalada autoritária. “Movimentos populistas de extrema-direita testam todas as instituições”, diz.

Mar 31, 202126 min

Ep 421Bolsonaro contra-ataca

Acuado pelo desempenho desastroso na pandemia e, principalmente, por cobranças do Congresso, o presidente da República moveu, num único dia, seis peças no tabuleiro ministerial. Duas das trocas foram concessões aos parlamentares: a degola de Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e a ida da deputada Flavia Arruda (PL-DF) para a Secretaria de Governo. Todas as outras atendem a um único propósito: “blindagem”, resume na conversa com Renata Lo Prete a jornalista Vera Magalhães (de O Globo, rádio CBN e TV Cultura). Neste episódio, Renata e Vera passam as mudanças em revista, com destaque para a demissão do general Fernando Azevedo e Silva da pasta da Defesa - e o que esperar agora dos comandantes das Forças Armadas. Saíram, enfatiza Vera, “ministros que não topam fazer tudo o que Bolsonaro pedir”, notadamente iniciativas que afrontem a Constituição. E entraram, além dos que topam, mais amigos da família - como o novo titular da Justiça, o delegado da PF Anderson Torres. A conversa inclui também análise da tentativa de deputados bolsonaristas de estimular insubordinação da PM da Bahia, a partir de incidente ocorrido no domingo.

Mar 30, 202131 min

Ep 420Na pior hora, doações despencam

Quando o vírus chegou ao Brasil e tudo fechou de repente, a resposta solidária de pessoas físicas e jurídicas foi gigante: nos primeiros três meses, somou mais de R$ 6 bilhões. Mas o tempo passou. As curvas de casos e de mortes deram algum alívio, o auxílio emergencial garantiu o básico a dezenas de milhões de pessoas, e a arrecadação de alimentos e outros produtos básicos entrou em queda livre. Hoje, com a pandemia em momento catastrófico, a crise econômica aprofundada e o auxílio (mais magro) ainda sem dia para voltar, entidades e organizações de apoio aos mais carentes lançam um grito de alerta. “Estou vendo muita gente na política pensando em 2022. Só que antes temos que atravessar 2021”, diz Preto Zezé, presidente da Central Única das Favelas, a Cufa. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele dá a real sobre o avançado estágio de insegurança alimentar nas comunidades. “Estamos vendo nas redes sociais gente vendendo pertences para ter o que comer”, conta. E cita dados de levantamento recente: quase 80% dos moradores de favela afirmam que faltou dinheiro para comprar comida nos últimos 15 dias. Participa também do episódio Ana Paula Campos, repórter da Globo em São Paulo. Ela relata histórias de necessidade extrema em favelas da maior cidade do país. “Só não falta tudo porque o vizinho divide o pouco que tem”, conta. Preto Zezé conclui: “Se as pessoas têm que ver seus filhos chorando de fome, é a declaração do caos total. E aí é a nossa falência como sociedade e como nação”.

Mar 29, 202124 min

Ep 419Por que a vacinação patina na Europa

Em julho de 2020, os 27 países da União Europeia negociaram de forma conjunta a aquisição de imunizantes contra a Covid-19. As compras foram feitas, mas a distribuição avança em marcha lentíssima: até agora, menos de 15% da população adulta do bloco foi vacinada. Enquanto isso, no vizinho Reino Unido, o percentual se aproxima de 50%. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com a jornalista Cecília Malan, correspondente da Globo em Londres, e com a médica Sue Ann Clemens, chefe do Instituto para Saúde Global da Universidade de Siena e coordenadora dos estudos da vacina de Oxford no Brasil. Cecília descreve um “conto de duas realidades distintas”, uma da UE, outra dos britânicos. E detalha as tensões diplomáticas que podem resultar em bloqueio de exportação de vacinas e de insumos para produzi-las. Sue Ann explica as consequências da interrupção das campanhas, vista em vários países europeus. “O primeiro impacto é em hospitalizações e mortes. O segundo, na adesão à vacina”, afirma. Ela tem uma palavra de alívio para os brasileiros: não acredita que as ameaças de bloqueio venham a interferir no fluxo de doses para nós.

Mar 26, 202124 min

Ep 418300 mil mortos: a despedida possível

No momento em que o Brasil cruza essa marca terrível, familiares de vítimas da Covid-19 compartilham com O Assunto as mensagens de celular que se revelaram o derradeiro meio de contato com mães, pais e filhos isolados nas UTIs. Declarações de amor, palavras de encorajamento, diálogos sobre cenas do cotidiano, como tirar a roupa do varal e pedir pizza: tudo registrado na tela e agora convertido em última lembrança. Na outra ponta dessa correspondência estavam doentes como os que o médico intensivista Daniel Neves Forte acompanha há um ano no Hospital Sírio Libanês, onde gerencia o setor de Humanização. "É um rolo compressor. A gente está vivendo uma tragédia”, resume na entrevista a Renata Lo Prete. “Com uma carga de trabalho brutal, é fácil desumanizar: numerar os pacientes e só cuidar do corpo que está ali. Desumanizar para manter o paciente vivo, isso é muito desgastante. E se desconecta do propósito da profissão”, reflete. Forte acredita que a dificuldade de elaborar o luto nessas condições não é apenas individual, mas também do país, principalmente em razão do comportamento do governo federal desde o início da pandemia. Sem reconhecer toda a extensão do que nos aconteceu não é possível ter, nas palavras do médico, a “esperança da reconstrução”.

Mar 25, 202124 min

Ep 417Covid grave entre os jovens

“Não pude dar um abraço. Nem de me despedir tive direito”. Quem conta é Maria de Jesus, que perdeu o único filho, de 22 anos, para a Covid-19. Renan Ribeiro Cardoso administrava a pequena pizzaria da família, na zona leste de São Paulo, e era figura querida na vizinhança. Foi a primeira pessoa a morrer na fila por um leito de UTI na maior cidade do país. Sua saga em vão por atendimento ocorreu num momento em que mais jovens estão se contaminando e, não raro, desenvolvendo formas agressivas da doença. Este episódio traz, além do relato dilacerante de Maria, entrevista de Renata Lo Prete com Ana Freitas Ribeiro, coordenadora do serviço epidemiológico do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas. “Entre os casos graves, ainda há predomínio de maiores de 60 anos, mas o volume de contaminações entre os mais jovens aumentou bastante”, diz a médica. Ela sugere duas explicações: livre circulação e maior transmissibilidade da variante brasileira, a P1. “É um momento delicado: muitos casos e poucos leitos”. Diante disso, ela recomenda aos jovens, que serão os últimos a se vacinar, a manter todo o distanciamento possível.

Mar 24, 202123 min

Ep 416O manifesto dos economistas

Ex-ministros da Fazenda, ex-presidentes do Banco Central, economistas de variadas posições no espectro ideológico, empresários: são mais de 500 assinaturas na carta aberta que cobra do governo Bolsonaro um conjunto de providências para finalmente enfrentar a catástrofe sanitária. “No grupo há críticos de partida do governo, outros que de início acreditaram, outros que tinham medo de se manifestar”, diz o economista Pérsio Arida, um dos signatários e entrevistado de Renata Lo Prete neste episódio. “O denominador comum é o desespero diante da inércia do governo.” E por que lançar o documento agora? “A incompetência supera as expectativas de todos. É incompetência mesmo, falta de noção da realidade, falta de contato com o mundo. E isso perpassa o governo como um todo”, responde Arida, ex-presidente do BC, do BNDES e do Banco do Brasil. O manifesto prioriza quatro reivindicações: acelerar a vacinação, incentivar o uso de máscaras, implementar medidas de distanciamento social e criar mecanismos de combate. Tudo isso com algo que não tivemos até agora: coordenação nacional. Arida fala do egoísmo de quem acreditou ser possível implantar uma pauta reformista na economia (que jamais se concretizou) em meio a retrocessos de toda ordem nas questões da cidadania. “Se o governo fosse racional, daria meia volta. Ou se tornará impotente e perderá de vez sua legitimidade”, conclui.

Mar 23, 202126 min

Ep 415Comida cara, tensão social em alta

A disparada dos preços dos alimentos é fenômeno global, explicado, em boa medida, pelo estrago que a pandemia produziu nas cadeias de produção. No passado, ciclos como o que vemos agora fomentaram distúrbios e disrupção, alerta o sociólogo José Eustáquio Diniz Alves, mestre em economia e doutor em demografia. Um dos convidados deste episódio, ele cita os exemplos da Primavera Árabe, no início da década passada, e da Guerra da Síria, que acaba de completar 10 anos. Se o quadro geral preocupa, que dirá o do Brasil, diz Eustáquio, citando às avessas o verso de Gilberto Gil: “O pior lugar do mundo é aqui e agora”. Ele se refere ao fato de sermos o epicentro da crise sanitária, com vacinação ainda incipiente, auxílio emergencial interrompido e desemprego nas alturas. Para se aprofundar na situação brasileira, Renata Lo Prete entrevista a jornalista Nathalia Tavoliere, do Profissão Repórter, que acompanhou de perto a luta de famílias de São Paulo, Pernambuco e Paraíba para colocar comida na mesa. Muitas trabalham em lixões. “Me impressionou ver as pessoas pegando alimentos estragados”, conta, e depois “rezando pra não fazer mal”. Lembrando de outras reportagens que já fez sobre o tema, Nathalia relata uma mudança de comportamento: antes, era comum que as pessoas sentissem vergonha de admitir que estavam passando fome. Agora não mais. “É o desespero”. Um cenário que Eustáquio descreve assim: “Precisa só de uma centelha, estamos em um barril de pólvora”.

Mar 22, 202126 min

Ep 414Estrangulamento logístico das UTIs

O colapso dos hospitais é realidade em todo o Brasil. Doentes que morrem à espera de leitos. Unidades de Tratamento Intensivo onde atuam profissionais exaustos e já faltam medicamentos essenciais para o atendimento de pacientes graves. Um cenário de guerra, relatado neste episódio pelo repórter Bruno Tavares. Ele descreve o desalento dos médicos ao ver alas inteiras tomadas por vítimas de uma única doença, boa parte em estado crítico. Um deles diz que no trabalho se sente, todos os dias, “dentro de um Boeing caindo”. Além de Bruno, Renata Lo Prete recebe a médica Laura Schiesari, professora do FGV Saúde e do Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Ela enumera tudo o que o governo federal deveria ter feito e não fez, sugere medidas de emergência para dar alívio aos hospitais e às equipes, ampliando assim a capacidade de atendimento no curtíssimo prazo. E diz que, neste momento, a mensagem para quem não está doente é uma só: fazer o distanciamento mais rigoroso possível, para reduzir drasticamente a circulação do vírus. “Porque nos hospitais não há lugar para ninguém”, nem com Covid, nem com outras doenças.

Mar 19, 202127 min

Ep 413Juro básico em alta: e agora?

Alimentos, combustíveis, preços da indústria: diante da inflação disseminada, o Banco Central optou por aumentar a Selic pela primeira vez desde 2015, em 0,75 ponto. Ela agora está em 2,75% ao ano. Para o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, entrevistado neste episódio, o movimento era inevitável, mas poderia ter sido mais brando num primeiro momento. “É uma dosagem excessiva do remédio monetário", analisa, diante do claro desaquecimento da economia. Ele lembra que antes mesmo de o "meteoro chamado Covid" se abater sobre nós, produzindo uma crise “completamente diferente de todas as do passado", já enfrentávamos sérias dificuldades - na atividade, no emprego e na situação fiscal. E diz que só há um passaporte para a recuperação: vacina. “Antes disso, ela será artificial”. E vacinação como não temos ainda: “rápida, abrangente e eficaz."

Mar 18, 202129 min

Ep 412O cerco aos críticos de Bolsonaro

"Fiquei muito espantado quando vi que estava sendo acusado de crime contra a segurança nacional", disse o comunicador Felipe Neto, intimado pela Polícia Civil do Rio, a pedido filho do presidente da República, depois de chamar Jair Bolsonaro de genocida na condução da pandemia. Neto não foi o primeiro. Órgãos do governo e instituições de Estado têm avançado contra professores universitários, estudantes, jornalistas e blogueiros num processo a que o professor de Direito da USP Conrado Hübner Mendes deu o nome de “Estado de Intimidação”. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa a esse respeito com a professora de Direito da Estácio Fabiana Santiago, autora de um livro sobre a Lei de Segurança Nacional, e com o doutor em Filosofia Fernando Schuler, do Insper. Ela resgata a história da LSN, dispositivo sobrevivente de seguidas ditaduras, e diz que, independentemente de qualquer outra consideração, é flagrante que a lei não se aplica aos casos em questão. “Isso viola a lógica da segurança humana e do Estado democrático de direito”. Estudioso do tema da liberdade de expressão, Schuler considera que “o país não sabe o que quer” nessa matéria. “E arrisco dizer: o Congresso não sabe, o Supremo não sabe. E o debate público é pobre”. Ele conclui: "Liberdade de expressão não dá para ser seletiva. Tem que ser para todo mundo".

Mar 17, 202127 min

Ep 411Novo ministro, o mesmo Bolsonaro

"Se o presidente pudesse, ele não tiraria o Pazuello", avalia a repórter da Globo Andréia Sadi, convidada de Renata Lo Prete neste episódio. Subserviente ao extremo, fiel executor da política do chefe de não-enfrentamento da pandemia, o terceiro ministro da Saúde do atual governo sobreviveu 10 meses, durante os quais os mortos por Covid saltaram de 15 mil para quase 300 mil. E o general teria durado mais, não fosse a reconfiguração política que começou com a sucessão nas Casas do Congresso e teve capítulo decisivo na semana passada, explica Sadi: “O Centrão está aproveitando o retorno de Lula para reconquistar ministérios que ocupou em outros governos”. No caso específico da Saúde, não só parlamentares, mas também governadores, prefeitos e ministros defendem uma completa mudança de rumo -que ninguém se arrisca a dizer se virá com o médico Marcelo Queiroga. Confirmada no início da noite desta segunda-feira, a escolha do presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, figura próxima do filho mais velho do presidente, causou menos impacto do que a recusa da convidada anterior, a também cardiologista Ludhmila Hajjar. Alegando "incompatibilidade técnica", ela deixou claro que não teria autonomia, além de relatar as ameaças que sofreu de apoiadores do presidente.

Mar 16, 202133 min

Ep 410A vida na linha de frente da vacinação

“A gente sempre dá um jeito”, resume Mayane Brito, 32 anos, enfermeira numa unidade de Saúde da Família em São José de Espinharas, interior da Paraíba. De carro, moto, barco ou mesmo atravessando rio a pé, com a caixa de doses sobre a cabeça, ela tem chegado até os idosos da zona rural para imunizá-los contra a Covid-19. É recebida com entusiasmo e confiança. “Porque a vacina traz isso mesmo: uma esperança”, diz. A história de Mayane, contada neste episódio, é a de milhares de profissionais que, atuando na porta de entrada do SUS, fazem com que a vacinação aconteça nos pontos mais remotos do país, não deixando nenhum brasileiro para trás. Eles já cumpriram essa missão com sucesso em diversas campanhas, e só temem mesmo a escassez de doses -fruto da falta de planejamento e de sentido de urgência por parte do governo federal. É disso que trata Ligia Bahia, especialista em saúde pública e professora da UFRJ, na entrevista a Renata Lo Prete. Ela entende a aflição de governadores e prefeitos, mas receia que a compra descentralizada de doses, agora liberada, venha a criar uma “fila dupla”, em prejuízo de regiões com menos recursos. A vacina, lembra Ligia, tem que ser como o verso da canção de Milton Nascimento: “ir aonde o povo está”.

Mar 15, 202126 min

Ep 409Como ficou a PEC Emergencial

A emenda à Constituição que permitirá a volta do auxílio emergencial foi finalmente aprovada pelo Congresso, mas bastante despida dos mecanismos de controle de despesas que a equipe de Paulo Guedes pretendia implantar. “O fogo amigo veio de dentro do próprio governo", conta Valdo Cruz, jornalista da GloboNews em Brasília, um dos convidados de Renata Lo Prete neste episódio. Participa também o economista Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente. Valdo relembra como a proposta nasceu, tramitou e foi esvaziada. "A mudança era para ter sido mais profunda. O governo teve que ceder para evitar uma derrota maior", diz. Valdo explica o que falta para definir valores e duração do auxílio, que deve beneficiar bem menos brasileiros do que a temporada de 2020. “É uma medida para reduzir o desgaste do presidente", conclui. Do ponto de vista fiscal, Salto alerta: “Os impactos não são imediatos, e não se sabe os efeitos de medidas que só serão acionadas em 2025. É muito distante do que foi prometido”. Ele aponta que o texto aprovado abre brecha para novos gastos no Orçamento do próximo ano - “a despesa sobe de escada, e o teto, de elevador”, ironiza. E lembra que o novo auxílio, que custará R$ 44 bilhões e está fora do teto de gastos, poderia ter sido implementado muito mais rapidamente, via crédito extraordinário.

Mar 12, 202125 min

Ep 408São Paulo de joelhos diante da Covid

“Estamos enxugando gelo no calor". É assim que o médico Márcio Bittencourt define a situação do sistema hospitalar no Estado mais rico do Brasil. Mestre em saúde pública e integrante do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, ele é um dos entrevistados de Renata Lo Prete neste episódio, ao lado de Ismael Pérez Flores, intensivista em dois hospitais da capital. Ambos mostram como São Paulo, que com muito esforço conseguiu se manter à tona na primeira onda, sucumbiu nesta, e agora assiste impotente à morte de doentes na fila por vaga nas UTIs. Márcio alerta que abrir leitos é urgente, mas igualmente importante é radicalizar o distanciamento e os demais cuidados, para reduzir o contágio. E chama a atenção para o aumento do número de jovens sem comorbidades entre os casos graves. "Pacientes de 22 anos intubados. Mãe internada com filho, gente que perdeu familiar e ainda não pudemos contar". Ismael vai na mesma linha, relatando o impacto, sobre os profissionais da saúde, da perda de pacientes nessas condições. Ele diz ainda o que sente ao ver a história se repetir - e de maneira mais grave. "Frustrante. Em nenhum momento a gente saiu da pandemia”.

Mar 11, 202127 min

Ep 407Brasil: celeiro de Covid, ameaça global

Além da OMS, vários países deram o alerta: enquanto a transmissão do novo coronavírus estiver fora de controle aqui, toda a América Latina e até regiões mais distantes seguirão sob risco. Os convidados de Renata Lo Prete neste episódio são Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo, e Mathias Alencastro, doutor em Ciência Política e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Ethel explica como o Brasil se tornou terreno fértil para novas variantes do Sars-CoV-2: “Cada vez que o vírus é transmitido, a gente dá a ele a chance de fazer uma mutação". Para ela, "a preocupação é com o que ainda está por vir". A epidemiologista resgata ainda importantes ações de controle, como as adotadas em Wuhan no início de 2020. E compara: “Nós não tomamos nenhuma medida, e continuamos como se nada estivesse acontecendo". Mathias Alencastro analisa o custo para o país no longo prazo. "Estamos num contexto internacional em que os diplomatas são tão importantes quanto médicos e enfermeiros". Ele lembra a crise global na busca por vacinas e a relevância de negociações neste momento da pandemia. E aponta como os brasileiros terão que lidar com um "passaporte desvalorizado" para viagens de turismo, estudos e negócios.

Mar 10, 202125 min

Ep 406Lula livre para a eleição de 2022

A decisão caiu como uma bomba na tarde da segunda-feira: o ministro do STF Edson Fachin resolveu, sozinho, anular todas as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato, o que devolve ao ex-presidente a condição de ficha limpa e lhe permite participar da próxima sucessão. “Fachin concordou com o que a defesa sempre disse: que as investigações não tinham a ver com a Petrobras, e portanto, não deveriam ficar na 13ª Vara de Curitiba, onde atuava Sergio Moro", explica o jornalista Felipe Recondo a Renata Lo Prete neste episódio. Repórter do Jota, veículo especializado em notícias jurídicas, e autor de um livro essencial sobre o Supremo (“Os Onze”), Felipe detalha a decisão de Fachin, inclusive no que se refere a Moro - o ministro considerou que as ações de contestação à imparcialidade do ex-juiz agora perdem a razão de ser. E prevê o que acontecerá quando o plenário analisar o despacho de Fachin: “O cenário de reversão é improvável". Participa também o sociólogo Celso Rocha de Barros. É ele quem analisa os efeitos eleitorais da anulação para o próprio Lula e para os demais pré-candidatos. No terreno que vai do centro à esquerda, "Ciro Gomes vai ter que correr para montar sua coalizão". Ele pondera ainda que, numa eventual polarização Bolsonaro-Lula, o atual presidente pode ver o apoio do Centrão ruir, a depender de sua taxa de aprovação mais adiante. "Se Bolsonaro conseguir se segurar, repete-se o desenho de 2018. Mas em condições piores para Bolsonaro".

Mar 9, 202126 min

Ep 405Mulheres, as mais prejudicadas na pandemia

“Minha barraca, às 5h da manhã já tava aberta. E até 20h30 da noite eu já fiquei nessa barraca. Mas aí, pronto, veio a pandemia”. Essa era a rotina de Elisangela Amâncio, de 46 anos, que todos os dias vendia cachorro-quente no bairro de Itapuã, Salvador. Ela é uma das milhões de mulheres que perderam emprego e renda durante a pandemia – e que também perdeu um ente querido, seu irmão, para a Covid. A retração nos empregos afetou sobretudo o gênero feminino: já são mais mulheres fora do mercado de trabalho do que dentro, o maior recuo em 30 anos, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Neste episódio do Dia Internacional das Mulheres, Natuza Nery ouve a história de Elisangela e conversa com a economista Juliana de Paula Filléti, professora e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da Facamp. Elisangela conta tudo que passou nos últimos meses: a impossibilidade de trabalhar, o luto pela morte do irmão, os filhos sem aulas online, a dificuldade financeira e a depressão que a acometeu – uma pesquisa da USP informa que 40,5% das mulheres brasileiras apresentaram sintomas de depressão em algum momento da pandemia. “O pior é querer trabalhar e não poder. E também o medo de sair na rua, passei por uma quase depressão e só voltei agora a fazer minhas coisinhas”, relata. Juliana detalha o custo da sobrecarga do trabalho doméstico, detalha o impacto do fim do auxílio emergencial e explica a relação entre crise no setor de serviços e o desemprego entre mulheres – sobretudo, as negras. “Elas são maioria nas vagas de trabalho mais precárias”, diz.

Mar 8, 202124 min

Ep 404Máscaras: a importância no descontrole da Covid

Pelo sexto dia seguido, a média móvel de mortes bateu recorde no Brasil. Na quinta-feira (4), foram 1.361 óbitos na média dos últimos sete dias. E enquanto a vacinação segue insuficiente e novas variantes, mais contagiosas, se espalham pelo país, é importante reforçar medidas de proteção. Distanciamento social e uso de máscaras. “A inalação de gotículas é a via mais importante de transmissão. E a ideia da máscara é reduzir esse mecanismo”, resume Vitor Mori, doutor em engenharia biomédica e pesquisador na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos. Neste episódio, Vitor explica a Natuza Nery, ponto a ponto, a importância de sempre, em qualquer ocasião, usar máscaras. “Se puder, fique em casa. Se tiver que sair, prefira ficar ao ar livre. Agora, se for inevitável ficar em ambiente fechado, use máscara de melhor qualidade”, recomenda. As do tipo PFF2 são as que garantem melhor nível de proteção, podem ser compradas por menos de R$ 5 a unidade e permitem reuso. O CDC dos Estados Unidos sugere também o uso combinado de máscara cirúrgica com máscara de pano – juntas, garantem o bloqueio de mais de 90% de partículas do ar. Vitor explica também como testar a qualidade de uma máscara e os melhores procedimentos de limpeza.

Mar 5, 202123 min

Ep 403Como é sentir na pele o colapso na Saúde

“A equipe médica falou: ‘ele precisa de um leito’. E não tem”. Matheus Magalhães, de 30 anos, passou mais de 24 horas atrás de uma vaga de UTI para o pai, que já estava com mais de 50% do pulmão comprometido pelo coronavírus. Ivanildo, de 71 anos, foi infectado dias antes, quando tratou de uma perfuração no intestino em um hospital de Natal, capital do Rio Grande do Norte – onde a ocupação dos leitos para Covid chega a 100%. A piora no quadro clínico de Ivanildo desesperou a família. “Tentei ser forte, não sei se consegui. Por mais que soubesse que ele poderia esperar mais um pouco por um leito, não via luz no fim do túnel”, se emociona Matheus. Neste episódio, ele relata a Natuza Nery a saga do pai até a entubação em um hospital militar de Recife. Participa também a enfermeira Stephanie Pinheiro, de 25 anos, que trabalha no Centro de Terapia Intensiva de um hospital privado de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – estado que também chegou a mais de 100% de ocupação de leitos de UTI. “A gente passou por muitas dificuldades em um ano de pandemia, mas, de fato, a gente nunca enfrentou algo como estamos enfrentando hoje”, diz. Stephanie conta como é o dia a dia dos profissionais de saúde diante da escassez de vagas e de recursos, e relata como são tomadas as decisões mais difíceis, como a entubação de um paciente. “A parte mais dolorosa é lidar com a família, porque quem morre de Covid morre sem ver os familiares”, conta. “No trabalho, às vezes a gente vai no banheiro e chora, desaba ali. Mas na frente da equipe a gente demonstra mais força do que a gente tem.”

Mar 4, 202122 min

Ep 402A disputa de Bolsonaro com governadores

1.726 mortes em 24 horas, mais um recorde do Brasil, que enfrenta nesta semana alta generalizada de casos e óbitos. "Liderança, coesão e coordenação", assim o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão enumera o que é necessário para enfrentar este momento da pandemia. Temporão é um dos entrevistados de Natuza Nery neste episódio. Ex-ministro, o médico sanitarista e pesquisador da Fiocruz detalha como podem atuar municípios, Estados e o governo federal no controle da Covid-19. Diante do que ele caracteriza como "inércia" do governo federal em relação à compra e vacinas, Temporão diz ver com esperança as tentativas de prefeitos e governadores de comprarem doses sem depender do Ministério da Saúde. Depois de analisar a relação entre governo federal e Estados do ponto de vista da saúde pública, Natuza Nery conversa com Thomas Traumann para analisar o embate político entre Jair Bolsonaro e governadores. Jornalista e analista político, Traumann explica o que o presidente calcula ao se colocar contra a vacina e medidas de contenção da Covid. Segundo ele, desde o início da pandemia "o presidente se coloca como o único político que entendia a preocupação, na ponta, com a possibilidade de perder o emprego", diz. Para ele, Bolsonaro reforça a ideia de que é igual à população. Traumann pondera, no entanto, que agora em 2021 a situação é muito mais grave e que o novo valor de R$ 200 do auxílio emergencial pode pesar na avaliação do presidente.

Mar 3, 202128 min

Ep 401EUA, Israel e Reino Unido: efeitos da vacinação

Líder global no ranking de vacinação por habitantes, Israel já superou a marca dos 50% da população imunizada pelo menos com uma dose. E os resultados apareceram rapidamente: redução em até 95% do risco de adoecimento após a aplicação das duas doses e diminuição de hospitalizações e mortes em mais de 98%. No Reino Unido, a Escócia teve 80% menos hospitalizações apenas quatro semanas depois da aplicação da primeira dose. Nos EUA, mais de 50 milhões de doses foram aplicadas em pouco mais de um mês – a meta do presidente Joe Biden é atingir 100 milhões em 100 dias. “À medida que você vacina e mantém as medidas de proteção, você consegue reduzir rápido [a transmissão do vírus], e mais rapidamente pode voltar a sonhar de novo e viver uma vida melhor”, afirma Fatima Marinho, epidemiologista da Vital Strategies, organização que auxilia 63 países no combate à pandemia. Fatima e Felipe Santana, correspondente da Globo em Nova York, são os entrevistados de Natuza Nery neste episódio. Fatima detalha as campanhas de Israel e Reino Unido para vencer as fake news e gerar confiança nas vacinas e explica por que a imunização dá resultado tão rápido. Felipe relata o caso norte-americano: com uma população de 330 milhões de habitantes, o país tem doses suficiente para imunizar mais de 400 milhões de pessoas. Além do ritmo de vacinação recorde em mais de 2 milhões de aplicações por dia e um aporte bilionário na economia e na estrutura de saúde. “Há muito investimento e o presidente faz pressão para que Estados aumentem o ritmo”, conta.

Mar 2, 202124 min

Ep 400A tragédia do Brasil na pandemia

Mais de um ano após a chegada do coronavírus, o Brasil enfrenta o pior momento da pandemia. Recorde de mortes e de novos casos diários, UTIs lotadas, fila em hospitais... Diferente de 2020, agora vários Estados enfrentam ao mesmo tempo o colapso em seus sistemas de saúde. "Eu até não acreditava nesse vírus, mas foi uma lição", diz André Luis da Rosa, de 40 anos, um dos entrevistados de Natuza Nery nesse episódio. André perdeu o irmão Adilmar (46) para a Covid em Boqueirão do Leão, no interior do RS, um dos Estados onde a taxa de ocupação de UTI está perto do limite. Ele relata a evolução rápida da doença. "Ele ia ser transferido, só que meia hora antes, faleceu", lembra. Depois da morte do irmão, André conta como está a recuperação da família, que foi toda infectada pelo coronavírus. O outro convidado do episódio é o neurocientista Miguel Nicolelis. Para ele, "é como uma guerra. O inimigo tomou boa parte do território nacional e o exército do lado de cá já não tem mais energias, nem munição, para conseguir combater esse inimigo mortal". Professor da Universidade de Duke e ex-coordenador no Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio do Nordeste, Nicolelis reflete sobre como chegamos até aqui e o que fazer para evitar uma catástrofe ainda maior. Para ele, a situação é "muito pior do que a primeira onda. E tende a se agravar".

Mar 1, 202128 min

Ep 399Imunidade parlamentar: os limites e a lei

No mesmo dia em que a Câmara manteve a prisão do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), anunciou uma proposta que muda regras da imunidade e da prisão de parlamentares. A toque de caixa, a Câmara fez o texto andar, sem passar por nenhuma comissão. A PEC da imunidade parlamentar ficou conhecida como PEC da impunidade. Neste episódio, Natuza Nery recebe dois convidados, Conrado Hubner Mendes, professor de Direito Constitucional, e Weiller Diniz, jornalista com 35 anos de cobertura política em Brasília. A rapidez com que a PEC andou na Câmara é para "neutralizar críticas e reações contrárias", diz Weiller. Ele pontua como, numa Casa onde 200 parlamentares têm algum tipo de pendência com a justiça, a PEC é vista como "uma forma extra de proteção". Segundo ele, o trâmite e os interesses resgatam "velhas práticas e antigos privilégios" dos deputados. Conrado explica por que a imunidade parlamentar existe e como ela surgiu. "É um meio para proteger a democracia e o Parlamento, mas também para qualificar e melhorar esse parlamento", lembra. Ele lembra que, além dos deputados, outros interessados deveriam participar do debate de Propostas de Emenda à Constituição e como este tema não "perde urgência" no momento do país. E conclui: "Não é autoritário pensar em restrições à liberdade de expressão. É autoritário pensar que a liberdade de expressão não permite limites".

Feb 26, 202126 min

Ep 398A nova rodada de restrições contra a Covid

"Um tsunami de casos." Assim o médico Flávio Arbex descreve a Natuza Nery a situação em Araraquara, cidade do interior de SP que prorrogou medidas de restrição para tentar controlar a nova variante do coronavírus. Pneumologista, Flávio é coordenador da enfermaria de Covid da Santa Casa da cidade. O médico relata a mudança de perfil dos infectados e descreve a doença como uma "tragédia familiar". E lembra de pacientes que, ao serem internados, perguntam: "vou ver meu filho de novo, vou ver minha filha de novo?". Neste episódio participa também o epidemiologista Guilherme Werneck, pesquisador e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. É ele que enumera os vários indícios de mais um cenário de descontrole geral da pandemia, no momento em que estados como São Paulo anunciam medidas mais duras de restrição de circulação. Guilherme aponta que estamos "colhendo frutos de um período relativamente longo de contato social", ao lembrar das festas de fim de ano e do carnaval. E explica por que a alta de casos demora a ser percebida nos números. "As pessoas mais jovens podem desenvolver formas mais leves, mas transmitem. Elas vão para casa, transmitem para o pai e para o avô. E são essas pessoas que vão aparecer nas estatísticas, um mês depois". O epidemiologista alerta que a situação pode ser agravar nas próximas semanas. "Atuar agora pode não resolver o problema, mas vai trazer frutos positivos um pouco mais adiante".

Feb 25, 202122 min

Ep 397Vacina da Pfizer, o que muda com a liberação

Em dezembro, o imunizante do laboratório norte-americano foi o primeiro a ser aprovado e aplicado no ocidente. E, nesta terça-feira (23), foi também o primeiro a receber o registro definitivo pela Anvisa – a Coronavac e a Oxford-AstraZeneca estão autorizadas apenas em caráter emergencial. Mas, até agora, o Brasil não tem nenhum acordo assinado para a compra da vacina. “A Pfizer tentou negociar com o Brasil desde junho de 2020, mas, segundo o ministro Pazuello, com ‘clausulas leoninas’”, recorda a jornalista Mariana Varella, editora do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP. Mariana e Daniel Dourado, médico e advogado do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP são os convidados de Natuza Nery neste episódio. Mariana explica as diferenças entre o registro emergencial e o definitivo. Ela detalha a tecnologia do imunizante, que, de acordo com pesquisas recentes, tem 85% de eficácia já na primeira dose. Daniel analisa o processo de análise da Anvisa e a atuação do Supremo para aumentar a oferta de vacinas no país. “Chama a atenção a atuação do STF, que pressupõe a incapacidade do governo federal na vacinação", diz. E diante das tratativas para permitir a compra de imunizantes pela iniciativa privada, alerta para a importância do Plano Nacional de Imunização. “No atual momento, qualquer vacina precisa ser incorporada ao PNI. Não há outra maneira de vacinar a população que não seja grátis, no SUS e em fila única”.

Feb 24, 202123 min

Ep 396Petrobras - o que Bolsonaro quer ao intervir?

Em apenas um dia, o valor das ações da maior estatal brasileira caiu quase 21%. Desde que o presidente Jair Bolsonaro indicou o General Joaquim Silva e Luna à presidência da estatal, a perda foi de R$ 100 bilhões em valor de mercado. Resultado direto da interferência do presidente, feita em reação ao quarto aumento nos preços do diesel e da gasolina deste ano, empurrados pela alta internacional do petróleo. E o presidente disse que mais mudanças virão. “Bolsonaro não fará um governo liberal, não é um projeto de respeito às regras da economia de mercado, ele fará intervencionismos populistas. É o projeto dele”, afirma a jornalista Miriam Leitão, comentarista da TV Globo, colunista da Rádio CBN e do jornal O Globo. Ela é a convidada de Natuza Nery para explicar as consequências da intervenção de Bolsonaro na Petrobras. Miriam explica os movimentos do governo para viabilizar o nome de Silva e Luna no conselho da empresa, e compara as diferenças e similaridades com a política de controle de preços praticada pelo governo Dilma. “Hoje, o empresário terá que lidar com um risco Brasil 14% mais alto”, diz. E avisa: Bolsonaro se beneficia com a ação. “Ele está pensando em 2022. É uma jogada de marketing populista.”

Feb 23, 202126 min

Ep 395Como a Covid-19 levou um povo à beira da extinção

Vítima da Covid, morreu aos 86 anos Aruká Juma, o último homem de sua etnia. Os Juma eram, até a década de 1960, mais de 10 mil, mas uma série de massacres dizimou este povo. Aruká é um dos mais de 960 índios que morreram após a contaminação pelo coronavírus. “O vírus foi levado de fora para dentro porque não há barreira sanitária e barreira de controle”, afirma a historiadora Neidinha Bandeira, pesquisadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, que atua na Amazônia. Neidinha Bandeira e a médica sanitarista Sofia Mendonça, professora da Unifesp e coordenadora do Projeto Xingu, são as convidadas de Natuza Nery neste episódio. Neidinha relata o desafio de levar vacinas e alimentos aos índios de uma aldeia Uru-Eu-Wau-Wau, povo irmão dos Juma: grileiros fecharam a passagem que dá acesso à Terra Indígena e o grupo de atendimento teve que ser escoltado por policiais. Ela também conta o que será das tradições da etnia após a morte de Aruká. “Diante da ameaça de extinção, os herdeiros se autodeterminaram Juma Uru-Eu-Wau-Wau. Ele passou adiante essa ideia de residência, de que o povo não pode deixar de existir”, relata. A sanitarista Sofia Mendonça explica por que nem 30% dos índios que vivem em aldeias foram vacinados, mesmo estando entre os grupos prioritários. “Falta comunicação correta e há muitas fake news, principalmente entre os jovens”. Ela sugere que se forme grupos com pessoas e organizações de confiança para levar informações corretas às aldeias.

Feb 22, 202127 min

Ep 394Covid em Portugal e os brasileiros retidos

Nos anos que antecederam a pandemia, o trajeto era só de ida: do Brasil para Portugal. Em 2019, o número de imigrantes bateu recorde, depois de três anos de alta na migração. Agora, após um janeiro trágico da pandemia e a crise econômica, centenas destes brasileiros querem voltar à terra natal. É o caso de Claudia Soares, 35 anos, que há dois se mudou com a mãe para o país europeu. Claudia é uma das entrevistadas de Natuza Nery neste episódio. "O custo de vida ficou muito elevado. Só conseguia pagar o aluguel", conta. Médica veterinária, ela conseguiu se recolocar no mercado de trabalho do Brasil, onde espera começar em 1 de março. Mas com a suspensão dos voos entre os dois países para barrar a variante brasileira do Sars-CoV-2, ela vive a insegurança de não chegar a tempo. Claudia relata a sensação de insegurança e a expectativa da volta: "quero muito pisar no meu país e me sentir acolhida". Participa também o correspondente da Globo Leonardo Monteiro. Direto de Lisboa, ele relata como Portugal foi de exemplo no combate à pandemia ao total descontrole. "O verão chegou, e todo mundo relaxou", diz. No fim de 2020, com a chegada do inverno, o número de casos e de óbitos voltou a subir. "O governo não agiu", diz. Com viagens permitidas e com festas de fim de ano, "a conta chegou. E chegou logo". Ele lembra como autoridades portuguesas ignoraram o alerta dado pelo Reino Unido sobre a variante britânica e, agora, tentam barrar a entrada da variante brasileira.

Feb 19, 202126 min

Ep 393Daniel Silveira preso e a relação dos 3 poderes

Deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro na fase crescente da onda bolsonarista de 2018, Daniel Silveira (PSL) subiu o tom no discurso antidemocrático. Em um vídeo, sugeriu agressão física aos ministros do Supremo e fez apologia ao AI-5, instrumento de repressão mais duro da ditadura militar. Na noite de terça-feira, o deputado foi preso pela Polícia Federal a mando do ministro Alexandre de Moraes. Nesta quarta-feira, o STF foi unânime ao confirmar a legalidade da prisão - que precisa ser confirmada pelo plenário da Câmara. “O porão das Forças Armadas nunca aceitou a abertura democrática. Hoje, esse porão é formado por aqueles que afrontam as instituições e o Estado democrático de direito e está abrigado sob as asas do presidente da República. É o caso do deputado Daniel Silveira”, afirma Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN. Ela é a convidada de Natuza Nery neste episódio. Maria Cristina explica como o enfrentamento ao bolsonarismo radical une o Supremo, dividido pelas reações à Lava Jato. E detalha as consequências da prisão para a relação entre Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). “Se Lira acolhe a prisão, afeta seus planos de desidratar as instituições de controle da corrupção. E se rejeita, estará afrontando o Supremo, onde é réu”, analisa. “Para Bolsonaro, Daniel Silveira prestou um baita serviço. É uma novela que vai desviar as atenções do que realmente importa, a condução da pandemia e o futuro do Brasil”.

Feb 18, 202124 min

Ep 392Poucas doses, vacinação paralisada

Um mês depois do alívio pelo início da imunização, agora capitais param a campanha por falta de doses. E justo no momento em que uma variante mais transmissível da Covid-19 se espalha pelo país. Qual o risco de interromper a campanha agora? "Estamos perdendo a oportunidade de salvar vidas", diz o infectologista Julio Croda, um dos convidados de Natuza Nery neste episódio. Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, ele pontua como desmobilizar a população para ir se vacinar pode ser prejudicial. E aponta qual deveria ser a meta de vacinação diária: "Precisamos atingir no mínimo 500 mil, 1 milhão de pessoas por dia". Participa também a jornalista Flávia Oliveira, comentarista da GloboNews que esmiúça quantas doses o Brasil já recebeu e quantas estão prometidas. "A estratégia [de diversificar a compra de vacinas] deveria ter começado no segundo semestre do ano passado e não ao fim do primeiro trimestre de 2021”, diz. Ela analisa a atuação do Ministério da Saúde. “O tempo da ciência é soberano e agora a política quer se impor à ciência. Isso não pode acontecer”, afirma.

Feb 17, 202126 min

Ep 391Mais facilidades para garimpo ilegal

Enquanto o governo federal ainda encontra dificuldade para fazer avançar seus planos de liberação ampla e irrestrita da atividade mineradora, dois Estados da região Norte vão tentando atalhos. Rondônia autorizou o uso de dragas e balsas para retirar minérios de seus rios. E Roraima foi mais longe: legalizou a exploração, sem necessidade de estudos prévios, em terras estaduais. E com um agravante que vai na contramão de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil: a utilização de mercúrio. Substância que “contamina os rios, os peixes e as pessoas”, descreve James Alberti, jornalista do Fantástico que é um dos convidados deste episódio. Participante de uma investigação internacional que traçou a rota do contrabando de mercúrio aqui e em países vizinhos, Alberti identifica as duas portas de entrada, Bonfim (RR) e Guajará-Mirim (RO) e explica: “O garimpo clandestino não é mais como antigamente, é uma estrutura milionária. Usam máquinas de R$ 700 mil, R$ 2 milhões, e cooptam falsas lideranças para entrar em áreas protegidas”. O outro convidado é o procurador Edson Damas, do Ministério Público de Roraima, que começa por esclarecer a ficção de que o garimpo se daria em terras estaduais: na verdade, o que existe para ser extraído está principalmente em terras indígenas. Ele analisa a inconstitucionalidade da lei, já sob contestação no Supremo: ela trata de “bens da União e invade competência exclusiva da União”.

Feb 16, 202125 min

Ep 390A reinvenção dos sem-Carnaval

Uma das maiores festas populares do mundo é também, para milhares de brasileiros, trabalho duro, que se estende pelo ano inteiro. Limitados pela Covid-19, eles foram à luta. Os bonecos gigantes de Leandro Castro este ano não desfilarão pelas ruas do Recife e de Olinda, mas serão vistos em exposição, e com novidades: “Não poderia faltar homenagem à classe guerreira de médicos e enfermeiros", ele diz. À frente de um projeto voltado para a inclusão de jovens em São Paulo, a percussionista Silvanny Sivuca viu no bloco online a chance de manter o grupo coeso: “É a maneira que a gente encontrou de alimentar o coração de nossos batuqueiros, que na pandemia foram salvos pela música”. Em Salvador, Bira Jackson colocou suas três décadas de Olodum em modo de espera e foi trabalhar como motorista de aplicativo para sustentar a família: “As contas não param de chegar, e não estamos fazendo shows”. Os três, que contam suas histórias neste episódio, têm em comum a esperança na vacinação em massa como único e verdadeiro passaporte para a volta da folia.

Feb 15, 202126 min

Ep 3892022: polarização em alta, centro à deriva

O rearranjo de forças produzido pela troca de comando no Congresso mandou o impeachment para o freezer e favoreceu a reedição do confronto do segundo turno de 2018, enfraquecendo a postulação de diversos nomes que transitam do centro à direita do espectro político. “Foi o campo mais ferido”, diz Bernardo Mello Franco, um dos convidados de Renata Lo Prete. E não aconteceu por obra do acaso, completa Carlos Andreazza, que assim como Bernardo é colunista do jornal O Globo e também participa do episódio: “Desarticular, engessar o tabuleiro e garantir a polarização foi uma jogada clara de Bolsonaro”. A partir desta conclusão inicial, eles debatem a luta interna de siglas como DEM, PSDB e MDB. E também o movimento de Lula, que, com quase dois anos de antecedência, acaba de ungir Fernando Haddad para ser novamente o candidato do PT ao Planalto. A dupla avalia também quanto espaço resta para o surgimento de novos nomes e que fatores ainda podem desestabilizar o cenário que o presidente considera o mais favorável para sua reeleição.

Feb 12, 202127 min

Ep 388Vacinas x variantes: o que já sabemos?

É a questão da hora: em que medida os imunizantes disponíveis contra a Covid-19 respondem às três novas e mais contagiosas versões do coronavírus identificadas, respectivamente, no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, o biólogo e divulgador científico Atila Iamarino começa por explicar as características dessas mutações e por que apareceram a esta altura da pandemia: “Teve tempo suficiente para o vírus mudar, e mudar na presença da imunidade de quem já se curou. E conseguir escapar dessa imunidade". Lembra ainda o traço comum aos países onde elas surgiram: nos três o contágio está fora de controle. Ele detalha a tecnologia de diferentes vacinas em uso no mundo para mostrar quais têm, em teoria, melhores condições de funcionar contra as variantes. E diz que esse processo não é desconhecido: “O vírus da gripe é assim, muda todo ano. Todo ano tem duas reuniões da OMS com o mundo inteiro discutindo para onde mirar a vacina da gripe". Sem deixar de lado a urgência de fazer a vacinação avançar no Brasil, Atila destaca que ela não elimina a necessidade de investir em testes, rastreio e medidas de contenção. “Se a gente contar só com a imunização, estaremos dando força para o vírus mudar e escapar da vacina”.

Feb 11, 202123 min

Ep 387Combustíveis: quem é quem nessa briga

Desde o início do ano, a Petrobras já reajustou duas vezes o preço do diesel e três o da gasolina. Os caminhoneiros estão insatisfeitos. Jair Bolsonaro, que tem na categoria uma importante base de apoio, também está. E o mercado se preocupa com a nova política de preços da estatal, que amplia o prazo para acomodar as oscilações do mercado internacional. Além de carregar os traumas do intervencionismo (governo Dilma) e de uma greve de caminhoneiros que parou o país e derrubou o PIB (governo Temer). Neste episódio do podcast, Renata Lo Prete conversa com Álvaro Gribel, repórter do jornal O Globo, que detalha a formação do preço dos combustíveis e prevê outros aumentos para breve: “A empresa ainda não conseguiu zerar sua defasagem”. Ele analisa o fator câmbio, o impacto sobre a inflação e a ideia, ventilada por Bolsonaro, de resolver o problema reduzindo o ICMS, imposto que sustenta os Estados. “A solução proposta não é uma solução”. O mesmo pensa Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Estamos em uma crise profunda, e a arrecadação este ano será frágil para Estados e União. Não tem espaço fiscal para cortar impostos”, afirma. Vale aposta num cenário de alguma acomodação do governo com os caminhoneiros, mas sem interferência na Petrobras. E num avanço modesto da agenda econômica do governo no Congresso, sem reformas de grande impacto.

Feb 10, 202126 min

Ep 386Geopolítica da vacina: os emergentes

A população mundial já protegida contra a Covid-19 é ínfima (0,5% do total) e concentrada em países ricos. Eles, que abrigam cerca de 16% dos habitantes do planeta, abocanharam 60% das doses até aqui disponíveis. Os demais “ficaram com uma espécie de xepa” de vacinas como as das farmacêuticas Pfizer, AstraZeneca e Moderna. A imagem é da economista Monica de Bolle, professora na Universidade Johns Hopkins, com especialização em imunologia e genética pela Escola de Medicina de Harvard. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, Monica explica que, no vácuo deixado pelas compras desenfreadas dos ricos, três países entraram em cena com imunizantes próprios e vontade de ampliar seu papel: Rússia, China e Índia. “São eles que estão atuando para a cooperação global, claro que pensando também nos próprios interesses". Papel ainda mais estratégico, lembra a economista, quando se verifica que o consórcio coordenado pela OMS nem de longe dará conta de suprir as necessidades dos países menos bem posicionados na corrida da vacinação. Para o Brasil, que precisa - e muito - das vacinas de seus parceiros de BRICS, pode haver outra oportunidade: ainda dá tempo de o país se posicionar neste mercado, usando sua experiência de produção e imunização em larga escala.

Feb 9, 202126 min

Ep 385Ser escravo doméstico no século 21

Desde 1995, segundo dados oficiais, mais de 55 mil pessoas foram libertadas de situações análogas à escravidão no Brasil. A maioria estava no campo, mas o crime ocorre também nas cidades, com uma frequência que chama a atenção das autoridades envolvidas nos flagrantes. No caso mais recente a ganhar destaque no noticiário, uma mulher de 63 anos passou quatro décadas a serviço de uma família que, além de submetê-la a condições humilhantes, ficava com toda a sua suposta remuneração -inclusive o auxílio emergencial da pandemia. Os responsáveis "tiram as referências da vítima e se aproveitam disso", explica Alexandre Lyra, auditor fiscal do trabalho que participou dessa operação de resgate, num bairro do Rio de Janeiro que se chama Abolição. Com base em longa experiência, ele enumera o que precisa ser feito para mudar esse vergonhoso quadro: “O tripé do enfrentamento precisa funcionar. Prevenção, repressão e reparação do dano, com punição do empregador". Lyra, porém, não consegue se lembrar de nenhum que tenha sido preso. A outra entrevistada neste episódio é a psicóloga Yasmim França, que integra o Projeto Ação Integrada, desenvolvido pelo Ministério Público do Trabalho em parceria com a Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro. Ela descreve o processo de infantilização das vítimas, que muitas vezes ignoram seus direitos mais básicos, e os sentimentos conflitantes quando encontradas pela fiscalização: “Carinho, raiva, indignação e culpa se misturam". Yasmin destaca ainda o quanto o panorama geral de desemprego e precarização do trabalho dificulta a reinserção dessas pessoas na sociedade.

Feb 8, 202125 min

Ep 384Sputnik V: mais opção para o Brasil

Sem a conclusão de todos os estudos e com poucos dados disponíveis, a Sputnik V gerou desconfiança no meio científico internacional quando aprovada para uso na Rússia, em agosto de 2020. Agora, depois de a Anvisa derrubar a exigência de estudos da fase 3 feitos no Brasil para aprovar o uso emergencial, o governo federal promete negociar a compra de 30 milhões de doses da vacina russa e também da indiana Covaxin. Antes, a Bahia já tinha ido ao Supremo para tentar adquirir o imunizante. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe dois convidados: Álvaro Pereira Jr, jornalista da Globo que acompanha tudo sobre vacinas na pandemia, e Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, mestre e doutora em neurociências e coordenadora da Rede Análise Covid-19. Álvaro relata como a Sputnik V entrou no cardápio de vacinas pelo mundo e se tornou uma opção para o Brasil. E como a ideia de produzir doses no laboratório brasileiro União Química, fabricante de cremes dermatológicos, gerou surpresa. Mas conta que os russos também adaptaram laboratórios para produzir doses da Sputnik. Álvaro, que esteve em Moscou no fim de 2020, conta como a população russa lida com a vacinação. Melanie detalha como o imunizante age para proteger o organismo contra o Sars-Cov-2 e explica os resultados dos estudos. Ela fala ainda dos efeitos da decisão da Anvisa, em um cenário onde há menos de 10% das doses necessárias pra aplicar nos grupos prioritários. "Vacinas como Moderna, Novavax e Covaxin podem agora ter uma possibilidade mais concreta de pedir aprovação de uso emergencial", afirma.

Feb 5, 202127 min

Ep 383Vazamento de dados: você foi exposto

Nas palavras de Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, é “o vazamento do fim do mundo”. Endereço, nome dos familiares, salário, status na Receita Federal, número de celular... Tem de tudo atrelado aos CPFs de mais de 220 milhões de brasileiros, entre eles alguns que já morreram. Na avaliação de Lemos, um dos entrevistados neste episódio, pouca coisa sobrou sob o devido sigilo. “Está todo mundo exposto" -inclusive o presidente da República e ministros do Supremo. E exposto a todo tipo de golpe. Ainda não se sabe de onde veio o material, nem quem vazou, e a Polícia Federal abriu inquérito para apurar o caso. Lemos explica que o excesso de concentração de informações numa mesma base de dados aumenta o risco de eventos como este. Ele usa a imagem dos modernos navios petroleiros para defender outro modelo: “A gente tem que ter dados em compartimentos estanques, específicos e interoperáveis", diz. Renata Lo Prete entrevista também Nina da Hora, cientista da computação pela PUCRio e colunista do Gizmodo. Ela orienta sobre o que fazer e, principalmente, o que não fazer agora. "A primeira coisa é não confiar em soluções imediatistas, como site que diz que vai verificar se o seu CPF foi vazado ou não". Nina ensina como criar senhas muito seguras e formas de se proteger, como a dupla autenticação. E fala da importância de ajudar familiares mais idosos para reduzir danos.

Feb 4, 202123 min