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O Assunto

O Assunto

1,762 episodes — Page 27 of 36

Ep 458Desmonte da proteção ambiental, fase 2

Na fase 1, o Executivo agiu praticamente sozinho, nos termos explicitados por Ricardo Salles na inesquecível reunião ministerial de 22 de abril do ano passado: “é só parecer e caneta, parecer e caneta”. “Nos primeiros dois anos, a boiada passou por decreto. Com a troca no comando da Câmara e o Centrão mais próximo do Planalto, passa por lei”, explica Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do Observatório do Clima e presidente do Ibama entre 2016 e 2018. Em entrevista a Renata Lo Prete, a advogada diz que não se trata de mudança trivial: “É muito mais difícil reverter”. Ela se refere, antes de tudo, ao recém-aprovado projeto do licenciamento, que promove um “liberou geral” classificado por Suely como “a mãe de todas as boiadas”. Mas não só: vem aí, com incentivo do governo e expressivo respaldo parlamentar, nova tentativa de emplacar o PL da grilagem de terras. Suely fala também dos relatos de perseguição do próprio Ministério do Meio Ambiente a funcionários do Ibama, no exato momento em que Salles cai de vez na mira da PF por suspeita de envolvimento num esquema para facilitar exportação de madeira extraída de forma ilegal. “O governo burocratiza o processo para inviabilizar autuações. A intenção só pode ser dificultar a aplicação de multas”, conclui.

May 24, 202124 min

Ep 457A CPI, as boiadas que passam e 2022

Da diluição do licenciamento ambiental ao sinal verde para a venda da Eletrobras, contemplando ainda uma alteração no regimento que reduziu a margem de manobra da minoria, os deputados estão votando matérias em série, enquanto o governo tenta erguer um muro de contenção de danos na comissão em que senadores investigam a gestão da pandemia. Para completar, o depoimento de Eduardo Pazuello coincidiu com a operação que coloca na mira da PF um outro personagem próximo de Jair Bolsonaro: o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Em entrevista a Renata Lo Prete, o filósofo Marcos Nobre liga todos esses pontos para traçar o quadro político do momento e o que ele projeta para 2022. “É um presidencialismo de coalização secreto”, afirma o professor da Unicamp e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A expressão se refere a um outro elemento da conjuntura: o recém-revelado Orçamento paralelo para atender aliados do Planalto no Congresso. Para Nobre, esse expediente tem permitido a Bolsonaro manter uma base parlamentar mais sólida do que muitos imaginavam. E a CPI ainda está por mostrar quanto dano pode causar ao presidente. Por enquanto, avalia o professor, a narrativa bolsonarista sobre o enfrentamento da Covid “seduz entre 25% e 30% do eleitorado”. “O suficiente para levá-lo ao segundo turno no ano que vem”.

May 21, 202126 min

Ep 456Pazuello: a voz de Bolsonaro na CPI

Para quem estava protegido por um habeas corpus, o ex-ministro da Saúde até que falou bastante. Mas basicamente para se desviar de culpa e blindar o presidente, para isso falseando a realidade em diversos temas -- da compra de vacinas ao investimento na ineficaz cloroquina. “Ele foi disposto a matar no peito, mas derrapou”, analisa Natuza Nery, comentarista da GloboNews e apresentadora do Papo de Política. Ela e Renata Lo Prete examinam, neste episódio, o primeiro dia do mais aguardado depoimento à CPI da Covid. Tratam do desempenho do relator Renan Calheiros (considerado mais brando do que com outros convocados) e do senador Flavio Bolsonaro (que, mesmo não pertencendo à CPI, tem atuado como uma espécie de cão-de-guarda do pai nas sessões). Elas também destacam a tentativa de Pazuello de sugerir que haveria dois governos paralelos, um das redes sociais e outro das ações concretas (e que este último nada teria feito de errado). Para Natuza, isso dificilmente livrará o general de responsabilização. “Será difícil ele se defender, principalmente sobre o que aconteceu em Manaus”.

May 20, 202128 min

Ep 455Chile rumo à nova Constituição

No final de semana, mais de 6 milhões foram às urnas para escolher os 155 representantes encarregados de elaborar a Carta que irá aposentar aquela vigente desde a ditadura do general Augusto Pinochet. O resultado foi um baque para o sistema político tradicional: a coalizão de direita que sustenta o presidente Sebastián Piñera não fez nem um terço dos votos, e os independentes (muitos sem filiação partidária) terão a maior parcela das cadeiras. “Se pudermos esboçar um perfil, os vencedores têm em torno de 45 anos, muitos são advogados e vêm de escolas públicas. E entre as pautas em comum estão obrigar o Estado a fornecer e distribuir água e promover a equidade de gênero”, explica Camilla Viegas, correspondente da GloboNews em Santiago. Em conversa com Renata Lo Prete, ela descreve o novo desenho do tabuleiro político e detalha o calendário que o país tem pela frente: prazo máximo de um ano para elaborar a Carta (que depois irá a plebiscito) e, antes, eleição presidencial (novembro deste ano). “O que sobreviveu na atual Constituição, depois da transição democrática, foi um consenso liberal”, agora em xeque, analisa o doutor em história política Leandro Gavião, professor da Universidade Católica de Petrópolis. Ele diz que, agora, a bússola está “mais inclinada para a esquerda”, em defesa da “construção de um regime de bem-estar social com ampliação de serviços de acesso básico”, e também de “pautas difusas do século 21”.

May 19, 202119 min

Ep 454O novo conflito entre Israel e Gaza

Desde 2014, a tensão não escalava tanto entre israelenses e palestinos. Já são mais de sete dias de mísseis rasgando o céu, explosões e mortes: 10 em Israel e mais de 200 na Faixa de Gaza. Apesar de apelos da comunidade internacional, a perspectiva é de mais ataques. “O clima é tenso”, resume a jornalista Laura Capelhuchnik, que vive em Tel Aviv e esteve em Jerusalém durante o primeiro dia de hostilidades. Em entrevista a Renata Lo Prete, Laura conta como soube do disparo do primeiro míssil contra a capital israelense e explica como uma série de eventos ocorridos em maio levou ao que vemos agora -- entre eles, datas religiosas e uma ação que pode despejar quase mil palestinos no distrito árabe de Jerusalém. “Não vejo cessar-fogo no horizonte”, analisa o historiador Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ e diretor-acadêmico do Instituto Brasil-Israel. Para Michel, enquanto o Hamas, grupo extremista responsável pelos bombardeios, usa os ataques como forma de devolver a questão palestina ao debate global, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, se amarra a uma lógica política interna a fim de desarticular a coalizão que tenta tirá-lo do poder. “Para ele, é importante manter o conflito e tornar a oposição irrelevante. Para o Hamas, é uma forma de se consolidar como resistência a Israel”.

May 18, 202125 min

Ep 453Quebrar patente das vacinas ajuda?

O percentual fala por si: de quase um bilhão e meio de doses já aplicadas de imunizantes contra a Covid-19, apenas 0,3% foram parar nos braços de pessoas que vivem em países pobres. No esforço para atacar essa brutal desigualdade, a proposta de suspender as patentes ganha corpo, com inédito apoio dos Estados Unidos. Neste episódio do podcast, Renata Lo Prete entrevista a economista Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins, para avaliar viabilidade e eficácia da ideia, à luz da emergência sanitária. Especializada em imunologia e genética por Harvard, Monica não deixa de enxergar vantagens de médio e longo prazos na quebra de patentes e na transferência de propriedade intelectual. Mas é clara: “Não resolve o problema agora”. E o que resolve então? “A única forma são países com excesso de doses enviarem para aqueles onde há falta”. Ela reconhece que isso nunca foi feito na escala necessária nesta pandemia. Mas diz que a saída passa necessariamente pela cooperação global. “Temos mecanismos de coordenação, como OMS, G-20 e OMC. É preciso colocar as autoridades na mesa para negociar.”

May 17, 202123 min

Ep 452CPI: vacinas que o Brasil deixou passar

O depoimento de Carlos Murillo, gerente-geral da Pfizer na América Latina, confirma e detalha um capítulo essencial para entender o saldo trágico da pandemia no país: o pouco caso do governo diante de ofertas de imunizantes que lhe foram feitas. O executivo falou à comissão no mesmo dia em que o ex-ministro Eduardo Pazuello recorreu à Justiça para não falar. Enquanto isso, o ritmo de vacinação cai pela metade, entre outros motivos porque, em pelo menos 20 capitais, falta Coronavac para a segunda dose. “O ritmo está aquém da necessidade. Além de prejuízo aos não-vacinados, isso mina a confiança no programa”, diz o infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele lembra que atrasos e interrupções resultam em mais hospitalizações e mortes, além de aumentar o risco de surgimento de novas variantes. “Temos capacidade de vacinar até mais de 2 milhões de pessoas por dia. Nosso limitador é a quantidade de doses”. Participa também a jornalista Mariana Varella, editora do Portal Dráuzio Varella. É ela quem analisa, ponto a ponto, a relevância do depoimento do representante da Pfizer e os rombos que ele causa no casco do discurso governista.

May 14, 202123 min

Ep 451CPI: Wajngarten incrimina Bolsonaro

O ex-secretário de Comunicação Social compareceu à comissão disposto a proteger o presidente. Mas caiu em contradições e acabou por criar pelo menos dois problemas para o ex-chefe: admitiu que o governo deixou sem resposta, por pelo menos dois meses, uma volumosa oferta de vacinas da Pfizer (da qual apresentou prova documental); e que existia no Planalto uma estrutura paralela, ao largo do Ministério da Saúde, para assuntos da pandemia. Por mentir aos senadores, foi ameaçado de prisão, movimento que abriu espaço para ataque aberto (e rebatido) do senador Flavio Bolsonaro ao relator da CPI, Renan Calheiros. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista Thomas Traumann sobre as implicações do mais atritado e turbulento depoimento da CPI até agora. Wajngarten “não percebeu a importância do que apresentou”, avalia Thomas. “É a prova de que o governo inteiro (presidente, vice e ministro da Economia, entre outros) foi negligente na compra de vacinas”. Para o jornalista, a ofensiva do filho do presidente foi “uma declaração de guerra” de quem já espera o pior do relatório final da CPI.

May 13, 202127 min

Ep 450Asfixia das universidades federais

A precarização começou com a crise econômica, em 2015, e se aprofundou no governo Bolsonaro, que desde o início hostilizou essas instituições com palavras e gestos. Depois de quase dois anos e meio de drenagem de recursos, e diante do bloqueio de parte do minguado Orçamento de 2021, reitores alertam: se não houver algum socorro, a partir de julho as universidades federais não terão dinheiro nem para pagar as contas mais básicas. “A maioria não consegue funcionar até o fim do ano”, sustenta Edward Madureira, reitor da federal de Goiás e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Em entrevista a Renata Lo Prete, ele detalha as consequências desse apagão. “As universidades estão ameaçadas até de ficar sem energia. Imagine isso com milhares de pesquisas em andamento, inclusive relativas à Covid-19”. Participa também do episódio Úrsula Dias Peres, professora de Gestão de Políticas Públicas na USP e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. É dela a previsão para o médio prazo: “Se nada mudar, perderemos professores capacitados e será reduzido o número de vagas”.

May 12, 202124 min

Ep 449Colômbia em transe

O ambiente já era de muita insatisfação com o governo quando, cerca de duas semanas atrás, o presidente Iván Duque anunciou uma proposta de aumento de impostos para compensar o gasto público na pandemia. A reação das ruas foi imediata, levando ao descarte do projeto e do ministro da Fazenda. Mas nem isso conteve os protestos, que escalaram junto com a violência da polícia. O saldo até aqui é de mais de 30 mortos, centenas de desaparecidos e inúmeros relatos de abusos cometidos pelas forças de segurança. “A situação é mais preocupante na região de Cali”, afirma o jornalista brasileiro Felipe Seligman, referindo-se à terceira maior cidade do país. Fundador do veículo digital Jota, ele vive na capital, Bogotá, onde os distúrbios ainda estão sob algum controle. “O Estado Vale de Cauca está fechado, com mais de 900 estradas bloqueadas, toque de recolher e desabastecimento”, relata Felipe. Também a partir de Bogotá fala Nicolás Urrutía, analista sênior da consultoria Control Risks. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele analisa a trajetória de um país conhecido, no passado recente, tanto pela estabilidade macroeconômica quanto pela desigualdade social, agora agravada pela crise sanitária. A tensão atual, prevê Nicolás, “irá polarizar ainda mais” a Colômbia e deixar cicatrizes que impactarão a próxima eleição presidencial, daqui a um ano. Para os próximos dias, a expectativa não é de distensão. “O comitê de paralisações segue se reunindo, e o presidente mobilizou mais milhares de soldados e policiais. Parece que não há acordo à vista”, diz Felipe.

May 11, 202125 min

Ep 448A miragem mortal da imunidade coletiva

Com palavras e ações, Jair Bolsonaro apostou desde o início na ideia de deixar o novo coronavírus correr solto. Em detrimento das vacinas, por essa via chegaríamos, achava o presidente, à proteção do conjunto dos brasileiros. Catorze meses depois, a CPI da Covid mira a estratégia de imunização de rebanho por contágio como uma das principais evidências da responsabilidade dolosa do governo federal por uma tragédia sanitária que já conta mais de 420 mil mortos. “Fica claro o objetivo de que o vírus se propagasse de forma rápida e intensa. Essa intencionalidade vai além do discurso, ela se deu na prática”, afirma neste episódio a professora Deisy Ventura, pesquisadora da relação entre pandemias e direito internacional. Na CPI, existem pelo menos quatro requerimentos para ouvir Deisy, coordenadora, na USP, de um estudo que analisou mais de 3 mil normas relacionadas à Covid-19 baixadas pela gestão Bolsonaro. Ela detalha os achados e explica que eles podem gerar, para o presidente e demais envolvidos, acusações por crimes comuns, de responsabilidade e contra a humanidade. Renata Lo Prete conversa também com o colunista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo e da rádio CBN, que vem acompanhando o trabalho dos senadores da comissão. “Nas próximas semanas, um dos desafios mais importantes será identificar o que o ex-ministro Mandetta classificou como ‘Ministério da Saúde paralelo’”, diz ele. Ou seja, quem contribuiu para a decisão de Bolsonaro “de nos jogar nesse caminho”.

May 10, 202129 min

Ep 447Horror no Jacarezinho

A operação mais letal da história da polícia do Rio de Janeiro, que deixou 25 mortos nessa grande favela da zona norte da cidade, aconteceu em plena vigência de restrições impostas pelo STF a ações dessa natureza. No entanto, desde que os limites entraram em vigor, em junho do ano passado, a polícia informou a realização de cerca de 500 operações, com um saldo de mais de 800 óbitos. Neste episódio você ouve, além do relato apavorado de moradores, que acordaram nesta quinta-feira sob tiros e bombas, entrevista de Renata Lo Prete com Henrique Coelho, repórter do G1 no Rio. Ele descreve a favela de 37 mil moradores como “uma região muito viva, com muito comércio e movimentação grande de pessoas”. E detalha a investigação sobre a suspeita de recrutamento de crianças pelo tráfico, apresentada como base para a ação. Renata conversa também com Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e autor do livro “A República das Milícias”. Ele explica como o enfraquecimento das instituições no Rio, que teve 6 ex-governadores presos nos últimos 4 anos (além de um derrubado via impeachment) é o pano de fundo para o descontrole da polícia e a escalada da violência. “Uma polícia que tem carta branca para matar quase sempre vai querer ganhar dinheiro com isso. É a semente das milícias”.

May 7, 202124 min

Ep 446Quando Paulo Gustavo nos fez chorar

A morte do ator e humorista por Covid-19, aos 42 anos, entristeceu ainda mais um país machucado, ao qual ele só deu alegria. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista e escritor Chico Felitti sobre a trajetória do responsável pelo maior sucesso de bilheteria da história do cinema brasileiro -- a série de três filmes “Minha Mãe é uma Peça”. E sobre sua principal personagem, Dona Hermínia: “Uma mulher batalhadora, amorosa e combativa. Um arquétipo de mãe que conversa com todas as mães do Brasil”, resume Chico. Ele define Paulo Gustavo como “um Mazzaropi deste século, que fazia um humor tipicamente brasileiro”. Fala ainda do sonho interrompido do ator -- que planejava encarar também papéis dramáticos -- e de seu modo de fazer avançar a pauta LGBTQIA+. “Não era só humor. Ele comeu o país todo pelas beiradas. Não mostrou beijo gay no filme, mas mostrou uma mãe ensinando à criança que a aceitação é o caminho, independentemente do que ela seja”, analisa Felitti. “Era uma forma doce de lutar”.

May 6, 202121 min

Ep 445CPI: Mandetta fala, e Pazuello foge

A largada dos trabalhos na Comissão Parlamentar de Inquérito teve o primeiro ministro da Saúde da pandemia colocando no caminho dos senadores uma série de pistas potencialmente explosivas para o governo. Mesmo evitando ataques frontais a Jair Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta deixou claro que o presidente agiu ao largo das orientações da pasta, pressionou em favor da cloroquina e apostou na imunidade de rebanho, em detrimento da vacinação. “Esse é um dos maiores riscos para ele. A CPI quer provar que houve ação deliberada do governo para a população se infectar. E o depoimento de Mandetta reforça a tese”, analisa Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN, convidado de Renata Lo Prete neste episódio. Sobre os esforços em favor de um medicamento sem eficácia contra a Covid-19, Bernardo destaca: “Um decreto para alterar a bula do remédio é algo que pode implicar em crime de improbidade administrativa”. O dia foi marcado tanto pela presença de Mandetta quanto pela fuga de outro ex-ministro, Eduardo Pazuello, que iria depor nesta quarta. Ele alegou quarentena, após contato com dois casos confirmados da doença. O que só fez ampliar a percepção de que o Planalto teme esse depoimento: “Ele se apresentou como um pau mandado do presidente. Pazuello responsabilizado significa Bolsonaro também responsabilizado”, afirma Bernardo.

May 5, 202125 min

Ep 444Cloroquina para os indígenas

As denúncias vêm desde o ano passado, mas agora ganharam visibilidade, e o motivo tem três letras: CPI. A Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Senado vai investigar, apenas nessa seara, 15 potenciais erros da gestão Bolsonaro, entre eles distribuição e prescrição de medicamentos sem eficácia no tratamento da Covid-19. “Um pessoal de Brasília foi à terra yanomami e levou 3 mil quilos de cloroquina”, recorda Junior Hekuari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indigenista Yanomami e Ye’kuana, sobre a comitiva oficial que visitou a etnia no meio de 2020. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele lembra que, embora o governo tenha mais tarde alegado que o objetivo era tratar malária, a recomendação real era para dar o remédio a qualquer um que apresentasse suspeita de infecção pelo novo coronavírus. “Foi totalmente marketing”, diz Junior. Participa também Daniel Biasetto, repórter do jornal O Globo que localizou documentos públicos em Vilhena (RO), distrito responsável por 144 aldeias da Amazônia Legal, orientando explicitamente o tratamento com o chamado “kit covid”. Daniel exemplifica com o caso de Aruká Juma, que era o último homem de sua etnia e foi vítima da doença. “Tudo indica que Aruká morreu por negligência no tratamento”, diz.

May 4, 202126 min

Ep 443O Brasil do futuro sequestrado

As consequências nefastas da pandemia para o sistema de ensino e o mercado de trabalho atingem todas as etapas de uma escala etária que vai da primeira infância à juventude. Esta padece com o desemprego em percentual bem acima da média, em si desastrosa, da população. Enquanto crianças e adolescentes já sentem, apontam pesquisas, os danos socioemocionais e cognitivos causados pelo fechamento prolongado das escolas. “O resultado para o país veremos lá na frente”, diz Naércio Menezes, economista e pesquisador do Insper. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, ele disseca questões como a evasão, que dobrou entre 2019 e 2020, e a ascensão dos chamados “nem-nem”(neste momento, mais de um terço dos brasileiros entre 20 e 29 anos não trabalha nem estuda, maior percentual da história). “O prejuízo é da sociedade toda”, afirma Naércio, e envolve dimensões como “produtividade, renda e até criminalidade”.

May 3, 202120 min

Ep 442400 mil mortos: o que esperar agora

Foram quase cinco meses até 100 mil. Outros cinco até 200 mil. Com a metade do tempo chegamos a 300 mil. E em pouco mais de um mês atingimos a nova marca devastadora, superada apenas pelos Estados Unidos. Em 2020, a Covid-19 roubou quase dois anos da expectativa de vida dos brasileiros. E, segundo a demógrafa Márcia Castro, a aceleração dos óbitos em 2021 tende a produzir um tombo ainda maior nesse que é um dos principais termômetros sociais de qualquer país. Chefe do Departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard, Marcia liderou a pesquisa que constatou a queda. E dimensiona, neste episódio, a inflexão que ela representa: "De 1945 a 2020, a expectativa de vida ao nascer subiu, em média, cinco meses a cada ano no Brasil”. Renata Lo Prete conversa também com o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz. Ele explica por que o mix de vacinação lenta, restrições em baixa e inverno chegando deve nos empurrar para um saldo de 500 mil vítimas sem muita demora. “Saímos de uma segunda onda terrível, com março e abril tendo sido os dois piores meses da história do Brasil. Junho e julho podem superar”.

Apr 30, 202125 min

Ep 441100 dias de Biden na Casa Branca

O homem mais velho a assumir a Presidência dos Estados Unidos chega ao primeiro marco temporal de seu governo com um feito que ninguém questiona: a vacinação em massa dos americanos contra a Covid-19. Não por acaso, foi esse o primeiro item do discurso de Joe Biden nesta quarta no Congresso. “A América avança novamente”, disse ele. Como peça de resistência do pronunciamento, a apresentação de mais um pacote de investimento público pesado, desta vez com foco em educação e ajuda às famílias. Biden passou pelos principais temas do período inaugural de seu mandato: da reinserção americana em esforços globais, como o Acordo de Paris, à defesa da transição para uma economia verde; da violência policial ao controle de armas. Temas que estão na conversa de Renata Lo Prete com Claudia Antunes, editora de Internacional do jornal O Globo. Ela analisa cada um dos tópicos e ainda explica como as eleições de meio de mandato, no ano que vem, podem impactar as ambições de Biden. “Ele não atiça a polarização, mas ao mesmo tempo quer estabelecer uma marca que mantenha o voto que teve, tanto no eleitorado democrata quanto no independente. E mirando até alguns republicanos".

Apr 29, 202128 min

Ep 440Sem dinheiro para habitação popular

Entre as áreas atingidas pelo facão do governo Bolsonaro no Orçamento de 2021, poucas perderam tanto quanto o financiamento de moradia para as famílias de menor renda: 98% dos recursos foram cortados. José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, explica neste episódio que a paralisia será imediata e atingirá obras em andamento, ceifando, de saída, mais de 250 mil empregos. “O diálogo com as pessoas que lidam diretamente com o Orçamento é muito difícil. Nossa esperança é o Congresso”, diz. Participa também o urbanista Nabil Bonduki, professor da USP e ex-vereador paulistano. “O problema da habitação ganhou ainda mais importância na pandemia. Com diretrizes sanitárias como ficar em casa e lavar as mãos, fica evidente o problema para quem não tem casa ou vive em uma com água intermitente", afirma. “Um programa de habitação precisa responder a três questões que estão na agenda do país: o problema sanitário, a redução da desigualdade e geração de empregos.

Apr 28, 202123 min

Ep 439Tsunami de Covid na Índia

Um número diário de novos casos sem precedente em qualquer outro país, já tendo superado 350 mil. Variantes do vírus alimentando o contágio. Colapso dos hospitais, pacientes morrendo por falta de oxigênio, disparada de sepultamentos e cremações. E desconfiança generalizada de que a contagem de óbitos - na casa dos 200 mil - esteja seriamente subestimada. “Não dava para imaginar que ficaria tão grave. No dia a dia, a mensagem era de que o pior já havia passado”, conta o repórter da Globo Álvaro Pereira Jr., que esteve nas cidades de Nova Délhi e Pune no início de março, como parte das gravações para o documentário “A corrida das vacinas”. De fato, a situação saiu de controle em poucas semanas, disparando alerta global, porque o país é grande produtor do que o mundo inteiro quer. “Se o Brasil ainda esperava receber vacinas prontas da Índia, pode tirar o cavalo da chuva”, alerta o jornalista. Isso porque a prioridade do país, agora, será acelerar a imunização de sua população -inferior em tamanho apenas à da China. Também neste episódio, Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, explica por que o país asiático está recebendo ajuda internacional em escala a que o Brasil nem de longe tem acesso: “Ela é aliada dos EUA para conter a China e peça-chave na distribuição global de vacinas”.

Apr 27, 202127 min

Ep 438Enquanto a vacina não vem

Em março de 2020, André Akito, 27, mudou-se para o Vietnã, onde dá aulas de inglês como voluntário. Surpreendido pela declaração de pandemia, teve a chance de voltar ao Brasil, mas decidiu ficar. “Hoje sou grato por ter vivido esse período num país que atua de forma preventiva no controle da Covid-19”, diz. Ele se refere a testagem, rastreamento de contatos e isolamento dos infectados, além do uso disseminado de máscaras. Tudo promovido exaustivamente em campanhas de comunicação do governo. “Desde o primeiro momento, teve um sentimento nacional de que está todo mundo unido, lutando contra um inimigo comum”, conta André. Resultado: mesmo sem grandes recursos e com vacinação ainda incipiente, o país do sudeste asiático registra 0,04 mortes pela doença a cada 100 mil habitantes. Enquanto nós, 181,7. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Fátima Marinho, epidemiologista da Vital Strategies, organização que atua no enfrentamento do novo coronavírus em 40 países. Ela explica o que precisamos extrair da experiência de países como o Vietnã para colocar o contágio sob algum controle enquanto a imunização não ganha ampla escala: “Investir tudo o que pudermos em rastreamento de casos e contatos, ter uma coordenação nacional e incluir nesse processo a atenção primária do SUS”. Fátima recomenda ainda abandonar a ilusão de que a onda atual será a última: “A tendência é repetir o cenário, e pra pior”.

Apr 26, 202127 min

Ep 437A resposta do mundo à crise climática

Discursando na reunião virtual convocada pelo presidente americano, chefes de Estado e de governo se comprometeram com esforços para frear o avanço do aquecimento global. Começando pelo próprio Joe Biden, que anunciou a ambiciosa meta de reduzir à metade as emissões dos Estados Unidos de gases do efeito estufa até 2030. "Isso vindo de um país ainda muito dependente de combustíveis fósseis é absolutamente inédito”, explica Ricardo Abramovay, professor sênior do programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP. “E envolve uma profunda transformação econômica e social", completa. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, Abramovay analisa os principais temas que atravessam a cúpula: do objetivo de neutralizar as emissões à “economia do cuidado”, da proposta de taxar carbono a medidas mais radicais para conter a escalada da temperatura do planeta. “A transformação é de uma magnitude que o mundo não vê desde a revolução industrial”. Enquanto isso, “o governo brasileiro está com o olho no retrovisor", diz. Quando seria necessário ficar atento “à rota fascinante que está se abrindo em razão da urgência climática”.

Apr 23, 202131 min

Ep 436O Brasil na Cúpula do Clima

"O mundo busca uma nova fotografia, e o Brasil tem que estar nela". Assim a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira resume a importância do encontro virtual de líderes que começa nesta quinta-feira. Entrevistada por Renata Lo Prete neste episódio, a bióloga de formação, ex-servidora do Ibama, alerta que combater o desmatamento da Amazônia é apenas parte do problema, “a agenda do passado”, que já deveríamos ter superado. Para a do futuro, “o governo precisará construir um alicerce que permita ao mundo voltar a olhar para o Brasil". Participa também Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. É ele quem detalha o passivo de 28 meses que assombra o discurso de Jair Bolsonaro no evento. "O governo barbarizou o meio ambiente”, diz Astrini, lembrando da “boiada” do ministro Ricardo Salles. “Nenhum país vai querer se arriscar colocando dinheiro na mão de um governo que claramente trabalha contra a floresta".

Apr 22, 202130 min

Ep 435A desumanidade da intubação sem kit

Depois do esgotamento de leitos e do desabastecimento de oxigênio, a mais recente manifestação de colapso do sistema de saúde é a escassez de medicamentos para doentes graves de Covid-19. Cinco Estados zeraram seus estoques no fim de semana, e outros se aproximam desse ponto - São Paulo tem o suficiente para mais quatro dias. Neste episódio, a médica intensivista Lara Kretzer, que coordena uma força-tarefa para alocar recursos escassos, descreve a mecânica da intubação e o papel de cada um dos remédios usados no procedimento. Sem eles, “a gente não consegue ventilar o paciente de maneira apropriada”, o que compromete suas chances. E do ponto de vista ético e humanitário? “É pior ainda”, afirma. A importação desses medicamentos por empresas privadas, para destinar ao SUS, é mais do que bem-vinda. Mas a atitude do governo federal não ajuda e, no estágio da pandemia em que está o Brasil, qualquer medida de alívio para quem está hospitalizado só se sustenta se houver esforço para reduzir o contágio - e com ele as internações. É o que explica Walter Cintra, professor da pós-graduação em administração hospitalar da FGV. “Chegamos aonde chegamos porque não tomamos as medidas preventivas, que são as melhores medidas”, diz.

Apr 20, 202124 min

Ep 434CPI da Covid: um guia de perguntas

Por que o governo Bolsonaro esnobou ofertas de vacina no 2º semestre de 2020? Quanto dinheiro público foi usado na compra e na produção, pelo Exército, de um remédio que não funciona contra o novo coronavírus e até mortes já provocou? Onde foi parar o plano de testagem que Nelson Teich disse ter deixado pronto? Que sequência de ações e omissões matou doentes por falta de oxigênio em Manaus? Que fim levaram os medicamentos para intubação requisitados de laboratórios pelo Ministério da Saúde? Vem aí a Comissão Parlamentar de Inquérito que poderá iluminar essas e muitas outras questões, apontando responsabilidades pelo maior desastre sanitário da história do Brasil, que já conta mais de 373 mil vítimas. Às vésperas de sua instalação no Senado, Renata Lo Prete conversa com Carlos Andreazza, âncora da CBN e colunista do jornal O Globo. Ele lista convocados que não poderão faltar e passa em revista os temas, mostrando quais são os mais explosivos para o presidente e o governo como um todo.

Apr 19, 202127 min

Ep 433Ricardo Salles, o novo Ernesto Araújo

No momento em que Jair Bolsonaro tenta convencer Joe Biden e líderes europeus de que tem compromisso com a preservação da Amazônia, o ministro do Meio Ambiente está no centro de uma crise deflagrada com a maior apreensão de madeira da história do país, feita pela Polícia Federal na divisa entre Amazonas e Pará no final do ano passado. Ricardo Salles entrou na história mais recentemente, ao visitar a região e se colocar ao lado dos madeireiros. “A PF sustenta que essa operação detectou uma organização criminosa”, relata Fabiano Villela, repórter da TV Liberal (filiada à Globo no Pará) e um dos entrevistados neste episódio. É ele quem explica os expedientes mais usados na região para “esquentar” madeira ilegal. Renata Lo Prete conversa também com Julia Duailibi, apresentadora e comentarista da GloboNews. Ela analisa o impasse criado com a decisão do superintendente local da PF, Alexandre Saraiva, de apresentar ao Supremo notícia-crime contra Salles - movimento que custou o cargo ao delegado. E fala também de como, mais e mais, o titular do Meio Ambiente lembra o chanceler dispensado em março. Assim como Ernesto Araújo, Salles já esgotou a paciência de empresários e parlamentares aliados do Planalto - além de ser entrave a qualquer melhora nas relações externas do governo Bolsonaro. “Ele se segura porque é quadro remanescente da chamada ala ideológica, mas há grande pressão no Congresso para derrubá-lo”, diz Julia.

Apr 16, 202126 min

Ep 432A importância da 2ª dose

"Duração maior da proteção", resume o médico Marco Aurélio Sáfadi. Em conversa com Renata Lo Prete, ele explica o imperativo de tomar o reforço, no caso das vacinas contra a Covid-19 disponíveis no Brasil (a Coronavac e a do consórcio Oxford-AstraZeneca). Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Sáfadi ressalta que só completando o processo de cada imunizado (e aumentando muito o número geral de doses aplicadas por dia) conseguiremos controlar o contágio. Segundo o Ministério da Saúde, 1,5 milhão de pessoas que receberam a primeira dose não retornaram para a segunda. Ainda que secretarias estaduais e municipais apontem exagero nesse dado, o problema existe, mas pode ser sanado com medidas práticas e melhor comunicação. “Se cada comunidade faz uma coisa diferente, sem coordenação nacional, dificulta. A população fica confusa", analisa Carla Domingues, que chefiou o Programa Nacional de Imunizações entre 2011 e 2019 e também participa deste episódio. Para ela, ainda há tempo de colocar os retardatários de volta no bonde da vacinação, com uma grande campanha de conscientização, além de mutirões e providências locais para localizar os faltosos. Estes, por sua vez, não devem desistir, orienta Sáfadi. Seja qual for o atraso, “basta ir tomar a segunda dose para que ela ofereça a proteção necessária".

Apr 15, 202122 min

Ep 431A multiplicação das armas

À margem do Legislativo, por meio de dezenas de decretos e portarias, o governo Bolsonaro vem executando sua principal política: a de facilitação ampla do acesso a armas de fogo, tal como afirmado pelo presidente na famosa reunião ministerial de um ano atrás. Em 2020, o número de registros de posse por colecionadores, atiradores e caçadores mais do que dobrou. E o crime organizado não encontrou dificuldade para se apoderar de parte expressiva desse arsenal. Na véspera da entrada em vigor de quatro decretos, ainda mais permissivos, a ministra do Supremo Rosa Weber suspendeu vários de seus artigos, e o caso agora será examinado pelo plenário do tribunal. Neste episódio, o jornalista Marcio Falcão, da TV Globo em Brasília, analisa as perspectivas para esse julgamento e lembra que não é inédito um ministro do STF conceder liminar na contramão da escalada armamentista promovida pelo atual governo - Edson Fachin já fez o mesmo. Renata Lo Prete conversa também com o advogado Bruno Langeani, gerente do Instituto Sou da Paz. Ele chama a atenção para o tipo de arma que vem sendo liberada: “Algumas são mais potentes que as da polícia”. E estabelece a conexão: “A maioria esmagadora das armas apreendidas com criminosos é nacional é foi comercializada antes do desvio para o crime”.

Apr 14, 202124 min

Ep 430Bolsonaro no redemoinho

“Quando o presidente viu que a bomba das mortes e de todo esse desastre ia cair em seu colo, decidiu jogar no ventilador e espalhá-la”, diz Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da rádio CBN. Neste episódio ela analisa, em conversa com Renata Lo Prete, de que maneira o conteúdo do telefonema entre Bolsonaro e o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) se encaixa na tática presidencial de empastelar a CPI da Covid, se não for possível evitá-la. Vazado pelo senador, o diálogo mostra tentativa explícita de interferir nos poderes Legislativo e Judiciário para tirar as ações e omissões do governo federal na pandemia do foco, diluindo as investigações por Estados e municípios. Como tal comportamento pode configurar crime de responsabilidade, muita gente não entendeu quando Kajuru revelou que divulgou a conversa autorizado por Bolsonaro - que no dia seguinte se declarou “traído”. Maria Cristina explica também como o Orçamento aprovado pelo Congresso entra nesse cenário turbulento. Para se proteger da CPI, o presidente precisará dos parlamentares, que, neste momento, cobram dele que preserve a generosa parcela que lhes coube na peça de 2021. “Se Bolsonaro sancionar sem vetos, incorrerá em outro crime de responsabilidade. Se vetar, pode azedar a relação e levar a Câmara a engrossar o coro por impeachment”.

Apr 13, 202126 min

Ep 429O golpe mortal no Censo

A pandemia já atrasou, em um ano, a única radiografia completa da população brasileira, feita a cada década, desde 1940. E ainda impõe dificuldades sanitárias à realização dessa ampla e detalhada pesquisa do IBGE. Mas o que realmente ameaça sua sobrevivência é a asfixia de recursos. Com custo estimado, ainda em 2019, de R$ 3,4 bilhões, o Censo Demográfico foi sendo lipoaspirado pelo Executivo e pelo Legislativo até ficar, no recém-aprovado Orçamento de 2021, com minguados R$ 71,7 milhões, valor que inviabiliza o levantamento. Um falso barato que sairá caríssimo, alerta o economista Sérgio Besserman, presidente do IBGE entre 1999 e 2003, hoje integrante da Comissão Consultiva do Censo. Entrevistado por Renata Lo Prete neste episódio, ele começa por lembrar do básico: “Além de vital para a elaboração e a eficiência de qualquer política pública, o Censo serve de base para outras pesquisas. Sem ele, vai se eliminando a racionalidade”. Para além desse aspecto, estamos falando de um direito da cidadania, em especial diante da devastação do último ano: “A sociedade brasileira precisa saber o que aconteceu com as populações mais vulneráveis e com o sistema de saúde, balisada pelas informações censitárias”. Participa também Lucianne Carneiro, repórter do jornal Valor Econômico. Ela trata da demissão da presidente do IBGE e do cancelamento do concurso que recrutaria mão-de-obra para o Censo, além de pesar argumentos favoráveis e contrários à sua realização enquanto o país estiver pouco vacinado e com o contágio nas alturas.

Apr 12, 202124 min

Ep 428Henry: o horror que ninguém viu

Depois de um mês de investigações, a polícia do Rio de Janeiro reuniu indícios suficientes para mandar prender o padrasto e a mãe do menino de 4 anos agredido até a morte no apartamento onde vivia o casal, na Barra da Tijuca. “A perícia técnica foi fundamental”, avalia o repórter da Globo Carlos de Lannoy, que acompanha o caso desde o início. É ele quem detalha, neste episódio, o histórico de violência contra crianças do vereador Dr. Jairinho e as evidências de que Monique Medeiros tinha pleno conhecimento dos maus tratos sofridos pelo filho. Eles agora são investigados por homicídio duplamente qualificado e tortura. Lannoy explica também a rede de conexões políticas que por muito tempo protegeu Jairinho -no quinto mandato, ele é influente na Câmara Municipal, onde integra o Conselho de Ética. Renata Lo Prete entrevista ainda o advogado Ariel de Castro Alves, do Instituto Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. “Trabalho há quase 30 anos na área, e nunca vi um caso como esse”, afirma.

Apr 9, 202128 min

Ep 427A privatização da vacina

“Em português claro, é uma maneira de furar a fila”. Assim o médico e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão traduz a decisão da Câmara dos Deputados de liberar a compra de vacinas contra a Covid-19 por empresas privadas sem necessidade de repassar todas as doses ao SUS, executor do Plano Nacional de Imunização. E de permitir que essa aplicação paralela aconteça antes mesmo de o PNI alcançar todos os grupos prioritários. Entrevistado neste episódio, Temporão explica de que maneira a fila dupla rompe a lógica sanitária de imunizar em etapas, considerando o grau de risco de quem vai receber a dose. E aponta ainda a incongruência de favorecer funcionários de empresas, aleatoriamente, num país em que o trabalho informal predomina e o número de desempregados é altíssimo. Renata Lo Prete ouve também a empresária Luiza Trajano, que está à frente do Unidos pela Vacina, movimento de apoio atuando em quase todos os municípios brasileiros. Há meses mergulhada nessa questão, ela aponta, em primeiro lugar, a ociosidade do debate: “O problema é que não tem vacina sobrando para comprar”. Luiza se refere ao superaquecimento da demanda global e à consequente decisão, por parte dos principais fabricantes, de por enquanto vender somente para governos. Se alguma empresa conseguir, “ótimo”, ela diz. E completa: “tem que ir para o SUS”.

Apr 8, 202124 min

Ep 426A fábula do tratamento precoce

Durante meses, enquanto outros países se concentravam na aquisição antecipada de vacinas, o governo brasileiro investiu pesadamente em comprar e distribuir cloroquina, um antigo medicamento até hoje sem eficácia demonstrada contra o novo coronavírus. A pregação do presidente Bolsonaro encontrou eco em parte da classe médica, que receitou sem pudor nem critério esse e outros itens do chamado “kit covid”. As vendas dispararam, e agora se multiplicam também as notificações à Anvisa de complicações sofridas por pacientes. Neste episódio, Ricardo Melo, repórter do Fantástico em Minas Gerais, relata alguns desses casos - há quem tenha ido parar na fila do transplante de fígado. “Tem gente usando como profilaxia, acha que vai evitar a doença”, conta. Ele também mapeia a rede de fake news que promove o consumo do kit e ações que já tramitam na Justiça para responsabilizar agentes públicos. Renata Lo Prete entrevista também o cardiologista Bruno Caramelli, professor da USP e diretor do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. Ele é o autor de uma representação para que o Ministério Público investigue o papel do Conselho Federal de Medicina nessa história. “O CFM não só não condena como aprova”, diz. Caramelli questiona ainda a ideia de que a “autonomia médica” impediria a atuação do poder público, como sugere o novo ministro da Saúde. “Prescrever medicamento para o qual não existe evidência científica não é autonomia, é erro”.

Apr 7, 202130 min

Ep 425A guerra em torno do Orçamento

Foram sete meses de tramitação, três dos quais já no ano de vigência. E ao final saiu uma peça de ficção, no entender quase unânime dos especialistas. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Cristiano Romero, diretor-adjunto, chefe da Sucursal de Brasília e colunista do Valor Econômico, para entender as despesas subestimadas, os cortes de gastos obrigatórios e o milagre da multiplicação das emendas parlamentares. Uma disputa que tem o ministro da Economia de um lado, aliados do governo no Congresso de outro, e o presidente Jair Bolsonaro com um pé em cada canoa - e os dois olhos mirando a eleição de 2022. “Paulo Guedes já esteve para sair do governo inúmeras vezes”, lembra Romero. Se Bolsonaro não vetar os desarranjos da peça aprovada, “não haverá momento melhor para o ministro sair do que agora”. O jornalista explica que irregularidades tão flagrantes “podem até criar motivo técnico para impeachment”, como ocorreu com Dilma Rousseff, em 2016. E avalia que a eventual decretação de uma nova calamidade pública, para escapar das exigências fiscais, será uma grande derrota para Guedes.

Apr 6, 202122 min

Ep 424Diplomacia sob Bolsonaro: terra arrasada

Os objetivos perenes de toda política externa cabem num enunciado simples, ensina o embaixador Marcos Azambuja, ex-secretário geral do Itamaraty e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais: “Se dar bem com os vizinhos, se dar bem com os fregueses e manter relação de confiança com o mundo”. Por qualquer um desses critérios, fracassou miseravelmente a gestão do chanceler Ernesto Araújo, que no entanto só chegou ao fim, após dois anos e três meses, porque empresários e o Congresso perderam a paciência com um fiasco em específico, o das negociações para obter vacinas contra a Covid-19. Em entrevista a Renata Lo Prete, Azambuja passa em revista diferentes aspectos do que chama de “erro sistêmico”, que considera menos “ideológico” do que resultado de “desatinos sem pé nem cabeça”. E alerta: a questão ambiental, principal fonte de descrédito do país no exterior, está longe de ser atacada, que dirá resolvida. Embora reconheça que o substituto de Araújo, Carlos Alberto França, foi escolhido sobretudo por ter caído nas graças da família presidencial, Azambuja vê chance de alguma correção de rumo. “A realidade dos fatos é irresistível”, diz. “No fim, é o que ganha”.

Apr 5, 202128 min

Ep 423Colapso até para enterrar os mortos

A cada minuto dos últimos 7 dias, duas pessoas morreram de Covid no Brasil. Um ritmo do qual não dá conta nem o sistema funerário da maior cidade do país, dotada de uma rede de 22 cemitérios públicos. “Além de espaço, falta também estrutura física e material e até carros para levar os corpos”, relata o repórter da Globo César Galvão. Na conversa com Renata Lo Prete, ele conta como foi seu trabalho de acompanhar sepultamentos noturnos em São Paulo. E compartilha histórias como a de “um filho que disse que não conseguiu prestar uma última homenagem à mãe e ainda teve que enterrá-la no escuro”. Participa ainda deste episódio Lourival Panhozzi, presidente da Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário, que procura dimensionar a tragédia: “O número de mortes que estamos vendo só seria alcançado no Brasil, dentro da normalidade, em 2045”. O impacto, diz, atinge também quem trabalha no setor: “Sou funerário há 45 anos. Sempre vi famílias chorando nos velórios. Agora eu entro no velório e o que vejo é a minha equipe chorando”.

Apr 1, 202122 min

Ep 422Os militares e Bolsonaro: e agora?

Primeiro o presidente demitiu o ministro da Defesa, alegando falta de apoio a ideias de exceção como decretar estado de sítio. Em resposta, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica tomaram a inédita iniciativa de entregar conjuntamente seus cargos. “Ficou mais difícil para Bolsonaro dar um golpe”, avalia o cientista político Octavio Amorim Neto, professor da FGV no Rio de Janeiro. Isso diante da sinalização, dada pelos generais do Alto Comando do Exército, de que a maior das três Forças Armadas não pretende embarcar em aventura golpista. O que não significa que Bolsonaro não irá tentar. Ou que inexistam ambiguidades na relação dos militares com um governo que vem lhes garantindo uma série de benefícios, explica Amorim. De todo modo, ele vê mais risco de adesão de policiais que de militares a uma eventual escalada autoritária. “Movimentos populistas de extrema-direita testam todas as instituições”, diz.

Mar 31, 202126 min

Ep 421Bolsonaro contra-ataca

Acuado pelo desempenho desastroso na pandemia e, principalmente, por cobranças do Congresso, o presidente da República moveu, num único dia, seis peças no tabuleiro ministerial. Duas das trocas foram concessões aos parlamentares: a degola de Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e a ida da deputada Flavia Arruda (PL-DF) para a Secretaria de Governo. Todas as outras atendem a um único propósito: “blindagem”, resume na conversa com Renata Lo Prete a jornalista Vera Magalhães (de O Globo, rádio CBN e TV Cultura). Neste episódio, Renata e Vera passam as mudanças em revista, com destaque para a demissão do general Fernando Azevedo e Silva da pasta da Defesa - e o que esperar agora dos comandantes das Forças Armadas. Saíram, enfatiza Vera, “ministros que não topam fazer tudo o que Bolsonaro pedir”, notadamente iniciativas que afrontem a Constituição. E entraram, além dos que topam, mais amigos da família - como o novo titular da Justiça, o delegado da PF Anderson Torres. A conversa inclui também análise da tentativa de deputados bolsonaristas de estimular insubordinação da PM da Bahia, a partir de incidente ocorrido no domingo.

Mar 30, 202131 min

Ep 420Na pior hora, doações despencam

Quando o vírus chegou ao Brasil e tudo fechou de repente, a resposta solidária de pessoas físicas e jurídicas foi gigante: nos primeiros três meses, somou mais de R$ 6 bilhões. Mas o tempo passou. As curvas de casos e de mortes deram algum alívio, o auxílio emergencial garantiu o básico a dezenas de milhões de pessoas, e a arrecadação de alimentos e outros produtos básicos entrou em queda livre. Hoje, com a pandemia em momento catastrófico, a crise econômica aprofundada e o auxílio (mais magro) ainda sem dia para voltar, entidades e organizações de apoio aos mais carentes lançam um grito de alerta. “Estou vendo muita gente na política pensando em 2022. Só que antes temos que atravessar 2021”, diz Preto Zezé, presidente da Central Única das Favelas, a Cufa. Em entrevista a Renata Lo Prete, ele dá a real sobre o avançado estágio de insegurança alimentar nas comunidades. “Estamos vendo nas redes sociais gente vendendo pertences para ter o que comer”, conta. E cita dados de levantamento recente: quase 80% dos moradores de favela afirmam que faltou dinheiro para comprar comida nos últimos 15 dias. Participa também do episódio Ana Paula Campos, repórter da Globo em São Paulo. Ela relata histórias de necessidade extrema em favelas da maior cidade do país. “Só não falta tudo porque o vizinho divide o pouco que tem”, conta. Preto Zezé conclui: “Se as pessoas têm que ver seus filhos chorando de fome, é a declaração do caos total. E aí é a nossa falência como sociedade e como nação”.

Mar 29, 202124 min

Ep 419Por que a vacinação patina na Europa

Em julho de 2020, os 27 países da União Europeia negociaram de forma conjunta a aquisição de imunizantes contra a Covid-19. As compras foram feitas, mas a distribuição avança em marcha lentíssima: até agora, menos de 15% da população adulta do bloco foi vacinada. Enquanto isso, no vizinho Reino Unido, o percentual se aproxima de 50%. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com a jornalista Cecília Malan, correspondente da Globo em Londres, e com a médica Sue Ann Clemens, chefe do Instituto para Saúde Global da Universidade de Siena e coordenadora dos estudos da vacina de Oxford no Brasil. Cecília descreve um “conto de duas realidades distintas”, uma da UE, outra dos britânicos. E detalha as tensões diplomáticas que podem resultar em bloqueio de exportação de vacinas e de insumos para produzi-las. Sue Ann explica as consequências da interrupção das campanhas, vista em vários países europeus. “O primeiro impacto é em hospitalizações e mortes. O segundo, na adesão à vacina”, afirma. Ela tem uma palavra de alívio para os brasileiros: não acredita que as ameaças de bloqueio venham a interferir no fluxo de doses para nós.

Mar 26, 202124 min

Ep 418300 mil mortos: a despedida possível

No momento em que o Brasil cruza essa marca terrível, familiares de vítimas da Covid-19 compartilham com O Assunto as mensagens de celular que se revelaram o derradeiro meio de contato com mães, pais e filhos isolados nas UTIs. Declarações de amor, palavras de encorajamento, diálogos sobre cenas do cotidiano, como tirar a roupa do varal e pedir pizza: tudo registrado na tela e agora convertido em última lembrança. Na outra ponta dessa correspondência estavam doentes como os que o médico intensivista Daniel Neves Forte acompanha há um ano no Hospital Sírio Libanês, onde gerencia o setor de Humanização. "É um rolo compressor. A gente está vivendo uma tragédia”, resume na entrevista a Renata Lo Prete. “Com uma carga de trabalho brutal, é fácil desumanizar: numerar os pacientes e só cuidar do corpo que está ali. Desumanizar para manter o paciente vivo, isso é muito desgastante. E se desconecta do propósito da profissão”, reflete. Forte acredita que a dificuldade de elaborar o luto nessas condições não é apenas individual, mas também do país, principalmente em razão do comportamento do governo federal desde o início da pandemia. Sem reconhecer toda a extensão do que nos aconteceu não é possível ter, nas palavras do médico, a “esperança da reconstrução”.

Mar 25, 202124 min

Ep 417Covid grave entre os jovens

“Não pude dar um abraço. Nem de me despedir tive direito”. Quem conta é Maria de Jesus, que perdeu o único filho, de 22 anos, para a Covid-19. Renan Ribeiro Cardoso administrava a pequena pizzaria da família, na zona leste de São Paulo, e era figura querida na vizinhança. Foi a primeira pessoa a morrer na fila por um leito de UTI na maior cidade do país. Sua saga em vão por atendimento ocorreu num momento em que mais jovens estão se contaminando e, não raro, desenvolvendo formas agressivas da doença. Este episódio traz, além do relato dilacerante de Maria, entrevista de Renata Lo Prete com Ana Freitas Ribeiro, coordenadora do serviço epidemiológico do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas. “Entre os casos graves, ainda há predomínio de maiores de 60 anos, mas o volume de contaminações entre os mais jovens aumentou bastante”, diz a médica. Ela sugere duas explicações: livre circulação e maior transmissibilidade da variante brasileira, a P1. “É um momento delicado: muitos casos e poucos leitos”. Diante disso, ela recomenda aos jovens, que serão os últimos a se vacinar, a manter todo o distanciamento possível.

Mar 24, 202123 min

Ep 416O manifesto dos economistas

Ex-ministros da Fazenda, ex-presidentes do Banco Central, economistas de variadas posições no espectro ideológico, empresários: são mais de 500 assinaturas na carta aberta que cobra do governo Bolsonaro um conjunto de providências para finalmente enfrentar a catástrofe sanitária. “No grupo há críticos de partida do governo, outros que de início acreditaram, outros que tinham medo de se manifestar”, diz o economista Pérsio Arida, um dos signatários e entrevistado de Renata Lo Prete neste episódio. “O denominador comum é o desespero diante da inércia do governo.” E por que lançar o documento agora? “A incompetência supera as expectativas de todos. É incompetência mesmo, falta de noção da realidade, falta de contato com o mundo. E isso perpassa o governo como um todo”, responde Arida, ex-presidente do BC, do BNDES e do Banco do Brasil. O manifesto prioriza quatro reivindicações: acelerar a vacinação, incentivar o uso de máscaras, implementar medidas de distanciamento social e criar mecanismos de combate. Tudo isso com algo que não tivemos até agora: coordenação nacional. Arida fala do egoísmo de quem acreditou ser possível implantar uma pauta reformista na economia (que jamais se concretizou) em meio a retrocessos de toda ordem nas questões da cidadania. “Se o governo fosse racional, daria meia volta. Ou se tornará impotente e perderá de vez sua legitimidade”, conclui.

Mar 23, 202126 min

Ep 415Comida cara, tensão social em alta

A disparada dos preços dos alimentos é fenômeno global, explicado, em boa medida, pelo estrago que a pandemia produziu nas cadeias de produção. No passado, ciclos como o que vemos agora fomentaram distúrbios e disrupção, alerta o sociólogo José Eustáquio Diniz Alves, mestre em economia e doutor em demografia. Um dos convidados deste episódio, ele cita os exemplos da Primavera Árabe, no início da década passada, e da Guerra da Síria, que acaba de completar 10 anos. Se o quadro geral preocupa, que dirá o do Brasil, diz Eustáquio, citando às avessas o verso de Gilberto Gil: “O pior lugar do mundo é aqui e agora”. Ele se refere ao fato de sermos o epicentro da crise sanitária, com vacinação ainda incipiente, auxílio emergencial interrompido e desemprego nas alturas. Para se aprofundar na situação brasileira, Renata Lo Prete entrevista a jornalista Nathalia Tavoliere, do Profissão Repórter, que acompanhou de perto a luta de famílias de São Paulo, Pernambuco e Paraíba para colocar comida na mesa. Muitas trabalham em lixões. “Me impressionou ver as pessoas pegando alimentos estragados”, conta, e depois “rezando pra não fazer mal”. Lembrando de outras reportagens que já fez sobre o tema, Nathalia relata uma mudança de comportamento: antes, era comum que as pessoas sentissem vergonha de admitir que estavam passando fome. Agora não mais. “É o desespero”. Um cenário que Eustáquio descreve assim: “Precisa só de uma centelha, estamos em um barril de pólvora”.

Mar 22, 202126 min

Ep 414Estrangulamento logístico das UTIs

O colapso dos hospitais é realidade em todo o Brasil. Doentes que morrem à espera de leitos. Unidades de Tratamento Intensivo onde atuam profissionais exaustos e já faltam medicamentos essenciais para o atendimento de pacientes graves. Um cenário de guerra, relatado neste episódio pelo repórter Bruno Tavares. Ele descreve o desalento dos médicos ao ver alas inteiras tomadas por vítimas de uma única doença, boa parte em estado crítico. Um deles diz que no trabalho se sente, todos os dias, “dentro de um Boeing caindo”. Além de Bruno, Renata Lo Prete recebe a médica Laura Schiesari, professora do FGV Saúde e do Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Ela enumera tudo o que o governo federal deveria ter feito e não fez, sugere medidas de emergência para dar alívio aos hospitais e às equipes, ampliando assim a capacidade de atendimento no curtíssimo prazo. E diz que, neste momento, a mensagem para quem não está doente é uma só: fazer o distanciamento mais rigoroso possível, para reduzir drasticamente a circulação do vírus. “Porque nos hospitais não há lugar para ninguém”, nem com Covid, nem com outras doenças.

Mar 19, 202127 min

Ep 413Juro básico em alta: e agora?

Alimentos, combustíveis, preços da indústria: diante da inflação disseminada, o Banco Central optou por aumentar a Selic pela primeira vez desde 2015, em 0,75 ponto. Ela agora está em 2,75% ao ano. Para o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, entrevistado neste episódio, o movimento era inevitável, mas poderia ter sido mais brando num primeiro momento. “É uma dosagem excessiva do remédio monetário", analisa, diante do claro desaquecimento da economia. Ele lembra que antes mesmo de o "meteoro chamado Covid" se abater sobre nós, produzindo uma crise “completamente diferente de todas as do passado", já enfrentávamos sérias dificuldades - na atividade, no emprego e na situação fiscal. E diz que só há um passaporte para a recuperação: vacina. “Antes disso, ela será artificial”. E vacinação como não temos ainda: “rápida, abrangente e eficaz."

Mar 18, 202129 min

Ep 412O cerco aos críticos de Bolsonaro

"Fiquei muito espantado quando vi que estava sendo acusado de crime contra a segurança nacional", disse o comunicador Felipe Neto, intimado pela Polícia Civil do Rio, a pedido filho do presidente da República, depois de chamar Jair Bolsonaro de genocida na condução da pandemia. Neto não foi o primeiro. Órgãos do governo e instituições de Estado têm avançado contra professores universitários, estudantes, jornalistas e blogueiros num processo a que o professor de Direito da USP Conrado Hübner Mendes deu o nome de “Estado de Intimidação”. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa a esse respeito com a professora de Direito da Estácio Fabiana Santiago, autora de um livro sobre a Lei de Segurança Nacional, e com o doutor em Filosofia Fernando Schuler, do Insper. Ela resgata a história da LSN, dispositivo sobrevivente de seguidas ditaduras, e diz que, independentemente de qualquer outra consideração, é flagrante que a lei não se aplica aos casos em questão. “Isso viola a lógica da segurança humana e do Estado democrático de direito”. Estudioso do tema da liberdade de expressão, Schuler considera que “o país não sabe o que quer” nessa matéria. “E arrisco dizer: o Congresso não sabe, o Supremo não sabe. E o debate público é pobre”. Ele conclui: "Liberdade de expressão não dá para ser seletiva. Tem que ser para todo mundo".

Mar 17, 202127 min

Ep 411Novo ministro, o mesmo Bolsonaro

"Se o presidente pudesse, ele não tiraria o Pazuello", avalia a repórter da Globo Andréia Sadi, convidada de Renata Lo Prete neste episódio. Subserviente ao extremo, fiel executor da política do chefe de não-enfrentamento da pandemia, o terceiro ministro da Saúde do atual governo sobreviveu 10 meses, durante os quais os mortos por Covid saltaram de 15 mil para quase 300 mil. E o general teria durado mais, não fosse a reconfiguração política que começou com a sucessão nas Casas do Congresso e teve capítulo decisivo na semana passada, explica Sadi: “O Centrão está aproveitando o retorno de Lula para reconquistar ministérios que ocupou em outros governos”. No caso específico da Saúde, não só parlamentares, mas também governadores, prefeitos e ministros defendem uma completa mudança de rumo -que ninguém se arrisca a dizer se virá com o médico Marcelo Queiroga. Confirmada no início da noite desta segunda-feira, a escolha do presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, figura próxima do filho mais velho do presidente, causou menos impacto do que a recusa da convidada anterior, a também cardiologista Ludhmila Hajjar. Alegando "incompatibilidade técnica", ela deixou claro que não teria autonomia, além de relatar as ameaças que sofreu de apoiadores do presidente.

Mar 16, 202133 min

Ep 410A vida na linha de frente da vacinação

“A gente sempre dá um jeito”, resume Mayane Brito, 32 anos, enfermeira numa unidade de Saúde da Família em São José de Espinharas, interior da Paraíba. De carro, moto, barco ou mesmo atravessando rio a pé, com a caixa de doses sobre a cabeça, ela tem chegado até os idosos da zona rural para imunizá-los contra a Covid-19. É recebida com entusiasmo e confiança. “Porque a vacina traz isso mesmo: uma esperança”, diz. A história de Mayane, contada neste episódio, é a de milhares de profissionais que, atuando na porta de entrada do SUS, fazem com que a vacinação aconteça nos pontos mais remotos do país, não deixando nenhum brasileiro para trás. Eles já cumpriram essa missão com sucesso em diversas campanhas, e só temem mesmo a escassez de doses -fruto da falta de planejamento e de sentido de urgência por parte do governo federal. É disso que trata Ligia Bahia, especialista em saúde pública e professora da UFRJ, na entrevista a Renata Lo Prete. Ela entende a aflição de governadores e prefeitos, mas receia que a compra descentralizada de doses, agora liberada, venha a criar uma “fila dupla”, em prejuízo de regiões com menos recursos. A vacina, lembra Ligia, tem que ser como o verso da canção de Milton Nascimento: “ir aonde o povo está”.

Mar 15, 202126 min

Ep 409Como ficou a PEC Emergencial

A emenda à Constituição que permitirá a volta do auxílio emergencial foi finalmente aprovada pelo Congresso, mas bastante despida dos mecanismos de controle de despesas que a equipe de Paulo Guedes pretendia implantar. “O fogo amigo veio de dentro do próprio governo", conta Valdo Cruz, jornalista da GloboNews em Brasília, um dos convidados de Renata Lo Prete neste episódio. Participa também o economista Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente. Valdo relembra como a proposta nasceu, tramitou e foi esvaziada. "A mudança era para ter sido mais profunda. O governo teve que ceder para evitar uma derrota maior", diz. Valdo explica o que falta para definir valores e duração do auxílio, que deve beneficiar bem menos brasileiros do que a temporada de 2020. “É uma medida para reduzir o desgaste do presidente", conclui. Do ponto de vista fiscal, Salto alerta: “Os impactos não são imediatos, e não se sabe os efeitos de medidas que só serão acionadas em 2025. É muito distante do que foi prometido”. Ele aponta que o texto aprovado abre brecha para novos gastos no Orçamento do próximo ano - “a despesa sobe de escada, e o teto, de elevador”, ironiza. E lembra que o novo auxílio, que custará R$ 44 bilhões e está fora do teto de gastos, poderia ter sido implementado muito mais rapidamente, via crédito extraordinário.

Mar 12, 202125 min