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Oxigênio Podcast

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#140 – Por trás da conta de luz: compra e venda de energia

Você sabe quais são os principais desafios do aumento inevitável do consumo de energia elétrica? O que é e como funciona o mercado de energia brasileiro? Qual a relação entre crescimento econômico, consumo de energia elétrica e custo energético? O Thiago Ribeiro e a Fernanda Capuvilla entrevistaram a Alessandra Amaral, meteorologista que atua há mais de 10 anos, no ramo da energia elétrica no Brasil pra contar pra gente como funciona esse mercado, que inclui não apenas a produção ou geração de energia, mas também a sua compra e venda. Thiago Ribeiro: Dois mil e duzentos e cinquenta e quatro (2.254) quilowatt-hora (kWh). De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética, que presta serviços ao Ministério de Minas e Energia, esse foi o consumo médio de eletricidade por cada brasileiro em 2019. Desde o início do século, esse consumo cresceu cerca de 70%. Fernanda Capuvilla: E aí eu pergunto: você sabe quais são os principais desafios do aumento inevitável do consumo de energia elétrica? O que é e como funciona o mercado de energia brasileiro? Qual a relação entre crescimento econômico, consumo de energia elétrica e custo energético? Thiago: Olá! Meu nome é Thiago Fernanda: E eu sou Fernanda e hoje, vamos juntos, clarear essas e outras questões sobre a matriz elétrica brasileira e ouvir um pouco sobre como funciona esse mercado. [vinheta Oxigênio] Thiago: Antes de tudo, é importante destacar que a matriz energética é a soma de toda a energia disponibilizada para ser transformada, distribuída e consumida nos processos produtivos. Em outras palavras, a matriz energética representa a quantidade de energia oferecida por um país ou por uma região. Essa energia pode ter origem em fontes renováveis como a biomassa, a lenha e a hidráulica, ou origem em fontes não renováveis como derivados de petróleo e gás natural. Fernanda: Sobre esse assunto, deixamos um convite para você ouvir o episódio #85 OxiLab: Nexus – Energia, que fala sobre a crescente escassez desses recursos e a necessidade de buscar fontes alternativas e mais sustentáveis. Thiago: Mas, voltando para o tema do episódio, a matriz elétrica representa uma parte da matriz energética de um país. É o conjunto de fontes energéticas destinadas à geração de energia elétrica. Por exemplo, no Brasil, cerca de 64% do total de energia elétrica gerada vem de usinas hidrelétricas. O restante vem, principalmente, de usinas termelétricas, eólicas e solares. Fernanda: E não é para menos, o Brasil é o país que detém a maior reserva de água doce do planeta. Cerca de 12% de toda a água doce disponível está aqui! Thiago: De fato! Isso explica, ao menos em parte, o porquê do nosso país ter investido tanto na geração de energia elétrica a partir da energia hidráulica. Desde a década de 70, esta foi uma das medidas que o governo brasileiro tomou para reduzir a dependência de combustíveis fósseis na geração de energia elétrica. Durante esse período, houve um grande aumento no preço do barril de petróleo que motivou a busca por fontes alternativas através de incentivos do governo. Fernanda: A mesma postura foi adotada por diversos países, sempre buscando fontes alternativas ao petróleo, de acordo com a disponibilidade de recursos naturais em seus territórios e também das suas respectivas realidades econômicas e tecnológicas. Thiago Ribeiro: Dos anos 70 pra cá, nossa matriz vem se diversificando. O Brasil tem buscado ampliar o leque de fontes para a geração de eletricidade. Atualmente, nossa matriz também gera energia elétrica a partir de outros recursos. Além das hidrelétricas, em ordem de importância, temos as termelétricas, que produzem cerca de 20% do total gerado. Nelas a energia é produzida através da queima de combustíveis como biomassa, carvão e derivados de petróleo. Cerca de 10% da geração é obtida através dos ventos, energia que é captada nos parques eólicos. Por último, uma pequena fatia de 6% se divide entre energia solar, nuclear e outras fontes. [Notícias sobre escassez hídrica] Fernanda: Bom, se no passado a decisão de investir na energia hidráulica como alternativa ao petróleo trouxe vantagens como maior independência energética e o aproveitamento de um dos nossos recursos mais abundantes, hoje o cenário parece diferente. A essa altura, todo mundo já deve ter sentido no bolso o aumento da tarifa energética por conta da escassez de chuvas que vem afetando as regiões Sul e Sudeste do Brasil. De acordo com o último relatório anual da Empresa de Pesquisa Energética, essas são justamente as regiões que possuem a maior demanda por eletricidade. Mas como esses reajustes tarifários são determinados? Alessandra Amaral: Uma característica do nosso preço de energia é que quando chove, o preço cai. Então, uma série de empresas como a minha, e empresas que fazem o que eu faço mas que também compram e vendem energia para esses consumidores… Através dessa gestão do consumidor é que a gente indica momentos para comprar energia: “Ah, choveu agora. Vamos comprar. Vamos fazer um contrato d

Mar 26, 2022

#139 – Precisamos falar sobre a morte (com as crianças)

A partir de uma conversa com a autora de um livro para crianças, que fala sobre a passagem do tempo e sobre a morte e com duas psicólogas sobre o uso de textos literários com a finalidade de ajudar uma pessoa a enfrentar uma dificuldade, as repórteres Laís Toledo e Mayra Trinca e o colaborador Diogo Ambiel Facini produziram este episódio sobre como e por que conversar com as crianças a respeito da morte. Márcia Abreu, Lucélia Elizabeth Paiva e Maria Júlia Kovács são as entrevistadas deste episódio, que trata de um assunto que pode ser difícil de encarar, mas que não deve ser ignorado. Roteiro: Laís: Um jabuti, um bicho que pode viver uns cem anos, encontra uma siriruia, também conhecida como aleluia, que é um inseto que vive apenas um dia… Lina: – Para que tanta pressa? O mundo não foi feito em um dia – respondeu o jabuti com a boca cheia de manga. – O meu, sim. O jabuti balançou a cabeça. – Sempre exagerada… – comentou incrédulo. – Eu só tenho um dia. Só hoje. Tanto tempo se passou e eu ainda não tenho um namorado. – Tanto tempo?! Você tem horas de vida! É muito jovem para namorar. – Ah, vocês, velhos. Sempre achando que a gente é muito nova… […] – Não sou tão velho assim. Fiz cem anos há pouco tempo. – Cem anos? – exclamou a siriruia arredondando ainda mais seus olhos pretos. – Eu fui ninfa por um ano e já não aguentava mais. O jabuti tinha a cara toda amarela e doce. Mastigava uma manga com calma, saboreando. – Com o tempo, você se acostuma – disse ele, erguendo a cabeça para ver quantas mangas ainda poderiam cair daquela árvore. Laís: Você acabou de ouvir um trechinho do livro “O jabuti e a siriruia: o ciclo da vida”, escrito pela Márcia Abreu e ilustrado pelo Bira Dantas. Apesar de terem várias diferenças, o jabuti e a siriruia viraram melhores amigos e viveram uma aventura juntos. A história desses animais é contada no livro, que foi publicado no ano passado, pelo Estraladabão, o selo de divulgação científica para crianças da Editora UFMG, da Universidade Federal de Minas Gerais. Nesse episódio do Oxigênio, a gente conversou com a Márcia Abreu sobre esse livro, que traz uma aventura emocionante, um monte de informações sobre os animais e também uma reflexão sobre a passagem do tempo e sobre a morte. A Márcia, além de escritora de livros para crianças e para jovens, é pesquisadora e professora de Literatura na Unicamp. Então, além de falar sobre “O jabuti e a siriruia”, a gente também conversou sobre como a literatura pode ajudar as crianças a lidarem com temas sensíveis, como a morte. Mayra: Também sobre esse assunto, a gente conversou com a Lucélia Elizabeth Paiva, que é psicóloga e contou um pouco sobre a biblioterapia, o uso de textos literários para ajudar uma pessoa a enfrentar uma dificuldade. Ela também falou sobre como os livros podem ajudar as crianças durante o processo do luto, assunto que ela pesquisou no doutorado dela. Além de atender na sua clínica, ela também é pesquisadora e professora no Centro Universitário São Camilo. Diogo: Nossa outra entrevistada, a Maria Júlia Kovács, falou sobre a relação das crianças com o tema da morte, sobre o tabu que envolve esse assunto. A Maria Júlia é pesquisadora e professora de psicologia da USP e ajudou a fundar o Laboratório de Estudos sobre a Morte, também da USP. Eu sou o Diogo Ambiel Facini. Mayra: Eu sou a Mayra Trinca. Laís: Eu sou a Laís Toledo, e este é mais um episódio do Oxigênio. Márcia: Eles são diferentes em tudo: ela é rápida, animada; ele é rabugento e lento, como todo jabuti, né? Laís: Essa é a Márcia Abreu, apresentando os personagens principais da história, a siriruia e o jabuti… Márcia: Em um único dia, ela precisa resolver um monte de problemas. Principalmente, porque ela nasceu com uma asa torta, e aí ela se perdeu do bando dela. Então, ela vai precisar da ajuda do jabuti para encontrar o bando, encontrar um namorado, acasalar, colocar seus ovos e, com isso, ela vai completar o ciclo da vida, que é o subtítulo do livro. O jabuti, pelo contrário, teve uma vida longa, mas cheia de desilusões. Então, essa experiência de ter uma amiga vai mudar a percepção dele sobre a vida. Laís: Como a gente comentou, esse é um livro de divulgação científica, e a Márcia contou que também fez bastante pesquisa para entender sobre a vida desses animais tão diferentes. Márcia: Eu tive que ler vários artigos científicos da área de biologia, porque a proposta da editora é trazer conhecimento científico junto com uma história. A pesquisa sobre o jabuti foi mais ou menos fácil, porque ele é considerado um bicho de estimação, e esse é um dos temas que eu abordo no livro, porque a grande tristeza do jabuti é ter sido rejeitado por várias gerações de crianças. Então, ele vive num sítio sem mais ninguém da espécie dele. Tanto que ele acha que ele é único, que não existe ninguém como ele no mundo. A pesquisa sobre a siriruia teve que ser mais ampla, porque a gente não costuma conviver com insetos, né? Ao menos não amistosamente. Então, eu ti

Feb 18, 2022

#138 – Anorexia nervosa, gordofobia e redes sociais

O primeiro episódio de 2022 trata de um tema de extrema relevância na sociedade, que é a anorexia nervosa. Associamos a essa doença que atinge uma grande parte das pessoas, e que decorre, principalmente por questões emocionais, à gordofobia, o preconceito ao corpo gordo que pode ser um dos gatilhos para levar à anorexia e outros transtornos alimentares. Esses problemas não são novos, mas têm sido reforçados pelo acesso às redes sociais, que propiciam as relações e a exposição das dificuldades com o corpo, das dicas de como disfarçar a anorexia, do apoio para permanecer na doença. Mas por outro lado, as redes sociais também têm colaborado para ampliar movimentos de aceitação do corpo e para apoiar as pessoas que desejam se tratar. O episódio foi produzido por Rafaela Repasch, pelo Rafael Revadam, que são os apresentadores, e também pela Camille Bropp. A Rafaella é também a produtora da animação Eiva, que foi o mote para a realização do programa e que está disponível no YouTube. Roteiro: Trecho 1 do curta metragem “Eiva”: “Querido Diário, recebi você da minha terapeuta dias depois de quase morrer. Foram tempos muito difíceis, por isso tenho que dizer… Faz algum tempo já vinha me sentindo pra baixo, me sentia feia e estranha, triste e sozinha… Meus pais criticavam o meu corpo, o que piorava tudo.” Rafaela Repasch: Eu sou a Rafaela Repasch, animadora 2D e o trecho de abertura do episódio faz parte do curta-metragem em desenho animado chamado Eiva, feito por mim, com o tema anorexia nervosa. O curta conta a história de uma menina-coelha, chamada Eiva, palavra que significa fenda ou rachadura em vidro. Na história / a menina enfrenta o bullying, web bullying, a perda de sua amiga, e ainda a pressão dos pais e da sociedade por não aceitarem seu corpo gordo. Logo ela entra em um ciclo vicioso de não comer, tomar remédios para emagrecer, exercícios frequentes e vomitar // ações que a levam para uma internação hospitalar. Rafael Revadam: Os transtornos alimentares são condições graves relacionadas a comportamentos alimentares persistentes que afetam negativamente a nossa saúde e as nossas emoções. Os distúrbios mais comuns são anorexia nervosa, bulimia, compulsão alimentar, transtorno alimentar restritivo evitativo e vigorexia. Esses distúrbios são desencadeados por uma série de fatores associados à depressão ou à ansiedade. No caso da Anorexia nervosa, por exemplo, ela acontece quando há uma preocupação exagerada com o próprio peso. A pessoa se olha no espelho e, embora esteja extremamente magra, se enxerga obesa. Com medo de engordar ainda mais, exagera na atividade física, faz jejum, vomita, toma laxantes e diuréticos. E esse processo pode causar danos fĩsicos muito graves. Rafaela: Uma das preocupações dos profissionais da saúde que lidam com pacientes afetados com a doença, é que boa parte deles são muito jovens. De acordo com a pesquisa ANOREXIA E BULIMIA EM ADOLESCENTES, realizada pela psicóloga Paula Virgínia de Carvalho, da Universidade Federal do Maranhão, em 2008, 14% dos adolescentes entrevistados apresentaram sintomas de anorexia, menos de 1 por cento de bulimia e 2% de anorexia combinada com bulimia. A pesquisadora verificou que 15% dos adolescentes tinham uma conduta alimentar não usual, com comportamentos de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares. Rafael: Hoje é possível observar tanto um aumento no número de transtornos alimentares como também no número de vítimas. Esse processo fez com que o Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que aconteceu no Rio de Janeiro em abril de 2021, criasse uma sessão especial para discutir as diferentes formas desse problema se manifestar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 4,7% dos brasileiros sofrem de distúrbios alimentares, no entanto, na adolescência, esse índice chega a 10%. Eu sou RAFAEL REVADAM, e no episódio de hoje, o primeiro do ano, vamos falar sobre a luta contra a anorexia nervosa e a gordofobia, tão presentes na nossa sociedade. Vamos tratar também da influência das redes sociais na pressão por um corpo perfeito, e como as redes de apoio com familiares e amigos são essenciais para vencer esse cenário. [Vinheta do oxigênio] Rafaela: Comer é um dos prazeres da vida, mas quando a ingestão de alimentos vira uma questão de preocupação intensa, o que deveria ser prazeroso se torna um pesadelo, que pode interferir diretamente na saúde física e mental do indivíduo. Bianca Barroca: Quando eu era mais nova, por ser de uma família de pessoas gordas existia sempre essa ameaça: “Bianca você não pode engordar! Você vê que fulano não tem namorada? O Sicrano não consegue nem emprego. Você tem que continuar magra pra sempre.” E isso ficava na minha cabeça, então a minha rotina era voltada para continuar sendo magra, com dietas completamente restritivas. Eu parei de comer arroz e feijão com doze, treze anos de idade, porque aquilo era mostrado pra mim como um veneno. Eu via no arroz e feijão uma coisa

Feb 3, 2022

#137 – Latim? Morreu, mas passa bem

Você já se perguntou de onde vêm aquelas palavras utilizadas em tribunais que muitas vezes quase não conseguimos pronunciar? E quanto a um nome científico de alguma espécie de animal nova? A utilização do latim permeia o nosso cotidiano e fazemos o uso dessa língua constantemente. Mas o que muitas vezes passa despercebido é que a atribuição de nomes científicos tem um motivo fundamentado e o uso dessa língua antiga, que é a mãe do nosso idioma, também é corroborado no meio jurídico nacional. Embora seja senso comum dizer que o latim é uma língua morta, neste episódio convidamos a Aline Tomás, Juíza de Direito do Tribunal de Justiça de Goiás e que atua hoje na Vara de Família de Anápolis para falar sobre a importância da utilização do latim em procedimentos jurídicos e o Rafael Rigolon, biólogo e professor da Universidade Federal de Viçosa, a UFV, para falar sobre o latim na ciência, e mostrar que essa língua, na verdade, está indo muito bem, obrigada. Quem vai navegar com a gente na evolução desse episódio nada macarrônico é a Isabella Tardin Cardoso, Dra. em letras clássicas pela USP e professora de língua e literatura latina na Universidade Estadual de Campinas e o Luciano Pfeifer, professor de português jurídico na Universidade Presbiteriana Mackenzie. _________________________________________ Roteiro ALINE TOMÁS: Então a pessoa recebe a sentença e diz assim: Ganhei ou perdi? Preciso ligar para o meu advogado. MAYRA TRINCA: Alô! JOÃO BORTOLAZZO: Oh, Dra. Tudo bem? Queria saber se meu processo andou. MAYRA: Saiu decisão. Mas, o juiz não concedeu a liminar porque não conseguimos comprovar o periculum in mora. JOÃO: Não entendi nada, Dra. Tá falando grego? MAYRA: Grego não, é Latim. . Vinheta do Oxigênio JOÃO: Eu sou o João Bortolazzo. MAYRA: E eu sou a Mayra Trinca. No episódio de hoje, vamos falar sobre o Latim, a língua que deu origem ao Português. E nossas perguntas são: como e por que ela continua sendo usada? JOÃO: O latim é uma língua muito antiga, mas muito antiga mesmo, mas que se mantém presente no nosso dia-a-dia até hoje. Muitas vezes nem percebemos, mas o latim está em termos jurídicos, científicos, acadêmicos. Usamos alguns termos sem diferenciá-los da língua portuguesa, que deriva do Latim. Nós falamos com a Isabella Tardin Cardoso, Dra. em letras clássicas pela USP e professora de língua e literatura latina na Universidade Estadual de Campinas pra saber da origem do Latim ISABELLA CARDOSO: Os primeiros indícios de língua latina registrados, em inscrições, perto do século sétimo antes de Cristo. Aliás é uma fivela, em que está escrito “Manio me fez para Numério”. Então uma marca registrada de quem era o dono da fivela e quem tinha feito. Começa no século sétimo antes de Cristo, é a chamada Fivela de Prenestria, a Fíbula Prenestina. MAYRA: Antes mesmo do século 7 antes de Cristo, o latim já tinha começado a se desenvolver, mas era uma língua sem muitos registros escritos, já que era muito mais comum o uso oral da linguagem na época do que a escrita. Essa fase da língua ficou conhecida como Latim arcaico ou Protolatim. JOÃO: Conforme as pessoas começaram a escrever e registrar a língua, ficou muito mais fácil manter regras e daí se originou o que se chama de Latim clássico, que era mantido principalmente pelos escritores eruditos antigos, legisladores e Estado como um todo. MAYRA: Assim como no Português, a linguagem falada é diferente da linguagem escrita, e por isso, podemos observar a formação de dialetos. Com o Latim não foi diferente. E conforme o Império Romano se expandiu pela Europa toda, o Latim falado pelo exército, que era um Latim chamado Vulgar, foi ganhando adeptos em outros povos. E isso ajudou a manter a língua viva, né, Isabella? ISABELLA: O que ajudou a manter a língua foram duas coisas, uma foi a política linguística que os romanos tinham a famosa pax romana, fala assim, tudo bem, olha eu conquistei você, você quer ser meu amigo? Vocês continuam falando o que vocês quiserem em casa, mas a administração vai ser em latim e o exército romano que ia pra lá, falava em latim, o latim de classe em geral não tão abastada, ná? com menos estudos, e isso foi algo que implantou o latim em diversas partes do território que ia sendo ocupado por Roma. JOÃO: Imagino que essa língua foi se juntando com a língua de outros povos e foi virando uma miscelânia de idiomas, né? LUCIANO PFEIFER: Então, o português, de maneira geral, se originou, a exemplo de outras línguas latinas, de variantes mais populares do latim que chegaram na península ibérica com a expansão e com o domínio do império romano, e foram transmitidas essencialmente pela oralidade. Então a gente tem lá o fenômeno da transmissão irregular, né? Que nem aquele brinquedo que a gente usava na infância, o telefone sem fio, você começa falando pro seu colega do lado uma coisa e quando chega no último da fila já modificou muito a fala original. MAYRA: Esse que você acabou de ouvir é o Luciano Pfeifer, professor de Direito na Universidade

Nov 18, 2021

#136 – De olho no rótulo

Em outubro de 2020, foi aprovada pela Anvisa a nova norma sobre rotulagem nutricional de alimentos embalados, que entrará em vigor em outubro de 2022. Segundo a Agência, as mudanças vão melhorar a clareza e tornar mais legíveis as informações nutricionais dos rótulos dos alimentos e tem como objetivo auxiliar o consumidor a fazer escolhas alimentares mais conscientes. Para entender o que vai mudar com a nova rotulagem e quais são os impactos esperados dessa mudança na indústria de alimentos e na segurança nutricional da população, a Ana Augusta Xavier e o Rafael Revadam ouviram a professora Cínthia Baú Betim Cazarin, que trabalha na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp na área de alimentos, nutrição e saúde, a Thalita Antony de Souza Lima, gerente geral de alimentos da Anvisa, e a Ana Paula Bortoletto Martins, que é consultora técnica do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. _______________________________________ Roteiro Ana Augusta Xavier: Oi. Pra começar o programa de hoje eu queria te convidar pra fazer um exercício. Na verdade é só pra puxar aí na sua lembrança a última vez que você foi no supermercado. Bom, vou começar contando quando foi a minha última vez. Foi no sábado, eu tava na rua há horas, resolvendo um monte de coisa que a gente só tem tempo pra resolver no fim de semana. Passei no mercado super rápido pra pegar o que faltava pro almoço. Joguei tudo no carrinho, acho que nem demorei 20 minutos lá dentro… eu já não gostava muito de supermercado antes, agora com a pandemia, quanto mais rápido, melhor. E você, conseguiu lembrar? Quanto tempo você costuma demorar no supermercado? E o que você leva em conta pra escolher os alimentos que vão pra sua casa? Rafael Revadam: Marcas que já conhece? Preço? Qualidade? O que parece mais saudável? Ou aquele produto que tem coisas como Fit ou Artesanal escritas no rótulo? E por falar em rótulos, dá tempo de ler e entender o que está escrito neles? Ana Augusta: Quando tem muitas opções do mesmo produto, eu geralmente escolho pelo preço, ou então pela qualidade, por exemplo, comprando alguma marca que eu já conheço e gosto. Mas claro, eu também tento comprar aqueles alimentos que eu acho que são mais saudáveis – na medida do possível né – mas nem sempre consigo identificar quais são só de olhar o rótulo. E isso que minha formação toda é na área de alimentos, hein… Rafael: É, não entender os rótulos dos alimentos é algo muito mais comum do que deveria. Em uma pesquisa de 2016, feita pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, o Idec, 40% dos mais de 2600 participantes responderam que têm dificuldade de compreender as informações dos rótulos. Ana Augusta: Entre as principais dificuldades foram citadas, nessa ordem: a letra muito pequena, o uso de números e termos técnicos, a poluição visual e a necessidade de fazer cálculos pra ter alguma noção das quantidades dos nutrientes. Rafael: Essa falta de compreensão da rotulagem é um problema grave, já que o rótulo é a forma de quem produziu o alimento se comunicar com o consumidor. O rótulo é tipo um currículo, que mostra as características nutricionais daquele produto, e então, com essa informação em mãos, a gente decide se contrata, quer dizer, se compra ou não determinado alimento. Um rótulo claro e fácil de entender permite que a gente faça escolhas mais saudáveis e adequadas ao nosso estilo de vida. Ou, se não quiser os produtos mais saudáveis, pelo menos tenha consciência do que está levando. Ana Augusta: Foi pensando nisso que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, reformulou a norma de rotulagem de alimentos no país. A nova norma, que vai entrar em vigor a partir de outubro de 2022, vai mudar bastante a cara de muitos produtos que vemos nas prateleiras do mercado. Mas calma que a gente vai explicar tudo daqui a pouco. Eu sou Ana Augusta Xavier. Rafael: E eu sou o Rafael Revadam, e em comemoração ao dia mundial da alimentação que foi no último dia 16 de outubro, no episódio de hoje vamos descobrir o que vai mudar com a nova rotulagem de alimentos. Cinthia Cazarin: Eu acredito que seja importante a gente começar falando quais as motivações pra mudança da rotulagem nutricional, né? Ana Augusta: Esta é a Cinthia Cazarin, professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp que realiza pesquisas na área de alimentos, nutrição e saúde. Cínthia: Os altos índices de doenças crônicas não transmissíveis são um dos motivadores, então essa busca por uma melhor qualidade na alimentação, estilo de vida da população, muito provavelmente foi o fator que levou o Ministério da Saúde, a ANVISA a pensar nessa mudança, porque é o meio que a indústria tem pra se comunicar com o consumidor. Eu acredito que é isso as altas taxas, né? As incidências elevadas dessas doenças, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão, que motivou essa mudança. Rafael: Mas o que essas doenças têm a ver com os rótulos dos alimentos? Bem… a ciência já sabe que o consumo ex

Oct 21, 2021

#135 – O lixo nosso de cada dia

Somos grandes produtores de lixo, principalmente nós, que vivemos nos centros urbanos. Segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), em 2019 cada brasileiro produziu quase 400 quilos de lixo. No Brasil há uma Politica Nacional de Resíduos Sólidos, que preconiza, na verdade, a não geração e a redução desse tipo de resíduo. Mas como é impossível não gerar nada de lixo, a próprio PNRS prevê uma série de estratégias de gestão e gerenciamento consideradas adequadas para o destinho do resíduo, como por exemplo o encaminhamento para as cooperativas de reciclagem. Mas nem todos os resíduos sólidos terão esse destino, e a política para esse material não é tão simples. Neste episódio do Oxigênio você vai ouvir também sobre quais as possíveis formas da sociedade participar das decisões relativas aos resíduos sólidos. A Fernanda Capuvilla e o João Bortolazzo contam pra gente quais são. Eles entrevistaram o Marco Aurélio Soares de Castro, professor da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, a Áurea Aparecida Bueno, presidente na cooperativa Coreso em Sorocaba e o Rodrigo Sanches Garcia, promotor de justiça do Ministério Público de São Paulo. A Ana Augusta Xavier também participou da produção das entrevistas e da elaboração do roteiro e os trabalhos técnicos foram realizados pelo Gustavo Campos e pelo Octávio Augusto Fonseca. Roteiro João: Oi, eu sou João Bortolazzo e sou um dos apresentadores do episódio de hoje. Eu não te conheço pessoalmente – embora tenha pensado em você pra produzir esse episódio – mas, se me pedissem pra adivinhar alguma atividade que você fez hoje eu diria que você… produziu lixo. Mas calma, que eu não tô te acusando de nada não. Na verdade tô, mas você não está sozinho ou sozinha, nessa. Fernanda: Na verdade todos nós somos grandes produtores de lixo, né? Principalmente nós que vivemos em áreas urbanas. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais mostrou que, no ano de 2019, cada pessoa produziu em média 379 quilos de resíduos sólidos urbanos. Dá mais de 1 quilo de resíduo por dia, lembrando, por pessoa! João: Sim, é muita coisa. E esse resíduo não “desaparece” magicamente depois que você tira ele de dentro de casa. Já parou pra pensar o que acontece depois do coletor ou da empresa de limpeza urbana levar o lixo embora? E aí, você se sente responsável por esse “lixo” que produz diariamente? Fernanda: É sobre isso que vamos falar nesse episódio. O que são Resíduos Sólidos Urbanos, qual o nosso papel enquanto geradores desse lixo e como a sociedade em geral pode participar da gestão de todo esse material? Eu sou a Fernanda Capuvilla e esse é o Oxigênio. [Vinheta do oxigênio] João: Bom, vamos começar do começo. A gente comentou que todos nós geramos lixo, mas, de acordo com a legislação, o termo correto é resíduos sólidos. Os resíduos sólidos, Marco Aurélio: Podem ser entendidos como materiais, substâncias, objetos, que resultam de atividades humanas em sociedade. Fernanda: Esse é o Marco Aurélio Soares de Castro, professor da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, que desenvolve pesquisas na área de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos. Ele explicou um pouco sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a PNRS, estabelecida na Lei 12.305 de 2010. João: A PNRS classifica os resíduos sólidos de acordo com a sua origem e periculosidade. Quanto à periculosidade eles podem ser, bem, não perigosos ou perigosos, sendo os perigosos aqueles que podem causar danos à saúde humana ou ao meio ambiente. Fernanda: Se considerarmos a origem dos resíduos, teremos diversas classificações. Nesse episódio nós vamos tratar dos resíduos sólidos urbanos, que são aqueles que englobam os resíduos domiciliares e os de limpeza urbana. Marco Aurélio: eu costumo falar que o resíduo domiciliar a gente gera da porta pra dentro, e o que a gente eh eh gera da porta pra fora é limpeza urbana, a hora que a gente junta esses dois, no entender da lei, a gente tá falando de resíduos sólidos urbanos. João: Da porta pra dentro, a gente gera resto de alimentos, embalagens, lixo do banheiro, e por aí vai… Da porta pra fora, os resíduos vêm principalmente de varrição de calçadas, poda de árvores, roçado, limpeza de bueiros, entre outros… Fernanda: Pode parecer confuso, mas tem alguns tipos de resíduos que, apesar de serem gerados nas cidades, não estão colocados na legislação como resíduos sólidos urbanos. Eles recebem outras classificações, como por exemplo os resíduos da construção civil, do saneamento básico, de serviços da saúde, de indústrias, de transporte, e outros. João: Segundo o Marco Aurélio, a legislação tem algumas falhas e não engloba todos os resíduos gerados pelas atividades humanas, inclusive alguns que a gente nem pensa como resíduo. Marco Aurélio: A gente fala até “meio” brincando e meio sério é que, até o final da atividade humana em sociedade gera resíduo, porque a gente precisaria também

Oct 8, 2021

#134 – É tudo mato? As plantas que não vemos

Sep 11, 202129 min

#133 – Extensão universitária pra quê?

A Extensão é um dos três pilares da universidade pública, ao lado do Ensino e da Pesquisa. Embora pouco divulgados, vários projetos de extensão são desenvolvidos todos os anos pelas instituições, estreitando as relações com comunidades vulneráveis, fortalecendo a formação em algumas áreas do conhecimento, promovendo troca de conhecimento entre o público acadêmico e pessoas, organizações, empresas que estão fora da universidade. A resolução do Ministério da Educação que estabeleceu que a partir de 2021 10% das atividades de graduação tenham que ser dedicadas à extensão universitária aumentou o interesse em saber o que é, para que serve e como se faz extensão. Neste episódio do Oxigênio, a Rebeca Crepaldi e o João Bortolazzo trazem algumas respostas e falam de experiências que podem servir de modelo. As entrevistas do programa foram feitas com a professora Maria Cristina Crispim, da Universidade Federal da Paraíba, a doutoranda Luana Viana, chefe da divisão de rádio da Universidade Federal de Ouro Preto, a Pró-reitora de Extensão, Cultura e Assuntos Comunitários, Maria Santana Milhomem e com a Vitória Feijó Macedo e com o João Gabriel Pimentel, que fazem parte da Empresa Júnior EPR Consultoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. _______________________ Roteiro Rebecca: João, você sabe qual é a contribuição da universidade pública para a sociedade? João: Bom, até onde eu sei, na universidade pública os estudantes têm a oportunidade de adquirir conhecimento e sair capacitados para atuar em diversas profissões, das mais distintas áreas. Eles podem atuar em empresas, indústrias, hospitais, escolas, institutos de pesquisa, agências de comunicação… contribuindo de muitas formas para o desenvolvimento e geração de bem-estar e riquezas para o país. Rebecca: Isso mesmo! Você está falando sobre o “ensino”, que é um dos pilares da universidade pública. Mas a universidade pública é composta por mais dois pilares: a pesquisa científica, que é a precursora do desenvolvimento do país, provendo tecnologias, patentes e estratégias, que vão desde a descoberta de um medicamento até a elaboração de planos de inclusão social; e a extensão, que através do trabalho prático dos alunos com professores e funcionários, presta serviços para a população em geral, oferece cursos e mais uma ampla gama de atividades. João: Eu sou o João Bortolazzo. Rebecca: Eu sou a Rebecca Crepaldi. João: E, no episódio de hoje, nós vamos falar sobre a importância da extensão universitária, para o que ela serve, quem faz e quem participa dessas ações. Rebecca: Para tratar desse tema, entrevistamos os alunos Vitória Feijó Macedo e João Gabriel Pimentel, que fazem parte da Empresa Júnior EPR Consultoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; também conversamos com a Professora Maria Cristina Crispim, do projeto de extensão “Fossas Ecológicas”, da Universidade Federal da Paraíba. Além disso, falamos com a doutoranda Luana Viana, que é chefe da divisão de rádio da Universidade Federal de Ouro Preto e coordenadora do projeto “Pequenos Ouvintes”; por fim, conversamos com a Pró-reitora de Extensão, Cultura e Assuntos Comunitários, Maria Santana Milhomem, responsável pelo “Cursinho Popular da Universidade Federal do Tocantins”. João: Segundo o Artigo 206, parágrafo segundo, “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”. Já no Artigo 207, a Constituição define que “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e” que “obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Rebecca: Em outras palavras, isso significa que a universidade deve ensinar, realizar pesquisas em todas as áreas do conhecimento e estender para a população o produto dessas ações, mantendo o interesse público e coletivo como característica principal. As universidades são ambientes de troca entre a comunidade interna, que inclui docentes, funcionários e alunos, com a comunidade externa, formada pela população em geral. João: Essas trocas acontecem pela prestação de serviços gratuitos ou a baixo custo em saúde, lazer, cultura, educação, entre outras áreas. E também nas relações com o setor privado, por exemplo, em parcerias com a indústria, no desenvolvimento de alguma tecnologia, ou no licenciamento de uma patente criada por pesquisadores… A extensão engloba, ainda, parcerias com governos, principalmente locais, mas também em nível estadual e federal. Você sabia, Rebecca, que o programa Bolsa Família foi criado na Unicamp, pela pesquisadora Ana Fonseca, do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas? Rebecca: Puxa, que legal! É sobre isso. Além da prestação de serviços, das parcerias com comunidades, governos, empresas, e outros setores da sociedade, os projetos também servem para os alunos colocarem em prática o que aprendem durante a graduação e pós também, ampliando sua visão de mundo e também

Aug 26, 202139 min

#132 – Os mitos da caverna

Estruturas que despertam o interesse das pessoas há milhares de anos, as cavernas ainda hoje são importantes destinos turísticos, mesmo que não para todos os gostos. Nesse episódio, falamos um pouco sobre essas estruturas, como elas se formam e também sobre os cuidados necessários para a conservação e preservação desses espaços. Falamos também da conservação de outras formações geológicas e turísticas, como picos e morros, que são destinos explorados pelo Geoturismo além das cavernas. Nesse sentido, uma nova iniciativa vem ganhando força, os chamados Geoparques. Para explorar todos esses assuntos, conversamos com a Thais Medeiros, geógrafa, e com o Thomaz Rocha e Silva, biólogo, que fazem parte grupos dedicados ao estudo das cavernas em suas diversas dimensões. E também com a Marina Ciccolin, geóloga, que é voluntária no projeto Geopark Corumbataí. Vem com a gente escutar esse papo e bom episódio! Thomaz: Que a gente tem uma riqueza de formações geológicas que precisam ser preservadas, isso é indiscutível. Mayra: A gente escuta muito sobre biodiversidade e a importância de conhecer e preservar as inúmeras espécies de seres vivos, animais, plantas e até micro-organismos que existem no Brasil e no mundo. Frederico: É verdade, mas quase não se fala sobre as rochas que formam nosso planeta e as diversas estruturas que elas podem formar. A esses diferentes tipos de rocha, com suas diferentes formas e composições, damos o nome de Geodiversidade. Marina: A sociedade em si se preocupa muito com a preservação ambiental, mas quando a gente fala preservação ambiental, a gente pensa em árvores, a gente pensa em plantas, pensa em bichos em fauna, flora. A gente nunca pensa no que tem sustentando isso, sabe? A gente nunca pensa no que tem abaixo disso tudo. Então esse termo de geodiversidade, ele surge da emergência da gente ter que falar sobre isso, sabe? Ter que falar sobre a preservação do patrimônio geológico, porque se esse patrimônio geológico não está lá, se as rochas não tão lá, se a gente destrói a geomorfologia natural, a biodiversidade não vai se sustentar. Então a biodiversidade depende da geodiversidade, elas andam MUito juntas, se a gente altera a geodiversidade, se a gente vai em algum lugar e cava um buraco, faz uma mineração, a biodiversidade que vai que vai nascer lá depois não vai ser a mesma, não vai ser natural, né? Então são coisas que andam muito entrelaçadas e a geodiversidade não é muito abordada, né? As pessoas não conhecem muito sobre isso. Mayra: Eu sou a Mayra Trinca Frederico: E eu sou Frederico Ramponi, no episódio de hoje, vamos falar sobre algumas dessas formações, como e porque elas podem ser estudadas e algumas estratégias que surgiram para preservá-las. [VINHETA OXIGÊNIO] Mayra: As cavernas são ambientes com um certo ar de mistério, talvez pela falta de luz, pela presença de animais estranhos e meio assustadores como morcegos e aranhas ou ainda pela dificuldade de acesso nesses locais. Por isso, não surpreende que essas estruturas despertem a curiosidade das pessoas, o que leva muitas a se dedicarem a conhecer esses espaços. Frederico: Mas, o que é exatamente uma caverna? As definições de cavernas podem variar bastante, mas, de maneira geral, são cavidades naturais no solo com tamanho suficiente para que uma pessoa adulta consiga entrar. Há quem considere que cavidades menores também podem ser cavernas, mas pra nossa discussão vamos assumir essa definição. Mayra: O ambiente das cavernas é completamente diferente de qualquer outro ambiente não-cavernícola. O primeiro e principal motivo para isso é a ausência de luz, o que impede o desenvolvimento de plantas dentro da caverna. Assim, as interações entre os seres vivos que habitam esse local serão próprias dele. Normalmente, toda energia que sustenta a vida dentro da caverna, vem de fora dela. Um segundo fator é a formação rochosa em si, a caverna mesmo, que sofre processos de formação e evolução geológicas próprios. Frederico: Uma pessoa pode entrar em uma caverna por esporte, turismo ou pra fazer pesquisas. Seja qual for o objetivo, todas essas atividades se encaixam numa grande área chamada Espeleologia. No Brasil, os principais responsáveis por essas atividades são os espeleogrupos. Thais: Resumidamente, os espeleogrupos são associações voltadas ao conhecimento dos vários aspectos associados às cavernas e também do reconhecimento dos valores ambiental e cultural para a sociedade brasileira. São iniciativas não governamentais, criadas de modo a permitir o posicionamento contrário a atos e ações prejudiciais ao patrimônio cultural e ambiental associado às cavernas. Então de uma maneira geral, todos os espeleogrupos, eles vão se dedicar a preservação e conservação desses patrimônios espeleológicos espalhados pelo Brasil.” Frederico: Essa é a Thais Medeiros, geógrafa, mestranda pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, e atual presidente do Espeleogrupo de Rio Claro, o EGRIC. Mayra: Os espeleogrupos podem se dedicar à espele

Jul 8, 202129 min

#131 – Ainda é necessário usar animais para testar cosméticos?

O episódio de hoje trata de uma assunto polêmico: é ético fazer testes em animais para garantir a segurança dos produtos cosméticos utilizados pelos humanos? A animação Save Ralph, produzida pela organização Humane Society International, trouxe à tona essa questão e o Oxigênio resolveu investigar! Para entender melhor, a jornalista Rebecca Crepaldi e a bióloga Fernanda Capuvilla entrevistaram dois convidados: Victor Infante, Doutor em Ciências Farmacêuticas com ênfase em medicamentos e cosméticos pela USP, e Ana Carolina Figueira, Doutora em Ciências na área de Física Aplicada Biomolecular, também pela USP, e, atualmente, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Espectroscopia e Calorimetria do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). A discussão, então, gira em torno da história da testagem em animais, do avanço da Ciência e da existência de testes alternativos para muitos experimentos! _________________________ Rebecca: Quem usa as redes sociais, certamente ouviu falar ou assistiu nas últimas semanas, a animação “Save Ralph” que foi produzida pela Humane Society International. Trata-se de uma animação em stop-motion que conta a vida de um coelhinho de testes chamado Ralph. Fernanda: “Save Ralph” é um curta escrito e dirigido por Spencer Susser, com a voz do ator Rodrigo Santoro para sua versão em português. Na animação, Ralph relata o seu dia de trabalho, mas o que de fato chama a atenção são as condições nas quais o coelhinho se apresenta no vídeo, com a pele, orelha e olhos machucados. Isso sensibiliza os telespectadores em relação ao sofrimento dos animais, que passam a se questionar sobre a necessidade destas cobaias. Rebecca: Mas, será que ainda precisamos utilizar os animais para fazer esses testes de segurança para o uso dos produtos cosméticos? Fernanda: Eu sou Fernanda Capuvilla Rebecca: E eu sou Rebecca Crepaldi Fernanda: E no episódio de hoje vamos falar sobre testes em animais para produtos cosméticos e quais seriam as suas alternativas. Rebecca: E para entender melhor sobre esse assunto, trouxemos dois convidados: No primeiro bloco, vamos ouvir Victor Infante, graduado em Farmácia e Bioquímica pela Universidade de São Paulo e Doutor em Ciências Farmacêuticas com ênfase em medicamentos e cosméticos, pela USP. Fernanda: Já no segundo bloco, o bate-papo será com Ana Carolina Figueira, bióloga formada pela UFSCar e Doutora em Ciências na área de Física Aplicada Biomolecular pela USP. Atualmente, é pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Espectroscopia e Calorimetria do Laboratório Nacional de Biociências, na sigla LNBio, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o CNPEM. [VINHETA OXIGÊNIO] Fernanda: Você sabia que, historicamente, os testes em animais são realizados há muito tempo? Pois é, desde 300 a.C. já existem registros de pesquisadores gregos que realizavam experimentos em animais vivos. Rebecca: Mas, Fernanda, 300 a.C. tá longe né? Vamos trazer mais pra perto? Em 9 de dezembro de 1946, houve um acontecimento conhecido como Tribunal de Nuremberg. Neste Tribunal, vinte e três pessoas foram julgadas pelos brutais experimentos realizados em seres humanos durante a segunda guerra mundial. Como consequência, em 19 de agosto de 1947, foi criado um documento que ficou conhecido como Código de Nuremberg. Este documento tornou-se um marco na história da humanidade, pois pela primeira vez, estabeleceu-se uma recomendação internacional sobre os aspectos éticos envolvidos na pesquisa com seres humanos. Ao todo, o código era composto por 10 princípios, sendo que o terceiro deles exigia que os testes fossem feitos em um modelo animal antes de passar para um voluntário humano. Fernanda: Apesar de parecer crueldade, para a época foi um ganho positivo, já que estava poupando o sofrimento dos humanos. Contudo, a Ciência foi evoluindo e viu-se a necessidade de criar conselhos e códigos voltados para testes em animais. Rebecca: Isso mesmo! Atualmente, quase 40 países, incluindo a Índia, Taiwan, Coreia do Sul, Guatemala, Nova Zelândia e Austrália proibiram a testagem em animais. A campanha conduzida pela Humane Society International é responsável por grande parte desse avanço ao redor do mundo e, agora, está encabeçando ações legislativas similares em outros países como: Chile, México, Estados Unidos, Canadá, África do Sul e Sudeste Asiático. Chegando este ano também ao Brasil. Fernanda: A criação da Comissão de ética no Uso de Animais na Fiocruz ocorreu em 2005, passando a ser uma das primeiras instituições no Brasil a ter esse tipo de órgão. Em 2008, o senado brasileiro aprovou por unanimidade a Lei Arouca, criando assim o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, o Concea, que regulamenta o uso de animais em experimentos científicos. Já em 2012, a Rede Nacional de Métodos Alternativos ao Uso de Animais, a RENAMA, foi criada e a Fiocruz criou o seu Centro Brasileiro de Validação de Métodos Alternativos. Re

Jun 25, 202133 min

#130 – Casa de Orates, ep. 6 – A desreforma psiquiátrica

Neste sexto e último episódio do Casa de Orates vamos falar sobre o desmonte das políticas públicas de saúde mental e as perdas de direitos conquistados a duras penas ao longo das últimas décadas, como o acesso a um tratamento humanizado para pessoas com transtornos mentais. Em meio ao caos que estamos vivendo com a pandemia de Covid-19, as mudanças estão acontecendo, aos poucos, sem que a sociedade se dê conta. Mas, o que podemos fazer para impedir o que está sendo chamado de Nova Política Nacional de Saúde Mental? Para ajudar a entender essa nova política e os prejuízos que ela pode trazer para a saúde da população brasileira, conversamos com o psiquiatra Marcelo Brañas, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, e também no hospital Israelita Albert Einstein; a professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Rosana Onocko; a psicóloga Maria Carolina da Silveira Moesch, coordenadora do curso de psicologia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó, a Unochapecó e Fernando Freitas, pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Fiocruz. Nesse episódio, contamos ainda com o depoimento da Ana Carolina, paciente diagnosticada com depressão e que, integrou um projeto social para ajudar outras pessoas com transtornos mentais ——————————————————– ROTEIRO RAFAEL REVADAM: No dia 06 de abril foram comemorados os 20 anos da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Como dissemos em episódios anteriores, essa reforma foi responsável em mudar a maneira como a saúde mental era tratada no país, até então centralizada em internações compulsórias e medicalização. ROBERTA BUENO: Mas as conquistas que garantem um tratamento humanizado estão ameaçadas. Nos últimos anos, pensamentos conservadores estão ganhando força, principalmente no governo atual. RAFAEL REVADAM: Ameaças de cortes de verbas no SUS, mudanças na gestão de políticas públicas para a saúde mental ou liberação de compra de testes psicológicos a qualquer pessoa. Essas são algumas das ações que ocorreram só nos últimos meses. ROBERTA BUENO: Isso é o que associações e conselhos relacionados ao tema estão chamando de Nova Política Nacional de Saúde Mental, uma série de ações que intensificam as internações compulsórias, a medicalização e, principalmente, direcionam os pacientes com problemas de saúde mental a profissionais não-capacitados. Eu sou Roberta Bueno. RAFAEL REVADAM: E eu sou Rafael Revadam, e no programa de hoje nós vamos falar de um movimento silencioso que busca alterar as políticas públicas de saúde mental. Enquanto estamos vivendo os reflexos da pandemia, alguns representantes legais estão aproveitando a visibilidade da covid-19 para implementar uma nova reforma psiquiátrica. MARCELO BRAÑAS: Eu tenho um viés pessoal pra responder essa pergunta porque felizmente eu tenho a sorte de trabalhar em um hospital que é referência no SUS, que é o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, e também num hospital particular de referência que é o Hospital Israelita Albert Einstein, então, eu tenho pouco contato né, com outros serviços, por exemplo, postos de saúde, CAPS, e… outras coisas, só que eu tenho sim acesso a esse cenário ahnn através da população que acaba chegando no hospital das clínicas e conta pra gente como foi o atendimento em outros serviços, relatos de colegas que trabalham nesse serviços, e.. enfim, e o que que a gente observa, a gente observa que a maioria das diretrizes dos órgãos brasileiros por exemplo de saúde, como é o ministério da saúde, pelo menos até um passado recente, na maioria sim, estão de acordo com a Organização Mundial da Saúde, com outras instituições internacionais importantes de referência na medicina. Em importantes centros acadêmicos no Brasil, principalmente em hospitais-escola, né, a medicina praticada é a medicina baseada em evidência, nas evidências científicas atuais né. Agora, uma limitação, por exemplo, é a disponibilidade no SUS né, de tratamentos baseados em evidência. Tem uma gama gigantesca de medicações psiquiátricas que não tão disponíveis no SUS. Tem também várias psicoterapias especializadas que não tão disponíveis em quantidade suficiente no SUS. E outro ponto é que uma coisa é o que tá no livro né, uma coisa é o que tá nas diretrizes, uma coisa que se fala que tá nas universidades de ponta, outra coisa é o que é feita na prática e a gente sim, tanto no Brasil quanto em outros países, a gente ainda vê muitos profissionais tomando condutas e fazendo tratamentos baseado na sua opinião pessoal né, não baseados no que a ciência mostra que funciona, ou que não funciona né. Então, isso é um problema, porque é um gasto de recurso numa coisa que pode não ser a mais adequada, dado o conhecimento médico atual. RAFAEL REVADAM: Esse é o psiquiatra Marcelo Brañas. A gente conversou com ele para entender o panorama da saúde men

May 27, 202127 min

#129 – Escuta Clima – ep. 6 – Amazônia e Cerrado: a importância dos biomas para o clima

Os ecossistemas dos grandes biomas têm a capacidade de influenciar diretamente o clima mundial. Portanto, quando os seres humanos degradam as matas, caçam os animais, queimam e desmatam grandes áreas nativas, acabam interferindo na ciclicidade natural de elementos que garantem a nossa própria sobrevivência. A Amazônia e o Cerrado são dois ótimos exemplos sobre esse assunto. Cada qual com suas particularidades, suas distintas importâncias ecossistêmicas e econômicas, mas sob a mesma ameaça: a gestão do atual governo. A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pela bolsa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). —————————————————————————————————————- Camila Ramos: A boiada passou junto com o Leonardo DiCaprio, que ajudou os povos indígenas a tocar fogo na Amazônia. Já no Pantanal, que é igual a Califórnia, as queimadas são causadas pelas altas temperaturas. Mas, no final, tudo não passa de uma mentira, não é mesmo? Apesar da ironia retratada aqui, essas foram algumas das frases reais e polêmicas ditas pelo Presidente da República, Jair Bolsonaro. Desde 2019, vemos com desespero as manchetes nos portais de notícias sobre as queimadas na Amazônia e em outros biomas brasileiros. E ouvimos o presidente e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, negarem omissão contra o desmatamento e o acobertamento de atividades ilegais que são praticadas na Amazônia, como a extração de madeira, a mineração e plantios ilegais. Durante a Cúpula do Clima de 2021, convocada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e realizada por videoconferência entre os dias 22 e 23 de abril, ouvimos, assim como todo o mundo, o Bolsonaro dizer que, apesar das limitações orçamentárias do Governo, ele havia determinado o fortalecimento dos órgãos ambientais, duplicando recursos destinados às ações de fiscalização para coibir o desmatamento ilegal. Porém, no dia seguinte, ele sancionou o Orçamento de 2021, com vetos que incluíram o corte de 240 milhões de reais da pasta do Meio Ambiente. Segundo reportagem publicada na CNN Brasil, desse montante, serão 11 milhões a menos no orçamento de fiscalização do Ibama, que é o principal órgão federal do meio ambiente. Infelizmente, ver nossas matas ardendo em chamas já virou rotina e talvez continue sendo. Então, no episódio de hoje, que é o último da série Escuta Clima, vamos entender a importância, as ameaças e como preservar os maiores biomas do Brasil, que são a Amazônia e o Cerrado. Para isso, vamos ouvir dois especialistas da área: o Paulo Artaxo, que é professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC; e a Mercedes Bustamante, que é professora do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília. Ambos são pesquisadores do INCT sobre Mudanças Climáticas. Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima. Um podcast para divulgar as pesquisas do INCT sobre Mudanças Climáticas. É vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor, e é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas. [Vinheta do podcast Escuta Clima] Camila Ramos: A Amazônia é a maior floresta tropical chuvosa do mundo, abrangendo uma enorme área do território brasileiro e se estendendo até partes de outros nove países da América do Sul. Nela está a maior bacia hidrográfica do mundo e uma vasta e rica biodiversidade. Suas interações ecossistêmicas são extremamente relevantes não só pro Brasil como para todo o planeta, como explica o Paulo Artaxo. Paulo Artaxo: A floresta Amazônica é absolutamente estratégica para o clima global, tanto do ponto de vista da quantidade de carbono armazenado no ecossistema, que corresponde a cerca de 10 anos de toda a queima de combustíveis fósseis, quanto o seu efeito na chuva na América do Sul. Camila Ramos: O que o Artaxo quis dizer é que a Amazônia libera uma quantidade massiva de vapor de água, gerando nuvens de chuva que irrigam o centro-sul do Brasil. Além disso, as florestas em geral são grandes estoques de carbono, já que esse elemento químico fica armazenado nas árvores e nas raízes das plantas. Ou seja, a partir do momento em que o ser humano desmata e queima essas áreas, o carbono é liberado para a atmosfera na forma de gás e se torna um dos causadores do efeito estufa. Já falamos do aquecimento global causado por esses ga

May 13, 202122 min

#128 – Tá em alta – ep. 3: Patentes

Neste novo episódio do Oxigênio, damos continuidade à série Tá em Alta, que trata de temas relacionados à tecnologia, inovação e empreendedorismo. Neste terceiro episódio, a jornalista Thais Oliveira fala sobre invenção, inovação e patentes, apresentando vários exemplos e histórias bem representativas do universo das patentes. E para esclarecer algumas questões, ela conversou com a Paula Huber, que é farmacêutica especialista em patentes e que trabalha, atualmente, na indústria química. Um dos temas abordados pela Paula interessa à sociedade neste momento, já que diz respeito a um mecanismo da Lei de Patentes, que é a licença compulsória, que talvez seja usada para garantir acesso às vacinas contra a Covid-19. O episódio conta, ainda, com um guia de como depositar uma patente. O texto, produção e edição do episódio foram feitos pela Thais. Thais: Olá, pessoal (!) sejam bem-vindas e bem-vindos ao terceiro episódio do podcast Tá em Altasso Neste programa nós pretendemos tratar de assuntos relacionados à inovação tecnológica e empreendedorismo de uma forma simples e explicativa. Isso porque no nosso cotidiano esses assuntos estão muito em alta, sempre citados na internet, nas escolas, nas universidades. Mas nem sempre todo mundo sabe na prática o que inovação, startups ou tecnologia significam. Neste episódio, nós falaremos sobre patentes. Entenderemos o que elas são e quais são suas características. Além disso, também vamos saber qual é o processo de registrar uma patente a partir de uma invenção. As patentes também estão muito em alta neste ano porque elas têm tudo a ver com as novas vacinas que tem tudo a ver com a pandemia e nós vamos entender o porquê disso. Ah, lembrando que muitos termos que nós vamos citar já foram tratados nos podcasts anteriores como o significado de tecnologia, palavras como inovação produto e processo. Então se você ficar com alguma dúvida confira os últimos episódios. Antes de falarmos diretamente sobre as patentes existem três conceitos relacionados a ela que são importantes de serem diferenciados: descoberta, invenção e inovação. A descoberta ocorre quando alguém descobre algo que já existe na natureza, mas que não tem influência do ser humano. Por exemplo, quando os cientistas descobriram as funções das organelas das células, eles não resolveram um problema, pesquisaram e descobriram sua existência. Já a invenção ocorre quando alguém cria algo novo a partir da combinação entre elementos preexistentes. Um exemplo para ficar mais claro para a gente, é o da invenção da cirurgiã dentista Therezinha Beatriz Zorowich. Ela estava cansada de ter que usar uma bacia para lavar o arroz e depois outra bacia para escorrê-lo, então em 1959 ela teve a ideia de juntar essas duas ações em uma só, e assim foi inventado o escorredor de arroz. Entretanto, nesse caso é importante nós mencionarmos que nem toda invenção pode ser considerada uma inovação. Isso por que ela só se torna de fato uma inovação quando gera um valor para sociedade, ou seja, ela consegue proporcionar um desenvolvimento social e econômico Um exemplo de inovação é a caneta esferográfica. Até a sua criação as canetas demoravam pra secar e elas borravam constantemente. Em 1930, o húngaro Lazlo Biró desenvolveu uma caneta que evitava que a tinta borrasse e quando aplicada no papel, ela secava com muita rapidez. O líquido da tinta foi desenvolvido pelo seu irmão Gyõrgy Biró, que era químico. Depois da criação, os dois irmãos patentearam a invenção. Bom, como acabamos de conhecer as diferenças desses conceitos, agora vamos direto ao mundo das patentes. Patente é o registro que o governo concede a uma pessoa ou empresa que cria uma invenção. Ela tem validade de até 20 anos e impede terceiros de usufruírem comercialmente dela. Cada país tem o seu órgão responsável por fazer essa concessão. Aqui no Brasil, nós temos o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI. Nós vamos falar bastante dele hoje! Para se patentear algo, o INPI comenta que três requisitos devem ser atendidos. O primeiro requisito é o de novidade. É patenteável a invenção que seja comprovada como algo totalmente novo. E um detalhe muito importante: ela não pode ter sido divulgada em nenhum artigo científico ou congresso, e nem mesmo ter sido desenvolvida (já estar sendo produzida) por uma empresa. E essa novidade tem que valer para o mundo inteiro, não é só para o Brasil. Não pode existir uma patente igual ou similar que já esteja em vigência em outro país. O segundo requisito é o da atividade inventiva. A pessoa inventora tem de ser capaz de convencer com argumentos técnicos que alguém da mesma área que a dela não conseguiria com facilidade desenvolver a mesma invenção. Para cumprir este requisito é preciso apresentar as dificuldades e ter um problema técnico superado com essa invenção. Não pode ser simplesmente a combinação de dois elementos que resultam em uma conclusão já conhecida. Eu vou explicar esta parte de uma forma mais clara. Para entender, a gente p

Apr 22, 202116 min

#127 – Escuta Clima ep.5 – A produção de alimentos nos dois lados da porteira

A agropecuária é uma atividade de extrema importância para a sobrevivência humana e para a economia do Brasil. No entanto, com o agravamento das mudanças climáticas, a segurança alimentar de grande parte da população mundial pode estar em risco. Por isso, entenda como funciona a produção de alimentos na porteira para dentro (nas fazendas) e seus impactos na porteira para fora (com os consumidores) e descubra como a ciência continua buscando alternativas sustentáveis para garantir um futuro com mesas fartas para todos. A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pela bolsa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). —————————————————————————————————————-   Camila Ramos: Café, milho, arroz, feijão, soja, girassol, mandioca e frutas de clima temperado, como pêssego e uva, são alimentos que estão em risco por causa do aquecimento global. Risco é uma palavra importante quando falamos sobre a agricultura, isso porque é dependente dos recursos naturais, ou seja, qualquer alteração no clima pode afetar as condições do solo, da temperatura, da disponibilidade de água, prejudicando a safra da estação. Portanto, quando pensamos em um futuro com, pelo menos, 1,5ºC a mais na temperatura global, pensamos também em mais pessoas em situação de vulnerabilidade. Além disso, se não for bem planejada, com consciência ambiental, a atividade pode causar mais danos ao clima. No episódio de hoje, vamos conversar com pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas para entender como a produção de alimentos pode se tornar mais sustentável nos próximos anos e, ao mesmo tempo, garantir uma maior segurança alimentar. E entre as medidas sustentáveis estão a agrofloresta e a recuperação de áreas de pastagens degradadas, que são áreas de pesquisas dos nossos entrevistados: o Jurandir Zullo Junior, que é pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, o CEPAGRI, da Unicamp; a Priscila Coltri, que é agrônoma, pesquisadora e diretora do CEPAGRI; e o João Paulo, que é engenheiro agrônomo e doutorando da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp. Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima. Um podcast para divulgar as pesquisas do INCT Mudanças Climáticas, que é vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor. O Escuta Clima é também uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas. [Vinheta do podcast Escuta Clima] Camila Ramos: Segurança Alimentar é definida como uma situação em que todas as pessoas, a todo momento, têm acesso físico, social e econômico a alimentos nutritivos, seguros e suficientes para as suas necessidades diárias e preferência alimentar para uma vida ativa e saudável. Essa é uma definição da FAO (Food and Agriculture Organization), que é um braço das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Ainda segundo a ONU, devemos chegar ao número de 9,7 bilhões de pessoas no planeta até 2050 e cerca de 11 bilhões até o final do século. Essa foi a conclusão do relatório intitulado Perspectivas Mundiais da População de 2019. Nesse cenário, será que conseguimos garantir uma segurança alimentar para toda essa população? O Jurandir responde essa questão: Jurandir Zullo Junior: Olha, garantia é difícil, porque o desafio da segurança alimentar não é só a produção, é a distribuição e o acesso ao alimento. Na verdade, a alimentação não é só produzir o alimento, é, de alguma forma, dar acesso ao alimento. Então, tem a parte econômica, tem a parte cultural, porque as pessoas… Cada região, cada país tem uma cultura alimentar diferente. Então, assim, dá para dividir, como nós fazemos na área agrícola, “da porteira para dentro” e “da porteira para fora”. Camila Ramos: A porteira para dentro seria a produção de alimentos em si, ou seja, os campos de plantações e a criação de animais. Já a porteira para fora seria todo o caminho seguido pelos produtos da fazenda até a nossa mesa, desde o transporte, as condições das estradas, até a indústria e o mercado. Então, para garantir uma segurança alimentar é preciso levar em consideração não apenas os recursos naturais, mas, também, os aspectos econômicos e a desigualdade social, que limitam o acesso das pessoas aos alimentos dependendo, por exemplo, de onde eles são vendidos e dos preços na hora da compra. Outra questão importante

Apr 8, 202119 min

#126 – Série Casa de Orates – Ep. 5 – Depois de um fim

O tema deste quinto episódio do Casa de Orates é a saúde mental de pessoas afetadas por tragédias. Como seguir a vida após uma grande catástrofe? Que tipo de suporte essas pessoas precisam? Para explicar um pouco sobre toda a estrutura de apoio psicológico presente nesses cenários, trouxemos alguns eventos que marcaram a história do Brasil na última década: o incêndio na boate Kiss, o rompimento da barragem em Brumadinho e a queda do avião da Chapecoense. Além da perda de pessoas queridas, os afetados ainda têm que lidar com a impunidade, já que todas essas tragédias foram consideradas crimes e os processos seguem em aberto. Conversamos com Melissa Couto, psicóloga especialista em emergências e desastres, que atuou nessas tragédias, e com Maria Carolina da Silveira Moesch, psicóloga e coordenadora do curso de psicologia da Unochapecó, que integrou o comitê gestor da resposta ao acidente aéreo da Chapecoense. Também participam deste episódio Letiere Flores, psicóloga que fez um estudo sobre os psicodiagnósticos dos sobreviventes da boate Kiss e André Polga, produtor editorial que criou a página Kiss: que não se repita. Contamos ainda com o depoimento de Natalia Oliveira, irmã de Lecilda Oliveira, uma das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho. Conheça mais sobre as associações, grupos de apoio e iniciativas citadas neste episódio: Associação dos familiares de vítimas e atingidos pelo rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum): https://avabrum.org.br/; Redes sociais: @Avabrumoficial (Facebook). Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo da Chapecoense (AFAV-C): Redes sociais: @AFAV.c2017 (Facebook) Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM): Redes sociais: @AVTSMSantaMaria (Facebook), @avtsm27 (Instagram). Kiss: que não se repita: Redes sociais: @Kissquenaoserepita (Facebook e Instagram). Programa Santa Maria Acolhe (antigo Acolhe Saúde): mais informações diretamente com a Prefeitura de Santa Maria, no telefone: (55) 3921-7000 _________________________________________ Roteiro RAFAEL REVADAM: Oi. Antes de começar eu preciso dar um recado: nesse episódio, a gente vai tratar de temas sensíveis como grandes tragédias, luto e perda de pessoas queridas. Então, se você não se sente confortável com esses assuntos, talvez esse episódio não seja para você. NATALIA OLIVEIRA: Eu sou a Natália, irmã da Lecilda, uma das vítimas né, fatais do crime da Vale aqui em Brumadinho. E… no dia do acontecido, eu mandei mensagem pra ela porque era uma sexta-feira. Eu tava assistindo uma série e, de repente, chegou a mensagem no WhatsApp. É… a barragem rompeu. E aí eu encaminhei essa mensagem pra Lecilda. Aí, a segunda mensagem chegou. É a barragem da Vale. Aí eu mandei a mensagem pra ela. Aí, a terceira mensagem que chegou falando assim: É em Córrego Feijão. Aí, quando eu li a palavra Córrego Feijão, eu já liguei pra Lecilda e nesse momento eu percebi que as duas mensagens que eu tinha mandado pelo WhatsApp ela não tinha recebido. Só tava um pauzinho. Aí eu mandei um áudio pra ela no WhatsApp, Lé me liga, pelo amor de Deus! E saí igual uma louca aqui de casa e comecei essa procura pela minha irmã e essa procura tá até hoje. A gente nunca tinha imaginado que poderia acontecer uma tragédia. A gente vê a tragédia na televisão, a gente nunca pensou em estar dentro de uma tragédia, de fazer parte de uma. ANA AUGUSTA XAVIER: Tragédia, substantivo feminino: Acontecimento triste, funesto, catastrófico, que infunde terror ou piedade. RAFAEL REVADAM: A história de todos nós carrega pequenas tragédias pessoais que nos marcam pela vida toda. Um acidente de carro, uma doença grave, um mal súbito. Acontecimentos inesperados que nos fazem perder o rumo e tiram o nosso chão. ANA AUGUSTA: Mas também existem tragédias de grandes proporções, que além de afetar individualmente a vida de cada um, causam impacto em uma comunidade inteira. Um bairro, uma cidade, um país, o mundo. RAFAEL REVADAM: A Natalia, que deu o depoimento que ouvimos no começo do episódio, viveu de perto uma dessas catástrofes. A irmã dela, Lecilda, foi uma das vítimas no rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, no dia 25 de janeiro de 2019. 259 pessoas morreram. Lecilda e mais 10 pessoas não foram encontradas. ANA AUGUSTA: E este é apenas um dos eventos trágicos coletivos que marcou a história do Brasil nos últimos dez anos. Nessa lista também estão os deslizamentos causados pelas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro, em 2011; o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, em 2013, o rompimento da barragem da Samarco em Mariana, no ano de 2015 e a queda do avião da Chapecoense, em 2016. RAFAEL REVADAM: Todas essas tragédias têm pontos em comum. Elas são visuais, com imagens marcantes, tiveram alcance nacional. E o mais agravante, todas poderiam ter sido evitadas. ANA AUGUSTA: E se no primeiro momento, a preocupação é com as vítimas, o segundo passo é olhar pra q

Apr 2, 202132 min

#125 – Tá em alta – ep. 2: Tecnologia

A série Tá em Alta aborda assuntos ligados à inovação, tecnologia e empreendedorismo, e nesse segundo episódio fala sobre tecnologia. E sobre isso, a Thais Oliveira fez uma retrospectiva histórica, na verdade pré-histórica, pra falar da origem da tecnologia. Quem vai ajudá-la a tratar do tema, mais especificamente sobre a relação entre a tecnologia e seu impacto na vida das pessoas, é a Daniela Osvald Ramos, professora e pesquisadora do departamento de comunicações e artes da ECA-USP. Ouça o novo episódio e acompanhe toda a série por aqui ou pela plataforma de podcast de sua preferência. ____________________________ Roteiro Thais Oliveira: Olá, pessoal. Sejam bem-vindas e bem-vindos ao segundo episódio do podcast Tá em Alta. Meu nome é Thais Oliveira e nesse podcast, nós pretendemos tratar de assuntos relacionados à inovação, tecnologia e empreendedorismo de uma forma simples e explicativa. O nosso objetivo é falar sobre assuntos que tão muito em alta e são muito debatidos em escolas, universidades e até na tevê, mas muitas vezes são tratados de uma forma superficial. A nossa ideia é pegar esses assuntos e discutir, na prática o que eles significam. No nosso segundo episódio, nós vamos falar sobre tecnologia. Tecnologia é uma palavra que tá em alta atualmente, mas que na verdade nunca saiu de cena. E por isso nesse episódio, eu vou comentar não só sobre como as tecnologias mudaram o mundo, mas também comentar sobre as suas aplicações na sociedade e falar um pouco também sobre as suas relações com a ciência. Pra começar o assunto, eu trouxe a origem da palavra tecnologia. Ela vem do grego, techné, um verbo que significa fabricar, produzir, ou construir que se une ao sufixo logia que também vem do grego logus, que quer dizer razão. Então, tecnologia significa a razão do saber fazer. Não é novidade que a tecnologia está em todo nosso redor, e ela está presente desde a idade da pedra, moldando as relações sociais, econômicas e até políticas do homem. Para nós conhecermos um pouco sobre esse desenvolvimento tecnológico, eu convido vocês para fazermos uma viagem no tempo. Nosso ponto de partida são os períodos paleolítico e neolítico, que duraram de cerca de 2,7 milhões de anos até 4.000 anos atrás. Nessa época a tecnologia tinha somente o objetivo de atender somente as necessidades do homem nômade. E esse homem nômade, ele não usava a tecnologia com base em pesquisa ou conhecimentos científicos, como a gente pode imaginar, né? Mas ele usava a partir experiências do dia a dia. E aí, ele criava lanças, machados, coisas para ele subsistir. Quando o homem se fixou na terra, ele passou a desenvolver outras ferramentas, como o arado e a roda. E a roda pode ser considerada também uma inovação. Se você quiser saber quando uma tecnologia, um equipamento, enfim é de fato uma inovação, você pode conferir o primeiro episódio da série Tá em Alta que fala sobre inovações. Dado o recado, vamos seguindo aqui na nossa viagem no tempo. O próximo período que a tecnologia se firmou foi na idade média, já no regime do feudalismo, que era um regime rural que se baseava na forte obrigação entre servos e senhores feudais. A tecnologia nessa época esteve presente dentro dos feudos através dos artesanatos e o desenvolvimento tecnológico que aconteceu nessa época foi a partir dos teares manuais e das máquinas de costura. Só que como a gente sabe pelos registros históricos, o sistema feudal começou a fracassar e, assim, essa atividade artesanal que era realizada dentro dos feudos migrou para as cidades, e é dentro das cidades que a tecnologia começa a ter um objetivo diferente. Isso porque ela começa a ser mais atrelada a relações sociais e econômicas. Tudo isso se tornou mais forte lá por volta de 1650 quando doutrinas como iluminismo, absolutismo e mercantilismo resultaram na primeira revolução industrial. E esse é um grande marco para a tecnologia porque foi na revolução que ela viveu seu grande salto, o trabalho artesanal que começou lá nos feudos e depois migrou para as cidades foi totalmente substituído pelo uso das máquinas nas grandes empresas. E toda essa mecanização só foi possível porque a tecnologia proporcionou a mudança do uso da energia hidráulica, que era obtida a partir da água, pro uso da energia que movimentava as máquinas a partir do vapor, que usava o carvão como matéria prima. A mecanização, provocada pela tecnologia, não só mudou o tipo de… o tipo de energia que se usava na época, mas também causou uma maior produtividade para as indústrias e grande avanço do desenvolvimento científico e tecnológico. E essa revolução marca o tempo em que a tecnologia realmente se torna parte do sistema capitalista, isso porque esse sistema percebeu que as tecnologias emergentes tinham capacidade de proporcionar soluções para se produzir e vender mais. Até aqui eu falei como a tecnologia foi importante desde a idade da pedra, depois nos feudos como ela foi usada no artesanato, e aí esse impacto que a tecnologia tem quando ela re

Mar 11, 202115 min

#124 – Leitura de fôlego ep. 4: Utopia – o sonho que antecede o pesadelo?

A perfeição pode ser um problema. Utopia e distopia não são tão diferentes assim. Uma sociedade perfeita é um perfeito pesadelo. Essas afirmações (que podem parecer desconcertantes à primeira vista) são discutidas neste quarto – e último – episódio da série Leitura de Fôlego. Carlos Eduardo Ornelas Berriel tem se dedicado a estudar as utopias literárias há mais de 20 anos e, nesse episódio, ele conversa com a gente sobre esse assunto. Leitura de Fôlego é uma série sobre literatura para o Oxigênio. Quem está à frente desse projeto é a Laís Souza Toledo Pereira, com supervisão e edição de Simone Pallone e trabalhos técnicos de Gustavo Campos e de Octávio Augusto Fonseca. Quem ajuda na divulgação do podcast é a Helena Ansani Nogueira. _________________________________ Laís: Oi! Eu sou a Laís Toledo, e esse é o quarto e último episódio da “Leitura de fôlego”, uma série sobre Literatura no Oxigênio. Carlos Berriel: Uma sociedade perfeita são perfeitos pesadelos, porque ela elimina aquilo, a última coisa a ser eliminada do mundo, que é o indivíduo. Pode eliminar tudo, menos o indivíduo, porque, se você eliminar o indivíduo, aí já está tudo eliminado, não tem mais nada. Laís: Utopia. Essa palavra, inventada a partir do grego, quer dizer “não lugar”, “o que não está em lugar nenhum”. A gente fala de utopia normalmente pra se referir a um lugar ou a uma sociedade onde tudo é perfeito. Ou também para se referir a uma situação que tende a não se realizar, um sonho inalcançável. Então, por que será que uma sociedade perfeita seria um perfeito pesadelo? Por que ela eliminaria os indivíduos? Nesse episódio, a gente vai conversar sobre a utopia, que já nasce cheia de contradições e ambiguidades e que não é assim tão diferente da sua filha mais popular hoje em dia, a distopia. Quem conversa com a gente sobre esse assunto é o Carlos Eduardo Ornelas Berriel. Ele é professor e pesquisador do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. Faz mais de 20 anos que ele tem se dedicado ao tema das utopias literárias. Ele é fundador e editor da Revista Morus – Utopia e Renascimento e dirige o Centro de Estudos Utópicos da Unicamp, chamado U-TOPOS. O Berriel também é membro de várias sociedades científicas internacionais voltadas para o problema utópico e tem se dedicado à tradução, ao estudo e à publicação de utopias italianas. Laís: A gente tem esse uso cotidiano da palavra utopia, de situação perfeita ou inalcançável, mas o Berriel me contou que, pra quem estuda esse tema, a utopia ainda está em definição. Berriel: A utopia é um campo de reflexão atual. Nunca se estudou tanto utopia como agora. Na verdade, a utopia começa a ser estudada só no século XX e é mais ou menos por etapas; assim, tem uma época em que se estuda e depois se larga. E, de uns trinta anos pra cá, é uma fase de grandes estudos sobre utopia. E muita produção, muito centro de pesquisa, publicações, traduções. Nunca se estudou tanto, o que é interessante. Laís: Apesar de os estudiosos desse campo estarem promovendo várias discussões para tentar definir a utopia, o Berriel, que é mais ligado à área da literatura, falou sobre a visão dele de utopia como um gênero literário, um tipo de texto. Berriel: Eu vou dizer o que eu acho. Eu acho que utopia é um gênero literário, que tem determinadas características muito específicas. É um gênero literário que nasce com a sociedade moderna, a sociedade burguesa. E ela tem, enquanto, digamos assim, características de gênero, a utopia é muito próxima ou é mesmo uma sátira, é uma sátira política. Ao ser uma sátira, ela tem uma característica desse gênero, que é um gênero antigo, que se renova, que se refaz, como os gêneros literários vão se refazendo com o tempo, atendendo às demandas de cada época. A sátira tem por característica ser um gênero de períodos de grande fratura histórica, de grandes transformações sociais, como, por exemplo, a sátira; ela tem uma ligação direta com a crise da sociedade romana. Laís: A sátira como um tipo de texto surgiu na Roma Antiga, e o Lucílio, que nasceu por volta de 180 a.C., é considerado seu criador. A palavra satura tem a ver com um tipo de bandeja cheia – saturada – de frutas. O autor da sátira imitava outros gêneros: é como se ele misturasse em uma mesma obra (bandeja), vários gêneros literários (frutas) diferentes. Isso acontece porque, como disse o Berriel, o chão da sátira é uma crise social, uma rachadura na crosta histórica; é como se um mundo estivesse acabando e outro ainda estivesse nascendo. E, na beira desse abismo, o escritor ainda não podia inventar um gênero novo; então, ele imitava e misturava gêneros “mortos”, gêneros de um mundo que estava acabando. Berriel: O satirista está na margem histórica nova, mas ele usa materiais literários da sociedade velha, ou da comunidade velha. Isso dá uma espécie de sabor de uma coisa irônica, uma coisa relativamente falsa, de um riso no canto da boca, que é o riso do cachorro, de onde vem o cinismo, de cinus, que é cacho

Feb 25, 202135 min

#123 – Tá em alta – ep. 1 – Inovação

O primeiro episódio da série Tá em Alta trata sobre inovação. No programa, foi discutido seu significado, quando de fato um produto ou empresa pode ser considerada inovadora e quais são os tipos e categorias de inovação que são encontrados tanto na rotina das pessoas quanto na indústria. O podcast contou com a participação da Eliza Coral, especialista em gestão estratégica de inovação e gerente executiva do Instituto Euvaldo Lodi de Santa Catarina, que apresentou exemplos de inovação que não tenham relação com o meio digital como a rede Starbucks e explicou como que o “inovar” pode ocorrer de forma individual.

Feb 22, 202112 min

#122 – Escuta Clima – ep. 4 – Vulnerabilidade: as vítimas das mudanças climáticas

No episódio anterior, descobrimos como a desigualdade social afeta determinados grupos urbanos durante a iminência de um desastre natural. No episódio de hoje, vamos identificar quem faz parte desses grupos mais vulneráveis e como os eventos extremos no Brasil afetam suas saúdes e os colocam em risco de morte. É importante lembrar, também, que tais eventos de ordem climática são intensificados pelo aquecimento global e ficarão mais fortes e frequentes a cada ano. A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pelo programa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).   —————————————————————————————————————- Roteiro Camila Ramos – A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas, que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Esse é o artigo 196 da atual Constituição brasileira. No episódio anterior e a primeira parte do tema de Vulnerabilidade, que você encontra nessa mesma plataforma que nos ouve agora, vimos que a desigualdade social é um fator determinante da vulnerabilidade humana frente ao risco de um desastre natural. O Alberto Najar, que é sociólogo e pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, resume bem o assunto: Alberto Najar – Risco e vulnerabilidade são conceitos que só podem ser compreendidos levando em consideração diferentes contextos histórico-sociais e as diferentes disputas de paradigmas das áreas científicas que as desenvolveram. Portanto, dependendo do ponto de vista, sob risco podem estar grande parte das populações e das comunidades que vivem em situação de vulnerabilidade, principalmente em grandes centros urbanos. A exposição ao risco ou a existência de vulnerabilidade é produto dos modelos econômicos que prevaleceram desde a metade do século XX, e que acentuaram as desigualdades econômica e sociais, aumentando a pobreza e expulsando significativa parte da população para as periferias urbanas, áreas essas que foram gradativamente ocupadas de forma desordenada, o que gerou não apenas problemas ambientais de diversas ordens, mas também a intensificação de situação de risco geradas por ameaças ou processos naturais, que são potencializados pelos eventos extremos decorrentes, por exemplo, das mudanças climáticas”. Camila Ramos – Também vimos no episódio anterior que existem diversos estudos voltados a descobrir quem são as pessoas sob risco. Como é o caso da pesquisa conduzida pela Regina Alvalá e colaboradores, que estimaram com base em análise para 825 municípios do Brasil que a cada 100 habitantes, nove viviam em áreas de riscos de desastres. A Regina é pesquisadora e coordenadora de Relações Institucionais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, e foi uma das entrevistadas. Essas pesquisas ajudam a subsidiar a gestão de riscos e respostas a desastres e são relevantes para subsidiar, também, políticas públicas que têm o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população e são extremamente importantes para tornar uma cidade mais resiliente. Afinal, os eventos climáticos extremos estão ficando mais intensos e frequentes a cada ano, intensificados pelo aquecimento global. Como indica o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Então, no episódio de hoje iremos continuar o assunto de Vulnerabilidade, identificando quem são as pessoas que vivem em áreas sob risco de desastres no Brasil e como esses eventos afetam sua saúde e suas vidas. Assim, vamos ouvir novamente os pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas, que são a Regina Alvalá, o Alberto Najar e a Gabriela Couto, que é doutoranda do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do INPE e pesquisadora associada do Cemaden. Teremos, também, a participação da bióloga Júlia Alves Menezes, que é pesquisadora do Laboratório de Análises e Desenvolvimento para a Sustentabilidade do INPE e pesquisadora de Estudos Transdisciplinares em Saúde e Meio Ambiente da Fiocruz. E da enfermeira Rhavena Santos, pesquisadora do Instituto René Rachou da Fiocruz. Ambas pesquisadoras do INCT sobre Mudanças Climáticas. Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima. Um podcast para divulgar as pesquisas do INCT Mudanças Climáticas.

Feb 11, 202124 min

#121 Série Casa de Orates – ep. 4 – Alerta de tsunami

No quarto episódio do Casa de Orates, falamos sobre como a pandemia do novo coronavírus afetou e está afetando a nossa saúde mental. Os especialistas alertam para um tsunami de transtornos mentais decorrentes desse caos que estamos vivendo e que tem despertado inúmeros sentimentos difíceis de lidar, como medo, raiva, estresse e solidão. Além do medo da doença, a pandemia nos trouxe inúmeros desafios, como o trabalho remoto, a suspensão de aulas e de atividades presenciais, a deterioração da situação socioeconômica com perda do emprego ou redução de salário, entre muitos outros. Conversamos com Caio Maximino, professor de psicologia experimental da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, que integra o Núcleo de Estudos Psicossociais em Saúde da universidade, e com Rosana Onocko, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e coordenadora da residência multiprofissional em saúde mental. Eles falaram sobre os efeitos do distanciamento físico na saúde mental e deram dicas do que fazer se percebermos que a sobrecarga de emoções está nos afetando. Também lembraram dos profissionais que são mais afetados emocionalmente pela pandemia e explicaram as possíveis razões que levam algumas pessoas a furar a quarentena e a negar a relevância do coronavírus. Esse episódio contou com sonoras dos telejornais da TV Cultura, da TV Brasil, da Record e da Bandnews, e foram retiradas de seus canais no YouTube. Os depoimentos são de amigos e familiares, que contaram um pouco do que viveram durante a pandemia. O episódio “Cientistas e filhos em tempos pandêmicos” citado neste programa está disponível em: <https://oxigenio.comciencia.br/104-tematico-cientistas-e-filhos-em-tempos-pandemicos/>. Algumas sugestões de serviços de apoio psicológico são: Página do Facebook Cuidando de você na pandemia, disponível em: <https://www.facebook.com/cuidandodevocenapandemia> Humanidades 2020, vários psicólogos se uniram para construir um canal de atendimento aberto e direto. Os voluntários do projeto disponibilizam seus números de telefone e quem quiser ser atendido pode falar direto com eles por WhatsApp. Ana Luiza Novis, (21) 99609-9346, e a Laura Machado, (21) 98820-6989, são as psicólogas responsáveis. Plantão Psicológico Online do Núcleo de Estudo, Pesquisa e Atendimento em Psicologia da Universidade Metodista (NEPAP). Disponível em: <https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScg2WAK8OMqeZpamhTZgistWkz2bU5vpsciwI6p9cWorWzB3g/viewform>. O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Disponível em: <https://www.cvv.org.br/>. Créditos da imagem: Mark Harpur (@luckybeanz/Unsplash) _____________________________ Roteiro ROBERTA BUENO: Oi. Antes de começar eu preciso dar um recado: nesse episódio, a gente vai tratar de temas sensíveis como luto e perda de pessoas queridas. Então, se você não se sente confortável com esses assuntos, talvez esse episódio não seja para você. Manchetes Informação importante: a OMS acaba de declarar pandemia por causa do coronavírus! Quem tá acompanhando e tem mais informações é a editora internacional aquí da Band News, Beatriz Ferreti. Fala Beatriz! Olá, boa tarde! Estamos de volta com o Governo Agora. A Organização Mundial de Saúde declarou hoje pandemia do novo coronavírus. Segundo a a OMS, são mais de 118 mil casos da doença no mundo. O avanço do coronavírus pelo mundo fez a Organização Mundial da Saúde declarar a doença como pandemia. Segundo a OMS, o número de infectados, mortes e países atingidos deve aumentar… ANA AUGUSTA: No momento em que escutou esse anúncio, lá no dia 11 de março de 2020, você imaginou tudo o que viria pela frente? Eu, com certeza, não. Trabalho na Unicamp e, quando as atividades presenciais foram suspensas, um dia depois desse anúncio, eu até comentei com meus colegas “ah, dia 30 a gente tá de volta”. Eu tava tão otimista que naquela mesma semana ainda viajei pra despedida de solteira da Ane, aquela minha amiga que vocês conheceram no primeiro episódio da série. ROBERTA BUENO: Hoje, quase onze meses depois, a gente sabe o que aconteceu. Na verdade, o que ainda tá acontecendo. Nossa vida virou de ponta-cabeça. Diminuímos os contatos sociais, começamos a usar máscaras, nossa casa virou lugar de trabalho, estudo, comida, descanso – tudo junto e misturado – redobramos os cuidados com a higiene – quem aí não se pegou lavando pacote de batata palha? ANA AUGUSTA: Sem falar na preocupação em ficar doente, de passar o vírus pra outra pessoa sem saber, a incerteza do que vai acontecer amanhã…. E pra piorar, uma crise política no meio da maior ameaça de saúde do século! É pra tirar qualquer um fora do eixo. Todo esse caos acabou nos trazendo muitos sentimentos difíceis de lidar, como medo, raiva, estresse, solidão… ROBERTA BUENO: Especia

Feb 4, 202128 min

#120 Leitura de fôlego ep. 3 – Capitu e suas herdeiras? Personagens femininas silenciadas

Neste terceiro episódio da Série Leitura de Fôlego, Lúcia Granja, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, fala sobre sua pesquisa relacionada ao silenciamento da mulher em obras literárias brasileiras. Os autores estudados têm um perfil muito semelhante, são, em maioria, homens, brancos, e vivem no Rio de Janeiro e em São Paulo. Através de seus personagens homens, em geral os narradores das histórias que ao contarem sobre algum conflito pelo qual passam ou passaram, tentam omitir a voz da mulher em relação ao acontecimento narrado, sem muito sucesso. Lúcia vem estudando esse tema há quase 30 anos e neste podcast ela conta para a Laís Toledo, algumas passagens de obras importantes, e vai analisando justamente esse aspecto encontrado na literatura brasileira. _________________________   Laís Toledo: Oi! Eu sou a Laís Toledo, e esse é um episódio da “Leitura de fôlego”, uma série sobre Literatura pro Oxigênio. Laís: Um homem e uma mulher formam um casal. Por algum motivo, acontece um conflito entre eles, e esse relacionamento acaba. O homem, depois, resolve contar esse conflito. Com isso, ele procura dar um novo significado pra própria vida e, ao mesmo tempo, silenciar, omitir, a voz da mulher em relação ao que aconteceu entre os dois. Mas, de alguma forma, a voz dessa mulher consegue escapar e aparecer na história… A Lúcia Granja, que conversa com a gente nesse episódio, percebeu que esse modelo de narrativa se repete em algumas importantes obras literárias brasileiras. Partindo do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, a nossa conversa passa por Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Raduan Nassar até chegar a um escritor contemporâneo, o Marcelo Mirisola. A Lúcia é professora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL da Unicamp. Ela pesquisa principalmente a obra do Machado de Assis; em especial, as crônicas desse escritor e as relações entre Literatura e Jornalismo na produção dele. Laís: A Lúcia propõe essa análise sobre o silenciamento feminino como uma linha de força na ficção brasileira. Ou seja, como um tema recorrente. Ela desenvolveu essa análise a partir do conhecimento que tem sobre o Machado de Assis e a partir também de pesquisas didáticas que ela vem fazendo há quase 30 anos para oferecer disciplinas, na universidade, sobre Literatura brasileira. Pra começar a conversa, então, eu pedi pra Lúcia explicar essa leitura que ela faz. Lúcia Granja: Eu acabei percebendo que existe pelo menos um modelo inicial que vai se desdobrar no século XX em termos de romance: um homem que narra o conflito amoroso (um homem, portanto, que é um narrador personagem), que, depois de ter vivido uma situação traumática de conflito amoroso, vai falar desse conflito e isso seria o romance. Portanto, é um romance autobiográfico. E, nesse caso, existe um processo duplo, que é o processo de silenciamento da mulher, que é o par amoroso desse homem, mas às vezes essa mulher, de alguma maneira, ela recupera um espaço de fala dentro desse relato, que seria o relato unilateral de um homem. Isso vai se transformando ao longo do século XX e vai mudando de romance para romance. Laís: Para essa análise, a Lúcia selecionou alguns romances, entre outros que poderiam ser incluídos nesse modelo. Eu pedi pra ela comentar sobre essas escolhas. Lúcia: Eu pensei em Dom Casmurro como um paradigma de início, porque Dom Casmurro inaugura o século XX. Dom Casmurro chegou ao Brasil em janeiro de 1900, embora ele tenha sido publicado em 1899 pelos editores Garnier em Paris, ele chegou ao Rio de Janeiro em janeiro de 1900. Então, a partir de Dom Casmurro, o paradigma se estende pra Graciliano Ramos, São Bernardo, depois, de uma maneira muito mais complexa, Grande Sertão: Veredas, mais tarde, Um copo de cólera e, depois, eu acabei abrindo para um romance absolutamente contemporâneo, de um escritor que se chama Marcelo Mirisola, e que se chama Hosana na sarjeta, o romance. Então, a ideia é, na realidade, falar desse silenciamento feminino e de como isso, no conflito amoroso, cria uma linha de narrativas dentro da Literatura brasileira. Então, acho que uma linha de força, porque nós estamos diante de narradores homens que narram o conflito amoroso. E por que que é o homem que narra o conflito amoroso? Lúcia: Aí eu vou pra um dado empírico que é o seguinte. Tem uma professora da UnB que tem feito muita pesquisa sobre quem são os escritores brasileiros. Essa professora é a Regina Dalcastagné. Ela tem feito uma pesquisa extensiva, de romances entre 1990 e 2004. Na verdade, eu estou com dados um pouco antigos da pesquisa dela, porque a pesquisa continuou, mas eu acho que as porcentagens não mudaram muito, não. E a pesquisa que ela fez mostra que os autores brasileiros (eu acho que não só brasileiros, mas ela está focada nos brasileiros) são na maioria brancos (90%), homens (70%) e a maioria deles mora no Rio de Janeiro e em São Paulo (arredondando 50% no RJ e 20% em SP), desses que são homens e brancos

Jan 28, 202131 min

#119 – Escuta Clima – Ep 3: Vulnerabilidade: desigualdade social e estruturas urbanas

A alteração climática tem um forte componente que é a ação humana e que afeta direta e indiretamente sua própria espécie. No entanto, a forma que cada pessoa é atingida pelos desastres naturais causados e intensificados pelo aquecimento global é muito diferente. A vulnerabilidade é um fator determinado pela desigualdade social e isso fica claro ao analisar as estruturas urbanas, um fator decisivo para indicar se o indivíduo vai sobreviver ou não em um evento extremo. Essa é a primeira parte do tema Vulnerabilidade Humana frente às Mudanças Climáticas. A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pela bolsa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). —————————————————————————————————————- Camila Ramos – “Twister”, “O dia depois de amanhã”, “O impossível”, “2012”. Você já assistiu algum desses filmes que retratam desastres naturais? É um tema que Hollywood adora e não vou negar que também amo esses filmes. Prendo a respiração nas cenas tensas e até choro nas cenas dramáticas. Mas morro de rir com a falta de realismo e com os efeitos especiais de qualidade questionável. Se no cinema esses eventos extremos provocam emoções que vão da tristeza ao riso, no mundo real a situação é um pouco diferente. Furacões e tornados, terremotos e tsunamis e erupções vulcânicas acontecem de uma forma muito mais cruel, triste e devastadora que na ficção. Você consegue se lembrar de algum exemplo de desastre que tenha ocorrido realmente? Para mim, os tsunamis que atingiram a Indonésia em 2004 e o Japão em 2011 foram os mais marcantes. Mas ao longo dos meus vinte e quatro anos, muitos desses eventos ocorreram, causando perdas humanas e materiais principalmente em localidades mais empobrecidas. E saiba que a perspectiva pro futuro não é nada boa nesse sentido. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas de 2014 indica que os eventos extremos de ordem climática estão ficando cada vez mais intensos e mais frequentes. E o principal motivo é o aquecimento global. Esses desastres causam muitos danos ao meio ambiente, às estruturas urbanas e, principalmente, levam milhões de pessoas à morte ou à situação de fragilidade. Sabemos que uma parcela da população é muito mais vulnerável que outros grupos. E isso é provocado, principalmente, pela desigualdade social. Por isso, dependendo da localidade em que os eventos extremos ocorrem, o impacto para a população e para a economia são muito diferentes. Por exemplo, no Brasil, a cada 100 habitantes de uma cidade, nove vivem em áreas de risco. Esse dado é de uma pesquisa feita pela Regina Alvalá, que é uma das entrevistadas do episódio de hoje. Ela é pesquisadora e coordenadora de Relações Institucionais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o CEMADEN. Outra pessoa que vamos ouvir é o Alberto Najar, que é sociólogo e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz. Eu conversei também com a Gabriela Couto, doutoranda do Centro de Ciência dos Sistemas Terrestres do INPE e pesquisadora associada do Cemaden. Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima. Um podcast para divulgar as pesquisas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas. É vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor, e é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas. [Vinheta do podcast Escuta Clima] Camila Ramos – É muito comum ouvir o termo desastre natural, seja pela mídia, na política ou em conversas do dia a dia. Mas nem sempre o termo correto é este. Isso porque há uma diferença entre desastre natural e risco natural. Como diz a Regina: Regina Alvalá – Risco é uma possibilidade de dano, não significa desastre. O desastre é um risco que se concretizou, sendo que sua intensidade depende de condições de vulnerabilidade e interação com as ameaças. Camila Ramos – Para ficar mais claro do que estamos tratando, vamos lembrar de um desses eventos. O vulcão Etna, que fica na Sicília, na Itália, é um dos mais ativos do mundo e no seu entorno há diversas cidades. Então, os habitantes dessas cidades e vilas estão constantemente sob a ameaça de uma erupção vulcânica e existe a possibilidade desse evento causar danos materiais e perdas de vidas. Consequentemente, esses moradores vivem sob o risco de um evento natural

Jan 21, 202122 min

#118 – Gaia episódio 3 – Projetando o futuro

Jan 14, 202124 min

#117 – Série Casa de Orates – Ep. 03: Tranquem os loucos!

O Casa de Orates é uma série do Oxigênio pra conversar sobre saúde mental. Nesse terceiro episódio vamos falar sobre a luta antimanicomial no Brasil e a regressão nas políticas públicas de saúde mental que vem ocorrendo nos últimos cinco anos. Desde 2015, durante o Governo Dilma, posicionamentos conservadores na psiquiatria estão ganhando espaço e recursos. Esses grupos defendem o isolamento como tratamento e a religião como cura. Para entender como isso pode afetar a vida de milhões de brasileiros, conversamos com Paulo Amarante, presidente de honra da Associação Brasileira de Saúde Mental, a Abrasme, e fundador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Fiocruz, e Fernando Freitas, pesquisador em saúde mental e atenção psicossocial da Fundação Oswaldo Cruz. O episódio também conta com trechos da obra O Alienista, de Machado de Assis, que está disponível no link: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000231.pdf Confira os documentos e legislações citados no programa. – A lei nº 10.216, de 2001, que garantiu as novas diretrizes dos tratamentos de saúde mental: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm – O memorial Retrocessos no cuidado e tratamento de saúde mental e drogas no Brasil, elaborado pela Associação Brasileira de Saúde Mental – ABRASME: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2020/12/900.8_LY_CARTA_abrasme_A4.pdf – Já as notas do Conselho Federal de Psicologia sobre as comunidades terapêuticas e as novas legislações, principalmente as focadas nas pessoas em situação de rua e em jovens, estão disponíveis no site da instituição: https://site.cfp.org.br/ Roteiro Trecho de O Alienista (Roberta Bueno): Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia. Rafael Revadam: Entre os anos de 1881 e 82, Machado de Assis publicou a obra O Alienista. Na história, o médico Simão Bacamarte resolve analisar o que é a loucura. Pra isso, consegue a autorização do município de Itaguaí e lá constrói o seu hospício, a Casa Verde. Ana Augusta Xavier: Naquela época, os manicômios eram chamados de Casa de Orates, já que orate significa demente, louco, aquele que perdeu o juízo. E apesar desse termo não ter sido criado por Machado, foi sua obra que inspirou o nome da nossa série de reportagens. Casa de Orates é o título do primeiro capítulo do livro. Rafael: Disposto a recolher toda pessoa que aparentasse traços de loucura, Bacamarte começou a ver a tal falta de sanidade em todo mundo. Pessoas em situação de rua, loucos de amor, gente materialista… Se alguém fugisse dos padrões comportamentais dignos da sociedade, ia parar na Casa Verde. Ana Augusta: E o que parece ser uma sátira de ficção do Machado de Assis, na verdade tem muito da realidade. As políticas manicomiais surgiram para internar qualquer pessoa que se deslocasse do que a sociedade considerava normal. Pobres, homossexuais, mães solteiras, jovens da elite que se envolviam com pessoas de uma classe social diferente. Todos paravam nos hospícios. Rafael: Um exemplo disso é o Colônia, que foi o maior hospital psiquiátrico do Brasil, e ficava na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. O psiquiatra Franco Basaglia, precursor do movimento italiano de reforma psiquiátrica, visitou o hospital em 1979. Ao sair, ele deu uma coletiva de imprensa e disse que o Colônia mais parecia um campo de concentração nazista. Ana Augusta: E a comparação de Basaglia não é exagerada. Entre os anos de 1930 e 1980, foram contabilizadas 60 mil mortes no Colônia. A jornalista Daniela Arbex publicou, em 2013, um livro-reportagem sobre o hospital, que chamou de Holocausto Brasileiro. Rafael: Vale destacar que o Colônia é apenas um dos hospitais psiquiátricos que existiram no país, o que faz com que o genocídio de uma população dita como louca seja muito maior. Eu sou Rafael Revadam e este é o Casa de Orates, um podcast para falar sobre saúde mental. Ana Augusta: E eu sou Ana Augusta Xavier, e no episódio de hoje vamos falar sobre a luta antimanicomial. E porque hoje, 50 anos depois das primeiras denúncias, ainda tem gente defendendo a internação compulsória como principal tratamento mental. Paulo Amarante: Eu chamo de reforma psiquiátrica todo este movimento que tem, de transformação, tanto do modelo assistencial, que era e ainda tem muita força manicomial, dos hospícios e tudo, para um modelo centrado na atenção psicossocial, dos CAPS, e tudo, mas também, uma outra questão que é da reforma psiquiátrica que é, digamos assim, da mudança de relação que se tem com a ideia de loucura, que não diz respeito só aos serviços, é social, diminuir o estigma, combater o preconceito. Todas as más informações, desinformações que se tem sobre sofrimento mental, sempre associado c

Jan 7, 202126 min

#116 – Afinal, o que é bem-estar animal?

Nota da equipe de produção: Este é o último episódio do ano. Agradecemos a audiência neste 2020 e contamos com a companhia de nossos ouvintes em 2021. Agradecemos também a parceria com a Rádio Unicamp. Desejamos muita paz, saúde, realizações e muitos podcasts pra todos! É comum ver questões polêmicas na mídia que envolvem o bem-estar animal. Nesse cenário, as pessoas frequentemente se posicionam sobre o que deve ou não ser feito para melhorar as condições de vida dos animais mantidos sob cuidados humanos. Mas o que realmente é bem-estar animal? Quais aspectos estão envolvidos e devem ser considerados para melhorar efetivamente a qualidade de vida dos animais? Neste programa, mergulhamos na ciência por trás do bem-estar animal e quem nos ajuda nessa jornada é o médico veterinário e docente da Unesp Stelio Luna, a zootecnista e doutoranda em Zootecnia Marina da Luz, o médico veterinário e doutorando em Biotecnologia Animal Pedro Trindade e a psicóloga e adestradora Marina Bastos. Érica: Meu nome é Érica, sou de Minas Gerais, de Andradas. O bem-estar animal seria cuidar bem dos animais. Digo da parte da saúde deles. O que tem que ser feito para eles ficarem saudáveis, né? E também eu acho que a gente pode falar a respeito do cuidado mais emocional com o animal hoje em dia, né? Penso no meu pet, a gente cuida deles com muito carinho, porque eles nos dão isso também. Marcel: Meu nome é Marcel Almeida, sou de Botucatu, e no meu entendimento o bem-estar animal ele vai além do simples fato de você prover alimentação e recursos básicos. É você entender a situação em que esse animal vive na natureza e prover para esse animal recursos similares, sejam do âmbito de alimentos, temperatura, umidade e condições de sobrevivência que ele possa ter um ambiente saudável e sem estresse. Gisele: Meu nome é Gisele, sou de Campinas e pra mim o bem-estar animal são todos os bichos na natureza, inseridos onde eles já são nativos. Eu acredito que os bichos perto dos homens, eles não querem; os bichos não gostam dos humanos e não tá sendo bom pra eles não. Eles gostam de ficar na natureza, no seu habitat natural. Plínio: Me chamo Plínio, sou de Botucatu, Estado de São Paulo, e pra mim o bem-estar animal significa um ambiente ou uma condição em que qualquer animal possa viver em total liberdade, sem interferência humana, livre de exploração e crueldade. Carol: O que vocês acabaram de ouvir são ‘definições’ de bem-estar animal de pessoas que, embora não trabalhem nem estudem isso, gostam muito de animais… Saúde física, boa alimentação, saúde emocional, liberdade total, viver em condições similares à natureza e estar distante dos seres humanos foram elementos trazidos nessas definições. Mas cada uma trouxe um enfoque diferente… Qual delas será que está mais próxima do que se conhece na ciência? Vinícius: Não é difícil ver uma notícia polêmica envolvendo o bem-estar animal. São comuns os debates sobre o sofrimento dos animais utilizados na pesquisa, nos sistemas de produção, nos zoológicos ou quando são abandonados ou maltratados… Mas, embora esses temas sejam frequentes na mídia, dificilmente uma definição de bem-estar animal com embasamento científico aparece. O fato é que, em se tratando de bem-estar animal, ouve-se muito, fala-se muito, mas sabe-se pouco… Carol: As pessoas definem o bem-estar animal com base em seus próprios referenciais. Opinam sobre o que deveria ou não ser feito em situações que envolvem o sofrimento animal. Mas como saber o que é melhor para os animais, se eles estão bem ou não, sem antes saber de fato o que é bem-estar animal? Vinícius: Pra responder essas perguntas, o Oxigênio de hoje explora a ciência por trás do bem-estar animal. Eu sou o Vinícius Alves. Carol: E eu sou a Caroline Maia. E começa agora o episódio: Afinal, o que é bem-estar animal? Vinícius: De onde surgiu a preocupação com o bem-estar animal? Bom, o contato direto do ser humano com os animais e o estabelecimento de uma relação mais próxima com eles com certeza foi um estímulo importante nesse processo. Carol: Nesse cenário, a domesticação em si foi fundamental para levantar questionamentos sobre o bem-estar animal, como destaca Marina da Luz, zootecnista e doutoranda em Zootecnia pela Unesp. Marina da Luz: Um dos grandes marcos em busca do bem-estar animal foi a própria domesticação das espécies. Foi um longo trajeto, né, até os dias de hoje, mas foi o que eu acredito que impulsionou os grandes questionamentos da sociedade em geral em relação à criação dos animais; formas de criação, a ética, direitos dos animais, e assim por diante. Vinícius: Mas, apesar da domesticação animal datar de mais de 500 mil anos, o bem-estar animal como uma área científica é ainda relativamente recente, que teve um primeiro marco importante no final da década de 50, conforme explica Pedro Trindade, médico veterinário e doutorando em Biotecnologia Animal pela Unesp. Pedro: Data de 1959, quando foi lançado um livro no qual os seus autores, Roussell e Burch… Vin

Dec 30, 202030 min

#115 – Leitura de fôlego ep 02: O ensaio em cena ou o espetáculo da dúvida

Às vésperas do Natal de 2020, ano difícil, de pandemia de Covid-19 e isolamento social, o Oxigênio traz o segundo episódio da série “Leitura de Fôlego”, uma forma de nos conectarmos com nossos ouvintes com um tema mais suave para esses dias em que começamos a desacelerar. “Leitura de Fôlego” é uma série que apresenta temas de pesquisas de professores do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp. Nesse episódio, conversamos com o professor e pesquisador Alexandre Soares Carneiro sobre um tipo de texto que pode assumir diferentes formatos e que dá liberdade para seus escritores revelarem o processo irregular de seus pensamentos, suas dúvidas e até seus defeitos, tudo isso em um tom parecido com uma conversa. O assunto de hoje são os ensaios. Após ouvir algumas características desse texto, vamos conhecer mais sobre um importante ensaísta francês do século XVI, Michel de Montaigne. Ele inaugurou o uso da palavra “ensaio” para se referir a esse tipo de texto e escreveu sobre os mais diversos temas: desde o pedantismo, os índios canibais até os polegares. Depois, nossa conversa passou pelo ensaísmo brasileiro, que é mais importante do que parece. E acabou com dicas para quem quiser começar ou continuar a ler esse tipo de texto. Quem está à frente deste projeto é a Laís Souza Toledo Pereira, com supervisão e edição de Simone Pallone e trabalhos técnicos de Gustavo Campos e de Octávio Augusto Fonseca. Quem ajuda na divulgação do podcast é a Helena Ansani Nogueira. Vamos ao episódio, que é o número 115 do Oxigênio. **************************** Laís Toledo: Oi! Eu sou a Laís Toledo, e esse é um episódio da “Leitura de fôlego”, uma série sobre Literatura pro podcast Oxigênio. Laís: Os bastidores dos nossos pensamentos não são nada glamurosos. Hesitações, dúvidas, correções… A gente tende a não querer mostrar esse tipo de coisa. Ainda mais em um contexto entulhado de textão nas redes sociais, com mitos de um lado e cancelados do outro… Outra coisa que a gente não gosta muito de mostrar são as nossas frustrações, as nossas imperfeições. É filtro, edição, marketing pessoal e #gratidão que não acaba mais… A conversa de hoje é sobre um tipo de texto que autoriza o autor a se mostrar, sem certezas e sem enfeites. Vamos falar sobre Ensaios. Quem conversa com a gente hoje é o Alexandre Soares Carneiro, professor do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. Sua trajetória de pesquisa abrange assuntos como Literatura Portuguesa, Literatura Medieval e o Renascimento. E, há mais de dez anos, ele tem se dedicado a pesquisar também o nascimento e as transformações do gênero ensaístico. Bom, o ensaio é um tipo de texto que dá espaço pro autor se mostrar, com suas dúvidas e imperfeições. Mas ele é muito mais do que isso. Pra começar essa conversa, eu pedi pro Alexandre dizer como ele definiria um ensaio. Alexandre Soares Carneiro: Eu diria que o ensaio é um texto de reflexão de forma livre, o que dificulta muito uma definição, porque obviamente ele pode assumir aspectos muito variados. Mas podemos identificar a tal liberdade do ensaio no fato de o ensaísta expressar não apenas o resultado final, mas um pouco do processo irregular do pensamento, desde a formulação de um problema, uma dúvida, um paradoxo que ele observou, passando pelas hipóteses iniciais, as hesitações, desvios, correções. O ensaio tende a incorporar as dúvidas naturais do processo de reflexão, talvez como as perguntas de um interlocutor imaginário, o que remete à característica dialógica do pensamento. Assim, a gente pode associar o ensaio à conversação, com sua típica a-sistematicidade. A liberdade de testar ideias ou perspectivas insólitas também pode ser associada ao espírito da conversação. Laís: Além dessa associação com a conversa, com sua natureza não sistemática, não organizada, o Alexandre falou também sobre uma diferença entre a palavra “ensaio” e os textos com características de ensaio. Alexandre: O Francis Bacon dizia, no início do século XVII, que a palavra “ensaio” era nova, mas a coisa antiga. Ele dá como exemplo as cartas filosóficas de Sêneca. Essa aproximação do ensaio com as cartas é esclarecedora, pois elas são claramente um gênero dialógico. Poderíamos recuar aos diálogos de Platão, assentados nas perguntas de Sócrates. Montaigne frequentou muito esses autores e seus imitadores renascentistas. O ensaio poderia ser entendido, então, como uma expressão moderna dessa reflexão experimental e dialógica. Enfim, frequentemente vamos encontrar no ensaio pessoalidade, liberdade e um esforço de descrever ou redescrever um problema, de modo necessariamente não sistemático. Laís: Se definir um “ensaio” não é uma tarefa simples, e, se a origem desses textos é imprecisa, o uso da palavra “ensaio” para falar desse gênero é mais localizado. E ele tem a ver com alguém que o Alexandre acabou de mencionar, o francês Michel de Montaigne, que escreveu um livro chamado justamente Ensaios. Alexandre: Os Ensaios de Mon

Dec 23, 202022 min

#114 Essa tal de Genômica – ep. 2

Este programa continua introduzindo um panorama sobre como a Genômica é uma ciência transversal e emergente, contribuindo para desafiar as fronteiras do conhecimento de outras áreas científicas. O que muda do #113 é que agora o potencial da Genômica será relacionado a outros dois campos de atuação: conservação de espécies ameaçadas e saúde pública! Para entender melhor isso, os divulgadores científicos Vinícius Alves e Adriane Wasko conversaram com Patrícia Freitas e Lygia da Veiga Pereira. Patrícia é bióloga, professora da UFSCar e tem experiência de pesquisa com Genômica da Conservação Animal, especialmente primatas como o mico leão preto. Já Lygia é física, professora da USP e tem experiência de pesquisa em Genética Humana e Médica. Áudios do jornalista científico Marcelo Leite foram cedidos para o encerramento do programa. A seguir, você tem o roteiro completo para acompanhar a conversa. Sejam todos bem vindos ao segundo episódio de “#114 Essa tal de Genômica” do podcast Oxigênio! Obs.: A foto do mico leão preto em vida livre é do Felipe Bufalo. O playback do mico leão preto é da ONG Itapoty. As demais imagens e trilhas sonoras são de bancos de uso público. ******************************** Vinícius: Olá, ouvintes! O Oxigênio de hoje é o segundo episódio sobre Genômica. No episódio anterior, já tivemos uma noção de como a Genômica é uma área emergente e transversal no meio científico. E agora vamos falar um pouco sobre como estudos genômicos podem contribuir com duas outras áreas de amplo interesse público. No caso, a conservação de espécies ameaçadas e a saúde pública. Eu sou Vinícius Alves. Adriane: Eu sou Adriane Wasko e começa agora: “Essa tal de Genômica, episódio 2” Vinícius: Parte dos pesquisadores que trabalham com conservação da biodiversidade vêm utilizando dados genômicos. Por exemplo no Brasil, há projetos que sequenciam genomas de plantas endêmicas e altamente adaptadas ao ambiente estressante do Nordeste. Já em genômica da conservação animal, podemos destacar projetos com espécies ameaçadas de extinção que estudam genes adaptativos em populações de arara-azul, onça-pintada, tubarão-martelo, mico-leão-preto e outras. Adriane: Quem pode comentar melhor sobre genômica da conservação animal é a geneticista Patrícia Domingues de Freitas, que por sinal, estudou comigo. Patrícia é professora do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos, a UFScar. Uma de suas linhas de pesquisa é a genômica aplicada à conservação animal, com ênfase no grupo dos Primatas. Patrícia: A produção de dados genômicos ela surge com o desenvolvimento das tecnologias de sequenciamento do DNA né, lá na década de 70, de 80, mas principalmente nos inícios dos anos 90, quando surgem os projetos genoma, incluindo o projeto Genoma Humano. Na biologia da conservação, esse processo se dá mais pra frente depois dos anos 2000, quando as tecnologias de sequenciamento de DNA se tornam mais robustas a partir do desenvolvimento de métodos que a gente chama de ‘próxima geração’ que permitem a produção de dados genômicos em maior escala. Vinícius: Ouvindo você agora, Patrícia, eu lembrei que já li que com as técnicas de hoje em dia é possível marcar milhares de genes específicos ou até regiões inteiras do genoma nos indivíduos de uma espécie. Com isso em mãos, eu imagino que a genômica da conservação possa caracterizar geneticamente a população de uma espécie animal ou vegetal que vive em uma determinada área e, também, acompanhar se essa população está mantendo uma boa variabilidade genética com o passar dos anos. É mais ou menos isso? Patrícia: Bom, a gente sabe que a variabilidade genética é um elemento essencial pra manutenção e viabilidade de uma espécie ao longo do tempo perante as mudanças ambientais. Então a gente costuma dizer que quanto maior a variabilidade genética de uma espécie ou de suas populações, maior o potencial evolutivo daquela espécie. Ou seja, o potencial adaptativo e viabilidade de suas populações ao longo do tempo. Adriane: O tamanho de uma população ou do ambiente natural que ela vive também influenciam na variabilidade genética de uma espécie, certo? Patrícia: Quanto menor é a população, em geral menor é a variabilidade. Isso não é uma relação direta, mas a gente tem encontrado que populações pequenas e populações mais isoladas tendem sim a ter níveis de variação genética menores e, consequentemente, potencial evolutivo e adaptativo menor. Vinícius: Esse potencial evolutivo adaptativo basicamente indica quais as chances que a população de uma espécie tem de continuar sobrevivendo em uma área. Se essa população está diminuindo porque seu ambiente está sendo fragmentado ou perturbado pela espécie humana, podemos imaginar que vão sobrando menos indivíduos e menos diversidade genética naquela população. Por exemplo, pode sobrar só indivíduos que já eram aparentados geneticamente e que vão cruzar entre si, o que causa o problema da endogamia. Patrícia: Então uma das ferramentas da genôm

Dec 21, 202020 min

#113 Essa tal de Genômica – ep 01

Este programa traz uma pitada de como a Genômica é uma ciência transversal e emergente, contribuindo para desafiar as fronteiras do conhecimento de outras áreas científicas, como melhoramento genético da agricultura tropical convencional, citogenética e evolução biológica! Há grandes projetos e linhas de pesquisa em ação que têm a mão direta ou indireta da Genômica. Para entender melhor isso, os divulgadores científicos Vinícius Alves e Adriane Wasko conversaram com Ana Cristina Brasileiro e Cesar Martins. Ana é engenheira florestal da Embrapa de Brasília e tem experiência de pesquisa em Genômica de Plantas. Enquanto Cesar é biólogo e professor da Unesp de Botucatu, com experiência de pesquisa em Citogenética e Evolução Genômica Animal. Áudios da pesquisadora Lygia Pereira e do jornalista científico Marcelo Leite foram cedidos para abertura do programa. A seguir, você tem o roteiro completo para acompanhar a conversa. Sejam todos bem vindos ao primeiro episódio de “#113 Essa tal de Genômica” do podcast Oxigênio! Obs.: na arte de chamada do episódio, a foto (ao fundo) de bioinformática com análise de genoma é do Ivan Rodrigo Wolf. As demais imagens e também as trilhas sonoras são de bancos de uso público. LYGIA: Um genoma é uma grande receita que a natureza segue para transformar a primeira célula que a gente já foi em um ser humano.. trilhões de células especializadas e organizadas. MARCELO LEITE: Eu gosto de pensar no genoma mais como um ecossistema do que como um programa de computador. VINÍCIUS: Independente da metáfora que você preferir, provavelmente você já deve ter ouvido falar sobre genoma e também sobre a Genômica, que é a área da ciência que estuda os genomas. ADRIANE: Genômica é filha da Genética e ambas são áreas que conversam entre si, mas não são a mesma coisa, cada uma tem as suas próprias características. VINÍCIUS: Basicamente, podemos dizer que a Genética é a ciência que estuda a estrutura, a função, a variação e a hereditariedade dos genes, enquanto a Genômica estuda os mesmos aspectos só que sobre um genoma, ou seja, sobre o conjunto de genes, que forma um ser vivo. ADRIANE: O último relatório de avaliação da pesquisa científica realizado pela empresa Clarivate Analytics, em 2018, indicou que a Genômica é uma das áreas que mais crescem em publicações científicas no mundo. É como se os conhecimentos científicos de Genômica dobrassem a cada 2 anos em uma das mais reconhecidas plataformas de revistas científicas internacionais, a Web of Science. VINÍCIUS: Realmente é muita coisa né? E isso acontece também porque a Genômica não caminha sozinha. As técnicas e os dados da Genômica podem se associar a outras linhas de pesquisa básica ou aplicada. A agricultura tropical, a evolução biológica, a conservação de espécies e a saúde pública são algumas das áreas em que a Genômica pode atuar. ADRIANE: O fato da Genômica ser uma área emergente e interativa no ambiente de pesquisa não significa que seus avanços cheguem até a sociedade brasileira. VINÍCIUS: Nos anos 2000, a realização do projeto genoma humano nos Estados Unidos e o sequenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, que causa doença em plantações de citrus, levaram o termo GENOMA para os noticiários, dando um grande reforço para o jornalismo científico, inclusive. Mas, como comenta o jornalista científico Marcelo Leite, após essa época, a Genômica perdeu um pouco a evidência nos noticiários. ADRIANE: Mesmo que a gente não veja ou ouça a palavra Genoma nas mídias, a área da Genômica continua avançando e pode ter um grande impacto em nossas vidas. Por exemplo, o sequenciamento do novo coronavírus por pesquisadoras da USP, em parceria com Instituto Adolfo Lutz e Universidade de Oxford, que foi realizado em apenas 48h, foi de grande importância para os primeiros estudos sobre o vírus, ainda no começo da pandemia! VINÍCIUS: Bem lembrado, Adriane. E também recentemente o Nobel de Química premiou duas pesquisadoras que desenvolveram a CRISPR/CAS9, a polêmica ‘tesoura’ genética. A técnica que basicamente permite cortar e editar partes do genoma, fazendo com que a célula produza ou não determinadas proteínas. ADRIANE: De qualquer forma, grande parte dos avanços da Genômica não chega até a sociedade e, quando chega, geralmente são pouco compreendidos. Inclusive, os conhecimentos básicos da Genômica que estão em conteúdos curriculares da escola costumam ser considerados muito interessantes pelos adolescentes, mas também muito complexos e abstratos. VINÍCIUS: Para conhecermos um pouco mais sobre a Genômica, conversamos com pesquisadores de diferentes linhas de pesquisa nessa área. ADRIANE: No Oxigênio de hoje vamos falar sobre projetos de pesquisa que estão associados direta ou indiretamente à Genômica, trazendo algumas curiosidades e perspectivas… Eu sou Adriane Wasko. VINÍCIUS: Eu sou Vinícius Alves. E começa agora o episódio: “Essa tal de Genômica”, pegando carona no tema que foi tratado no Oxilab número 54. ADRIANE: Vamos começar falan

Dec 17, 202020 min

#112 Casa de orates – ep 02 – Vai passar!

O Casa de Orates é uma série do Oxigênio para conversar sobre saúde mental. No primeiro episódio falamos sobre quais aspectos da sociedade atual têm contribuído para aumentar os casos de transtornos mentais, principalmente ansiedade e depressão. Nesse segundo, vamos falar sobre como é lidar com um diagnóstico de transtorno mental, a partir do relato da Roberta Bueno, que também narra o episódio, junto com o Rafael Revadam. Embora cada caso tenha suas particularidades, em todos eles o primeiro passo é perceber que algo não está bem e procurar ajuda. Depois do diagnóstico, é importante ter o acompanhamento de profissionais qualificados e seguir suas orientações. Não é simples, já que o tratamento às vezes demora e a melhora nem sempre vem na velocidade esperada. Para discutir o papel de diferentes especialidades profissionais no tratamento das doenças da mente, contamos com a colaboração de Paula Andrada, psicóloga; Carlos Eduardo Rodriguez, psiquiatra; Fauziane Beydoun, nutricionista; e Paulo Ricardo Guerreiro, educador físico. O episódio do Corpo podcast mencionado nesse programa está disponível em <https://oxigenio.comciencia.br/86-serie-corpo-episodio-1-vinho-e-vinagre/> Roteiro: Roberta – Sou ansiosa desde criança, mas só descobri que tenho TAG – transtorno de ansiedade generalizada – na idade adulta, por volta dos 23 anos, depois de começar a fazer terapia. Daí, os meus medos sem sentido, os meus pensamentos acelerados e as palpitações no peito começaram a ser compreendidos por mim como sintomas da ansiedade. Por incrível que pareça, quando o que eu sentia ganhou um nome, as coisas começaram a ficar mais claras e eu comecei a lidar melhor com todas essas sensações e a reconhecer quando uma crise de ansiedade se aproxima. No final de 2019, por volta de outubro ou novembro, a ansiedade veio com tudo e não quis ir embora. Eu tava fazendo terapia e tomando o ansiolítico recomendado pelo médico para ser usado esporadicamente durante os períodos ansiosos, mas nada parecia aliviar a crise. Passava uns dias bem e voltava a sentir todos os sintomas ansiosos de novo, mas com algumas novidades: uma perda gigante de energia, um desânimo e uma angústia enorme. Rafael – A história da Roberta se mistura com tantas por aí. Como falamos no primeiro episódio, diferentes transtornos mentais podem ter sintomas parecidos. Para se chegar a um diagnóstico adequado é preciso uma avaliação cuidadosa, e ainda assim isso pode demorar um tempo. Roberta – Foi durante uma sessão de terapia que chegamos – eu e minha terapeuta – à conclusão de que eu estava com um transtorno misto de ansiedade e depressão. Isso pra mim foi uma surpresa, porque eu nunca tinha tido depressão antes e pensava que, por serem diferentes, ou a pessoa tinha depressão ou ela tinha ansiedade. Achava que não dava pra ter as duas ao mesmo tempo! Mas pra minha surpresa, esses transtornos podem vir juntos e embaralhar a nossa mente! Ao passar por essa experiência, eu percebi que é preciso falar sobre os transtornos mentais, sem medo e sem vergonha, pois muitas pessoas passam pela mesma coisa, mas não falam e sofrem caladas por receio do que o outro vai pensar. Não temos que ter vergonha por estarmos doentes. Rafael – E ainda tem o fato de que muitas pessoas pensam que os transtornos da mente não são doenças, já que eles não são tão perceptíveis quanto as doenças do corpo. Muitos chegam a falar que a depressão é falta de vontade, preguiça ou frescura. Mas não é. Eu sou Rafael Revadam e este é o Casa de Orates, um podcast para falar sobre saúde mental. Roberta – E eu sou Roberta Bueno, e esse segundo episódio é sobre mim, sobre você e sobre todos que vivem com um diagnóstico de transtorno mental. Paula – Bom, quando a gente fala do transtorno misto de ansiedade e depressão, a gente tá falando de sintomas que se apresentam ao mesmo tempo: sintomas ansiosos e sintomas depressivos, sem que haja uma prevalência, né… Há uma mistura mesmo desses dois sintomas. Eu uso uma metáfora que é assim: é como se a pessoa tivesse colocado um óculos cinza e um óculos com uma certa distorção na lente. Então, enxerga tudo mais fúnebre do que é e com uma certa distorção da realidade, tendendo a uma interpretação mais pessimista da vida e dos eventos. Rafael – Quem tá falando é a Paula Andrada, doutora em Psicologia pela PUC-Campinas e especialista em psicologia clínica pela Universidade de São Paulo, a USP. Paula – A sensação é tão ruim e a pessoa não vê perspectiva de sair daquilo. A palavra, o sentimento que as pessoas mais expressam quando vivem esse tipo de transtorno é desespero. A sensação é de desespero. Essa oscilação, a pessoa não sabe se tá deprimida, se tá ansiosa. Roberta – E era exatamente assim que eu me sentia. Às vezes, batia um desespero tão grande que chegava a me paralisar. Ao mesmo tempo em que eu só queria ficar jogada no sofá, sem ninguém por perto, eu me sentia totalmente desamparada, minha mente parecia

Dec 11, 202023 min

#111 – Escuta Clima ep. 2 – Rios urbanos e conta-gotas

A água é um recurso fundamental para a vida na Terra. Por isso, o segundo episódio da série Escuta Clima aborda o tema de segurança hídrica e mostra o perfil das crises pluviais no Brasil. As enchentes causadas pelas chuvas torrenciais no Sudeste contrastam com as secas típicas da região semiárida do Nordeste. Com milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade devido, tanto ao excesso, quanto à falta d’água, os cientistas buscam soluções criativas para mitigar a situação de ambas regiões, soluções que podem ser expandidas para todo o território brasileiro. A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pela bolsa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). ——————————– Camila Ramos – “A Terra é azul”. Foi o que disse Yuri Gagarin, o astronauta russo e primeiro homem a ir pro espaço, quando viu nosso planeta lá de cima. Essa cor azul que ele viu em 1961 eram os gigantes oceanos que cercam os continentes. E é muita água! Imagine… É como estar no meio do mar e olhar pro horizonte em todas as direções sem ver nada além do próprio mar. Esses oceanos cobrem cerca de 70% de toda a superfície da Terra, e neles estão 97% de toda a água do planeta. Incrível, não? Então não precisamos nos preocupar com a falta d’água, já que temos muito mais que o suficiente para todos, certo? Errado! Bruno Moraes – Toda essa água dos oceanos é salgada e não é potável. Então, sobram apenas 3% de água doce no mundo. Sendo que a maior parte, por enquanto, tá congelada em geleiras e nos pólos. Fazendo uma conta rápida, vemos que sobra apenas 1% de água para sobrevivência dos humanos, dos animais, e das plantas. E quando eu digo sobrevivência, eu quero dizer literalmente isso. A Água é extremamente importante pra vida. E é por isso que os cientistas procuram esse recurso em outros planetas para indicar se podem ou não abrigar vida. Camila Ramos – Mas muitas pessoas não encaram a água como um bem comum e precioso. E isso fica claro quando vemos pessoas lavando o carro ou a calçada com a mangueira, ou deixando a torneira aberta enquanto fazem outras tarefas. Mas o uso indiscriminado de água não é apenas responsabilidade dos cidadãos. Na verdade, as indústrias e o setor agropecuário tem grande porcentagem de culpa. Na verdade, o desperdício e uso irresponsável da água é tamanho que estamos prestes a encarar uma crise hídrica sem precedentes. Segundo a Organização das Nações Unidas, o uso mundial da água vem aumentando cerca de UM por cento ao ano. Pode parecer pouco, mas isso quer dizer que vai ser cada vez mais difícil prover água para todos. Bruno Moraes – Além disso, as mudanças climáticas tornam insuficiente a quantidade de água e pioram a qualidade dela e causam as alterações de volume e frequência de chuvas que afetam a rotina de diversas populações, interferindo na alimentação, saúde e economia dessas pessoas. E podemos entender essa situação com dois extremos vividos no Brasil, que são as enchentes (geralmente nas regiões Sul e Sudeste) e as secas, típicas do Nordeste. São problemas antigos que deixam centenas de pessoas vulneráveis. E a previsão é que esses eventos piorem nos próximos anos. Camila Ramos – No episódio de hoje, vamos ouvir os pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas para entender melhor as crises hídricas e quais são os meios sustentáveis para melhorar essa situação. O José Almir Cirilo é um deles. Ele é professor titular do Campus Agreste da Universidade Federal de Pernambuco. Bruno Moraes – Também vamos ouvir o Eduardo Mário Mendiondo, que é engenheiro de recursos hídricos e professor da Escola de Engenharia de São Carlos, que é uma unidade da USP. Além disso, teremos a participação de pós-graduandos que fazem parte do grupo de pesquisa do Professor Mendiondo. Camila Ramos – Eu sou Camila Ramos Bruno Moraes – E eu sou Bruno Moraes Camila Ramos – E você está ouvindo o Escuta Clima, um podcast para divulgar as pesquisas do INCT sobre Mudanças Climáticas. É vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor, e é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas. [Vinheta do podcast Escuta Clima] Bruno Moraes – Você tem noção de como a água está presente no seu dia a dia? Deixe eu te mostrar onde você pode ter usado água hoje: você já bebeu água? Já regou suas plantas? Cuidou da sua higiene? Lavou as roupas? Ou o carro? E a alimentação? Cozinhou, lavou frutas e verduras? Comeu carne? Lavou a louça de

Dec 4, 202032 min

#110 Casa de Orates ep 01 – Por que nossa mente está doente?

O Casa de Orates é um podcast para conversar sobre saúde mental e, nesse primeiro episódio, vamos tentar entender o que está deixando nossa mente doente. No mundo são quase 1 milhão de pessoas vivendo com algum transtorno mental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 300 milhões de pessoas sofram com a depressão e cerca de 260 milhões com a ansiedade. Ainda assim, a saúde mental é uma das áreas mais negligenciadas da saúde pública. Por que nos dias de hoje transtornos como depressão e ansiedade são cada vez mais comuns? Existe mesmo mais gente doente ou mais casos estão sendo diagnosticados? Será que o modo como vivemos afeta a nossa saúde mental? Para responder a essas e a outras perguntas, conversamos com Marcelo Brañas, médico psiquiatra da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), e Bruno Emerich, psicólogo e doutor em saúde coletiva na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os dados apresentados nesse episódio foram obtidos no site da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e estão disponíveis em: <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6263:dia-mundial-da-saude-mental-uma-oportunidade-para-dar-o-pontape-inicial-em-uma-grande-escala-de-investimentos&Itemid=839> Créditos da imagem: Fernando Cabral (@cferdo/Unsplash) Roteiro: [primeiro entrevistado]: Saúde pra mim, primeiro começa pela prevenção, né? Você tem que se cuidar, praticar exercício, se alimentar bem, né. Evitar excessos, dormir bem, né… Então isso, eu acho que tudo isso faz parte pra que você tenha uma boa saúde, né. [segunda entrevistada]: Saúde é qualidade de vida. É ter acesso a uma boa educação, acesso a tudo aquilo que o governo deve nos proporcionar de bom, né. Saúde, na minha visão, saúde não tá relacionada só à questão medicamentosa. [terceiro entrevistado]: Acho que saúde é a gente poder proporcionar tanto pra nossa família, nossos filhos, né, toda a assistência básica, né? É uma boa alimentação, é… cultura também, né. Isso tudo tá aí incluído no pacote de saúde, né? [quarta entrevistada]: É quando a pessoa fica bem e ela fica muito saudável. E comer fruta saudável. Roberta Bueno: Quando você pensa em saúde, o que vem à cabeça? Ana Augusta: É bem provável que a sua resposta seja parecida com alguma dessas, ou com mais de uma. Roberta: Pra grande parte da população, a percepção de saúde ou a ideia que se tem sobre o que é levar uma vida saudável tá relacionada basicamente com a nossa saúde física. A gente esquece da mente. Ana Augusta: A própria Organização Panamericana de Saúde diz que a saúde mental é uma das áreas mais negligenciadas da saúde pública. Poucas pessoas têm acesso a serviços e tratamentos de qualidade. Roberta: Pra se ter uma ideia, mais de 75% das pessoas com transtornos mentais não recebem nenhum tipo de tratamento nos países de baixa e média renda. Além disso, ainda tem o estigma e o preconceito com relação a essas doenças, que fazem com que muitas pessoas não procurem tratamento. Ana Augusta: E realmente tem muita gente sofrendo. No mundo, são quase 1 milhão de pessoas vivendo com algum tipo de transtorno mental. A cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio em decorrência da depressão ou de outra doença. Roberta: Pra piorar esse cenário, veio a pandemia de covid-19, que nos trancou em casa, nos afastou fisicamente da família e dos amigos e trouxe o medo e a insegurança pra nossa rotina. Ana Augusta: Os especialistas já alertam pra uma onda enorme de casos de transtornos mentais por causa da pandemia do novo coronavírus. Não dá mais pra negligenciar esse assunto. Eu sou Ana Augusta Xavier. Roberta: Eu sou Roberta Bueno e esse é o Casa de orates, um podcast pra conversar sobre saúde mental. Nesse primeiro episódio, vamos tentar entender porque nossa mente está ficando doente. Anelise Righi: Tá bom amiga, vamo lá… Ana Augusta: Eu queria que tu me contasse, me descrevesse assim, como que é mais ou menos um dia teu, na tua rotina normal, antes da pandemia e agora que tu voltou a trabalhar presencialmente. Anelise: Então, eu sempre fui muito intensa no meu dia, eu acordava realmente cedo, entre 5 e 6 da manhã, muito porque, até parece uma bobagem né, mas como eu quero ser muito produtiva durante o meu dia eu ficava irritada com o trânsito pra chegar no trabalho que acabava sendo super perto, era 5 a 7 minutos de carro, mas se eu fosse num horário de pico das 8 da manhã eu pegava meia hora de trânsito, então começava assim meu dia, já na correria. Então como eu nao queria perder essa meia hora, eu ia pra academia que fica do lado do prédio, fazia academia lá entre 6 e 7 da manhã, tomava banho ali, tomava café no trabalho, 8 da manhã eu tava começando o meu dia, organizando, estruturando como ele ia ser, pra começar as 9 que era basicamente quando as pessoas começam a chegar no escritório eu já tava assim, a 100 por hora né. Então eu gostava dessa sensação de ser a que já tá ali correndo enquanto as pessoas tão

Nov 27, 202019 min

#109 – Leitura de fôlego ep 1 – Livro licencioso = Leitura proibida

Este é o primeiro episódio da Leitura de fôlego, uma nova série de podcasts do Oxigênio, que apresenta temas de pesquisas de professores do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp. E começamos contando aqui sobre os livros ou romances licenciosos, que por seu teor tinham que circular de forma clandestina não só no Brasil, mas também em Portugal e França, por exemplo. Isso nos séculos XVIII e XIX. Esses livros foram tema de pesquisa da Márcia Abreu, professora do IEL e que atualmente é também diretora executiva da Editora da Unicamp. Vamos ouvir sobre as características desses livros, porque eles eram proibidos e o que faziam os livreiros e leitores para ter acesso e distribuir esses romances naquela época. Quem está a frente deste projeto é a Laís Toledo, com supervisão e edição de Simone Pallone e trabalhos técnicos de Gustavo Campos e do Octávio Augusto Fonseca. Quem ajuda na divulgação do podcast é a Helena Ansani Nogueira. Vamos ao episódio, que é o número 109 do Oxigênio. Roteiro: Márcia Abreu (MA): Ter um livro licencioso em casa, ou vender um livro licencioso, naquela época, era tão perigoso como hoje seria vender droga pesada. Laís Toledo (L): Devasso, libertino, desregrado, impudico, libidinoso, lascivo, indecente… Esses são alguns sinônimos para a palavra “licencioso”. Mas, afinal, o que é um livro licencioso? Por que era tão perigoso ler ou vender um livro desses no Brasil dos séculos XVIII e XIX? Como a censura de livros agia por aqui nessa época? O episódio de hoje trata de questões como essas. Quem conversa com a gente é a Márcia Azevedo de Abreu, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. A Márcia tem desenvolvido pesquisas principalmente nas áreas de História do Livro e da Leitura e História da Literatura. Além disso, hoje em dia, ela também é Diretora Executiva da Editora da Unicamp. L: Eu sou a Laís Toledo, e esse é um episódio da “Leitura de fôlego”, uma série sobre Literatura pro podcast Oxigênio. Pra começar a conversa, eu pedi pra Márcia explicar o que é um romance licencioso. MA: Um romance licencioso era um tipo de narrativa, que misturava cenas de sexo, ou um enredo sobre sexo, com discussões filosóficas sobre religião, sobre a natureza. Não a natureza assim das plantas, a natureza num sentido amplo, como o funcionamento dos corpos, as diferenças entre as culturas e também sobre as questões de poder. Um exemplo clássico de livro licencioso é o Teresa filósofa. Nesse livro, tem um enredo amplo, que é a trajetória dessa moça chamada Teresa, e ela vai se defrontando com várias situações em que ocorrem cenas de sexo, mas a cada cena de sexo tem uma discussão, sobre uma questão de moral ou sobre o comportamento da igreja, ou sobre uma questão filosófica. Acabada essa discussão, volta a ter uma cena, um encontro sexual de algum tipo. L: Vamos ouvir um trechinho do começo do livro Teresa filósofa, quando a narradora, a Teresa, aceita contar a história dela e diz que não vai esconder nada. A edição que eu tenho aqui é da editora L&PM, que tem tradução para o português da Carlota Gomes e um prefácio do filósofo Renato Janine Ribeiro. Thais Oliveira: “O quê, Senhor! Seriamente, quereis que escreva minha história […] Na verdade, caro Conde, isso parece estar acima de minhas forças. […] Mas se o exemplo, dizeis, e o raciocínio fizeram a vossa felicidade, por que não tentar contribuir para a dos outros pelas mesmas vias, pelo exemplo e pelo raciocínio? Por que temer escrever verdades úteis ao bem da sociedade? Pois bem, meu caro benfeitor! Não vou mais resistir! Escrevamos! […] Não, vossa tenra Teresa jamais vos responderá por uma recusa, vereis todos os recônditos do seu coração desde a mais tenra infância, a sua alma vai se revelar inteiramente nos detalhes das pequenas aventuras que, sem que percebesse, a conduziram, passo a passo, ao auge da volúpia.” L: Ah, o Teresa filósofa foi publicado pela primeira vez em francês, provavelmente em 1748, e existia uma controvérsia sobre a sua autoria. Mas, hoje em dia, é forte a ideia de que o livro foi escrito por Jean-Baptiste de Boyer, o Marquês d’Argens. Bom, esse é um exemplo de livro licencioso, mas existem outros que seguem modelos um pouco diferentes. MA: Tem alguns romances, que são mais focados na narrativa do sexo mesmo, como um que chama História de Saturnino, porteiro dos frades bentos. Esse, tem mais enredo e menos discurso, do que a Teresa filósofa. E, pelo título, já dá pra ver que o centro da discussão é o comportamento dos religiosos. Esse tema era muito frequente nos romances licenciosos. Eles ou se passavam ou dentro de conventos, monastérios, ou eles envolviam cenas de sexo com padres, abades, com as altas hierarquias da igreja. E tinha muito essa questão de apresentar os conventos como um lugar de devassidão, e não de religião ou de moral. Nesse caso, o ataque à igreja, à instituição da igreja, vinha pela apresentação do comportamento devasso, dos padres

Nov 20, 202039 min

#108 Gaia episódio 2 – O passado no oceano

Em 2001, o IPCC, o Painel da ONU sobre Mudança do Clima, lançou um relatório que trazia um gráfico que ficou conhecido como Taco de Hockey. O gráfico mostrava, com dados do hemisfério norte, a temperatura da superfície do planeta através dos anos. Começando do ano mil, o gráfico tinha uma tendência bem leve de resfriamento até que no século vinte a linha dispara para cima, como a ponta de um taco de hockey. Nesse episódio do Gaia, vamos dar um passo atrás e ver como é possível saber o clima do passado. Esse episódio contou com a participação de Renata Nagai, da Universidade Federal do Paraná, e Natan Pereira, da Universidade do Estado da Bahia. Este é o segundo episódio da série Gaia. A produção e edição é feita por Oscar Freitas Neto. O projeto é uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp, e conta com a orientação de Simone Pallone. Músicas: Fast Talkin – Kevin MacLeod (YouTube Audio Library) Our Only Lark – Blue Dot Sessions Eggs and Powder – Blue Dot Sessions Copley Beat – Blue Dot Sessions Fender Bender – Blue Dot Sessions Ferus Cur – Blue Dot Sessions Imagem: Alain Couette — Oscar: Em 2001, o IPCC, o Painel da ONU sobre Mudança do Clima, lançou um relatório que trazia um gráfico que ficou conhecido como Taco de Hockey. O gráfico mostrava, com dados do hemisfério norte, a temperatura da superfície do planeta através dos anos. Começando do ano mil, o gráfico tinha uma tendência bem leve de resfriamento até que no século vinte a linha dispara para cima, como a ponta de um taco de hockey. Oscar: Nesse episódio do Gaia, nós vamos dar um passo atrás e ver como é possível saber o clima do passado. E para isso… Oscar: nós vamos para o mar. Renata: Eu amo ir para o mar. Bom, eu sou oceanógrafa de formação. Então, sempre que tem uma oportunidade de ir para fazer coleta, né, eu sou a primeira pessoa a levantar a mão e falar eu quero ir. Oscar: Essa é a Renata Nagai. Renata: Eu falo isso para os meus alunos. Eu me sinto super completa quando estou no navio e eu olho para todos os lados e só vejo água. Aquela água com aquela cor que é um azul, um roxo, não sei, é uma coisa linda. Oscar: Ela é professora na Universidade Federal do Paraná. Renata: Eu coordeno um laboratório que chama Laboratório de Paleoceanografia e Paleoclimatologia. Então, a gente estuda o passado dos oceanos e tenta entender essas relações entre o oceano e o clima no passado, em diferentes escalas de tempo. Renata: Para quem trabalha com paleoclima, a gente olha para o passado e tenta entender como o planeta estava quando a gente tinha, por exemplo, concentrações de CO2 na atmosfera similares com que a gente vai ter ou tem hoje. Será que oceano estava mais quente, será que o oceano estava mais ácido, como será que o oceano influenciava na chuva aqui na região da América do Sul. Natan: A ciência começou a coletar dados de forma sistemática a partir dos anos 50, então é muito pouco tempo. Se você for construir milhares de anos, milhões de anos, é muito pouco tempo. Oscar: Quem fala é o Natan Pereira Natan: Sou biólogo de formação. Oscar: Ele é professor da Universidade do Estado da Bahia. Natan: E atualmente estou trabalhando com geoquímica de corais. Eu tento entender os sinais químicos que estão nesses organismos para entender um pouco do clima. Oscar: Para reconstruir esse clima do passado, é preciso usar formas indiretas de fazer medições. É possível, por exemplo, procurar por documentos históricos que tenham dados do tipo, mas assim só é possível voltar no tempo até certo ponto. Para voltar muito mais é preciso dos arquivos naturais. Natan: Então para isso a gente utiliza proxies geoquímicos, principalmente, que são evidências indiretas sobre as condições ambientais do passado que são registradas de forma ordenada e sequencial dentro de um determinado período específico. Renata: Eu sempre gosto de exemplificar, eu falo: não dá para a gente pegar um sedimento marinho colocar um termômetro dentro dele e falar, a vinte mil anos a temperatura é tantos graus celsius, mas a gente consegue usar esses proxies para fazer isso. Natan: A gente pode reconstruir temperatura, a gente pode reconstruir salinidade, a gente pode reconstruir concentração de CO2 atmosférico. Oscar: Para pegar um exemplo mais fácil, as árvores podem ser usadas como um desses arquivos. Em um tronco cortado dá para ver aqueles anéis que são os períodos de crescimento da árvore. Renata: Cada um desses anéis de crescimento vai registrar essas informações. Oscar: Que depois podem ser reconstruídas. Em regiões temperadas o crescimento é bastante relacionado a períodos de calor quando a árvore faz fotossíntese. Em momentos frios, as árvores perdem as folhas e crescem bem menos, o que dá para perceber pela proximidade dos anéis. Renata: Apesar de elas terem limite de tempo de vida delas, se o tronco de árvore ficar fossilizado, está no registro fóssil. Eu sei que tem gente que trabalha com esses dados que vem de tronco de árvore assim de períodos muito ant

Nov 16, 202020 min

#107 – Escuta Clima ep1. – Ciência em busca de matrizes renováveis

Este é o primeiro episódio de uma série intitulada Escuta Clima, que vai trazer a cada novo programa um dos temas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Mudanças Climáticas. As pesquisas desenvolvidas no INCT estão distribuídas em seis subcomponentes: Segurança energética; Segurança hídrica; Segurança alimentar; Saúde; Desastres naturais, impactos sobre a infraestrutura física em áreas urbanas e de desenvolvimento urbano; Impactos nos ecossistemas brasileiros, tendo em vista as mudanças no uso da terra e da biodiversidade. Essas subcomponentes estão interligadas por três temas transversais: Economia e impactos em setores-chave; Modelagem do sistema terrestre e produção de cenários climáticos futuros para estudos de Vulnerabilidade-Impactos-Adaptação-Resiliência para Sustentabilidade e Comunicação, disseminação do conhecimento e educação para a sustentabilidade. Escuta Clima faz parte desse último tema transversal, sendo uma nova sessão da revista ClimaCom, e é reproduzido no Oxigênio. A segurança energética é tratada nesse episódio inaugural, apresentando os impactos que já são observados no planeta, provocados pelas alterações climáticas causadas principalmente pela ação humana. Os cientistas entrevistados no episódio falam sobre suas pesquisas que buscam soluções na área de energia, que reduzam o impacto da produção de energia no clima. ____________________________ Camila Ramos – Mudanças climáticas. Esse tema ganhou a atenção de um novo público. Um público jovem, o que repercutiu muito na mídia mundial. Isso foi no ano passado, quando a adolescente sueca Greta Thumberg faltava das aulas nas sextas-feiras para protestar na frente do parlamento do seu país. Essa e outras ações da jovem viralizaram nas redes sociais e milhões de pessoas se engajaram no ativismo e foram pras ruas em manifestações no mundo inteiro. [Transcrição do Discurso de Greta Thumberg] How dare you! You have stolen my dreams and my childhood with your empty words. And yet I’m one of the lucky ones. People are suffering. People are dying. Entire ecosystems are collapsing. We are in the beginning of a mass extinction, and all you can talk about is money and fairy tales of eternal economic growth. Quem aí lembra desse discurso da Greta no encontro da Cúpula sobre Ações Climáticas da Organização das Nações Unidas? Aliás, a ONU junto com milhares de cientistas vêm se movimentando para diminuir os danos das mudanças climáticas há muitos anos. Mas afinal, o que são mudanças climáticas? O que ela impacta na minha e na sua vida? Pra começar, diferente da previsão de tempo do dia ou da semana, que diz se vai chover mais ou menos, ou se a temperatura vai variar de vinte a trinta graus entre a madrugada e o pico da tarde. As mudanças climáticas são alterações sutis, que com o passar dos anos e décadas, causam grandes desequilíbrios no mundo todo. Ou seja, o aquecimento global que estamos vivendo hoje começou há mais ou menos 100 anos e tá fazendo com que as estações não sejam tão definidas, deixando os verões mais quentes e os invernos mais rigorosos, por exemplo. Além de causar eventos climáticos mais extremos, como chuvas intensas e secas mais prolongadas e, até mesmo colocando animais e plantas em risco, quer dizer, aquele cafezinho que você tanto gosta ou aquele adocicado chocolate podem desaparecer em alguns anos. Ou ainda, milhares de pessoas estão perdendo suas casas, seus trabalhos e suas vidas porque o mar está fazendo suas ilhas e cidades litorâneas sumirem por completo do mapa! Então, é por isso que temos que agir rápido! Roberto Shaeffer – Em 2010, os estudos indicavam que a humanidade tinha cerca de 30 anos para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa a metade. Hoje, a gente já sabe que temos apenas 10 anos, ou seja, entre 2020 e 2030 para reduzir as emissões de gases de efeito estuda a metade para a gente ficar dentro de uma trajetória compatível com o mundo até um grau e meio mais quente do que era na era pré-industrial. Camila – Esse que você ouviu é o Roberto Schaeffer. Ele é professor titular de Economia de Energia no Programa de Planejamento Energético COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele também é pesquisador e coordena o subcomponente de Segurança Energética do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas, que é um programa federal de promoção ao desenvolvimento de pesquisa. Esse INCT conta com mais de 200 pesquisadores de várias regiões do Brasil e tem o apoio de doze instituições internacionais. Esse trabalho que eu estou citando é dividido em seis subcomponentes. E nessa série de podcasts, que estamos lançando com esse episódio, vamos falar separadamente de cada um deles, começando hoje com o tema Segurança Energética. No episódio de hoje vamos ouvir também o André Gonçalves. Ele é pesquisador do Laboratório de Modelagem de Recursos Renováveis de Energia, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais / ou chamado simplesmente de INPE. André Gonçalv

Nov 6, 202029 min

#106 Série Corpo, episódio 7 – Doença comprida

Depois do derrame, a vida segue. Neste episódio, conversamos com Gilmar, que sofreu um AVC aos 41 anos, e tentamos entender um pouco de sua realidade a partir das reflexões de pesquisa da antropóloga Monique Batista, da fisioterapeuta Juliana Valente e do profissional de Educação Física Hélio Yoshida. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp).   Parte 1   SAMUEL RIBEIRO Eu tinha uns 12 anos e lembro que eu tava sentado em um toco de madeira, na beira de uma lagoa…   SAMUEL Do meu lado tava meu avô materno, o Mário. Eu já falei dele aqui no podcast. Um homem enorme, de mãos grandes, com um bigodão branco e penteado que lembrava um pouco aqueles bandidos de faroeste. A gente tava pescando com varinha de bambu, e eu lembro…   SAMUEL Eu lembro de uma cena em que ele tentava colocar uma minhoca no anzol e não conseguia acertar de jeito nenhum. Alguma coisa caía da mão dele: ou o anzol, ou a minhoca, ou a vara inteira. Tentou, tentou, tentou, e aí cansou e jogou tudo no chão, com raiva, xingando furioso numa mistura de português com italiano que eu não consegui entender bem.   SAMUEL Essa lembrança me marca muito, porque meu avô era esse homem forte, aventureiro, que tinha percorrido o Brasil inteiro de caminhão e pescado peixes enormes, mas que no final da vida tinha ido morar com a gente por causa dos derrames.   SAMUEL Acidente vascular cerebral. AVC… Quando eu penso nisso, a primeira coisa que me vem na cabeça é o Mário e como a vida dele ficou diferente. É disso que a gente vai falar hoje.   SAMUEL Eu sou Samuel Ribeiro, e este é o Corpo, podcast que fala de pessoas e de movimento. E a gente começa…   GILMAR MARQUES … foi em 2016, em junho, dia 22 de junho, 2016.   SAMUEL … a gente começa com o Gilmar.   GILMAR Não senti nada assim. Um dia antes eu tinha trabalhado normal, que eu trabalhava com pavimentação asfáltica, sabe? Serviço bem quente mesmo.   GILMAR Aí levantei normal, sabe, coloquei a roupa de serviço, andei um metro assim, deu aquela bambeada na perna. Aí falei, “acho que é cãibra né”, já tinha cãibra antes. Aí levantei, andei mais uns 300 metros, aí deu outra bambeada na perna. Aí falei “tem alguma coisa errada né”. Aí eu voltei pra casa. Quando eu abri a porta de casa, aí não consegui mais ficar de pé, entendeu…   SAMUEL O Gilmar tinha 41 anos na época, e tava passando ali por um derrame, do tipo hemorrágico, que é quando um vaso sanguíneo se rompe no cérebro.   GILMAR Aí comecei meio, tipo, delirar assim, aí já fui pro UPA, do UPA fui pra Santa Casa, e… e lá não alembro muita coisa, não alembro de quase nada, até hoje não consigo alembrar.   SAMUEL Ele ficou vários dias hospitalizado, depois meses na cadeira de rodas, e por causa daquele dia tá até hoje com algumas sequelas que mudaram completamente a vida dele.   GILMAR E nunca pensava que isso ia acontecer comigo, apesar do médico já ter avisado, que algo ia acontecer. Mas quando você tá no foco da bagunça, aí você nem imagina né. Vê acontecer com o vizinho, mas acha que não vai acontecer com a gente.   Parte 2   SAMUEL O AVC é uma das principais causas de morte no mundo e só no Brasil a gente tem centenas de milhares de casos todos os anos. É um problema que acomete principalmente os idosos, mas também chega em pessoas mais jovens, como foi o caso do Gilmar.   SAMUEL Cada caso é um caso, mas o sobrevivente do derrame geralmente fica com algum tipo de sequela e precisa se adaptar em uma nova realidade.   SAMUEL Pra entender melhor essas mudanças, eu fui conversar com a Monique Batista…   MONIQUE BATISTA … o derrame ele é um acontecimento que transforma as relações familiares como um todo…   SAMUEL Ela é mestra em Antropologia pela Universidade de Brasília e há uns anos atrás fez uma pesquisa pra tentar entender a realidade das pessoas que tinham tido derrame, lá na região da Ceilândia.   MONIQUE A gente partiu de um lugar comum e coletivo. Eu frequentava um grupo de ginástica, que acontecia dentro de um centro de saúde, era um grupo que era voltado principalmente pra pessoas mais velhas, e a partir daí eu comecei a ter os meus primeiros contatos com a Dona Antonieta.   MONIQUE … e um dia apresentando a minha pesquisa e dizendo que eu tinha vontade de conversar com ela, isso no centro de saúde né, ela veio até mim e começou a falar sobre o marido, que ele tinha passado por consecutivos derrames, e que esses derrames eles tinham comprometido habilidades motoras e cognitivas, e que desde então ele demandava uma série de cuidados.   SAMUEL O assunto (o marido da Dona Antonieta), tava quieto ali, sem participar da conversa, e a Monique percebeu que era difícil falar de derrame sem olhar pro que acon

Oct 29, 202025 min

#105 – Temático: Idosos, asilos e uma pandemia

Os idosos enfrentam situações de discriminação. Por fazerem parte do grupo de risco da Covid-19, a condição de isolamento foi intensificada. Neste episódio, Roberta Bueno e Rafael Revadam falam sobre os cuidados que estão sendo tomados nas Instituições de Longa Permanência para Idosos, como são chamadas as casas de repouso e asilos, e sobre o que o governo brasileiro está fazendo para proteger essa população idosa asilada. ___________________ ROTEIRO ZULMA: Estou angustiada, né… triste. Uma coisa que nunca imaginei que passaria por isso. Muita coisa acontecendo e sem resultado, né… Não tem resultado. É isso que eu sinto. Estou triste, né? Muito triste. Porque eu tô longe, eu moro em Atibaia agora e a família trata por telefone, é a única coisa que eu tenho. Roberta Bueno: Dona Zulma, de 93 anos, é hóspede de uma casa de repouso localizada em Atibaia, no interior de São Paulo. Ela é uma das 100 mil pessoas que vivem nas ILPIs, as Instituições de Longa Permanência para Idosos, como as casas de repouso e asilos são chamados atualmente. Rafael Revadam: Fazendo parte do grupo de risco, os idosos estão enfrentando mais um cenário de discriminação, intensificado com a chegada do novo coronavírus. Com a pandemia, a população envelhecida encontrou mais uma situação de isolamento do resto da sociedade. Roberta: No episódio de hoje, vamos falar da situação dos idosos na pandemia. Quais são os cuidados que estão sendo tomados nas ILPIs, e o que os políticos estão fazendo pela população idosa asilada. Eu sou Roberta Bueno. Rafael: E eu sou Rafael Revadam. E este é o Oxigênio. [Vinheta de abertura do podcast Oxigênio] Roberta: De acordo com dados do IBGE, no Brasil existem cerca de 22 milhões de pessoas idosas, que são aquelas com idade maior ou igual a 65 anos. Isso corresponde a 10,5% da população. Rafael: Já os idosos que vivem em ILPIs são, aproximadamente, 100 mil, segundo estimativa do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, sendo que 60 mil estão em instituições públicas e filantrópicas. Roberta: Mas esses números tendem a aumentar nos próximos anos. É o que explica a psicóloga especialista em cuidados da população idosa, Regina Célia Celebrone. Regina Celebrone: O idoso, ele sempre já esteve na margem. Porque a sociedade está começando a envelhecer agora. A sociedade brasileira, né? Vai ser um grande evento, o envelhecimento humano. Vai ser um grande advento. Vai triplicar o número de idosos até 2050. E o idoso já estava marginal, já tinha um olhar de escanteio na sociedade, porque ninguém quer saber que vai ficar velho. Porque velhice é sinônimo de morte, de coisa feia, de pelanca, daquilo que não é tão lindo, de um corpo que não é mais bonito de se ver, na sociedade do espetáculo que a gente vive hoje, dos corpos perfeitos. E aí ele sofre: você não pode sair, você não pode colocar os pés fora de casa, ou você é uma ameaça para a gente. Se sai na rua, as pessoas olham feio. E aí, eu faço uma pergunta: será que já não olhavam feio para o idoso? De ser uma ameaça como fim de vida. Rafael: É nesse cenário de discriminação que as ILPIs se encontram. E com o novo coronavírus, o cuidado com o idoso ganhou uma nova realidade. Nós perguntamos para Nadja Cardoso, coordenadora da Casa de Repouso Nova Canaã, em Atibaia, como foi contar para os moradores da casa que eles deveriam se isolar. Nadja Cardoso: O isolamento social foi comunicado aqui na casa dia 10 de março. A princípio, a reação de cada um deles foi assustador, sem entender, na verdade. Mas o que que eu fiz? Eu fiz uma reunião aqui na casa, falando o que realmente estava acontecendo. Eles ficaram assustados, sim, afinal, quem não ficaria, né? Eles têm acesso à televisão, tem hóspedes que têm tablets e celulares… Então, eles têm acesso a informações. Mas, eu tentei passar de uma forma que eles ficassem um pouco tranquilos, pois nós estávamos fazendo a prevenção, precaução, diante dessa situação. Roberta: Situação semelhante foi vivenciada na Casa Ondina Lobo, em São Paulo. Depois que a quarentena foi anunciada, as ILPIs começaram a tomar medidas de prevenção para proteger seus idosos. Paulo Coelho, diretor da instituição, dá mais detalhes. Paulo Coelho: A casa é uma casa filantrópica. Toda a diretoria é voluntária. Nós não recebemos ajuda de nenhum governo federal, estadual ou municipal. A diretoria tem sempre o objetivo de buscar a receita para manter a casa, né. Quem são as pessoas que vivem hoje lá. São pessoas que estão acima de 60 anos de idade, sem família e sem recursos financeiros. Pessoas em total vulnerabilidade social. Esse é o tipo de pessoa que nós abrigamos lá. Então, hoje, quando começou todo esse processo no mundo, né, e a gente começou a perceber que isso chegou ao Brasil, né… eu lembro que por volta de 20 ou 26 de março mais ou menos, acho que é a data que eu tenho é 26 de março, o mundo já estava com 503 mil casos e o Brasil com pouco mais de mil e pouco casos. Isso tem 26 de março. Então, quando começou isso, a gente já fal

Oct 23, 202024 min

#104 – Temático: Cientistas e filhos em tempos pandêmicos

Neste #DiadoPodcast, o Oxigênio traz um novo episódio, que trata da nova rotina que mulheres, que além de cientistas são mães, tiveram que adotar no período de isolamento social por causa da Covid-19. Para tratar do tema, recorremos às cientistas que atuam nos Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp, que são ligados à Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa, a Cocen. O aumento da carga de atividades com os filhos e tarefas de casa têm afetado a produção científica dessas mulheres. Embora homens com filhos também manifestem um impacto negativo para suas carreiras neste momento, o que estudos na área de gênero indicam é que as mulheres são as mais sobrecarregadas. As entrevistadas foram as pesquisadoras Alline Tribst, Ana Carolina Maciel, Germana Barata e Priscila Coltri; a professora Guita Debert e os pesquisadores Leonardo Abdala Elias e Manuel Falleiros. O episódio foi produzido pela Bianca Bosso e pela Beatriz Oretti, com a supervisão de Simone Pallone e Ana Carolina Maciel. A edição foi de Octávio Augusto, da Rádio Unicamp e de Gustavo Campos, do Labjor. _________________________________ Roteiro PRISCILA: Eu fechei a porta aqui e tô num quarto, espero que nenhuma criança atrapalhe e que dê tudo certo. BIANCA: A paralisação das atividades acadêmicas e escolares presenciais, determinada em virtude da pandemia de covid-19 impôs uma nova rotina às pesquisadoras que são mães. BEATRIZ: Se antes era possível separar temporal e espacialmente os afazeres profissionais e o cuidado com a casa e os filhos, hoje essas tarefas se misturaram. BIANCA: Nessa nova realidade, o espaço do trabalho dos pais se mescla com a escola e o lugar de recreação dos filhos / e ao mesmo tempo se tenta dividir o dia para a realização de mil tarefas. O resultado é uma diminuição na produtividade acadêmica, que já foi relatada em estudos realizados durante a pandemia. BEATRIZ: O Movimento Parent in Science, que trata das consequências da chegada dos filhos na carreira científica de mulheres e homens, fez um levantamento nos meses de abril e maio, pra ver o impacto do isolamento social por causa da Covid. O levantamento revelou que as mães são as principais afetadas. Enquanto sessenta e cinco por cento dos pais entrevistados conseguiram submeter artigos científicos como planejado, esse número caiu para quarenta e sete por cento das mães. Vamos deixar o link para a pesquisa no site. BIANCA: Eu sou Bianca Bosso, bióloga e divulgadora de ciências BEATRIZ: Eu sou Beatriz Oretti estudante de jornalismo, e esse é o episódio número 104 do podcast Oxigênio. Vinheta do Oxigênio BIANCA: Para analisar o efeito do isolamento social entre pais e mães acadêmicos, realizamos um levantamento de dados com pesquisadores da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp, a Cocen. BEATRIZ: Ao todo, obtivemos vinte e oito respostas e pudemos perceber algo em comum entre os entrevistados. BIANCA: Agora, além das atividades de ensino, pesquisa e extensão, as mães pesquisadoras têm de lidar ao mesmo tempo com as demandas do lar e das crianças. BEATRIZ: A Priscila Coltri, pesquisadora do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, o CEPAGRI, conta um pouco sobre os desafios de conciliar a criação dos dois filhos, de quatro e seis anos, com o trabalho acadêmico em home office e os serviços domésticos. PRISCILA: O que é mais difícil é isso, é ter que fazer tudo ao mesmo tempo. A minha funcionária que limpava a casa e fazia almoço e janta estava grávida, então ela teve que ser afastada porque era do grupo de risco. A moça que olhava as crianças à tarde também não foi mais. Então eu fiquei sem nenhum suporte pra casa. Aí eu comecei a trabalhar de casa me dividindo entre todas as coisas que eu tinha que fazer em casa, ou seja, almoço, janta, limpar a casa, lavar roupa e tudo mais, o trabalho home office, né, que é reuniões e a escola das crianças. BIANCA: A rotina da pesquisadora precisou ser adaptada a essa nova demanda. Parte do seu dia, que antes era dedicado exclusivamente à pesquisa, agora precisa ser dividido entre as inúmeras tarefas do lar. PRISCILA: Eu mudei um pouco meu horário de trabalho: eu deixei as minhas manhãs para dar suporte a eles na escola, principalmente pra minha filha mais velha que está em fase de alfabetização. Nesse meio tempo que eles estão tendo aula e fazendo atividade e tudo mais, eu vou respondendo alguns alunos e algumas coisas rápidas por email ou mesmo por mensagens, eu lavo uma louça, eu penso no que vai ter de almoço e varro a casa, enfim. Então tudo isso acontece nas minhas manhãs. Dou almoço pra eles por volta de 12h, 12h30 e depois que acaba isso eu começo a fazer o meu trabalho, que vai até 6 e pouco da noite. E por eles serem crianças eu tenho que estar sempre de olho neles, então assim, se eu pisco o olho, vira um móvel, vira um sofá, pega um doce na dispensa (mas assim, não um doce, muitos doces né), então, mesmo trabalhan

Oct 21, 202029 min

#103 – Gaia episódio 1 – Papel ou Secador Elétrico?

É comum encontrar os secadores elétricos nos banheiros por aí, mas será que ele é melhor ambientalmente do que as toalhas de papel? Em 2019, a FGV substituiu as toalhas de papel por secadores elétricos o que fez algumas pessoas levantarem essa questão. A equipe de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV se prontificou a realizar um pequeno estudo que ajuda a responder à questão. Esse episódio contou com a participação de Juliana Picoli e Ricardo Dinato, especialistas em ACV. Este é o primeiro episódio da série Gaia, uma produção do podcast Oxigênio, do Labjor/Unicamp. A produção é feita por Oscar Freitas Neto. O projeto conta com a orientação de Simone Pallone. Músicas: Fast Talkin – Kevin MacLeod (YouTube Audio Library) Desmontes – Blue Dot Sessions Lupi – Blue Dot Sessions Pink – Blue Dot Sessions Fender Bender – Blue Dot Sessions Ferus Cur – Blue Dot Sessions Imagem: RudsonVieiraC —– OSCAR: Eu sempre ia para o trabalho de ônibus. Trabalho no Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV que fica na avenida Nove de Julho em São Paulo. E a primeira coisa que fazia quando chegava era lavar a mão para tirar aquela sensação de mão suja. E que bom sempre tive esse costume. Um dia no ano passado, BARULHO DE PORTA E MÃOS LAVANDO OSCAR: eu cheguei, lavei as mãos e não encontrei o papel para enxugar. BARULHO DE SECADOR RICARDO: O papel toalha não estava mais lá… tinham colocado ali os secadores de ar OSCAR: Esse é o Ricardo Dinato, especialista em Avaliação de Ciclo de Vida. RICARDO: Começou ali a discussão, porque eu acho que muitas pessoas não gostam do secador a ar, preferem as folhas de papel. E aí veio, pô, será que ele pelo menos é melhor do ponto de vista ambiental? Umas duas, três pessoas perguntaram, comentaram. A gente falou não sei, tem alguns estudos, mas cada um fala uma coisa, depende muito das premissas. A gente falou, vamos fazer, vamos ver o que dá. OSCAR: Eles resolveram fazer um pequeno estudo usando a Avaliação de Ciclo de Vida, também conhecida como ACV JULIANA: É uma técnica para estimar os impactos ambientais de um determinado produto ou serviço olhando para todo o ciclo de vida desse produto ou serviço OSCAR: Essa é a Juliana Picoli. Ela fez a revisão do estudo JULIANA: Ela considera, então, todo o ciclo de vida desde a primeira interação da natureza que esse produto teve que passar até o seu descarte no fim de vida desse produto, né? OSCAR: Então o estudo tem que considerar cada pequeno caminho, cada a cadeia que interage com esse produto. Pegando por exemplo o papel MÚSICA OSCAR: Tem que considerar RICARDO: Desde o viveiro ali que faz as mudas OSCAR: Na fase de plantação, a fabricação de cada insumo, cada fertilizante e defensivos agrícolas. RICARDO: Aplicação desses produtos. OSCAR: Que também emitem algumas substâncias. RICARDO: E depois que elas chegarem num tamanho adequado, ela vai ser cortada. Vai para a indústria. Onde ela vai ser processada e se transformar primeiro em celulose, depois em papel. OSCAR: Tem ainda a embalagem, o transporte de caminhão para um centro de distribuição, para um mercado e para a FGV onde ele é usado. RICARDO: Mas não termina o ciclo de vida dele ainda. Porque a gente joga ele no lixo e esse lixo vai ser recolhido e vai ser transportado para um aterro sanitário onde ele vai passar alguns anos se decompondo. E só quando terminar a decomposição desse papel, aí sim termina o ciclo de vida desse papel. FIM DA MÚSICA OSCAR: É muita coisa para considerar, né? RICARDO: Com certeza. É por isso que a gente utiliza software, nesse software tem umas bases de dados. E para esse estudo, por exemplo, a gente trabalhou basicamente com dados secundários. A gente foi nessa base de dados com estudos que outras pessoas fizeram e foi juntando tudo isso para poder ter ali o papel. Então a gente não foi atrás do fabricante de papel para coletar esses dados. OSCAR: A ideia deles era fazer um estudo mais simplificado que é chamado de screening RICARDO: Que é uma coisa que se consegue fazer rapidamente e que você pode ter um resultado interessante para apresentar. A gente queria mostrar para o pessoal que a ACV nem sempre é um estudo que leva meses e que custa milhões de dólares para ser feito. OSCAR: Os únicos dados que eles coletaram diretamente foram quantas folhas de papel cada pessoa usa para secar as mãos e quanto tempo usam no secador RICARDO: Era divertido porque toda vez que o pessoal ia no banheiro falava: Ah eu vou cronometrar agora, vou ver quantas folhas deu. Então é interessante isso, acho que só da pessoa parar para pensar o que você precisaria de informação para fazer as contas já é uma coisa interessante para a gente que trabalha na área. E, enfim, aí o pessoal coletou os dados, a gente fez os cálculos e chegou ali num resultado que até para gente foi surpreendente. MÚSICA OSCAR: Quando se considera a implementação de um projeto como esse, a questão ambiental é importante, mas não é a única a s

Oct 8, 202019 min

#102 – Temático: A física criativa de Dark

Este programa explora a construção dos conceitos científicos que são apresentados em Dark, uma aclamada série alemã de ficção, suspense e drama que está disponível no canal de filmes via streaming Netflix. Dark é muito conhecida pelo alto grau de complexidade do seu roteiro, que traz diversos elementos da física. Mas o que será que realmente é ciência por trás da série? Como é que os autores conseguem escrever uma história que envolve conceitos difíceis ligados de forma tão complexa? Quem vai ajudar as jornalistas Caroline Maia e Mariana Hafiz a responder essas perguntas, fazendo uma imersão ao universo de Dark são o físico Willian Abreu e o escritor de ficção científica Fábio Fernandes. E aqui você tem o roteiro completo para acompanhar o programa. Seja bem vindo à física criativa de Dark, o episódio 102 do podcast Oxigênio. ******************************** Willian: A própria série continuamente faz referências a artigos científicos, como por exemplo os artigos de F. Englert e R. Brout, de 1964 e do próprio Higgs, fazendo uma associação, uma menção rápida ao bóson de Higgs Fábio: O roteiro é fundamental, porque como viagem no tempo é uma coisa que não existe, a gente pode brincar com teorias Willian: Para que o bóson de Higgs fosse evidenciado, foi necessário a construção de um enorme acelerador de partículas na Europa, chamado LHC. Enfim, fica claro que não é possível que uma usina nuclear possa gerar isso. Fábio: Na ficção, o importante é o que Rolland Barthes chamava de “efeito de real”: tem que provocar na pessoa – no leitor ou no espectador – a sensação de que aquilo ali é real ou poderia ser real Willian: É realmente uma liberdade 100% artística e que não tem nenhuma relação com o que é de fato representado no universo. Fábio: Usar só o artifício de botar a história no futuro não basta, tem que saber escrever a história mesmo. Saber como escrever a narrativa. E aí é uma coisa que não é ficção científica, é da literatura ou do roteiro.   Caroline: Dark é a primeira série original alemã da Netflix, de drama, suspense e ficção científica. Ela foi eleita a melhor série da Netflix, superando as famosas Stranger Things e Black Mirror. Com 3 temporadas, a série é reconhecida pelo enredo sombrio e super complicado que envolve viagem no tempo. A primeira temporada estreou em dezembro de 2017 e a terceira e última saiu mais cedo esse ano, em julho de 2020. Mariana: Por envolver viagem no tempo, a série faz várias menções a temas científicos de física. Inclusive o primeiro episódio já começa com uma fala de Albert Einstein sobre o significado de tempo. Mais especificamente, Dark aborda muitos conceitos de fissão nuclear, por conta de uma usina nuclear, que é central no enredo. Caroline: Buracos negros, Ponte de Einstein-Rosen, O paradoxo de Bootstrap, Boson de Higgs…esses são alguns dos elementos da física que a série explora. Mas será que ‘essa ciência’ que a série mostra é real? As coisas que acontecem lá poderiam mesmo acontecer na realidade? E com essa complexidade toda envolvendo física e ficção científica, como é que os roteiristas constroem histórias como Dark? Mariana: Pra responder essas perguntas, entender melhor a física por trás de Dark e a construção do roteiro de séries como essa, o Oxigênio de hoje mergulha no universo dessa já premiada série. Eu sou a Mariana Hafiz. Caroline: E eu sou a Caroline Maia. E começa agora o episódio 102, A física criativa de DARK. Mariana: Em primeiro lugar, para construir um enredo complexo como o de Dark, o escritor de ficção científica precisa de muita imaginação. Como explica Fábio Fernandes, escritor do gênero, para escrever uma história assim o trabalho é semelhante ao de alguém que escreve uma ficção utilizando elementos históricos, só que com mais criatividade. Fábio: O escritor de ficção científica tem o mesmo tipo de abordagem que um escritor de ficção histórica. O de ficção histórica trabalha com algo que já aconteceu; o escritor de ficção científica trabalha com uma ficção histórica que não aconteceu ainda ou que nunca vai acontecer, mas ele usa ferramentas semelhantes de pesquisa. Só que enquanto o historiador, o escritor de ficção histórica tem que ser historiador, ele tem que procurar livros pra pesquisar aquilo que aconteceu e preencher as lacunas do que a história não registrou, o escritor de ficção científica tá preenchendo as lacunas de tudo, praticamente. Caroline: E a complexidade da história apresentada em Dark liga diversos conceitos e ideias já explorados em outras histórias de ficção científica. Mas a série usa esses conceitos e ideias para contar uma história nova, intrigante e que vem fazendo muito sucesso por aí. Mariana: Pra quem gosta do gênero de ficção científica, esse tipo de construção visto em Dark acaba sendo um prato cheio, porque traz referências a outras histórias famosas e amadas pelos fãs. Fábio: Eu gostei muito de Dark porque ela presta homenagem a vários livros de ficção científica, filmes e

Sep 24, 202030 min

#101 Série Corpo, episódio 6 – Quebra-cabeças

Na insuficiência cardíaca e na realização das pesquisas, quando a coisa não vai bem é preciso reorganizar as peças. Em “Quebra-cabeças”, conversamos sobre o papel do exercício na reabilitação cardíaca e sobre os desarranjos trazidos pela pandemia no cotidiano de quem estuda o corpo. Participaram do episódio a professora Lígia de Moraes Antunes Correa e o aluno de mestrado Erick Lucena, ambos da Faculdade de Educação Física da Unicamp. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp). SAMUEL RIBEIRO: Olá. Esse é o sexto episódio da série Corpo… Quando eu comecei a produzir o podcast a minha ideia era sair por aí com o gravador na mão pra registrar as cenas das histórias, mas eu nem imaginava que tudo isso ia mudar por causa de uma pandemia. A gente teve que se reinventar. E aqui na educação física, onde muita pesquisa depende desse encontro entre as pessoas, do suor, do movimento, da conversa… teve um tanto de gente que também precisou mudar totalmente os planos pra 2020. Eu sou Samuel Ribeiro, e esse episódio vai ser um pouco diferente dos outros… A gente começa com a Lígia. LÍGIA DE MORAES ANTUNES CORREA: Bom, é… meu nome é Lígia, Lígia de Moraes Antunes Correa, sou docente do Departamento de… [RISOS] calma aí, vou começar de novo! Que horror, nunca fiz isso! Vamos lá! SAMUEL: Eu conheci a Lígia faz pouco tempo, nos corredores da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Ela trabalha na área de reabilitação cardíaca e é professora do Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada desde o ano passado. LÍGIA: … sou mãe de duas crianças… e sou uma pesquisadora que tento conciliar tudo isso junto nesse momento atual, e buscar aí, entender um pouquinho de como o exercício físico pode contribuir pra… pra nossa saúde, em especial pra saúde cardiovascular. SAMUEL: Uma coisa engraçada na história da Lígia é que apesar dela ser bem da área de fisiologia do exercício, eu e ela temos uma orientadora em comum na nossa história, que é a professora Carmen Lucia Soares. SAMUEL: A Carminha, que me orientou na iniciação científica, trabalha com história da educação física e do esporte, nada a ver com reabilitação cardíaca. A Lígia fez TCC com ela lá na graduação, e me explicou que esse passeio faz todo o sentido pra área que ela atua. LÍGIA: E eu acho que a área da saúde é uma área que ela não tem como se separar das áreas das humanidades, a gente tá trabalhando com pessoas né. Então eu sou daquelas que acha que tudo contribui pra gente ter uma formação mais completa e mais humana, porque eu não posso pensar que eu vou por exemplo prescrever um exercício pra um paciente, e que isso aí unicamente vai ter um efeito biológico pra ele, né? Tem outros efeitos que estão envolvidos. SAMUEL: Depois que se formou ela foi pro mercado de trabalho, atuou em escola, em academia… mas nesse meio tempo tinha ainda aquela vontade de trabalhar com pesquisa. LÍGIA: Eu era apaixonada pela fisiologia cardiovascular, tinha assim, nossa, sabe aquela aula que brilha o seu olho, quando cê tá vendo aquele material, estudando… LÍGIA: … o meu foco, o que eu queria trabalhar, era com reabilitação cardíaca. Eu sou daquele time que não queria trabalhar com exercício pra efeitos estéticos e nem pra performance, nunca foi muito a minha área, então eu queria muito fazer reabilitação cardíaca. SAMUEL: Aí conversando com as pessoas, disseram assim pra ela: LÍGIA: … “olha, o melhor lugar que você tem pra trabalhar com pesquisa nessa área é o Incor”. SAMUEL: … que é o Instituto do Coração lá na USP, no Hospital das Clínicas. Lá a Lígia fez estágio de pesquisa, doutorado e pós-doutorado, e entrou de cabeça no assunto da insuficiência cardíaca… SAMUEL: … que é uma doença que atinge muita gente, justamente porque a população tem envelhecido e, com os avanços da medicina, mais pessoas têm sobrevivido depois de ter algum tipo de problema cardiovascular. E aí o coração, que nada mais é do que uma bomba pra jogar oxigênio e nutrientes pro corpo todo, sai dessa história danificado e já não funciona mais como devia funcionar. LÍGIA: Então imagina que por diversas causas, seja ela um infarto, seja uma hipertensão ou seja um medicamento, enfim, essa bomba começa a alterar a sua função e começa a alterar os tijolinhos que fazem parte dela, sabe? Os pedacinhos que fazem parte dela. SAMUEL: E essas alterações nos pedacinhos do coração, no arranjo dos vários tipos células que compõe os tecidos cardíacos… LÍGIA: Então são, vamos pensar se fosse um quebra-cabeça, vai. SAMUEL: … vão fazendo a bomba deixar de bombear sangue de um jeito eficiente. LÍGIA: As peças estão muito bem encaixadas. Na insuficiência cardíaca essa estruturação, esse arranjo vai se perdendo. Então elas não estão mais tão bem alinhadas, tão bem estruturadas, né,

Sep 3, 202037 min

#100 – Quarentena ep. 5 – Despedidas

Quando o Brasil atinge a infeliz marca dos mais de 119 mil mortos e 3,8 milhões de infectados, não poderíamos deixar de comentar o assunto e prestar nossa solidariedade aos familiares que agora enfrentam o processo de luto. Os convidados da vez são: Lucas Barbosa (psicólogo especializado em luto), a Professora e Doutora em Antropologia Social Letícia Ferreira (UFRJ), a Helena Ansani (mestranda em divulgação científica e parte da equipe do Oxigênio) e a Maria Aparecida Teixeira (psicóloga clínica e hospitalar)*. Trazemos também relatos de quem perdeu pessoas queridas e agora enfrenta o luto neste momento atípico. A sugestão do tema foi da Helena e encerra a nossa série QUARENTENA com o centésimo episódio do Oxigênio. *A Maria Aparecida Teixeira, em um gesto de solidariedade, está ajudando várias pessoas a conversar sobre suas perdas, inclusive aqueles que não têm condições financeiras de arcar com um serviço do tipo. Para os que podem, a contribuição é bem-vinda. Contato: (19) 99126-7880 (Campinas). **Uma série idealizada, produzida e ilustrada por Carolina Sotério. Minuto da Química – São Carlos: Olá, meu nome é Milene do podcast Minuto da Química. E gostaríamos de parabenizar a temporada do Quarentena. Carolina Pieroni – Campinas: Então eu fui maratonando todos os outros episódios e eu achei muito incrível, muito prático do jeito que a Carol explica dá pra entender super bem coisas que eu não entendo nada. Laís Ferraz – Campinas: É legal ver que tem uma produção com uma qualidade técnica muito alta, e ainda por cima traz um viés científico. Então tem entrevista com especialistas nas áreas de acordo com cada episódio, esclarece bastante os pontos e traz até alguns que a gente não sabia muito. Minuto da Química – São Carlos: E também pela criatividade e contextualização nos episódios, falando sobre ciência, política, saúde… Com base nesse contexto que estamos vivendo de pandemia. Carolina Pieroni – Campinas: Muito bom o Quarentena Podcast. Façam mais! Carol: A série que você ouve agora surgiu em meio às medidas de distanciamento social, em um cenário sem precedentes da doença Covid-19. No primeiro episódio, tratamos exatamente dos anseios e dificuldades de mudar as atividades presenciais para o remoto. No segundo, trouxemos alternativas para colaborar com as pesquisas em andamento sem sair de casa. Já em nossa terceira produção, comentamos dos cuidados necessários com a população idosa, considerada de risco para a doença. No quarto episódio, nos dedicamos a mostrar um pouquinho do trabalho dos cientistas que estão por trás dos estudos das vacinas e o levantamento de dados. Agora, chegamos ao último episódio, bem quando o Brasil ultrapassa a triste marca dos mais de 115 mil mortos pela Covid-19. A obra “A hora da estrela” de 1977 marca o último romance de Clarice Lispector, na qual a morte e a despedida são questões presentes. A escritora ucraniana naturalizada brasileira também inclui nessa narrativa o seu próprio adeus, ao falecer em 9 de dezembro do mesmo ano no Rio de Janeiro. Conforme a escritora registra no começo do livro, a história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Novamente, uma calamidade se repete e com ela o assunto volta à tona. As mortes trágicas, as despedidas incompletas e o luto. O Lucas Barbosa, que fala com a gente, é psicólogo, especialista em luto e desenvolve um projeto chamado “Guarda-chuva”, que trata de oferecer suporte sobre esse processo. Para início de conversa: afinal, o que exatamente é o luto? Lucas: O luto ele pode ser compreendido como uma reação à perda de algo ou alguém. Nos afeta aí em todo o aspecto da nossa vida biopsicossocial. A gente tem alterações biológicas, sono, apetite, o modo ao qual a gente vai reagir às coisas no nosso ambiente, acaba sentindo maior intensidade de alguns sentimentos, da tristeza, raiva, culpa, de como a gente vai compreender nosso mundo na nossa nova realidade que se apresenta e também nos aspectos sociais, onde a gente interage: de como as pessoas vão chegar pra gente, se elas sabem como nos ajudar, como se comportar diante a essa nova questão. E aí o luto é um processo universal e seu viver é particular, muito singular. Todo mundo no planeta vai passar por um processo de luto. A gente tem uma ideia de que a morte é a única fonte ou natureza pra luto, só que se a gente tem diversos tipos de perda, a gente vai vivenciar o processo de luto. É um processo que vem para que a gente possa aprender a lidar com a ausência e aí tem muitas perguntas e dúvidas: será que só eu sinto isso? Será que é só comigo? E a gente sempre vai dizer que a sua experiência de luto, é sua experiência de luto. E é importante que seja experienciado, vivido, sentido. Carol: E o luto acaba um dia ou é algo que carregamos para sempre? Lucas: Quem vai me dizer isso é o próprio enlutado, o sujeito que se comporta. Então vamos olhar a história dele? Como foi a história dele de lidar com perdas? Será que ele já vivenciou isso

Aug 31, 202021 min

#99 – Temático Memórias: Episódio 2 – O Trauma

Quão fundo podem ir as marcas que o trauma deixa em uma pessoa, e quais são os fatores que determinam a intensidade dessas marcas em cada um? Nessa segunda e última parte da minissérie “Memórias”, nosso temático em duas edições sobre traumas e sua relação com os mecanismos da memória, o trio de divulgadores científicos formado por Bruno Moraes, Caroline Marques Maia e Vinicius Alves tenta entender a relação entre memórias, trauma, transtornos psiquiátricos e a percepção da realidade. Partindo, como da outra vez, de um exemplo ficcional saído dos videogames, o programa traz a maneira como a série Silent Hill representa o trauma, e segue daí para as entrevistas com as psicólogas Paula Rui Ventura e Mara Regina Nunes Alves, com o psiquiatra William Berger, e com a bióloga Juliana Carlota Kramer Soares, que já havia participado da primeira parte. Junto a essa equipe de especialistas de diversas áreas, o Oxigênio tentará dar respostas aos mecanismos por trás do surgimento e da superação do trauma, tratando para isso de temas que vão da genética à terapia, passando até mesmo por um artigo baseado na observação de neurônios disparando em tempo real. O roteiro e apresentação foram feitos pelos apresentadores Caroline, o Vinícius e o Bruno, com trabalhos técnicos de Octávio Augusto, da Rádio Unicamp, e de Gustavo Campos auxiliando na edição. A coordenação do Oxigênio é de Simone Figueiredo, que também ajudou a elaborar o roteiro. ____________________ Paula: Eventos potencialmente traumáticos são aqueles que ameaçam a vida ou a integridade física das pessoas. Bruno: Por que algumas pessoas são mais vulneráveis do que outras para desenvolverem transtorno após um trauma? Juliana Carlota: Nem todo mundo que passa por uma situação em que é assaltado vai desenvolver um trauma. Tem gente que supera isso muito bem, outras pessoas não. Então, praticamente todo mundo vai passar por alguma experiência traumática na vida. Carol: Como o trauma se instala na mente na forma de uma memória tão vívida, como se o evento traumático tivesse acontecido agora? William: terapia cognitivo comportamental vai mostrando para o indivíduo que apesar daquele evento ter sido perigoso naquele momento, ele não é mais perigoso de forma que você tenha que recrutar todos os mecanismos de defesa. Vinícius: Como entender os fatores que levam algumas pessoas a superar as experiências traumáticas de longo prazo? E como desenvolver terapias para ajudar as que não conseguem deixar essas memórias pra trás? Carol: O Oxigênio de hoje é o segundo episódio da minissérie MEMÓRIAS e trata de questões sobre o Trauma. Vamos falar sobre eventos potencialmente traumáticos, o que é Transtorno de Estresse Pós Traumático, seus sintomas e também seus tratamentos. Eu sou Caroline Maia. Bruno: Eu sou Bruno Moraes. Vinícius: E eu sou o Vinícius Alves. E começa agora: “Memórias: Episódio 2 – O Trauma” Bruno: Como já comentamos no primeiro episódio, antes desse programa virar uma minissérie, com link pra videogames e ficção, tínhamos uma pauta até que simples: Iríamos falar sobre um artigo publicado no princípio deste ano pelo grupo de pesquisa do professor Susumu Tonegawa, do Massachusetts Institute of Technology, o MIT. Carol: Depois de ler o artigo e de ter entrevistado pessoas de diferentes áreas do conhecimento sobre o tema, que nós percebemos qual era a melhor forma de lidar com ele. Primeiro explicar como funciona a memória, o que fizemos no programa anterior. E no programa de hoje vamos falar sobre o envolvimento das memórias no medo, no trauma, e na superação. Bruno: Mas antes… Tem um pouco mais de videogame pra dar ao programa uma pitada mais nerd… Quer dizer… Pra trazer mais um paralelo entre as questões científicas desse episódio e uma obra ficcional. A gente até tentou pensar em um exemplo que viesse de uma outra mídia pra dar uma variada, mas esse é realmente um dos exemplos mais fortes sobre a relação entre os traumas que alguém carrega e a forma como a realidade dessa pessoa é distorcida por esses traumas. Bem-vindos… A Silent Hill. Carol: A série de jogos de terror Silent Hill, da desenvolvedora japonesa Konami tem muito a ver com o conceito de traumas. E não é só pelo fato de ser uma série que lida com o terror mas, principalmente, porque o trauma psicológico dos personagens é parte central do enredo de muitos desses jogos. Vinícius: E essa vivência dos personagens tem muito a ver com a questão que trouxemos para o Oxigênio na primeira parte dessa minissérie em dois episódios. Ou seja, o quanto as memórias moldam a percepção da realidade em torno de uma pessoa. Bruno: Silent Hill é uma cidade fictícia nos Estados Unidos, com a história marcada pelas atividades de um culto religioso de centenas de anos. A história dos jogos, em geral, se passa em uma realidade alternativa, relacionada à ação do culto e povoada por criaturas perturbadoras. Carol: Em Silent Hill 2, o protagonista James chega à cidade após receber uma carta de sua esposa, dizendo que sentia

Aug 13, 202041 min

#98 – Temático Memórias: Episódio 1 – O Palácio

Este episódio do Oxigênio traz a primeira parte de um programa que vai tratar das memórias traumáticas. Para introduzir o tema, no entanto, o Bruno Moraes, a Caroline Maia e o Vinicius Alves começaram falando sobre as memórias, mostrando o que são e como funcionam, como constituem a identidade, questões abordadas sob o ponto de vista da Biologia, da História e até dos games ou indústria cultural. Para trazer explicações consistentes, o trio conversou com a neurobiologista Sophia LaBanca, com a bióloga Juliana Carlota Kramer Soares e com a historiadora Ana Carolina de Moura Delfim Maciel. Roteiro, apresentação e edição ficaram por conta do Bruno, que teve a colaboração da Caroline e do Vinicius na apresentação e elaboração do roteiro, e do Gustavo Campos na edição. A coordenação do Oxigênio é de Simone Pallone. ___________________________________ Sophia LaBanca: A identidade é construída através das memórias. Daí você pega a questão da mortalidade também ligada à memória. William Berger: E a porta de entrada das memórias no nosso cérebro, é uma região do cérebro que tá alí do lado da amígdala, que é o hipocampo. Juliana Carlota Kramer Soares: Então eu acho que o grande desafio de quem estuda a memória é tentar entender como esse processo ocorre. O que acontece no nosso cérebro quando a gente aprende algo novo? Ana Carolina de Moura Delfim Maciel: Tem uma citação da Frances Yates, no livro “A Arte da Memória”, que eu gosto muito. Que é: “a arte da memória é como uma escrita interior”. Carol: Como funciona a nossa memória, e o quanto essa ligação com o passado constrói a experiência do momento presente? Vinícius: Qual a diferença entre se lembrar de uma situação específica e se lembrar de uma informação ou uma técnica aprendida? Bruno: E como diferentes ciências enxergam essas relações, e o que elas têm a nos dizer sobre o que nos constitui como pessoas e como parte de uma sociedade? Vinícius: Qual a relação entre memórias ruins e o trauma, e o quanto da superação desse trauma depende da superação da memória? Carol: O Oxigênio de hoje é o primeiro de dois capítulos voltados a entender a relação entre o trauma e a memória, e nessa parte inicial vamos nos concentrar na questão da memória em si: o que ela é, como se forma, e como NOS forma. Eu sou Caroline Maia… Vinícius: Eu sou Vinícius Alves… Bruno: E eu sou o Bruno Moraes. E começa agora: “Memórias: Episódio 1 – O Palácio” Vinícius: A ideia para este episódio veio de um artigo sobre a extinção de memórias traumáticas, mas a primeira entrevista do programa foi completamente acidental. Bruno: Pois é. Nós já estávamos discutindo a possibilidade de fazer um programa baseado numa publicação de neurociência sobre a extinção de memórias traumáticas e procurando algumas fontes. Daí, num domingo qualquer, depois de terminar a faxina de sempre, eu fui checar meu WhatsApp e vi que minha amiga Sophia LaBanca, neurobiologista e divulgadora científica, que já foi da equipe do Oxigênio, tinha mandado mensagem, falando que tinha terminado de jogar os dez títulos da série de videogames Kingdom Hearts. Carol: O que o Bruno não esperava é que, nessa conversa despretensiosa de domingo, o tema desse programa, que já estava em produção, iria dar as caras. [Trechos de Conversa] Bruno: “Po, e isso nem é tão difícil de fazer, né, cara?” Sophia: “Então, né, Bruno? Eu concordo com você que não é algo difícil de se montar…” Bruno: “Ah, entendi! Eu achei que tinha sido exatamente o contrário…” Sophia: “Mas enfim, está sendo boa essa conversa com você, porque está me ajudando a elaborar um pouco essas questões da temática. Eu acho que realmente, o… Pensando agora nessa nossa conversa, acho que o ponto principal é a memória…” [Fim da Conversa] Bruno: Pois é… Para quem não conhece, Kingdom Hearts é uma série de jogos de RPG criada pela lendária Squaresoft, empresa responsável pelas séries Final Fantasy e Chrono, em parceria com a Disney. A história de Kingdom Hearts acompanha o Sora, um jovem humano que é puxado para uma outra realidade, o Reino governado pelo… Rei Mickey. Eu fui perguntar para a Sophia a respeito dos temas principais da história da série, já que eu conheço bem pouco do mundo mais recente dos jogos. Ela logo achou que eu estava procurando uma brecha pra zoar o enredo famosamente complicado e cheio de voltas da série. Bruno: Não, eu nem estou falando de ser necessariamente complicada, é porque são duas empresas que constroem histórias que são muito focadas em temas, né? A Square, pelo menos os jogos deles que eu joguei até hoje, tem várias coisas que… Ou os arcos dos personagens são focados num tema central ou tem diversos pequenos arcos, tipo no Chrono Trigger, né? Em que cada um deles traz alguma coisa, algum aprendizado, assim… E a Disney nem se fala, né? Vinícius: Entre áudios e mensagens digitadas, o Bruno e a Sophia começaram a ver que, de todos os temas que moviam a história da série de jogos, tinha um assunto recorrente.

Jul 30, 202044 min

# 97 – Quarentena ep. 4 – Os Bastidores da Ciência

A pandemia tem mostrado a importância da ciência no combate ao novo Coronavírus. Mas você já se perguntou sobre quem é esse cientista que está estudando a vacina? Quem são essas pessoas por trás dos dados que acompanhamos todos os dias? Ou o motivo de algumas soluções demorarem tanto a chegar? Isso tudo é discutido neste episódio do QUARENTENA, com a participação de Natalia Pasternak (bióloga e presidente do Instituto Questão de Ciência), Altay Lino de Souza (professor da Universidade Federal de São Paulo e produtor do Naruhodo Podcast) e Rafael Izbicki (estatístico e professor da Universidade Federal de São Carlos). A produção e apresentação do programa são de Carol Sotério. _________________________ Carol: Elementar, meu caro Watson. Essa expressão tão conhecida surgiu em meio a uma encenação do detetive mais famoso da ficção: Sherlock Holmes. Criado por sir Arthur Conan Doyle, um escritor britânico, o personagem originalmente retratado em livros ajudou na construção do estereótipo de um cientista excêntrico, genial e não muito sociável. A verdade é que não costumamos ver esse tipo de personagem no dia-a-dia. Mas sabemos que os cientistas estão por aí. Nesta pandemia, recebemos notícias o tempo todo sobre essas pessoas. Elas estão desenvolvendo tratamentos, fabricando respiradores, estudando o novo coronavírus ou ainda fazendo previsões sobre o impacto da Covid-19 em todo o mundo. Mas como é que tudo isso é realmente feito? Como é a ciência longe da ficção? Carol: Você está ouvindo o QUARENTENA. Eu sou a Carol, e o no episódio de hoje falaremos sobre os bastidores da ciência em tempos de pandemia. Carol: No livro chamado “um estudo em vermelho”, a primeira obra que apresenta o personagem Sherlock Holmes, vemos a descrição do cientista pelos olhos de seu colega, o médico Watson. Com uma listinha, Watson enumera características sobre o detetive: uma pessoa que possui um vasto conhecimento de química, algumas habilidades musicais e cheio de mistérios. Na vida real, o cientista está longe de ser misterioso, podendo estar mais próximo de você do que possa imaginar. Cerca de 60% da pesquisa que é desenvolvida no Brasil vem de 15 universidades públicas, entre elas a UNICAMP. Mas para estar qualificado pra fazer uma pesquisa de excelência nessas instituições, é preciso estudar muitos anos. Em média, uma graduação leva cinco anos; um mestrado, dois; um doutorado quatro anos e um estágio de pós-doutorado pode durar de seis meses a seis anos, variando entre os programas e as oportunidades de outros trabalhos que vão aparecer no caminho. Esse trabalho, muitas vezes, requer um regime de dedicação exclusiva, isto é, que seja sua única ocupação, e é remunerado com as bolsas de pesquisa com valores não atualizados desde 2013 no Brasil. Sobre isso, a nossa entrevistada, a bióloga Natalia Pasternak e presidente do Instituto Questão de Ciência, tem algo a nos falar: Natalia: As pessoas realmente não têm muita noção de como a ciência funciona no Brasil, como é o trabalho do cientista, qual que é o nível de dedicação, o que um docente faz, o que um pós-doc faz, o que um estudante de pós-graduação faz – na cabeça da maioria das pessoas, inclusive, os estudantes de graduação não são nem profissionais. Eles não entendem que aquele já é um profissional formado que está fazendo um trabalho de pesquisa remunerado por uma bolsa de estudos. E daí a gente junta tudo e fica justamente com aquela impressão que as pessoas têm de que as universidades não servem pra nada. Eles não entendem que as universidades são grandes centros de pesquisa, não são apenas escolas. E isso é algo que também se reflete muito dentro da universidade, que também até hoje acho que não entendeu muito bem qual que é o seu papel na formação de profissionais, na valorização desses profissionais, dos pós-graduandos. Carol: Uma situação que tem sido corriqueira no Brasil é a fuga de cérebros. Em meio a falta de oportunidades no país, diversos pesquisadores têm procurado por oportunidades em outras nações. Em um ranking de competitividade global de talentos feito pela Insead com 132 países, o Brasil caiu em oito posições em relação ao ano passado. Um dos motivos é justamente a fuga de cérebros. Natalia: O que vem pela frente é que a ciência brasileira vai acabar. Porque a gente não valoriza os profissionais, a gente não remunera os profissionais, a gente não tem financiamento pra eles trabalharem e a gente não tem uma comunicação com a sociedade para que a sociedade pressione o governo pra que isso aconteça. O futuro promete muito pouco pra ciência brasileira se a gente não mudar de atitude e se a gente não tiver um governo mais favorável também. A gente fala muito da nossa falha, da falta de comunicação, mas isso não faz milagre num governo anticiência. Nós estamos vivendo o governo mais anticiência que a gente já teve, não interessa o quanto a gente se esforça pra se comunicar com a sociedade. É claro que isso tem que ser feito, mas a gente precisa de um novo

Jul 23, 202023 min

# 96 Série Corpo – episódio 5 – O peso do peso

Obesidade, corpo gordo, plus size. Para falar sobre peso corporal precisamos ir além da balança. Em “O peso do peso”, a gente navega pela história da Júlia, uma professora de balé que ensina outros tipos de corpos a dançar, e discute os vários sentidos do corpo gordo a partir da fisiologia do exercício e da história do peso no Brasil. Participaram do episódio a Cláudia Cavaglieri, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, e Denise Bernuzzi de Sant’Anna, historiadora da PUC São Paulo. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp). Segue o roteiro completo. SAMUEL RIBEIRO – Oi. O que você tá ouvindo é uma apresentação de balé. O som vem de um vídeo, que eu quero que você imagine aí. Fecha os olhos. Tem a plateia, as cortinas, a iluminação… e no meio do palco uma bailarina profissional, graciosa, dançando na ponta dos pés. Visualizou? Agora diz pra mim: como é que era o corpo dessa bailarina? Ela era magra, gorda, musculosa? E por que que você imaginou ela desse jeito? Eu sou Samuel Ribeiro e este é o Corpo, podcast que fala de histórias e de movimento humano. E a gente começa com a Júlia… a bailarina. JÚLIA DEL BIANCO – Meu nome é Júlia Del Bianco, eu sou bailarina, professora de dança, e também sou modelo plus size e influenciadora digital. SAMUEL – A Júlia faz balé clássico desde criança e se formou em Dança na Unicamp. Ela já deu aula em escolas e ONGs, e é fundadora da Dance for Plus, uma escola itinerante que traz a dança pra quem não se encaixa nos padrões de corpo daquela bailarina… que muita gente deve ter imaginado junto com a música. O trabalho da Júlia segue na linha de todo um movimento que aconteceu nas últimas décadas, e que luta contra o preconceito e a estigmatização do corpo gordo. E tem a ver também com as experiências que ela viveu quando era aluna de balé… JÚLIA – Eu hoje, eu olhando as minhas fotos, eu considero que eu era uma pessoa magra. Mas eu sempre tive mais peito, mais coxa, é, mais bunda, e pra uma bailarina isso não é aceitável. Mas quando eu comecei a dançar era uma coisa assim, que você tinha que ser uma tábua assim, sem nada. Então eu era essa pessoa um pouquinho mais curvilínea no meio de um monte de bailarinas que eram mais retas, assim, com o corpo mais reto. Então eu sempre tive um corpo fora do padrão do balé. SAMUEL – A Júlia tinha um dilema ali na adolescência: ela era uma bailarina e se dedicava nos treinos e nos ensaios, só que ao mesmo tempo o ambiente do balé tava ali dizendo que o corpo dela… não era corpo de bailarina. Bom, o tempo foi passando e a Júlia engordou… JÚLIA – … só que daí eu comecei a perceber um outro lado. Eu comecei a perceber um lado de que eu ia comprar roupa e eu não tinha roupa pra eu comprar, mesmo que fosse de ginástica pra eu querer fazer alguma coisa pra emagrecer, entendeu? SAMUEL – E começou a sentir na pele uma série de outras pressões por causa do corpo, inclusive questões de acessibilidade… JÚLIA – Acessibilidade de as vezes não caber nos lugares, de… eu sempre dancei, sempre fui ativa, mas eu era tida como sedentária. Então eu comecei a ver um outro lado da moeda né. SAMUEL – Aí, vendo esse outro lado da moeda, ela virou professora e quis ensinar dança de um jeito que não deixasse ninguém de fora. E além de ajudar as alunas, ela também acabou se ajudando muito nesse processo. JÚLIA – … eu comecei a ver que eu tinha um impacto muito grande nas minhas alunas, né, e que elas melhoravam a autoestima delas. SAMUEL – A Júlia pensou… JÚLIA – … “nossa, mas eu faço tão bem pra elas, né, e eu tô aqui em um processo tão autodestrutivo né, me odiando tanto”. Daí foi um começo assim. … a dança ela é uma coisa que… cê me pergunta “mas como que você não desistiu?”, eu falo “não sei”, porque pra mim dançar, o movimento, me expressar, é uma coisa que eu me sinto muito bem, muito completa, então me satisfaz muito fazer aula, ir pro palco. E eu fico muito triste quando as pessoas não fazem ou são impedidas de fazer isso. SAMUEL – Falar sobre corpo gordo dentro da Educação Física costuma ser complicado. Muita gente tem estudado a parte cultural e social sobre os diferentes corpos e o movimento humano. A gente também tem todo um acúmulo da ciência mais biológica olhando as questões de saúde ligadas ao excesso de peso e à obesidade. E nos dois casos, toda hora, tem estudo novo saindo! Pra completar, no dia a dia de quem estuda e trabalha na área acabam aparecendo também ideias que vêm do senso comum, preconceitos, coisas que aparecem na mídia… não é tão simples como parece. Por clarear um pouco tudo isso eu fui conversar com a Claudia… CLÁUDIA REGINA CAVAGLIERI – Bom, eu sou a professora Claudia Cavaglieri, eu

Jul 10, 202026 min

#95 Quarentena – Envelhe(ser)

Nesta pandemia, os cuidados com os idosos precisam ser redobrados! Questões sobre as necessidades especiais, o distanciamento social e as políticas públicas necessárias para assistir essa parte da população são discutidas nesse terceiro episódio da série Quarentena. Foram entrevistados os especialistas: Karina Gramani Say, fisioterapeuta e professora do departamento de Gerontologia da UFSCar; Marco Túlio Cintra, médico geriatra, professor da UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em Minas Gerais; e Maria Santos, filha da Dona Joana (81 anos) e muito experiente no cuidado de pais idosos. Carol: Desde que passamos a existir, atravessamos as mais diferentes fases da vida. Vida essa com início, meio e fim. Nascemos necessitando de cuidados alheios. Depois, ao crescer, nos tornamos independentes. Mas ao envelhecer, uma parte da independência vai embora e a necessidade de cuidados alheios volta, em maior ou menor intensidade. Em tempos de pandemia do novo coronavírus, o cuidado com o outro se torna ainda mais importante, especialmente com aqueles que já atingiram a terceira idade. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a OMS, essa fase se inicia por volta dos 60 anos, variando entre os países. No Brasil, a estimativa de vida é de cerca de 72 anos para os homens e 79 para as mulheres, segundo o IBGE. Essa diferença é chamada de sobremortalidade masculina, e as razões que definem esses números são várias, entre elas as causas não naturais, como a violência e os acidentes de trânsito. Mas se por um lado temos observado diversos familiares preocupados com seus entes de mais idade, de outro vemos um crescente retrato do abandono. Carol: Você está ouvindo o QUARENTENA. Eu sou a Carol e no episódio de hoje falaremos sobre a velhice em tempos de pandemia. No conto “Feliz aniversário”, a escritora Clarice Lispector retrata a velhice e as relações familiares. Descrevendo o ambiente da comemoração dos 89 anos da dona Anita, Clarice ressalta algumas situações que, às vezes, chegam junto com a idade: a presença familiar por obrigação, a falta de colaboração entre os filhos e a inversão de papéis. E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito “89″. Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, “vamos! todos de uma vez!” — e todos de repente começaram a cantar alto como soldados:   Happy birthday to you / Parabéns pra você / Muitas felicidades / Muitos anos de vida Carol: Vemos que a dona Anita do conto chegou aos 89 anos, uma idade já acima da expectativa média de vida para as mulheres brasileiras. Segundo o IBGE, cerca de 14% da população brasileira é composta de idosos, um número que está por volta de 30 milhões de pessoas. Falamos tanto sobre envelhecer, mas o que de fato significa isso? A palavra da vez está com a Karina Gramani Say do departamento de gerontologia da UFSCar. Karina: Primeiro é importante a gente entender que velhice é uma fase da vida – a fase mais madura da vida – mas ela é mais uma fase da vida assim como a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice. Então é importante que a gente entenda que desde o momento que a gente nasce a gente tá num processo de envelhecimento, que inclui passar por todas as fases da vida e atingir a velhice. Aqui no Brasil e em países subdesenvolvidos é considerado idoso a pessoa a partir dos 60 anos de idade. Já nos países desenvolvidos, idoso é considerado acima de 65 anos. Por que essa diferença? Porque a gente tem características relacionadas ao nosso acesso à saúde, às condições de vida,que fazem com que as pessoas no Brasil e em países subdesenvolvidos tenham condições de envelhecimento menos favorecidas que os países desenvolvidos. Carol: Muitas vezes quando falamos em idosos pensamos na imagem de um aposentado. No entanto, 8% dos brasileiros ainda trabalham após os 60 anos. Com o aumento da qualidade e expectativa de vida, muitas dessas pessoas continuam ativas profissionalmente. Estão dando aulas nas universidades, atuando na política, na área da saúde e exercendo muitas outras profissões que nem daria para mencionar. Mas por que, então, nós vemos pessoas aos 60 anos tão fragilizadas e, do outro lado, pessoas tão ativas? Karina: Se a gente entender esse processo de envelhecimento e o quanto a gente precisa se cuidar ao longo da vida tem muito a ver com isso de chegar a velhice

Jun 18, 202034 min

#94 – Temático: Esperando Betelgeuse

Neste programa contamos a história da estrela Betelgeuse que, no final de 2019, passou a apresentar um comportamento estranho, o que levou muita gente a acreditar que estava prestes a testemunhar um evento único. E astrônomos que estudam a estrela mais de perto levantaram hipóteses do que estava acontecendo. Quem nos ajuda a contar esta história é Geisa Ponte, mestranda em Astrofísica no Centro de Radioastronomia e Astrofísica Mackenzie, e Vladimir Jearim, pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). GEISA: A gente ver uma comportamento inesperado e inédito que nunca tinha sido registrado nela e aí juntou com esse gatilho com as ondas gravitacionais que não se confirmou, então isso tudo levou a uma crescente de expectativa realmente, inclusive dentro da comunidade científica. OSCAR: Neste programa vou trazer a história de uma estrela chamada Betelgeuse que, no final do ano passado, começou a ter um comportamento estranho. SAMUEL: Astrônomos do mundo todo começaram a observar mais de perto e estudar o que poderia estar acontecendo. Isso também chamou a atenção de bastante gente…. que começou a acompanhar o assunto na internet com muita expectativa. Eu sou Samuel OSCAR: Eu sou o Oscar e esse é o Oxigênio OSCAR: Quem estava falando no começo do programa é a Geisa Ponte GEISA: Eu trabalho com astrofísica estelar observacional usando dados da missão espacial TESS da NASA para procurar variação de brilho de estrelas de emi solares. E para investigar como que essa variação de brilho tem a ver com o comportamento magnético dessas estrelas. E a gente vai falar um pouco sobre uma estrela que é muito diferente das quais eu trabalho. OSCAR: Eu de fora, assim leigo, você falando me pareceu dentro do assunto. Mas, pelo jeito, não é tanto assim. GEISA: É, bom, ainda é dentro de astrofísica estelar, né? Principalmente, observacional essa questão. SAMUEL: Mas antes de avançar mais no que estava acontecendo, a gente precisa falar sobre Betelgeuse. OSCAR: Além do nome do personagem, se você é fã do Guia do Mochileiro das Galáxias deve lembrar que o Ford Prefect é de um planeta perto dessa estrela. GEISA: Eu trabalho com estrelas que a gente diz que é pequena, estrelas pequenininhas do tipo solar e betelgeuse é muito muito grandona. Betelgeuse é mais ou menos 900 vezes o tamanho do sol. OSCAR: Para tentar dar uma ideia melhor , o tamanho de betelgeuse é equivalente à órbita de júpiter. Se a gente pegasse betelgeuse e colocasse no lugar do sol, ela engoliria mercúrio, vênus, a Terra, Marte e chegaria até júpiter. GEISA: Por que mais ou menos? Porque existe as imprecisões que são inerentes a medidas, análise, instrumentos tudo mais. Mas também porque ela pulsa, esse raio dela varia, ela é uma estrela pulsante SAMUEL: Betelgeuse fica na constelação de Orion. Se você quiser encontrar no céu, a melhor forma é primeiro procurar pelas três Marias VLADIMIR: Então a pessoa tem que identificar as três marias, a um lado e a outro das três marias quase a maneira diametral oposta você vai ter duas estrelas brilhantes. SAMUEL: Esse é o Vladimir. VLADIMIR: Meu nome é Vladimir Jearim de Pena Soares SAMUEL: Ele é pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins VLADIMIR: Vai ter uma estrela amarelada, avermelhada, brilhante e vai ter uma estrela branco-azulada. A avermelhada é Betelgeuse. GEISA: Isso, ela é bem vermelha, dá para notar que ela é bem vermelha. E ela vai estar na parte de baixo. Porque a gente está no hemisfério sul, então, na verdade, Orion está de cabeça para baixo. Então quando a gente está vendo a cintura dele, ali as três marias, a gente está vendo a cintura, o cinturão e você vai imaginar os braços onde você normalmente imaginaria a perna. Então ali que ela vai estar, na parte de baixo. E a parte de cima são as pernas que a gente imaginaria que são os braços. Mas é porque a gente está no hemisfério sul e a gente vê invertido de quem convencionou Orion ao contrário, que foram as culturas do hemisfério norte. OSCAR: Se você quiser ver a constelação, ela fica visível durante o nosso verão. Mas não é muito difícil de encontrar porque ela uma das estrelas mais brilhantes…. ou, pelo menos, era… SAMUEL: A Betelgeuse, se compararmos com o Sol, é muito mais jovem GEISA: Ela tem entre 8 ou 8,5 milhões de anos, se a gente compara com o Sol que tem 4,5 Bilhões de anos, então assim são ordens de grandeza muito diferentes. SAMUEL: Só que, por outro lado, ela é considerada uma Supergigante Vermelha, ou seja, é muito mais massiva que o Sol. GEISA: Ela tem cerca de 11, 12 massas solares atualmente porque ela perdeu muita massa ao longo da vida dela. A gente sabe que por ser muito muito mais massiva ela queima muito mais rápido esse combustível, então de fato ela vai ter um tempo de vida muito menor. SAMUEL: E, pelo que sabemos dos modelos de evolução estelar, ela está no final de sua vida GEISA: A gente sabe que isso está acontecendo justamente pela cor da luz que ela emite e pelo raio, pela densidade dela, a gente sabe qu

Jun 11, 202027 min

#93 Série Corpo, episódio 4 – Outra quadra

Daniel é um professor de inglês e atleta de esgrima em cadeira de rodas. Maria Luiza Tanure Alves é professora da Faculdade de Educação Física da Unicamp e estuda formas de ensinar o esporte paralímpico na escola para promover a inclusão. Em “Outra quadra”, contamos as histórias dos dois e falamos de suas memórias com as aulas de Educação Física. A série Corpo faz parte do projeto “Histórias para pensar o corpo na ciência”, que é financiado pela FAPESP (2019/18823-0) e coordenado pelo professor Bruno Rodrigues (FEF/Unicamp). SAMUEL RIBEIRO Oi. Este é o quarto episódio do Corpo, podcast que fala de pessoas e de movimento e é produzido aqui na Unicamp. Eu sou Samuel Ribeiro, e hoje… a gente começa com a história do Daniel. SAMUEL Parte 1: o esgrimista em quarentena. SAMUEL E pra você assim, que fazia tanta coisa, e tinha uma rotina de treino, de sair, de dirigir, de ir pra Unicamp, como que tá sendo agora esse período do isolamento? DANIEL TIBIRIÇÁ Ah tá sendo um baque, cara, tá sendo um baque. Eu tô fazendo o possível pra não me perder de… o foco né, o momentum. SAMUEL Esse é o Dani, um amigo meu. A gente trabalhou junto em 2012 numa empresa de tecnologia aqui da região de Campinas. DANIEL Bom meu nome é Daniel Tibiriçá. Eu sou atleta de esporte paralímpico… SAMUEL Além de atleta ele é professor de inglês e assim como eu tá trabalhando de casa agora durante a pandemia. DANIEL Eu pratico esgrima em cadeira de rodas principalmente, mas eu também já me envolvi com o basquete em cadeira de rodas, parabadminton e também tô trabalhando com o Wushu adaptado. SAMUEL A locomoção do Dani é prejudicada desde que ele era pequeno, porque ele nasceu com uma malformação na coluna chamada lipomielomeningocele. DANIEL Eu andava mas eu… eu… eu cambaleava, eu jogava as pernas pro lado pra fazer a marcha, né. Então precisei fazer fisioterapia né, pra que não acontecesse nenhum tipo de desvio no desenvolvimento da minha marcha, né. Então eu fazia fisioterapia, eu intermitentemente eu usava órteses, né, quando eu era criança, eu usava órteses durante o período, depois eu não precisava mais. Depois piorava a minha marcha eu tinha que voltar a usar órteses. SAMUEL Na adolescência ele treinava Wushu, que a gente também chama de kung fu, só que conforme ele foi crescendo o problema na locomoção foi piorando. Primeiro ele passou a usar bengala, e aí ele pensou… DANIEL … bom o Wushu já acabou, não tem o que fazer. SAMUEL Depois foi pra cadeira de rodas, e isso foi mais ou menos na época da Copa. DANIEL … a Copa do Mundo de 2014 fez eu começar a pensar no esporte novamente e aí 2016 estava vindo né, tava no horizonte, e aí eu comecei a contemplar o esporte paralímpico né, porque Olimpíada também, fiquei sabendo da Paralimpíada, e aí comecei a pensar no esporte paralímpico. SAMUEL Bom, e o primeiro passo pra pensar em praticar um esporte era trocar a cadeira de rodas… DANIEL … porque assim, a cadeira que eu tinha antes era um trambolhão né. Não era uma cadeira muito dinâmica. Aí essa cadeira nova que eu fui comprar era uma cadeira um pouco menor, um pouco mais leve, um pouco mais ágil. Aí normalmente o que acontece? Quando as pessoas sentam, mudam de uma cadeira grandona trambolho pra uma cadeira pequena e mais leve, ela tem um pouco de dificuldade, ela se sente meio assim sem muito equilíbrio. É um pouco estranho, as pessoas costumam estranhar. Só que eu sentei e eu não tive nenhum problema. Eu comecei a dar volta pela loja, a loja tinha os corredores lá, eu comecei a fazer ziguezague em volta da loja o cara falou tipo assim “oh, você leva jeito para jogar basquete, você já pensou em jogar basquete?”. SAMUEL Aí o Dani falou… DANIEL … “olha eu estava pensando justamente em fazer algum esporte paralímpico mas eu não fazia, eu não faço a menor ideia onde procurar”. Aí ele falou que eles tinham contato e aí foi assim que eu comecei. SAMUEL Então ele treinou basquete por um tempo e depois foi se envolvendo com outras atividades. A uns anos atrás ele conheceu um projeto de esgrima paralímpica desenvolvido na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Aí ele apareceu lá, fez uma aula experimental… DANIEL E foi bem natural depois disso, eles perceberam que eu levava jeito, porque era uma coisa que eu sempre gostava, né, tipo assim… SAMUEL O Dani entrou de cabeça na esgrima e desde então tem se dedicado a treinar e participar de campeonatos com a equipe da Unicamp. DANIEL … desde criança meu brinquedo favorito era espada, né, então [RISOS]… SAMUEL E é curioso pensar que só depois de adulto que ele foi ter contato com um esporte especificamente voltado para pessoas com deficiência. Na época da Educação Física na escola ele não teve esse tipo de conteúdo e participava do jeito que dava. A lógica do Dani era assim: DANIEL Tá, onde que eu posso me inserir melhor né? Era um raciocínio que eu mesmo fazia. Onde que eu posso contribuir m

May 28, 202016 min

#92 – Quarentena – OK, computador

Você sabia que seu computador pode ajudar na luta ao novo coronavírus? Nesse segundo episódio do QUARENTENA, falamos sobre um jeito de ajudar no combate a COVID-19 sem sair de casa – como recomendam as autoridades sanitárias do mundo todo. É isso mesmo, tratam-se de projetos que envolvem a computação distribuída/paralela, como o Folding@Home, Rosetta@Home e o Open Pandemics da IBM. Quem falou sobre isso foram: Sarita Bruschi, cientista da computação e professora da USP, e Benilton de Sá Carvalho, – estatístico e professor da UNICAMP. O Quarentena é um projeto ligado ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Nudecri/Unicamp e ao Lab 19, proposta de cobertura da Covid-19, dos alunos do curso. Mais informações sobre o Lab-19 em: http://www.comciencia.br/especial-sobre-a-pandemia-da-covid-19/ Esperamos que você goste do programa e compartilhe com seus amigos. Se quiser, comente nas nossas redes sociais – Twitter (twitter.com/castquarentena), Instagram (https://www.instagram.com/castquarentena/) e Facebook (https://www.facebook.com/quarentenapodcast/) e nas redes sociais do Oxigênio (@oxigenio_news), Instagram (@oxigeniopodcast) e Facebook (/oxigenionoticias) ou escreva para [email protected].   E aqui vai o conteúdo completo do EPISÓDIO 02 – OK, COMPUTADOR Carol: Ok, Google. Google: Olá, como posso ajudar? Carol: Play Quarentena Podcast. Google: Tocando Quarentena Podcast. Carol: No passado, muitas pessoas se dedicaram a imaginar um futuro para a humanidade. Nas telonas, a mensagem era muito clara: carros voadores, hologramas e até mesmo um mundo formado apenas por droids, os robôs inteligentes. Embora essa seja uma visão deturpada da realidade que conhecemos, não podemos negar o fato de que as máquinas têm evoluído e colaborado na construção de um presente repleto de facilidades. No atual cenário de pandemia, os computadores já ocupam um local de destaque. A vida em rede tem permitido que cientistas desenvolvam novos conhecimentos na batalha contra o novo coronavírus. Assim, nossos próprios computadores podem ser utilizados nas pesquisas sobre a COVID-19. Carol: Você está ouvindo o QUARENTENA. Eu sou a Carol e no episódio de hoje falaremos sobre a tecnologia como aliada no combate ao novo coronavírus. Carol: O conhecido autor de ficção científica, Isaac Asimov, estabelecia três leis para a robótica em seu livro “Eu, robô”, um retrato da relação tênue entre homem e máquina. A primeira falaria justamente sobre essa relação. Google: “Primeira lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal” Carol: Em um paralelo com a realidade, temos tentado cumprir a lei. No atual cenário da pandemia, o que buscamos é justamente remediar ou extinguir a doença que nos tem causado mal, usando, entre outras coisas, a computação a nosso favor. No entanto, a tecnologia precisou evoluir para chegar onde estamos hoje. Se hoje buscamos por respostas de forma mais rápida, é porque antes criamos ferramentas para isso. Sobre esse desenvolvimento da tecnologia, a cientista da computação e professora da USP, Sarita Bruschi, tem algo a nos dizer. Sarita: Realmente são vários episódios que, ao logo da história na evolução da tecnologia, merecem um grande destaque. Eu vou destacar aqui dois que foram particularmente importantes pra evolução da área de computação distribuída, que são: as redes de computadores e a miniaturização dos componentes eletrônicos. Sem a comunicação permitida pelas redes, não seria possível transmitir os dados entre os computadores da maneira rápida, confiável e segura que temos hoje. Também sem o advento dessas redes de computadores, a gente não teria hoje essa grande rede mundial que é a Internet. Carol: A Internet, pela qual estamos conectados agora. Sarita: O outro advento que eu considero muito importante é em relação ao processo de fabricação do principal componente dos circuitos eletrônicos, que é o transistor. Carol: Os transistors são uma das unidades mais básicas da eletrônica. Eles são semicondutores com duas funções principais: amplificar a corrente elétrica – como acontece com os microfones – ou funcionar como um interruptor, barrando ou liberando a passagem dessa corrente. Sarita: Com a evolução do processo de fabricação, foi possível diminuir os componentes eletrônicos e, consequentemente, aumentar o poder de processamento, colocando mais transistors em um determinado espaço. Hoje é possível que um circuito eletrônico de milímetros quadrados forneça uma capacidade de processamento muito grande. Carol: Ou seja, a tecnologia como conhecemos hoje nos deu um maior poder computacional. Conseguimos colocar cada vez mais dispositivos eletrônicos em espaços cada vez menores. Sarita: Esses dois episódios juntos são, pra mim, a base do que se tem hoje na computação distribuída, que é o poder computacional e a comunicação. Carol: Estabelecidos nesse presente, comandamos as máquinas. Programamos e instruímos essas ferr

May 14, 202019 min

#91 Oxilab: Ciência nas crônicas de Machado

Em “Ciência nas crônicas de Machado”, falamos sobre como o escritor Machado de Assis abordou a ciência em suas crônicas, de forma bem humorada e também crítica. A nossa entrevistada foi a Ana Flávia Cernic Ramos, que hoje é professora do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia e fez seu doutorado em História Social da Cultura na Unicamp, sobre a participação do Machado na série de crônicas “Balas de Estalo”. OSCAR XAVIER: Aos quarenta anos casou com Dona Evarista, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele admirou-se de semelhante escolha e disse-lhe. Simão Bacamarte explicou-lhe que Dona Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas de preocupação de um sábio, Dona Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte. LAÍS TOLEDO: Esse é um trecho de “O alienista”, do Machado de Assis. Esse conto foi publicado, aos poucos, entre 1881 e 1882, em um jornal carioca. THAIS OLIVEIRA: O conto narra a história de Simão Bacamarte, um médico que era interessado pelos mistérios da mente humana. Naquela época, esse tipo de médico era chamado de alienista, daí o título do conto. LAÍS: O doutor Bacamarte vivia em função da ciência e construiu uma espécie de hospício. Lá, ele abrigava quem ele achava que era louco, para poder estudar essas pessoas. Só que chegou uma hora que quase todo mundo da cidade acabou internado. Então, o doutor Bacamarte teve que rever sua teoria sobre a loucura… THAIS: O Machado usava muitas vezes o absurdo e o riso para provocar indagações. Isso acontece em “O Alienista”, que mostra, por exemplo, que o limite entre uma pessoa “louca” e uma “normal” não é tão claro assim. Com isso, o Machado mostra também que a ciência não é nem objetiva nem inquestionável. E essa forma crítica de retratar a ciência pode ser encontrada em seus contos, romances e também em crônicas. LAÍS: Esse episódio do Oxigênio é sobre como o Machado de Assis tratou a ciência em suas crônicas, uma parte menos conhecida de sua obra. Para falar desse tema, entrevistamos a Ana Flávia Cernic Ramos, professora da Universidade Federal de Uberlândia. THAIS: Ao longo de quase meio século, o Machado escreveu, sozinho ou com outras pessoas, algumas séries de crônicas. Uma delas se chamava “Balas de Estalo”. E a Ana Flávia pesquisou no seu doutorado a participação do Machado nessa série. ANA FLÁVIA CERNIC RAMOS: Essa série foi publicada num dos maiores jornais do Rio de Janeiro, no final do século XIX. O Machado de Assis escrevia junto a outros jornalistas e literatos, e o Machado usava o pseudônimo Lélio nessa série de crônicas, que eram publicadas quase diariamente nesse jornal do Rio de Janeiro. E essa série era humorística. O Machado de Assis escolhe um personagem que explicita esse caráter humorístico, que é o Lélio, que é uma personagem tirada do teatro italiano, da Commedia dell’arte, no qual você comenta e critica e observa o mundo a partir de um viés humorístico. Rindo você critica ou aponta possíveis transformações ou reformas da sociedade. LAÍS: Depois, a pesquisa da Ana Flávia deu origem ao livro As máscaras de Lélio – Política e humor nas crônicas de Machado de Assis (1883-1886), publicado pela Editora da Unicamp. Hoje, a nossa conversa vai ser sobre um Machado de Assis que talvez você ainda não conheça. Eu sou a Laís Toledo… THAIS: … eu sou Thais Oliveira. E esse é o Oxilab “Machado de Assis: jornalismo, ciência e outras cousas mais…”. THAIS: Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839 no Morro do Livramento, próximo ao centro do Rio de Janeiro. Seu pai era neto de escravos e sua mãe era portuguesa. Com 15 anos, o jovem publicou a sua primeira poesia em um jornal. E foi aí que começou sua relação com a imprensa, que durou quase até o fim da sua vida. LAÍS: Antes de falar mais sobre os textos do Machado, é interessante ver um pouco essa imprensa. Ou melhor, como a ciência aparecia nos jornais brasileiros do século XIX. Ao longo desse século, os cientistas ganharam autonomia, prestígio e poder. O período foi marcado por uma grande euforia e por uma aposta na ciência. THAIS: As novas teorias científicas levaram as pessoas a acreditar que todos os mistérios da natureza podiam ser resolvidos. Mas como as pessoas, além dos cientistas, sabiam sobre o que estava acontecendo no mundo da ciência? LAÍS: Bom, na maioria dos países, a comunicação sobre ciência acontecia nos jornais diários. E no Brasil não foi diferente. Nosso primeiro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, é de 1808. Desde o seu início, o jornal assumiu a missão de divulgar assuntos relacionados à ciência. TH

May 12, 202017 min