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O Assunto

O Assunto

1,761 episodes — Page 22 of 36

Ep 707Finlândia na Otan: por que isso importa

Assim como a também escandinava Suécia, o país abandonou décadas de neutralidade para pleitear entrada na Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar liderada pelos EUA. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel explica que o movimento revela mudança num cálculo de custo-benefício: o medo de agressão passou a superar o desejo de evitar contencioso com a vizinha Rússia. “Até recentemente, a neutralidade fazia parte não só da política externa desses dois países, mas era também um elemento da identidade política de ambos”, diz ele. Para Stuenkel, as potências do Ocidente estão “fechando fileiras", preparando-se para uma tensão permanente entre Europa e Rússia. “E algo parecido pode acontecer mais para frente em relação à China”, completa o analista. Mais um sinal, segundo ele, de que nenhum dos dois lados da guerra na Ucrânia irá recuar. "O cenário mais provável segue sendo um impasse que pode durar anos".

May 17, 202223 min

Ep 706Petrobras e preços: fatos e fakes

Em sua escalada ofensiva contra a Petrobras, Jair Bolsonaro, secundado pelos ministros Adolfo Sachsida e Paulo Guedes, agora fala em privatizá-la. “Eles sabem que estão mentindo”, diz sem rodeios Miriam Leitão, em conversa com Renata Lo Prete neste episódio. Comentarista da Globo, apresentadora de um programa na GloboNews, colunista do jornal O Globo e da rádio CBN, Miriam cita o caso da Telebrás, nos anos 1990, para lembrar que privatizações bem-feitas demoram. E explica que, ainda que a empresa saísse das mãos do Estado, a política de preços não seria muito diferente. "[Bolsonaro] quer se descolar do ônus de ser governante num momento em que os combustíveis sobem", avalia. Para ela, subsídios fazem sentido quando adotados para beneficiar os pobres, como no caso do gás de cozinha: “é difícil, num país tão desigual, você fazer um subsídio linear, você tem que transferir renda”. Sem esquecer que a alta de preços é, no momento, um fenômeno mundial, ela aponta o fator que agrava o problema por aqui: “Bolsonaro cria inflação" ao provocar crises institucionais.

May 16, 202222 min

Ep 705O retrato do buraco negro

Nesta quinta-feira, o mundo viu pela primeira vez imagens do Sagittarius A*, que fica no centro da Via Láctea, a galáxia do Sistema Solar. A conquista é do Event Horizon Telescope (EHT), iniciativa da qual participam centenas de cientistas de mais de uma dezena de instituições. A partir de 8 pontos da Terra eles "observam ao mesmo tempo o mesmo alvo e depois combinam todos os sinais”, em um “desafio tecnológico grande", explica Thaisa Storchi Bergmann, chefe do grupo de pesquisa em Astrofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em conversa com Renata Lo Prete, ela diz que as imagens do Sagittarius A* confirmam conclusões tanto dos vencedores do prêmio Nobel de Física de 2020 quanto da Teoria da Relatividade de Albert Einstein. “Os supermassivos surgiram no centro das galáxias”, ensina Thaisa. “E se formaram junto com elas, no início do Universo”. A astrofísica, responsável por uma importante descoberta sobre buracos negros no começo dos anos 1990, avalia que a foto é um "sucesso de todos” os que estudam o tema. “Culminou numa imagem que confirmou praticamente tudo que a gente vinha concluindo", comemora.

May 13, 202220 min

Ep 704Tempestade armada na economia mundial

Associada ao aumento de preços com a recuperação da atividade pós-pandemia, a inflação se consolidou como fenômeno global. E leva bancos centrais a decidir por apertos monetários, colocando recessão no horizonte. Dados divulgados nesta quarta-feira nos EUA mostram que a taxa acumulada em 12 meses chegou a 8,3% em abril, perto do maior patamar desde 1981. "Talvez ela tenha atingido um pico, mas nada indica que está a caminho de cair nos próximos meses", afirma o economista Otaviano Canuto em conversa com Renata Lo Prete. Segundo o ex-diretor do FMI e ex-vice-presidente do Banco Mundial, “a grande pergunta hoje é qual o grau de vulnerabilidade desse processo: o reajuste para baixo dos preços das ações, a alta das taxas de juros e as dificuldades de crédito". Hoje integrante sênior do Policy Center For The New South, Canuto aponta os fatores que diferenciam os temores atuais da crise de 2008, como a menor participação de instituições bancárias no sistema financeiro. E também os que aproximam, com destaque para os prêmios atrelados a ativos de elevada classificação de risco.

May 12, 202222 min

Ep 703Bolsonaro e a anatomia do golpe

Na segunda-feira, o TSE respondeu aos questionamentos do Ministério da Defesa sobre as urnas eletrônicas. As perguntas foram feitas no âmbito de uma comissão criada pelo tribunal para dar ainda mais transparência ao processo eleitoral, com as Forças Armadas chamadas a participar. “A partir desse convite, elas se empoderam. Aquela ideia de suposto ‘poder moderador' ganha materialidade e se arma uma tocaia”, avalia o jornalista Carlos Andreazza, para quem houve má-fé por parte dos militares. Em conversa com Renata Lo Prete, o colunista do Jornal O Globo e apresentador da rádio CBN diz que parte importante do golpismo surge de uma “leitura pervertida” do artigo 142 da Constituição, difundida pelo presidente a partir da célebre reunião ministerial de abril de 2020, ressoando até hoje. “O golpe está acontecendo agora e passa por essa dissolução de crença nos valores da República”, afirma Andreazza. Para ele, mais grave é o estado de golpismo permanente, “corroborado pelas Forças Armadas” onde os “pilares republicanos são carcomidos”.

May 11, 202223 min

Ep 702O salário mínimo comido pela inflação

Renda base para quase 25% da população, ele está há 3 anos sem aumento real. E deve terminar o governo Bolsonaro com o poder de compra menor do que há 4 anos, segundo cálculos divulgados pela corretora Tullet Prebon Brasil. “A renda está sendo corroída porque a inflação não é um fenômeno localizado”, explica Sergio Lamucci, editor-executivo do jornal Valor Econômico. Em conversa com Natuza Nery neste episódio, Lamucci detalha como a deterioração do poder de compra afeta mais quem ganha menos. Ele analisa como o Auxílio Brasil e o saque emergencial do FGTS “atenuam a situação” de quem mais precisa, mas que ambos também são corroídos pela alta nos preços. E fala como a economia, “calcanhar de Aquiles” de Bolsonaro, deve pesar na tentativa de reeleição: “quanto mais baixo o salário do eleitor, o presidente vai pior”, diz. “O eleitor tende a votar com o sentimento de como está o bolso”, conclui.

May 10, 202225 min

Ep 701Lei de Cotas: 10 anos depois

Em 2012 – na esteira de uma decisão do STF – o Executivo sancionou a lei que reserva 50% das vagas em instituições federais para negros, pardos, indígenas e pessoas de baixa renda. Para entender o que levou até essa política é preciso “recuar até 1988, no centenário da Abolição”, diz Edson Cardoso, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Em conversa com Natuza Nery neste episódio, Edson relembra que a defesa das cotas nasceu de uma "longa caminhada", do movimento negro, do qual é militante histórico. Edson reforça que as cotas devem ser “política transitória” e reforça a necessidade de “universalizar o acesso à pré-escola e colocar recursos na escola pública, para que todos cheguem em condições iguais ao 3° grau” e haja uma mudança estrutural na sociedade. Participa também deste episódio Márcia Lima, professora do departamento de Sociologia da USP e coordenadora de pesquisa em justiça racial no Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Márcia explica como as cotas são “essencialmente socioeconômicas” e pontua como os dados de acesso ao Ensino Superior são “os mais exitosos de todos” em relação à diminuição das desigualdades. E conclui como a falta da realização do Censo – suspenso por falta de verbas - impede o entendimento sobre o impacto da lei no mercado de trabalho.

May 9, 202237 min

Ep 700Violência contra os Yanomâmi: o pior momento

Destruição da floresta, contaminação dos rios, disseminação de doenças e violência. Esses são alguns dos problemas decorrentes do crescimento do garimpo ilegal na maior Terra Indígena do Brasil, em Roraima, onde vivem cerca de 30 mil pessoas. Os riscos impostos aos Yanomâmi e aos Ye’kwana “não são de hoje”, destaca Mauricio Ye’kwana, mas cresceram expressivamente desde o início da pandemia: “São muito mais pessoas, mais barcos, mais aeronaves. E com esse aumento, crescem a violência e as doenças”. Recentemente, a denúncia de mais um crime no território movimentou redes sociais, agentes de investigação e os poderes Judiciário e Legislativo. Na pequena comunidade Aracaçá, uma menina de 12 anos teria sido estuprada e morta por ação de garimpeiros e os habitantes teriam deixado o local. No episódio 700 do Assunto, o diretor da Hutukara Associação Yanomâmi relata à Julia Duailibi a escalada do garimpo e da criminalidade, cujo modus operandi envolve presença de facções criminosas altamente armadas, aliciamento de jovens com bebida alcóolica e drogas, além do abuso sexual de menores. “O garimpo não tem lei”, resume Mauricio. Estima-se que atualmente a terra demarcada dos Yanomâmi esteja invadida por 20 mil garimpeiros, que se multiplicam diante da “ausência total do Estado”, cuja responsabilidade constitucional é proteger o território e os povos tradicionais. Abandonados à própria sorte devido à inação do governo Bolsonaro, da Funai e dos órgãos de fiscalização, os indígenas enfrentam os impactos sociais e ambientais do garimpo. “Não consigo mais tomar banho onde eu tomava, beber água onde eu bebia, não consigo mais pescar porque os peixes morreram. Pra onde que eu vou?”

May 6, 202224 min

Ep 699Os limites do Auxílio Brasil

No fim de 2021, quando a popularidade de Bolsonaro estava em seu nível mais baixo, o governo federal conseguiu aprovar a substituição do Bolsa Família (programa criado durante a gestão Lula) por uma marca para chamar de sua. O piso do benefício subiu para R$ 400 mensais, mas seu redesenho pouco focalizado pode criar distorções. “Não é adequado porque não é equitativo", resume Letícia Bartholo, especialista em políticas públicas de combate à pobreza. Em entrevista a Julia Duailibi, ela explica que a busca pelo registro em busca dos pagamentos cresceu expressivamente desde o início do ano. De acordo com a Confederação Nacional de Municípios, mais de 1 milhão de famílias estão na fila, fora do alcance do auxílio. “Essa é a fila oficial. Há ainda uma fila que a gente não vê”, afirma ex-secretária nacional adjunta de Renda e Cidadania, uma vez que o Ministério da Cidadania oculta os dados das famílias habilitadas ao benefício, mas que não recebem. O texto original do Auxílio Brasil previa pagamentos somente até dezembro deste ano, o que deve mudar com o aval do Congresso à MP que torna o programa permanente, ao custo de R$ 90 bilhões ao ano.

May 5, 202218 min

Ep 698O aborto (e a disputa política) nos EUA

A “Roe vs Wade”, decisão de 1973, garante acesso à interrupção da gravidez em todos os estados norte-americanos. E agora pode estar prestes a ser derrubada – como indica o vazamento de um rascunho da decisão dos ministros da Suprema Corte. O documento indica que a regra – nascida da contestação de uma grávida solteira mãe de 3 filhos - deve ser anulada pela maioria do Judiciário dos EUA. “Chegou o grande momento que os conservadores esperaram por 49 anos”, explica Guga Chacra, comentarista da Globo em Nova York em conversa com Julia Duailibi. Guga ressalta como as mulheres pobres serão as mais prejudicadas, recorrendo a clínicas clandestinas. Ele lembra como pautas religiosas foram incorporadas por republicanos, para quem o aborto é um “mobilizador de votos”. E como democratas devem usar o tema para convencer o eleitorado a comparecer às eleições de meio de mandato marcadas para novembro. “A tendência é que [democratas] percam a maioria na Câmara e no Senado”, conclui.

May 4, 202224 min

Ep 697Lula x Bolsonaro – atos de 1° de maio na corrida eleitoral

O Dia do Trabalhador foi de manifestações para apoiar os dois pré-candidatos que lideram as pesquisas. Lula foi a evento organizado pelas centrais sindicais, com discurso voltado à economia. Bolsonaro participou de ato em Brasília e falou, por vídeo, a apoiadores na Avenida Paulista em manifestação contra o STF e a favor do deputado Daniel Silveira. Em comum: a baixa adesão popular. Neste episódio, Julia Duailibi conversa com o analista político Thomas Traumann. Colunista da revista Veja e do site Poder 360, Traumann avalia como as mobilizações foram uma espécie de “aquecimento antes do início do campeonato”, ao sinalizar que a campanha deve ganhar tração a partir de junho. Traumann aponta as dificuldades de Lula e Bolsonaro no atual momento. De um lado, Lula e o PT tem a agenda de “não ser Bolsonaro”, sem apresentar um programa de governo. No campo Bolsonarista, Traumann aponta que o presidente está “ditando esse começo” de disputa e adota a estratégia de tornar a eleição e a política “insuportáveis”, a ponto de provocar o desinteresse de parte da população. E conclui como grupos bolsonaristas buscam pretextos para contestar a eleição caso o presidente seja derrotado nas urnas.

May 3, 202223 min

Ep 696Racismo e impunidade no futebol

Os casos se acumularam na última semana durante a principal competição sul-americana. Torcedores do Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Fortaleza e Red Bull Bragantino foram vítimas de gestos racistas em jogos na Libertadores – com pouca ou nenhuma ação de autoridades contra os criminosos. Para que punições sejam efetivas, é preciso "envolver os clubes", avalia Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, em entrevista a Julia Duailibi. Coordenador de um relatório que indica que apenas 25% dos casos de racismo resultam em julgamento, Marcelo relaciona o problema no esporte a uma sensação generalizada de impunidade: “Temos uma lei de racismo que trata o crime como inafiançável e imprescritível, mas não temos ninguém preso por racismo no Brasil”. Ele pontua três pilares para combater este crime dentro do estádio: punição, educação e conscientização. Ainda neste episódio, Leda Costa, pesquisadora do laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, fala sobre a cultura de "vale-tudo" dentro dos estádios, onde racismo e homofobia são considerados "brincadeiras". Ela aponta a necessidade de problematizar violências verbais contra mulheres e o público LGBTQIA+. "A gente precisa fazer com que os estádios parem de ser 'escolas' formadoras de preconceito", conclui.

May 2, 202224 min

Ep 695A hepatite misteriosa em crianças

Os casos começaram a assustar no Reino Unido. Em questão de dias, 12 países já registravam mais de uma centena de crianças com um quadro hepático incomum: em nenhum dos pacientes foram encontrados os vírus que causam as hepatites já conhecidas até aqui. Enquanto autoridades sanitárias nacionais investigam as causas, a Organização Mundial da Saúde fez um alerta global de que está monitorando a doença. O médico hepatologista Mario Kondo, professor da Escola Paulista de Medicina, afirma que, apesar desta “hepatite misteriosa” ter sintomas semelhantes aos casos convencionais, ela apresenta incidência muito maior de quadros graves. “A do tipo A, mais comum onde não há vacinas, tem 1 caso grave para 100 crianças”, lembra. “Agora, a proporção sobe para 1 caso a cada 10 crianças”. Entrevistado por Julia Duailibi neste episódio, Kondo explica que a relação entre o coronavírus e o adenovírus, identificados em várias das crianças testadas, parece mais “coincidência do que causa”. A pesquisadora Mellanie Fontes-Dutra, professora da Escola de Saúde da Unisinos, reforça esta hipótese: “Mecanismos não infecciosos também podem ser importantes para fechar o quebra-cabeça”. Enquanto as respostas não vêm, Mellanie atua para combater as fake news que relacionam a inflação no fígado ao uso de vacinas. “Não há relação justamente porque as crianças não haviam recebido vacina da Covid”, conclui.

Apr 29, 202218 min

Ep 694Rússia x Europa: a guerra pelo gás

O conflito na Ucrânia escalou a um patamar inédito nesta semana. As movimentações tiveram início quando mais de 40 países (entre eles EUA e Alemanha, principal comprador do gás russo) anunciaram uma nova rodada de doações financeiras e militares a Kiev: desta vez, foram enviados armamentos de maior poder ofensivo, como tanques e blindados. O Kremlin reagiu ameaçando uma resposta nuclear e o início da Terceira Guerra Mundial. “Estamos em um momento muito crítico da guerra”, resume Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP. Em entrevista a Julia Duailibi, ele explica ainda o avanço do exército de Putin na Transnístria, região de maioria russa que busca independência da Moldávia, que abre o risco de “um novo front de batalha” nesta guerra. A tensão entre Rússia e Europa se acirrou ainda mais com o anúncio da estatal Gazprom de interromper o fornecimento de gás à Polônia e à Bulgária, dois países que se negaram a pagar o contrato em rublos, exigência russa pós-sanções econômicas. Loureiro reforça que a “Europa é dependente do gás russo” e que a escassez desta fonte de energia pode desencadear uma onda global de inflação de alimentos. “A segurança alimentar mundial pode ser alarmante nos próximos anos”.

Apr 28, 202221 min

Ep 693Elon Musk e o futuro do Twitter

Dono de uma fortuna de US$ 264 bilhões, o empresário chegou a um acordo com a rede social. As especulações e recusas duraram quase um mês - e terminaram com uma aquisição que vai custar US$ 44 bilhões. Musk defende menos moderação de conteúdo, o que “pode piorar o ambiente da plataforma”, na avaliação de Carlos Affonso Souza, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uerj) e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). As mudanças no funcionamento do Twitter dependem ainda da conclusão da aquisição - o que pode demorar até o fim do ano -, mas o anúncio do acordo tem impactos imediatos: “se existe uma certeza, é de que mudanças vão acontecer”, diz Carlos. Para ele, “o comportamento de Musk na rede social” e as falas por “liberdade de expressão absoluta” incentivam e estimulam a desinformação e ataques – o que pode ter influência no contexto eleitoral brasileiro deste ano. Participa também do episódio o advogado Caio Vieira Machado, do Instituto Vero. Para Caio, Musk enfrentará desafios econômicos e jurídicos para implementar “sua própria visão de liberdade de expressão”. O advogado sinaliza ainda porque é um problema Musk controlar a rede social que se tornou um importante meio de comunicação de governos e governantes.

Apr 27, 202226 min

Ep 692Bolsonaro e mais uma crise aberta com o STF

O ápice da tensão entre Executivo e Judiciário foi no 7 de setembro de 2021. Pelo menos até aqui. “É muito explícito que [Bolsonaro] pretende continuar atacando as instituições”, resume Celso Rocha de Barros em conversa com Julia Duailibi. Sociólogo e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Celso analisa a estratégia do presidente ao retomar o estado de conflito com o Supremo – depois de beneficiar o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) com o perdão da pena, apenas um dia depois de o parlamentar ser condenado, por 10 votos a 1, a 8 anos e 9 meses de prisão, além da perda de mandato e dos direitos políticos. “Um desastre”, resume Celso sobre a conivência das instituições diante das afrontas à Corte – uma ofensiva na retórica golpista e fim das ilusões sobre qualquer possibilidade de moderação. "O Centrão tentou vender isso pros aliados, mas é mentira”, conclui. Participa também Wallace Corbo, professor de Direito Constitucional da Fundação Getúlio Vargas. Ele aponta os possíveis destinos jurídicos de Silveira e os fundamentos do decreto presidencial, e explica o “desvio de conduta” no uso dos indultos: seja no caso individual ou no caso coletivo (a exemplo do perdão a crimes policiais), ele “usa mais como um instrumento de governo do que de política criminal ou clemência”.

Apr 26, 202226 min

Ep 691Desglobalização: causas e implicações

Processo construído ao longo de séculos e acelerado nas últimas décadas, a globalização está em xeque ao enfrentar uma pandemia e uma guerra. “[A globalização] foi planejada. A desglobalização, não”, diz Tatiana Roque, professora de matemática, história das ciências e filosofia na UFRJ. Para ela, este fenômeno recente ainda tem significado fluído, mas pode ser entendido como a “desconexão de setores da produção dos países em relação às regras globais”, com aspectos mais amplos que somente o econômico. Na entrevista a Natuza Nery, a pesquisadora descreve os movimentos liberais globais que instituíram os mecanismos comerciais no último século como “lógicas de proteger o mercado das decisões políticas nacionais” que, hoje, estão em crise e cujo resultado é a perda de força de todas as organizações multilaterais e o crescimento de movimentos protecionistas e nacionalistas, inclusive de viés autoritários. No campo econômico, Tatiana explica a estratégia chinesa de “circulação dual” para ser menos dependente da cadeia global de suprimentos – e como ela foi acentuada durante a crise sanitária e adotada pelos EUA e por muitos países europeus.

Apr 25, 202226 min

Ep 690O desmonte da Lei Rouanet

Desde o início do mandato, Jair Bolsonaro ameaça “desconstruir muita coisa” - e a cultura foi uma das áreas onde seu governo trabalhou mais ativamente para isso. Além do veto à Lei Paulo Gustavo, que destinaria recursos federais para compensar as perdas do setor durante a pandemia, destaca-se a perseguição à Rouanet - legislação de mais de 30 anos, que financia projetos culturais por empresas privadas via abatimento fiscal. Como define Cris Olivieri, advogada especializada em políticas culturais, uma série de alterações vigentes a partir de fevereiro já foram “muito impactantes para o setor”: corte de valores em até 50% para projetos de teatro, museus e espetáculos musicais e redução no prazo de captação para 24 meses. E que o que mais preocupa: a concentração de poder na aprovação final de projetos é feita pelo secretário especial da Cultura – regra que gera distorções, caso das declarações do ex-secretário de Fomento à Cultura, no qual garante a sua base a liberação de recursos para projetos culturais em prol do armamento. Em entrevista a Natuza Nery, Cris explica que o valor médio de pagamento da lei é de R$ 3.500, ou seja, “o dinheiro fica na mão de uma cadeia gigante de profissionais”. Trata-se, explica a advogada, de um setor que representa 2,6% do PIB e emprega 5,5 milhões de pessoas: “um dos poucos que impacta outros 60 setores da economia”.

Apr 22, 202223 min

Ep 689Fim da emergência sanitária: risco no combate à Covid

Pela primeira vez desde fevereiro de 2020, o Ministério da Saúde reduz o nível máximo de alerta em relação à pandemia. O anúncio de Marcelo Queiroga – feito em cadeia nacional no domingo de Páscoa - derruba mais de duas mil normas de esferas estadual e municipal em todo o país e vai na contramão da recomendação da OMS, que reforça o status de emergência internacional. Para Deisy Ventura, jurista e professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, trata-se de mais uma “irresponsabilidade concreta” do governo federal na condução das medidas sanitárias contra a Covid. Em entrevista a Natuza Nery, ela recorda que o Brasil iniciou a pandemia “com a pior resposta” e que tenta, agora, encerrar sua relação com a doença da mesma forma. “É mais um crime contra a saúde pública”, afirma sobre a decisão que foi apresentada à população brasileira sem os instrumentos legais e os detalhes técnicos pelo ministro da Saúde. Para Deisy, trata-se de uma “declaração falsa” para o fim da pandemia, cujo objetivo é somente a “produção de conteúdo para a campanha eleitoral” de reeleição de Jair Bolsonaro.

Apr 20, 202221 min

Ep 688Os áudios que atestam tortura no regime militar

Trechos de sessões do Superior Tribunal Militar (STM) publicados pela jornalista Miriam Leitão, comentarista da TV Globo e colunista do jornal O Globo, revelam abusos contra direitos humanos cometidos durante a ditadura. Em conversa com Natuza Nery, o advogado Fernando Augusto Fernandes - autor da ação que, com aval do STF, disponibilizou ao público os áudios - relata a pesquisa de quase 25 anos para chegar às gravações. Seu conteúdo confirma que os ministros do STM tinham “pleno conhecimento das torturas”, institucionalizadas como “política de Estado” durante o regime. Para o advogado, só chegaremos a uma democracia plena “no momento em que as Forças Armadas pedirem desculpas públicas” pelas arbitrariedades cometidas. Também neste episódio, Pedro Dallari, coordenador da Comissão Nacional da Verdade, condena a reação do vice-presidente Hamilton Mourão, que riu ao ser questionado sobre os áudios: “Profunda desumanidade”. Ele recorda o fato de que mais de 200 casos de desaparecimento seguem abertos e suas famílias não puderam “velar e sepultar seus corpos”. Sobre a Comissão, ele comenta importantes episódios na busca por memória. “As próprias Forças Armadas teriam interesse em limpar essa mancha em sua trajetória”.

Apr 19, 202231 min

Ep 687Os políticos de mandato virtual

Eleitos na onda do bolsonarismo, eles pregaram o discurso da nova política. Além de terem nascido de um mesmo movimento, Gabriel Monteiro (vereador da capital fluminense) e Arthur do Val (deputado estadual em São Paulo) têm em comum o fato de terem milhões de seguidores nas redes sociais antes mesmo de serem eleitos. Agora, veem seus mandatos em risco por diferentes crimes. “Eles têm casca de novidade, discurso de renovação, mas trazem coisas muito velhas de volta à política”, analisa Bernardo Mello Franco em conversa com Natuza Nery. “A mesma tela do celular que ajudou na eleição, pode ser também pivô da cassação” dos dois, diz Bernardo, sobre os casos de Gabriel Monteiro – investigado por registrar sexo explícito com uma adolescente – e Arthur do Val – que em um áudio gravado fez comentários machistas e misóginos sobre refugiadas ucranianas. Colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, Bernardo pontua que, diferente de nomes como Wagner Montes, Celso Russomanno e Roberto Jefferson (todos alavancados por suas popularidades no rádio e na TV), o que diferencia os casos de agora é o fato de que tanto Gabriel Monteiro quanto Arthur do Val não terem “entrado nas regras do jogo”. “A novidade é que eles não têm interesse pelo mandato parlamentar”, conclui Bernardo. Também neste episódio, Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo, discute as relações entre entretenimento e política na internet e comenta a confluência com outro fenômeno: quando celebridades falam de política.

Apr 18, 202223 min

Ep 686A nova fase da guerra na Ucrânia

Depois de seis semanas de invasão russa, a maior batalha entre as duas nações parece estar se aproximando. O exército de Vladmir Putin projetou uma ofensiva em todo território ucraniano, mas, barrado nos arredores da capital Kiev, reorganizou suas tropas para dominar a região leste. Ao mesmo tempo, Volodymyr Zelensky segue em campanha para receber armas e equipamentos de seus aliados no Ocidente. O conflito agora, avalia Oliver Stuenkel, perde a “assimetria militar” e se concentra em “menor território”: “Deve aumentar a violência e a intensidade”, afirma em entrevista a Julia Duailibi. O acirramento ocorre também na propaganda de guerra. Enquanto Moscou informa ao mundo que rendeu mais de mil soldados rivais e que tomou o porto de Mariupol – cidade que, agora, é o epicentro dos combates –, autoridades ucranianas acusam os russos de cometer crimes de guerra – a denúncia mais recente é de uso de armas de fósforo branco em ataques, proibida desde 1997. Stuenkel, que é professor de relações internacionais da FGV e autor do livro “O mundo pós ocidental”, explica que não há mais clima para negociações diplomáticas e que a “radicalização dos dois lados torna pouco provável um acordo de paz”.

Apr 14, 202226 min

Ep 685Sarampo: riscos de surtos e importância da vacina

Em 2016, a Organização Panamericana de Saúde conferiu ao Brasil o certificado de que o vírus fora eliminado do país. Uma conquista que duraria pouco: apenas três anos depois, o Ministério da Saúde contabilizaria quase 12 mil novos casos da doença - crescimento proporcional ao recuo na cobertura vacinal infantil. Desde que o sarampo voltou aos registros oficiais, já são mais de 40 mil pacientes e 40 mortes, metade delas em crianças abaixo de 5 anos de idade. Em entrevista a Julia Duailibi, o médico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, conta que, como professor, “formou várias gerações de médicos” que nunca haviam visto um caso sequer de sarampo – e que, hoje, precisam de treinamento específico para diagnosticar a doença, cujos sintomas iniciais se assemelham a de outras viroses. Sáfadi descreve também o ciclo infeccioso do vírus, seu índice de transmissibilidade e seu risco de hospitalização e doença. Este ano, já são 13 casos confirmados e cerca de 100 suspeitos da doença, sendo 25 deles no estado de São Paulo, onde a epidemiologista Regiane de Paula é coordenadora de controle de doenças. Também neste episódio, ela fala sobre o fenômeno recente da queda na vacinação, consequência de fake news e desinformação.

Apr 13, 202222 min

Ep 684França: Macron x Le Pen de novo no 2° turno

Cinco anos depois de ser eleito, o presidente francês volta a enfrentar sua adversária de 2017. Um primeiro olhar pode indicar um cenário parecido com a última eleição, mas agora os discursos são diferentes: “vai ser uma eleição a favor ou contra a política liberal do Macron, mais do que uma briga entre a extrema-direita e o centro democrático”, analisa o cientista político Miguel Lago, que leciona na Universidade Columbia, em Nova York, e na Sciences Po, em Paris. Na conversa com Julia Duailibi, Lago analisa o que deve ocorrer nas próximas duas semanas antes do 2° turno. Para barrar a extrema-direita, segundo ele, “Macron vai precisar ter o candidato socialista Mélenchon o apoiando explicitamente”. Lago lista ainda as implicações para geopolítica da Europa em tempos de guerra na Ucrânia e as possíveis consequências para o Brasil.

Apr 12, 202224 min

Ep 683Ômicron: todas as letras das subvariantes

Casos em alta nos EUA, em países da Europa e principalmente na China, onde os 26 milhões de habitantes de Xangai foram colocados em lockdown. Enquanto isso, o Brasil vive período de melhora nos indicadores e derrubada quase completa das restrições da pandemia, mas não está isolado do mundo. Há poucos dias, foi confirmado o primeiro caso entre nós de uma recombinação de linhagens da variante ômicron do coronavírus chamada XE, que já infectou mais de meio milhão de moradores do Reino Unido. Uma sigla nascida da mistura de outras duas (BA.1 e BA.2) e que tem como “irmãs” a XD e a XF. Mas não é preciso se assustar com a sopa de letras, nem decorá-las, garante Átila Iamarino. São apenas “várias versões da ômicron”, simplifica o biólogo e divulgador científico. Até aqui, nenhuma apresentou mudança significativa o bastante para tornar o vírus tão perigoso quanto já foi, desde que a pessoa esteja imunizada. Daí o imperativo, diz Átila, de fazer a vacinação avançar sem parar, além de seguir o bom senso na manutenção dos cuidados, especialmente para proteger os grupos mais vulneráveis. Na conversa com Renata Lo Prete, Átila analisa os fatores por trás do surto em cada um dos países mais afetados agora. E se mostra otimista quanto ao Brasil. Segundo ele, por “um motivo bom” (altas taxas de vacinação) “e outro ruim” (muitos casos de ômicron no início do ano), temos uma barreira mais sólida no momento.

Apr 11, 202221 min

Ep 682Braga Netto: modos de Bolsonaro usar

Em seguidos eventos, o presidente da República vem renovando os ataques a ministros do Supremo e os sinais de que não pretende se conformar com uma eventual derrota nas urnas em outubro. Faz parte do pacote o aceno permanente aos militares - como na cerimônia recente em que qualificou o Ministério da Defesa como superior aos demais “por ter a tropa na mão”. É da Defesa, aliás, que Jair Bolsonaro retirou o general da reserva recém-filiado ao PL dado como certo no posto de vice da chapa. Walter Braga Netto seria “uma espécie de Hamilton Mourão, porém fiel e sem agenda ou cabeça própria”, nas palavras de Christian Lynch, professor no Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ. E ainda renovaria o seguro anti-impeachment do presidente - assim como o vice atual, é uma figura que o Congresso não se animaria a instalar no Palácio do Planalto. Na conversa com Renata Lo Prete, Lynch passa em revista a trajetória de Braga Neto, que foi interventor federal no Rio de Janeiro durante o mandato de Michel Temer e teve atuação para lá de questionada como coordenador, na Casa Civil, do enfrentamento da pandemia. O cientista político avalia que as ameaças de Bolsonaro vieram para ficar. “Precisa encenar o tempo todo que teria o poder de dar um golpe”, diz ele, que prevê alta instabilidade em caso de fracasso do projeto reeleitoral.

Apr 8, 202226 min

Ep 681Fake News: o que muda com o projeto de lei

Desde o vale-tudo das eleições de 2018, instituições do Estado e organizações da sociedade buscam formas de combater a desinformação. No Congresso, o tema ganhou força a partir de uma CPI Mista instalada em 2019, mas seguidamente esbarrou em interesses econômicos e políticos conflitantes. Agora, a seis meses do primeiro turno, a Câmara está prestes a votar o PL 2630, que regula plataformas de mídia social com o anunciado propósito de conter a disseminação de notícias falsas. Embora ressaltando que “o PL, na verdade, trata pouco de desinformação", o professor da USP Pablo Ortellado enxerga avanços: “O público é beneficiado, principalmente pela moderação de conteúdo". Mas quem ganha mesmo com a versão atual do texto são os parlamentares, diz a Renata Lo Prete o colunista do jornal O Globo, pois a imunidade de que desfrutam é estendida à sua atuação nas plataformas, garantindo uma espécie de “passe livre” no meio digital. Participa ainda do episódio o repórter do Valor Econômico Raphael Di Cunto, que resgata a origem do projeto, explica o jogo de forças em torno dele e antecipa os próximos passos da tramitação.

Apr 7, 202225 min

Ep 680Bolsonaro e Petrobras: por que deu ruim

Depois de derrubar dois presidentes da estatal na tentativa de interferir nos preços dos combustíveis, Jair Bolsonaro se associou aos donos do PP no patrocínio ao nome do consultor Adriano Pires, que acabou abdicando da indicação de forma constrangedora. Assim como já fizera Rodolfo Landim, que seria alçado ao comando do Conselho de Administração, Pires saiu de cena antes que viesse a público a varredura da Petrobras nos currículos de ambos, mostrando conflito flagrante de interesses (ligações estreitas com empresas privadas do setor de petróleo e gás). Em conversa com Renata Lo Prete, Maria Cristina Fernandes analisa “o consórcio” que promoveu a malsucedida iniciativa, destacando o movimento do presidente da Câmara, Arthur Lira, para reinserir o PP num espaço de poder do qual o partido foi excluído com a Operação Lava Jato. Lembrando o controle que Lira e aliados já exercem sobre o Orçamento da União, a colunista do Valor Econômico e comentarista da CBN resume: “O que resta? Voltar a dominar a Petrobras”, segunda maior empresa do país. Dentro dessa lógica, não espanta a contrariedade de Lira com o fiasco - nesta terça-feira, chegou a defender a mais do que improvável privatização da Petrobras. Já Bolsonaro, avalia Maria Cristina, não se abala com o impasse: “É o que ele sabe fazer: oposição ao próprio governo”. A jornalista também avalia os possíveis desfechos de uma situação com prazo apertado - no próximo dia 13, os acionistas se reúnem para definir o novo comando, que terá de passar pelo mesmo escrutínio que inviabilizou Adriano Pires.

Apr 6, 202229 min

Ep 679Centrão no topo e com Bolsonaro

As três siglas mais próximas do presidente emergem como principais vitoriosas da recém-encerrada temporada de trocas partidárias. O PL, ao qual ele é filiado, tem agora a maior bancada da Câmara dos Deputados. PP e Republicanos também registraram crescimento expressivo. Para além da completa volta por cima dada por legendas fortemente implicadas nos maiores escândalos de corrupção do passado recente, trata-se de um processo de consolidação da direita parlamentar e de um sinal inequívoco da destinação de seu investimento eleitoral. Esses políticos “apostam que Bolsonaro é o caminho mais seguro para a continuidade de benesses", diz Bruno Carazza, colunista do jornal Valor Econômico. Na conversa com Renata Lo Prete, ele analisa também a soma zero no campo da esquerda (apesar de um pequeno incremento no número de seus deputados, o PT caiu no ranking geral e ainda viu o encolhimento de aliados como o PSB) e a atrofia de partidos como MDB e PSDB, mais um reflexo do beco aparentemente sem saída em que está a chamada “terceira via”. A esta altura, avalia Bruno, a disputa presidencial é “um jogo de ganha-ganha” para personagens como Valdemar Costa Neto (dono do PL), Arthur Lira e Ciro Nogueira (caciques do PP). Ganham mais, claro, se Bolsonaro se reeleger. Mas qualquer outro também terá de se entender com eles.

Apr 5, 202223 min

Ep 678Voto jovem: como e por que incentivar

O TSE vem intensificando, nas redes sociais, o esforço para estimular jovens de 16 e 17 anos a tirar o título de eleitor e comparecer às urnas em outubro - o que para eles é facultativo. Mas o resultado ainda está muito aquém do desejável, e o prazo se encerra em 4 de maio. Mesmo com artistas e influenciadores participando da mobilização, o levantamento mais recente do tribunal mostra que, em fevereiro, apenas 13,68% dos 6,1 milhões de brasileiros nessa faixa etária possuíam o documento. A ativista Helena Branco, 19, uma das criadoras da campanha #SeuVotoImporta, conta a Renata Lo Prete o que escuta de potenciais eleitores e quais argumentos podem convencê-los a participar do processo eleitoral. “O que nos move é o poder dos nossos milhões de votos, não a cobrança impositiva de que a gente carrega o peso dos rumos do país", resume. Ainda neste episódio, o consultor Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisas Ideia, elenca fatores que influenciam o voto jovem e a disposição de se envolver na política.

Apr 4, 202225 min

Ep 6773ª via em transe: Moro fora e o teatro do PSDB

Na reta final do prazo para mudar de partido e se desincompatibilizar de cargo Executivo, dois postulantes à Presidência dividiram as atenções nesta quinta-feira. O ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro trocou o Podemos pelo União Brasil, abrindo mão da pré-candidatura no mesmo movimento. Já o tucano João Doria ameaçou permanecer no Palácio dos Bandeirantes, alimentou por um dia inteiro o suspense sobre seu destino e terminou por deixar o cargo, como previsto, para disputar o posto máximo da República. Em conversa com Renata Lo Prete, o sociólogo Celso Rocha de Barros analisa a situação de ambos e os possíveis reflexos na corrida eleitoral. Moro “é o general que tentou lutar a guerra passada", diz o colunista da Folha de S. Paulo, numa referência a 2018. Desprovido de condições materiais e políticas, estagnado num distante 3º lugar nas pesquisas (8% no Datafolha mais recente), seu destino provável é mesmo a Câmara dos Deputados. Já Doria (2%) conseguiu afastar o perigo imediato de uma rasteira interna, mas a luta no PSDB continua -e Eduardo Leite, agora fora do governo gaúcho, está a postos para tomar-lhe o lugar, se chance houver. Embora aposte na continuidade do processo de “seleção natural” dos nomes da chamada terceira via, Celso ainda considera estreito o espaço para que algum deles venha a romper a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro (43% e 26%, respectivamente).

Apr 1, 202225 min

Ep 676Donbass: a guerra antes da guerra

No momento em que Vladimir Putin dá sinais de redimensionar suas ambições na Ucrânia, vale a pena olhar para o conflito que se desenrola há 8 anos no leste do país, com saldo de mais de 14 mil mortos. Seu palco são as províncias separatistas de Donetsk e Luhansk, que Putin declarou “independentes” pouco antes da invasão de 24 de fevereiro. Ligadas à vizinha Rússia por laços estreitos que precedem a formação da extinta União Soviética, no início do século passado, elas foram “isoladas do mundo” e “pararam no tempo” como resultado da guerra civil, explica neste episódio Fabrício Vitorino, mestre em cultura russa e jornalista do g1 Santa Catarina. Renata Lo Prete conversa também com Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP, para entender o papel de Donbass (região onde ficam as duas províncias) na pauta de negociações por um cessar-fogo. Ele aponta os bombardeios à capital, Kiev, nesta quarta-feira como evidência de que Moscou não quer paz. Mas avalia que as dificuldades encontradas até aqui podem mesmo levar Putin a abandonar “demandas maximalistas” e se concentrar em retirar da Ucrânia o leste e a “ponte terrestre” que liga a região à Crimeia, anexada pelos russos em 2014.

Mar 31, 202226 min

Ep 675O 'pacote verde' nas mãos do STF

São sete ações que o plenário do Supremo Tribunal Federal começa a examinar nesta quarta-feira. Cada qual com seu objeto, todas contestam o desmonte de políticas de preservação ao longo do governo Bolsonaro. Para Maurício Guetta, consultor do Instituto Socioambiental, trata-se de julgamento histórico, por levar o enfrentamento das mudanças climáticas à mais alta corte brasileira, a exemplo do que vem ocorrendo em outros países. Na conversa com Renata Lo Prete, o representante do ISA recomenda prestar especial atenção à ADPF 760, primeira das sete em pauta. Uma “ação-caminhão”, resume o ambientalista, “que abrange praticamente todos os tópicos trabalhados nas demais". E que reivindica, antes de mais nada, a retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia. Diante do atual alinhamento entre Executivo e Congresso nessa área - e da inércia da Procuradoria-Geral da República - os olhos se voltam para o Supremo como última esperança de interromper a marcha da destruição.

Mar 30, 202221 min

Ep 674O tapa que roubou a cena no Oscar

Era para ser a festa que marcaria a retomada da indústria do cinema, depois de dois anos de estragos e adaptações por causa da pandemia. As estatuetas, porém, foram eclipsadas pelo incidente envolvendo o ator Will Smith e o comediante Chris Rock - o primeiro agrediu o segundo por fazer uma piada de mau gosto com o cabelo da mulher de Smith, curtíssimo em razão de uma doença. Diante da imensa repercussão, a Academia condenou a atitude de Smith, anunciando uma “revisão formal” do caso. E ele mesmo - vencedor pela atuação no filme “King Richard”- divulgou um pedido de desculpas. Para discutir os limites do humor, a questão racial e o espírito do tempo, Renata Lo Prete recebe Helio de la Peña, um dos criadores do grupo Casseta e Planeta. “Will Smith é maior do que este episódio e hoje está sendo reduzido a ele", lamenta o humorista, admirador também do trabalho de Chris Rock. Mesmo reprovando o comentário dele sobre Jada Pinkett-Smith, Helio considera que Will teria conseguido resultado muito melhor defendendo a mulher com palavras. Helio fala ainda da reverberação nas redes sociais: “Hoje em dia tem muito essa onda do comentário sobre o comentário, da opinião sobre a opinião”.

Mar 29, 202222 min

Ep 673O futuro do dólar no mundo

Cerca de 90% das transações cambiais do planeta usam a moeda americana, que responde por quase dois terços das reservas de todos os Bancos Centrais. Uma dominância que data do fim da 2ª Guerra e se tornou completa a partir da década de 70. E que agora está sujeita a debate, na esteira das sanções econômicas impostas à Rússia por ter invadido a Ucrânia. Além das reações de Moscou, movimentos recentes feitos por países como Arábia Saudita e Índia colocam em pauta a perspectiva de “desdolarização” do sistema financeiro internacional. Mas estamos longe disso, avalia o professor Ernani Torres, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em conversa com Renata Lo Prete, ele resgata o histórico da ascensão do dólar, a partir dos acordos de Bretton Woods (1944), e explica que mesmo o yuan chinês ainda não faz cócegas nessa hegemonia. “O sistema internacional é parte do americano”, diz, e não o contrário. Participa também do episódio Solange Srour, economista-chefe de Brasil do Banco Credit Suisse. É ela quem trata da trajetória de queda do dólar aqui, fruto da valorização que a guerra provocou nas commodities que exportamos e da contínua elevação da taxa básica de juros pelo BC.

Mar 28, 202222 min

Ep 672Água como arma de guerra

O alerta partiu da União Europeia: em lugares como Mariupol, os russos “estão usando a ameaça de desidratação para forçar a cidade a se render”. Um expediente tão antigo em conflitos armados quanto cruel: privar a população do item mais básico de sobrevivência. Direto de Kiev, o documentarista Gabriel Chaim relata as condições de infraestrutura e abastecimento da capital no momento em que a invasão completa um mês. Por lá, a situação ainda é bem melhor do que, por exemplo, na vizinha Irpin, onde faltam “água, comida e eletricidade”. Ele resume: “só tem bomba e bala”. Renata Lo Prete conversa ainda com Guga Chacra, comentarista da Globo em Nova York, que classifica o corte no fornecimento como “crime de guerra”, praticado para “estrangular os ucranianos”. Guga traça um panorama de guerras recentes em que essa prática também ocorreu, casos da Etiópia, Líbia, Síria e Iêmen.

Mar 25, 202226 min

Ep 671O esquema dos pastores no MEC

Às portas da campanha eleitoral, vem à tona um novo “gabinete paralelo” no governo Bolsonaro. Sem cargo ou formação para tanto, Arilton Moura e Gilmar dos Santos negociavam com prefeitos a liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, revelou o jornal O Estado de S. Paulo. Com a anuência do ministro Milton Ribeiro, que, em áudio descoberto pela Folha de S. Paulo, orienta que sejam atendidos “todos os amigos do pastor Gilmar”, “um pedido especial do presidente da República”. Há anos dedicado à cobertura dessa área, o jornalista Antônio Gois (O Globo, CBN e Canal Futura) participa do episódio para explicar o que é o FNDE e que critérios devem, segundo a lei, pautar a partilha de suas verbas. Ele mostra ainda a completa anormalidade da conduta da dupla e de quem lhe deu cobertura. Renata Lo Prete conversa também com Vera Magalhães - colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura - sobre o sequestro de um dos ministérios mais essenciais da Esplanada por um grupo de interesses diretamente ligado a Jair Bolsonaro. Vera lista os possíveis crimes cometidos no caso e observa como o procurador-geral da República tenta, mais uma vez, “ganhar tempo para não fazer nada”. Enquanto isso, Milton Ribeiro balança na cadeira, cobiçada pelo Centrão - que já manda muito na pasta, mas assim teria “controle total do MEC”.

Mar 24, 202230 min

Ep 670Alckmin, o improvável que virou vice

Depois de meses de tratativas e várias opções contempladas, o ex-governador de São Paulo, um dos fundadores do PSDB, filia-se ao PSB para ser o companheiro de chapa de Lula na disputa pelo Palácio do Planalto. Uma união que fez tremer as bases do petismo, por fim enquadradas pelo ex-presidente, e emparedou antigos aliados do ex-tucano, como seu sucessor no Bandeirantes, João Doria. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com o jornalista Fábio Zambeli sobre a surpreendente construção que devolveu protagonismo a um político escanteado por seus próprios correligionários depois da derrota em 2018, quando ficou em 4º lugar na corrida presidencial, com menos de 5% dos votos. E também sobre a ironia do destino: o escolhido por Lula, líder de todas as pesquisas para o pleito de outubro, foi, sob vários aspectos, um eterno estranho no ninho dos grão-tucanos - de perfil orgulhosamente modesto, à direita em questões de comportamento e mais pragmático como administrador. Analista-chefe da plataforma Jota em São Paulo, Zambeli aposta que, na campanha, Geraldo Alckmin cumprirá missões pontuais, em áreas onde transita bem, como o agronegócio. “Ele sabe que não faz sentido disputar espaço com quem está encabeçando a chapa e tem os votos", resume. Mesma lógica em caso de vitória, avalia o jornalista, lembrando que Alckmin foi um vice 100% leal a Mario Covas no governo paulista: “Lula já disse a pessoas próximas que confia nele nesse sentido”.

Mar 23, 202225 min

Ep 669Rússia x Ucrânia: guerra de exaustão

Quando o conflito começou, em 24 de fevereiro, muitos imaginavam uma “conquista rápida”, típica de situações nas quais há “grande assimetria de poderio militar”, lembra Oliver Stuenkel. Quase um mês depois, assistimos a uma “guerra de atrito”, ou “de exaustão”, na qual o exército invasor avança pela lenta asfixia do adversário e à custa de extrema violência, inclusive contra civis. Na conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais da FGV resgata a história desse tipo de enfrentamento, que remonta à 1ª Guerra Mundial. E diz que o mais trágico exemplo dele, no momento, é Mariupol, onde centenas de milhares de pessoas permanecem sitiadas, há 3 semanas, progressivamente privadas de água, comida e energia elétrica. Mesmo depois de reduzir a cidade portuária a escombros, os russos viram negado, nesta segunda-feira, seu ultimato para que o governo ucraniano entregasse Mariupol. Um impasse alimentado por um paradoxo, explica Stuenkel: as cenas de horror tendem a alavancar a ajuda externa à Ucrânia e, portanto, sua capacidade de resistir, mais um sinal de que a guerra está longe do fim.

Mar 22, 202223 min

Ep 668Arte e guerra: de Tolstói à Ucrânia

Afastamentos voluntários e compulsórios. Apresentações suspensas. Obras e autores cancelados. Tudo isso se vê em resposta à invasão, num boicote tão ou mais global que o das sanções econômicas, capaz de descartar inclusive artistas que, em seu tempo, foram perseguidos exatamente por se opor ao autoritarismo e a aventuras militares. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe o jornalista e tradutor Irineu Franco Perpétuo, autor de “Como Ler os Russos” (Todavia), para entender o que se perde com esse movimento. Ele começa por falar de Liev Tolstói, o pacifista que escreveu “Guerra e Paz” e “Contos de Sebastopol” - este baseado em sua experiência na Guerra da Crimeia (1853-1856). Ainda nos clássicos, trata de nomes que por si só representam o entrelaçamento histórico dos países agora em conflito - como Gogol, nascido no que foi o Império Russo e hoje é uma cidade ucraniana. Nesse sentido, Irineu aponta como especialmente emblemático o caso da Nobel de Literatura em 2015 Svetlana Alexijevich, cidadã bielorrussa nascida na Ucrânia e que escreve em russo (“Vozes de Tchernóbil” e “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, entre outros). Música e cinema também fazem parte desta conversa sobre o lugar da arte em tempos de guerra.

Mar 21, 202225 min

Ep 667O que poderia parar a guerra

Enquanto o mundo assiste à tragédia humanitária em cidades ucranianas, sinais contraditórios emergem da mesa de negociação que reúne representantes de Kiev e de Moscou. Organismos multilaterais protestam contra ataques a alvos civis em termos cada vez mais duros. As palavras, porém, não têm surtido efeito. Para entender o que poderia interromper a destruição, Renata Lo Prete conversa com o historiador, diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero, que recomenda tomar com cautela as declarações de autoridades participantes desses encontros. “Em geral, a negociação só evolui quando os dois lados têm mais a perder do que a ganhar com a continuidade do conflito”, diz Ricupero, que foi embaixador do Brasil em Washington. Ainda não é o caso da Rússia, diz ele, muito superior ao oponente em termos militares. Mas pode vir a ser, completa, porque a guerra custa caro, e vai se revelando mais longa e difícil do que imaginava o Kremlin. Na entrevista, Ricupero enumera os principais pontos que, em seu entender, eventualmente conseguiriam balizar um cessar-fogo - da “neutralidade” à aceitação de perda de território por parte dos ucranianos. Não descarta, porém, que a Rússia aceite um acordo apenas para ganhar tempo e mobilizar mais tropas. Estabelecendo comparações com outras guerras, ele afirma que, desta vez, Putin involuntariamente fortaleceu os laços da Otan, desencadeou o rearmamento europeu e “reativou como nunca o sentimento nacional dos ucranianos”.

Mar 18, 202228 min

Ep 666Bolsonaro: sinais de recuperação eleitoral

Depois de longo período de desgaste, o presidente da República retoma fôlego em pesquisas sobre o pleito de outubro. Embora continue ampla, a distância que o separa do primeiro colocado, Luiz Inácio Lula da Silva, diminuiu um pouco, movimento que analistas atribuem a pelo menos dois fatores: população com menos medo da pandemia (ainda um dos quesitos de maior desaprovação a Bolsonaro) e iniciativas do governo de impacto direto para os mais pobres, notadamente o Auxílio Brasil. Neste episódio do podcast, Renata Lo Prete conversa com o cientista político Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Ipespe e professor-colaborador da Universidade Federal de Pernambuco. Ele avalia as chances de consolidação dessa curva ascendente, considerando as incógnitas no front que, a seu ver, será determinante na disputa de 2022: o da economia, que, com a guerra na Ucrânia, ficou ainda mais vulnerável. Para Lavareda, o novo status de Bolsonaro estreita bastante o caminho que poderia levar algum nome da chamada “terceira via” a tomar-lhe o lugar no segundo turno. É esse ponto do calendário que o presidente já mira, tentando vitaminar o antipetismo, do qual foi o grande beneficiário em 2018. Missão complexa, prevê Lavareda: “Esta eleição será necessariamente sobre o governo dele”.

Mar 17, 202222 min

Ep 6653ª Guerra: do que estamos falando

Poucos dias depois de Joe Biden reafirmar que um eventual ataque a país integrante da Otan terá resposta defensiva, os russos bombardearam uma base militar ucraniana a apenas 25 km da fronteira com a Polônia - que integra a aliança. A proximidade entre os dois eventos, somada à escassez de progressos no campo diplomático, faz crescer o alerta em torno da possibilidade de o conflito na Ucrânia ganhar dimensão planetária. Um cenário que o professor de Relações Internacionais Tanguy Baghdadi considera improvável, porque indesejado por ambos os lados e também pelo potencial destruidor, que transformaria as duas primeiras Guerras Mundiais em mero “ensaio". Ele reconhece, porém, que alguns elementos característicos de um conflito global - como envolvimento, em algum grau, de todas as potências - estão presentes na atual conjuntura. E que a situação pode sair de controle. Direto de Lviv, o jornalista Lucas Ferraz explica a posição estratégica da cidade e da região onde ela fica: “O oeste ucraniano é a porta de saída dos refugiados e a porta de entrada de ajuda humanitária e equipamentos militares”. A única que restou: as fronteiras norte, leste e sul do país já estão quase que inteiramente sob domínio russo.

Mar 16, 202231 min

Ep 664Pandemia: por que ainda não acabou

Em março de 2020, a OMS conferiu à doença provocada pelo então “novo” coronavírus o status que ela tem até hoje. O mundo acumula mais de 6 milhões de mortes e quase 500 milhões de casos conhecidos de Covid, mas a curva descendente dos indicadores no Brasil, depois do arrastão produzido pela variante ômicron, faz com que muita gente desconsidere duas realidades. Primeiro, a de que ainda morrem, em média, mais de 400 pessoas por dia da doença no país. Segundo, a escalada de contágio que se vê no momento em regiões da Europa e da Ásia - sobretudo na China. A esta altura, está claro que “o vírus vai ficar entre nós”, afirma a epidemiologista Ethel Maciel, e que precisamos agir para “reduzir os danos”. Em entrevista a Renata Lo Prete, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo aponta as principais omissões do governo brasileiro nessa tarefa: ausência, até hoje, de um programa consistente de testagem e falta de medicamentos eficazes contra a Covid (e já aprovados pela Anvisa) no SUS. Fora a “intensa campanha de desinformação”, liderada pelo presidente e pelo ministro da Saúde, contra a vacina pediátrica. Tudo somado, e derrubada a maioria das medidas de restrição, resta ao brasileiro analisar por si “como se comportar”. No caso específico das máscaras, Ethel recomenda usar em pelo menos 3 situações, mesmo sem a obrigatoriedade: ambientes pouco ventilados, aglomerações e na presença de pessoas pertencentes a um dos grupos de maior vulnerabilidade.

Mar 15, 202224 min

Ep 663Rússia: o fechamento do regime

Enquanto proliferam imagens da destruição na Ucrânia, está cada vez mais difícil obter informações confiáveis sobre o que acontece no país invasor. Em paralelo à ofensiva militar, o Kremlin acelerou o processo de silenciamento da imprensa independente, transformou os veículos oficiais em máquinas de propaganda e obteve do Congresso uma nova lei de censura, que permite encarcerar alguém simplesmente por chamar a guerra pelo verdadeiro nome, e não de “operação especial”. Quem protesta enfrenta a mão pesada das forças de segurança, que têm prendido até idosos e crianças em manifestações. “Regimes autoritários se sustentam em três pilares”, lembra Vicente Ferraro, mestre em ciência política pela Escola Superior de Economia de Moscou: ideologia (desumanização do adversário e união contra suposta ameaça externa, por exemplo), repressão e sensação de bem-estar material por parte da população. O professor da USP explica que os dois primeiros elementos estão presentes na conjuntura russa — e podem trazer ganhos de popularidade a Vladimir Putin, como já ocorreu na esteira de outras aventuras bélicas sob seu comando. Mas a prosperidade do início dos anos 2000, época do conflito na Chechênia, não existe agora. A Rússia é o país mais sancionado do mundo, e a população já começa a pagar por isso. Na avaliação de Vicente, é cedo para saber se a Rússia migrará da autocracia para o totalitarismo puro e simples. “Há um um esforço do governo para obter controle total da sociedade, mas ele ainda não tem capacidade de exercê-lo plenamente”.

Mar 14, 202224 min

Ep 662Chile: a largada do governo Boric

Foram quase três meses desde a vitória nas urnas. De lá até a posse, nesta sexta-feira, o ex-líder estudantil Gabriel Boric colecionou ineditismos, começando pela própria idade. Com 36 anos, é o mais jovem ocupante do Palácio de La Moneda - e o primeiro sem origem em nenhum dos dois grupos políticos que se revezaram no poder desde o fim da ditadura militar, em 1990. Montou um ministério diverso, de maioria feminina e ampla troca de guarda geracional. “É uma novidade bastante grande para a região, o que cria expectativa”, sintetiza Claudia Antunes, editora de Mundo do Jornal O Globo. Na conversa com Renata Lo Prete, ela analisa também a decisão de indicar, para o comando da economia, o presidente do Banco Central do agora ex-governo de Sebastián Piñera. Um movimento de composição de forças e aceno ao mercado, diz a jornalista, que deve ser entendido à luz de duas circunstâncias deste início de mandato: falta de maioria no Congresso e uma Assembleia Constituinte ainda em curso. É nesse ambiente volátil que Boric terá que atender, como ele próprio admite, “pelo menos parte” das demandas por mais serviços públicos e menos desigualdade social que o levaram à Presidência.

Mar 11, 202220 min

Ep 661X-Tudo: projeto para liberar geral em terras indígenas

O apelido vem do amplo espectro do texto enviado pelo governo Bolsonaro ao Congresso. Além de garimpo, autoriza construção de hidrelétricas, exploração de petróleo e até cultivo de transgênicos. “É a pior” de quase duas dezenas de propostas apresentadas para regulamentar a mineração nessas áreas desde que entrou em vigor a atual Constituição, em 1988. A avaliação é de Marcio Santilli, que foi deputado constituinte, presidente da Funai e um dos fundadores do Instituto Socioambiental. “Uma aberração”, continua ele, patrocinada pelo Palácio do Planalto com apoio engajado do comando da Câmara - nesta quarta-feira, a Casa aprovou urgência para levar o PL 191 a votação. Se for aprovado, vai parar no Supremo, aposta Marcio, tão flagrantes são suas inconstitucionalidades. E isso reforçará o ambiente de insegurança jurídica, benéfico apenas à “garimpagem predatória”, que “já vem barbarizando” essas terras há muito tempo e ao arrepio da lei. Para Alessandra Munduruku, primeira mulher a presidir a Associação Pariri, que representa aldeias do médio Tapajós, trata-se de “um projeto de morte”, ao qual ela promete resistir: “Jamais vou me ajoelhar diante de quem quer destruir meu povo”.

Mar 10, 202228 min

Ep 660Deu a louca nas commodities

O anúncio do boicote dos EUA a petróleo e gás da Rússia é o novo motor de uma escalada de preços que começou ainda antes da invasão à Ucrânia e já levou o barril a quase US$ 140, recorde em 14 anos. Um movimento em linha com “a narrativa” da Casa Branca em resposta à guerra, mas de efeito interno limitado, já que os americanos compram menos de 10% de seus estoques dos russos. Quem pondera é a professora da FGV Fernanda Delgado, observando que países europeus, mais dependentes de Moscou nessa matéria, optaram até aqui por outras sanções. Em entrevista a Renata Lo Prete, a diretora-executiva do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) analisa o esforço diplomático dos EUA para encontrar alternativa inclusive com desafetos, como Venezuela e Irã, além de tentar convencer a Arábia Saudita a aumentar sua produção. E opina que a crise atual pode acabar atrasando a tão desejada transição para energia limpa. “O investimento de longo prazo seguirá com essa preocupação, mas, no momento, segurança é mais importante do que transição ou preço”, diz ela, que prevê aumento da demanda por carvão, por exemplo. Participa também Lucilio Alves, professor da Faculdade de Agricultura da USP, para tratar de outras commodities em disparada, em especial trigo e milho. Juntas, Rússia e Ucrânia responderam por 30% e 18%, respectivamente, das transações globais desses dois produtos nos últimos cinco anos. Enquanto países “buscam outros fornecedores”, a inflação dos alimentos seguirá pressionada, ele afirma, lembrando que o Brasil depende da importação do trigo.

Mar 9, 202225 min

Ep 659Crimes de guerra: violações da Rússia

Imagens de ataques a alvos civis e de áreas residenciais alvejadas na Ucrânia correm o mundo. É o caso do vídeo, feito por uma equipe do jornal The New York Times, do momento em que uma mãe e seus dois filhos são mortos por um explosivo quando tentavam fugir do cerco russo a Irpin, cidade próxima à capital, Kiev. É uma “guerra em tempo real”, afirma Flavia Piovesan, ex-secretária nacional de Cidadania e ex-integrante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Ela se refere ao contínuo compartilhamento desses registros, do qual resulta um fenômeno que o jornalista americano Thomas Friedman chama de “globalização do repúdio moral” à invasão. Em entrevista a Renata Lo Prete, ela lembra que mesmo conflitos armados precisam respeitar “limites éticos e jurídicos”. Aperfeiçoado desde o fim da Primeira Guerra Mundial, esse regramento está hoje inscrito no Estatuto de Roma, assinado em 1998, e os casos afeitos a ele são analisados pelo Tribunal Penal Internacional. No entender da professora da PUC-SP, o que está acontecendo na Ucrânia dá margem a investigação e processo por crimes de guerra, contra a humanidade e de genocídio. Ela reconhece que não será simples fazer Vladimir Putin se curvar ao TPI, mas defende a importância de a comunidade internacional perseguir esse objetivo: “Para que não sejam punidos apenas os executores, mas os arquitetos da destruição”.

Mar 8, 202223 min

Ep 658Guerra na Ucrânia: oligarcas na mira

Alexei Mordashov, Alisher Usmanov, Igor Sechin. São alguns dos homens que construíram imensas fortunas privadas a partir dos escombros do Estado soviético, no início dos anos 90. Um “processo obscuro”, resume o jornalista Jaime Spitzcovsky, azeitado por laços estreitos com o governo russo, que lhes permitiu dominar setores como energia, mineração, telecomunicações e finanças. Na conversa com Renata Lo Prete, o ex-correspondente em Moscou, hoje colunista da Folha de S.Paulo, explica a origem, as relações e como essa elite foi enquadrada internamente. “Desde o início, o projeto do Putin é claro: restaurar o poder do Kremlin”, corroído nos anos de Mikhail Gorbatchov e Boris Yeltsin. Agora, com sanções que vão do congelamento de fundos ao sequestro de alguns dos apartamentos e iates mais valiosos do mundo, os EUA e seus aliados pretendem indispor esses bilionários com Moscou. Ainda é cedo, avalia Jaime, para saber se vai funcionar. “O que já dá para dizer é que a vida deles vai ficar bem menos confortável”, ironiza. Participa também do episódio Rodrigo Capelo, jornalista do ge e do Sportv. Especializado na cobertura de negócios do esporte, ele analisa a ascensão dos oligarcas russos no futebol e, em particular, a trajetória de Roman Abramovich, que na esteira das sanções anunciou a decisão de vender o Chelsea, clube inglês que comprou em 2003.

Mar 7, 202223 min