
O Assunto
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Ep 482A mobilização indígena contra o PL 490
Povos indígenas estão mobilizados há semanas em Brasília em vários pontos do país contra o projeto que muda as regras para a demarcação das terras indígenas. O PL 490, apresentado em 2007, foi desengavetado pela base governista na Câmara e teve seu texto-base aprovado na CCJ – comissão comandada pela deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF). “Falar da demarcação de terras indígenas é falar de condição de vida e da continuidade existencial dos povos indígenas”, diz a advogada Samara Pataxó, coordenadora jurídica da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Samara é uma das entrevistadas de Natuza Nery neste episódio. Ela explica em que o projeto fere uma cláusula pétrea da Constituição e rebate o argumento de que os povos originários, donos de 13% do território brasileiro, são subdesenvolvidos. “Quem diz isso não conhece as múltiplas vivências indígenas. O que deve ser levado em conta é a forma como nossos povos se relacionam e como funciona nosso desenvolvimento sustentável”. Participa também deste episódio Delis Ortiz, repórter da TV Globo em Brasília. Ela explica os trechos mais polêmicos do texto, como a possibilidade de retomada de áreas não demarcadas pela União, a flexibilização para atividades econômicas dentro de territórios e o marco temporal – tema que está na pauta do STF nesta semana. “É, de novo, uma boiada que está se aproximando para passar”, relata Delis.

Ep 481Covaxin, CPI da Covid, e os irmãos Miranda
As suspeitas que pairam em torno das negociações de compra da vacina indiana agitaram a semana da CPI – e do governo. A gestão que esnobou a vacina da Pfizer e passou meses criticando a Coronavac acelerou a contratação de 20 milhões de doses da Covaxin, em uma negociação de R$ 1,6 bilhão. Nesta sexta-feira a Comissão espera o servidor do Ministério da Saúde que disse ter alertado o presidente Jair Bolsonaro sobre irregularidades na compra. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Thomas Traumann, jornalista e analista político. Ele explica como os depoimentos de Miranda e do irmão dele, o deputado Luis Miranda (DEM-DF) podem impactar o governo. "A partir de agora estamos falando de dinheiro público", diz. Traumann avalia ainda o impacto das suspeitas e aponta como a "reação desmedida" do governo escancara o medo do Planalto sobre o caso, que "chega no círculo muito perto do presidente". E conclui como o caso pode impactar a popularidade de Bolsonaro em um momento de piora da pandemia. "O inverno chegou para o governo", avalia.

Ep 480A saída de Ricardo Salles
Na mira do STF, o ministro "da boiada", dos recordes de desmatamento, das queimadas e do desmonte dos órgãos de fiscalização pediu demissão no meio da tarde da quarta-feira. Neste episódio, Natuza Nery conversa com Jussara Soares, repórter do jornal O Globo em Brasília. Jussara relembra como Salles se manteve no cargo por 30 meses, mesmo depois sucessivos escândalos - o maior deles, a operação da PF, em maio, da qual foi um dos alvos principais. "Salles ficou porque ele cumpria as demandas de Bolsonaro". Ela explica por que o presidente "nunca quis demitir" o ministro e conta os bastidores da entrega do cargo - e de como o cerco das investigações autorizadas pelo Supremo foram decisivas. Elas analisam também o que a saída do ministro diz sobre a situação atual do governo, que precisa explicar as suspeitas de irregularidade nas negociações da vacina indiana Covaxin.

Ep 479O vai e vem no calendário da vacinação
Em um dia, antecipação. No outro, falta de vacinas e suspensão da aplicação. Nesta terça-feira, capitais registraram falta de imunizantes para a 1ª dose contra a Covid. E o Ministério da Saúde, que deveria coordenar a distribuição e garantir as vacinas, é parte da confusão e já revisou várias vezes a previsão de chegada e entrega de doses. Neste episódio, Natuza Nery recebe duas convidadas: Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização, e Ana Carolina Moreno, jornalista de dados da TV Globo. "Não estamos em uma maratona, precisamos chegar todos juntos", afirma Carla, ao explicar como a falta de coordenação e de comunicação clara à população prejudicam a campanha. Para ela, calendários diferentes provocam "deslocamentos a outras cidades" e bagunçam o processo de imunização. Ana Carolina explica como as doses são repassadas do Ministério da Saúde para Estados e, depois, para municípios. E como a quantidade de vacinas disponíveis agora coloca em risco a aplicação da 2ª dose a quem precisa recebê-la.

Ep 478500 mil mortes, e o Brasil mais triste
Enquanto as vítimas da Covid ultrapassam a trágica marca de meio milhão, outros índices reforçam as inúmeras e várias perdas para o país. Pesquisa realizada pela FGV-Social constatou que o brasileiro nunca esteve tão infeliz: a percepção de bem-estar despencou quase 20% no último ano. “Ao fim da década, a fotografia é de que andamos para trás, com um impulso final dado pela Covid”, analisa Marcelo Neri, economista e diretor da FGV-Social, que coordenou a pesquisa. “A pandemia é como um teste coletivo no qual estamos indo muito mal”. Esta conclusão está baseada nos resultados objetivos – caso do crescimento recorde da desigualdade de renda entre ricos e pobres. E também nos subjetivos – a auto avaliação de felicidade caiu entre brasileiros, na contramão do resto do mundo – descobertos pelo trabalho, somada ao déficit educacional das crianças da “geração Covid” (entre 5 e 9 anos) e à falta de perspectiva de emprego para os jovens que ingressam no mercado de trabalho. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Marcelo sobre causas e consequências da tragédia brasileira. “Está claro que falhamos em três frentes: na saúde, na inclusão produtiva e na educação”, conclui.

Ep 477Os bandidos da banda larga
A expressão, estampada na capa da mais recente edição do semanário britânico “The Economist”, indica a ameaça global representada por um tipo de crime que triplicou de frequência em menos de uma década. Entre os alvos mais recentes estão a Colonial Pipeline Company, fornecedora de combustível para metade da costa leste dos EUA, e a multinacional de origem brasileira JBS, líder mundial no setor de carne. Ambas pagaram milhões de dólares para reaver dados roubados e reverter o colapso dos serviços que prestam. Neste episódio, Altieres Rorh, colunista de segurança digital do G1, explica como funcionam os ataques cibernéticos, de que maneira a pandemia facilitou a ação dos criminosos e por que é tão difícil, para os atingidos, seguir a recomendação das autoridades de não pagar resgate. Ele também avalia as suspeitas que, em muitos desses casos, pairam sobre a Rússia - não à toa, o tema esteve no topo da agenda do encontro Biden-Putin. “É muito raro a Rússia anunciar que prendeu algum autor, algo no mínimo curioso", diz. Renata Lo Prete entrevista ainda o advogado Rafael Zanatta, diretor da associação Data Privacy Brasil de Pesquisa. Ele critica o pouco interesse do Brasil em participar dos esforços mundiais de combate à insegurança cibernética. “É uma estrutura de crime organizado internacional", afirma, “o que demanda cooperação entre países para punir e lidar com o problema”.

Ep 476Lei de improbidade: o que muda?
Com apoio da direita à esquerda e placar folgado (408 x 67), a Câmara alterou diversos pontos da lei que, há quase três décadas, é usada para punir desvio de recursos públicos, enriquecimento ilícito no cargo e uso deste para obtenção de vantagens indevidas. A principal novidade é a exigência de que seja caracterizada intenção por parte do acusado, relata Camila Bonfim, repórter e apresentadora da Globo. Ela detalha essa e outras mudanças, assim como o bastidor de uma aprovação do interesse direto dos parlamentares - vários deles, como o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com pendências na Justiça. Apesar do viés, muitos operadores do direito recomendam cautela antes de condenar por inteiro o texto, que irá agora ao Senado: sustentam que a matéria precisa mesmo de atualização, para distinguir mais claramente crimes de erros administrativos. Eliana Calmon, ministra aposentada do STJ e ex-corregedora nacional de Justiça, concorda até o ponto de defender modulação das penas. Mas para por aí: "Exigir dolo para incriminação é praticamente dizer que a lei não vai mais existir”.

Ep 475O saldo da cúpula Biden-Putin
Dos ataques cibernéticos à Ucrânia, da interferência nas eleições de 2016 ao encarceramento do líder oposicionista Alexei Navalny, o contencioso entre Estados Unidos e Rússia é extenso, e ninguém esperava que diminuísse significativamente com a reunião desta quarta-feira em Genebra entre os presidentes dos dois países, a primeira desde a troca de comando na Casa Branca. Mas ambos conseguiram o ganho de imagem que esperavam, analisa o jornalista Guga Chacra, correspondente da Globo em Nova York. De olho principalmente no público interno, o americano afirma ter feito “advertências” ao russo, que por sua vez lucra com o simples reconhecimento de sua posição estratégica na cena global. Neste episódio, Guga passa em revista os principais gargalos da pauta bilateral e fala também do “sujeito oculto” da cúpula: a China, cuja ascensão explica todos os movimentos dos EUA, tanto para se reaproximar dos aliados europeus quanto para evitar a escalada das tensões com a Rússia.

Ep 474O medo da variante delta
Das mutações preocupantes do novo coronavírus que se acumulam desde o início da pandemia, a que mais assusta o mundo no momento é a originária da Índia, batizada com a quarta letra do alfabeto grego. Nos EUA, ela vai ganhando terreno rapidamente. E no Reino Unido, outro país de vacinação avançada, tornou-se dominante, provocando um surto de casos às portas do verão. De Londres, o correspondente Pedro Vedova detalha as medidas que o governo de Boris Johnson se viu obrigado a tomar para conter a nova sobrecarga dos hospitais, adiando o esperado “Dia da Liberdade” - como os britânicos se referem ao fim de todas as restrições. E anota o valor da imunização: os óbitos, felizmente, não estão acompanhando a alta. Participa também deste episódio a epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo. A professora enumera as evidências de que a delta é a mais contagiosa das variantes já identificadas. Expõe o debate sobre o grau de eficácia das atuais vacinas contra ela. E ainda faz um alerta ao Brasil: só uma campanha de imunização completa e mais célere evitará que a delta faça por aqui o estrago que a gama ainda faz.

Ep 473O bolsonarismo de motocicleta
Pressionado pelos efeitos da pandemia em sua popularidade e pelo cerco da CPI, o presidente da República encontrou um jeito peculiar de demonstrar que tem apoio: as “motociatas”, percursos feitos por ele na companhia de motociclistas, eventos bancados com dinheiro público em que se misturam infrações sanitárias e de trânsito. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Guilherme Caetano, repórter do jornal O Globo que cobriu o mais recente desses atos, no sábado passado em São Paulo. É ele quem identifica os organizadores e traça o perfil dos participantes (cerca de 12 mil, segundo a Secretaria Estadual da Segurança Pública). Apesar da temática evangélica da convocação, eram, em sua maioria, “integrantes de motoclubes”, diz Guilherme. Segundo ele, tanto pilotos quanto veículos guardavam pouca semelhança com os motoboys que respondem por boa parte dos serviços de entrega nas cidades brasileiras. Participa também o cientista político Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ. Para ele, o desfile de motos é a forma de manifestação escolhida pelo presidente por dar uma sensação de volume superior ao real - num momento em que a oposição passou a disputar as ruas. E por conversar com seu público mais fiel. Uma “estratégia populista reacionária”, define Lynch. “Mas quando se quer transmitir tanta força é porque ela está em falta na prateleira".

Ep 472Os sonhos roubados da juventude negra
As mortes de Kathlen Romeu e da criança que ela esperava voltaram a escancarar a realidade de um país em que as balas ditas perdidas miram sobretudo uma cor e uma faixa etária, com taxa de homicídio que a OMS considera epidêmica. A explicação oficial de praxe (dano colateral do confronto entre policiais e criminosos) é recebida com crescente descrédito, como revelam desabafos ouvidos neste episódio. Neles se percebe também o desalento diante da impossibilidade de planejar o futuro –o que resulta, inclusive, em abdicar do sonho de ser mãe. “Devemos pensar na sociedade como num organismo. Quando uma parte dele ataca a si próprio, temos uma doença auto-imune”, afirma Clélia Prestes, doutora em psicologia social pela USP e integrante do Instituto Amma Psique e Negritude. “O racismo no Brasil é uma doença auto-imune. Porque é uma forma de ataque à maioria da população”. A entrevista, em que Clélia detalha os efeitos individuais e coletivos dessa violência, é complementada pela participação do educador Jota Marques, também conselheiro tutelar na cidade do Rio de Janeiro. Num cenário em que as autoridades se ausentam, quando não chancelam a supressão de direitos, ele defende a importância da organização comunitária “não apenas para resistir, mas para existir plenamente”.

Ep 471Peru: a incerteza pós-eleitoral
A ofensiva de Keiko Fujimori para contestar a virtual vitória de Pedro Castillo na disputa presidencial abre novo capítulo na turbulência política do país, que teve 5 governantes nos últimos 5 anos. Um gesto desesperado: assim a movimentação da candidata de direita é definida pelos dois convidados deste episódio - Janaína Figueiredo, repórter especial do jornal O Globo, e Raul Nunes, pesquisador do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina da UERJ. “É menos esperança de conseguir que de bagunçar o processo”, analisa Raul, lembrando que a filha do ex-ditador Alberto Fujimori já esteve presa e ainda responde processos por corrupção. Janaína contextualiza as crises que se misturam no Peru, onde a taxa de mortalidade por Covid-19 é a maior do mundo e a economia encolheu 11% no ano passado. E indica como Castillo, um sindicalista de esquerda ultraconservador em questões de costumes, tentará se estabilizar no cargo: “Acordos maiores. E isso implica alguma moderação. É o único caminho viável”.

Ep 470O governo como sócio da inflação
A alta de preços que corrói o poder de compra dos brasileiros -e que registrou em maio sua maior taxa para o mês em 25 anos- tem um efeito colateral que a equipe do ministro Paulo Guedes discretamente comemora: a redução da dívida pública como proporção do PIB. Depois de longo período em escalada explosiva, ela caiu de quase 90% no final do ano passado para 86,7% agora. O economista Alexandre Schwartsman reconhece o alívio, mas alerta: “Não é um processo sustentável. Queremos controlar a dívida para não ter inflação, não o contrário”. Em conversa com Renata Lo Prete, o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central parte desse subproduto do quadro inflacionário para analisar outros elementos da conjuntura, como o crescimento de 1,2% no primeiro trimestre. Sem deixar de anotar o aspecto positivo desse resultado, ele pondera: “PIB dá manchete, mas o que vale é a percepção das pessoas na vida”. E essa ainda está longe de melhorar para a maioria, também por causa do desemprego elevado e persistente. Schwartsman comenta ainda o debate do momento, que busca avaliar a sustentabilidade e o alcance dos ganhos do novo ciclo virtuoso das commodities.

Ep 469Manaus: a soma de todas as crises
A capital do Amazonas se tornou símbolo da tragédia brasileira na pandemia. Recentemente passou a amargar também os efeitos da maior cheia da história do rio Negro. E, desde o final de semana passado, enfrenta uma onda de ataques promovidos por criminosos, em resposta à morte de um traficante pela polícia. “A população está com medo", relata a Renata Lo Prete o repórter da TV Amazônica Alexandre Hisayasu. Ele se refere a Manaus e a pelos menos outras seis cidades do Estado que tiveram ônibus incendiados, prédios públicos atingidos e suspensão tanto de aulas quanto da vacinação contra a Covid-19. O outro entrevistado deste episódio é Roberto Magno, pesquisador do Laboratório de Geografia da Violência e do Crime da Universidade Estadual do Pará. É ele quem resgata a trajetória do crime organizado na região Norte do país. “À medida que a rota amazônica do tráfico de drogas foi ganhando importância estratégica, o poder público começou a se deparar com um problema de proporções transnacionais”, explica. E agora está fragilizado para enfrentá-lo, como demonstra o pequeno efetivo disponível para dar conta dos ataques dos últimos dias. Magno só vê um caminho, que combina “melhores políticas de segurança pública e inteligência” e investimento social.

Ep 468CBF: o escândalo e a Copa América
Revelações de assédio sexual e moral derrubaram Rogério Caboclo no exato momento em que o presidente da Confederação Brasileira de Futebol azeitava suas relações com o governo Bolsonaro. Este “viu na Copa América uma possibilidade de ganho político”, analisa André Rizek, apresentador do SporTV. E voltou suas baterias contra Tite quando ficou claro que o técnico da seleção, assim como os jogadores, é contra a realização do torneio no país. Nesta terça, os atletas devem anunciar a decisão de se enquadrar, participando do evento. Mas isso nem de longe resolve os problemas de Caboclo. Também entrevistada por Renata Lo Prete neste episódio, a repórter da Globo Gabriela Moreira, co-autora do furo, explica em detalhes a denúncia da ex-assessora contra o dirigente, que dificilmente conseguirá voltar depois do mês de “afastamento” para investigação interna. Gabriela lembra dos antecessores de Caboclo, todos derrubados por escândalos, e não prevê mudança significativa com a sucessão: “O cenário é que o sistema continue como está”.

Ep 467Anarquia militar em versão bolsonarista
A decisão do Exército de deixar sem punição o general da ativa que violou o regulamento ao fazer comício para o presidente da República deflagrou a maior crise envolvendo as Forças Armadas desde a redemocratização do país. “Não faltaram alertas sobre os riscos dessa aventura”, afirma o cientista político Octavio Amorim Neto. O professor da FGV se refere ao embarque de lideranças militares no projeto político de Jair Bolsonaro, processo que teve seu primeiro movimento em 2018, com o tuíte ameaçador no qual o então comandante do Exército pressionava o STF a manter Lula fora da eleição. Agora, com o passe livre a Eduardo Pazuello, está dada a senha para a insubordinação em patentes inferiores e nas PMs (que já acumulam incidentes de arbítrios e excessos). E o atual comandante, prevê Amorim Neto, só recobrará a autoridade se tiver apoio do Congresso e do Supremo. Congresso que é chamado a fazer sua parte pelo ex-deputado federal e ex-ministro da Defesa Raul Jungmann, também entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio. “Não tem exercido suas responsabilidades”, diz ele. “Já deveria ter regulamentado a presença (ou melhor, a ausência) de militares da ativa no governo”.

Ep 466A ofensiva pela impressão do voto
Há um quarto de século a urna eletrônica é usada no Brasil, sem registro de incidente grave ou fraude documentada. Agora, estimulada por Jair Bolsonaro, a Câmara analisa emenda constitucional para instituir um comprovante impresso de cada voto, com identificação do eleitor, alegadamente para permitir auditoria. Que no entanto já é permitida pelo atual sistema, lembra o advogado e professor Diogo Rais. “Em várias camadas”, ele explica. “E inclusive por terceiros”, como partidos políticos, Ministério Público e OAB. Embora enxergando espaço para aperfeiçoamentos, ele aponta mais riscos do que potenciais benefícios na PEC. O principal deles: quebra de sigilo do voto, cláusula pétrea da Constituição. Por isso, mesmo considerando a aprovação possível, dado o ambiente político, ele acredita que tal mudança seria barrada pelo Supremo. Participa também do episódio a antropóloga Isabela Kalil, estudiosa da base do bolsonarismo. Ela conta que, em redes de apoiadores do presidente, a ideia de “voto auditável” se mistura à defesa de que essa deveria ser atribuição de militares, sobrepondo-se à Justiça Eleitoral. “Bolsonaro quer melhorar o sistema ou desacreditá-lo?”, pergunta Isabela. Ela própria responde, ao explicar que essa campanha do presidente é a “apólice de seguro” que ele pretende sacar em caso de derrota na eleição de 2022.

Ep 465Crise hídrica: risco de apagão?
Há exatos 20 anos entrava em vigor o traumático racionamento de energia adotado em resposta a um apagão que derrubou a economia e o capital político do governo de Fernando Henrique Cardoso. Agora, com os reservatórios das hidrelétricas no nível mais baixo em quase um século, a tarifa já escalou para a bandeira mais cara (vermelha dois) e analistas se dividem entre os que enxergam perigo de blecautes, mas não de racionamento, e os que consideram ambos possíveis nos meses de seca que estão por vir. O próprio secretário do Tesouro, Bruno Funchal, admitiu que o governo teme os efeitos da conjuntura energética sobre inflação e crescimento. Neste episódio, Renata Lo Prete ouve Fernando Camargo, especialista em infraestrutura, para entender as origens da crise e seu desenrolar mais provável. “O que está acontecendo nos últimos anos, episódios de seca sem precedentes, já não surpreende. Era necessário, desde pelo menos 2014, que isso fosse reposto por outras capacidades não-dependentes do clima”, afirma ele. Participa também o jornalista Roberto Rockmann, co-autor do recém-lançado “Curto-Circuito - Quando o País Quase Ficou às Escuras”, sobre 2001. Ele lembra que o governo previa alta de até 4,5% do PIB em 2001, pré-apagão, mas acabou colhendo a um terço disso.

Ep 464O “fora Bolsonaro” ganha as ruas
As manifestações pró-vacina e pelo impeachment do presidente que ocorreram sábado em mais de 200 cidades marcam uma inflexão e pressionam ainda mais um governo investigado em CPI, hiperdependente do Congresso e em contínuo flerte com a ideia de golpe. “Agora será difícil as pessoas voltarem para casa”, diz Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da rádio CBN. Ao mesmo tempo em que considera provável a repetição desses eventos, ela vê risco de que Bolsonaro se aproveite deles para disseminar fake news e dobrar a aposta na cooptação das forças de segurança. “Em tensão com a cúpula das Forças Armadas, porque não quer ver o general Eduardo Pazuello punido, ele estimula a politização dos quartéis”. E a repressão da Polícia Militar aos atos em Recife -- que o governo estadual promete punir -- pode ser peça-chave para a reação bolsonarista. “O presidente se pauta por atos de indisciplina da PM”. O preço do apoio do Centrão, que já tinha aumentado com a abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid, agora vai escalar ainda mais, prevê a jornalista.

Ep 463Indígenas à mercê do crime no Pará
Apesar da escalada de violência e de seguidos alertas do Ministério Público, foi apenas depois de determinação do Supremo que a PF realizou, na semana passada, uma operação em terras dos Munduruku no Alto Tapajós. Garimpeiros ilegais, ao que tudo indica previamente informados, confrontaram os agentes. Neste episódio, você ouve o pedido de socorro de Maria Leusa Munduruku, uma das mais importantes lideranças da etnia, pouco antes da chegada dos homens que incendiaram sua casa. “Com toda a certeza foi retaliação”, afirma o procurador da República Paulo de Tarso Moreira, um dos entrevistados por Renata Lo Prete. Ele relata a rotina de ameaças e explica por que o quadro tende a piorar: “Hoje, a estratégia oficial é de legalização. Mas isso não resolve. Pelo contrário, intensifica”. Participa também Fabiano Villela, repórter da TV Liberal, afiliada da Globo no Pará. Ele descreve um barril de pólvora em que se misturam grupos criminosos (respaldados por políticos locais e da esfera federal), divisões entre os próprios indígenas e a progressiva ausência do Estado.

Ep 462Alta na mortalidade materna por Covid
Menos de um mês se passou entre o nascimento do menino Ravi e a morte de sua mãe, a contadora Flávia Carneiro Araújo, aos 34 anos. Um calvário descrito neste episódio pelo viúvo Adriano Rodrigues Oliveira, preparador físico, que agora cuida do bebê com a ajuda da família de Flávia. Ela pertenceu a um grupo de especial risco na pandemia: o de gestantes e puérperas (mães de recém-nascidos). Foram 1.204 óbitos, cerca de 60% deles em 2021. E a taxa acelera mais do que no conjunto da população. Também entrevistada neste episódio, a médica Rossana Francisco, professora da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, explica que, dentro do grupo, há as que estão particularmente expostas: “Os riscos são maiores para puérperas até 42 dias depois do parto e para gestantes entre 14 e 28 semanas”. E completa: “Precisamos rapidamente vacinar todas elas”.

Ep 461O capital humano perdido para a Covid
Quando Naomi Munakata morreu aos 64 anos, em março do ano passado, o Brasil contava 77 vítimas do novo coronavírus. Com a maestrina do coro do Teatro Municipal de São Paulo se foi uma vida inteira dedicada ao aprendizado e ao ensino da música em patamar de excelência. “Ela foi a figura mais importante de sua geração no canto coral brasileiro”, resume Maíra Ferreira, substituta de Naomi -- que a ex-assistente considera insubstituível. “A falta que ela faz... nossa, eu nem consigo medir”. Claudio Considera resolveu tentar. Inspirado em trajetórias como a de Naomi, o economista do FGV Ibre procurou mensurar o impacto das mortes da pandemia para o país. E chegou a um valor de pelo menos R$ 5,9 bilhões anuais, considerando brasileiros da faixa entre 20 e 69 anos. Ele mesmo reconhece que isso é só o começo da história: tem ainda as habilidades, o conhecimento e a experiência dessas pessoas, além da desestruturação de famílias que perdem seu arrimo de renda.

Ep 460Quem é quem no gabinete paralelo
Diferentes depoimentos à CPI da Covid vão identificando os personagens que Jair Bolsonaro ouviu e seguiu enquanto dispensava dois ministros da Saúde e transformava o terceiro em despachante dos conselhos e interesses dessa turma. “São três grupos claros de influência”, diz o jornalista Octavio Guedes, comentarista da GloboNews. “Um liderado pelo empresário Carlos Wizard, outro pelo [ex-assessor palaciano] Arthur Weintraub e um terceiro pelo gabinete do ódio, com participação do Carlos Bolsonaro. Além da participação-chave do deputado Osmar Terra”, resume. Para Guedes, é no mínimo impreciso dizer que esses personagens atuavam “nas sombras”, como se ouviu de senadores da comissão. Pelo menos a partir da gestão de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, foram eles que que deram as cartas -- do incentivo ao uso de cloroquina à aposta velada na imunidade de rebanho por contágio. No depoimento da secretária Mayra Pinheiro, conhecida como “Capitã Cloroquina”, o jornalista enxergou “um outro efeito colateral” do remédio: “a cegueira deliberada diante da realidade”.

Ep 459Eletrobras: venda à moda do Centrão
Projetos de lei para privatizar a principal estatal de energia elétrica emperraram tanto no governo Temer quanto no atual. Agora a ideia avança por meio de Medida Provisória -- que os deputados reconfiguraram antes de aprovar. Em vez de estimular a competição, o texto que saiu da Câmara estabelece várias reservas de mercado para interesses específicos, notadamente das usinas termoelétricas (que geram energia mais cara e mais suja). “A conta irá recair sobre os consumidores”, resume Daniel Rittner, repórter especial do jornal Valor Econômico. Derrotada também nessa matéria, a equipe econômica se conformou, diz ele: “Estão no modo ‘privatiza de qualquer jeito’. Precisam de uma agenda para apresentar à Faria Lima em 2022”. Renata Lo Prete conversa também com Maurício Tolmasquim, ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética e professor do Programa de Planejamento Energético da UFRJ. Ele espera que o Senado entenda e modifique a MP que passou na outra Casa legislativa -- a qual, na avaliação de Tolmasquim, “não faz sentido nem do ponto de vista ambiental e nem do ponto de vista do consumidor”.

Ep 458Desmonte da proteção ambiental, fase 2
Na fase 1, o Executivo agiu praticamente sozinho, nos termos explicitados por Ricardo Salles na inesquecível reunião ministerial de 22 de abril do ano passado: “é só parecer e caneta, parecer e caneta”. “Nos primeiros dois anos, a boiada passou por decreto. Com a troca no comando da Câmara e o Centrão mais próximo do Planalto, passa por lei”, explica Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do Observatório do Clima e presidente do Ibama entre 2016 e 2018. Em entrevista a Renata Lo Prete, a advogada diz que não se trata de mudança trivial: “É muito mais difícil reverter”. Ela se refere, antes de tudo, ao recém-aprovado projeto do licenciamento, que promove um “liberou geral” classificado por Suely como “a mãe de todas as boiadas”. Mas não só: vem aí, com incentivo do governo e expressivo respaldo parlamentar, nova tentativa de emplacar o PL da grilagem de terras. Suely fala também dos relatos de perseguição do próprio Ministério do Meio Ambiente a funcionários do Ibama, no exato momento em que Salles cai de vez na mira da PF por suspeita de envolvimento num esquema para facilitar exportação de madeira extraída de forma ilegal. “O governo burocratiza o processo para inviabilizar autuações. A intenção só pode ser dificultar a aplicação de multas”, conclui.

Ep 457A CPI, as boiadas que passam e 2022
Da diluição do licenciamento ambiental ao sinal verde para a venda da Eletrobras, contemplando ainda uma alteração no regimento que reduziu a margem de manobra da minoria, os deputados estão votando matérias em série, enquanto o governo tenta erguer um muro de contenção de danos na comissão em que senadores investigam a gestão da pandemia. Para completar, o depoimento de Eduardo Pazuello coincidiu com a operação que coloca na mira da PF um outro personagem próximo de Jair Bolsonaro: o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Em entrevista a Renata Lo Prete, o filósofo Marcos Nobre liga todos esses pontos para traçar o quadro político do momento e o que ele projeta para 2022. “É um presidencialismo de coalização secreto”, afirma o professor da Unicamp e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A expressão se refere a um outro elemento da conjuntura: o recém-revelado Orçamento paralelo para atender aliados do Planalto no Congresso. Para Nobre, esse expediente tem permitido a Bolsonaro manter uma base parlamentar mais sólida do que muitos imaginavam. E a CPI ainda está por mostrar quanto dano pode causar ao presidente. Por enquanto, avalia o professor, a narrativa bolsonarista sobre o enfrentamento da Covid “seduz entre 25% e 30% do eleitorado”. “O suficiente para levá-lo ao segundo turno no ano que vem”.

Ep 456Pazuello: a voz de Bolsonaro na CPI
Para quem estava protegido por um habeas corpus, o ex-ministro da Saúde até que falou bastante. Mas basicamente para se desviar de culpa e blindar o presidente, para isso falseando a realidade em diversos temas -- da compra de vacinas ao investimento na ineficaz cloroquina. “Ele foi disposto a matar no peito, mas derrapou”, analisa Natuza Nery, comentarista da GloboNews e apresentadora do Papo de Política. Ela e Renata Lo Prete examinam, neste episódio, o primeiro dia do mais aguardado depoimento à CPI da Covid. Tratam do desempenho do relator Renan Calheiros (considerado mais brando do que com outros convocados) e do senador Flavio Bolsonaro (que, mesmo não pertencendo à CPI, tem atuado como uma espécie de cão-de-guarda do pai nas sessões). Elas também destacam a tentativa de Pazuello de sugerir que haveria dois governos paralelos, um das redes sociais e outro das ações concretas (e que este último nada teria feito de errado). Para Natuza, isso dificilmente livrará o general de responsabilização. “Será difícil ele se defender, principalmente sobre o que aconteceu em Manaus”.

Ep 455Chile rumo à nova Constituição
No final de semana, mais de 6 milhões foram às urnas para escolher os 155 representantes encarregados de elaborar a Carta que irá aposentar aquela vigente desde a ditadura do general Augusto Pinochet. O resultado foi um baque para o sistema político tradicional: a coalizão de direita que sustenta o presidente Sebastián Piñera não fez nem um terço dos votos, e os independentes (muitos sem filiação partidária) terão a maior parcela das cadeiras. “Se pudermos esboçar um perfil, os vencedores têm em torno de 45 anos, muitos são advogados e vêm de escolas públicas. E entre as pautas em comum estão obrigar o Estado a fornecer e distribuir água e promover a equidade de gênero”, explica Camilla Viegas, correspondente da GloboNews em Santiago. Em conversa com Renata Lo Prete, ela descreve o novo desenho do tabuleiro político e detalha o calendário que o país tem pela frente: prazo máximo de um ano para elaborar a Carta (que depois irá a plebiscito) e, antes, eleição presidencial (novembro deste ano). “O que sobreviveu na atual Constituição, depois da transição democrática, foi um consenso liberal”, agora em xeque, analisa o doutor em história política Leandro Gavião, professor da Universidade Católica de Petrópolis. Ele diz que, agora, a bússola está “mais inclinada para a esquerda”, em defesa da “construção de um regime de bem-estar social com ampliação de serviços de acesso básico”, e também de “pautas difusas do século 21”.

Ep 454O novo conflito entre Israel e Gaza
Desde 2014, a tensão não escalava tanto entre israelenses e palestinos. Já são mais de sete dias de mísseis rasgando o céu, explosões e mortes: 10 em Israel e mais de 200 na Faixa de Gaza. Apesar de apelos da comunidade internacional, a perspectiva é de mais ataques. “O clima é tenso”, resume a jornalista Laura Capelhuchnik, que vive em Tel Aviv e esteve em Jerusalém durante o primeiro dia de hostilidades. Em entrevista a Renata Lo Prete, Laura conta como soube do disparo do primeiro míssil contra a capital israelense e explica como uma série de eventos ocorridos em maio levou ao que vemos agora -- entre eles, datas religiosas e uma ação que pode despejar quase mil palestinos no distrito árabe de Jerusalém. “Não vejo cessar-fogo no horizonte”, analisa o historiador Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ e diretor-acadêmico do Instituto Brasil-Israel. Para Michel, enquanto o Hamas, grupo extremista responsável pelos bombardeios, usa os ataques como forma de devolver a questão palestina ao debate global, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, se amarra a uma lógica política interna a fim de desarticular a coalizão que tenta tirá-lo do poder. “Para ele, é importante manter o conflito e tornar a oposição irrelevante. Para o Hamas, é uma forma de se consolidar como resistência a Israel”.

Ep 453Quebrar patente das vacinas ajuda?
O percentual fala por si: de quase um bilhão e meio de doses já aplicadas de imunizantes contra a Covid-19, apenas 0,3% foram parar nos braços de pessoas que vivem em países pobres. No esforço para atacar essa brutal desigualdade, a proposta de suspender as patentes ganha corpo, com inédito apoio dos Estados Unidos. Neste episódio do podcast, Renata Lo Prete entrevista a economista Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins, para avaliar viabilidade e eficácia da ideia, à luz da emergência sanitária. Especializada em imunologia e genética por Harvard, Monica não deixa de enxergar vantagens de médio e longo prazos na quebra de patentes e na transferência de propriedade intelectual. Mas é clara: “Não resolve o problema agora”. E o que resolve então? “A única forma são países com excesso de doses enviarem para aqueles onde há falta”. Ela reconhece que isso nunca foi feito na escala necessária nesta pandemia. Mas diz que a saída passa necessariamente pela cooperação global. “Temos mecanismos de coordenação, como OMS, G-20 e OMC. É preciso colocar as autoridades na mesa para negociar.”

Ep 452CPI: vacinas que o Brasil deixou passar
O depoimento de Carlos Murillo, gerente-geral da Pfizer na América Latina, confirma e detalha um capítulo essencial para entender o saldo trágico da pandemia no país: o pouco caso do governo diante de ofertas de imunizantes que lhe foram feitas. O executivo falou à comissão no mesmo dia em que o ex-ministro Eduardo Pazuello recorreu à Justiça para não falar. Enquanto isso, o ritmo de vacinação cai pela metade, entre outros motivos porque, em pelo menos 20 capitais, falta Coronavac para a segunda dose. “O ritmo está aquém da necessidade. Além de prejuízo aos não-vacinados, isso mina a confiança no programa”, diz o infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele lembra que atrasos e interrupções resultam em mais hospitalizações e mortes, além de aumentar o risco de surgimento de novas variantes. “Temos capacidade de vacinar até mais de 2 milhões de pessoas por dia. Nosso limitador é a quantidade de doses”. Participa também a jornalista Mariana Varella, editora do Portal Dráuzio Varella. É ela quem analisa, ponto a ponto, a relevância do depoimento do representante da Pfizer e os rombos que ele causa no casco do discurso governista.

Ep 451CPI: Wajngarten incrimina Bolsonaro
O ex-secretário de Comunicação Social compareceu à comissão disposto a proteger o presidente. Mas caiu em contradições e acabou por criar pelo menos dois problemas para o ex-chefe: admitiu que o governo deixou sem resposta, por pelo menos dois meses, uma volumosa oferta de vacinas da Pfizer (da qual apresentou prova documental); e que existia no Planalto uma estrutura paralela, ao largo do Ministério da Saúde, para assuntos da pandemia. Por mentir aos senadores, foi ameaçado de prisão, movimento que abriu espaço para ataque aberto (e rebatido) do senador Flavio Bolsonaro ao relator da CPI, Renan Calheiros. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista Thomas Traumann sobre as implicações do mais atritado e turbulento depoimento da CPI até agora. Wajngarten “não percebeu a importância do que apresentou”, avalia Thomas. “É a prova de que o governo inteiro (presidente, vice e ministro da Economia, entre outros) foi negligente na compra de vacinas”. Para o jornalista, a ofensiva do filho do presidente foi “uma declaração de guerra” de quem já espera o pior do relatório final da CPI.

Ep 450Asfixia das universidades federais
A precarização começou com a crise econômica, em 2015, e se aprofundou no governo Bolsonaro, que desde o início hostilizou essas instituições com palavras e gestos. Depois de quase dois anos e meio de drenagem de recursos, e diante do bloqueio de parte do minguado Orçamento de 2021, reitores alertam: se não houver algum socorro, a partir de julho as universidades federais não terão dinheiro nem para pagar as contas mais básicas. “A maioria não consegue funcionar até o fim do ano”, sustenta Edward Madureira, reitor da federal de Goiás e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Em entrevista a Renata Lo Prete, ele detalha as consequências desse apagão. “As universidades estão ameaçadas até de ficar sem energia. Imagine isso com milhares de pesquisas em andamento, inclusive relativas à Covid-19”. Participa também do episódio Úrsula Dias Peres, professora de Gestão de Políticas Públicas na USP e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. É dela a previsão para o médio prazo: “Se nada mudar, perderemos professores capacitados e será reduzido o número de vagas”.

Ep 449Colômbia em transe
O ambiente já era de muita insatisfação com o governo quando, cerca de duas semanas atrás, o presidente Iván Duque anunciou uma proposta de aumento de impostos para compensar o gasto público na pandemia. A reação das ruas foi imediata, levando ao descarte do projeto e do ministro da Fazenda. Mas nem isso conteve os protestos, que escalaram junto com a violência da polícia. O saldo até aqui é de mais de 30 mortos, centenas de desaparecidos e inúmeros relatos de abusos cometidos pelas forças de segurança. “A situação é mais preocupante na região de Cali”, afirma o jornalista brasileiro Felipe Seligman, referindo-se à terceira maior cidade do país. Fundador do veículo digital Jota, ele vive na capital, Bogotá, onde os distúrbios ainda estão sob algum controle. “O Estado Vale de Cauca está fechado, com mais de 900 estradas bloqueadas, toque de recolher e desabastecimento”, relata Felipe. Também a partir de Bogotá fala Nicolás Urrutía, analista sênior da consultoria Control Risks. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele analisa a trajetória de um país conhecido, no passado recente, tanto pela estabilidade macroeconômica quanto pela desigualdade social, agora agravada pela crise sanitária. A tensão atual, prevê Nicolás, “irá polarizar ainda mais” a Colômbia e deixar cicatrizes que impactarão a próxima eleição presidencial, daqui a um ano. Para os próximos dias, a expectativa não é de distensão. “O comitê de paralisações segue se reunindo, e o presidente mobilizou mais milhares de soldados e policiais. Parece que não há acordo à vista”, diz Felipe.

Ep 448A miragem mortal da imunidade coletiva
Com palavras e ações, Jair Bolsonaro apostou desde o início na ideia de deixar o novo coronavírus correr solto. Em detrimento das vacinas, por essa via chegaríamos, achava o presidente, à proteção do conjunto dos brasileiros. Catorze meses depois, a CPI da Covid mira a estratégia de imunização de rebanho por contágio como uma das principais evidências da responsabilidade dolosa do governo federal por uma tragédia sanitária que já conta mais de 420 mil mortos. “Fica claro o objetivo de que o vírus se propagasse de forma rápida e intensa. Essa intencionalidade vai além do discurso, ela se deu na prática”, afirma neste episódio a professora Deisy Ventura, pesquisadora da relação entre pandemias e direito internacional. Na CPI, existem pelo menos quatro requerimentos para ouvir Deisy, coordenadora, na USP, de um estudo que analisou mais de 3 mil normas relacionadas à Covid-19 baixadas pela gestão Bolsonaro. Ela detalha os achados e explica que eles podem gerar, para o presidente e demais envolvidos, acusações por crimes comuns, de responsabilidade e contra a humanidade. Renata Lo Prete conversa também com o colunista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo e da rádio CBN, que vem acompanhando o trabalho dos senadores da comissão. “Nas próximas semanas, um dos desafios mais importantes será identificar o que o ex-ministro Mandetta classificou como ‘Ministério da Saúde paralelo’”, diz ele. Ou seja, quem contribuiu para a decisão de Bolsonaro “de nos jogar nesse caminho”.

Ep 447Horror no Jacarezinho
A operação mais letal da história da polícia do Rio de Janeiro, que deixou 25 mortos nessa grande favela da zona norte da cidade, aconteceu em plena vigência de restrições impostas pelo STF a ações dessa natureza. No entanto, desde que os limites entraram em vigor, em junho do ano passado, a polícia informou a realização de cerca de 500 operações, com um saldo de mais de 800 óbitos. Neste episódio você ouve, além do relato apavorado de moradores, que acordaram nesta quinta-feira sob tiros e bombas, entrevista de Renata Lo Prete com Henrique Coelho, repórter do G1 no Rio. Ele descreve a favela de 37 mil moradores como “uma região muito viva, com muito comércio e movimentação grande de pessoas”. E detalha a investigação sobre a suspeita de recrutamento de crianças pelo tráfico, apresentada como base para a ação. Renata conversa também com Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e autor do livro “A República das Milícias”. Ele explica como o enfraquecimento das instituições no Rio, que teve 6 ex-governadores presos nos últimos 4 anos (além de um derrubado via impeachment) é o pano de fundo para o descontrole da polícia e a escalada da violência. “Uma polícia que tem carta branca para matar quase sempre vai querer ganhar dinheiro com isso. É a semente das milícias”.

Ep 446Quando Paulo Gustavo nos fez chorar
A morte do ator e humorista por Covid-19, aos 42 anos, entristeceu ainda mais um país machucado, ao qual ele só deu alegria. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista e escritor Chico Felitti sobre a trajetória do responsável pelo maior sucesso de bilheteria da história do cinema brasileiro -- a série de três filmes “Minha Mãe é uma Peça”. E sobre sua principal personagem, Dona Hermínia: “Uma mulher batalhadora, amorosa e combativa. Um arquétipo de mãe que conversa com todas as mães do Brasil”, resume Chico. Ele define Paulo Gustavo como “um Mazzaropi deste século, que fazia um humor tipicamente brasileiro”. Fala ainda do sonho interrompido do ator -- que planejava encarar também papéis dramáticos -- e de seu modo de fazer avançar a pauta LGBTQIA+. “Não era só humor. Ele comeu o país todo pelas beiradas. Não mostrou beijo gay no filme, mas mostrou uma mãe ensinando à criança que a aceitação é o caminho, independentemente do que ela seja”, analisa Felitti. “Era uma forma doce de lutar”.

Ep 445CPI: Mandetta fala, e Pazuello foge
A largada dos trabalhos na Comissão Parlamentar de Inquérito teve o primeiro ministro da Saúde da pandemia colocando no caminho dos senadores uma série de pistas potencialmente explosivas para o governo. Mesmo evitando ataques frontais a Jair Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta deixou claro que o presidente agiu ao largo das orientações da pasta, pressionou em favor da cloroquina e apostou na imunidade de rebanho, em detrimento da vacinação. “Esse é um dos maiores riscos para ele. A CPI quer provar que houve ação deliberada do governo para a população se infectar. E o depoimento de Mandetta reforça a tese”, analisa Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN, convidado de Renata Lo Prete neste episódio. Sobre os esforços em favor de um medicamento sem eficácia contra a Covid-19, Bernardo destaca: “Um decreto para alterar a bula do remédio é algo que pode implicar em crime de improbidade administrativa”. O dia foi marcado tanto pela presença de Mandetta quanto pela fuga de outro ex-ministro, Eduardo Pazuello, que iria depor nesta quarta. Ele alegou quarentena, após contato com dois casos confirmados da doença. O que só fez ampliar a percepção de que o Planalto teme esse depoimento: “Ele se apresentou como um pau mandado do presidente. Pazuello responsabilizado significa Bolsonaro também responsabilizado”, afirma Bernardo.

Ep 444Cloroquina para os indígenas
As denúncias vêm desde o ano passado, mas agora ganharam visibilidade, e o motivo tem três letras: CPI. A Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Senado vai investigar, apenas nessa seara, 15 potenciais erros da gestão Bolsonaro, entre eles distribuição e prescrição de medicamentos sem eficácia no tratamento da Covid-19. “Um pessoal de Brasília foi à terra yanomami e levou 3 mil quilos de cloroquina”, recorda Junior Hekuari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indigenista Yanomami e Ye’kuana, sobre a comitiva oficial que visitou a etnia no meio de 2020. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele lembra que, embora o governo tenha mais tarde alegado que o objetivo era tratar malária, a recomendação real era para dar o remédio a qualquer um que apresentasse suspeita de infecção pelo novo coronavírus. “Foi totalmente marketing”, diz Junior. Participa também Daniel Biasetto, repórter do jornal O Globo que localizou documentos públicos em Vilhena (RO), distrito responsável por 144 aldeias da Amazônia Legal, orientando explicitamente o tratamento com o chamado “kit covid”. Daniel exemplifica com o caso de Aruká Juma, que era o último homem de sua etnia e foi vítima da doença. “Tudo indica que Aruká morreu por negligência no tratamento”, diz.

Ep 443O Brasil do futuro sequestrado
As consequências nefastas da pandemia para o sistema de ensino e o mercado de trabalho atingem todas as etapas de uma escala etária que vai da primeira infância à juventude. Esta padece com o desemprego em percentual bem acima da média, em si desastrosa, da população. Enquanto crianças e adolescentes já sentem, apontam pesquisas, os danos socioemocionais e cognitivos causados pelo fechamento prolongado das escolas. “O resultado para o país veremos lá na frente”, diz Naércio Menezes, economista e pesquisador do Insper. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, ele disseca questões como a evasão, que dobrou entre 2019 e 2020, e a ascensão dos chamados “nem-nem”(neste momento, mais de um terço dos brasileiros entre 20 e 29 anos não trabalha nem estuda, maior percentual da história). “O prejuízo é da sociedade toda”, afirma Naércio, e envolve dimensões como “produtividade, renda e até criminalidade”.

Ep 442400 mil mortos: o que esperar agora
Foram quase cinco meses até 100 mil. Outros cinco até 200 mil. Com a metade do tempo chegamos a 300 mil. E em pouco mais de um mês atingimos a nova marca devastadora, superada apenas pelos Estados Unidos. Em 2020, a Covid-19 roubou quase dois anos da expectativa de vida dos brasileiros. E, segundo a demógrafa Márcia Castro, a aceleração dos óbitos em 2021 tende a produzir um tombo ainda maior nesse que é um dos principais termômetros sociais de qualquer país. Chefe do Departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard, Marcia liderou a pesquisa que constatou a queda. E dimensiona, neste episódio, a inflexão que ela representa: "De 1945 a 2020, a expectativa de vida ao nascer subiu, em média, cinco meses a cada ano no Brasil”. Renata Lo Prete conversa também com o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz. Ele explica por que o mix de vacinação lenta, restrições em baixa e inverno chegando deve nos empurrar para um saldo de 500 mil vítimas sem muita demora. “Saímos de uma segunda onda terrível, com março e abril tendo sido os dois piores meses da história do Brasil. Junho e julho podem superar”.

Ep 441100 dias de Biden na Casa Branca
O homem mais velho a assumir a Presidência dos Estados Unidos chega ao primeiro marco temporal de seu governo com um feito que ninguém questiona: a vacinação em massa dos americanos contra a Covid-19. Não por acaso, foi esse o primeiro item do discurso de Joe Biden nesta quarta no Congresso. “A América avança novamente”, disse ele. Como peça de resistência do pronunciamento, a apresentação de mais um pacote de investimento público pesado, desta vez com foco em educação e ajuda às famílias. Biden passou pelos principais temas do período inaugural de seu mandato: da reinserção americana em esforços globais, como o Acordo de Paris, à defesa da transição para uma economia verde; da violência policial ao controle de armas. Temas que estão na conversa de Renata Lo Prete com Claudia Antunes, editora de Internacional do jornal O Globo. Ela analisa cada um dos tópicos e ainda explica como as eleições de meio de mandato, no ano que vem, podem impactar as ambições de Biden. “Ele não atiça a polarização, mas ao mesmo tempo quer estabelecer uma marca que mantenha o voto que teve, tanto no eleitorado democrata quanto no independente. E mirando até alguns republicanos".

Ep 440Sem dinheiro para habitação popular
Entre as áreas atingidas pelo facão do governo Bolsonaro no Orçamento de 2021, poucas perderam tanto quanto o financiamento de moradia para as famílias de menor renda: 98% dos recursos foram cortados. José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, explica neste episódio que a paralisia será imediata e atingirá obras em andamento, ceifando, de saída, mais de 250 mil empregos. “O diálogo com as pessoas que lidam diretamente com o Orçamento é muito difícil. Nossa esperança é o Congresso”, diz. Participa também o urbanista Nabil Bonduki, professor da USP e ex-vereador paulistano. “O problema da habitação ganhou ainda mais importância na pandemia. Com diretrizes sanitárias como ficar em casa e lavar as mãos, fica evidente o problema para quem não tem casa ou vive em uma com água intermitente", afirma. “Um programa de habitação precisa responder a três questões que estão na agenda do país: o problema sanitário, a redução da desigualdade e geração de empregos.

Ep 439Tsunami de Covid na Índia
Um número diário de novos casos sem precedente em qualquer outro país, já tendo superado 350 mil. Variantes do vírus alimentando o contágio. Colapso dos hospitais, pacientes morrendo por falta de oxigênio, disparada de sepultamentos e cremações. E desconfiança generalizada de que a contagem de óbitos - na casa dos 200 mil - esteja seriamente subestimada. “Não dava para imaginar que ficaria tão grave. No dia a dia, a mensagem era de que o pior já havia passado”, conta o repórter da Globo Álvaro Pereira Jr., que esteve nas cidades de Nova Délhi e Pune no início de março, como parte das gravações para o documentário “A corrida das vacinas”. De fato, a situação saiu de controle em poucas semanas, disparando alerta global, porque o país é grande produtor do que o mundo inteiro quer. “Se o Brasil ainda esperava receber vacinas prontas da Índia, pode tirar o cavalo da chuva”, alerta o jornalista. Isso porque a prioridade do país, agora, será acelerar a imunização de sua população -inferior em tamanho apenas à da China. Também neste episódio, Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, explica por que o país asiático está recebendo ajuda internacional em escala a que o Brasil nem de longe tem acesso: “Ela é aliada dos EUA para conter a China e peça-chave na distribuição global de vacinas”.

Ep 438Enquanto a vacina não vem
Em março de 2020, André Akito, 27, mudou-se para o Vietnã, onde dá aulas de inglês como voluntário. Surpreendido pela declaração de pandemia, teve a chance de voltar ao Brasil, mas decidiu ficar. “Hoje sou grato por ter vivido esse período num país que atua de forma preventiva no controle da Covid-19”, diz. Ele se refere a testagem, rastreamento de contatos e isolamento dos infectados, além do uso disseminado de máscaras. Tudo promovido exaustivamente em campanhas de comunicação do governo. “Desde o primeiro momento, teve um sentimento nacional de que está todo mundo unido, lutando contra um inimigo comum”, conta André. Resultado: mesmo sem grandes recursos e com vacinação ainda incipiente, o país do sudeste asiático registra 0,04 mortes pela doença a cada 100 mil habitantes. Enquanto nós, 181,7. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Fátima Marinho, epidemiologista da Vital Strategies, organização que atua no enfrentamento do novo coronavírus em 40 países. Ela explica o que precisamos extrair da experiência de países como o Vietnã para colocar o contágio sob algum controle enquanto a imunização não ganha ampla escala: “Investir tudo o que pudermos em rastreamento de casos e contatos, ter uma coordenação nacional e incluir nesse processo a atenção primária do SUS”. Fátima recomenda ainda abandonar a ilusão de que a onda atual será a última: “A tendência é repetir o cenário, e pra pior”.

Ep 437A resposta do mundo à crise climática
Discursando na reunião virtual convocada pelo presidente americano, chefes de Estado e de governo se comprometeram com esforços para frear o avanço do aquecimento global. Começando pelo próprio Joe Biden, que anunciou a ambiciosa meta de reduzir à metade as emissões dos Estados Unidos de gases do efeito estufa até 2030. "Isso vindo de um país ainda muito dependente de combustíveis fósseis é absolutamente inédito”, explica Ricardo Abramovay, professor sênior do programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP. “E envolve uma profunda transformação econômica e social", completa. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, Abramovay analisa os principais temas que atravessam a cúpula: do objetivo de neutralizar as emissões à “economia do cuidado”, da proposta de taxar carbono a medidas mais radicais para conter a escalada da temperatura do planeta. “A transformação é de uma magnitude que o mundo não vê desde a revolução industrial”. Enquanto isso, “o governo brasileiro está com o olho no retrovisor", diz. Quando seria necessário ficar atento “à rota fascinante que está se abrindo em razão da urgência climática”.

Ep 436O Brasil na Cúpula do Clima
"O mundo busca uma nova fotografia, e o Brasil tem que estar nela". Assim a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira resume a importância do encontro virtual de líderes que começa nesta quinta-feira. Entrevistada por Renata Lo Prete neste episódio, a bióloga de formação, ex-servidora do Ibama, alerta que combater o desmatamento da Amazônia é apenas parte do problema, “a agenda do passado”, que já deveríamos ter superado. Para a do futuro, “o governo precisará construir um alicerce que permita ao mundo voltar a olhar para o Brasil". Participa também Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. É ele quem detalha o passivo de 28 meses que assombra o discurso de Jair Bolsonaro no evento. "O governo barbarizou o meio ambiente”, diz Astrini, lembrando da “boiada” do ministro Ricardo Salles. “Nenhum país vai querer se arriscar colocando dinheiro na mão de um governo que claramente trabalha contra a floresta".

Ep 435A desumanidade da intubação sem kit
Depois do esgotamento de leitos e do desabastecimento de oxigênio, a mais recente manifestação de colapso do sistema de saúde é a escassez de medicamentos para doentes graves de Covid-19. Cinco Estados zeraram seus estoques no fim de semana, e outros se aproximam desse ponto - São Paulo tem o suficiente para mais quatro dias. Neste episódio, a médica intensivista Lara Kretzer, que coordena uma força-tarefa para alocar recursos escassos, descreve a mecânica da intubação e o papel de cada um dos remédios usados no procedimento. Sem eles, “a gente não consegue ventilar o paciente de maneira apropriada”, o que compromete suas chances. E do ponto de vista ético e humanitário? “É pior ainda”, afirma. A importação desses medicamentos por empresas privadas, para destinar ao SUS, é mais do que bem-vinda. Mas a atitude do governo federal não ajuda e, no estágio da pandemia em que está o Brasil, qualquer medida de alívio para quem está hospitalizado só se sustenta se houver esforço para reduzir o contágio - e com ele as internações. É o que explica Walter Cintra, professor da pós-graduação em administração hospitalar da FGV. “Chegamos aonde chegamos porque não tomamos as medidas preventivas, que são as melhores medidas”, diz.

Ep 434CPI da Covid: um guia de perguntas
Por que o governo Bolsonaro esnobou ofertas de vacina no 2º semestre de 2020? Quanto dinheiro público foi usado na compra e na produção, pelo Exército, de um remédio que não funciona contra o novo coronavírus e até mortes já provocou? Onde foi parar o plano de testagem que Nelson Teich disse ter deixado pronto? Que sequência de ações e omissões matou doentes por falta de oxigênio em Manaus? Que fim levaram os medicamentos para intubação requisitados de laboratórios pelo Ministério da Saúde? Vem aí a Comissão Parlamentar de Inquérito que poderá iluminar essas e muitas outras questões, apontando responsabilidades pelo maior desastre sanitário da história do Brasil, que já conta mais de 373 mil vítimas. Às vésperas de sua instalação no Senado, Renata Lo Prete conversa com Carlos Andreazza, âncora da CBN e colunista do jornal O Globo. Ele lista convocados que não poderão faltar e passa em revista os temas, mostrando quais são os mais explosivos para o presidente e o governo como um todo.

Ep 433Ricardo Salles, o novo Ernesto Araújo
No momento em que Jair Bolsonaro tenta convencer Joe Biden e líderes europeus de que tem compromisso com a preservação da Amazônia, o ministro do Meio Ambiente está no centro de uma crise deflagrada com a maior apreensão de madeira da história do país, feita pela Polícia Federal na divisa entre Amazonas e Pará no final do ano passado. Ricardo Salles entrou na história mais recentemente, ao visitar a região e se colocar ao lado dos madeireiros. “A PF sustenta que essa operação detectou uma organização criminosa”, relata Fabiano Villela, repórter da TV Liberal (filiada à Globo no Pará) e um dos entrevistados neste episódio. É ele quem explica os expedientes mais usados na região para “esquentar” madeira ilegal. Renata Lo Prete conversa também com Julia Duailibi, apresentadora e comentarista da GloboNews. Ela analisa o impasse criado com a decisão do superintendente local da PF, Alexandre Saraiva, de apresentar ao Supremo notícia-crime contra Salles - movimento que custou o cargo ao delegado. E fala também de como, mais e mais, o titular do Meio Ambiente lembra o chanceler dispensado em março. Assim como Ernesto Araújo, Salles já esgotou a paciência de empresários e parlamentares aliados do Planalto - além de ser entrave a qualquer melhora nas relações externas do governo Bolsonaro. “Ele se segura porque é quadro remanescente da chamada ala ideológica, mas há grande pressão no Congresso para derrubá-lo”, diz Julia.