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O Assunto

O Assunto

1,761 episodes — Page 21 of 36

Ep 757Lula x Bolsonaro: fase pós-convenções

Em contraste com a cerimônia quase protocolar realizada pelo PT três dias antes em São Paulo, o PL promoveu um megaevento no Maracanazinho para formalizar a candidatura do atual presidente da República. Em seu discurso, Jair Bolsonaro mirou claramente três grupos, avalia o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria: “militares, evangélicos e agro”. A aposta no núcleo de sua base de apoiadores tem uma explicação: “a eleição racional é ruim para o presidente”, observa o professor da Universidade Federal de Minas Gerais. “Ele depende de uma que seja emotiva." Na conversa com Renata Lo Prete, Felipe chama a atenção para a peculiaridade da disputa entre um presidente e um ex-ocupante do cargo - primeiro e segundo colocados, respectivamente, em quadro há muito tempo estável. “No fundo, o eleitor vai decidir a quem ele vai dar uma nova chance", diz. Por isso, Felipe explica, “medo, merecimento e rejeição” são sentimentos do eleitorado importantes de monitorar. No entender do cientista político, será preciso esperar até meados de agosto, pelo menos, para mensurar quanto benefício Bolsonaro conseguirá extrair do novo valor do Auxílio Brasil (R$ 600) e de outras medidas que visam conquistar o voto dos mais pobres, hoje predominantemente com Lula.

Jul 26, 202225 min

Ep 756Caso Codevasf: onde e quem ele pega

A descoberta, pela Polícia Federal, de um esquema de lavagem e desvio de dinheiro na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba joga luz sobre pelo menos três questões. Primeiro, mudanças promovidas na estatal sob o governo Bolsonaro para aumentar sua área de atuação e mudar a natureza dos serviços prestados, com ênfase em obras de pavimentação. Depois, o controle que políticos do Centrão passaram a exercer ali. Por fim, a multiplicação de recursos do Orçamento Secreto destinados à companhia. Em conversa com Renata Lo Prete, a jornalista Maria Cristina Fernandes detalha as investigações, no momento voltadas para a empreiteira ConstruService -fraudando processos licitatórios, ela se tornou onipresente em contratos da Codevasf no Maranhão. A repórter especial do Valor Econômico, também comentarista da rádio CBN, observa que o escândalo atinge o principal eixo de sustentação de Jair Bolsonaro: o presidente da Câmara. Arthur Lira (PP-AL), avalia a jornalista, vê comprometida sua capacidade de entregar tudo o que prometeu a aliados na Casa. E de atuar como “mediador de conflito” na mais recente crise armada pelo presidente da República, ao mentir sobre as urnas eletrônicas diante da comunidade internacional.

Jul 25, 202220 min

Ep 755Eleições 2022: segurança dos candidatos

2018 ficou marcado pelo atentado contra aquele que terminou vitorioso na disputa pela Presidência da República. Quatro anos depois, a campanha oficial nem começou, e os casos de violência escalam em frequência e gravidade. No mais recente, um apoiador de Jair Bolsonaro (PL) assassinou o tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu. Agora, com a temporada de convenções partidárias, entra em cena a Polícia Federal, que passa a ser responsável pela proteção dos candidatos ao Planalto. Em conversa com Renata Lo Prete, o diretor-executivo da PF, Sandro Avelar, explica os critérios que pautam a análise de risco usada para definir o tamanho do aparato de cada um - Lula e Bolsonaro são colocados no ponto máximo de uma escala que vai de 1 a 5. O delegado também detalha contingente, equipamentos e recursos disponíveis. Da segunda parte do episódio participa Renato Sergio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, a eleição deste ano “será a mais complexa no que diz respeito à segurança".

Jul 22, 202225 min

Ep 753Como enquadrar o show do Alvorada

Usar a estrutura do governo para fazer campanha antecipada. Mentir sobre as urnas eletrônicas. Tentar impedir o exercício de direitos e a atuação dos Poderes. Incitar as Forças Armadas contra instituições civis. Tudo vedado por dispositivos que vão da Constituição Federal às regras eleitorais, passando pela Lei do Impeachment. Tudo passível de punição - e, no entanto, presente com abundância de indícios no evento para o qual Jair Bolsonaro convocou embaixadores de dezenas de países. Para esclarecer, ponto a ponto, os crimes em que o presidente da República pode ter incorrido e que consequências eles acarretam, O Assunto ouve dois especialistas. “A convocação do aparato estatal para fazer propaganda negativa dos adversários” está caracterizada, avalia Luiz Fernando Pereira, coordenador-geral da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Política. Mais comprometedor, porém, “é o conteúdo da fala” de Bolsonaro. O advogado lembra que vivemos em um “novo ambiente no Brasil a partir do julgamento do caso Francischini” - o deputado estadual que perdeu o mandato e se tornou inelegível por divulgar informações falsas contra o sistema de votação. Para Eloisa Machado, professora de Direito Constitucional da FGV, o país “tem um arcabouço jurídico capaz de dar conta dessas condutas do presidente”. O que se espera, diz ela, é que “as instituições incumbidas de aplicar a lei tenham condições de fazê-lo quando o momento chegar”.

Jul 21, 202224 min

Ep 753A mentira de Bolsonaro vista de fora

A convocação de embaixadores de dezenas de países ao Palácio da Alvorada para ouvir 50 minutos de acusações infundadas às urnas eletrônicas faz crescer, na comunidade internacional, a expectativa de reprise do caso Trump: o presidente brasileiro seria o próximo a contestar a eventual derrota. Com um agravante que não passou despercebido aos presentes: Jair Bolsonaro lançou no evento também a ameaça de sabotar o calendário eleitoral, melando o jogo antes do primeiro turno. Em paralelo à ampla reação interna, a repercussão externa da nova investida golpista foi a pior possível. O presidente segue “um roteiro bastante visível" para outros governantes, diz Oliver Stuenkel. Na percepção deles, uma transição de poder sem incidentes no Brasil é “cada vez mais improvável”. Na conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais da FGV-SP relata o que tem ouvido de diplomatas na Europa e nos EUA - cuja representação em Brasília divulgou, nesta terça, nota na qual afirma que as eleições brasileiras são “exemplo para o mundo”. E discute a incógnita sobre o que farão as Forças Armadas caso Bolsonaro insista em tentar uma ruptura institucional.

Jul 20, 202225 min

Ep 752Os alertas climáticos que vêm do Norte

A violenta onda de calor na Europa já matou mais de mil de pessoas e desalojou em torno de 20 mil, sobretudo devido aos incêndios florestais. Em Portugal, o termômetro alcançou assustadores 47°C. E no Reino Unido os londrinos foram orientados a evitar o metrô. Segundo a autoridade meteorológica do país, “a infraestrutura e o estilo de vida” dos britânicos não estão adaptados à nova realidade climática. Para o pesquisador do Inpe Lincoln Muniz Alves, são eventos extremos cada vez mais frequentes, que antecipam previsões sombrias da ciência sobre o aquecimento do planeta. Em conversa com Renata Lo Prete, ele aponta a longa e destruidora temporada de chuvas deste ano no Brasil como outro sintoma. E fala da urgência em transformar a atitude de cada um -não só de governos e empresas. Participa também do episódio Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima, para tratar do fator EUA. Enquanto a Europa arde, do outro lado do Atlântico o governo de Joe Biden assiste à erosão de seu ambicioso plano verde. Primeiro, foi uma decisão da Suprema Corte. Agora, um revés pesado no Congresso. Tudo somado, tornou-se praticamente impossível o país cumprir a meta de cortar 50% das emissões de gases do efeito estufa até 2030. O jornalista analisa a situação de Biden: “É como entrar em uma guerra na qual, em vez de te equipar, suas forças auxiliares vão tirando o seu capacete, o seu fuzil e o seu uniforme".

Jul 19, 202225 min

Ep 751Para entender a sucessão no Rio

Cinco ex-governadores presos no passado recente. O atual herdou a cadeira do titular da chapa vitoriosa em 2018, alvo de impeachment. Crises agudas na economia e na segurança pública. E um desenho de disputa que espelha a polarização do quadro nacional. No terceiro maior colégio eleitoral do país, o incumbente Cláudio Castro (PL) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSB) estão tecnicamente empatados, segundo o Datafolha mais recente. "O Rio é o berço político de Bolsonaro, das milícias e da mistura entre religião e política no país", contextualiza o jornalista Bernardo Mello Franco. Na conversa com Renata Lo Prete, o colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN analisa as situações de Castro e Freixo. O primeiro tem o apoio de mais de uma dezena de partidos na Assembleia e “a máquina na mão”. O segundo aposta na associação com Lula e no caminho que vem fazendo para “tentar conciliar tudo” e superar “a pecha de radical”. Apesar da distância de ambos para os demais concorrentes, Bernardo não descarta surpresas: "A soma de brancos, nulos e indecisos está em 30%. Se a eleição fosse hoje, o vencedor seria... ninguém".

Jul 18, 202225 min

Ep 750Arthur Lira, senhor dos recursos e do regimento

Herdeiro de um clã político de Alagoas, ele chegou à Câmara em 2011 e começou a ganhar projeção quatro anos depois, na era Eduardo Cunha (MDB). Em 2021, conquistou o comando da Casa em aliança estreita com Jair Bolsonaro - que nunca mais teve de se preocupar com pedidos de impeachment. Além da blindagem do Executivo, marcam a presidência de Lira a consolidação do Orçamento Secreto e o rolo compressor para aprovar matérias ao arrepio do regimento interno -como ocorreu agora, com a chamada PEC Kamikaze. Sobre a primeira questão, Renata Lo Prete conversa com Paulo Celso Pereira, editor-executivo dos jornais O Globo e Extra e da revista Época. É ele quem explica o controle de Lira sobre as “emendas do relator” e o poder que isso lhe dá. Na avaliação do jornalista, o que Lira faz no momento é se preparar tanto para a hipótese de vitória de Lula quanto para a de reeleição de Bolsonaro. “Ele tem clareza de que são cenários distintos, mas tentará ganhar em todos eles”, afirma. Para falar do modus operandi do presidente da Câmara, a convidada é Beatriz Rey. Segundo a cientista política, o deputado do PP atropela de pelo menos duas maneiras: “desrespeitando regras regimentais” e criando novas por meio da “promulgação de atos da Mesa Diretora”. Lira, ela diz, “age no detalhe do processo legislativo”.

Jul 15, 202228 min

Ep 749O Orçamento Secreto no mundo real

Ao aprovar, nesta semana, a LDO de 2023, o Congresso não apenas garantiu longa vida às emendas do relator como ampliou ainda mais o controle da cúpula parlamentar sobre esses recursos, que chegarão a R$ 19 bilhões no ano que vem. Boa hora, portanto, para verificar o que está acontecendo na ponta com dinheiro público alocado sem identificação do deputado ou senador responsável nem possibilidade de controle. Com esta missão, O Assunto recebe Breno Pires, autor de reportagem na revista Piauí que conecta as emendas da sigla RP9 a um esquema para fraudar a destinação de recursos da saúde. Nesse trabalho, o jornalista percorreu o Maranhão, estado onde ficam 23 dos 30 municípios do país mais agraciados com repasses para atendimentos de média e alta complexidade. De perto, ele constatou falsificações exorbitantes dos números de serviços supostamente prestados, que contrastam com carências de todo tipo no atendimento à população. Tudo com “coordenação superior" dos senhores do Orçamento Secreto em Brasília. E às custas dos “mais vulneráveis”, que esses parlamentares tanto gostam de invocar. “O saldo de tudo isso é que falta dinheiro onde realmente precisa”, diz Breno.

Jul 14, 202227 min

Ep 748Crimes de ódio: ameaça à democracia

O assassinato de um tesoureiro do PT, durante uma festa de família, por um apoiador de Jair Bolsonaro foi “induzido” não apenas por falas do presidente, mas pela “máquina” de agressão de natureza política que prosperou no Brasil sob seu governo. É o que sustenta o sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da USP. Na conversa com Renata Lo Prete, ele relembra eventos violentos que precederam a morte de Marcelo Aloísio de Arruda em Foz do Iguaçu e afirma ser impossível dissociá-los da proliferação de armas estimulada por Bolsonaro e família. Diz ainda que a sociedade precisa estar de “prontidão” para reagir a uma eventual tentativa do Planalto de usar atentados como o de sábado como pretexto para insinuar qualquer mudança no calendário eleitoral. Participa também do episódio Anielle Franco, irmã de Marielle e diretora do instituto que leva o nome da vereadora executada em 2018 - crime do qual até hoje não se conhece o mandante. Como se isso não bastasse, quatro anos depois a família ainda convive com “tentativas de assassinar a reputação de Marielle”.

Jul 13, 202230 min

Ep 747ESPECIAL: Renata Lo Prete entrevista André Janones

Pré-candidato pelo Avante, o deputado federal por MG anuncia que, caso assuma a Presidência, irá implementar um programa de transferência de renda emergencial para atender à população mais pobre, seguindo os mesmos critérios do extinto Bolsa Família e ao custo de até R$ 400 bilhões anuais: “é o meio mais confiável de buscar a justiça social”. Para financiar esta que é sua principal bandeira eleitoral, ele acrescenta a necessidade de uma “verdadeira reforma tributária” que inclua taxação de lucros e dividendos, imposto sobre grandes fortunas e redução de subsídios. Para Janones, o Brasil vive uma “falsa polarização” entre dois candidatos com altos índices de rejeição, mas adianta que, caso não esteja no 2º turno, estará “do lado oposto ao do atual presidente, ao lado da democracia”. Questionado sobre a PEC Kamikaze, o pré-candidato diz que nem Jair Bolsonaro nem o Congresso deixam claro que os benefícios a serem ampliados acabam no fim de 2022. Aos 38 anos, André Janones concorre pela 1ª vez à Presidência. O Assunto apresentou a primeira rodada de entrevistas do jornalismo da Globo nas eleições deste ano. O encontro de 1h30 de duração foi transmitido ao vivo pelo g1 na tarde da segunda-feira (11) e publicado na íntegra como episódio especial do Assunto. Foram chamados os cinco pré-candidatos com melhor pontuação na pesquisa Datafolha do dia 26 de maio. A campanha do presidente Jair Bolsonaro, do PL, não chegou a enviar representante ao sorteio da ordem. A do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enviou. Nenhuma das duas confirmou presença até a data-limite, 3 de junho. Ciro Gomes (PDT) foi entrevistado em 13 de junho, e Simone Tebet (MDB) em 20 de junho.

Jul 11, 20221h 33m

Ep 746Para entender a sucessão em SP

A recém-anunciada saída de Márcio França (PSB) tende a afunilar a disputa pelo comando do Estado mais rico e populoso do país em três nomes: Fernando Haddad (PT), que hoje lidera com folga as pesquisas, e os tecnicamente empatados Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Rodrigo Garcia (PSDB). “É corrida de chegada, não de largada", adverte o jornalista Fábio Zambeli, lembrando que o petista já é amplamente conhecido, ao contrário dos outros dois. Peculiar, também, porque nem todos têm padrinho: enquanto Haddad se escora em Lula, e Tarcísio é obra de Bolsonaro, Garcia, ocupante do cargo, luta para se desvincular do desgastado antecessor, João Doria, e afastar o fantasma de Geraldo Alckmin -personificação do PSDB para o eleitor paulista, o ex-governador migrou para o PSB e estará no palanque de Haddad. Na conversa com Renata Lo Prete, o analista-chefe da plataforma Jota em São Paulo analisa os possíveis efeitos do “fator Alckmin” e os movimentos de Lula e Bolsonaro em território no qual competem de forma mais acirrada do que na média nacional. Para o ex-presidente, “já seria vitória” ver seu candidato no segundo turno. Para o atual, seu ex-ministro da Infraestrutura, de perfil menos belicoso do que o chefe, pode ser isca para recuperar votos perdidos no Estado. Zambeli contempla a possibilidade de “fim de uma era” -jamais o PSDB esteve sob tanto risco de perder seu reduto de quase três décadas. Mas considera prematura qualquer previsão de resultado, levando em conta que serão quase "duas eleições distintas": a que se desenrola na capital e na Grande SP, onde o voto é pendular ao longo dos anos, e a do interior, tradicionalmente à direita.

Jul 11, 202224 min

Ep 745As armadilhas do cigarro eletrônico

Tecnológico, mais bonito e com melhor aroma que a versão tradicional, os vaporizadores atraíram os jovens. Estudos recentes das universidades federais de Minas Gerais e de Pelotas apontam que aproximadamente um a cada cinco jovens entre 13 e 24 anos já experimentou pelo menos uma vez o aparelho – embora sua comercialização seja proibida desde 2009. E, nesta semana, a proibição da venda foi mantida pela Anvisa, em uma decisão unânime. “É uma lenda urbana que o cigarro eletrônico seja um redutor de danos”, afirma Jaqueline Scholz, professora livre docente da Faculdade de Medicina da USP e diretora do programa de treinamento contra tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. Entrevistada por Natuza Nery neste episódio, a cardiologista chama a atenção para “a rapidez e a intensidade com que a dependência da nicotina se instala nos usuários desse produto”. Um exemplo é o da cantora Solange Almeida, que relata seu caso em depoimento neste episódio, dizendo que o uso comprometeu até sua voz. A médica Jaqueline Scholz conta que já atende adolescentes com níveis de nicotina tão altos quanto de adultos fumantes e já se sabe das consequências do consumo nos países onde é legalizado: a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares é semelhante ao do cigarro comum, “com a diferença de ser em faixa etária mais nova”. Jaqueline comenta também sobre como a indústria tabagista vem tentando reverter o “marketing falido” dos cigarros convencionais e a pressão do lobby sobre legisladores e médicos.

Jul 8, 202220 min

Ep 744A queda de Boris Johnson

O primeiro-ministro do Reino Unido perdeu, apenas nos últimos dois dias, mais de 40 integrantes de seu governo. A debandada e as críticas crescentes de aliados do próprio partido vêm após a revelação de que Boris Johnson sabia desde 2019 das denúncias de abuso sexual contra um de seus aliados e que, mesmo assim, o promoveu e disse não saber de nada. A nova crise é apenas mais uma da série de inverdades descobertas sobre o mandato do premiê conservador, conta o jornalista Ernani Lemos, chefe do escritório da Globo na Europa. Em conversa com Natuza Nery direto de Londres, Ernani descreve o premiê como um "narcisista inveterado". Considerado oportunista pela opinião pública, o que explica parte de sua resiliência, está também o desprendimento em descartar aliados de acordo com a conveniência. “As escolhas dele foram mostrando que o projeto era só de poder”, explica. Segundo Ernani o futuro do arranjo do comando britânico é imprevisível, pelas características do líder do Partido Conservador. Mas nenhuma mudança de rumo a curto prazo é provável, mesmo após a saída do premiê. Em posições urgentes, como a guerra da Ucrânia, relação com União Europeia e o combate à pandemia, os partidos são unidos: “o país deve continuar na mesma direção, independente de quem seja o comandante", conclui.

Jul 7, 202221 min

Ep 743A crise Argentina aprofundada

Inflação acumulada na casa dos 60% e a moeda em desvalorização recorde perante o dólar. Junto com o cenário de deterioração econômica, o país vive o conflito entre o presidente Alberto Fernández e a vice, Cristina Kirchner – rixa que atingiu o ápice nos últimos dias, com a renúncia do ministro da Economia ao mesmo tempo em que Cristina fazia um discurso criticando a política econômica do país. “O governo está paralisado”, resume Janaína Figueiredo em conversa com Natuza Nery neste episódio. Repórter especial do jornal O Globo, Janaína descreve a “epidemia da desilusão” vivida em solo argentino. Direto de Buenos Aires, ela narra como a população busca trabalho fora do país, para receber em outras moedas. E relembra como o conflito entre presidente e vice é antigo (passando pelas eleições legislativas de 2021) - retomando um atrito do primeiro governo Kirchner, ainda em 2008. Ao lembrar a escolha de uma aliada de Cristina para comandar a economia, pontua como, no meio da crise, está o acordo com o FMI. Apoiado pelo presidente, o acordo agora não tem garantias de ser cumprido, diante de um Banco Central “zerado” de reservas.

Jul 6, 202224 min

Ep 742Vale do Javari: hoje e 20 anos atrás

Na passagem de um mês dos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Philips, O Assunto ouve quem conheceu a região e o agora assassino confesso Amarildo de Oliveira em 2002, quando foi realizada a última grande expedição indigenista por lá, para conter invasões a territórios de povos isolados. Então com 21 anos, Pelado, como é conhecido, foi um dos guias na jornada de 105 dias, ajudando também na construção de canoas, conta Leonencio Nossa, repórter do jornal O Estado de S. Paulo e autor do livro “Homens Invisíveis” (2007), no qual relata essa viagem. Refletindo sobre a trajetória do ribeirinho, ele fala do ambiente: “O crime avançou muito”, com o narcotráfico passando a patrocinar pesca e garimpo ilegais e a ter ascendência sobre a representação política local. Leonencio também atualiza as informações sobre a investigação dos assassinatos do funcionário da Funai e do jornalista inglês, pendente de esclarecimento do mando. Na segunda parte do episódio, Renata Lo Prete conversa com Eliesio Marubo, procurador jurídico da Univaja, no momento em que o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União pedem indenização de R$ 50 milhões aos indígenas do Vale do Javari. "Nós não sabemos se pode vir uma outra ofensiva contra as nossas lideranças”, ele alerta.

Jul 5, 202228 min

Ep 741Biden, Trump e o curto-circuito americano

O questionamento infundado do resultado das urnas em 2020 e a invasão do Congresso em janeiro do ano seguinte deixaram marcas profundas na que já foi uma das mais estáveis democracias do mundo. Embora derrotado na tentativa de golpe, Donald Trump conseguiu convencer a maior parte do eleitorado republicano de sua mentira, minando a possibilidade de apoio suprapartidário ao governo de Joe Biden. Somada aos efeitos da inflação, recorde em 40 anos, essa polarização extrema derruba a aprovação ao atual presidente, compromete as chances dos democratas nas eleições legislativas de novembro e “ameaça tornar os EUA um país ingovernável”, diz o professor de Relações Internacionais da FGV Oliver Stuenkel. Na conversa com Renata Lo Prete, ele analisa o papel da Suprema Corte - que, em decisões recentes a respeito de armas, aborto e meio ambiente reduziu ainda mais a margem de manobra de Biden para cumprir suas promessas de campanha. Stuenkel fala também da peculiar situação de Trump - cada vez mais exposto como incitador dos depredadores do Capitólio e, ao mesmo tempo, possível candidato em 2024. E recomenda olhar os EUA como exemplo dos danos de longo prazo causados por campanhas para desacreditar o sistema eleitoral.

Jul 4, 202225 min

Ep 740PEC Kamikaze: auxílios e bombas

A proposta de emenda constitucional esnobada pelo ministro da Economia em fevereiro acaba de passar, em versão mais que turbinada, em dois turnos no Senado. Entre uma data e outra, falharam seguidas manobras para conter a alta dos combustíveis. Agravaram-se as condições de vida da população e também a situação eleitoral de Jair Bolsonaro. “É a última opção para levá-lo ao segundo turno", diz o analista político Thomas Traumann sobre o texto que, ao instituir estado de calamidade pública até 31 de dezembro, permite gastar sem respeitar teto, além de dar a volta em restrições da legislação eleitoral. Entre benefícios, vales e vouchers para caminhoneiros e taxistas, serão aproximadamente R$ 41 bilhões de impacto fiscal, a ser sentido a partir de 2023. Na conversa com Renata Lo Prete, Traumann, colunista da revista Veja e do site Poder 360, analisa ainda outros itens da pauta pré-recesso do Congresso, como o esforço para blindar o Orçamento secreto, seja qual for o próximo governo.

Jul 1, 202223 min

Ep 739Assédio: a queda do presidente da Caixa

Propostas de contato físico, insistência, constrangimentos em privado e também diante de terceiros. “Começaram em janeiro de 2019, quando ele assumiu”, relata a jornalista Heloísa Torres, depois de ouvir algumas das mulheres que denunciaram Pedro Guimarães por assédio sexual e moral. Foram ignoradas pelos sistemas de ouvidoria da Caixa Econômica Federal - quando não perseguidas e removidas de suas funções. Em conversa com Renata Lo Prete, a repórter da TV Globo em Brasília detalha esses depoimentos (“ele se aproximava das mulheres já pegando nelas”), que um dia depois de virem a público derrubaram um dos auxiliares mais próximos de Jair Bolsonaro. Participa ainda do episódio Andréia Sadi, apresentadora do Estúdio i (GloboNews) e colunista do g1, envolvida na cobertura do caso desde a primeira hora. Ela descreve os indícios de que o comportamento de Guimarães, sob investigação do Ministério Público Federal, era de amplo conhecimento da diretoria da CEF. Com suas atitudes, “Bolsonaro acaba dando carta branca” para isso, afirma. Andréia fala também da misoginia disseminada na atual administração e das dificuldades de Bolsonaro com o eleitorado feminino. “O governo não fez nada antes e não fez nada agora”, conclui, lembrando que o presidente esperou pela carta de demissão de Guimarães - a ser substituído por Daniella Marques, integrante da equipe do ministro Paulo Guedes.

Jun 30, 202229 min

Ep 738MEC: corrupção, acobertamento e CPI

O que começou como denúncia de um esquema de pastores com trânsito no Palácio do Planalto para traficar recursos da educação virou, três meses depois, um pedido de investigação sobre a conduta do presidente da República. E ameaça se transformar em mais uma Comissão Parlamentar de Inquérito no caminho dele - desta vez, a pouca distância das eleições de outubro. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe os jornalistas Vera Magalhães e Bruno Tavares. O repórter da TV Globo, primeiro a revelar ligações telefônicas em que o ex-ministro Milton Ribeiro afirma ter sido alertado por Jair Bolsonaro da iminência da operação da PF na qual seria preso, detalha a origem e o alcance das escutas (mais de 1.700 áudios) captadas com autorização da Justiça. Ele também lembra o que acontece agora que a ministra do Supremo Carmem Lúcia acionou a PGR: “Augusto Aras vê elementos para investigar Bolsonaro? Isso terá que ser dito”. Na conversa com Renata Lo Prete, Vera é cética quanto às chances de o procurador-geral se mexer. Ainda assim, “essa apuração sobre vazamento de informações e obstrução do trabalho da polícia tem potencial de estrago para Bolsonaro”, avalia a colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura. A partir da apresentação, nesta terça-feira, do pedido de abertura da CPI do MEC, Vera diz o que esperar do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de quem depende a instalação. Analisa ainda as movimentações dos governistas para evitar ou, no mínimo, empurrar ao máximo o início dos trabalhos da comissão.

Jun 29, 202226 min

Ep 737Mulheres: direitos reprodutivos sob ameaça

Primeiro, veio à tona o episódio de uma criança de 11 anos cuja interrupção da gravidez foi impedida por uma juíza em Santa Catarina. Depois, a atriz Klara Castanho viu sua história (um estupro seguido por gestação indesejada e doação do bebê) divulgada a todo país, contra sua vontade. Em meio a isso, nos Estados Unidos, a Suprema Corte derrubou a lei que garantia o direito ao aborto em todos os estados americanos desde 1973. “Controlar os corpos das mulheres é fundamental para os poderes autoritários e patriarcais”, resume Debora Diniz, professora da UnB e pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. Em entrevista a Julia Duailibi, a antropóloga relacionou as “duas histórias de violência” a elementos estruturais da misoginia, e explicou por que a educação sexual nas escolas é “fundamental”. Também neste episódio, o obstetra Olímpio de Moraes descreveu o código de ética médico para lidar com situações de interrupção de gravidez: “ouvir sempre e nunca julgar”. Ele, que também é diretor do Centro Integrado de Saúde Amaury Medeiros, hospital referência em saúde da mulher em Pernambuco, detalhou a lei de mais de 80 anos que regulamenta em que casos a Justiça permite o aborto: caso a mãe corra risco de morte ou a gestação seja resultante de estupro. “É muito raro a mulher vítima de violência continuar a gravidez”, relata. “Para ela, todo dia é uma tortura”.

Jun 28, 202231 min

Ep 736Bolsonaro e os sentidos da necropolítica

Diante das centenas de milhares de vidas brasileiras perdidas na pandemia, normalização e deboche. Em resposta à tortura e morte de um cidadão por policiais rodoviários federais, desconversa. Nos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Philips, responsabilização das vítimas. Três exemplos da política de violência sistêmica que “glorifica a morte como espetáculo” e teve seu nome cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe. Para entender o fenômeno e como ele se impôs entre nós, Renata Lo Prete recebe neste episódio Silvio Almeida, professor visitante de Direito da Universidade de Columbia e presidente do Instituto Luiz Gama. Ele explica os traços comuns a esses e outros casos ocorridos sob “um governo que sabe operar os instrumentos de morte de maneira muito eficaz”. Para Silvio, a superação da necropolítica passa por um reordenamento em que “fome e miséria não sejam mais toleradas”, paralelamente à valorização de serviços fundamentais para a vida (como o SUS) e ao estabelecimento de políticas culturais que resgatem o “significado simbólico” dos que partiram.

Jun 27, 202224 min

Ep 735Lembrar de Betinho para combater a fome

Diante do retrocesso brutal na garantia do mais básico dos direitos, especialistas alertam: além de cobrar das autoridades que façam sua parte, retomando políticas públicas hoje esvaziadas, é urgente mobilizar a sociedade civil. Como fez, há três décadas, o sociólogo Herbert de Souza, idealizador de campanha pioneira para levar comida aos brasileiros mais pobres. Na largada do “Natal sem Fome”, do qual nasceu a ONG Ação para a Cidadania, 32 milhões enfrentavam esse drama. Hoje, os avanços significativos observados até 2014 foram perdidos, e o número mais recente é ainda pior que o do início dos anos 90: 33 milhões. Em conversa com Renata Lo Prete, Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação, aponta retrocesso também na percepção da gravidade do problema. “Hoje, até mesmo quanto à fome há divisão”, diz. Contra todas as evidências, “uma parte da sociedade nega que ela exista”. Sem diminuir a importância das doações, especialmente no quadro alarmante do momento, Kiko ressalta a necessidade de conscientizar pessoas e empresas do imperativo de se envolver, abraçando a retomada de programas exitosos e elegendo candidatos comprometidos com a erradicação da fome.

Jun 24, 202226 min

Ep 734Assédio: servidores na era Bolsonaro

Muito antes de sofrer a emboscada na qual seria assassinado no Vale do Javari, o indigenista Bruno Pereira denunciava as ameaças que ele e colegas de serviço público sofriam da “máquina pesada” instaurada pelo atual governo, que descreveu como “autoritário” em sua última entrevista, à Folha de S. Paulo, detalhando de que maneiras o presidente da Funai o pressionava. Não era um caso isolado. A pesquisadora Michelle Morais de Sá e Silva reuniu dezenas de relatos de funcionários que, sob condição de anonimato, expuseram o clima de “medo coletivo” predominante nas mais diversas áreas da administração federal. Em conversa com Renata Lo Prete, a professora da Universidade de Oklahoma (EUA) explica, em primeiro lugar, o “embaralhamento” imposto: parcela expressiva dos servidores foi transferida de seus órgãos de origem sem lógica nem consentimento, comprometendo a eficiência do serviço prestado e, em vários casos, a saúde física e mental dos atingidos. Participa também do episódio o sociólogo Frederico Barbosa, pesquisador do Ipea e um dos organizadores do livro “Assédio Institucional no Brasil: Avanço do Autoritarismo e Desconstrução do Estado”. Ele explica que, de 2019 para cá, houve “mudança de método”: a atitude oficial agora, além de mais agressiva para com os indivíduos, visa também desqualificar os órgãos públicos. As pessoas “adoecem”, enquanto as instituições “perdem seu próprio sentido”.

Jun 23, 202229 min

Ep 733Bolsonaro, Lira e o teatro dos combustíveis

Desde o início do ano, a gasolina acumula alta de 9%, e o diesel, de 25%. Sob o impacto da crise internacional no setor de energia e do real desvalorizado, puxam uma inflação que corrói o poder de compra dos brasileiros e as chances de reeleição do presidente da República. Em resposta a este problema concreto, ele e aliados no Congresso escolheram um inimigo imaginário: a Petrobras. Uma ofensiva que escalou a patamar inédito a partir do último reajuste anunciado pela estatal, na sexta-feira passada. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista Carlos Andreazza examina as ideias lançadas pelo consórcio Bolsonaro-Centrão para bombardear a empresa - de CPI a uma Medida Provisória que esvaziaria, numa canetada, as conquistas de governança trazidas pela Lei das Estatais, de 2016. Bolsonaro, diz o colunista do jornal O Globo e apresentador da rádio CBN, replica sua eterna “lógica do confronto” ao trocar o comando da Petrobras pela terceira vez. E o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), “dá aula de patrimonialismo” quando defende a MP em nome de “maior sinergia entre as estatais e o governo do momento”. Como principal elemento da farsa, Andreazza aponta o fato de que, ao longo da cruzada, Bolsonaro e auxiliares jamais colocaram em discussão a política de Preço de Paridade Internacional (PPI), dado essencial da equação. Para o jornalista, do barulho todo restará uma conta de pelo menos R$ 50 bilhões que conseguirá, no máximo, “maquiar a bomba de gasolina até a eleição”.

Jun 22, 202223 min

Ep 732ESPECIAL: Renata Lo Prete entrevista Simone Tebet

Pré-candidata pelo MDB, Tebet anuncia que, caso assuma a Presidência, irá lutar pela adoção de políticas que busquem o “desmatamento zero”. Ela defende duas bandeiras como “principais objetivos” de sua candidatura: “erradicar a miséria” e garantir que “não se derrube uma árvore de forma ilegal no Brasil”. Entre suas propostas, sugere recriar um ministério específico para Segurança Pública e advoga pela manutenção do teto de gastos: “a responsabilidade fiscal existe para alcançar um fim, que é a responsabilidade social”. Perguntada sobre o que fará caso não esteja no 2º turno, respondeu que “no palanque eleitoral defendendo a democracia”. Aos 52 anos, Simone, que é senadora pelo estado de Mato Grosso do Sul, concorre pela 1ª vez. O Assunto apresenta a primeira rodada de entrevistas do jornalismo da Globo nas eleições deste ano. O encontro de 1h30 de duração foi transmitido ao vivo pelo g1 na tarde da segunda-feira (20) e publicado na íntegra como episódio especial do Assunto. Foram chamados os cinco pré-candidatos com melhor pontuação na pesquisa Datafolha do dia 26 de maio. A campanha do presidente Jair Bolsonaro, do PL, não chegou a enviar representante ao sorteio da ordem. A do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enviou. Nenhuma das duas confirmou presença até a data-limite, 3 de junho. Ciro Gomes (PDT) foi entrevistado em 13 de junho. No dia 11 de julho é a vez de André Janones (Avante).

Jun 20, 20221h 33m

Ep 731Bolsonaro e o octógono do golpe

Em 2018, as urnas deram vitória ao candidato que se apresentou como “outsider”. Alojado no então nanico PSL, Jair Bolsonaro prometia governar contra toda a política tradicional. Quatro anos depois, concorre à reeleição pelo notório PL, mas mantém o discurso antissistema. “Ele tenta convencer sua base de que, mesmo com o Centrão, segue lutando”, afirma Marcos Nobre, autor do livro “Limites da Democracia”, recém-lançado pela editora Todavia. Para o núcleo duro de seu eleitorado, “deu certo”, resume o professor de filosofia da Unicamp, também presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Em conversa com Renata Lo Prete, ele recupera uma linha do tempo que começa nos protestos de junho de 2013, passa pela Operação Lava Jato e chega à ascensão do “partido digital bolsonarista”. Nobre descreve uma tempestade perfeita em que se misturam radicalismo, relação umbilical com as Forças Armadas e Centrão no comando do Orçamento secreto. “Bolsonaro joga um jogo muito diferente daquele jogado pelas forças democráticas” diz, ressaltando que isso tende a se prolongar para além de outubro: “Para ele, ganhar eleição não é objetivo, mas instrumento”. Diante daquilo que descreve como iminente “caos social duradouro”, Marcos aponta que apenas a união dos mais diferentes setores pode se contrapor a “todas as possibilidades de golpe” que estão no horizonte. “É um momento sem volta: ou daremos um salto democrático, ou perderemos a democracia”.

Jun 20, 202229 min

Ep 730Juros recorde nos EUA: alerta na economia

Desde 1981, os americanos não sentiam na pele uma inflação tão alta, acima dos 8% ao ano. Uma reação colateral – e inesperada - à série de “pacotes fiscais substanciosos” que o presidente Joe Biden e seu antecessor Donald Trump despejaram para reanimar a economia. Neste episódio, Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, conversa com Julia Duailibi para descrever a sequência de “choques de demanda” que vêm impactando o mundo desde 2019: primeiro, a crise dos suínos na China; depois, a pandemia de Covid-19; e, por fim, a guerra na Ucrânia, “um dos celeiros de comida do mundo”. Os efeitos têm sido conhecidos no mundo todo, não só nos EUA, uma inflação generalizada, com destaque para os alimentos. O economista também explica que a contração monetária americana deve ajudar a segurar os preços, inclusive dos combustíveis, em todo o mundo, mas não de graça. “EUA crescendo menos é ruim para os emergentes”, afirma.

Jun 17, 202223 min

Ep 729O assassinato de Bruno e Dom na Amazônia

Mais de dez dias depois do desaparecimento do indigenista brasileiro e do jornalista britânico, o caso se encaminha para um desfecho. O principal suspeito, Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, confessou à Polícia Federal o assassinato e a ocultação dos cadáveres das vítimas - seu irmão Oseney também foi detido, mas não assumiu o crime. Nesta quarta-feira, Pelado levou os policiais até o ponto do rio Itaquaí onde teria descartado os corpos: resquícios de material humano foram encontrados e levados à perícia para a confirmação das identidades. Neste episódio do Assunto, Julia Duailibi conversa com Alexandre Hisayasu, repórter da TV Amazônica que acompanha o caso de perto. É ele quem narra o passo a passo das investigações, desde as condições precárias da polícia local até a intensa participação de grupos indígenas nas buscas de pistas sobre o paradeiro da dupla: “o Bruno era muito respeitado pelas lideranças da região”, lembra. Alexandre explica também as relações hostis entre o indigenista, que atuava na proteção da Terra Indígena Vale do Javari, e traficantes, garimpeiros e pescadores ilegais, que há anos o ameaçavam.

Jun 16, 202223 min

Ep 728A batalha do ICMS

De olho na reeleição, há meses Jair Bolsonaro tenta empurrar para os Estados, que arrecadam o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, a responsabilidade pela escalada dos preços dos combustíveis, locomotiva da inflação. Em sintonia com o presidente, o Congresso se movimenta para limitar as alíquotas desse que é o principal imposto brasileiro, ameaçando os governadores com perdas de mais de R$ 100 bilhões, segundo estimativa do conselho dos secretários de Fazenda. "É uma guerra fiscal de despesas e receitas na federação", resume Élida Graziane, procuradora do Ministério Público de Contas de São Paulo. Segundo ela, a União vem progressivamente se desobrigando de despesas, ao mesmo tempo em que “inibe ganhos” dos outros entes. Antes do ICMS, lembra a professora da Fundação Getúlio Vargas, também o IPI foi garfado para segurar os preços dos combustíveis -e eles continuaram a subir. Na conversa com Renata Lo Prete, ela ainda descreve como esses movimentos comprometem, “numa só machadada", gastos com saúde, educação e segurança pública. "O governo federal tolhe o custeio abrupta e rapidamente, enquanto promete compensações que não passam de promessa".

Jun 15, 202222 min

Ep 727ESPECIAL: Renata Lo Prete entrevista Ciro Gomes

Pré-candidato pelo PDT, Ciro diz que, caso assuma a Presidência, irá “abrir mão da reeleição em troca das reformas do país”. Ele defende a necessidade de uma “reconstitucionalização do Brasil”, que seria feita a partir de "grande pacto" com governadores e prefeitos. Entre suas propostas, apresenta um programa de “renda mínima” para reduzir a miséria, além da federalização da educação básica e a proibição de militares em cargos políticos. Também sobre a presença das Forças Armadas no governo Bolsonaro, o pré-candidato chamou de “Frota boys” os ministros mais próximos ao presidente – uma referência ao general Sylvio Frota, um dos quadros mais radicais da ditadura militar. Aos 64 anos, Ciro concorre pela 4ª vez. O Assunto começa a primeira série de entrevistas do jornalismo da Globo nas eleições deste ano. A entrevista foi transmitida ao vivo pelo g1 na tarde da segunda-feira (13) e publicada na íntegra como episódio especial do Assunto. Foram chamados para a série de entrevistas os cinco pré-candidatos com melhor pontuação na pesquisa Datafolha do dia 26 de maio. A campanha do presidente Jair Bolsonaro, do PL, não chegou a enviar representante ao sorteio da ordem. A do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enviou. Nenhuma das duas confirmou presença até a data-limite, 3 de junho. Na próxima segunda-feira (20), a entrevistada será Simone Tebet (MDB). No dia 11 de julho é a vez de André Janones (Avante).

Jun 13, 20221h 29m

Ep 726O Censo e a população LGBTQIA+

A Justiça Federal do Acre determinou que o IBGE inclua questões sobre orientação sexual e identidade de gênero no questionário do censo demográfico deste ano. No entanto, ao recorrer da decisão, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística alega que a única alternativa possível para a inclusão é um novo atraso: previsto originalmente para 2020, o Censo foi adiado pela pandemia e, no ano seguinte, por falta de orçamento. "O que não se pode esperar são mais dez anos para que finalmente haja a inclusão da população LGBTI+", diz o professor de Direito da Unifesp Renan Quinalha. Em conversa com Julia Dualibi, o autor do livro “Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias”, conta que a reivindicação para a inclusão vem desde o começo dos anos 1980, pois "sem dados qualificados, a gente não tem políticas públicas efetivas e precisas". A consultora do IBGE Suzana Cavenaghi explica a complexidade da organização de uma pesquisa, “cujas perguntas são planejadas desde o fim do Censo anterior”. Embora a barreira principal seja a falta de tempo hábil - todas as perguntas necessariamente precisam passar por testes com a população -, ela alerta para o risco de uma eventual “desinformação” decorrente da reação dos entrevistados diante do questionamento. “Isso pode botar a perder toda uma operação censitária”.

Jun 13, 202224 min

Ep 725A nova regra para os planos de saúde

Talita Negri e sua filhinha de 3 anos percorrem quase mil quilômetros para que ela tenha acesso ao tratamento adequado para seu problema de saúde. Para atender Victoria, que tem microcefalia com comprometimento motor e intelectual, ela entrou na Justiça e exigiu que a empresa de assistência médica financiasse o custo de clínicas e profissionais especializados. “Hoje, ela consegue ficar em pé sozinha”, orgulha-se Talita em depoimento à equipe do Assunto. Histórias como essa podem se tornar ainda mais raras depois que o STJ, por 6 a 3, definiu que o rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar deve ser considerado taxativo. Ou seja, os planos de saúde estão desobrigados a oferecer qualquer tratamento ou terapia que não esteja na lista da ANS. Mas, aponta a médica Lígia Bahia, há uma “vírgula” no texto que permite exceções. Em entrevista a Julia Duailibi, a professora e coordenadora do grupo de pesquisa sobre saúde coletiva da UERJ explica por que juízes de 1ª e 2ª instâncias devem “reconhecer os abusos e interpretações absurdas” dos planos de saúde. No entanto ela se preocupa com a “grande chantagem” da qual as empresas lançam mão para justificar aumentos de preço e influenciar as decisões da ANS – cuja função é defender o direito do consumidor, mas se coloca “descaradamente” do outro lado. Ela fala ainda sobre a pressão que tal medida pode colocar sobre o Sistema Único de Saúde: “O SUS ficou para os pobres e os planos de saúde, para os menos pobres”.

Jun 10, 202222 min

Ep 724O Supremo polarizado

No momento de maior tensão entre o chefe do Executivo e a Suprema Corte do país, o Tribunal Superior Eleitoral entrou em cena. Foi em outubro do ano passado que, por 6 a 1, o TSE cassou o mandato do deputado bolsonarista Fernando Francischini (ex-PSL, atual União Brasil), que divulgou em suas redes sociais fake news contra as urnas eletrônicas, colocando em xeque a lisura da eleição de 2018. O ex-parlamentar recorreu ao STF e coube ao primeiro ministro indicado por Bolsonaro ao Supremo, Nunes Marques, devolver o mandato. Durou pouco, quase nada: em menos de uma semana, a decisão chegou à Segunda Turma do Supremo que ratificou a sentença do TSE. Para Eloísa Machado, professora de direito constitucional da FGV, trata-se de uma medida que demonstra uma “harmonia” entre as duas cortes no objetivo de “preservar a integridade das eleições”, embora identifique um “jogo combinado” entre Nunes Marques e André Mendonça, segunda indicação do presidente ao STF. "O ambiente polarizado na política, acaba criando o mesmo no Supremo", explica Débora Santos, analista de Judiciário da XP Investimentos. Em entrevista a Julia Duailibi, a ex-secretária de Comunicação do STF reforça que "o ambiente não é de normalidade", mas que o senso de autopreservação do tribunal mais une os ministros do que os afasta.

Jun 9, 202228 min

Ep 723A epidemia de atiradores nos EUA

Buffalo, Uvalde, Chattanooga... Desde o início do ano, o país registrou 244 tiroteios, com 256 mortos, segundo dados do jornal The Washington Post. Apenas no final de semana passado, quando ainda estava fresco na memória o massacre das crianças em uma escola do Estado do Texas, foram 11 óbitos em diferentes cidades. Em conversa com Renata Lo Prete, Guga Chacra explica que são pelo menos dois tipos de violência em alta: a de gangues e a de atiradores solitários, estes praticamente um traço distintivo dos Estados Unidos, onde a proporção de armas por habitante é a maior do mundo. Comentarista da GloboNews e colunista do jornal O Globo, Guga cita fatores como o poder do lobby das armas e a composição da Suprema Corte para justificar seu ceticismo. “Não há a menor possibilidade de aumento significativo nas restrições", diz ele, a despeito da dor das famílias e do movimento de jovens nessa direção.

Jun 8, 202222 min

Ep 722Os desaparecidos no Vale do Javari

O sumiço do servidor licenciado da Funai Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips ganhou repercussão internacional, chamando a atenção para o desastre em curso no território que abriga a maior concentração de povos indígenas isolados do mundo. Ambos com larga experiência em transitar na região, eles foram vistos pela última vez na manhã do domingo a caminho de Atalaia do Norte (AM), perto da fronteira com o Peru. Na viagem, Dom esperava colher depoimentos de moradores, permanentemente ameaçados por garimpeiros, madeireiros e todo tipo de atividade ilegal. Em entrevista a Renata Lo Prete, Eliesio Marubo, procurador jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) relata as ameaças que Bruno, ele próprio e o colega Beto Marubo vinham sofrendo. Participa também o jornalista Rubens Valente, autor do livro “Os Fuzis e as Flechas”, sobre ataques a povos indígenas durante a ditadura. “Na ‘nova Funai’”, diz ele, usando expressão adotada no governo Bolsonaro, “o Estado encolheu”, ele resume. Na Amazônia em que o crime organizado ganha terreno, observa Rubens, “jornalistas e funcionários se tornaram mais um alvo”.

Jun 7, 202228 min

Ep 721Guerra na Ucrânia: um exame aos 100 dias

O governo de Kiev contabiliza cerca de 20% do território ocupado pelo invasor, baixas de até 100 soldados por dia, cidades destruídas e pelo menos 14 milhões de pessoas que precisaram abandonar suas casas, quando não o país. Para a Rússia, que imaginava conduzir uma operação rápida e com pouca resistência, o saldo inclui a perda de generais e o peso de sanções sem precedentes. Em comum, os dois lados seguem sustentando que alcançarão vitória no campo de batalha. “Essa é uma guerra muito cara e de efeitos de longo prazo para o mundo todo”, afirma o professor de Relações Internacionais Tanguy Baghdadi. Ele se refere à alta disseminada de preços e ao risco de desabastecimento de itens essenciais como grãos, combustíveis e fertilizantes. Em conversa com Renata Lo Prete, Tanguy analisa a posição norte-americana: "Podemos ver a formação de dois blocos absolutamente apartados". Seria o resultado do contencioso dos EUA com Rússia e China. Para ele, não será surpresa se Vladimir Putin anunciar “que venceu a guerra” tão logo assuma integralmente o controle do leste ucraniano e do corredor sul do país. Já a Ucrânia precisa de mais: não apenas encerrar o conflito, mas estabelecer acordos diplomáticos que evitem “uma outra guerra daqui a dois anos”.

Jun 6, 202221 min

Ep 720O mistério da Covid na Coreia do Norte

De março de 2020 até maio de 2022, enquanto o mundo acumulava mais de 6 milhões de mortos pela doença, o país não teve nem sequer um caso. Ou assim dizia o regime de Kim Jong-un, cujas estatísticas os organismos internacionais jamais puderam verificar. No entanto, desde um suposto “paciente zero”, anunciado há cerca de 20 dias, foram registrados casos de uma “febre misteriosa” em mais de 10% dos 25 milhões de norte-coreanos, e a comunicação estatal assumiu que a pandemia havia invadido as quase intransponíveis fronteiras da ditadura. Os óbitos, porém, não passariam de 70. O repórter da TV Globo Álvaro Pereira Júnior faz as contas: pelos dados oficiais, a taxa de mortalidade seria de 0,002%, um desempenho 65 vezes melhor que o da vizinha Coreia do Sul, “modelo no combate à Covid”. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista, que estuda Coreia do Norte há 15 anos e foi dos poucos brasileiros a realizar reportagens no país, discute os motivos que teriam levado Kim Jong-un a decretar emergência de saúde pública e lockdown total, ao mesmo tempo recusando qualquer tipo de ajuda internacional, inclusive da parceira China. Isso tudo para depois afirmar, em nova reviravolta, que o surto já foi controlado. Embora “ninguém consiga entender bem”, as hipóteses mais aceitas são “medo de sabotagem” ou de “admitir fraqueza”. Álvaro comenta ainda os riscos para a população da “Coreia do Norte real”, que vive sob as mais precárias condições alimentares e sanitárias. Apesar disso, diz ele, “não há a menor possibilidade desta pandemia desestabilizar o regime”.

Jun 3, 202220 min

Ep 719Máscaras de volta: onde e quando usar

Desde o fim do primeiro trimestre, superado o pior momento da ômicron e diante do avanço na vacinação, essa barreira de contenção do contágio foi desaparecendo do rosto dos brasileiros. Só que agora, às portas do inverno, a média móvel de novos casos de Covid está em alta de 96%, na maior variação desde 31 de janeiro. Temendo sobrecarga no sistema de saúde, autoridades de vários estados resgataram a recomendação, já convertida em obrigatoriedade por uma série de prefeitos, de uso de máscara em locais fechados. O engenheiro biomédico Vitor Mori, entrevistado neste episódio, recomenda maiores cuidados neste período do ano. Em conversa com Renata Lo Prete, ele examina diferentes situações e seus respectivos graus de risco. Segundo ele, a decisão de utilizar ou dispensar máscara deve levar em conta fatores como ventilação do local, vulnerabilidade e doses de vacina da pessoa e do seu entorno. Em celebrações típicas desta época, como festas juninas, o integrante do Observatório Covid-19 BR sugere usar. “O risco ao ar livre cai muito, mas não é zero, especialmente se a gente tem uma interação face-a-face", diz.

Jun 2, 202221 min

Ep 718Chuva extrema: tragédia dos mais pobres

Em apenas 5 meses, 2022 concentra um quarto das mortes provocadas por chuvas no Brasil em dez anos. Foram 457 vítimas até o fim de maio, segundo informou ao Assunto a Confederação Nacional de Municípios. Desde a semana passada, entraram nessa conta catastrófica mais de cem moradores da região metropolitana do Recife. De suas famílias, quem sobreviveu perdeu tudo - a exemplo do que já havia acontecido este ano em estados como Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital pernambucana, “qualquer evento climático extremo acentua a vulnerabilidade", alerta Hernande Pereira, coordenador do Instituto para Redução de Riscos e Desastres da Universidade Federal Rural de PE. Ele explica a urgência de políticas habitacionais destinadas à população que vai morar em encostas, forçada a deixar o interior pela falta de trabalho e renda. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Maria Fernanda Lemos, professora de urbanismo da PUC-Rio. Coordenadora do capítulo sobre as Américas do Sul e Central do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ela sinaliza a tendência de aumento na intensidade e duração das chuvas. E destaca como, além do gasto emergencial para conter danos, é necessário planejamento de longo prazo para adaptar infraestrutura e edificações a essa nova realidade. Do contrário, diz, “desastres e perdas serão cada vez maiores".

Jun 1, 202221 min

Colômbia: significados do 1º turno

Gustavo Petro, de esquerda, que liderou a apuração com 40,4% dos votos, “personifica a insatisfação econômica e social” disseminada no país, campeão regional de desigualdade. Rodolfo Hernandez, populista de direita que obteve 27,9%, “personifica a insatisfação com a política”. Quem explica, direto de Bogotá, é Thiago Vidal, gerente de análise política para a América Latina da consultoria Prospectiva. Neste episódio, ele analisa a conjuntura antigoverno e antissistema que acabou por excluir, da etapa final, o grupo que manda na Colômbia há mais de duas décadas, atualmente representado pelo desgastado presidente Ivan Duque - candidato apoiado por ele, o ex-prefeito de Medellín Federico Gutierrez chegou em terceiro. Thiago observa que, seis anos depois do histórico (e até hoje não inteiramente implementado) acordo de paz com as Farc, esta é a primeira eleição “na qual questões de segurança pública e nacional não dominam o debate”. Na conversa com Renata Lo Prete, ele também avalia as chances de Petro e Hernandez no segundo turno, em 19 de junho, além de mostrar qual seria o grau de dificuldade de cada um para construir base no Congresso.

May 31, 202221 min

Ep 716Fator diesel na equação dos combustíveis

Usado para transportar mais de 60% das cargas no país, ele acumula alta de 47% nos últimos 12 meses, com efeitos “que se espalham por toda a economia”, afirma o especialista em infraestrutura Fernando Camargo. Para Jair Bolsonaro, que só pensa em escapar do custo eleitoral da explosão dos preços dos combustíveis, o diesel é um problema à parte, pois impacta diretamente uma categoria profissional que o ajudou a chegar ao Palácio do Planalto: a dos caminhoneiros. Somada à escassez do produto no mercado internacional, em consequência da guerra na Ucrânia, a disposição do governo para atropelar a Petrobras colocou no horizonte o risco de desabastecimento - que Camargo avalia, sem alarmismo, na conversa com Renata Lo Prete. Participa ainda Alvaro Gribel, colunista do jornal O Globo, para relembrar "os 10 dias que pararam o Brasil" na greve dos caminhoneiros, em 2018. Ele também atualiza as informações sobre o “bolsa caminhoneiro” que está no forno da equipe econômica, a um custo previsto de R$ 1,5 bilhão este ano.

May 30, 202224 min

Ep 715Bolsonaro e a polícia da morte

Desde sempre, o presidente estimula a violência e o descontrole das forças de segurança. No cargo, deu tratamento privilegiado a essas corporações, com as quais espera contar para afrontar a Constituição em caso de derrota nas urnas. Nesta semana, a Polícia Rodoviária Federal se viu exposta em 2 casos reveladores desse estado de coisas. No Rio, ganhou as manchetes ao participar, de forma até agora mal explicada, da operação que deixou mais de 20 mortos na Vila Cruzeiro. Em Sergipe, “um caso de tortura seguida de morte, onde os envolvidos são agentes da lei”. É como o professor de direito constitucional Oscar Vilhena (FGV-SP) descreve a barbárie a que policiais rodoviários submeteram Genivaldo de Jesus Santos, homem negro de 38 anos, no município de Umbaúba. Na conversa com Renata Lo Prete, o integrante da Comissão Arns analisa o papel do mau exemplo que vem de cima e a complacência de parte da sociedade com o atropelo dos direitos mais básicos, que vitima sobretudo os pobres. “Em nenhuma outra democracia no mundo a polícia chegou a padrões de tamanha violência", diz.

May 27, 202225 min

Ep 714A matança no Rio de Janeiro

Apenas na favela do Jacarezinho, há um ano, a polícia matou mais do que nesta terça-feira (25) na Vila Cruzeiro, uma das comunidades que formam o Complexo da Penha, na Zona Norte da capital fluminense. Entre as 25 vítimas, a cabeleireira Gabrielle da Cunha, atingida por um tiro dentro de casa, na vizinha Chatuba. Em conversa com Renata Lo Prete, Thainã de Medeiros, co-fundador do coletivo Papo Reto e testemunha da operação, relata o que viveu na mira de um fuzil. E reflete sobre o impacto de escolas e lojas fechadas, além do embaraço por que passam moradores impedidos de chegar ao trabalho em dias de confronto. “Não existe atestado-tiroteio”, diz. Participa também do episódio Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN. "A polícia do Rio está dentro de um caldo cultural, puxado por Jair Bolsonaro, de afronta à autoridade do Supremo", analisa, numa referência aos limites colocados pelo tribunal a operações em favelas durante a pandemia. Bernardo trata também das conexões entre a insegurança pública e a eleição que se aproxima: o governador Claudio Castro (PL), que herdou a cadeira do cassado Wilson Witzel, disputará o segundo mandato de olho principalmente no voto bolsonarista no estado. O ambiente, afirma o jornalista, é de "naturalização de uma polícia que morre e mata muito”.

May 26, 202227 min

Ep 713Varíola dos macacos: o que já se sabe

A doença, há muito tempo presente de forma controlada em regiões da África, agora surpreende ao aparecer em pelo menos 17 países - entre eles vários da Europa, EUA, Austrália e Israel. Diante do registro de mais de 200 casos, a OMS emitiu alerta e, no Brasil, o Ministério da Ciência e Tecnologia criou um comitê para acompanhar a situação. Umas de suas integrantes, a microbióloga Giliane Trindade, conversa com Renata Lo Prete para explicar que o vírus causador é, felizmente, muito menos letal do que aquele responsável pela outra varíola, erradicada em 1980 depois de causar 300 milhões de mortes ao longo do século 20. A atual se chama “dos macacos” porque neles foi primeiro identificada, esclarece a pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais. Giliane também conta quais são os medicamentos e vacinas existentes no mundo para tratar a doença, cujo traço mais visível são lesões de pele que depois secam. Outro motivo para alívio, diz ela, é que, “diferentemente do Sars-Cov-2, esse vírus não tem transmissão facilitada”.

May 25, 202219 min

Ep 712Doria fora: e agora, 3ª via?

O ex-governador de São Paulo terminou por ceder às pressões do PSDB, retirando-se da disputa pela Presidência meses depois de vencer a prévia interna. Agora, tucanos caminham para uma tentativa de acordo com Cidadania e MDB em torno de um nome desta última sigla, o da senadora Simone Tebet. Em conversa com Renata Lo Prete, a jornalista Vera Magalhães resgata o processo de fritura que culminou no movimento desta segunda-feira, revelador de um partido que perdeu “alma e caráter”, diz. Colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva (TV Cultura), Vera recomenda cautela na avaliação das chances desta que será a nona opção para emplacar uma candidatura competitiva da chamada “terceira via”. Segundo ela, Tebet não está livre de ser vítima da mesma lógica aplicada a Doria. Como pano de fundo, lembra a jornalista, há a cristalização das intenções de voto em Lula (PT) e Bolsonaro (PL), primeiro e segundo colocados nas pesquisas, respectivamente. Vera trata ainda da situação de Rodrigo Garcia, neotucano que sucedeu Doria no Palácio dos Bandeirantes, trabalhou para tirá-lo do páreo nacional e agora tem uma eleição difícil pela frente em São Paulo. Para Vera, se o PSDB perder o maior colégio eleitoral do país, que comanda desde 1995, “será terra arrasada”.

May 24, 202223 min

Ep 711Mães do Brasil: direitos negados

Prevista desde 1948 na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a licença-maternidade está, no entanto, fora do alcance de parcela expressiva da população, dado o crescimento da informalidade. O percentual dos “sem-carteira”, hoje por volta de 40% da força, é até maior entre as mulheres. E a esse contingente “vários direitos não se aplicam", observa Cecília Machado, professora da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV. Por isso, ela explica, é preciso discutir políticas de proteção a mães e recém-nascidos que vão além da licença, além de estimular maior participação dos pais nos cuidados, combatendo a ideia retrógrada de que os primeiros meses de vida seriam essencialmente tarefa das mães. Sobre a licença propriamente dita, Cecília rebate o argumento, vocalizado por personagens do governo, de que seria prejudicial às empresas. Todas as partes ganham com a segurança familiar, diz a pesquisadora. E, “quando é destruído o vínculo”, nos casos de demissão após o retorno, não só a mulher perde”, avalia. “As firmas também perdem todo o investimento que fizeram na funcionária”.

May 23, 202220 min

Ep 710Por que homeschooling é contra os pobres

A Câmara dos Deputados concluiu nesta quinta-feira a aprovação da lei que introduz o ensino domiciliar no país. O texto, que agora vai ao Senado, torna realidade uma bandeira levantada por Jair Bolsonaro e alguns de seus apoiadores mais ferrenhos desde o início do governo. Em conversa com Renata Lo Prete, Salomão Ximenes, professor de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC, critica duramente o projeto. Ele entende que, sob pretexto de atender ao desejo de algumas milhares de famílias, estão sendo retirados direitos consolidados de milhões de estudantes, colocando em risco a dura e tardiamente conquistada universalização do ensino básico no Brasil. “É um ataque frontal a pilares da educação pública”, afirma, mencionando a Lei de Diretrizes e Bases e o Estatuto da Criança e do Adolescente. O professor diz ainda que, negligenciando custos, a medida “empurra para os estados e municípios a responsabilidade pela implementação”. Também participa do episódio Maria Celi Vasconcelos, pesquisadora da UERJ e autora de livro sobre o tema. Para ela, o projeto atende a uma demanda legítima, mas regras de transição seriam bem-vindas. “Passamos da proibição para uma regulamentação semelhante à de países que a educação domiciliar para há muitas décadas contam com ensino domiciliar”, diz.

May 20, 202219 min

Ep 709Altamira: crimes e ruínas da floresta

O município mais extenso do país, no sudoeste do Pará, teve 12 assassinatos nas últimas duas semanas, todos com características de execução. Eles ocorrem num contexto de degradação social e ambiental diretamente associado às obras da hidrelétrica de Belo Monte, ao longo da década passada. Nesse período, a taxa local de homicídios se multiplicou por dez, entre outros indicadores deteriorados. Em conversa com Renata Lo Prete, a premiada jornalista Eliane Brum avalia que Altamira representa a vanguarda da destruição da Amazônia. "O que acontece aqui é uma espécie de crise climática localizada", diz ela, hoje moradora da cidade. Também documentarista e escritora, seu livro mais recente é “Banzeiro Okotó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo”, que investiga desastres socioambientais, principalmente na área do Rio Xingu, que banha a cidade. Eliane descreve como vivem, nas periferias, “pobres urbanos” que foram expulsos de suas terras pela construção da usina. “Entender uma cidade amazônica é entender o que são as ruínas da floresta", diz.

May 19, 202228 min

Ep 708Por que a dengue voltou com força

Desde janeiro, o Brasil registrou mais de 700 mil casos, superando o total do ano passado. O aumento de 150% nos registros é revelador do “padrão oscilatório” da doença, explica Claudia Codeço, coordenadora do InfoDengue, serviço da Fiocruz que monitora enfermidades transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti. Segundo a pesquisadora da Fiocruz, o surto de 2022, que já causou 265 mortes, concentra-se numa espécie de corredor que vai “do Tocantins ao oeste de Santa Catarina”. E se deve a fatores que incluem desde a longa temporada de chuvas deste ano, favorável à concentração de água parada, até o empobrecimento da população, que precariza a moradia. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa também com Melissa Falcão, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ela relembra bem-sucedidas campanhas de prevenção que remontam a 1950 - e que hoje fazem falta. “O principal ponto no qual o poder público pode influenciar é a infraestrutura”, diz, mencionando saneamento e coleta de lixo.

May 18, 202215 min