
O Assunto
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Ep 799Voto útil: em que medida ele pode influir
A menos de duas semanas da votação, as pesquisas permitem a Lula (PT) sonhar com a possibilidade de liquidar a disputa com Jair Bolsonaro (PL) no 1º turno - no Datafolha e no Ipec mais recentes, o ex-presidente tem, respectivamente, 48% e 52% pelo critério de votos válidos, que exclui brancos e nulos (para vencer na etapa inicial, é preciso obter nas urnas 50% dos válidos e mais um). Nesse cenário, muito se especula sobre o papel do chamado voto “útil” ou “estratégico”, aquele em que o eleitor “rejeita tanto um candidato” a ponto de votar principalmente para derrotá-lo - ainda que, no processo, abandone seu postulante favorito, define Mauro Paulino, comentarista da GloboNews. Em conversa com Renata Lo Prete, ele avalia as chances de eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) migrarem para o petista nesta reta final. É possível, afirma o sociólogo. Ele alerta, porém, para o fato de que muita migração já ocorreu, e as taxas de convicção estão elevadas, restando pouca margem para “surpresas”. Paulino recomenda prestar atenção, em 2 de outubro, à taxa de abstenção, “que pode aumentar devido às ameaças de violência”. Tal hipótese, segundo ele, tenderia a prejudicar o candidato do PT: historicamente, são os mais pobres (entre os quais a liderança de Lula é absoluta) que mais se abstêm.

Ep 798Orçamento Secreto, o bolsa-reeleição
Dos 513 integrantes da Câmara, 87% tentarão renovar o mandato, percentual recorde que coincide com um Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões, triplo do valor disponível em 2018. Deputados e senadores ganharam "uma série de instrumentos” para disputar em melhores condições, avalia Antônio Augusto de Queiroz, ex-diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) e colunista do site Congresso em Foco. Em conversa com Renata Lo Prete, ele analisa também a mudança de ventos: “criminalização da política" quatro anos atrás, Centrão no comando agora. Também participa deste episódio Breno Pires, da revista piauí, um dos repórteres que revelaram, no jornal O Estado de S.Paulo, a existência do Orçamento Secreto. Ele lembra que este supera em muito o Fundo Eleitoral - cerca de R$ 50 bilhões, desde 2020, para as chamadas emendas do relator, que fazem “girar o moinho da reeleição” dos atuais parlamentares. Para Breno, trata-se “do ponto alto do processo de captura do Orçamento”.

Ep 797Voto envergonhado terá peso este ano?
“É quando o eleitor se considera minoria dentro de seu grupo social”, e não fica à vontade para “expressar sua opinião real”, deixando para fazê-lo apenas na urna, define Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria e professor da Universidade Federal de Minas Gerais. Em conversa com Renata Lo Prete, o cientista político afirma que esse fator surpresa ocorreu na eleição de Donald Trump (2016) e também na de Jair Bolsonaro (2018). Este ano, a partir de três estudos, o cientista político conclui que o fenômeno pode acontecer com sinal invertido na disputa presidencial: "o eleitor do Lula tende a não falar sobre seu voto, principalmente quando identifica a presença de um eleitor do Bolsonaro", que seria, em suas palavras, “mais vocal e engajado”. E especifica: "são as mulheres e a população mais pobre que mais sofrem pressão". Num ambiente político conflagrado, no qual um dos lados estimula permanentemente a violência, o medo é o motor do voto envergonhado, acredita Nunes. Ele avalia, porém, que um outro tipo de voto - o estratégico, também conhecido como “útil” - tende a ser ainda decisivo para definir se a disputa acabará ou não em 2 de outubro.

Ep 796Para entender a sucessão em Mato Grosso do Sul
Este colégio de aproximadamente 2 milhões de eleitores, sétimo menor do país, é a base de duas candidatas à Presidência da República: Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil). “Fato histórico” para um Estado implantado há pouco mais de quatro décadas, observa Daniel Miranda, professor da UFMS. Berço também de dois nomes que despontaram na cena nacional em anos recentes e agora buscam a vaga ao Senado: os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura), esta na liderança das pesquisas. “Ela tem amplo arco de alianças e apoio do agronegócio”, afirma o cientista político. Em conversa com Renata Lo Prete, ele explica as características da única disputa equilibrada para o governo entre os Estados da região Centro-Oeste. O ex-ocupante do cargo André Puccinelli (MDB) lidera, acompanhado mais ou menos de perto por um segundo pelotão em que aparecem Marquinhos Trad (PSD), Rose Modesto (União Brasil) e Eduardo Riedel (PSDB). Em patamar um pouco inferior está Capitão Contar (PRTB) -que, assim como Riedel, apresenta-se como candidato de Jair Bolsonaro. Tanto Puccinelli quanto os outros três mais bem colocados representam, segundo Miranda, “o retorno dos profissionais da política”, em inversão da onda antissistema que varreu o país em 2018. Digna de nota também é a ausência da esquerda do quadro de candidaturas competitivas - o PT, que governou o Estado de 1999 a 2006, é inexpressivo agora. Apesar disso, a liderança de Bolsonaro sobre Lula é estreita entre os sul-matogrossenses.

Ep 795Indígenas: assassinatos em série
Apenas na primeira quinzena de setembro, seis representantes das etnias Guajajara, Pataxó e Guarani Kaiowá foram mortos em diferentes pontos do país. Entre eles, dois adolescentes. Intensificada nas últimas semanas, a onda sangrenta começou a se formar bem antes: 2021 teve o maior número de casos de violência contra essas populações dos últimos 9 anos, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário. “Há grande pressa em fazer invasão de terra, desmatamento e garimpo antes da eleição", afirma a antropóloga Lúcia Helena Rangel. Professora da PUC de São Paulo e coordenadora do mais recente relatório do Cimi, ela descreve como invasores “fortemente armados” agem para acuar e amedrontar os povos originários, culminando em “assassinatos brutais”. E relaciona o aumento de invasões - que triplicaram em relação a 2018 - e a omissão do Estado aos ataques criminosos recentes. Participa também Alvair José Nascimento, cacique Pataxó da TI de Barra Velha, no sul da Bahia. É ele quem relata o ataque de pessoas que se aproveitam da ausência de autoridades para atacar as comunidades. “Estamos sujeitos a qualquer momento a sofrer ataque”, diz. Nesta quinta-feira, lideranças de nove etnias se reuniram para denunciar os atos de violência contra os povos originários e marcharam pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Ep 794Bolsonaro: licença para atacar jornalistas
O caso de Vera Magalhães, agredida pelo presidente em um debate e, dias depois, por um apoiador dele em outro, é o mais recente da longa lista. Ofensas dirigidas sobretudo a mulheres e com método: insinuações de cunho sexual e comentários demeritórios a respeito de intelecto ou aparência para “perturbar o debate público”, explica a antropóloga Isabela Kalil, e deixar sem resposta perguntas incômodas, seja sobre as rachadinhas da família, seja sobre a gestão desastrosa da pandemia. Em conversa com Renata Lo Prete, a coordenadora do Observatório da Extrema Direita lembra que Bolsonaro começou a praticar “violência política de gênero” anos antes de mirar repórteres como Patrícia Campos Mello e Miriam Leitão. Em 2014, ele ganhou atenção nacional “exatamente por insultar uma mulher”, a então deputada petista Maria do Rosário - e mais ou menos na mesma época surgiu nas redes sociais a plataforma “Bolsonaro presidente”. Participa também do episódio a advogada Taís Gasparian, especialista em direito civil relacionado à imprensa. Ela destaca que a tentativa de cercear a atividade jornalística por meio de intimidação “é uma forma de censura”, e que, ao praticá-la, Bolsonaro “dá uma espécie de salvo-conduto” para que aliados como o deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos-SP), agressor de Vera, façam o mesmo.

Ep 793Guerra: contraofensiva da Ucrânia
Na última semana, as Forças Armadas do país retomaram dos russos cerca de 6 mil quilômetros quadrados de território na província onde fica a importante cidade de Kharkiv. Um triunfo como não se via desde abril, quando o exército invasor foi obrigado a desistir do cerco à capital, Kiev. "A ajuda que os EUA vêm fornecendo à Ucrânia, por meio de artilharia de médio alcance e inteligência, é chave para entender essa vitória", afirma Felipe Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor avalia que dois objetivos foram cumpridos. Primeiro, “convencer o Ocidente de que a ajuda é fundamental e precisa continuar". E também “evitar que a Rússia faça plebiscitos em áreas ocupadas no leste, o que poderia legitimar a presença de suas tropas”. Em Moscou, a recuperação ucraniana faz crescer diferentes pressões internas sobre Vladmir Putin, inclusive de setores ultranacionalistas que defendem intensificar o conflito iniciado em fevereiro. Para Loureiro, o cenário mais provável ainda é o de uma guerra que siga se arrastando, mas agora em uma “terceira fase”. Nela, avalia, estará com os ucranianos “a iniciativa de decidir onde o confronto se dará".

Ep 792PEC 275: como ela muda o Supremo
No 7 de Setembro transformado em comício, Jair Bolsonaro pediu “uma reeleição” para trazer às “quatro linhas” (nas quais jamais se enquadrou) “todos aqueles que ousam ficar fora delas”. Recado nada velado ao tribunal que, em várias ocasiões, conteve o ímpeto autoritário do chefe do Executivo. Nos quatro anos de mandato, várias ideias para inchar o STF, reduzir suas atribuições e facilitar a indicação de amigos foram colocadas para circular. A do momento resgata uma proposta de emenda à Constituição apresentada em 2013, que prevê elevar de 11 para 15 o número de ministros, delegando ao presidente do Senado a tarefa de indicar os 4 novos. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista Felipe Recondo aponta o casuísmo da iniciativa patrocinada por Bolsonaro e parte do Congresso. “Desde que o Supremo foi criado, em 1891, a forma de indicação é a mesma. Qual a justificativa para essa mudança?" Ele mesmo responde: “É uma tentativa de ingerência”, levada a cabo, com diferentes desenhos, em países onde a democracia foi solapada, como Venezuela e Hungria. Sócio-fundador da plataforma Jota e autor de dois livros sobre a Corte, Recondo lembra quem pela última vez aumentou o número de ministros e quando isso aconteceu: foi o presidente Castelo Branco, na ditadura militar (1965).

Ep 791Para entender a sucessão na Bahia
No Estado em que o PT venceu as últimas quatro disputas no primeiro turno, pesquisas apontam alta chance de mudança este ano. E desenham um quadro diferente da polarização nacional: lá, quem lidera por ampla margem (56% no Ipec mais recente) é o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), que nunca esteve ao lado de Lula nem está com Jair Bolsonaro (PL). "Se as urnas confirmarem isso, a Bahia pode se tornar um laboratório da terceira via", diz o cientista político Paulo Fabio Dantas, referindo-se ao campo que tentou viabilizar uma alternativa às duas candidaturas protagonistas da corrida ao Planalto. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor da UFBA analisa a “grande diferença de contexto” que separa as atuações de Neto e do avô, o ex-governador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007). Paulo Fábio aponta desgaste após 16 anos no poder e fragilidades de Jerônimo Rodrigues (13%), o ex-secretário da Educação escolhido para representar o PT na disputa, como fatores que ajudam a explicar por que o partido está ameaçado de perder seu principal reduto, apesar da dominância de Lula no Estado. A entrevista trata ainda dos papéis do distante terceiro colocado, João Roma (PL), hoje com 7%, lançado para dar palanque a Bolsonaro, e do MDB de Geddel Vieira Lima, que indicou o vice da chapa petista.

Ep 790Elizabeth II, a rainha e seu tempo
Em sete décadas de reinado, o mais longo da história britânica, ela testemunhou mais de 30 guerras e lidou com 7 papas, 14 presidentes americanos e 15 primeiros-ministros de seu país. Coroada pouco depois da morte de Josef Stalin, assistiu, décadas depois, ao fim da União Soviética, à queda do Muro de Berlim e à saída do Reino Unido do bloco europeu. Em conversa com Renata Lo Prete, a jornalista Barbara Gancia analisa a trajetória e o legado da monarca, que morreu nesta quinta-feira, aos 96 anos, no castelo de Balmoral, na Escócia. “É o fim de uma era”, diz. Barbara fala da figura de Elisabeth como símbolo de estabilidade em meio a revoluções e mudanças de toda espécie e de sua "humildade em servir a uma causa maior”. Discute as seguidas crises da família real e as perspectivas para o reinado de Charles III.

Ep 789A cartada de Bolsonaro no 7 de Setembro
Com dois discursos, o primeiro em Brasília e o segundo no Rio de Janeiro, o presidente fez das comemorações dos 200 anos da separação do Brasil de Portugal um grande comício, bancado com dinheiro público. "Não se ouviu nem a palavra 'bicentenário', nem independência'", atenta a jornalista Maria Cristina Fernandes. Em conversa com Renata Lo Prete, a colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN avalia que, tendo passado impune pelo discurso golpista de 2021, Bolsonaro voltou a afrontar o Judiciário, desta vez "ainda mais do que se tivesse xingado". Ao mesmo tempo, a ausência de chefes de outros Poderes no desfile militar em Brasília "revela um presidente acuado" por um eleitorado que dá vantagem expressiva a Lula (PT) nas pesquisas a menos de um mês do primeiro turno. Os gritos autocongratulatórios de seu suposto desempenho sexual, analisa Maria Cristina, afastam Bolsonaro de um grande “contingente de votos de mulheres” e sinalizam que ele "coloca a virilidade em primeiro lugar e o Brasil em segundo". A adesão foi grande nessas duas praças e também em São Paulo, mas ao candidato resta o desafio de reduzir a vantagem de seu adversário até 2 de outubro. O 7 de Setembro, analisa a jornalista, ficará marcado como mais uma etapa de uma campanha para aumentar as abstenções: "O objetivo é gerar medo, especialmente de insegurança nas ruas".

Ep 788A Independência para além da Corte
“Até os anos 50, a história da Independência foi contada do ponto vista do Rio de Janeiro", diz o historiador Evaldo Cabral de Mello. Ele é autor do livro "A Outra Independência", que trata das movimentações políticas entre a Revolução Pernambucana, em 1817, e a Confederação do Equador, em 1824. A resistência na província contra o projeto centralizador da Casa Real é o ponto de partida deste episódio com Renata Lo Prete. De acordo com o integrante da Academia Brasileira de Letras, a emancipação brasileira foi composta por "dois golpes de Estado dados por dom Pedro I": o primeiro contra Portugal, celebrado no 7 de setembro, e o segundo na dissolução da Assembleia Constituinte, em 1823. Para Evaldo, boa parte das dificuldades na administração do Brasil vêm de seu tamanho: "Portugal nunca deveria ter violado o Tratado de Tordesilhas". E de uma chaga essencial: a ausência de políticas de inserção social para aos negros recém-libertos após o 13 de maio de 1888. "O Brasil foi definitivamente comprometido pela escravidão", afirma.

Ep 787O agosto incendiário na Amazônia
Abrindo a pior fase da temporada seca, o mês não registrava número tão alto havia mais de uma década: 33 mil focos de incêndio, muitas deles na divisa ente os Estados do Amazonas e de Rondônia. O repórter Alexandre Hisayasu, da TV Amazônica, afiliada da Globo, foi até lá e registrou “vários flagrantes de desmatamento”. Em conversa com Renata Lo Prete, ele relata o que viu: pelo alto, “áreas imensas destruídas, consumidas pelas chamas”; por terra, “na beira da rodovia, inúmeras queimadas”. O objetivo, afirma, é abrir caminho para pasto e cultivo de soja. Três anos depois do infame “Dia do Fogo” (superado em destruição no último 22 de agosto), Alexandre conta sua surpresa diante da atividade criminosa exercida “sem qualquer preocupação” por grileiros -comportamento diferente do observado em 2019, quando ainda havia algum “medo dos órgãos de fiscalização”. A geógrafa Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), explica que o “fogo representa a última etapa no processo de desmatamento”. Do total de floresta devastada, mais da metade estava dentro de terras públicas -caso das reservas indígenas, unidades de conservação e florestas públicas não destinadas. E pode ser ainda pior em setembro: “se o clima estivesse mais seco, seria um inferno”.

Ep 786Por que o voto feminino será decisivo
No Datafolha recém-divulgado, Lula (PT) aparece com 13 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PL). Entre os homens, ela cai para 6 pontos. Já entre as mulheres, que representam 53% do eleitorado, sobe para 20. “Olhando os dados desde 1989, nunca antes observamos uma discrepância de gênero como esta", afirma Maurício Moura, à frente do instituto Ideia. Na conversa com Renata Lo Prete, ele enumera motivos que ajudam a explicar a preocupação das campanhas com esse público, começando pelo percentual de indecisas na pesquisa espontânea, maior que o de homens na mesma situação. No caso específico de Bolsonaro, o professor da Universidade George Washington destaca a perda de eleitoras, sobretudo da classe C, que apoiaram o candidato em 2018 e agora resistem a reconduzi-lo. Para Moura, esse segmento, guiado essencialmente por fatores econômicos, tem tudo para ser o fiel da balança em outubro.

Ep 785Família Bolsonaro: opção pelo dinheiro vivo
Desde 2018, acumulam-se indícios de “rachadinha” nos gabinetes parlamentares do clã e da possível relação dessa prática com negócios envolvendo filhos, ex-mulheres e o próprio presidente. Agora, reportagem publicada pelo UOL dimensiona outro traço comum a esses personagens: o gosto pelas transações em espécie. Foram 51 imóveis comprados por eles total ou parcialmente assim desde 1990, de um total de 107 examinados pelo portal. Estudioso do uso do mercado imobiliário para lavagem de dinheiro, o pesquisador Fabiano Angélico, da Universidade de Lugano (Suíça), observa: “São várias evidências de que houve geração de recurso ilícito onde se percebia circulação de dinheiro em espécie”. Ou seja, a partir do recolhimento de boa parte dos salários dos funcionários, muitos deles fantasmas. “Isso forma um conjunto indiciário muito forte”. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com a jornalista Malu Gaspar, que relembra as encrencas da família desde a descoberta, ainda antes da posse de Jair Bolsonaro no Planalto, do papel do ex-assessor Fabrício Queiroz no esquema. A colunista do jornal “O Globo” analisa o desmonte do “aparato de combate à corrupção" em anos recentes e a “blindagem” judicial que conteve investigações, especialmente contra o senador Flavio Bolsonaro. Ela vê baixo potencial de impacto das novas revelações na campanha eleitoral, seja pelo elevado percentual de consolidação do voto, seja porque o presidente-candidato agora diz não ver problema nenhum no farto uso de dinheiro vivo para adquirir patrimônio, o que em 2018 ele condenava com veemência.

Ep 784Paralisia infantil: queda livre da vacinação
O Brasil registrou um caso de poliomielite pela última vez em 1989. Porém, desde 2015 a cobertura vacinal vem caindo, fechando o ano passado em apenas 67%. E a adesão à campanha nacional em curso ainda é muito baixa. Em conversa com Renata Lo Prete, o infectologista Marco Aurélio Sáfadi destaca a importância de recuperar “o número mágico” de 95% na faixa etária de 0 a 5 anos. Só ele pode garantir que, mesmo diante de um ou outro caso vindo de fora, o vírus não encontre “condições para circular" no país. Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Sáfadi lembra que a paralisia, especialmente dos membros inferiores, é o “resultado dramático” verificado nos casos mais graves de polio, doença transmitida pela boca e pelas fezes cujos sintomas incluem febre, mal-estar, vômitos e diarreia. Ele também elenca fatores que ajudam a explicar o tombo da curva de aplicação de uma vacina supereficiente contra uma doença para a qual não existe tratamento. Entre eles, notícias falsas e e falta de comunicação adequada por parte das autoridades.

Ep 783O desmonte do combate à fome
Na sexta-feira, Jair Bolsonaro (PL) disse que não existe “fome pra valer” no Brasil. Dois dias depois, questionado a respeito por Ciro Gomes (PDT) em debate, o presidente do país que tem 33 milhões de pessoas vivendo nesse desespero recomendou a quem “passa necessidade” se cadastrar para receber os R$ 600 de auxílio do governo federal. Por mais essencial que seja o benefício, ele não basta para reverter um quadro que aflige 125 milhões de brasileiros quando se adota o critério da “insegurança alimentar” (não ter como fazer 3 refeições por dia). Para alcançar esse objetivo, é preciso devolver “centralidade, no Orçamento da União”, a uma série de políticas públicas interligadas de combate à fome, afirma Daniela Frozi, integrante da coordenação executiva da rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio, ela detalha as consequências “desastrosas” de decisões tomadas pelo atual governo, como a extinção do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável), o brutal corte de recursos para o Programa de Aquisição de Alimentos e o recente veto de Bolsonaro ao reajuste para o Programa Nacional de Alimentação Escolar que o Congresso havia aprovado. Daniela, que também é professora do programa de pós-graduação da Fiocruz, destaca sobretudo as consequências para as crianças, “que terão impactos cognitivos e biológicos no futuro”.

Ep 782Para entender a sucessão no Amazonas
Quatro anos atrás, em plena onda antipolítica, o Estado elegeu um ex-apresentador de TV que, em 2020, escapou do impeachment, na esteira de um escândalo de malversação de recursos para o enfrentamento da Covid. Agora, amparado por ampla base de na Assembleia Legislativa, Wilson Lima (União Brasil) busca a reeleição. Segundo a pesquisa Ipec mais recente, tem 30% das intenções de voto, empatado com Amazonino Mendes (Cidadania), veteraníssimo da política local que já ocupou o cargo quatro vezes. Em segundo lugar, com 16%, aparece outro ex-governador, Eduardo Braga (MDB). Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Rosiene Carvalho, colunista de política da BandNews Manaus, para entender a disputa no 15º colégio eleitoral do país, segundo maior da Região Norte. A jornalista recorda dois capítulos dramáticos da pandemia no Amazonas: o da “compra superfraurada de respiradores" e o do colapso no sistema de saúde “na crise da falta de oxigênio”. E mostra que, apesar deles, Lima segue competitivo. Rosiene explica ainda o xadrez dos palanques de Lula (aliado a Braga e líder no Estado) e Bolsonaro (apoiado, até aqui, tanto pelo governador quanto por Amazonino).

Ep 781A desigualdade na recuperação do emprego
A retomada da atividade depois da fase mais crítica da pandemia conseguiu reduzir o desemprego, embora à custa de recorde na informalidade e com a renda média em patamar muito baixo. Um quadro que pressiona sobretudo os 10% mais pobres: “eles não estão conseguindo mais estabelecer uma estratégia de sobrevivência”, afirma Ricardo Paes de Barros, que trabalhou por mais de 30 anos no Ipea pesquisando pobreza, mercado de trabalho e educação. Neste episódio, que marca os 3 anos de O Assunto, o economista é o convidado de Renata Lo Prete. Também professor do Insper, ele descreve a economia do país como “uma locomotiva que vai partir”, mas na qual o “vagão dos pobres não está conectado e vai ficar para trás”. É por isso, argumenta, que o Estado deve focar suas políticas públicas no conjunto de 20 milhões de pessoas com menor renda. Será necessário desfazer o “tremendo desserviço” patrocinado pelo governo federal, que mantém os dados do CadÚnico desatualizados. É a partir dessas informações que mais de 9 mil assistentes sociais podem chegar àqueles que mais precisam e, em conjunto, definir estratégias para seu futuro. “É obrigação da sociedade dar oportunidade e condição”, afirma, para que essas famílias possam “protagonizar a superação da pobreza”.

Ep 780Europa: uma seca que já entrou para a história
O quadro preocupa desde o início de 2022, mas se agravou muito no verão e sobretudo em agosto, com os termômetros nas alturas. Segundo a Comissão Europeia, a seca deste ano pode superar a de 2018, tornando-se a pior no continente em 500 anos. Em conversa com Renata Lo Prete, o correspondente da TV Globo Leonardo Monteiro descreve as imagens apocalípticas de rios como Elba, Reno, Danúbio e Loire, reduzidos a porção ínfima do volume habitual de água. E conta das surpresas descobertas em seus leitos, como restos de navios da 2ª Guerra. Baseado em Lisboa, o jornalista trata ainda do racionamento enfrentado por milhões de europeus e de perdas que vão da safra de diversos grãos à geração de energia. Participa também do episódio Sérgio Henrique Faria, professor no Centro Basco de Mudanças Climáticas e um dos autores do mais recente relatório do IPCC, painel intergovernamental das Nações Unidas sobre o tema. "Os modelos todos indicam a tendência de mais eventos extremos para as próximas décadas", diz o pesquisador.

Ep 779Empresários bolsonaristas na mira da PF
Na manhã desta terça-feira, oito - entre eles o dono da Havan, Luciano Hang - amanheceram com os agentes na porta. A operação, autorizada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, foi motivada pelo vazamento de conversas do grupo de WhatsApp “Empresários & Política”. Nas mensagens, seus participantes falam em dar bônus a funcionários que votarem de acordo com a orientação dos patrões, lançam descrédito sobre as urnas eletrônicas e defendem ruptura da ordem institucional em caso de derrota do presidente. Na investigação, juntada por Moraes ao inquérito das milícias digitais, apura-se “toda uma estrutura que atenta contra a democracia”, resume Camila Bonfim, jornalista da TV Globo em Brasília e apresentadora do Conexão GloboNews. Ela explica que a PF teria identificado “ação de organização criminosa” mais complexa do que o “simples” discurso golpista, com potencial para financiar crimes contra o Estado democrático de direito. Em conversa com Renata Lo Prete, Camila analisa os pedidos de busca e apreensão, de bloqueio de contas e de quebra de sigilo bancário dos empresários. Analisa ainda a situação do procurador-geral da República diante da operação.

Ep 778O coração emprestado e o sequestro do bicentenário
Em 2020 e 2021, Jair Bolsonaro usou a celebração do 7 de setembro para, respectivamente, fazer pouco da pandemia e ameaçar golpe. Neste ano, quando o Brasil comemora 200 anos de sua Independência, o governo acertou com Portugal o empréstimo do coração de d. Pedro I, a ser recebido com honras de chefe de Estado. "Um órgão morto, tomado como relicário", define a historiadora Lilia Schwarcz, co-autora do livro “O sequestro da Independência: Uma História da Construção do Mito do Sete de Setembro”. Em conversa com Renata Lo Prete, a professora da USP alerta para o fato de que "efemérides são momentos eficientes para que sejam construídas histórias de poder”. Para Lilia, trata-se de um rito para que Bolsonaro avance na pauta de um pretenso “golpe na legalidade”, ou seja, uma situação na qual possa “se vincular, no imaginário, à imagem do imperador”. Não seria a primeira vez, explica a historiadora: na comemoração dos 150 anos da Independência, o governo militar importou a ossada de d. Pedro I. Em ambos os momentos, dois disfarces para a “falta de projeto de país”, mas que agora é também “um golpe final no sequestro dos símbolos brasileiros”.

Ep 777Para entender a sucessão no Rio Grande do Sul
O Estado que jamais deu segundo mandato a um governador tem hoje, na liderança das intenções de voto, o vitorioso de 2018, que no final de março deixou o cargo de olho no Palácio do Planalto, mas acabou de volta à disputa pelo Piratini. Eduardo Leite (PSDB) aparece com 32% na mais recente pesquisa Ipec, seguido por Onyx Lorenzoni (PL), com 19%. Outro bolsonarista, Luis Carlos Heinze (PP), registra 6%, tecnicamente empatado com Edegar Pretto (PT), que tem 7%. É cedo, porém, para considerar o quadro definido, avalia a jornalista Kelly Matos, apresentadora da Rádio Gaúcha e do podcast “Descomplica, Kelly”, dada a tradição local de grandes viradas. Na conversa com Renata Lo Prete, ela lembra que tanto Germano Rigotto (MDB), em 2002, quanto Ieda Crusius (PSDB), em 2006, largaram do patamar de um dígito e venceram. Também colunista do jornal Zero Hora, Kelly tenta mensurar o quanto Leite será cobrado pela “traição” ao compromisso, muitas vezes reiterado, de que não concorreria à reeleição. Fala ainda sobre as situações, no Estado, de Lula (ligeiramente à frente) e Bolsonaro (forte sobretudo no interior). “A eleição nacional está muito presente”, afirma.

Ep 776g1 vai entrevistar candidatos ao governo do DF, da BA, MG, PE, RJ e SP
Série começa na segunda-feira, 22 de agosto. Os candidatos mais bem posicionados na pesquisa Ipec de 15 de agosto serão entrevistados ao vivo, por uma hora. Os demais candidatos participarão de entrevistas gravadas com duração de 20 minutos, sem corte, exibidas até o início de setembro. Todas as entrevistas serão publicadas também em formato podcast em g1.com.br e nas plataformas de áudio. Gostou? Compartilha!

Ep 776A exploração eleitoral da fé
A campanha de Jair Bolsonaro (PL) investe pesado num segmento que o apoiou por ampla margem em 2018 e no qual ainda hoje ele tem vantagem de 17 pontos sobre Lula (PT), que lidera por 15 no quadro geral, segundo o novo Datafolha. A principal porta-voz da retórica messiânica é Michelle Bolsonaro: em culto recente, a primeira-dama chegou a dizer que o Palácio do Planalto era “consagrado a demônios” antes da chegada do marido ao poder. “É uma mensagem com apelo a Deus, à ideia de bons contra maus e à questão dos costumes", diz a jornalista Natália Viana, diretora da Agência Pública. Além de incitação à intolerância religiosa, o que eventualmente pode configurar crime. Em conversa com Renata Lo Prete, a autora da newsletter Xeque na Democracia analisa a tentativa de apresentar o chefe do Executivo como “um homem imperfeito, por meio de quem Deus faz sua ação”. Participa também do episódio o cientista político Victor Araújo, estudioso do eleitorado evangélico. Ele analisa recortes regionais de intenção de voto para explicar, pela via da religião, tanto a larga dianteira de Lula no Nordeste quanto a resiliência de Bolsonaro em Estados de expressiva parcela de evangélicos na população, como o Rio de Janeiro. Para o pesquisador na Universidade de Zurique (Suíça), especialmente o subgrupo pentecostal é “mais conservador e se preocupa mais com a dimensão moral do que com a econômica” na hora de decidir o voto.

Ep 774A ameaça nuclear chamada Zaporizhzhia
Logo nos primeiros dias de invasão, a Rússia se apoderou do complexo que responde por 20% do abastecimento de eletricidade na Ucrânia. Meses de silêncio a respeito se passaram até que, em agosto, começaram os bombardeios no entorno da maior usina nuclear da Europa, reacendendo o trauma da explosão, em 1986, de um dos reatores de Chernobyl, desastre que deixou dezenas de milhares de vítimas e espalhou efeitos ambientais pelo continente. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor Vitélio Brustolin, da Universidade Federal Fluminense, destaca o ineditismo do que Vladimir Putin fez em março: “É a primeira vez que uma central nuclear é ocupada e militarizada por uma força invasora”. E diz que o quadro agora pode se revelar ainda mais grave: atacar uma instalação dessas “é crime de guerra”. Daí a troca de acusações entre os governos. Moscou nega responsabilidade, alegando que não teria por que mirar uma usina sob seu controle. Enquanto Kiev sustenta que, “disparando a partir de lá, a Rússia impossibilita revide", explica Brustolin. Para o pesquisador de Harvard, a ONU pouco pode fazer. “É difícil até chegar ali, porque a Rússia impôs várias condições", afirma. Nesta quinta-feira, o secretário-geral, Antonio Guterres, irá à cidade ucraniana de Lviv, mas ainda não existe nada acertado para inspeção independente do local em perigo.

Ep 774Para entender a sucessão em Pernambuco
Entre vários sobrenomes tradicionais da política local, desponta isolado na liderança o de Marília Arraes (Solidariedade), neta de um ex-governador (Miguel Arraes) e prima de outro (Eduardo Campos). “Ela foi a primeira dissidência do grupo” que chegou ao poder em 2007 com Eduardo, explica neste episódio Gerson Camarotti, comentarista da TV Globo e colunista do g1. Enquanto a deputada federal registra 33% na recém-divulgada pesquisa do Ipec, seus principais adversários estão embolados numa faixa que vai dos 11% aos 6%. Aí aparecem, em ordem decrescente, a ex-prefeita de Caruaru Raquel Lyra (PSDB), o ex-prefeito de Jaboatão Anderson Ferreira (PL), o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União Brasil) e o deputado federal Danilo Cabral (PSB) - este último correligionário e candidato do atual governador, Paulo Câmara, em aliança com o PT. Convidado por Renata Lo Prete a analisar a disputa no Estado onde nasceu e iniciou sua trajetória no jornalismo, Camarotti dimensiona o desgaste e as chances de reação dos herdeiros políticos de Campos, morto em acidente de avião quando concorria ao Planalto, em 2014. Numa praça em que Lula (PT) tem hoje mais de 40 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PL), o ex-presidente “é o grande eleitor” e se conduz de maneira pragmática”: formalmente apoia Cabral, mas permite que a ex-petista use seu nome na campanha.

Ep 773Eleições: usos e abusos nas redes sociais
A campanha começa oficialmente nesta terça-feira, mesma data em que o Tribunal Superior Eleitoral troca de comando. Agora sob a presidência do ministro Alexandre de Moraes, o TSE quer se aproveitar da experiência traumática de 2018 para conter a desinformação. Para isso, fechou acordos com diferentes plataformas. Mas, dadas a profusão de conteúdo e a resistência das empresas, o máximo que se consegue é “enxugar gelo”, avalia Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital e professor da USP. Em conversa com Renata Lo Prete, o colunista do jornal O Globo pondera que ataques entre candidatos sempre existiram. A grande novidade é a ofensiva de um deles contra as regras do jogo. “O elemento mais preocupante são os ataques ao sistema eleitoral”, diz. Na disputa entre Lula (PT) e Bolsonaro (PL) nas redes, importa menos o número individual de seguidores e mais o tamanho do exército de influenciadores a serviço de cada um, avalia o pesquisador. Ele também elenca as plataformas que mais preocupam pelo potencial de disseminação de fake news: WhatsApp (dificuldade de rastreamento das mensagens), Facebook (investiu pouco em transparência) e YouTube (comprometimento ainda frágil com a retirada de conteúdo enganoso).

Ep 772Combustíveis em queda no mundo
Pela primeira vez desde fevereiro, quando começou a guerra na Ucrânia, o galão de gasolina ficou abaixo de US$ 4 nos EUA. Reflexo de medidas internas, mas sobretudo do tombo no valor do petróleo no mercado internacional - o barril passou de US$ 120 para menos US$ 100 em questão de semanas. Realidade também na Europa e no Brasil, a inflexão na curva de preços dos derivados tem como pano de fundo “a desaceleração da economia em todo o mundo”, afirma Armando Castelar Pinheiro, pesquisador do FGV-IBRE e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em conversa com Renata Lo Prete, ele analisa o peso da China e de seus gigantescos lockdowns para conter surtos de Covid no quadro de risco de recessão global. E trata do Brasil, onde a equação dos combustíveis passa também, no momento, “pela valorização do real diante do dólar”, além de fatores político-eleitorais. Na semana passada, a Petrobras anunciou novo corte no preço do diesel para as refinarias.

Ep 771Os significados do 11 de agosto
No Largo de São Francisco, milhares de pessoas se reuniram ao redor das arcadas da Faculdade de Direito da USP enquanto, lá dentro, eram lidos dois documentos concebidos em resposta à escalada ofensiva de Jair Bolsonaro contra o sistema eleitoral. Um da Federação das Indústrias de São Paulo e outro - a Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito" - de professores da própria escola. Acompanhando a manifestação in loco, a produtora e roteirista Isabel Seta registrou para este episódio as palavras mais entoadas nas vozes do estudante Igor, de 18 anos, e da aposentada Maria Aparecida, de 81. Todas as capitais e o Distrito Federal organizaram atos para endossar a carta, que já tem mais de 1 milhão de assinaturas. “Caiu o preço para a elite apoiar a democracia”, diz o sociólogo Celso Rocha de Barros sobre a mensagem contida na presença das lideranças tanto da Fiesp quanto da Febraban na cerimônia. “E subiu o preço do golpe”, completa. Convidado de Renata Lo Prete para tirar o saldo deste 11 de agosto, o colunista do jornal Folha de S. Paulo destaca o caráter suprapartidário do evento, que reuniu desde ex-aliados do atual presidente até organizações historicamente ligadas à esquerda. A carta dos juristas vem à luz 45 anos depois de sua versão inspiradora, escrita durante a ditadura. Mas, avalia Celso, os atos desta quinta-feira se assemelham menos aos de 1977 e mais à campanha das Diretas Já, na década seguinte, quando o regime militar estava em seus estertores. Para ele, o sucesso da iniciativa atual mostra a políticos e militares “que estão em dúvida para que lado o vento vai soprar”. “Dar golpe e fracassar não é bom negócio”, conclui.

Ep 770Justiça aperta o cerco contra Trump
A operação realizada por agentes do FBI no endereço do ex-presidente na Flórida joga luz sobre um caso menos comentado que o da invasão do Congresso, porém de maior potencial imediato de dano. O material recolhido em Mar-a-Lago “nem poderia ter deixado a Casa Branca”, diz Guga Chacra, lembrando que, nos EUA, qualquer registro oficial do presidente é considerado bem público e deve permanecer no Arquivo Nacional. Desaparecer com esses documentos pode resultar até em inelegibilidade. Para o comentarista da TV Globo em Nova York, também colunista do jornal O Globo, essa ação inédita dificilmente teria sido autorizada “sem evidência de crime”. Na conversa com Renata Lo Prete, o jornalista recapitula as diferentes apurações em curso contra Donald Trump - em depoimento nesta 4ª feira em Nova York, o ex-presidente invocou a 5ª emenda à Constituição para não responder perguntas sobre suspeitas de fraude em seus negócios privados. Passando da polícia à política, Guga analisa o domínio de Trump sobre o Partido Republicano e o que ameaça rompê-lo. E avalia se o ex-presidente está hoje mais perto da cadeia, do impedimento eleitoral ou de uma nova candidatura à Casa Branca.

Ep 769TSE e militares: freio de arrumação
A Justiça Eleitoral vinha reagindo apenas com esclarecimentos e declarações de princípios aos questionamentos infundados de militares, estimulados por Jair Bolsonaro, às urnas eletrônicas. Mas agora decidiu que isso não basta: flagrado espalhando fake news sobre elas, o coronel Ricardo Sant’Anna foi expulso do grupo formado para verificar a programação das máquinas de votar. Em conversa com Renata Lo Prete, o repórter Marcelo Godoy, do jornal O Estado de S. Paulo, explica que as postagens de Sant’Anna ferem o regulamento disciplinar do Exército, o Estatuto do Militar e portaria do Ministério da Defesa. Para Godoy, que cobre a área há muitos anos, não se trata de caso isolado. “Existe larga contaminação das Forças Armadas pelo bolsonarismo”, diz. O episódio conta ainda com a participação de Marina Dias, autora de reportagem na revista Piauí sobre as providências tomadas pelo TSE para salvaguardar a integridade do processo. “Quanto às sugestões dos militares, a Corte considera que tudo o que poderia ser incorporado já foi”, afirma a jornalista. “As respostas foram dadas, são públicas. Os militares insistem porque isso faz parte do jogo de tentar desacreditar.” Marina também analisa a iminente troca de comando no tribunal - na próxima semana, Fachin será sucedido por Alexandre de Moraes.

Ep 768Eleição: como fica a economia no dia seguinte
A escalada golpista do presidente da República acordou a sociedade civil para o imperativo de defender as instituições e o sistema de votação. Em paralelo, seis especialistas com larga experiência no setor público lançam agora um documento intitulado “Contribuições para um Governo Democrático e Progressista”. Um de seus autores, Bernard Appy, diz a Renata Lo Prete que a perspectiva de um cenário internacional adverso e a fatura da irresponsabilidade eleitoreira da atual gestão desenham um 2023 “muito desafiador”. Lula, observa o ex-número 2 da Fazenda na administração do petista, “errou” ao qualificar como “herança maldita” o legado do tucano Fernando Henrique Cardoso. Maldita, afirma, será a herança deixada por Jair Bolsonaro. Em resposta, Appy e colegas (os também economistas Persio Arida, Marcelo Medeiros e Francisco Gaetani, o cientista político Sergio Fausto e o advogado Carlos Ari Sundfeld) propõem, entre outras medidas, uma “política fiscal de transição” para os próximos 4 anos, que não abandone de todo o teto de gastos, mas permita um excedente (1% do PIB) a ser destinado a políticas de distribuição de renda e investimentos em ciência e proteção ambiental. No capítulo tributário, uma das ênfases é em mudanças “que estimulem a formalização dos trabalhadores”. O diretor do Centro de Cidadania Fiscal também explica por que o documento será entregue a todos os candidatos ao Planalto menos Bolsonaro: “A defesa do Estado democrático de direito é pressuposto básico” da iniciativa.

Ep 767Para entender a sucessão em MG
O atual governador, Romeu Zema (Novo), lidera com folga as pesquisas. Seu único adversário competitivo, Alexandre Kalil (PSD), deixou o segundo mandato como prefeito de Belo Horizonte para concorrer. Ambos sem origem na política tradicional, conhecidos do público e bem-avaliados , eles se enfrentam em um duelo “de caráter local muito forte”, explica o mineiro Bruno Carazza, colunista do jornal Valor Econômico e autor do livro “Dinheiro, Eleições e Poder”. Isso leva, segundo o economista, a uma polarização “de dentro para fora”, ao contrário do que acontece em outros Estados. Zema, que em 2018 surfou a onda bolsonarista, agora procura manter distância da rejeição ao presidente, que se viu obrigado a patrocinar um candidato até aqui inexpressivo (Carlos Viana, do PL) para não ficar sem palanque no segundo maior colégio eleitoral do país. Já Kalil espera contar com a dianteira do aliado Lula no Estado para ao menos levar a disputa com Zema a um segundo turno. Para os dois protagonistas da corrida nacional, há muito em jogo ali: desde a redemocratização, ninguém se elegeu ao Planalto sem vencer em Minas.

Ep 766EXTRA: Jô Soares, gênio de múltiplos talentos
Uma história que se confunde com a da televisão brasileira, na qual ele teve duas grandes “encarnações”: a dos programas humorísticos, dos quais saíram personagens e bordões eternizados na memória do público; e a do apresentador de “talk show” que entrevistava com igual habilidade notáveis e desconhecidos. Mas Jô Soares, morto nesta sexta-feira aos 84 anos, foi muito mais: homem de teatro, tradutor, artista plástico, escritor de sucesso e, em todos os ofícios que abraçou, um eterno curioso. “Quando ele se interessava por um assunto, virava professor”, conta Matinas Suzuki Jr., co-autor do livro de memórias do artista. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio especial, ele relembra marcos e casos curiosos de uma carreira que se estendeu por mais de seis décadas. “Jô tinha uma vida maior que a vida”, afirma o jornalista, diretor de operações da editora Companhia das Letras. “A partida dele é reveladora de um país que perdeu graça, charme e humanidade", conclui. O episódio inclui áudios do jornal O Globo, do programa #Provoca (TV Cultura), do SBT e do canal de Drauzio Varella.

Ep 765A armadilha do consignado com Auxílio Brasil
Em novo capítulo do vale-tudo rumo às urnas, Jair Bolsonaro acaba de sancionar medida provisória que permite comprometer até 40% do benefício com o pagamento dessa modalidade de empréstimo. E sem limite para os juros cobrados. Um combinado explosivo para famílias que mal conseguem se alimentar com os R$ 400 mensais, elevados para R$ 600 somente até o final do ano, alerta Ione Amorim, coordenadora do Programa de Serviços Financeiros do Instituto de Defesa do Consumidor. Para esse segmento, caberiam linhas de crédito emergenciais, “mas com orientação e em outras condições”, afirma a economista. O modelo adotado “atende aos interesses do sistema bancário” em prejuízo dos mais vulneráveis, lançados na espiral de endividamento que assola o país. “O nome disso é estelionato eleitoral”, resume Flávia Oliveira, comentarista da GloboNews e colunista do jornal O Globo e da rádio CBN. Na conversa com Renata Lo Prete, ela enumera várias iniciativas do governo com o mesmo propósito, como as “bondades” temporárias aprovadas na PEC Kamikaze. Sobre a mais recente delas, a jornalista conclui: “A população pobre precisa de assistência social, não de empréstimo”.

Ep 764BR-319, nova fronteira da devastação
Nem metade da rodovia concebida na ditadura militar para ligar os 885 km entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO) saiu do papel. E o que saiu está em péssimas condições, oferecendo todo tipo de perigo aos motoristas. Apesar do custo bilionário, é o único projeto desse porte “que jamais teve estudo de viabilidade econômica”, observa o norte-americano Philip Fearnside, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Abandonado por décadas devido a sua inviabilidade, ele recebeu apoio de Jair Bolsonaro desde o início do mandato, e agora o Ibama emitiu licença prévia para a pavimentação dos 400 km centrais do trajeto, que atravessam ou margeiam terras indígenas e áreas de conservação. Na conversa com Renata Lo Prete, Fearnside alerta para o efeito “catastrófico” que a obra terá sobre um dos últimos grandes maciços verdes da floresta. A simples perspectiva de sua realização fez disparar a grilagem de terras públicas e o desmatamento no entorno, além de estimular o surgimento de estradas secundárias ilegais, em processo conhecido como “espinha de peixe”. O pesquisador, integrante do time que recebeu o Nobel da Paz por estudos feitos com o Painel sobre Mudanças Climáticas da ONU, lembra ainda que está “tudo conectado”, ou seja, as consequências são para o Brasil inteiro e para o mundo.

Ep 763Pelosi em Taiwan, e a tensão entre EUA e China
A visita da presidente da Câmara dos EUA foi a primeira de uma alta autoridade norte-americana em 25 anos. Atitude avaliada como uma provocação, já que Taiwan é considerado território chinês por Pequim. A escalada de tensão é um dos piores momentos da relação desde a separação provocada pela Revolução Chinesa (1949), quando “Taiwan passa a ser uma ilha rebelde”, explica o embaixador aposentado Fausto Godoy. Coordenador do Centro de Estudos das Civilizações da Ásia da ESPM, Godoy analisa em conversa com Natuza Nery que um conflito “não interessa” a nenhuma das partes. Ele, que já morou nas capitais dos dois países, diz que o confronto mancharia a imagem chinesa e seria prejudicial ao governo de Taipei, dependente economicamente de Pequim. Em relação aos EUA, Fausto analisa como a decisão de Pelosi diz muito mais sobre política interna do que externa. “Ela precisa manter a cara do partido Democrata” de olho nas eleições de meio de mandato, quando o partido pode perder maioria no Congresso.

Ep 762Varíola dos macacos: o tamanho da crise
Há cerca de 2 meses, eram 200 casos notificados no mundo, nenhum deles por aqui. Hoje, são mais de 20 mil em 78 países, o que levou a Organização Mundial da Saúde a uma rara declaração de “emergência global". E o Brasil, que está entre os mais atingidos, registrou sua primeira morte. Em entrevista a Renata Lo Prete, a epidemiologista Denise Garrett explica as falhas que permitiram a disseminação de uma doença conhecida em regiões da África desde os anos 70 e para a qual existe vacina. “Não temos visto ações coordenadas de contenção", diz a vice-presidente do Instituto Sabin, que atuou por duas décadas no Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Lá, a burocracia tem atrasado o acesso dos pacientes mais vulneráveis, que sofrem com dores e lesões no corpo, ao antiviral disponível. Enquanto no Brasil o Ministério da Saúde repete condutas que muito nos custaram na pandemia, como demora em adquirir vacinas, pouca atenção à testagem e escassez de campanhas de esclarecimento. “Quando se trata de uma doença infecciosa”, observa Denise, “semanas, dias até, fazem muita diferença”. Embora seja um meio de transmissão recorrente no momento, “esta não é uma doença de homens que fazem sexo com homens”, alerta Denise, lembrando que crianças estão entre os grupos de risco. “O estigma só atrapalha o enfrentamento”.

Ep 761Urna eletrônica: uma história de inclusão
Em 1532, quando ocorreu a primeira eleição de que se tem notícia no Brasil, habitantes de São Vicente (SP) cochichavam para o escrivão os nomes de seus escolhidos para a Câmara Municipal. Desde então, foi um longo caminho até o sistema seguro, eficiente e universal que temos hoje. Em conversa com Renata Lo Prete, o cientista político Marcus André Melo identifica momentos-chave dessa trajetória, como a introdução do voto secreto (1932) e a adoção da cédula oficial (1955). Explica termos reveladores da profusão de fraudes no Império e na República Velha, como “fósforos” (eleitores fantasmas) e “chapa de caixão” (cédula falsa). E analisa a revolução emancipatória promovida pela urna eletrônica, que estreou em 1996. “O Brasil era campeão de voto inválido”, lembra o professor da Universidade Federal de Pernambuco. A taxa, que chegou a superar 40% na eleição para deputado federal em 1990, caiu para cerca de 7% em 2000, e desde então se manteve relativamente estável. Para completar, até hoje não se identificou caso de fraude com a urna eletrônica, e o fim da necessidade de escrever na cédula “encorajou a participação” do eleitor menos instruído. O direito ao voto, que será exercitado mais uma vez em outubro, “ganhou concretude".

Ep 760Origem do coronavírus: novas evidências
Dois estudos recém-publicados na revista “Science” reforçam a hipótese de que um mercado da cidade chinesa de Wuhan foi o marco zero da doença que já matou mais de 6 milhões de pessoas desde o final de 2019. A parte do estabelecimento na qual os cientistas encontraram o SarsCov2 é justamente aquela “onde eram vendidos animais silvestres vivos”, explica o repórter da TV Globo Álvaro Pereira Júnior, indicando a probabilidade de que o vírus tenha mesmo “saltado” de uma dessas espécies para humanos. Diretor de três documentários do Globoplay sobre a pandemia, é ele quem apresenta, neste episódio, as principais conclusões dos dois estudos, além de apontar incógnitas que permanecem. Uma delas é qual teria sido exatamente o animal intermediário. Outra, a “pré-história” da doença: os pesquisadores “sabem o que aconteceu do mercado para frente, mas não do mercado para trás", resume Álvaro. Por isso, embora enfraquecida, ainda não está de todo descartada a possibilidade de “vazamento” do vírus de um laboratório situado a algumas milhas do mercado. Participa também o virologista Gúbio Soares, da Universidade Federal da Bahia, que destaca a elevada habilidade do SarsCov2 para driblar nosso sistema imunológico.

Ep 759Não ao autoritarismo: em 1977 e hoje
Quarenta e cinco anos depois da “Carta aos Brasileiros”, um documento com o mesmo espírito, igualmente nascido na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, reage à erosão de conquistas duramente alcançadas e às investidas golpistas do presidente da República. Para comparar as duas iniciativas e a conjuntura que as produziu, Renata Lo Prete recebe dois signatários da peça que começou a circular nesta terça-feira e já alcançou mais de 160 mil adesões - de empresários, intelectuais, artistas e quase uma dezena de ex-ministros do Supremo. O advogado criminalista José Carlos Dias, que foi ministro da Justiça e atualmente preside a Comissão Arns, fala com a experiência de quem teve papel decisivo na articulação da carta original. Ele a descreve como “um laudo” da ditadura militar, que contribuiu para galvanizar a sociedade civil e expor as arbitrariedades do regime. “Hoje, aos 83 anos, me vejo obrigado a continuar nesta luta", diz, emocionado. Participa também do episódio Conrado Hübner Mendes, professor de Direito Constitucional da USP. Ele destaca a rápida expansão do novo documento para além das fronteiras da comunidade jurídica, o que atribui à gravidade do momento. “A ficha está caindo tarde”, avalia. E “o alarme, soando muito alto”.

Ep 758A Europa cansada da guerra
Na maior economia da região, o chanceler Olaf Scholz avisou que o vertiginoso aumento nos preços da energia será repassado ao consumidor. A dificuldade dos países do bloco até chegar a uma meta (opcional) de redução no consumo de gás natural expõe a falta de consenso sobre como lidar com a Rússia, principal fornecedora, decorridos cinco meses da invasão à Ucrânia. Para analisar esse quadro e as perspectivas do conflito, Renata Lo Prete recebe Tanguy Baghdadi, professor de Relações Internacionais na Universidade Veiga de Almeida e fundador do podcast Petit Journal. “Quando a Alemanha faz um movimento como esse, dá a senha para outros governos admitirem que não estão conseguindo arcar com as consequências da guerra”, ele afirma. Tanguy trata também das incertezas em torno do acordo mediado pela Turquia para liberar os grãos retidos na Ucrânia - um dia depois do anúncio, os russos bombardearam o porto de Odessa.

Ep 757Lula x Bolsonaro: fase pós-convenções
Em contraste com a cerimônia quase protocolar realizada pelo PT três dias antes em São Paulo, o PL promoveu um megaevento no Maracanazinho para formalizar a candidatura do atual presidente da República. Em seu discurso, Jair Bolsonaro mirou claramente três grupos, avalia o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria: “militares, evangélicos e agro”. A aposta no núcleo de sua base de apoiadores tem uma explicação: “a eleição racional é ruim para o presidente”, observa o professor da Universidade Federal de Minas Gerais. “Ele depende de uma que seja emotiva." Na conversa com Renata Lo Prete, Felipe chama a atenção para a peculiaridade da disputa entre um presidente e um ex-ocupante do cargo - primeiro e segundo colocados, respectivamente, em quadro há muito tempo estável. “No fundo, o eleitor vai decidir a quem ele vai dar uma nova chance", diz. Por isso, Felipe explica, “medo, merecimento e rejeição” são sentimentos do eleitorado importantes de monitorar. No entender do cientista político, será preciso esperar até meados de agosto, pelo menos, para mensurar quanto benefício Bolsonaro conseguirá extrair do novo valor do Auxílio Brasil (R$ 600) e de outras medidas que visam conquistar o voto dos mais pobres, hoje predominantemente com Lula.

Ep 756Caso Codevasf: onde e quem ele pega
A descoberta, pela Polícia Federal, de um esquema de lavagem e desvio de dinheiro na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba joga luz sobre pelo menos três questões. Primeiro, mudanças promovidas na estatal sob o governo Bolsonaro para aumentar sua área de atuação e mudar a natureza dos serviços prestados, com ênfase em obras de pavimentação. Depois, o controle que políticos do Centrão passaram a exercer ali. Por fim, a multiplicação de recursos do Orçamento Secreto destinados à companhia. Em conversa com Renata Lo Prete, a jornalista Maria Cristina Fernandes detalha as investigações, no momento voltadas para a empreiteira ConstruService -fraudando processos licitatórios, ela se tornou onipresente em contratos da Codevasf no Maranhão. A repórter especial do Valor Econômico, também comentarista da rádio CBN, observa que o escândalo atinge o principal eixo de sustentação de Jair Bolsonaro: o presidente da Câmara. Arthur Lira (PP-AL), avalia a jornalista, vê comprometida sua capacidade de entregar tudo o que prometeu a aliados na Casa. E de atuar como “mediador de conflito” na mais recente crise armada pelo presidente da República, ao mentir sobre as urnas eletrônicas diante da comunidade internacional.

Ep 755Eleições 2022: segurança dos candidatos
2018 ficou marcado pelo atentado contra aquele que terminou vitorioso na disputa pela Presidência da República. Quatro anos depois, a campanha oficial nem começou, e os casos de violência escalam em frequência e gravidade. No mais recente, um apoiador de Jair Bolsonaro (PL) assassinou o tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu. Agora, com a temporada de convenções partidárias, entra em cena a Polícia Federal, que passa a ser responsável pela proteção dos candidatos ao Planalto. Em conversa com Renata Lo Prete, o diretor-executivo da PF, Sandro Avelar, explica os critérios que pautam a análise de risco usada para definir o tamanho do aparato de cada um - Lula e Bolsonaro são colocados no ponto máximo de uma escala que vai de 1 a 5. O delegado também detalha contingente, equipamentos e recursos disponíveis. Da segunda parte do episódio participa Renato Sergio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, a eleição deste ano “será a mais complexa no que diz respeito à segurança".

Ep 753Como enquadrar o show do Alvorada
Usar a estrutura do governo para fazer campanha antecipada. Mentir sobre as urnas eletrônicas. Tentar impedir o exercício de direitos e a atuação dos Poderes. Incitar as Forças Armadas contra instituições civis. Tudo vedado por dispositivos que vão da Constituição Federal às regras eleitorais, passando pela Lei do Impeachment. Tudo passível de punição - e, no entanto, presente com abundância de indícios no evento para o qual Jair Bolsonaro convocou embaixadores de dezenas de países. Para esclarecer, ponto a ponto, os crimes em que o presidente da República pode ter incorrido e que consequências eles acarretam, O Assunto ouve dois especialistas. “A convocação do aparato estatal para fazer propaganda negativa dos adversários” está caracterizada, avalia Luiz Fernando Pereira, coordenador-geral da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Política. Mais comprometedor, porém, “é o conteúdo da fala” de Bolsonaro. O advogado lembra que vivemos em um “novo ambiente no Brasil a partir do julgamento do caso Francischini” - o deputado estadual que perdeu o mandato e se tornou inelegível por divulgar informações falsas contra o sistema de votação. Para Eloisa Machado, professora de Direito Constitucional da FGV, o país “tem um arcabouço jurídico capaz de dar conta dessas condutas do presidente”. O que se espera, diz ela, é que “as instituições incumbidas de aplicar a lei tenham condições de fazê-lo quando o momento chegar”.

Ep 753A mentira de Bolsonaro vista de fora
A convocação de embaixadores de dezenas de países ao Palácio da Alvorada para ouvir 50 minutos de acusações infundadas às urnas eletrônicas faz crescer, na comunidade internacional, a expectativa de reprise do caso Trump: o presidente brasileiro seria o próximo a contestar a eventual derrota. Com um agravante que não passou despercebido aos presentes: Jair Bolsonaro lançou no evento também a ameaça de sabotar o calendário eleitoral, melando o jogo antes do primeiro turno. Em paralelo à ampla reação interna, a repercussão externa da nova investida golpista foi a pior possível. O presidente segue “um roteiro bastante visível" para outros governantes, diz Oliver Stuenkel. Na percepção deles, uma transição de poder sem incidentes no Brasil é “cada vez mais improvável”. Na conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais da FGV-SP relata o que tem ouvido de diplomatas na Europa e nos EUA - cuja representação em Brasília divulgou, nesta terça, nota na qual afirma que as eleições brasileiras são “exemplo para o mundo”. E discute a incógnita sobre o que farão as Forças Armadas caso Bolsonaro insista em tentar uma ruptura institucional.

Ep 752Os alertas climáticos que vêm do Norte
A violenta onda de calor na Europa já matou mais de mil de pessoas e desalojou em torno de 20 mil, sobretudo devido aos incêndios florestais. Em Portugal, o termômetro alcançou assustadores 47°C. E no Reino Unido os londrinos foram orientados a evitar o metrô. Segundo a autoridade meteorológica do país, “a infraestrutura e o estilo de vida” dos britânicos não estão adaptados à nova realidade climática. Para o pesquisador do Inpe Lincoln Muniz Alves, são eventos extremos cada vez mais frequentes, que antecipam previsões sombrias da ciência sobre o aquecimento do planeta. Em conversa com Renata Lo Prete, ele aponta a longa e destruidora temporada de chuvas deste ano no Brasil como outro sintoma. E fala da urgência em transformar a atitude de cada um -não só de governos e empresas. Participa também do episódio Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima, para tratar do fator EUA. Enquanto a Europa arde, do outro lado do Atlântico o governo de Joe Biden assiste à erosão de seu ambicioso plano verde. Primeiro, foi uma decisão da Suprema Corte. Agora, um revés pesado no Congresso. Tudo somado, tornou-se praticamente impossível o país cumprir a meta de cortar 50% das emissões de gases do efeito estufa até 2030. O jornalista analisa a situação de Biden: “É como entrar em uma guerra na qual, em vez de te equipar, suas forças auxiliares vão tirando o seu capacete, o seu fuzil e o seu uniforme".

Ep 751Para entender a sucessão no Rio
Cinco ex-governadores presos no passado recente. O atual herdou a cadeira do titular da chapa vitoriosa em 2018, alvo de impeachment. Crises agudas na economia e na segurança pública. E um desenho de disputa que espelha a polarização do quadro nacional. No terceiro maior colégio eleitoral do país, o incumbente Cláudio Castro (PL) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSB) estão tecnicamente empatados, segundo o Datafolha mais recente. "O Rio é o berço político de Bolsonaro, das milícias e da mistura entre religião e política no país", contextualiza o jornalista Bernardo Mello Franco. Na conversa com Renata Lo Prete, o colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN analisa as situações de Castro e Freixo. O primeiro tem o apoio de mais de uma dezena de partidos na Assembleia e “a máquina na mão”. O segundo aposta na associação com Lula e no caminho que vem fazendo para “tentar conciliar tudo” e superar “a pecha de radical”. Apesar da distância de ambos para os demais concorrentes, Bernardo não descarta surpresas: "A soma de brancos, nulos e indecisos está em 30%. Se a eleição fosse hoje, o vencedor seria... ninguém".