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O Assunto

O Assunto

1,786 episodes — Page 21 of 36

Ep 781A desigualdade na recuperação do emprego

A retomada da atividade depois da fase mais crítica da pandemia conseguiu reduzir o desemprego, embora à custa de recorde na informalidade e com a renda média em patamar muito baixo. Um quadro que pressiona sobretudo os 10% mais pobres: “eles não estão conseguindo mais estabelecer uma estratégia de sobrevivência”, afirma Ricardo Paes de Barros, que trabalhou por mais de 30 anos no Ipea pesquisando pobreza, mercado de trabalho e educação. Neste episódio, que marca os 3 anos de O Assunto, o economista é o convidado de Renata Lo Prete. Também professor do Insper, ele descreve a economia do país como “uma locomotiva que vai partir”, mas na qual o “vagão dos pobres não está conectado e vai ficar para trás”. É por isso, argumenta, que o Estado deve focar suas políticas públicas no conjunto de 20 milhões de pessoas com menor renda. Será necessário desfazer o “tremendo desserviço” patrocinado pelo governo federal, que mantém os dados do CadÚnico desatualizados. É a partir dessas informações que mais de 9 mil assistentes sociais podem chegar àqueles que mais precisam e, em conjunto, definir estratégias para seu futuro. “É obrigação da sociedade dar oportunidade e condição”, afirma, para que essas famílias possam “protagonizar a superação da pobreza”.

Aug 26, 202224 min

Ep 780Europa: uma seca que já entrou para a história

O quadro preocupa desde o início de 2022, mas se agravou muito no verão e sobretudo em agosto, com os termômetros nas alturas. Segundo a Comissão Europeia, a seca deste ano pode superar a de 2018, tornando-se a pior no continente em 500 anos. Em conversa com Renata Lo Prete, o correspondente da TV Globo Leonardo Monteiro descreve as imagens apocalípticas de rios como Elba, Reno, Danúbio e Loire, reduzidos a porção ínfima do volume habitual de água. E conta das surpresas descobertas em seus leitos, como restos de navios da 2ª Guerra. Baseado em Lisboa, o jornalista trata ainda do racionamento enfrentado por milhões de europeus e de perdas que vão da safra de diversos grãos à geração de energia. Participa também do episódio Sérgio Henrique Faria, professor no Centro Basco de Mudanças Climáticas e um dos autores do mais recente relatório do IPCC, painel intergovernamental das Nações Unidas sobre o tema. "Os modelos todos indicam a tendência de mais eventos extremos para as próximas décadas", diz o pesquisador.

Aug 25, 202226 min

Ep 779Empresários bolsonaristas na mira da PF

Na manhã desta terça-feira, oito - entre eles o dono da Havan, Luciano Hang - amanheceram com os agentes na porta. A operação, autorizada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, foi motivada pelo vazamento de conversas do grupo de WhatsApp “Empresários & Política”. Nas mensagens, seus participantes falam em dar bônus a funcionários que votarem de acordo com a orientação dos patrões, lançam descrédito sobre as urnas eletrônicas e defendem ruptura da ordem institucional em caso de derrota do presidente. Na investigação, juntada por Moraes ao inquérito das milícias digitais, apura-se “toda uma estrutura que atenta contra a democracia”, resume Camila Bonfim, jornalista da TV Globo em Brasília e apresentadora do Conexão GloboNews. Ela explica que a PF teria identificado “ação de organização criminosa” mais complexa do que o “simples” discurso golpista, com potencial para financiar crimes contra o Estado democrático de direito. Em conversa com Renata Lo Prete, Camila analisa os pedidos de busca e apreensão, de bloqueio de contas e de quebra de sigilo bancário dos empresários. Analisa ainda a situação do procurador-geral da República diante da operação.

Aug 24, 202224 min

Ep 778O coração emprestado e o sequestro do bicentenário

Em 2020 e 2021, Jair Bolsonaro usou a celebração do 7 de setembro para, respectivamente, fazer pouco da pandemia e ameaçar golpe. Neste ano, quando o Brasil comemora 200 anos de sua Independência, o governo acertou com Portugal o empréstimo do coração de d. Pedro I, a ser recebido com honras de chefe de Estado. "Um órgão morto, tomado como relicário", define a historiadora Lilia Schwarcz, co-autora do livro “O sequestro da Independência: Uma História da Construção do Mito do Sete de Setembro”. Em conversa com Renata Lo Prete, a professora da USP alerta para o fato de que "efemérides são momentos eficientes para que sejam construídas histórias de poder”. Para Lilia, trata-se de um rito para que Bolsonaro avance na pauta de um pretenso “golpe na legalidade”, ou seja, uma situação na qual possa “se vincular, no imaginário, à imagem do imperador”. Não seria a primeira vez, explica a historiadora: na comemoração dos 150 anos da Independência, o governo militar importou a ossada de d. Pedro I. Em ambos os momentos, dois disfarces para a “falta de projeto de país”, mas que agora é também “um golpe final no sequestro dos símbolos brasileiros”.

Aug 23, 202229 min

Ep 777Para entender a sucessão no Rio Grande do Sul

O Estado que jamais deu segundo mandato a um governador tem hoje, na liderança das intenções de voto, o vitorioso de 2018, que no final de março deixou o cargo de olho no Palácio do Planalto, mas acabou de volta à disputa pelo Piratini. Eduardo Leite (PSDB) aparece com 32% na mais recente pesquisa Ipec, seguido por Onyx Lorenzoni (PL), com 19%. Outro bolsonarista, Luis Carlos Heinze (PP), registra 6%, tecnicamente empatado com Edegar Pretto (PT), que tem 7%. É cedo, porém, para considerar o quadro definido, avalia a jornalista Kelly Matos, apresentadora da Rádio Gaúcha e do podcast “Descomplica, Kelly”, dada a tradição local de grandes viradas. Na conversa com Renata Lo Prete, ela lembra que tanto Germano Rigotto (MDB), em 2002, quanto Ieda Crusius (PSDB), em 2006, largaram do patamar de um dígito e venceram. Também colunista do jornal Zero Hora, Kelly tenta mensurar o quanto Leite será cobrado pela “traição” ao compromisso, muitas vezes reiterado, de que não concorreria à reeleição. Fala ainda sobre as situações, no Estado, de Lula (ligeiramente à frente) e Bolsonaro (forte sobretudo no interior). “A eleição nacional está muito presente”, afirma.

Aug 22, 202225 min

Ep 776g1 vai entrevistar candidatos ao governo do DF, da BA, MG, PE, RJ e SP

Série começa na segunda-feira, 22 de agosto. Os candidatos mais bem posicionados na pesquisa Ipec de 15 de agosto serão entrevistados ao vivo, por uma hora. Os demais candidatos participarão de entrevistas gravadas com duração de 20 minutos, sem corte, exibidas até o início de setembro. Todas as entrevistas serão publicadas também em formato podcast em g1.com.br e nas plataformas de áudio. Gostou? Compartilha!

Aug 19, 20220 min

Ep 776A exploração eleitoral da fé

A campanha de Jair Bolsonaro (PL) investe pesado num segmento que o apoiou por ampla margem em 2018 e no qual ainda hoje ele tem vantagem de 17 pontos sobre Lula (PT), que lidera por 15 no quadro geral, segundo o novo Datafolha. A principal porta-voz da retórica messiânica é Michelle Bolsonaro: em culto recente, a primeira-dama chegou a dizer que o Palácio do Planalto era “consagrado a demônios” antes da chegada do marido ao poder. “É uma mensagem com apelo a Deus, à ideia de bons contra maus e à questão dos costumes", diz a jornalista Natália Viana, diretora da Agência Pública. Além de incitação à intolerância religiosa, o que eventualmente pode configurar crime. Em conversa com Renata Lo Prete, a autora da newsletter Xeque na Democracia analisa a tentativa de apresentar o chefe do Executivo como “um homem imperfeito, por meio de quem Deus faz sua ação”. Participa também do episódio o cientista político Victor Araújo, estudioso do eleitorado evangélico. Ele analisa recortes regionais de intenção de voto para explicar, pela via da religião, tanto a larga dianteira de Lula no Nordeste quanto a resiliência de Bolsonaro em Estados de expressiva parcela de evangélicos na população, como o Rio de Janeiro. Para o pesquisador na Universidade de Zurique (Suíça), especialmente o subgrupo pentecostal é “mais conservador e se preocupa mais com a dimensão moral do que com a econômica” na hora de decidir o voto.

Aug 19, 202229 min

Ep 774A ameaça nuclear chamada Zaporizhzhia

Logo nos primeiros dias de invasão, a Rússia se apoderou do complexo que responde por 20% do abastecimento de eletricidade na Ucrânia. Meses de silêncio a respeito se passaram até que, em agosto, começaram os bombardeios no entorno da maior usina nuclear da Europa, reacendendo o trauma da explosão, em 1986, de um dos reatores de Chernobyl, desastre que deixou dezenas de milhares de vítimas e espalhou efeitos ambientais pelo continente. Em conversa com Renata Lo Prete, o professor Vitélio Brustolin, da Universidade Federal Fluminense, destaca o ineditismo do que Vladimir Putin fez em março: “É a primeira vez que uma central nuclear é ocupada e militarizada por uma força invasora”. E diz que o quadro agora pode se revelar ainda mais grave: atacar uma instalação dessas “é crime de guerra”. Daí a troca de acusações entre os governos. Moscou nega responsabilidade, alegando que não teria por que mirar uma usina sob seu controle. Enquanto Kiev sustenta que, “disparando a partir de lá, a Rússia impossibilita revide", explica Brustolin. Para o pesquisador de Harvard, a ONU pouco pode fazer. “É difícil até chegar ali, porque a Rússia impôs várias condições", afirma. Nesta quinta-feira, o secretário-geral, Antonio Guterres, irá à cidade ucraniana de Lviv, mas ainda não existe nada acertado para inspeção independente do local em perigo.

Aug 18, 202225 min

Ep 774Para entender a sucessão em Pernambuco

Entre vários sobrenomes tradicionais da política local, desponta isolado na liderança o de Marília Arraes (Solidariedade), neta de um ex-governador (Miguel Arraes) e prima de outro (Eduardo Campos). “Ela foi a primeira dissidência do grupo” que chegou ao poder em 2007 com Eduardo, explica neste episódio Gerson Camarotti, comentarista da TV Globo e colunista do g1. Enquanto a deputada federal registra 33% na recém-divulgada pesquisa do Ipec, seus principais adversários estão embolados numa faixa que vai dos 11% aos 6%. Aí aparecem, em ordem decrescente, a ex-prefeita de Caruaru Raquel Lyra (PSDB), o ex-prefeito de Jaboatão Anderson Ferreira (PL), o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União Brasil) e o deputado federal Danilo Cabral (PSB) - este último correligionário e candidato do atual governador, Paulo Câmara, em aliança com o PT. Convidado por Renata Lo Prete a analisar a disputa no Estado onde nasceu e iniciou sua trajetória no jornalismo, Camarotti dimensiona o desgaste e as chances de reação dos herdeiros políticos de Campos, morto em acidente de avião quando concorria ao Planalto, em 2014. Numa praça em que Lula (PT) tem hoje mais de 40 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PL), o ex-presidente “é o grande eleitor” e se conduz de maneira pragmática”: formalmente apoia Cabral, mas permite que a ex-petista use seu nome na campanha.

Aug 17, 202224 min

Ep 773Eleições: usos e abusos nas redes sociais

A campanha começa oficialmente nesta terça-feira, mesma data em que o Tribunal Superior Eleitoral troca de comando. Agora sob a presidência do ministro Alexandre de Moraes, o TSE quer se aproveitar da experiência traumática de 2018 para conter a desinformação. Para isso, fechou acordos com diferentes plataformas. Mas, dadas a profusão de conteúdo e a resistência das empresas, o máximo que se consegue é “enxugar gelo”, avalia Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital e professor da USP. Em conversa com Renata Lo Prete, o colunista do jornal O Globo pondera que ataques entre candidatos sempre existiram. A grande novidade é a ofensiva de um deles contra as regras do jogo. “O elemento mais preocupante são os ataques ao sistema eleitoral”, diz. Na disputa entre Lula (PT) e Bolsonaro (PL) nas redes, importa menos o número individual de seguidores e mais o tamanho do exército de influenciadores a serviço de cada um, avalia o pesquisador. Ele também elenca as plataformas que mais preocupam pelo potencial de disseminação de fake news: WhatsApp (dificuldade de rastreamento das mensagens), Facebook (investiu pouco em transparência) e YouTube (comprometimento ainda frágil com a retirada de conteúdo enganoso).

Aug 16, 202223 min

Ep 772Combustíveis em queda no mundo

Pela primeira vez desde fevereiro, quando começou a guerra na Ucrânia, o galão de gasolina ficou abaixo de US$ 4 nos EUA. Reflexo de medidas internas, mas sobretudo do tombo no valor do petróleo no mercado internacional - o barril passou de US$ 120 para menos US$ 100 em questão de semanas. Realidade também na Europa e no Brasil, a inflexão na curva de preços dos derivados tem como pano de fundo “a desaceleração da economia em todo o mundo”, afirma Armando Castelar Pinheiro, pesquisador do FGV-IBRE e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em conversa com Renata Lo Prete, ele analisa o peso da China e de seus gigantescos lockdowns para conter surtos de Covid no quadro de risco de recessão global. E trata do Brasil, onde a equação dos combustíveis passa também, no momento, “pela valorização do real diante do dólar”, além de fatores político-eleitorais. Na semana passada, a Petrobras anunciou novo corte no preço do diesel para as refinarias.

Aug 15, 202219 min

Ep 771Os significados do 11 de agosto

No Largo de São Francisco, milhares de pessoas se reuniram ao redor das arcadas da Faculdade de Direito da USP enquanto, lá dentro, eram lidos dois documentos concebidos em resposta à escalada ofensiva de Jair Bolsonaro contra o sistema eleitoral. Um da Federação das Indústrias de São Paulo e outro - a Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito" - de professores da própria escola. Acompanhando a manifestação in loco, a produtora e roteirista Isabel Seta registrou para este episódio as palavras mais entoadas nas vozes do estudante Igor, de 18 anos, e da aposentada Maria Aparecida, de 81. Todas as capitais e o Distrito Federal organizaram atos para endossar a carta, que já tem mais de 1 milhão de assinaturas. “Caiu o preço para a elite apoiar a democracia”, diz o sociólogo Celso Rocha de Barros sobre a mensagem contida na presença das lideranças tanto da Fiesp quanto da Febraban na cerimônia. “E subiu o preço do golpe”, completa. Convidado de Renata Lo Prete para tirar o saldo deste 11 de agosto, o colunista do jornal Folha de S. Paulo destaca o caráter suprapartidário do evento, que reuniu desde ex-aliados do atual presidente até organizações historicamente ligadas à esquerda. A carta dos juristas vem à luz 45 anos depois de sua versão inspiradora, escrita durante a ditadura. Mas, avalia Celso, os atos desta quinta-feira se assemelham menos aos de 1977 e mais à campanha das Diretas Já, na década seguinte, quando o regime militar estava em seus estertores. Para ele, o sucesso da iniciativa atual mostra a políticos e militares “que estão em dúvida para que lado o vento vai soprar”. “Dar golpe e fracassar não é bom negócio”, conclui.

Aug 12, 202232 min

Ep 770Justiça aperta o cerco contra Trump

A operação realizada por agentes do FBI no endereço do ex-presidente na Flórida joga luz sobre um caso menos comentado que o da invasão do Congresso, porém de maior potencial imediato de dano. O material recolhido em Mar-a-Lago “nem poderia ter deixado a Casa Branca”, diz Guga Chacra, lembrando que, nos EUA, qualquer registro oficial do presidente é considerado bem público e deve permanecer no Arquivo Nacional. Desaparecer com esses documentos pode resultar até em inelegibilidade. Para o comentarista da TV Globo em Nova York, também colunista do jornal O Globo, essa ação inédita dificilmente teria sido autorizada “sem evidência de crime”. Na conversa com Renata Lo Prete, o jornalista recapitula as diferentes apurações em curso contra Donald Trump - em depoimento nesta 4ª feira em Nova York, o ex-presidente invocou a 5ª emenda à Constituição para não responder perguntas sobre suspeitas de fraude em seus negócios privados. Passando da polícia à política, Guga analisa o domínio de Trump sobre o Partido Republicano e o que ameaça rompê-lo. E avalia se o ex-presidente está hoje mais perto da cadeia, do impedimento eleitoral ou de uma nova candidatura à Casa Branca.

Aug 11, 202224 min

Ep 769TSE e militares: freio de arrumação

A Justiça Eleitoral vinha reagindo apenas com esclarecimentos e declarações de princípios aos questionamentos infundados de militares, estimulados por Jair Bolsonaro, às urnas eletrônicas. Mas agora decidiu que isso não basta: flagrado espalhando fake news sobre elas, o coronel Ricardo Sant’Anna foi expulso do grupo formado para verificar a programação das máquinas de votar. Em conversa com Renata Lo Prete, o repórter Marcelo Godoy, do jornal O Estado de S. Paulo, explica que as postagens de Sant’Anna ferem o regulamento disciplinar do Exército, o Estatuto do Militar e portaria do Ministério da Defesa. Para Godoy, que cobre a área há muitos anos, não se trata de caso isolado. “Existe larga contaminação das Forças Armadas pelo bolsonarismo”, diz. O episódio conta ainda com a participação de Marina Dias, autora de reportagem na revista Piauí sobre as providências tomadas pelo TSE para salvaguardar a integridade do processo. “Quanto às sugestões dos militares, a Corte considera que tudo o que poderia ser incorporado já foi”, afirma a jornalista. “As respostas foram dadas, são públicas. Os militares insistem porque isso faz parte do jogo de tentar desacreditar.” Marina também analisa a iminente troca de comando no tribunal - na próxima semana, Fachin será sucedido por Alexandre de Moraes.

Aug 10, 202221 min

Ep 768Eleição: como fica a economia no dia seguinte

A escalada golpista do presidente da República acordou a sociedade civil para o imperativo de defender as instituições e o sistema de votação. Em paralelo, seis especialistas com larga experiência no setor público lançam agora um documento intitulado “Contribuições para um Governo Democrático e Progressista”. Um de seus autores, Bernard Appy, diz a Renata Lo Prete que a perspectiva de um cenário internacional adverso e a fatura da irresponsabilidade eleitoreira da atual gestão desenham um 2023 “muito desafiador”. Lula, observa o ex-número 2 da Fazenda na administração do petista, “errou” ao qualificar como “herança maldita” o legado do tucano Fernando Henrique Cardoso. Maldita, afirma, será a herança deixada por Jair Bolsonaro. Em resposta, Appy e colegas (os também economistas Persio Arida, Marcelo Medeiros e Francisco Gaetani, o cientista político Sergio Fausto e o advogado Carlos Ari Sundfeld) propõem, entre outras medidas, uma “política fiscal de transição” para os próximos 4 anos, que não abandone de todo o teto de gastos, mas permita um excedente (1% do PIB) a ser destinado a políticas de distribuição de renda e investimentos em ciência e proteção ambiental. No capítulo tributário, uma das ênfases é em mudanças “que estimulem a formalização dos trabalhadores”. O diretor do Centro de Cidadania Fiscal também explica por que o documento será entregue a todos os candidatos ao Planalto menos Bolsonaro: “A defesa do Estado democrático de direito é pressuposto básico” da iniciativa.

Aug 9, 202222 min

Ep 767Para entender a sucessão em MG

O atual governador, Romeu Zema (Novo), lidera com folga as pesquisas. Seu único adversário competitivo, Alexandre Kalil (PSD), deixou o segundo mandato como prefeito de Belo Horizonte para concorrer. Ambos sem origem na política tradicional, conhecidos do público e bem-avaliados , eles se enfrentam em um duelo “de caráter local muito forte”, explica o mineiro Bruno Carazza, colunista do jornal Valor Econômico e autor do livro “Dinheiro, Eleições e Poder”. Isso leva, segundo o economista, a uma polarização “de dentro para fora”, ao contrário do que acontece em outros Estados. Zema, que em 2018 surfou a onda bolsonarista, agora procura manter distância da rejeição ao presidente, que se viu obrigado a patrocinar um candidato até aqui inexpressivo (Carlos Viana, do PL) para não ficar sem palanque no segundo maior colégio eleitoral do país. Já Kalil espera contar com a dianteira do aliado Lula no Estado para ao menos levar a disputa com Zema a um segundo turno. Para os dois protagonistas da corrida nacional, há muito em jogo ali: desde a redemocratização, ninguém se elegeu ao Planalto sem vencer em Minas.

Aug 8, 202221 min

Ep 766EXTRA: Jô Soares, gênio de múltiplos talentos

Uma história que se confunde com a da televisão brasileira, na qual ele teve duas grandes “encarnações”: a dos programas humorísticos, dos quais saíram personagens e bordões eternizados na memória do público; e a do apresentador de “talk show” que entrevistava com igual habilidade notáveis e desconhecidos. Mas Jô Soares, morto nesta sexta-feira aos 84 anos, foi muito mais: homem de teatro, tradutor, artista plástico, escritor de sucesso e, em todos os ofícios que abraçou, um eterno curioso. “Quando ele se interessava por um assunto, virava professor”, conta Matinas Suzuki Jr., co-autor do livro de memórias do artista. Em conversa com Renata Lo Prete neste episódio especial, ele relembra marcos e casos curiosos de uma carreira que se estendeu por mais de seis décadas. “Jô tinha uma vida maior que a vida”, afirma o jornalista, diretor de operações da editora Companhia das Letras. “A partida dele é reveladora de um país que perdeu graça, charme e humanidade", conclui. O episódio inclui áudios do jornal O Globo, do programa #Provoca (TV Cultura), do SBT e do canal de Drauzio Varella.

Aug 6, 202232 min

Ep 765A armadilha do consignado com Auxílio Brasil

Em novo capítulo do vale-tudo rumo às urnas, Jair Bolsonaro acaba de sancionar medida provisória que permite comprometer até 40% do benefício com o pagamento dessa modalidade de empréstimo. E sem limite para os juros cobrados. Um combinado explosivo para famílias que mal conseguem se alimentar com os R$ 400 mensais, elevados para R$ 600 somente até o final do ano, alerta Ione Amorim, coordenadora do Programa de Serviços Financeiros do Instituto de Defesa do Consumidor. Para esse segmento, caberiam linhas de crédito emergenciais, “mas com orientação e em outras condições”, afirma a economista. O modelo adotado “atende aos interesses do sistema bancário” em prejuízo dos mais vulneráveis, lançados na espiral de endividamento que assola o país. “O nome disso é estelionato eleitoral”, resume Flávia Oliveira, comentarista da GloboNews e colunista do jornal O Globo e da rádio CBN. Na conversa com Renata Lo Prete, ela enumera várias iniciativas do governo com o mesmo propósito, como as “bondades” temporárias aprovadas na PEC Kamikaze. Sobre a mais recente delas, a jornalista conclui: “A população pobre precisa de assistência social, não de empréstimo”.

Aug 5, 202228 min

Ep 764BR-319, nova fronteira da devastação

Nem metade da rodovia concebida na ditadura militar para ligar os 885 km entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO) saiu do papel. E o que saiu está em péssimas condições, oferecendo todo tipo de perigo aos motoristas. Apesar do custo bilionário, é o único projeto desse porte “que jamais teve estudo de viabilidade econômica”, observa o norte-americano Philip Fearnside, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Abandonado por décadas devido a sua inviabilidade, ele recebeu apoio de Jair Bolsonaro desde o início do mandato, e agora o Ibama emitiu licença prévia para a pavimentação dos 400 km centrais do trajeto, que atravessam ou margeiam terras indígenas e áreas de conservação. Na conversa com Renata Lo Prete, Fearnside alerta para o efeito “catastrófico” que a obra terá sobre um dos últimos grandes maciços verdes da floresta. A simples perspectiva de sua realização fez disparar a grilagem de terras públicas e o desmatamento no entorno, além de estimular o surgimento de estradas secundárias ilegais, em processo conhecido como “espinha de peixe”. O pesquisador, integrante do time que recebeu o Nobel da Paz por estudos feitos com o Painel sobre Mudanças Climáticas da ONU, lembra ainda que está “tudo conectado”, ou seja, as consequências são para o Brasil inteiro e para o mundo.

Aug 4, 202223 min

Ep 763Pelosi em Taiwan, e a tensão entre EUA e China

A visita da presidente da Câmara dos EUA foi a primeira de uma alta autoridade norte-americana em 25 anos. Atitude avaliada como uma provocação, já que Taiwan é considerado território chinês por Pequim. A escalada de tensão é um dos piores momentos da relação desde a separação provocada pela Revolução Chinesa (1949), quando “Taiwan passa a ser uma ilha rebelde”, explica o embaixador aposentado Fausto Godoy. Coordenador do Centro de Estudos das Civilizações da Ásia da ESPM, Godoy analisa em conversa com Natuza Nery que um conflito “não interessa” a nenhuma das partes. Ele, que já morou nas capitais dos dois países, diz que o confronto mancharia a imagem chinesa e seria prejudicial ao governo de Taipei, dependente economicamente de Pequim. Em relação aos EUA, Fausto analisa como a decisão de Pelosi diz muito mais sobre política interna do que externa. “Ela precisa manter a cara do partido Democrata” de olho nas eleições de meio de mandato, quando o partido pode perder maioria no Congresso.

Aug 3, 202223 min

Ep 762Varíola dos macacos: o tamanho da crise

Há cerca de 2 meses, eram 200 casos notificados no mundo, nenhum deles por aqui. Hoje, são mais de 20 mil em 78 países, o que levou a Organização Mundial da Saúde a uma rara declaração de “emergência global". E o Brasil, que está entre os mais atingidos, registrou sua primeira morte. Em entrevista a Renata Lo Prete, a epidemiologista Denise Garrett explica as falhas que permitiram a disseminação de uma doença conhecida em regiões da África desde os anos 70 e para a qual existe vacina. “Não temos visto ações coordenadas de contenção", diz a vice-presidente do Instituto Sabin, que atuou por duas décadas no Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Lá, a burocracia tem atrasado o acesso dos pacientes mais vulneráveis, que sofrem com dores e lesões no corpo, ao antiviral disponível. Enquanto no Brasil o Ministério da Saúde repete condutas que muito nos custaram na pandemia, como demora em adquirir vacinas, pouca atenção à testagem e escassez de campanhas de esclarecimento. “Quando se trata de uma doença infecciosa”, observa Denise, “semanas, dias até, fazem muita diferença”. Embora seja um meio de transmissão recorrente no momento, “esta não é uma doença de homens que fazem sexo com homens”, alerta Denise, lembrando que crianças estão entre os grupos de risco. “O estigma só atrapalha o enfrentamento”.

Aug 2, 202225 min

Ep 761Urna eletrônica: uma história de inclusão

Em 1532, quando ocorreu a primeira eleição de que se tem notícia no Brasil, habitantes de São Vicente (SP) cochichavam para o escrivão os nomes de seus escolhidos para a Câmara Municipal. Desde então, foi um longo caminho até o sistema seguro, eficiente e universal que temos hoje. Em conversa com Renata Lo Prete, o cientista político Marcus André Melo identifica momentos-chave dessa trajetória, como a introdução do voto secreto (1932) e a adoção da cédula oficial (1955). Explica termos reveladores da profusão de fraudes no Império e na República Velha, como “fósforos” (eleitores fantasmas) e “chapa de caixão” (cédula falsa). E analisa a revolução emancipatória promovida pela urna eletrônica, que estreou em 1996. “O Brasil era campeão de voto inválido”, lembra o professor da Universidade Federal de Pernambuco. A taxa, que chegou a superar 40% na eleição para deputado federal em 1990, caiu para cerca de 7% em 2000, e desde então se manteve relativamente estável. Para completar, até hoje não se identificou caso de fraude com a urna eletrônica, e o fim da necessidade de escrever na cédula “encorajou a participação” do eleitor menos instruído. O direito ao voto, que será exercitado mais uma vez em outubro, “ganhou concretude".

Aug 1, 202223 min

Ep 760Origem do coronavírus: novas evidências

Dois estudos recém-publicados na revista “Science” reforçam a hipótese de que um mercado da cidade chinesa de Wuhan foi o marco zero da doença que já matou mais de 6 milhões de pessoas desde o final de 2019. A parte do estabelecimento na qual os cientistas encontraram o SarsCov2 é justamente aquela “onde eram vendidos animais silvestres vivos”, explica o repórter da TV Globo Álvaro Pereira Júnior, indicando a probabilidade de que o vírus tenha mesmo “saltado” de uma dessas espécies para humanos. Diretor de três documentários do Globoplay sobre a pandemia, é ele quem apresenta, neste episódio, as principais conclusões dos dois estudos, além de apontar incógnitas que permanecem. Uma delas é qual teria sido exatamente o animal intermediário. Outra, a “pré-história” da doença: os pesquisadores “sabem o que aconteceu do mercado para frente, mas não do mercado para trás", resume Álvaro. Por isso, embora enfraquecida, ainda não está de todo descartada a possibilidade de “vazamento” do vírus de um laboratório situado a algumas milhas do mercado. Participa também o virologista Gúbio Soares, da Universidade Federal da Bahia, que destaca a elevada habilidade do SarsCov2 para driblar nosso sistema imunológico.

Jul 29, 202225 min

Ep 759Não ao autoritarismo: em 1977 e hoje

Quarenta e cinco anos depois da “Carta aos Brasileiros”, um documento com o mesmo espírito, igualmente nascido na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, reage à erosão de conquistas duramente alcançadas e às investidas golpistas do presidente da República. Para comparar as duas iniciativas e a conjuntura que as produziu, Renata Lo Prete recebe dois signatários da peça que começou a circular nesta terça-feira e já alcançou mais de 160 mil adesões - de empresários, intelectuais, artistas e quase uma dezena de ex-ministros do Supremo. O advogado criminalista José Carlos Dias, que foi ministro da Justiça e atualmente preside a Comissão Arns, fala com a experiência de quem teve papel decisivo na articulação da carta original. Ele a descreve como “um laudo” da ditadura militar, que contribuiu para galvanizar a sociedade civil e expor as arbitrariedades do regime. “Hoje, aos 83 anos, me vejo obrigado a continuar nesta luta", diz, emocionado. Participa também do episódio Conrado Hübner Mendes, professor de Direito Constitucional da USP. Ele destaca a rápida expansão do novo documento para além das fronteiras da comunidade jurídica, o que atribui à gravidade do momento. “A ficha está caindo tarde”, avalia. E “o alarme, soando muito alto”.

Jul 28, 202228 min

Ep 758A Europa cansada da guerra

Na maior economia da região, o chanceler Olaf Scholz avisou que o vertiginoso aumento nos preços da energia será repassado ao consumidor. A dificuldade dos países do bloco até chegar a uma meta (opcional) de redução no consumo de gás natural expõe a falta de consenso sobre como lidar com a Rússia, principal fornecedora, decorridos cinco meses da invasão à Ucrânia. Para analisar esse quadro e as perspectivas do conflito, Renata Lo Prete recebe Tanguy Baghdadi, professor de Relações Internacionais na Universidade Veiga de Almeida e fundador do podcast Petit Journal. “Quando a Alemanha faz um movimento como esse, dá a senha para outros governos admitirem que não estão conseguindo arcar com as consequências da guerra”, ele afirma. Tanguy trata também das incertezas em torno do acordo mediado pela Turquia para liberar os grãos retidos na Ucrânia - um dia depois do anúncio, os russos bombardearam o porto de Odessa.

Jul 27, 202225 min

Ep 757Lula x Bolsonaro: fase pós-convenções

Em contraste com a cerimônia quase protocolar realizada pelo PT três dias antes em São Paulo, o PL promoveu um megaevento no Maracanazinho para formalizar a candidatura do atual presidente da República. Em seu discurso, Jair Bolsonaro mirou claramente três grupos, avalia o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria: “militares, evangélicos e agro”. A aposta no núcleo de sua base de apoiadores tem uma explicação: “a eleição racional é ruim para o presidente”, observa o professor da Universidade Federal de Minas Gerais. “Ele depende de uma que seja emotiva." Na conversa com Renata Lo Prete, Felipe chama a atenção para a peculiaridade da disputa entre um presidente e um ex-ocupante do cargo - primeiro e segundo colocados, respectivamente, em quadro há muito tempo estável. “No fundo, o eleitor vai decidir a quem ele vai dar uma nova chance", diz. Por isso, Felipe explica, “medo, merecimento e rejeição” são sentimentos do eleitorado importantes de monitorar. No entender do cientista político, será preciso esperar até meados de agosto, pelo menos, para mensurar quanto benefício Bolsonaro conseguirá extrair do novo valor do Auxílio Brasil (R$ 600) e de outras medidas que visam conquistar o voto dos mais pobres, hoje predominantemente com Lula.

Jul 26, 202225 min

Ep 756Caso Codevasf: onde e quem ele pega

A descoberta, pela Polícia Federal, de um esquema de lavagem e desvio de dinheiro na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba joga luz sobre pelo menos três questões. Primeiro, mudanças promovidas na estatal sob o governo Bolsonaro para aumentar sua área de atuação e mudar a natureza dos serviços prestados, com ênfase em obras de pavimentação. Depois, o controle que políticos do Centrão passaram a exercer ali. Por fim, a multiplicação de recursos do Orçamento Secreto destinados à companhia. Em conversa com Renata Lo Prete, a jornalista Maria Cristina Fernandes detalha as investigações, no momento voltadas para a empreiteira ConstruService -fraudando processos licitatórios, ela se tornou onipresente em contratos da Codevasf no Maranhão. A repórter especial do Valor Econômico, também comentarista da rádio CBN, observa que o escândalo atinge o principal eixo de sustentação de Jair Bolsonaro: o presidente da Câmara. Arthur Lira (PP-AL), avalia a jornalista, vê comprometida sua capacidade de entregar tudo o que prometeu a aliados na Casa. E de atuar como “mediador de conflito” na mais recente crise armada pelo presidente da República, ao mentir sobre as urnas eletrônicas diante da comunidade internacional.

Jul 25, 202220 min

Ep 755Eleições 2022: segurança dos candidatos

2018 ficou marcado pelo atentado contra aquele que terminou vitorioso na disputa pela Presidência da República. Quatro anos depois, a campanha oficial nem começou, e os casos de violência escalam em frequência e gravidade. No mais recente, um apoiador de Jair Bolsonaro (PL) assassinou o tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu. Agora, com a temporada de convenções partidárias, entra em cena a Polícia Federal, que passa a ser responsável pela proteção dos candidatos ao Planalto. Em conversa com Renata Lo Prete, o diretor-executivo da PF, Sandro Avelar, explica os critérios que pautam a análise de risco usada para definir o tamanho do aparato de cada um - Lula e Bolsonaro são colocados no ponto máximo de uma escala que vai de 1 a 5. O delegado também detalha contingente, equipamentos e recursos disponíveis. Da segunda parte do episódio participa Renato Sergio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, a eleição deste ano “será a mais complexa no que diz respeito à segurança".

Jul 22, 202225 min

Ep 753Como enquadrar o show do Alvorada

Usar a estrutura do governo para fazer campanha antecipada. Mentir sobre as urnas eletrônicas. Tentar impedir o exercício de direitos e a atuação dos Poderes. Incitar as Forças Armadas contra instituições civis. Tudo vedado por dispositivos que vão da Constituição Federal às regras eleitorais, passando pela Lei do Impeachment. Tudo passível de punição - e, no entanto, presente com abundância de indícios no evento para o qual Jair Bolsonaro convocou embaixadores de dezenas de países. Para esclarecer, ponto a ponto, os crimes em que o presidente da República pode ter incorrido e que consequências eles acarretam, O Assunto ouve dois especialistas. “A convocação do aparato estatal para fazer propaganda negativa dos adversários” está caracterizada, avalia Luiz Fernando Pereira, coordenador-geral da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Política. Mais comprometedor, porém, “é o conteúdo da fala” de Bolsonaro. O advogado lembra que vivemos em um “novo ambiente no Brasil a partir do julgamento do caso Francischini” - o deputado estadual que perdeu o mandato e se tornou inelegível por divulgar informações falsas contra o sistema de votação. Para Eloisa Machado, professora de Direito Constitucional da FGV, o país “tem um arcabouço jurídico capaz de dar conta dessas condutas do presidente”. O que se espera, diz ela, é que “as instituições incumbidas de aplicar a lei tenham condições de fazê-lo quando o momento chegar”.

Jul 21, 202224 min

Ep 753A mentira de Bolsonaro vista de fora

A convocação de embaixadores de dezenas de países ao Palácio da Alvorada para ouvir 50 minutos de acusações infundadas às urnas eletrônicas faz crescer, na comunidade internacional, a expectativa de reprise do caso Trump: o presidente brasileiro seria o próximo a contestar a eventual derrota. Com um agravante que não passou despercebido aos presentes: Jair Bolsonaro lançou no evento também a ameaça de sabotar o calendário eleitoral, melando o jogo antes do primeiro turno. Em paralelo à ampla reação interna, a repercussão externa da nova investida golpista foi a pior possível. O presidente segue “um roteiro bastante visível" para outros governantes, diz Oliver Stuenkel. Na percepção deles, uma transição de poder sem incidentes no Brasil é “cada vez mais improvável”. Na conversa com Renata Lo Prete, o professor de Relações Internacionais da FGV-SP relata o que tem ouvido de diplomatas na Europa e nos EUA - cuja representação em Brasília divulgou, nesta terça, nota na qual afirma que as eleições brasileiras são “exemplo para o mundo”. E discute a incógnita sobre o que farão as Forças Armadas caso Bolsonaro insista em tentar uma ruptura institucional.

Jul 20, 202225 min

Ep 752Os alertas climáticos que vêm do Norte

A violenta onda de calor na Europa já matou mais de mil de pessoas e desalojou em torno de 20 mil, sobretudo devido aos incêndios florestais. Em Portugal, o termômetro alcançou assustadores 47°C. E no Reino Unido os londrinos foram orientados a evitar o metrô. Segundo a autoridade meteorológica do país, “a infraestrutura e o estilo de vida” dos britânicos não estão adaptados à nova realidade climática. Para o pesquisador do Inpe Lincoln Muniz Alves, são eventos extremos cada vez mais frequentes, que antecipam previsões sombrias da ciência sobre o aquecimento do planeta. Em conversa com Renata Lo Prete, ele aponta a longa e destruidora temporada de chuvas deste ano no Brasil como outro sintoma. E fala da urgência em transformar a atitude de cada um -não só de governos e empresas. Participa também do episódio Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima, para tratar do fator EUA. Enquanto a Europa arde, do outro lado do Atlântico o governo de Joe Biden assiste à erosão de seu ambicioso plano verde. Primeiro, foi uma decisão da Suprema Corte. Agora, um revés pesado no Congresso. Tudo somado, tornou-se praticamente impossível o país cumprir a meta de cortar 50% das emissões de gases do efeito estufa até 2030. O jornalista analisa a situação de Biden: “É como entrar em uma guerra na qual, em vez de te equipar, suas forças auxiliares vão tirando o seu capacete, o seu fuzil e o seu uniforme".

Jul 19, 202225 min

Ep 751Para entender a sucessão no Rio

Cinco ex-governadores presos no passado recente. O atual herdou a cadeira do titular da chapa vitoriosa em 2018, alvo de impeachment. Crises agudas na economia e na segurança pública. E um desenho de disputa que espelha a polarização do quadro nacional. No terceiro maior colégio eleitoral do país, o incumbente Cláudio Castro (PL) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSB) estão tecnicamente empatados, segundo o Datafolha mais recente. "O Rio é o berço político de Bolsonaro, das milícias e da mistura entre religião e política no país", contextualiza o jornalista Bernardo Mello Franco. Na conversa com Renata Lo Prete, o colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN analisa as situações de Castro e Freixo. O primeiro tem o apoio de mais de uma dezena de partidos na Assembleia e “a máquina na mão”. O segundo aposta na associação com Lula e no caminho que vem fazendo para “tentar conciliar tudo” e superar “a pecha de radical”. Apesar da distância de ambos para os demais concorrentes, Bernardo não descarta surpresas: "A soma de brancos, nulos e indecisos está em 30%. Se a eleição fosse hoje, o vencedor seria... ninguém".

Jul 18, 202225 min

Ep 750Arthur Lira, senhor dos recursos e do regimento

Herdeiro de um clã político de Alagoas, ele chegou à Câmara em 2011 e começou a ganhar projeção quatro anos depois, na era Eduardo Cunha (MDB). Em 2021, conquistou o comando da Casa em aliança estreita com Jair Bolsonaro - que nunca mais teve de se preocupar com pedidos de impeachment. Além da blindagem do Executivo, marcam a presidência de Lira a consolidação do Orçamento Secreto e o rolo compressor para aprovar matérias ao arrepio do regimento interno -como ocorreu agora, com a chamada PEC Kamikaze. Sobre a primeira questão, Renata Lo Prete conversa com Paulo Celso Pereira, editor-executivo dos jornais O Globo e Extra e da revista Época. É ele quem explica o controle de Lira sobre as “emendas do relator” e o poder que isso lhe dá. Na avaliação do jornalista, o que Lira faz no momento é se preparar tanto para a hipótese de vitória de Lula quanto para a de reeleição de Bolsonaro. “Ele tem clareza de que são cenários distintos, mas tentará ganhar em todos eles”, afirma. Para falar do modus operandi do presidente da Câmara, a convidada é Beatriz Rey. Segundo a cientista política, o deputado do PP atropela de pelo menos duas maneiras: “desrespeitando regras regimentais” e criando novas por meio da “promulgação de atos da Mesa Diretora”. Lira, ela diz, “age no detalhe do processo legislativo”.

Jul 15, 202228 min

Ep 749O Orçamento Secreto no mundo real

Ao aprovar, nesta semana, a LDO de 2023, o Congresso não apenas garantiu longa vida às emendas do relator como ampliou ainda mais o controle da cúpula parlamentar sobre esses recursos, que chegarão a R$ 19 bilhões no ano que vem. Boa hora, portanto, para verificar o que está acontecendo na ponta com dinheiro público alocado sem identificação do deputado ou senador responsável nem possibilidade de controle. Com esta missão, O Assunto recebe Breno Pires, autor de reportagem na revista Piauí que conecta as emendas da sigla RP9 a um esquema para fraudar a destinação de recursos da saúde. Nesse trabalho, o jornalista percorreu o Maranhão, estado onde ficam 23 dos 30 municípios do país mais agraciados com repasses para atendimentos de média e alta complexidade. De perto, ele constatou falsificações exorbitantes dos números de serviços supostamente prestados, que contrastam com carências de todo tipo no atendimento à população. Tudo com “coordenação superior" dos senhores do Orçamento Secreto em Brasília. E às custas dos “mais vulneráveis”, que esses parlamentares tanto gostam de invocar. “O saldo de tudo isso é que falta dinheiro onde realmente precisa”, diz Breno.

Jul 14, 202227 min

Ep 748Crimes de ódio: ameaça à democracia

O assassinato de um tesoureiro do PT, durante uma festa de família, por um apoiador de Jair Bolsonaro foi “induzido” não apenas por falas do presidente, mas pela “máquina” de agressão de natureza política que prosperou no Brasil sob seu governo. É o que sustenta o sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da USP. Na conversa com Renata Lo Prete, ele relembra eventos violentos que precederam a morte de Marcelo Aloísio de Arruda em Foz do Iguaçu e afirma ser impossível dissociá-los da proliferação de armas estimulada por Bolsonaro e família. Diz ainda que a sociedade precisa estar de “prontidão” para reagir a uma eventual tentativa do Planalto de usar atentados como o de sábado como pretexto para insinuar qualquer mudança no calendário eleitoral. Participa também do episódio Anielle Franco, irmã de Marielle e diretora do instituto que leva o nome da vereadora executada em 2018 - crime do qual até hoje não se conhece o mandante. Como se isso não bastasse, quatro anos depois a família ainda convive com “tentativas de assassinar a reputação de Marielle”.

Jul 13, 202230 min

Ep 747ESPECIAL: Renata Lo Prete entrevista André Janones

Pré-candidato pelo Avante, o deputado federal por MG anuncia que, caso assuma a Presidência, irá implementar um programa de transferência de renda emergencial para atender à população mais pobre, seguindo os mesmos critérios do extinto Bolsa Família e ao custo de até R$ 400 bilhões anuais: “é o meio mais confiável de buscar a justiça social”. Para financiar esta que é sua principal bandeira eleitoral, ele acrescenta a necessidade de uma “verdadeira reforma tributária” que inclua taxação de lucros e dividendos, imposto sobre grandes fortunas e redução de subsídios. Para Janones, o Brasil vive uma “falsa polarização” entre dois candidatos com altos índices de rejeição, mas adianta que, caso não esteja no 2º turno, estará “do lado oposto ao do atual presidente, ao lado da democracia”. Questionado sobre a PEC Kamikaze, o pré-candidato diz que nem Jair Bolsonaro nem o Congresso deixam claro que os benefícios a serem ampliados acabam no fim de 2022. Aos 38 anos, André Janones concorre pela 1ª vez à Presidência. O Assunto apresentou a primeira rodada de entrevistas do jornalismo da Globo nas eleições deste ano. O encontro de 1h30 de duração foi transmitido ao vivo pelo g1 na tarde da segunda-feira (11) e publicado na íntegra como episódio especial do Assunto. Foram chamados os cinco pré-candidatos com melhor pontuação na pesquisa Datafolha do dia 26 de maio. A campanha do presidente Jair Bolsonaro, do PL, não chegou a enviar representante ao sorteio da ordem. A do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enviou. Nenhuma das duas confirmou presença até a data-limite, 3 de junho. Ciro Gomes (PDT) foi entrevistado em 13 de junho, e Simone Tebet (MDB) em 20 de junho.

Jul 11, 20221h 33m

Ep 746Para entender a sucessão em SP

A recém-anunciada saída de Márcio França (PSB) tende a afunilar a disputa pelo comando do Estado mais rico e populoso do país em três nomes: Fernando Haddad (PT), que hoje lidera com folga as pesquisas, e os tecnicamente empatados Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Rodrigo Garcia (PSDB). “É corrida de chegada, não de largada", adverte o jornalista Fábio Zambeli, lembrando que o petista já é amplamente conhecido, ao contrário dos outros dois. Peculiar, também, porque nem todos têm padrinho: enquanto Haddad se escora em Lula, e Tarcísio é obra de Bolsonaro, Garcia, ocupante do cargo, luta para se desvincular do desgastado antecessor, João Doria, e afastar o fantasma de Geraldo Alckmin -personificação do PSDB para o eleitor paulista, o ex-governador migrou para o PSB e estará no palanque de Haddad. Na conversa com Renata Lo Prete, o analista-chefe da plataforma Jota em São Paulo analisa os possíveis efeitos do “fator Alckmin” e os movimentos de Lula e Bolsonaro em território no qual competem de forma mais acirrada do que na média nacional. Para o ex-presidente, “já seria vitória” ver seu candidato no segundo turno. Para o atual, seu ex-ministro da Infraestrutura, de perfil menos belicoso do que o chefe, pode ser isca para recuperar votos perdidos no Estado. Zambeli contempla a possibilidade de “fim de uma era” -jamais o PSDB esteve sob tanto risco de perder seu reduto de quase três décadas. Mas considera prematura qualquer previsão de resultado, levando em conta que serão quase "duas eleições distintas": a que se desenrola na capital e na Grande SP, onde o voto é pendular ao longo dos anos, e a do interior, tradicionalmente à direita.

Jul 11, 202224 min

Ep 745As armadilhas do cigarro eletrônico

Tecnológico, mais bonito e com melhor aroma que a versão tradicional, os vaporizadores atraíram os jovens. Estudos recentes das universidades federais de Minas Gerais e de Pelotas apontam que aproximadamente um a cada cinco jovens entre 13 e 24 anos já experimentou pelo menos uma vez o aparelho – embora sua comercialização seja proibida desde 2009. E, nesta semana, a proibição da venda foi mantida pela Anvisa, em uma decisão unânime. “É uma lenda urbana que o cigarro eletrônico seja um redutor de danos”, afirma Jaqueline Scholz, professora livre docente da Faculdade de Medicina da USP e diretora do programa de treinamento contra tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. Entrevistada por Natuza Nery neste episódio, a cardiologista chama a atenção para “a rapidez e a intensidade com que a dependência da nicotina se instala nos usuários desse produto”. Um exemplo é o da cantora Solange Almeida, que relata seu caso em depoimento neste episódio, dizendo que o uso comprometeu até sua voz. A médica Jaqueline Scholz conta que já atende adolescentes com níveis de nicotina tão altos quanto de adultos fumantes e já se sabe das consequências do consumo nos países onde é legalizado: a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares é semelhante ao do cigarro comum, “com a diferença de ser em faixa etária mais nova”. Jaqueline comenta também sobre como a indústria tabagista vem tentando reverter o “marketing falido” dos cigarros convencionais e a pressão do lobby sobre legisladores e médicos.

Jul 8, 202220 min

Ep 744A queda de Boris Johnson

O primeiro-ministro do Reino Unido perdeu, apenas nos últimos dois dias, mais de 40 integrantes de seu governo. A debandada e as críticas crescentes de aliados do próprio partido vêm após a revelação de que Boris Johnson sabia desde 2019 das denúncias de abuso sexual contra um de seus aliados e que, mesmo assim, o promoveu e disse não saber de nada. A nova crise é apenas mais uma da série de inverdades descobertas sobre o mandato do premiê conservador, conta o jornalista Ernani Lemos, chefe do escritório da Globo na Europa. Em conversa com Natuza Nery direto de Londres, Ernani descreve o premiê como um "narcisista inveterado". Considerado oportunista pela opinião pública, o que explica parte de sua resiliência, está também o desprendimento em descartar aliados de acordo com a conveniência. “As escolhas dele foram mostrando que o projeto era só de poder”, explica. Segundo Ernani o futuro do arranjo do comando britânico é imprevisível, pelas características do líder do Partido Conservador. Mas nenhuma mudança de rumo a curto prazo é provável, mesmo após a saída do premiê. Em posições urgentes, como a guerra da Ucrânia, relação com União Europeia e o combate à pandemia, os partidos são unidos: “o país deve continuar na mesma direção, independente de quem seja o comandante", conclui.

Jul 7, 202221 min

Ep 743A crise Argentina aprofundada

Inflação acumulada na casa dos 60% e a moeda em desvalorização recorde perante o dólar. Junto com o cenário de deterioração econômica, o país vive o conflito entre o presidente Alberto Fernández e a vice, Cristina Kirchner – rixa que atingiu o ápice nos últimos dias, com a renúncia do ministro da Economia ao mesmo tempo em que Cristina fazia um discurso criticando a política econômica do país. “O governo está paralisado”, resume Janaína Figueiredo em conversa com Natuza Nery neste episódio. Repórter especial do jornal O Globo, Janaína descreve a “epidemia da desilusão” vivida em solo argentino. Direto de Buenos Aires, ela narra como a população busca trabalho fora do país, para receber em outras moedas. E relembra como o conflito entre presidente e vice é antigo (passando pelas eleições legislativas de 2021) - retomando um atrito do primeiro governo Kirchner, ainda em 2008. Ao lembrar a escolha de uma aliada de Cristina para comandar a economia, pontua como, no meio da crise, está o acordo com o FMI. Apoiado pelo presidente, o acordo agora não tem garantias de ser cumprido, diante de um Banco Central “zerado” de reservas.

Jul 6, 202224 min

Ep 742Vale do Javari: hoje e 20 anos atrás

Na passagem de um mês dos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Philips, O Assunto ouve quem conheceu a região e o agora assassino confesso Amarildo de Oliveira em 2002, quando foi realizada a última grande expedição indigenista por lá, para conter invasões a territórios de povos isolados. Então com 21 anos, Pelado, como é conhecido, foi um dos guias na jornada de 105 dias, ajudando também na construção de canoas, conta Leonencio Nossa, repórter do jornal O Estado de S. Paulo e autor do livro “Homens Invisíveis” (2007), no qual relata essa viagem. Refletindo sobre a trajetória do ribeirinho, ele fala do ambiente: “O crime avançou muito”, com o narcotráfico passando a patrocinar pesca e garimpo ilegais e a ter ascendência sobre a representação política local. Leonencio também atualiza as informações sobre a investigação dos assassinatos do funcionário da Funai e do jornalista inglês, pendente de esclarecimento do mando. Na segunda parte do episódio, Renata Lo Prete conversa com Eliesio Marubo, procurador jurídico da Univaja, no momento em que o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União pedem indenização de R$ 50 milhões aos indígenas do Vale do Javari. "Nós não sabemos se pode vir uma outra ofensiva contra as nossas lideranças”, ele alerta.

Jul 5, 202228 min

Ep 741Biden, Trump e o curto-circuito americano

O questionamento infundado do resultado das urnas em 2020 e a invasão do Congresso em janeiro do ano seguinte deixaram marcas profundas na que já foi uma das mais estáveis democracias do mundo. Embora derrotado na tentativa de golpe, Donald Trump conseguiu convencer a maior parte do eleitorado republicano de sua mentira, minando a possibilidade de apoio suprapartidário ao governo de Joe Biden. Somada aos efeitos da inflação, recorde em 40 anos, essa polarização extrema derruba a aprovação ao atual presidente, compromete as chances dos democratas nas eleições legislativas de novembro e “ameaça tornar os EUA um país ingovernável”, diz o professor de Relações Internacionais da FGV Oliver Stuenkel. Na conversa com Renata Lo Prete, ele analisa o papel da Suprema Corte - que, em decisões recentes a respeito de armas, aborto e meio ambiente reduziu ainda mais a margem de manobra de Biden para cumprir suas promessas de campanha. Stuenkel fala também da peculiar situação de Trump - cada vez mais exposto como incitador dos depredadores do Capitólio e, ao mesmo tempo, possível candidato em 2024. E recomenda olhar os EUA como exemplo dos danos de longo prazo causados por campanhas para desacreditar o sistema eleitoral.

Jul 4, 202225 min

Ep 740PEC Kamikaze: auxílios e bombas

A proposta de emenda constitucional esnobada pelo ministro da Economia em fevereiro acaba de passar, em versão mais que turbinada, em dois turnos no Senado. Entre uma data e outra, falharam seguidas manobras para conter a alta dos combustíveis. Agravaram-se as condições de vida da população e também a situação eleitoral de Jair Bolsonaro. “É a última opção para levá-lo ao segundo turno", diz o analista político Thomas Traumann sobre o texto que, ao instituir estado de calamidade pública até 31 de dezembro, permite gastar sem respeitar teto, além de dar a volta em restrições da legislação eleitoral. Entre benefícios, vales e vouchers para caminhoneiros e taxistas, serão aproximadamente R$ 41 bilhões de impacto fiscal, a ser sentido a partir de 2023. Na conversa com Renata Lo Prete, Traumann, colunista da revista Veja e do site Poder 360, analisa ainda outros itens da pauta pré-recesso do Congresso, como o esforço para blindar o Orçamento secreto, seja qual for o próximo governo.

Jul 1, 202223 min

Ep 739Assédio: a queda do presidente da Caixa

Propostas de contato físico, insistência, constrangimentos em privado e também diante de terceiros. “Começaram em janeiro de 2019, quando ele assumiu”, relata a jornalista Heloísa Torres, depois de ouvir algumas das mulheres que denunciaram Pedro Guimarães por assédio sexual e moral. Foram ignoradas pelos sistemas de ouvidoria da Caixa Econômica Federal - quando não perseguidas e removidas de suas funções. Em conversa com Renata Lo Prete, a repórter da TV Globo em Brasília detalha esses depoimentos (“ele se aproximava das mulheres já pegando nelas”), que um dia depois de virem a público derrubaram um dos auxiliares mais próximos de Jair Bolsonaro. Participa ainda do episódio Andréia Sadi, apresentadora do Estúdio i (GloboNews) e colunista do g1, envolvida na cobertura do caso desde a primeira hora. Ela descreve os indícios de que o comportamento de Guimarães, sob investigação do Ministério Público Federal, era de amplo conhecimento da diretoria da CEF. Com suas atitudes, “Bolsonaro acaba dando carta branca” para isso, afirma. Andréia fala também da misoginia disseminada na atual administração e das dificuldades de Bolsonaro com o eleitorado feminino. “O governo não fez nada antes e não fez nada agora”, conclui, lembrando que o presidente esperou pela carta de demissão de Guimarães - a ser substituído por Daniella Marques, integrante da equipe do ministro Paulo Guedes.

Jun 30, 202229 min

Ep 738MEC: corrupção, acobertamento e CPI

O que começou como denúncia de um esquema de pastores com trânsito no Palácio do Planalto para traficar recursos da educação virou, três meses depois, um pedido de investigação sobre a conduta do presidente da República. E ameaça se transformar em mais uma Comissão Parlamentar de Inquérito no caminho dele - desta vez, a pouca distância das eleições de outubro. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe os jornalistas Vera Magalhães e Bruno Tavares. O repórter da TV Globo, primeiro a revelar ligações telefônicas em que o ex-ministro Milton Ribeiro afirma ter sido alertado por Jair Bolsonaro da iminência da operação da PF na qual seria preso, detalha a origem e o alcance das escutas (mais de 1.700 áudios) captadas com autorização da Justiça. Ele também lembra o que acontece agora que a ministra do Supremo Carmem Lúcia acionou a PGR: “Augusto Aras vê elementos para investigar Bolsonaro? Isso terá que ser dito”. Na conversa com Renata Lo Prete, Vera é cética quanto às chances de o procurador-geral se mexer. Ainda assim, “essa apuração sobre vazamento de informações e obstrução do trabalho da polícia tem potencial de estrago para Bolsonaro”, avalia a colunista do jornal O Globo, comentarista da rádio CBN e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura. A partir da apresentação, nesta terça-feira, do pedido de abertura da CPI do MEC, Vera diz o que esperar do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de quem depende a instalação. Analisa ainda as movimentações dos governistas para evitar ou, no mínimo, empurrar ao máximo o início dos trabalhos da comissão.

Jun 29, 202226 min

Ep 737Mulheres: direitos reprodutivos sob ameaça

Primeiro, veio à tona o episódio de uma criança de 11 anos cuja interrupção da gravidez foi impedida por uma juíza em Santa Catarina. Depois, a atriz Klara Castanho viu sua história (um estupro seguido por gestação indesejada e doação do bebê) divulgada a todo país, contra sua vontade. Em meio a isso, nos Estados Unidos, a Suprema Corte derrubou a lei que garantia o direito ao aborto em todos os estados americanos desde 1973. “Controlar os corpos das mulheres é fundamental para os poderes autoritários e patriarcais”, resume Debora Diniz, professora da UnB e pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. Em entrevista a Julia Duailibi, a antropóloga relacionou as “duas histórias de violência” a elementos estruturais da misoginia, e explicou por que a educação sexual nas escolas é “fundamental”. Também neste episódio, o obstetra Olímpio de Moraes descreveu o código de ética médico para lidar com situações de interrupção de gravidez: “ouvir sempre e nunca julgar”. Ele, que também é diretor do Centro Integrado de Saúde Amaury Medeiros, hospital referência em saúde da mulher em Pernambuco, detalhou a lei de mais de 80 anos que regulamenta em que casos a Justiça permite o aborto: caso a mãe corra risco de morte ou a gestação seja resultante de estupro. “É muito raro a mulher vítima de violência continuar a gravidez”, relata. “Para ela, todo dia é uma tortura”.

Jun 28, 202231 min

Ep 736Bolsonaro e os sentidos da necropolítica

Diante das centenas de milhares de vidas brasileiras perdidas na pandemia, normalização e deboche. Em resposta à tortura e morte de um cidadão por policiais rodoviários federais, desconversa. Nos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Philips, responsabilização das vítimas. Três exemplos da política de violência sistêmica que “glorifica a morte como espetáculo” e teve seu nome cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe. Para entender o fenômeno e como ele se impôs entre nós, Renata Lo Prete recebe neste episódio Silvio Almeida, professor visitante de Direito da Universidade de Columbia e presidente do Instituto Luiz Gama. Ele explica os traços comuns a esses e outros casos ocorridos sob “um governo que sabe operar os instrumentos de morte de maneira muito eficaz”. Para Silvio, a superação da necropolítica passa por um reordenamento em que “fome e miséria não sejam mais toleradas”, paralelamente à valorização de serviços fundamentais para a vida (como o SUS) e ao estabelecimento de políticas culturais que resgatem o “significado simbólico” dos que partiram.

Jun 27, 202224 min

Ep 735Lembrar de Betinho para combater a fome

Diante do retrocesso brutal na garantia do mais básico dos direitos, especialistas alertam: além de cobrar das autoridades que façam sua parte, retomando políticas públicas hoje esvaziadas, é urgente mobilizar a sociedade civil. Como fez, há três décadas, o sociólogo Herbert de Souza, idealizador de campanha pioneira para levar comida aos brasileiros mais pobres. Na largada do “Natal sem Fome”, do qual nasceu a ONG Ação para a Cidadania, 32 milhões enfrentavam esse drama. Hoje, os avanços significativos observados até 2014 foram perdidos, e o número mais recente é ainda pior que o do início dos anos 90: 33 milhões. Em conversa com Renata Lo Prete, Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação, aponta retrocesso também na percepção da gravidade do problema. “Hoje, até mesmo quanto à fome há divisão”, diz. Contra todas as evidências, “uma parte da sociedade nega que ela exista”. Sem diminuir a importância das doações, especialmente no quadro alarmante do momento, Kiko ressalta a necessidade de conscientizar pessoas e empresas do imperativo de se envolver, abraçando a retomada de programas exitosos e elegendo candidatos comprometidos com a erradicação da fome.

Jun 24, 202226 min

Ep 734Assédio: servidores na era Bolsonaro

Muito antes de sofrer a emboscada na qual seria assassinado no Vale do Javari, o indigenista Bruno Pereira denunciava as ameaças que ele e colegas de serviço público sofriam da “máquina pesada” instaurada pelo atual governo, que descreveu como “autoritário” em sua última entrevista, à Folha de S. Paulo, detalhando de que maneiras o presidente da Funai o pressionava. Não era um caso isolado. A pesquisadora Michelle Morais de Sá e Silva reuniu dezenas de relatos de funcionários que, sob condição de anonimato, expuseram o clima de “medo coletivo” predominante nas mais diversas áreas da administração federal. Em conversa com Renata Lo Prete, a professora da Universidade de Oklahoma (EUA) explica, em primeiro lugar, o “embaralhamento” imposto: parcela expressiva dos servidores foi transferida de seus órgãos de origem sem lógica nem consentimento, comprometendo a eficiência do serviço prestado e, em vários casos, a saúde física e mental dos atingidos. Participa também do episódio o sociólogo Frederico Barbosa, pesquisador do Ipea e um dos organizadores do livro “Assédio Institucional no Brasil: Avanço do Autoritarismo e Desconstrução do Estado”. Ele explica que, de 2019 para cá, houve “mudança de método”: a atitude oficial agora, além de mais agressiva para com os indivíduos, visa também desqualificar os órgãos públicos. As pessoas “adoecem”, enquanto as instituições “perdem seu próprio sentido”.

Jun 23, 202229 min

Ep 733Bolsonaro, Lira e o teatro dos combustíveis

Desde o início do ano, a gasolina acumula alta de 9%, e o diesel, de 25%. Sob o impacto da crise internacional no setor de energia e do real desvalorizado, puxam uma inflação que corrói o poder de compra dos brasileiros e as chances de reeleição do presidente da República. Em resposta a este problema concreto, ele e aliados no Congresso escolheram um inimigo imaginário: a Petrobras. Uma ofensiva que escalou a patamar inédito a partir do último reajuste anunciado pela estatal, na sexta-feira passada. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista Carlos Andreazza examina as ideias lançadas pelo consórcio Bolsonaro-Centrão para bombardear a empresa - de CPI a uma Medida Provisória que esvaziaria, numa canetada, as conquistas de governança trazidas pela Lei das Estatais, de 2016. Bolsonaro, diz o colunista do jornal O Globo e apresentador da rádio CBN, replica sua eterna “lógica do confronto” ao trocar o comando da Petrobras pela terceira vez. E o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), “dá aula de patrimonialismo” quando defende a MP em nome de “maior sinergia entre as estatais e o governo do momento”. Como principal elemento da farsa, Andreazza aponta o fato de que, ao longo da cruzada, Bolsonaro e auxiliares jamais colocaram em discussão a política de Preço de Paridade Internacional (PPI), dado essencial da equação. Para o jornalista, do barulho todo restará uma conta de pelo menos R$ 50 bilhões que conseguirá, no máximo, “maquiar a bomba de gasolina até a eleição”.

Jun 22, 202223 min