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Oxigênio Podcast

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203 episodes — Page 2 of 5

#176 – Ecologia do reparo: a produção tecnológica no Santa Ifigênia, parte 1.

Santa Ifigênia, bairro central da capital paulista, conhecido pelo comércio de componentes e produtos eletrônicos, é também um lugar de reparos desses produtos. Neste episódio produzido e apresentado por Yama Chiodi, jornalista do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, o bairro é o protagonista. Quem vai falar sobre ele, tratar das atividades que ali são desenvolvidas é a antropóloga portuguesa Liliana Gil, que desenvolve sua pesquisa sobre o Santa Ifigênia na universidade Ohio State, nos Estados Unidos. Liliana conta também como foi a escolha sobre seu objeto de estudo e quais são os resultados encontrados até agora. Este é a primeira de duas partes da história. Acompanhe por aqui. _____________________________________ Roteiro [ sons urbanos caóticos aumentam progressivamente] LILIANA: É um caos, não é? Carros, vendedores de bolo, facas, lojas de eletrônicos, muitos CCTV, sistemas de segurança, vários moços meio que te chamando pra comprar isto e ver aquilo, cê tá interessado nisto? [ som de caos urbano continua por um instante e depois um fade out até eu começar a falar ] YAMA: A voz que você escutou é da antropóloga portuguesa Liliana Gil e ela tá falando sobre o Santa Ifigênia, bairro central da capital paulista. Eu sou Yama Chiodi, jornalista do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, e este episódio é mais uma parceria do GEICT com o Oxigênio. [ vinheta oxigênio] [começa a tocar Bio Unit ] O Santa Ifigênia é um bairro antigo, que vem desde o século XIX, e já mudou muito ao longo do tempo. Mas é pelo menos desde a década de 70 do século XX um pólo de venda de produtos e componentes eletrônicos… e também de reparo. De acordo com o Portal da Santa Ifigênia, catálogo online dos comércios da região, são mais de mil lojas. A maioria delas na rua de mesmo nome. O bairro é uma referência internacional. Antigamente seu público era bastante técnico porque supria uma demanda bem mais específica. Profissionais de vários ramos iam até lá em busca de componentes para a construção e manutenção de máquinas e aparelhos elétricos e eletrônicos. Isso ainda acontece hoje, mas seu público se diversificou muito. Hoje a maior parte dos frequentadores do bairro são consumidores finais em busca de fones, tablets, celulares e outros produtos com preços bem mais baratos. Os produtos são de fontes e qualidades variadas. Há produtos originais importados legalmente como em qualquer loja da cidade, mas há também produtos contrabandeados e falsificados. Iphones de todas as idades e produtos sem marca importados da China. Mas além de tudo, é isso é frequentemente invisibilizado, há vendedores capacitados a ajudar as pessoas a resolver seus problemas tecnológicos dentro de suas possibilidades financeiras. Você deve se lembrar de um episódio relativamente recente em que o deputado federal e polemista Celso Russomanno visitou o bairro, causando confusão e gerando memes. [Que correção monetária, aqui é Santa Ifigênia, paizão]. Reportagem completa disponível no canal de Celso Russomanno, no link: https://www.youtube.com/watch?v=AOGyS7VRGI4 A reportagem de Russomanno reforçou um estereótipo classista do bairro, muito difundido entre parte da classe média e entre as elites paulistanas. As contradições características dos comércios de centro estão lá: por um lado, uma linha tênue entre práticas legais e ilegais. Por outro, uma democratização do acesso a eletrônicos para pessoas de baixa renda. E a gente sabe que tanto uma coisa como outra gera incômodos nas partes mais abastadas da cidade. Mas o estereótipo classista que associa o bairro a atividades ilícitas não é o único fato que tem afastado potenciais consumidores da região. Lojistas dizem que nos últimos anos o público tem diminuído consideravelmente – o que eles atribuem à prática de comprar pela internet e ao aumento da violência no centro de São Paulo, fatores que foram potencializados durante e após a pandemia. Reportagem da Folha de São Paulo de setembro de 2023 não exita em dar uma explicação logo na manchete, sugerindo que o esvaziamento do Santa Ifigênia está diretamente relacionado com a dispersão da cracolândia. Mas o que será que uma antropóloga portuguesa, cursando doutorado nos Estados Unidos, encontrou no Santa Ifigênia que contrasta com as visões classistas sobre o bairro? Você já parou para pensar no Santa Ifigênia como um lugar que PRODUZ tecnologia? É sobre isso que a gente conversa em seguida. [ separador baixo] YAMA: Uma trajetória inesperada, como muitas vezes é o caso com antropólogos. Uma antropóloga portuguesa com origens na periferia industrial do sul de Lisboa, vai à universidade e acaba pesquisando ciência e arte, tema que a leva aos Estados Unidos. Já durante seu doutorado, uma escola de verão na Unicamp a impacta profundamente. Não apenas ela muda seu tema para priorizar a produção tecnológica, como passa a pensar no Brasil como um lugar ideal para fazer seu trabalho de campo. Visita a zona f

May 16, 2024

#175 – O fascinante mundo dos dinossauros

O que leva ao fascínio pelos dinossauros? Crianças adoram esses animais, conhecem seus nomes, hábitos alimentares mas, conforme crescem, vão perdendo esse interesse. Pelo menos a maioria. Conversamos com a bióloga Carolina Zabini e com a psicóloga Ana Paula Machado de Campos, para entender as questões que envolvem desde o estímulo, papel dos pais, da escola e da mídia, até o desenvolvimento intelectual, que mobiliza a criança para outros temas e desafios. _________________________________________ Roteiro: Virei a página e soltei uma exclamação surpresa. Era o retrato em página inteira de uma criatura extraordinária que eu jamais tinha visto, o sonho selvagem de um usuário de ópio, uma visão delirante. Tinha a cabeça parecida com a de uma galinha, o corpo de um lagarto inchado, uma cauda longa e equipada com placas pontiagudas viradas para cima e as costas recurvadas eram contornadas por uma franja alta serrilhada, que parecia uma fila de uma dúzia de cristas colocadas umas atrás das outras. Na frente dessa criatura havia um bonequinho absurdo, um anão, em forma humana, olhando para o animal. – Muito bem, o que acha disso? – gritou o professor Challenger, esfregando as mãos com ar triunfante. – É monstruoso, grotesco. – Mas o que o fez desenhar um animal assim? – Estava sob influência de muito gim, eu acho. – Ora, essa é a melhor explicação que você consegue dar? – Bem, senhor, qual seria a sua? Quase caí na risada, mas tive a visão de que sairíamos outra vez rodopiando pelo corredor. Thiago Ribeiro: Esse é um trecho do livro “O mundo perdido” de Arthur Conan Doyle, publicado pela primeira vez em 1912. Provavelmente, inspirado nas aventuras de seu amigo, Percy Fawcett, Doyle conta a história de uma expedição a um platô, localizado na bacia Amazônica, onde animais pré-históricos como dinossauros e outras criaturas extintas teriam, supostamente, conseguido sobreviver aos grandes eventos de extinção do passado. Mariana Zilli: O romance é um marco na literatura mundial e inspirou diversas obras de ficção como “Plutonia” de Vladmir Obruchev e “A terra que o tempo esqueceu” de Edgar Rice Burroughts. Esses também, por sua vez, geraram uma infinidade de filmes e séries que resgatam seus elementos e sua narrativa de um local remoto, onde seres pré-históricos de grande porte supostamente teriam sobrevivido e poderiam então ser imaginados convivendo com os seres humanos. Thiago: Da icônica franquia de Indiana Jones, passando por clássicos como King Kong e Jurassic Park, até a famosa série estadunidense de televisão “Lost”, todas usam elementos desse enredo e têm mexido com o imaginário das pessoas ao longo de gerações. Mariana: Mas… Qual a origem do fascínio por dinossauros, que vemos especialmente nas crianças? Como e quando diminui essa curiosa mistura de terror e excitação, que muitos de nós sentimos por esses animais? E por que, mesmo depois de adultos, eles ainda continuam a nos encantar? Meu nome é Mariana Zilli. Thiago: E eu sou Thiago Ribeiro. Vamos juntos nos aventurar nesse universo dos dinossauros, que permeia o imaginário de crianças e adultos, na busca de respostas sobre sua natureza. Ana Paula Franco Machado de Campos: É interessante a gente pensar sobre esse assunto, né? Eu até fiquei elaborando que forma ou que palavra, que conceito seria. Se é o fascínio, se é a descoberta, se é o interesse, da criança pelo dinossauro. Até a curiosidade de como procurar por esse assunto foi interessante, né? É diferente você falar em fascínio, você falar interesse, de você falar motivação. O que leva, então, essas crianças pensarem ou ter interesse sobre o dinossauro? Thiago: Essa é a Ana Paula Franco Machado de Campos. Ela é professora graduada em Psicologia pela USP e possui especialização em Psicologia Escolar e problemas de aprendizagem pela PUC CAMPINAS. Desde o início da sua carreira, a Ana Paula tem se voltado para a psicologia escolar, área pela qual demonstra muito carinho. Mariana: Ana Paula, você se lembra de ter passado por alguma fase na infância que tenha demonstrado esse interesse hiper focado em dinossauros? Ou conhece alguém ou tem familiares aficionados por essas criaturas? Ana Paula: Eu, particularmente não, né? Tenho sobrinhos que têm, eles brincam. Têm os bonecos. Mas não faz parte desse fascínio. A gente sabe de crianças que realmente sim, conhece os nomes, a alimentação, como é que eram. O que eu acho interessante de trazer para nossa fala, para a nossa conversa, é a gente pensar o quanto a escola está contribuindo ou não para isso, né? Mariana: Em um trabalho de 2008, publicado na revista Cognitive Development, envolvendo a parceria das Universidades de Indiana e do Wisconsin, os pesquisadores acompanharam o comportamento de 215 crianças de 4 anos ao longo de 2 anos para analisar a intensidade e duração dos interesses relacionados ao domínio conceitual em crianças pequenas. Dentre os principais resultados, foi possível detectar que cerca de 40% das

May 3, 2024

Série Fish Talk – Os peixes também sofrem – ep. 3

Você sabia que, assim como os humanos, peixes expressam comportamentos alterados – inclusive alguns bem complexos – quando estão sentindo dor? Na terceira parte do episódio A mente do Peixe, Caroline Maia e João Saraiva trazem informações sobre a capacidade dos peixes de aprender a evitar a dor. E mostram as respostas desses animais ao receberem analgésicos após um estímulo doloroso. O Fish Talk é um podcast parceiro do Oxigênio e The Fish Mind, ou A mente do peixe é um programa desse podcast com foco na capacidade que os peixes têm de sentir dor e experimentar outros estados emocionais. Ao longo da série, vamos ouvir também sobre suas habilidades cognitivas. O Fish Mind faz parte de um projeto que é fruto de uma colaboração do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp) no Brasil com a FishEthoGroup, uma associação sem fins lucrativos que trabalha em prol do bem-estar dos peixes, preenchendo lacunas entre a ciência e as partes interessadas no setor da aquicultura, entre eles: produtores, certificadores, comerciantes, ONGs, decisores políticos e consumidores. A entidade foi criada em 2018 e está sediada em Portugal. Quem apresenta o episódio são a Caroline Maia e o João Saraiva, pesquisadores da Associação FishEthoGroup. A introdução do episódio foi feita pelo Luiz Henrique Queiroz Leal. Conheça agora o The Fish Mind Programme e acompanhe todos os episódios, você vai descobrir muitas curiosidades sobre peixes! Se não conseguir aguardar a publicação dos episódios pelo Oxigênio, vá direto ao site do programa: https://fishethogroup.net/whatwedo/dissemination/fishtalk/ Vamos ao episódio! ______________________________________ João: Sabia que, assim como os humanos, os peixes aprendem a evitar estímulos dolorosos? Eles até escolhem receber analgésicos quando têm essa chance em uma situação dolorosa! Carol: Neste episódio do programa ‘A mente do peixe’, vamos falar sobre a capacidade dos peixes de aprenderem a evitar a dor e sobre suas respostas ao receber analgésicos após um estímulo doloroso. Eu sou Carol Maia. João: E eu sou o João Saraiva, e começa agora o episódio Os peixes também sofrem – parte 3! Carol: Quando temos dor em uma mesma condição que se repete, apenas algumas experiências são suficientes para entendermos que, ao evitar essa condição, evitaremos também a dor. E isso já foi demonstrado em peixes também, no estudo ‘Avoidance learning in goldfish (Carassius auratus) and trout (Oncorhynchus mykiss) and implications for pain perception’, publicado em 2006. João: Os cientistas desse estudo investigaram os comportamentos de peixinhos dourados e de trutas ao receberem choques elétricos em regiões específicas dos seus aquários. Surpreendentemente, as duas espécies aprenderam facilmente e rapidamente a evitar lugares onde recebiam choques de forma consistente. Carol: Nesse mesmo estudo, os pesquisadores também descobriram que esses peixes eram capazes de modular essa resposta de evitação de acordo com as circunstâncias e o contexto. As trutas – que são peixes muito sociais – toleraram choques mais fracos apenas para ficarem mais próximas de outros indivíduos de sua própria espécie. João: Por outro lado, os peixinhos dourados não expressaram essa resposta. Em vez disso, eles continuaram evitando os choques, independentemente de estarem perto ou longe de outros indivíduos da sua espécie. Isto faz sentido se levarmos em conta que, ao contrário das trutas, os peixinhos dourados não são assim tão sociais… Carol: Isso é fascinante! E vale mencionar que já existem algumas evidências científicas indicando que quando os peixes passam por uma situação muito ruim, apenas uma única experiência pode ser suficiente para que esses animais aprendam a evitar essa mesma situação no futuro. João: Mas e quanto a receber analgésicos e voltar a se comportar naturalmente após um estímulo doloroso, assim como fazem os humanos? É possível que os peixes também façam isso? Carol: Sim! De fato, já existem estudos mostrando que uma vez que o estímulo doloroso foi percebido pelos peixes, desencadeando assim alterações comportamentais evidentes em resposta, o comportamento natural desses animais pode ser restaurado se eles receberem analgésicos! João: O estudo ‘Novel object test: examining nociception and fear in the rainbow trout’, publicado em 2003, mostrou que a truta arco-íris ao tomar analgésicos, volta a expressar seu medo natural de se aproximar de objetos novos no aquário – que havia sido perdido devido a um estímulo nocivo. Carol: E não para por aí! Existem evidências científicas de que os peixes são capazes até de escolher receber analgésicos quando estão sentindo dor e têm a oportunidade de fazer isso! Algo que já foi demonstrado em peixes paulistinhas no capítulo ‘Do painful sensations and fear exist in fish?’, publicado no simpósio internacional ‘Animal suffering: From science to law’, em 2013. João: Esse tipo de resposta, assim como todas as outras que foram apresentadas neste episódio, são uma indica

Apr 18, 2024

Série Termos Ambíguos – #2 – Cristofobia

Neste segundo episódio da série Termos Ambíguos vamos falar sobre a origem e o uso da expressão Cristofobia que, assim como Ideologia de Gênero, faz parte do repertório da extrema direita transnacional e desempenha um papel importante em estratégias políticas. Esses e outros termos que vamos tratar nesta série são poderosos e capazes de evocar emoções e produzir temores e ansiedades infundadas nas pessoas. Para tratar do termo Cristofobia, entrevistamos Janaina Tavares, doutoranda no programa interdisciplinar de linguística aplicada na UFRJ e autora do verbete Cristofobia, no Termos Ambíguos do Debate Político Atual: pequeno dicionário que você não sabia que existia, com Ronaldo de Almeida, professor de antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas e com Vladimir de Souza, pastor da Igreja da Redenção Baixada, do Rio de Janeiro. _____________________ Henrique Vieira: “O Brasil é um país cristofóbico. Essa é uma expressão muito utilizada por setores evangélicos fundamentalistas. Eles acham que o nosso país é cristofóbico porque as mulheres estão lutando pelos seus direitos, porque os LGBTs, gays, bissexuais, travestis, transexuais também se organizam e lutam pelos seus direitos. À medida que essas pautas avançam, eles acham que o Brasil está se tornando um caos”. Daniel Faria: Essa fala é do pastor Henrique Vieira, que é ator, poeta, professor e deputado federal do Partido Socialismo e Liberdade. Ele foi eleito em 2022, pelo Rio de Janeiro. É com ele que começamos este segundo episódio do Termos Ambíguos, o podcast que mergulha nas origens das expressões e conceitos que moldam nosso mundo. Eu sou o Daniel Faria, e esse podcast é uma parceria entre o podcast Oxigênio, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp, e o Observatório de Sexualidade e Política, o SPW, na sigla em inglês. Aqui vamos explorar termos que estão muito presentes no nosso dia a dia, mas principalmente no debate político atual. O termo que vamos tratar hoje é CRISTOFOBIA. Mas será que isso existe mesmo? Tatiane Amaral: Eu sou a Tatiane Amaral e vou apresentar esse podcast com o Daniel. Para começar, podemos destrinchar a palavra Cristofobia para saber a sua origem, a partir da descrição que encontramos no dicionário de Termos Ambíguos do Debate Político Atual: pequeno dicionário que você não sabia que existia, o objeto principal desta série. Segundo o dicionário, “o sufixo ‘fobia’ vem da palavra grega phobos, que significa medo ou aversão extrema a certos objetos, situações, animais ou pessoas. Para a psiquiatria, as fobias estão associadas ao aparecimento súbito de um medo irracional, injustificado e persistente”. Daniel: Tipo aracnofobia, que é fobia de aranhas ou claustrofobia, que é o pânico de lugares fechados ou com pouca circulação. Mas foi nos anos 1970 que o psicólogo George Weinberg criou o neologismo homofobia, para descrever formas extremas de aversão a pessoas homossexuais. E, nos anos 2000, o termo se desdobrou em lesbofobia e transfobia para descrever a discriminação contra mulheres lésbicas e pessoas trans. Sim, esses termos denotam aversão extrema a pessoas, simplesmente por não se encaixarem em um padrão social heteronormativo. Tatiane: E vem daí o termo que vamos decifrar neste podcast: Cristofobia, que é usado para denotar supostas manifestações de aversão a Cristo. Esse uso distorce o sentido político do termo fobia, pois não faz sentido usar essa definição para descrever sentimentos em relação a figuras históricas, mitológicas ou religiosas, como é o caso de Jesus Cristo. Daniel: Porém, isso não se aplica a “cristianofobia” termo usado num documento publicado em 2003, pelo relator especial da ONU para liberdade religiosa. Nesse texto, Cristianofobia indica aversão a pessoas que professam religiões cristãs, fazendo um paralelo correto com as manifestações de islamofobia e semitismo. Mas no Brasil, desde o começo dos anos 2010, o termo usado por vozes evangélicas ultraconservadoras tem sido, de fato, Cristofobia para nomear as supostas aversões, repulsas ou até mesmo perseguições aos cristãos e ao cristianismo. Tatiane: Os dados apresentados pelo relator especial da ONU naquele ano, assim como estudos e fatos posteriores nos dizem que a Cristianofobia é uma realidade em várias partes do mundo. O caso mais conhecido é da comunidade cristã dos Azidis que foi perseguida quando a milícia jihadista conhecida como Estado Islâmico ocupou territórios no Iraque. Mas há também registro de perseguição aos cristãos na Nigéria, China e até mesmo no Marrocos. Contudo, cabe perguntar se isso se aplica mesmo ao Brasil. Janaina Tavares: As sutilezas perigosas como você mesma colocou, estão no fato de que existe mesmo cristofobia em diversos países, né? como no Irã, Nigéria, China, Marrocos, entre outros. A lista é bem grande. Daniel: Esta foi a Janaina Tavares, autora do verbete Cristofobia, que compõe o Dicionário de Termos Ambíguos. Conversamos com ela para saber um po

Apr 15, 2024

Série Termos Ambíguos – # 1 – Ideologia de Gênero

Você sabe o que significa o termo Ideologia de Gênero? E Cristofobia, você sabe o que é? E de onde surgiu a ideia de Racismo Reverso? Pensando em esclarecer a origem e os usos de termos ambíguos como esses que criamos o podcast Termos Ambíguos, uma parceria do podcast Oxigênio e do Observatório de Sexualidade e Política (SPW na sigla em inglês). Os episódios foram criados a partir da publicação Termos ambíguos do debate político atual: pequeno dicionário que você não sabia que existia, uma realização: Observatório de Sexualidade e Política (SPW) e Programa Interdisciplinar de Pós-graduação em Linguística Aplicada da UFRJ, coordenado pela pesquisadora Sonia Corrêa, ilustrado por Carol Ito e que contou com a participação de uma grande equipe de pesquisadores na elaboração dos verbetes. Este primeiro episódio trata do termo Ideologia de Gênero, mostrando o contexto de criação ou apropriação do termo pela extrema direita em discursos que vão na contramão de políticas e leis que visem promover direitos de gênero e étnico-raciais. O episódio conta com entrevistas de Rodrigo Borba, do professor de ensino médio Marcos Ferreira e de Sonia Corrêa. O roteiro foi produzido por Irene do Planalto Chemin, Clarissa Reche, Simone Pallone e revisado por Clarissa Reche, Tatiane Amaral e Nana Soares. O tiktok do projeto foi produzido por Maiya Yantunde Cruz. A capa foi produzida por Marcelle Matias. Os trabalhos técnicos foram feitos por Daniel Faria, que também apresenta o podcast junto com Yvana Leitão. A concepção do podcast é de Daniel Faria, Sonia Corrêa e Simone Pallone e conta com o apoio do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp e foi viabilizado pelo convênio entre o Labjor e a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids. Acompanhe mais essa série associada ao podcast Oxigênio! ________________________________ Roteiro Daniel: Nas eleições para presidente em 2018, um evento que pautou parte das campanhas foi a história do chamado Kit Gay. Você se lembra disso? O termo foi usado para desqualificar um material didático que integrava o programa Escola Sem Homofobia, do MEC, e cuja origem datava de 2010. // Foi impressionante como setores fundamentalistas religiosos e de extrema direita conseguiram financiar a produção e circulação de várias fake news para promover a ideia de que o programa Escola Sem Homofobia era / na verdade / parte de uma conspiração cujo objetivo era fazer com que crianças virassem homossexuais. Yvana: É importante frisar que o fenômeno não atinge apenas o ambiente escolar. Está inserido em debates como o de banheiros unissex em locais públicos,/ cotas para pessoas LGBT,/ sem contar nos inúmeros casos de ofensas a pessoas não heterossexuais. São ataques físicos e até assassinatos. É nesse caldo que o termo “Ideologia de Gênero” foi ganhando destaque, criando um pânico moral que se instaurou em uma parcela substancial da sociedade brasileira. O que aconteceu com o “kit gay” é um bom exemplo sobre como o termo IDEOLOGIA DE GÊNERO foi instrumentalizado pela extrema direita no país, / ou estimulado por ela / e do quanto essas distorções podem ser nefastas para as pessoas. // Mas do que se trata exatamente esse termo? // Por que ele pode ser tratado como um termo ambíguo? Daniel: Bem-vindes ao primeiro episódio de “TERMOS AMBÍGUOS”, o podcast que mergulha nas origens das expressões e conceitos que moldam nosso mundo. Eu sou o Daniel Faria, e esse podcast é uma parceria entre o Oxigênio e o Observatório de Sexualidade e Política, o SPW na sigla em inglês. Aqui vamos explorar alguns termos ambíguos que estão muito presentes no nosso dia a dia, mas principalmente no debate político atual. E por que são ambíguos? Bem, esses termos são compostos por palavras simples e conhecidas, mas na forma que eles têm sido usados, carregam sentidos que não os representam como estão nos dicionários. Yvana: Olá! Eu sou a Yvana Leitão, e vou apresentar este episódio com o Daniel. / Vamos contar pra você a fascinante história por trás da expressão “IDEOLOGIA DE GÊNERO.” Vamos traçar as raízes desse termo e sua ascensão ao protagonismo político no Brasil e no mundo, e as diversas forças que propagaram esse conceito. E eu vou começar contando um caso que ocorreu com o Marcos Ferreira, que é professor de Sociologia em uma escola estadual de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. / Na verdade, quem vai contar é ele. Marcos Ferreira: eu sou professor há mais ou menos 11 anos, né? E em sala de aula, eu observei que os meus alunos, eles têm uma certa dificuldade em entender essa coisa da relação de gênero, né da questão de gênero e sexualidade de acordo com conteúdos básico comum, né? De acordo com as normas e as regras de educação aqui em Minas Gerais a gente tem que trazer esse tema pra sala de aula, né, eu abordo ele eh um bimestre todo, ou seja, uma média de mais ou menos dois meses. Daniel: Aprender sobre gênero e sexualidade é direito dos estudantes, deve integrar a formação pesso

Mar 4, 2024

#174 – Um esqueleto incomoda muita gente

Novas descobertas sobre evolução humana sempre ganham as notícias e circulam rapidamente. Mas o processo de aceitação de novas evidências entre os cientistas pode demorar muito. Neste episódio, Pedro Belo e Mayra Trinca falam sobre paleoantropologia, área que pesquisa a evolução humana, e mostram porque ela é cheia de controvérsias e disputas. No episódio você escuta entrevistas com Gabriel Rocha, do IEA-USP, com Bernardo Esteves, autor do livro “Admirável Novo Mundo” e com Mírian Pacheco, pesquisadora e professora na Ufscar. Que contam, a partir de três exemplos muito ilustrativos, como essa área depende e é influenciada pelas narrativas de diferentes grupos de pesquisa. ____________________​_ ROTEIRO PEDRO: Sempre que uma nova descoberta sobre evolução humana acontece, ela rapidamente chega às notícias e costuma ser sucesso de compartilhamento nas redes sociais. É uma área de pesquisa que desperta muito a curiosidade das pessoas, talvez porque muita gente se interesse em descobrir de onde a gente veio, como é que a gente chegou aqui. GABRIEL ROCHA: Eu acho que essa área da antropologia, da paleoantropologia, ela é uma área perigosa, porque é uma área muito fácil de você conseguir visibilidade. A mídia tá muito interessada no que você tem a dizer, são histórias em que a população tá interessada em saber sobre o que tá acontecendo, é um assunto interessante. Então, a gente acaba tratando com muitos egos inflados ao mesmo tempo e tem uma briga muito grande com relação a isso. MAYRA: Em todas as áreas da ciência, é comum que novas descobertas levem um tempo para serem aceitas por toda a comunidade científica e esse é um processo importante, já que as críticas refinam as hipóteses, garantindo que elas sejam o mais próximas da verdade quanto é possível. Só que na paleoantropologia, que é a área que estuda a evolução dos seres humanos, essa resistência diante de novas descobertas é ainda maior. GABRIEL ROCHA: Eu sinto que essa é uma característica muito íntima da arqueologia, de ser uma área um tanto incerta quando a gente vai falar de algumas coisas porque é difícil bater o martelo, é difícil ter certeza do que você está falando. Então a gente sempre trabalha com interpretações, com leituras da situação. E querendo ou não, nós temos escolas de pensamentos diferentes, então algumas escolas vão seguir por um caminho e vão ter uma interpretação válida enquanto outras escolas vão seguir por outro caminho e ter uma interpretação igualmente válida. E eu acho que essa é uma característica importante da arqueologia. PEDRO: Eu sou o Pedro Belo, sou jornalista, produtor e roteirista do podcast Ciência Suja, e também sou aluno da Especialização em Jornalismo Científico do Labjor – Unicamp. MAYRA: E eu sou a Mayra Trinca, que você já conhece aqui do Oxigênio. Nesse episódio, vamos trazer três exemplos de como estudar evolução humana é um negócio meio complicado, cheio de interpretações e disputas. O primeiro deles é sobre a origem da espécie humana, onde e quando surgiram os primeiros Homo sapiens? PEDRO: A segunda briga é quase um clássico pro pessoal dessa área: quem foram os primeiros ocupantes das Américas? Mais do que isso, quando e como essa galera veio parar aqui? MAYRA: E a terceira fala sobre o surgimento do pensamento simbólico, característica muito usada pra diferenciar a nossa espécie de outras ancestrais, mas que na verdade tá relacionada a visões eurocêntricas da ciência. [VINHETA OXIGÊNIO] PEDRO: Pra começar o nosso primeiro exemplo, sobre a origem dos Homo sapiens, a gente conversou com esse que você escutou no início do episódio, o Gabriel Rocha. O Gabriel é graduando em Biologia na Unesp de Botucatu, e atualmente é pesquisador bolsista da Fapesp no Instituto de Estudos Avançados da USP, o IEA-USP. MAYRA: O Gabriel trabalha diretamente com o Walter Neves, professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva na USP, uma referência nessa área, e considerado o “pai” da Luzia, o crânio humano mais antigo das Américas, estimado em 11 mil anos de idade. PEDRO: O nosso entrevistado estuda especialmente a variabilidade morfológica dos crânios dos nossos ancestrais mais antigos. E esse é um trabalho bem importante, porque essas análises da morfologia, que é o estudo da forma, das características estruturais de cada ser vivo, serve, nesse caso, pra determinar a qual linhagem cada esqueleto encontrado pertence. GABRIEL ROCHA E é isso que vamos usar. Então fazem as análises morfológicas para tentar entender se esse fóssil ele se encaixa nas espécies que a gente já conhece ou se ele é muito diferente, pode ser uma espécie nova, isso é muito comum também. Tem espécies novas sendo descritas todos os anos e o grande problema é que as análises morfológicas elas vão variar muito, dependendo de quem faz as pesquisas. Então dependendo de quais fósseis você vai usar para analisar e dependendo de quais parâmetros você tá usando pra, por exemplo, definir quais são as espécies. Então essas disputas de narrativ

Dec 21, 2023

Série Fish Talk – Os peixes também sofrem – ep. 2

Você sabia que, assim como os humanos, peixes expressam comportamentos alterados – inclusive alguns bem complexos – quando estão sentindo dor? Neste episódio, A mente do Peixe, Caroline Maia e João Saraiva falam sobre respostas comportamentais dos peixes quando estão enfrentando estímulos dolorosos. O Oxigênio apresenta um novo podcast parceiro, o Fish Talk. Desta vez tratando de peixes. Isso mesmo, um podcast sobre peixes! The Fish Mind é um programa desse podcast com foco na capacidade que esses animais têm de sentir dor e experimentar outros estados emocionais. Vamos ouvir também sobre suas habilidades cognitivas nos episódios desse programa. A ideia é trazer essas informações importantes em um diálogo informal de poucos minutos. O programa geralmente é composto por episódios independentes, mas temas que precisam de mais aprofundamento são apresentados em mais de um episódio. O Fish Mind faz parte de um projeto que é fruto de uma colaboração do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp) no Brasil com a FishEthoGroup, uma associação sem fins lucrativos que trabalha em prol do bem-estar dos peixes, preenchendo lacunas entre a ciência e as partes interessadas no setor da aquicultura, entre eles: produtores, certificadores, comerciantes, ONGs, decisores políticos e consumidores. A entidade foi criada em 2018 e está sediada em Portugal. Quem apresenta o episódio são a Caroline Maia e o João Saraiva, pesquisadores da Associação FishEthoGroup. A introdução do episódio foi feita pelo Luiz Henrique Queiroz Leal. A Elisa Valderano colaborou com a edição. Conheça agora o The Fish Mind Programme e acompanhe todos os episódios, você vai descobrir muitas curiosidades sobre peixes! Se não conseguir aguardar a publicação dos episódios pelo Oxigênio, vá direto ao site do programa: https://fishethogroup.net/whatwedo/dissemination/fishtalk/  

Dec 4, 2023

#173 – Série Cidade de Ferro – ep. 2: O maior buraco do mundo

FERNANDA: ITABIRA Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê. Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. Os meninos seguem para a escola. Os homens olham para o chão. Os ingleses compram a mina. Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável. YAMA: Introdução – Em busca do Cauê YAMA: É difícil encontrar o pico do cauê. Não a montanha, que sabemos, não existe mais. É que o local onde um dia houve um pico é difícil de encontrar. Subimos mirantes para ver se, do alto, dava pra ver o buraco. Sem sucesso, eu e Lucas rodamos de carro por um tempo considerável em companhia do google maps e de dois pares de olhos atentos. Subindo uma estrada estreita de duas pistas há vários sinais de que estamos dentro da Vale, mas nada de Cauê. Vejo os barrancos ferrosos se misturarem aos eucaliptos tão mais frequentes quanto mais alto subimos. Caminhões e máquinas pesadas. Lama, muita lama. Placas de segurança e placas urbanas. As placas colocadas pela Vale se abundam. A mais repetida não deixa dúvidas: propriedade privada da VALE SA, não ultrapassar. Invasão é crime! Outras, beiram ao cinismo, como a que vimos num pequeno morro com cinzas de queimadas: evite queimadas, preserve a natureza, sugere a placa da Vale. Não muito distante dali o GPS informa: você chegou ao seu destino. Mas onde chegamos exatamente? À direita do carro, vejo lama, vejo florestas falsas e tristes. Trabalhadores da Vale, ou melhor, de suas terceirizadas, curiosos com a nossa presença. Estamos na cidade, em rua pública, mas a sensação é de que invadimos a mina. Distraído com tanta informação à direita, Lucas me chama a atenção. À nossa esquerda, ali está, milimetricamente escondido entre morros sobreviventes. A paisagem que dá nome ao lugar. O maior buraco do mundo. As palavras se perdem. Já sabemos do que se trata, mas o queixo cai mesmo assim. É como visitar a lápide do pico, mas com o sentimento contraditório e incômodo de que é a nossa própria lápide também. Senti como nunca antes o significado de que cada de um nós tem seu pedaço no pico do cauê. Se as barragens chocam pela presença interminável da lama, o maior buraco do mundo dilacera por uma ausência incalculável. Um buraco aberto que exibe as entranhas da terra e nos mostra a grandiosidade de quase 100 anos de extrativismo desavergonhado. Eu sou Yama Chiodi, jornalista do GEICT e esse é o segundo episódio da série Cidade de Ferro. Nesse episódio, tento recuperar de modo muito breve como as histórias de Itabira e da mineração de minério de ferro se entrelaçaram. E como seu cidadão mais ilustre, Carlos Drummond de Andrade, se tornou persona non grata por ser ferrenho crítico do que a mineração fez com sua cidade natal. Sigo esse episódio com Lucas Nasser, pesquisador e advogado itabirano, autor do livro “Entre a Mina e a Vila: violações de direitos em Itabira”. YAMA: Na obra de Drummond há duas Itabiras… ou a transformação de uma Itabira em outra. E o pico do cauê é a alegoria perfeita para essa transformação. Não por acaso, o poeta o classifica como “Nossa primeira visão do mundo” na crônica Vila da Utopia – a mesma que nos dá a expressão “destino mineral”. Se a montanha era o mundo, sua pulverização catapulta a história poética da cidade a uma história de fim de mundo. De montanha a buraco. E se a montanha muda, a cidade muda. Se a montanha muda, a poesia muda. Fica na memória uma cidadezinha pacata na qual se podia ver o Cauê imponente da janela de casa. E a memória se choca com a realidade. O século XX é para Itabira o momento histórico em que a cidade e a mineração se confundem, por força da violência e do extrativismo. Esse fenômeno foi aprofundado pela criação da Companhia Vale do Rio Doce. Depois de ser o centro minerário dos Aliados na segunda guerra mundial, Itabira se misturou cada vez mais a Vale. Quando chegou a privatização, não foi só a Vale que foi privatizada. A impressão que dá é que, sendo uma com a empresa, a cidade foi privatizada também. A seguir faço brevíssimo sobrevoo sobre a história do ferro em Itabira, que introduz como cidade foi tomada pela mineração. Se você quiser aprofundar um pouco mais na história e nas conexões da obra do Drummond com a mineração eu vou deixar mais uma recomendação, além do livro do nosso convidado Lucas Nasser. É o Maquinação do Mundo, do José Miguel Wisnik, publicado pela Companhia das Letras. Do meu ponto de vista é uma obra-prima e o livro definitivo sobre as conexões entre mineração e a obra poética de Carlos Drummond de Andrade. Mas, por ora, seguimos. YAMA: Primeira parte: Ferro à vista! FERNANDA: Zico Tanajura está um pavão de orgulho no dólmã de brim cáqui. Vendeu sua terra sem plantação, sem criação, aguada, benfeitoria, terra só de ferro, aridez que o verde não consola. E não vendeu a qualquer um: vendeu a Mr. Jones, distinto representante de Mr. Hays Hammond, embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque. Zico Tanajura passou a manta em Suas Excelências

Nov 9, 202331 min

# 172 – Quanto custa essa alface?

Você sabe o que é Economia Solidária, e quais os princípios desse modelo de produção, consumo e distribuição de riqueza mais justo? Neste episódio, Karina Francisco e Wesley Bastos apresentam dois projetos de comercialização de alimentos que são dois bons exemplos. Para isso eles conversaram com os associados – como são chamadas as pessoas que atuam nos projetos – Karina Morelli e Nielsen Felix, do Instituto Candombá, de Campinas, e a Juliana Brás Leblanc, do Projeto Chão, de São Paulo. Eles ouviram também a produtora Marina, de São José do Rio Pardo, que conta quais as vantagens de ser parceira em projetos como esses. ______________________________ ROTEIRO – Quanto custa essa alface? Som de porta do carro batendo, entrando na loja com a música tocando, fim de conversa com um outro consumidor. Bom dia. NIELSEN FELIX: Muito obrigado pela visita do senhor, uma boa tarde! KARINA FRANCISCO: Olá, bom dia! KARINA MORELLI: Você já conhece o projeto, né? CLIENTE DA LOJA: Oi, tudo bom? Eu nunca vim, mas meu marido já veio. KARINA MORELLI: Ah, tá! A gente é uma associação sem fins lucrativos. a gente tem uma política de transparência. Todos os meses a gente publica todos os nossos gastos e o que a gente recebeu naquele mês. Todos os produtos estão sendo vendidos ao que eles custam pra nós. Então, tem só o que a gente pagou na nota fiscal, mais o frete, mais um pequeno percentual de perda. Pra gente poder se manter, a gente pede uma contribuição na hora da compra, que não é obrigatória, mas é necessária porque se ninguém pagar a gente fecha e hoje o que a gente tá falando é que a gente precisa de 30% em cima do preço do produto. CLIENTE DA LOJA: Ah, semelhante ao que faz o Chão. KARINA: Isso mesmo. KARINA FRANCISCO: Olá! Eu sou a Karina e o que você acabou de ouvir é um pouco do cotidiano do Instituto Candombá, uma associação sem fins lucrativos, autogerida e baseada na Economia Solidária. WESLEY: Oi, eu sou Wesley e, junto com a minha colega Karina, peço licença pra falar de economia solidária e alface. Pois é. Nas folhas de uma simples alface a gente vai ler uma história que está sendo escrita aqui, agora, em diversos empreendimentos de economia solidária, como é o caso do Instituto Candombá, que vamos conhecer a seguir. VINHETA OXIGÊNIO KARINA: Imagino que pra se alimentar você costume ir ao mercado, né? Comprar macarrão e tomate pra fazer o molho, comprar a alface pra salada. Mas… você conhece a origem dos produtos que adquire? Sabe de onde veio o tomate? E a alface? Eu tenho ainda outras perguntas. Você sabe qual é a margem de lucro do mercado que compra essa alface do produtor? Tem amizade com trabalhadores desses locais em que costuma comprar? WESLEY: A gente tá perguntando isso porque são esses e outros questionamentos que instituições baseadas em Economia Solidária fazem questão de explicar. Economia solidária é uma forma de produção, consumo e distribuição de riqueza centrada na valorização do ser humano, e não do capital. CLIENTE 2: E esses produtos aqui, GoGreen, Boaterra, o que seria isso? NIELSEN: Em todas as nossas gôndolas aqui, você sempre vai ver o nome do produto, o preço e quem é o produtor do dia, que está expondo. Lembrando que nosso preço costuma variar bastante porque cada produtor pede [um valor], e a gente vende por aquele preço que o produtor está pedindo. KARINA FRANCISCO: Iniciativas como o Candombá surgiram para ser uma alternativa de compra com maior transparência e consciência. Nielsen e Karina Morelli, associados do Instituto Candombá, explicam um pouco mais o que é tão diferente em sua mercearia. NIELSEN: Durante o dia funciona como um mercado normal, né? Como eu disse. O que diferencia a gente é, a clareza que a gente tem nas ideias com os clientes. Eu acho que um diferencial que a gente tem também é a pessoa poder entrar aqui e ela conseguir enxergar outras coisas que no mercado comum ela não enxerga, que são os custos, a questão da transparência, a questão de conhecer quem são os fornecedores dos nossos produtos. KARINA MORELLI: Todos os meses a gente divulga o que a gente ganhou e o que a gente gastou. Então a gente divulga os nossos gastos e os nossos recebimentos. Os produtos são vendidos ao preço só do custo dele. Está no preço da prateleira, só o que a gente pagou pelo produto, mais o frete, mais um pequeno percentual de perda. Ou seja, no valor que o produto tá na prateleira ainda não tem tudo aquilo que precisa para gente sustentar o projeto. Então ali naquela alface que tá exposta por um determinado valor, ainda não tá minha água, minha luz, meu aluguel, a remuneração dos associados. Então para sobreviver a gente pede uma contribuição que ela é voluntária. Mas ela é necessária porque se ela não existir, a gente não funciona. WESLEY: No preço de custo que está exposto, e na contribuição sugerida ali, na hora de pagar pelo produto, o consumidor é convidado a conhecer essa cadeia que começa no produtor, passa pelo armazém e chega na mesa. KARINA FRANCISCO: Fa

Oct 12, 2023

Série Fish Talk – Os peixes também sofrem – ep. 1

O Oxigênio apresenta um novo podcast parceiro, o Fish Talk. Desta vez tratando de peixes. Isso mesmo, um podcast sobre peixes! The Fish Mind é um programa desse podcast com foco na capacidade que esses animais têm de sentir dor e experimentar outros estados emocionais. Vamos ouvir também sobre suas habilidades cognitivas nos episódios desse programa. A ideia é trazer essas informações importantes em um diálogo informal de poucos minutos. O programa geralmente é composto por episódios independentes, mas temas que precisam de mais aprofundamento são apresentados em mais de um episódio. O Fish Mind faz parte de um projeto que é fruto de uma colaboração do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp) no Brasil com a FishEthoGroup, uma associação sem fins lucrativos que trabalha em prol do bem-estar dos peixes, preenchendo lacunas entre a ciência e as partes interessadas no setor da aquicultura, entre eles: produtores, certificadores, comerciantes, ONGs, decisores políticos e consumidores. A entidade foi criada em 2018 e está sediada em Portugal. Quem apresenta o episódio são a Caroline Maia e o João Saraiva, pesquisadores da Associação FishEthoGroup. A introdução do episódio foi feita pelo Luiz Henrique Queiroz Leal. A Elisa Valderano colaborou com a edição. Conheça agora o The Fish Mind Programme e acompanhe todos os episódios, você vai descobrir muitas curiosidades sobre peixes! Se não conseguir aguardar a publicação dos episódios pelo Oxigênio, vá direto ao site do programa: https://fishethogroup.net/whatwedo/dissemination/fishtalk/

Oct 6, 2023

# 171 – Adolescência – ep. 2

Alerta de gatilho: Este episódio da série “Adolescência” trata de temas difíceis, como depressão, ansiedade, impulsividade e sentimentos ligados às relações familiares, entre eles conflitos entre pais e filhos e também como lidar com essas questões. Ao falar destes temas, a nossa expectativa é trazer ideias de como você pode superá-los. Mas, se você estiver passando por problemas emocionais, avalie se deve ouvir este conteúdo. talvez seja preciso fazer isso na companhia de uma pessoa próxima, e se você for menor de idade, é importante que um adulto responsável por você esteja junto. Além disso, é importante lembrar que você pode buscar apoio emocional no centro de valorização da vida pelo telefone 188. Os voluntários do CVV vão te ouvir de forma totalmente sigilosa e anônima. ______________________________________ No segundo episódio da série “Adolescência: como as descobertas científicas podem ajudar a quebrar preconceitos sobre essa época da vida”, Cristiane Paião (@cristiane.paiao) e Mayra Trinca conversam sobre os sentimentos da fase e sobre como a atuação de professores e educadores pode ser fundamental para ajudar a identificar padrões em alunos que precisam de apoio psicológico. Você vai conhecer o projeto de quadrinhos #turmadaJovenilda, que está sendo desenvolvido pelo projeto Adole-sendo da Unifesp em parceria com uma escola pública da zona leste de São Paulo, a EMEF Joaquim Osório Duque Estrada. São situações do dia a dia mas, com uma pitada de Ciência e Psicologia… uma mistura que dá super certo, hein!? De uma forma leve e divertida, Cristiane e Mayra trazem trechos de uma roda de conversa gravada com os estudantes que criaram os personagens, dentro do projeto “Imprensa Jovem”, da Prefeitura de São Paulo. Nesta conversa, guiada pela Cristiane e pelo professor Marcos Moreira, que coordena o projeto na escola, os adolescentes contam como se sentem em relação à tudo: à família, às mudanças do corpo e, principalmente, aos impactos trazidos pela pandemia da Covid-19, já que estavam em casa na maior parte deste tempo, tentando estudar, mas longe dos amigos e de tudo o que a escola pode significar. ____________________________________________ Cristiane Paião: Olá, eu sou a Cristiane Paião, e começa agora mais um episódio do Oxigênio, o podcast de jornalismo de ciência e cultura do Labjor, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp. Este é o segundo episódio – de uma série de três – em que a gente vai mergulhar em um período lindo das nossas vidas – a adolescência. Você pode ouvir a primeira parte dessa conversa no episódio #162, que está disponível no Spotify. E quem me acompanha agora, é a Mayra Trinca que, assim como eu, também é professora… e adora falar sobre tudo isso que envolve a sala de aula . Vai ser um bate papo bastante interessante hein… tá animada Mayra ? Mayra Trinca: Estou sim Cris. Oi pessoas!! Eu sou professora há três anos e dou aulas de biologia num colégio particular aqui da minha cidade. Quando você me disse que a gente ia ter um episódio assim, para falar de psicologia, das descobertas científicas nessa área, e sobre os impactos da pandemia eu já fiquei super empolgada, porque adoro discutir sobre adolescência. Cristiane: Ahh… que legal… bom, eu espero que todo mundo goste, que todo mundo consiga refletir também, a partir desses conteúdos que a gente tá trazendo. Porque essa é uma das nossas intenções também. Os cientistas fazem a parte deles lá nos laboratórios… pesquisam, coletam dados, analisam, e nós, aqui no podcast oxigênio, a gente tenta trazer para você, ouvinte, essas reflexões… Então, é isso… vamos começar? Mayra… eu escolhi aqui, alguns trechos para mostrar pra vocês, muito legais de um bate papo que eu tive com alguns estudantes que participam do projeto “Imprensa Jovem” da Prefeitura de São Paulo. E que eu tive a grande oportunidade de participar de algumas reuniões durante o projeto Adole-ser, da Unifesp. Eu tive uma bolsa, da FAPESP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, para trabalhar na área da comunicação. Por isso a gente tá fazendo esse podcast sobre esse assunto – a adolescência… E foi muito legal poder acompanhar o “Imprensa Jovem”, esses bate papos deles, e eu queria mostrar para vocês um pouquinho disso, de como eles lidam com esse ser “um jovem repórter”, um “jovem comunicador”. Durante a pandemia, eles criaram uma personagem… a “Jovenilda”, para contar, em histórias em quadrinhos — o dia a dia deles. Eles fizeram isso junto com o professor marcos moreira. Tudo isso aconteceu lá na escola Joaquim Osório Duque-Estrada, que fica em São Matheus, na zona leste da capital paulista. É uma escola municipal, de Ensino Fundamental.// Mayra: Eu tô super curiosa para ouvir essa história, Cris. Você me contou que esse projeto dos quadrinhos também teve uma parceria com esse projeto Adole-sendo, da Unifesp… que a gente conheceu no primeiro episódio, aqui dessa série, né?? Como isso aconteceu? A idei

Sep 21, 2023

#170 – Série Cidade de Ferro – ep. 1: Um doloroso quadro na parede

Neste primeiro episódio da série Cidade de Ferro – histórias de poesia e mineração – Um doloroso quadro na parede, Yama Chiodi narra sua chegada à cidade de Itabira e reflete sobre como a paisagem profundamente marcada pela mineração se mistura com a história e obra do poeta Carlos Drummond de Andrade. Neste episódio, Lucas Nasser, doutorando em direito e autor do livro “Entre a vila e a mina: violações de direito em Itabira”. Fernanda Capuvilla dá voz aos poemas de Drummond e a Elisa Valderano fez a edição. Cidade de Ferro – histórias de poesia e mineração é uma nova série, produzida pelo antropólogo e repórter Yama Chiodi e resultante da parceria do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, com o Oxigênio. Dividida em quatro episódios, a série trata dos efeitos da mineração na cidade de Itabira, cidade natal do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, hoje o grande atrativo turístico do município, frente a outro atrativo de antes, o pico do cauê, possivelmente a maior mina de ferro que já existiu, e que hoje é uma enorme cratera. Participa do projeto a Fernanda Capuvilla, dando voz aos poemas de Drummond e a Elisa Valderano, que fez a edição do podcast. _________________________________ Roteiro Fernanda Capuvilla: Muitas vezes o mundo acaba em silêncio, ou fazendo um barulho leve de folha. Tempos depois é que se percebe, mas já então vivemos em outro mundo, com suas estruturas e regulamentos próprios, e ninguém leva lenço aos olhos do falecido. (…) A história é cemitério de mundos (…). Yama Chiodi: Olá! Eu sou o Yama Chiodi e começamos hoje a série Cidade de Ferro – histórias de poesia e mineração, uma parceria do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, com o Oxigênio. Esse trechinho que você ouviu a Fernanda Capuvilla falando é de autoria do Carlos Drummond de Andrade. Toda vez que você ouvir a voz dela vai ser recitando o poeta mineiro. (pequena pausa) Yama: Uma de suas mais famosas poesias fala da dor e da saudade de sua cidade natal. Itabira foi o berço da Vale do Rio Doce e, durante um período, o epicentro da exploração de minério de ferro no mundo. Talvez você conheça esses versos: Fernanda: Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. (…) Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! Yama: Na minha pesquisa de doutorado eu passei os últimos anos seguindo um sem fim de histórias de fim de mundo, em especial aquelas que ligam a crise ambiental e a literatura. A arte, uma vez mais, parece ser um instrumento poderoso pelo qual conseguimos falar sobre as tragédias do nosso tempo. Poucas dessas histórias me encantaram tanto quanto o progressivo desencanto de Drummond com sua cidade natal. Sua obra vai trocando aos pouquinhos as memórias de infância numa pacata e bucólica Itabira pelo profundo pesar com o que a mineração fez com a cidade. O maior símbolo da cidade até hoje é o pico do cauê – possivelmente a maior mina de ferro que já existiu. Não por acaso, é a silhueta do pico que estampa a bandeira municipal. Ao entrar na cidade somos recebidos por um portal, em forma de arco, recém-inaugurado, que exibe a forma fantasma de um pico que já não existe mais e uma referência a Carlos Drummond de Andrade. O que era pico, hoje é buraco… literalmente. 160m de altura, agora um buraco de não se sabe quantos metros negativos no chão. O pico que ficou conhecido na poesia como a montanha pulverizada. Como mineiro conheço histórias da destruição minerária em primeira mão, mas desde a capital, do medo pelo futuro do que sobrou da Serra do Curral. Decidi que era hora de retornar a Itabira. E é a história dessa visita de campo que quero contar para vocês. [ vinheta oxigênio] Yama: Vivi a maior parte da vida no limite do quadrilátero ferrífero. Uma região no coração de Minas que já foi a maior reserva de minério de ferro do mundo e hoje ainda exporta o que sobrou, cercada de barragens e destruição. É nesse quadrado imaginário que ficam Bento Rodrigues e Brumadinho. Casa do desastre presente e futuro da mineração no Brasil. Eu quero agora parar um pouquinho e falar alguns dados sobre as barragens de rejeitos em Minas Gerais. São dados assustadores. Só no estado de Minas Gerais hoje são 350 barragens de rejeitos, cerca de 40% do total do Brasil. Destas, quase um terço de responsabilidade da Vale. São 58 municípios mineiros com barragens. 150 barragens classificadas com dano potencial alto e 37 classificadas com categoria de risco alto. Essas duas categorias podem parecer a mesma coisa, mas são diferentes. O dano potencial associado, ou DPA, é usado para medir possíveis consequências sociais, econômicas e ambientais que uma

Aug 24, 2023

#169 – Depois que o fogo apaga – Parte 2

Neste episódio do Oxigênio, continuação do programa #168, seguimos falando sobre o processo de recuperação de museus e acervos que pegaram fogo no Brasil. Exploramos as etapas necessárias para a reabertura, quem são as pessoas que participam desse processo e quais as reflexões que esse momento provoca. Ao longo do episódio, você escuta sobre três casos, que estão em estágios muito diferentes desse restauro: o laboratório da Unesp em Rio Claro, o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. A produção e apresentação são da Mayra Trinca, bióloga e mestanda em Divulgação Científica e Cultural. A edição é da Elisa Valderano, bolsista do Serviço de Apoio ao Estudante e do Octávio Augusto Fonseca, da Rádio Unicamp. Roteiro MAYRA: Oi! Aqui é a Mayra Trinca, você deve ter me ouvido no último episódio, o número 168. Se não ouviu, recomendo ouvir antes de começar esse aqui, porque este episódio é continuação da conversa que começamos lá. Nós estamos falando sobre o que acontece depois que um museu pega fogo e tudo se perde. No primeiro episódio, tratamos dos impactos que essas tragédias causam na vida das pessoas que trabalham diariamente nesses espaços. Neste segundo episódio, vamos falar sobre quais os passos necessários para a reconstrução dos acervos e se é que faz sentido usar essa palavra: reconstrução. Pra ilustrar esse processo, vamos conhecer como tem sido a realidade de três coleções, que estão em etapas diferentes de restauro. O Instituto de Biociências de Rio Claro sofreu com o incêndio há mais ou menos um ano, em setembro de 2022. Então por lá a reconstrução ainda está nos primeiros passos. O Museu Nacional pegou fogo há 5 anos, em 2018 e já está numa fase mais avançada, tanto que a fachada do museu foi reinaugurada esse ano e você já pode visitá-la se passar pelo Rio de Janeiro. E por fim, o incêndio no Museu da Língua Portuguesa que aconteceu em 2015. Nesse caso, a reconstrução já acabou e o Museu tá aberto pra visitação desde 2021, quase seis anos após o incêndio. [VINHETA] MAYRA: O primeiro impacto gerado pelo incêndio que atingiu os laboratórios da Unesp de Rio Claro foi a comoção. EMYGDIO: No contexto de UNESP são mais de 40 anos de existência, não é? Então se você pensar em curso de graduação, em pós-graduação, passou uma infinidade de alunos que agora tão tanto aqui no Brasil, como fora daqui, alguns lecionando outros já até se aposentaram, um certo tanto já até faleceu, né? Então a gente começou a ter uma dimensão disso nos dias posteriores, que começou chover mensagem, comunicação de tudo quanto é lado, do jeito que você nem sabia que existia. Externando, né, esse carinho pela gente e volta e meia vinha um relato, né? Ah eu lembro das aulas de fulano, eu lembro de tal laboratório, eu lembro de um material assim assado, entendeu? MAYRA: Deixa eu te reapresentar o Emygdio, que é técnico do laboratório de zoologia lá na Unesp de Rio Claro. No primeiro episódio ele contou como esse evento afetou a rotina de trabalho dele. E agora, ele vai contar um pouco mais de como tem sido esses primeiros meses pós-incêndio. MAYRA: Pra mim, essa fala do Emygdio ajuda a dimensionar a relevância dessa coleção, não só pra pesquisa ou pra quem trabalhava com ela, mas na história da formação acadêmica e de vida mesmo de tanta gente que passou por lá. Quando aconteceu o incêndio, eu tinha uma amiga fazendo Biologia lá na Unesp, o mesmo curso que eu fiz, e uma das coisas que eu pensei foi que ela nunca teria a mesma experiência que eu tive. EMYGDIO: A principal propagação dessa tragédia tá se processando agora, quando os alunos já voltaram é para suas atividades didáticas normais, inclusive no início de Março, já veio a primeira turma pós incêndio, né? E a primeira coisa que a gente tá sofrendo é que os alunos têm as aulas práticas, que faz parte da carga horária, do conteúdo curricular, e a gente simplesmente não tem material para estar mostrando pra esses alunos. MAYRA: O Emygdio é o responsável pela organização e manutenção dos materiais das aulas práticas, ou seja, era ele quem cuidava do acervo que pegou fogo. Mas não dá pra esperar que agora ele seja o único responsável por fazer essa coleção voltar a existir. Esse é um processo de muitas etapas e que precisa da colaboração de muitas pessoas, da própria instituição e de outras. MAYRA: Como o acervo do IB era principalmente didático, o problema urgente a ser resolvido é conseguir material suficiente para as aulas práticas. Só que esse não é um processo tão simples quanto parece. A primeira possibilidade – e a mais rápida – é via doação. Outras instituições de ensino e pesquisa podem compartilhar objetos que tenham a mais nas suas próprias coleções. EMYGDIO: Então, as doações estão acontecendo de uma maneira lenta e bastante pontual, né? Porque como eu disse, a nossa coleção englobava desde protozoário até os vertebrados mais diversificados e daí o que acontece, nem toda instituição, nem toda pessoa que entra em contato,

Aug 10, 2023

Meu divã interior (episódio 9)

Este é o último episódio do romance radiofônico Meu divã interior e nesta despedida, nosso protagonista da série, o Fabiano, tenta esclarecer uma questão que ronda sua mente: a primeira é como ter o controle sem recorrer a uma fuga da realidade? E pensa que da necessidade de se libertar, há de se encontrar um equilíbrio. Meu divã interior é um projeto de extensão PROEC (Pró-Reitoria de Extensão e Cultura) que foi realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, ingressantes do ano de 2020 e que chega ao fim neste nono episódio. Roteiro Alice: Vamos falar sobre essa questão do controle, Fabiano. Fabiano: Sabe o que eu acho, Alice? Eu acho… Não sei, tenho a impressão que… Alice: Fabiano, respira e tenta organizar o que você quer dizer. Fabiano: Uma vez, quando eu contei pra um amigo que eu tava mal por causa de uma briga com minha ex-mulher, ele falou: “Toma um porre!”. Parece que é isso: ao invés de tentar melhorar a realidade quando ela tá ruim, as pessoas procuram uma fuga da realidade. Algumas com o álcool, outras com drogas mais pesadas. Alice: E você não quer que uma substância psicotrópica tire de você o controle de si mesmo – observou Alice. Fabiano: Holmes, um dos heróis da minha infância, usava cocaína. O pai da psicanálise também usava cocaína. Alice: Mas nem sempre é assim, Fabiano. Fabiano: Sim, eu sei que outras pessoas buscam fuga com coisas mais saudáveis, como alpinismo, paraquedas, bangee jump ou com esportes mais radicais, que dão mais adrenalina. Ou com um livro, um filme, uma série. Mas parece que é preciso sempre fugir da realidade. Alice: Não é só uma questão de fuga, Fabiano. Envolve também libertação. É ótimo que você seja uma pessoa que controle bem o seu tempo, para desempenhar suas atividades, que organize suas coisas metodicamente, tanto na sua casa quanto no trabalho, e até mesmo que segure seus impulsos pra não xingar alguém no trânsito. Mas você não é só isso. Tem um outro Fabiano dentro de você pedindo para ser libertado e alçar vôo. Pensamentos de Fabiano: Incrível essa Alice! Eu não me lembro de ter contado a ela algum dia os meus sonhos em que sabia voar. Mas a relação entre o que ela está dizendo e aqueles sonhos que eu tinha parece evidente! Alice: Você precisa tentar um equilíbrio entre a responsabilidade e o compromisso social e o sonho. O sono interrompido é um sintoma de uma outra interrupção mais importante em sua vida. Pensamentos de Fabiano: Alguns diriam o mesmo que Alice de outra forma: eu precisava encontrar o equilíbrio entre o meu yin e meu yang, entre meu lado masculino e meu lado feminino. Outros iriam além: um equilíbrio entre o meu elemento ar, que silencia, foca e decide, meu elemento terra, que conecta, constrói e entrega, meu elemento fogo, que cativa, queima e transmuta, e meu elemento água, que chora, limpa e flui. Pela segunda vez, senti meus olhos umedecerem diante de Alice. Fabiano: É isso! – falei, em uma mistura de lágrimas com sorriso. Eu tenho que reaprender a voar! Obrigado, Alice.   Epílogo Já são mais de três meses em confinamento. E Fabiano não consegue mais ir além das manchetes do noticiário. Como aquelas pessoas que antigamente paravam diante de uma banca de jornal e usufruíam da gratuidade da leitura das primeiras páginas em exposição. O pior, para ele, era que milhões lá e aqui escolheram ser liderados pela bestialidade. Em certas horas, Fabiano chega a acreditar que já não se sente brasileiro e nem cidadão do mundo. Essa momentânea falta de fé o levava, invariavelmente, a evitar as redes sociais em que imperava o ódio ao anticristo tupiniquim. Por isso, acessava mais o Instagram. Fabiano cometeu a imprudência de procurar no Google os significados para corações verdes, azuis, rosas, solitários ou em duplas. Ele sabia que não podia fingir a si mesmo ser uma ilha por muito tempo. Então, volta e meia, criava coragem para ver se encontrava algo de bom no meio do mar de fúria da outra rede social. Quando dava a sorte de se deparar com uma das crônicas da Ana Salvagni, era sempre uma delícia! Para sua surpresa, outra amiga aproveitou os tempos de confinamento para também compartilhar crônicas suas por ali. Fabiano leu com gosto uma delas. Um tanto elitista, na sua avaliação, mas muito honesta e sincera. Com as consequências da pandemia e do isolamento social, muita gente estava recorrendo a ajuda por videoconferência. Mas a ideia que ocorreu a Fabiano foi outra. Pensou em simular sessões de terapia em uma história fictícia. Chegou a pensar em uma peça de teatro. O cenário inicial seria um consultório. Os personagens, a terapeuta e seu paciente. No decorrer da cena inicial, a iluminação geral diminuiria aos poucos, ficando apenas um foco de luz no paciente. Sua voz seria ouvida em uma gravação. “Será que esse seria um recurso muito batido pra diferenciar entre ele falando com a terapeuta e ele pensando consigo mes

Jul 31, 2023

Meu divã interior (episódio 8)

A insônia continua e a última esperança de Fabiano está na psiquiatria. Será que finalmente essa nova profissional poderá resolver o seu problema? Ou talvez o remédio que ele precise seja outro, ou alguém…. Este é o 8o episódio de Meu divã interior, um romance radiofônico, que é um projeto de extensão apoiado pela Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PROEC), e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Roteiro PENSAMENTOS DE FABIANO: A médica indicada pelo barbudo afeminado lacaniano, além de psicanalista, era psiquiatra. Não sabia exatamente o que isso significava tecnicamente, mas imaginava que haveria, por um lado, uma terapia analítica tradicional e, por outro, a possibilidade de tratamento medicamentoso. Havia um divã no consultório dela. Não sei por que eu nunca tive coragem de perguntar se podia me deitar nele. Sempre me sentava na poltrona de frente para ela. Se me deitasse no divã, teria torcicolo caso quisesse ver minha interlocutora. Vi em um filme que o divã pode ser usado justamente em determinadas circunstâncias em que o objetivo é que paciente e analista não se vejam e apenas escutem a voz um do outro. Eu queria experimentar qual é a sensação de conversar com um analista deitado em um divã. Mas nunca tive coragem de pedir isso a ela. Era uma senhora. Não idosa, mas mais velha do que eu, com uma visão moderna. De vez em quando, ela fechava os olhos e eu ficava pensando se era uma tática de concentração, se estava refletindo sobre o que eu dizia ou se era um momento de descanso das lamúrias alheias que ela se permitia. Às vezes fazia umas ponderações sobre coisas que eu falava, reforçando, com argumentos próprios, que as coisas que me incomodavam eram, de fato, terríveis e que, diante de tudo aquilo, estranho seria se eu estivesse bem. Será que faz parte da estratégia de uma terapia dizer aquele tipo de coisa para o paciente? Sempre achei que um psicanalista iria futucar as profundezas da nossa alma, soltando todos os nossos fantasmas, em uma espécie de exorcismo. Não os fantasmas reais do dia a dia, que assombram a nossa vida, aqueles que a nossa consciência é capaz de perceber e somos capazes de relatar, seja para um analista ou para amigos em uma conversa de bar. Eu imaginava que a análise ia me fazer ter acesso aos fantasmas que me habitam, os que não apenas estão em mim, mas também me definem e fazem parte do que eu sou e de como eu ajo no mundo. Sobre a questão dos relacionamentos, depois de relatar algumas tentativas frustradas, eu disse a ela: FABIANO: Acho que as mulheres, por mais que estejam interessadas em alguém, não chegam a se envolver pra valer antes que aconteça um beijo. PSIQUIATRA: Pode ser. PENSAMENTOS DE FABIANO: foi apenas o que comentou. Achei que ela poderia ter sido menos vaga. Ela é mulher. Mas quem disse que as mulheres querem revelar aos homens o seu mistério? Uma hipótese que essa psicanalista levantou sobre o problema do sono é que ele poderia estar relacionado ao luto. FABIANO: A última perda importante que eu tive foi da minha mãe. Mas isso já tem muito tempo. E eu acho que consegui tocar a minha vida. Claro que sinto a falta dela, mas não fico pensando nisso o tempo todo. O luto pode durar tanto tempo assim? PSIQUIATRA: O luto não necessariamente está ligado à morte. Pode ser outro tipo de perda significativa em sua vida. PENSAMENTOS DE FABIANO: Freud entende o luto como um fenômeno natural da mente humana em reação à perda não só de um ente querido, mas de coisas que tenham proporções importantes para o enlutado. Segundo ele, trata-se de um processo consciente, pois no luto, a pessoa tem a noção exata daquilo que perdeu. – (fala junto com a psiquiatra) FABIANO: O casamento também se desfez há muito tempo. Será que eu não superei isso até hoje? PSIQUIATRA: Pode ser que você sinta muito a falta não daquela companheira, especificamente, mas de ter alguém do seu lado no dia a dia. PENSAMENTOS DE FABIANO: De acordo com Freud, além de ser um processo lento e doloroso, uma das características do luto é a incapacidade de substituição do amor antigo por um novo amor. – (Fala junto com a psiquiatra) <> <> <> PENSAMENTOS DE FABIANO: Em uma das sessões de análise, reparei em um broche numa bolsa da psicanalista, em que se via #EleNão. Aproveitei o tema do meu cansaço físico decorrente das noites mal dormidas e falei a ela também do meu cansaço moral em relação a certas coisas. Eu já estava farto do clima político no Brasil e cogitava me mudar para outro país. Mas não queria ser garçom ou faxineiro no primeiro mundo. Não tinha ideia de que tipo de trabalho poderia ter fora daqui. E também não era mais um jovem para viver uma aventura, tinha que pensar em meu filho. Outro cansaço que manifestei a ela foi em relação ao mundo acadêmico no qual eu tinha me metido não por escolha própria, mas por força das circunstâncias. Eu me sentia um peixe fora d’água e achava que era preciso buscar algo mais apaixonante para mim, que me est

Jul 11, 2023

#168 – Depois que o fogo apaga

Neste episódio do Oxigênio e no próximo, vamos tratar dos incêndios no Laboratório do Instituto de Biociências da Unesp, campus de Rio Claro, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro e no Museu da Língua Portuguesa, na capital paulista. Por meio das conversas com pessoas que atuam nesses espaços de divulgação científica, buscamos conhecer o que aconteceu, e compreender as diferentes fases dos processos de recuperação. As entrevistas, roteiro e apresentação foram feitos pela Mayra Trinca, bióloga e mestranda em Divulgação Científica e Cultural e a edição é de Yama Chiodi, doutorando no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências, da Unicamp e bolsista Mídia Ciência da FAPESP. ________________________________________________ Roteiro MAYRA: Oi! Eu sou a Mayra Trinca, talvez você já me conheça de outros episódios aqui do Oxigênio. Eu faço mestrado no programa de Divulgação Científica e Cultural aqui do Labjor, mas, antes disso, eu fiz biologia na Unesp, em Rio Claro. MAYRA: No curso de biologia a gente tem, ou pelo menos deveria ter, muitas aulas práticas, pra gente realmente ter contato com aquilo que está estudando, seja planta, bicho, célula e por aí vai. Pra isso, as universidades precisam manter uma série de coleções biológicas, com esses seres preservados pros estudos. Lá em Rio Claro, a coleção dos animais ficava no prédio central, mais especificamente, no laboratório 19. EMYGDIO: O prédio que sofreu com incêndio, é conhecido como prédio central do IB. Esse prédio, ele era um prédio, ele era não, ele é um prédio, porque ele ainda tá aqui. Ele é um prédio de dois andares, né, no andar térreo ficavam concentrados salas de aula utilizados principalmente pelos cursos de graduação do Instituto de de biociências, né? E no andar superior é ainda existia a estrutura do departamento de biologia geral e aplicada, é, e uma parte ainda do antigo departamento de Zoologia do qual eu faço parte, agora departamento de biodiversidade, né? Então nesse segundo andar, é, existiam alguns laboratórios de docentes, né e gabinetes de docentes; no piso inferior como eu falei eram as salas de aula e alguns laboratórios de apoio pras aulas práticas. MAYRA: No dia primeiro de setembro de 2022, esses laboratórios pegaram fogo. EMYGDIO: Foi um dia normal de trabalho, né? A gente não teve nenhuma rregularidade. Aconteceu numa quarta-feira, do meio pro final da tarde entre dez pras quatro, quatro horas. MAYRA: O incêndio, que começou durante a tarde, se alastrou pelo andar de cima elevando chamas e uma cortina de fumaça assustadora. Com sorte, ninguém ficou ferido, o prédio foi rapidamente evacuado e o corpo de bombeiros acionado. O fogo só foi completamente apagado por volta das dez da noite. EMYGDIO: Eu saí com tudo certo, a hora que eu voltei o laboratório já estava completamente eh tomado por chamas, não não tinha mais o que se fazer. Da parte onde havia a coleção não sobrou absolutamente nada, sobrou as paredes, só. Tudo que existia lá dentro, simplesmente foi carbonizado. [PAUSA] MAYRA: A coleção de zoologia pegou fogo em setembro, às vésperas do aniversário de outro desastre semelhante. Quatro anos antes, no dia dois de setembro de 2018, o Museu Nacional no Rio de Janeiro estava em chamas. E antes dele, em 2015, foi o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que também queimou Neste episódio do Oxigênio e no próximo, vamos tratar dos incêndios no Museu da Unesp, no Museu Nacional e no Museu da Língua Portuguesa, por meio das conversas com pessoas envolvidas nas diferentes fases dos processos de recuperação desses espaços de divulgação científica. [VINHETA] MAYRA: Você provavelmente viu esses incêndios nos jornais. Eles não foram os únicos, talvez você até se lembre de outros casos, mas esses dois ganharam manchetes por serem museus grandes e conhecidos. Infelizmente, esses ambientes são muito vulneráveis ao fogo, seja pelas características próprias dos materiais que ficam ali, seja pelo descaso com que esses ambientes são tratados. Quando eu fiquei sabendo do incêndio na Unesp, minha primeira reação foi lembrar desses outros casos. Me bateu uma tristeza enorme de pensar em tudo que se perdeu. Mas aí, o segundo pensamento foi: e agora? O que acontece depois que o fogo apaga? EMYGDIO: Meu nome é Emygdio de Paula Neto, eu sou técnico aqui do departamento de biodiversidade da UNESP de Rio Claro. MAYRA: Eu conheci o Emygdio durante a graduação, no tal laboratório 19. Ele é a pessoa responsável por ajudar os professores a organizar as aulas práticas de zoologia, que é o estudo dos animais. É o Emygdio que organiza os materiais e mantém o laboratório funcionando. Nesse laboratório existia um acervo zoológico considerável, tanto pela quantidade quanto pela diversidade de grupos zoológicos e de materiais relacionados a esses grupos de animais. EMYGDIO: Foi uma perda assim irreparável, porque é um acervo que se iniciou aqui em Rio Claro com a faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, eh que depois veio a se

Jun 30, 2023

Meu divã interior (episódio 7)

Neste sétimo episódio de Meu Divã Interior, Fabiano divaga sobre sonhos que teve e tem tido com Alice, além de conversar sobre antigos desejos que permearam por sua vida, entre lembranças com sua ex-namorada e a relação com seu irmão. Meu divã interior é um romance radiofônico realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, ingressantes do ano de 2020. Trata-se de um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura). ___________________________________________________________________________ Roteiro Personagens: Fabiano Alice Ex namorada Irmão de Fabiano Alice: Então, Fabiano, você conseguiu se lembrar de seus sonhos e anotar o que sonhou? Pensamentos de Fabiano: indagou Alice. Fabiano: Sim Pensamentos de Fabiano: Respondi, abrindo um caderno. Fabiano: Acho que alguns sonhos são estimulados por coisas que eu vi ou que aconteceram um pouco antes. Uma noite, sonhei com uma prima do meu pai. Nós estávamos, ao que parece, em um ponto de ônibus cheio de gente. Comentei que a diferença de idade entre ela e o meu irmão não era muito grande e que eu não tinha percebido isso quando era criança. Ela falou que eu era o bebê de todo mundo da família. Ela fez um sinal para um carro que passava. O motorista parou e entregou uma almofada pra ela. Geralmente, meus sonhos são curtos. Ou pelo menos o que eu lembro é pouca coisa. Alice: Esse sonho foi estimulado por alguma coisa que aconteceu antes? Fabiano: Sim. Essa prima do meu pai postou sua contagem regressiva pro aniversário que estava chegando. Por isso eu pensei nessa coisa da diferença de idade entre ela e o meu irmão. Quando a gente é adulto, alguns anos de diferença entre uma pessoa e outra parece muito pouco, mas do ponto de vista de uma criança, qualquer ano a mais é muito tempo. Alice: Verdade. Os outros elementos do sonho, o lugar, a entrega da almofada, têm algum significado pra você? Fabiano: Eu não identifico o lugar do sonho como um lugar conhecido. Essa prima nem é do tipo que anda de ônibus. O final, com a almofada, pra mim, é só maluquice de sonho, mesmo. Alice: Você costuma sonhar com pessoas da sua família mesmo que não haja um estímulo anterior, como aconteceu nesse caso? Fabiano: Sim Pensamentos de Fabiano: Respondi, consultando minhas anotações novamente. Fabiano: Outro dia, sonhei com outra prima minha. Eu estava fritando ovo. Vi que ela pegou a frigideira e falei pra ela tomar cuidado com o óleo quente. Respingou um pouco na blusa dela. Não me lembro muito bem desse sonho, mas acho que ela estava usando uma calça social, estilo masculino. Passei um papel toalha onde tinha caído óleo. Depois, acho que ela foi ao banheiro para se trocar. Alice: Você achou pouco usual sua prima aparecer no sonho usando calça social masculina? Fabiano: Como é um detalhe que cheguei a lembrar, devo ter achado. Pode ser que já tenha visto ela vestida assim, mas não é o estilo dela. Alice: A curiosidade descuidada dela te diz alguma coisa? Fabiano: Doideira de sonho, Alice. Alice: E o seu gesto de limpar o óleo que respingou nela? Fabiano: Você acha que é um desejo contido de tocar na minha prima? Alice: Eu queria saber o que você acha, Fabiano. Fabiano: Não me lembro de ter sentido um prazer especial em limpar a blusa dela com um papel toalha. E também não me lembro de ter deixado minha prima embaraçada. Pareceu uma coisa bem natural, espontânea. Alice: E depois de acordar, pensando no sonho? Fabiano: (ainda irritado) Não sei. Achei legal ter sonhado com ela. Eu gosto muito dessa prima. Pensamentos de Fabiano: Talvez Alice tenha percebido que não conseguiria arrancar de mim muito mais sobre esse sonho. E indagou: Alice: O que mais você anotou aí, Fabiano? Fabiano: Algumas noites atrás, eu sonhei com a minha primeira namorada, que na época em que namorei, era a melhor amiga daquela que viria a ser a minha futura esposa e mãe do meu filho. Foi um primeiro namoro tardio. Não é que eu não tenha ficado com outras garotas antes, mas ela foi a primeira que ficou publicamente comigo na condição de namorada. Alice: Sei. Sua necessidade de testemunhas, para que não te pareça uma ilusão, uma mentira. Pensamentos de Fabiano: – comentou Alice – Incrível como ela, mesmo sem nenhum caderninho, conseguia se lembrar de cada detalhe do que já conversamos! Fabiano: No sonho, acho que eu tava em uma reunião de escola do meu filho ou alguma coisa parecida. Essa ex-namorada, que eu não vejo e com quem não tenho contato há séculos, apareceu no meio da reunião. Parecia triste. Eu estendi um dos braços, ela apoiou a cabeça em meu ombro. Depois, levantou o rosto e disse: Ex namorada: “Eu te amo!”. Fabiano: Não lembro qual foi a minha resposta, mas no fim a beijei. Alice: O que você sentiu depois desse sonho? Fabiano: Nada. Achei bizarro sonhar com ela, assim, sem mais nem menos. Alice: O que essa ex-namorada significa pra você? Fabiano: Alice, sinceramente, eu juro que pensei mu

Jun 20, 2023

#167 – Ciência estampada no peito

Este novo episódio do Oxigênio fala sobre moda, estilo, tendência, grifes a serem seguidas, mas de um modo diferente do que nossos ouvintes encontram numa revista com alguma modelo famosa na capa. Pra falar sobre um estilo que vem ganhando força com mais oferta de lojas e produtos e porque as pessoas estão cada vez mais preocupadas em expor seu modo de pensar e sua admiração pela divulgação científica, a repórter Mayra Trinca entrevistou a Aline de Campos, professora de Moda no SENAC, o Igor Borges, da Doppel Store e a Beijanizy Abadia, da Opará Arqueológico, que são produtores de camisetas com temática de ciência. E aí, que tal vestir essa ideia? __________________________________________ Roteiro ALINE: Eu acho que nós temos né, exemplos, é… no nosso guarda-roupa, de camisetas que a gente se relaciona, né? Então você pode ter uma camiseta aí de um personagem de filme, de série, que você curte muito e admira. Você pode ter uma camiseta com uma frase que você acredita, um desenho que você se identifica muito. Então eu acho que é muito mais profundo, né? Não é só uma camiseta bonita que eu vi numa vitrine, não, eu me identifiquei com aquela estampa, com aquela frase MAYRA: Isso não significa que todo mundo se apresenta com uma camiseta que tem a tabela periódica estampada. Por exemplo, uma dessas minhas camisetas afetivas tem uma estampa que mostra diferentes mulheres: branca, negra, gorda, cadeirante. Emoldurando o desenho tem a frase “This is what a scientist looks like”. É assim que uma cientista se parece. Várias estampas com temas de ciência acabaram se popularizando durante a pandemia de Covid-19. Teve de jacaré, do Zé Gotinha, de comemoração à vacina e ao SUS. Mas antes delas já existiam outras que traziam estampas de cientistas ou frases associadas às mais diversas formas de ciência, da química à literatura. Eu sou a Mayra Trinca e nesse episódio do Oxigênio, vamos falar sobre o que as roupas que usamos dizem sobre nós e como isso pode se relacionar com a divulgação científica. Pra pensar isso, eu conversei primeiro com a Aline, que é professora de Moda no SENAC e me contou um pouco sobre como as roupas que a gente usa sinalizam nossos ideais. Depois, eu falei com duas pessoas que resolveram colocar em prática essa ligação entre moda e ciência. No segundo bloco, você escuta a conversa com o Igor, que é criador da Doppel Store, uma loja de camisetas de divulgação científica. E por fim, com a Beijanizy, que é arqueóloga e idealizadora da Opará, uma loja de roupas estampadas com pinturas rupestres. ALINE: O meu nome é Aline de Campos e eu trabalho com moda já há bastante tempo. MAYRA: A Aline me contou que desde criança ela se interessava muito por esse mundo das artes, no começo eram os desenhos, mas na adolescência ela começou a trabalhar numa confecção, e aí ALINE: Comecei a conhecer esse mundo das roupas. E primeiro eu conheci esse mundo do glamour, né, dos desfiles, das revistas de moda e tal, e depois eu comecei a me aprofundar um pouquinho mais, trabalhando já na área, na questão de que não era só isso, né? Que isso era apenas uma visão da moda, essa visão meio Emily em Paris, né? O Diabo Veste Prada, uma coisa, mais glamurosa. E aí eu comecei a conhecer os outros pensamentos sobre moda. MAYRA: A primeira coisa que eu quis saber sobre esse processo de vestir foi sobre as nossas escolhas. Por que escolhemos vestir o que vestimos? Quais os impactos que essa escolha causa? E pra explicar isso pra mim ela voltou nos tempos pré-históricos, com aquelas cenas clássicas de homens das cavernas usando casacos de pele de animais. ALINE: É que mesmo nesse processo ancestral de se vestir já existia uma comunicação através da roupa, que é uma comunicação de status e de poder. Então, quando esse homem, por exemplo, capturava esse animal, consumia a carne, vestia a sua pele, ele também usava os ossos e as presas desse animal pra confeccionar adornos, colares, né e etc e esses acessórios, eles também passavam uma comunicação para outros homens, né? Quando ele se encontrava ali dentro das comunidades, ele estava comunicando o seu poder. Então, “olha só o animal que eu capturei como ele é grande e poderoso”. MAYRA: Na verdade, essa pessoa tava é querendo dizer “olha como EU sou grande e poderoso por ter capturado esse animal. E de certa forma, isso segue até hoje. As roupas que usamos são formas, ao mesmo tempo de individualização e de socialização. Como no passado, elas carregam marcas do grupo, por exemplo, no estilo ou na combinação de peças dependendo das exigências sociais. Mas também possuem detalhes, sejam símbolos, acessórios, tipos de tecido ou estampas, que destacam diferenças individuais. ALINE: Por exemplo, todos os dias antes de sair de casa para trabalhar a gente faz uma escolha. A gente abre o guarda-roupa e escolhe. MAYRA: Mesmo que essa escolha seja uma calça jeans e uma camiseta, ela é uma escolha que passa uma mensagem ao grupo. Que pode ser de escolher o conforto ou a praticidade. Mas que também

Jun 8, 2023

Meu divã interior (episódio 6)

Meu divã interior é um romance radiofônico realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, a partir do romance homônimo, escrito por Rodrigo Cunha e neste sexto episódio o protagonista Fabiano parece preferir a yoga à psicanálise, mas é por um bom motivo. Uma grande paixão surge, dessa vez essa é a pessoa certa! Até o tarot confirmou, não tem como dar errado. Meu divã interior é um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura). ___________________________________________________________________ Roteiro PENSAMENTOS DE FABIANO: Embora eu não me lembre exatamente, imagino que tenha feito menos tempo de terapia com Nadini do que com Alice. Nadini cobrava caro demais e como meu sono não melhorava e eu não via perspectiva de mudança nos relacionamentos, achei que aquilo não valia a pena. Minha terceira tentativa foi a psicanálise. Procurei, primeiro, o pai de uma colega de escola do meu filho. Na sessão experimental, ele foi bastante desbocado, bem mais do que nas festas de criança a que eu havia ido no prédio dele. Percebi, pelos livros da estante, que ele era lacaniano. Sempre me incomodou um pouco o quanto a psicanálise parecia colocar o sexo como centro de todas as questões psíquicas. Esse foi um dos motivos do rompimento de Jung com Freud. Após o período de críticas à abordagem de Freud, foi Lacan quem propôs a retomada das ideias freudianas. No caso desse meu psicanalista, especificamente, que contrastava uma barba máscula com um jeito afeminado de falar, me incomodava a importância que ele dava para a fantasia. Segundo Lacan, a fantasia vem do que falta ao sujeito, que está em constante busca do seu objeto perdido. Sei que a noção de fantasia é muito ampla, mas para mim era evidente que ele estava falando de sexo. Para ele, todo mundo tem suas fantasias sexuais. Se eu não tivesse, seria uma aberração? Por que eu sabia que ele estava falando de sexo? Esse tema foi o mote para ele dizer: PSICANALISTA: Talvez você não se sinta à vontade de contar suas fantasias, já que temos um círculo de relações em comum entre pais da escola. PENSAMENTOS DE FABIANO: Acho que ele devia imaginar que eu tinha um desejo contido por sua mulher. Em uma das festas no seu prédio, lembro de perceber que ele me flagrou olhando pra ela. O meu olhar não tinha nada a ver com um desejo sexual. Eu tentava decifrar o enigma daquela mulher tão interessante e ao mesmo tempo tão estranha. Em função do meu suposto desconforto em expor minhas fantasias a um conhecido, ficava a meu critério seguir a terapia com ele ou pedir indicação de outra pessoa. FABIANO: Você tem razão. E além da relação dos nossos filhos e de pais de amigos deles, você também fez análise com a minha primeira namorada. PENSAMENTOS DE FABIANO: Eu não estava inventando. Pedi a ele indicação de outra pessoa. Jung conta, em suas memórias, que dedicou muitos anos de sua vida a analisar suas próprias fantasias. Não consigo me lembrar de nada tão elaborado sobre minhas fantasias pessoais, ao contrário de Jung que descreve com riquezas de detalhe suas alucinações e sonhos . Tive um sonho muito recorrente na minha juventude. Eu sonhava que sabia voar. Não era um super-poder. Era uma capacidade que eu descobri que tinha. Eu não possuía asas. Sentia a sensação do movimento de impulso com os braços. Quase como se estivesse nadando no ar. Sentia também a sensação de atrito do meu rosto com o ar durante o vôo. A sensação do vôo é maravilhosa! Lá do alto, eu não era mais um míope. Assim como Clark Kent, eu não voava de óculos. E via tudo abaixo de mim com muita clareza. (pausa) Outro sonho que teve uma certa recorrência, podemos chamar de pesadelo. Eu caía em queda livre de uma altura muito grande, mas sempre acordei antes de me esborrachar no chão. Não era uma sequência do sonho em que voava, são sonhos distintos que aconteciam em momentos distintos. Pode até ser que um tenha alguma relação com o outro, mas a interpretação disso foge ao meu alcance. (pausa) Também vivi, acordado, uma grande fantasia, por um longo tempo. Foi uma imensa paixão, que nas palavras de Vinícius de Moraes, na canção lindamente musicada por Tom Jobim, seria “uma ilusão que é só desilusão”. Fui o primeiro a chegar e ser recebido por Luna, a professora, naquele que seria o meu primeiro dia de aula de yoga. É muito fácil ficar deslumbrado à primeira vista com aquele tipo de beleza que os publicitários adorariam colocar em um anúncio e produtores de cinema e televisão não hesitariam em contratar. Eu, que não costumo acreditar em coisas transcendentais, percebi, não sei como, que a beleza de Luna ia muito além do que os olhos podiam ver. Uma espécie de “aura clara”, diriam os que crêem nisso. Antes dos outros alunos chegarem, o namorado dela apareceu pra combinar alguma coisa com ela. Fomos apresentados. Só então, percebi que ela usava uma aliança de compromisso na mão direita. “Claro que essa informação tinha que surgir logo de cara, no primeiro dia! Ela é mesmo muita areia pro meu caminhã

Jun 6, 2023

Meu divã interior (episódio 5)

Neste episódio, Fabiano reflete sobre religião, crença e espiritualidade, Além de indagar-se à Alice acerca da necessidade de as pessoas criarem fantasias, perpassando pela futilidade das redes sociais e ancestralidade até a sua infância. Meu divã interior, um romance radiofônico, o qual é um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura) realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, ingressantes do ano de 2020. ______________________ Roteiro Alice: Os seus pais têm alguma religião? Fabiano: Pra falar a verdade, não faço a menor ideia se meu pai acredita ou deixa de acreditar em alguma coisa. Nunca conversamos sobre isso e eu nunca ouvi ele falar nesse assunto. Mas a minha mãe era católica e espírita ao mesmo tempo, ou pelo menos se dizia. Não do tipo que ia sempre à missa, mas rezava muito. E ia de vez em quando a sessões espíritas. Minha mãe também tinha uma crença própria dela, num mundo ideal, um planeta imaginário que ela chamava de seu “verdinho”. Pensamentos de Fabiano: Acho que por isso minha mãe estava ok com o fato de eu me sentir um extra-terrestre, mas não digo isso a Alice. Alice: Você tinha algum tipo de conflito com a sua mãe relacionado à religião? Fabiano: Eu só ironizava, de vez em quando. Talvez o que eu dizia pudesse ser considerado uma coisa ofensiva. Mas é o tipo de coisa que eu só faria mesmo com uma pessoa próxima como a minha mãe. Por exemplo, quando ela fazia o sinal da cruz enquanto passávamos de carro por uma igreja, eu dizia que era como um soldado que presta continência para seu superior. Ou quando eu saía para viajar e ela dizia: Mãe: “Vai com Deus, meu filho! Vou ficar aqui rezando pra você fazer boa viagem! Me liga quando chegar!” Pensamentos de Fabiano: Eu respondia: Fabiano: “Se Deus é onipresente, é uma redundância dizer ‘vai com Deus’. E se um cavalo atravessar a pista bem na hora que eu estiver passando, você acha que Deus vai tirar o meu pé do acelerador e apertar o freio pra mim? Eu que tenho que fazer isso, mãe!” A reza dela, pra mim, era muito mais uma forma de aliviar o próprio espírito. Mas minha mãe tirava de letra esse meu jeito. Achava graça. Alice: Pelo visto, o sentido que você via nas orações era muito diferente do dela. Você se lembra de algum momento, de algum acontecimento específico que tenha influenciado essa sua forma de ver as coisas? Fabiano: Não lembro. Acho que sempre fui desconfiado, questionador. Se a coisa não fazia sentido pra mim, se não me convencia, não tinha como eu acreditar. E eu imagino que desde que entendi como são grandes as desigualdades no mundo, passei a pensar que se existisse um Deus, ele era muito injusto. Aprendi o “Pai Nosso” e a “Ave Maria”. Sei de cor. Mas também aprendi a ficar calado nos natais em que as pessoas davam as mãos para rezar. Eu dava as mãos, mas não rezava. E junto com um amigo meu, que inclusive era filho de pastor, faltava às aulas de ensino religioso na escola. Alice: O que você sente quando alguém expressa sua crença? Fabiano: Se me incomodasse com isso, tava perdido, porque a maioria das pessoas acredita em alguma coisa, em algum Deus, pelo menos. E eu acho até que faz bem pra elas a crença. Acho que, no fundo, eu devo me incomodar com a minha falta de crença. Imagino que talvez não seja muito saudável não ter uma. Eu gosto da filosofia budista, mas tem certas coisas do budismo em que eu não acredito. E acho que me identifico mais com o politeísmo do que na crença em um único Deus todo poderoso. Por exemplo, no politeísmo grego e romano, tem o deus do céu, a deusa da terra, o deus do mar. No politeísmo indígena, tem o deus do sol, a deusa da lua, o deus do trovão. Ventos, tremores, marés, trovoadas a cada deus citado. Só que pra mim, não são entidades com forma humana. O ser humano é narcisista demais e imagina deuses à sua imagem e semelhança. Ou então, diz que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Esses deuses, pra mim, são o que são: céu, terra, mar, sol, lua, trovão. Ou seja, não são deuses. Tá vendo só, Alice? Nem quando eu tento, chego perto de uma crença. Alice: Vamos pensar um pouco nesse incômodo que você diz ter por aquilo que você imagina ser sua falta de crença. – sugeriu Alice. Fabiano: Você não acha que o meu problema de sono pode ter alguma relação com o meu ceticismo? Como uma perturbação do que as pessoas chamam de alma, de espírito… Falta de espiritualidade. Alice: Você tem, Fabiano! Você não precisa ter uma religião para ter uma espiritualidade. A etimologia da palavra “religião” aponta pra pelo menos três sentidos originais no latim: o culto aos deuses, a releitura dos textos sagrados e a religação com algo maior do que nós mesmos, que é interpretado como divino. Muita gente precisa da religião para se reconectar com esse algo maior. Mas essa conexão, que a gente poderia chamar de cósmica, ou se você preferir, com o universo, a naturez

May 30, 2023

#166 – Antropoceno: quando a humanidade é assunto da geologia

Antropoceno é uma palavra que se tornou mais popular nos últimos anos, uma vez que as ações humanas são centrais para determinar as mudanças climáticas observadas nesta era que vivemos, e que por essa razão recebe esta denominação. Para tratar desse tema, e como também o Antropoceno tem sido tratado pelas diversas ciências, em uma colaboração nem sempre muito amigável, o jornalista Yama Chiodi, entrevistou as pesquisadoras Ilana Wainer (USP), Susana Dias (Unicamp), Julia Guivant (UFSC) e o pesquisador Marko Monteiro (Unicamp). Este é o primeiro episódio de uma série que vai tratar de temas e pesquisas do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, sediado no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp. O episódio contou também com a narração de Luiz Henrique Leal. __________________________________________ Roteiro Yama Chiodi : Este episódio foi feito em parceria com o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, e com apoio da FAPESP por meio do programa Mídia e Ciência. Yama: Mudanças do clima sempre ocorreram, inclusive mudanças extremas. O que há nas mudanças climáticas do nosso tempo que as torna diferente de todas as outras? Luiz Henrique Leal: A resposta está na ponta da língua de muitos cientistas: a intensidade e a velocidade dessas mudanças. E tudo parece indicar que toda essa intensidade está relacionada com a presença humana na Terra. Yama: Eu sou o Yama Chiodi, jornalista de ciência do GEICT. Luiz: Eu sou o Luiz Henrique Leal e hoje falamos de Antropoceno. Yama: Você já ouviu falar de antropoceno? O termo tem ganhado popularidade nos últimos anos e parece ser uma oportunidade para discutir como ciência e política se misturam. Uma pesquisa no Google Trends, ferramenta que mostra o fluxo de pesquisa para um assunto ou termo ao longo do tempo, mostra que o termo em inglês teve uma notável crescente a partir de 2010, com seu maior pico em fevereiro de 2020. Luiz: As mudanças climáticas e o aumento da temperatura média do planeta são hoje fatos bem demonstrados e as principais causas são quase consensuais na comunidade científica: o aumento acelerado da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento, da produção de lixo e do consumo. Não restam dúvidas de que as atividades humanas têm força capaz de impactar o sistema terrestre. Mas as consequências das mudanças na terra não são apenas globais e, ano após ano, observamos consequências locais dessas mudanças. Yama: Calor recorde na Europa, frio recorde em São Paulo. Muita chuva, muita seca, muito calor, muito frio, pouca água, muita água, espécies se extinguindo massivamente e tudo só parece piorar. A extensão do impacto das atividades humanas no planeta é tão grandiosa que alguns cientistas das ciências da terra começaram a se perguntar se ele não seria grande o bastante para ser considerado geológico. É daí que surge a ideia de Antropoceno. Antropos, homem em grego, para substituir o Holoceno. Para a humanidade, uma época geológica para chamar de sua. Luiz: O conceito de Antropoceno interessa tanto a cientistas naturais como a cientistas sociais. Sua popularidade crescente é sinal de sua capacidade de capturar a atenção de parte da cultura popular e da opinião pública. Entre cientistas de todos os campos, contudo, o termo ainda é bastante controverso. Mas, você pode estar se perguntando, se não restam dúvidas que as mudanças climáticas são resultado das atividades humanas, por que o termo seria controverso? Essa é uma das perguntas que tentamos responder com a ajuda de especialistas que pesquisam as mudanças climáticas. Yama: Em 2002, o químico neerlandês ganhador do Nobel, Paul Crutzen, publicou um artigo na reconhecida revista Nature cujo título era “Geologia da humanidade”. Ele não foi o primeiro a usar o termo Antropoceno, mas foi a partir do trabalho dele que o termo se popularizou. Em termos gerais, Crutzen sugeriu que o impacto humano no sistema terrestre foi de tal forma relevante que nos últimos 300 anos houveram mudanças geológicas da ordem de milênios. Estes 300 anos coincidiram mais ou menos com a invenção da máquina a vapor e, portanto, com o início da revolução industrial. Mas foi no momento posterior à segunda guerra mundial que essas mudanças ganharam um contorno dramático. Luiz: Esse período, que Crutzen chama de Grande Aceleração, coincide com o nascimento dos chamados baby boomers. Um momento em que o aumento da população mundial, do consumo e da produção de combustíveis fósseis passa a ser acelerado e aumenta de modo descontrolado. Este impacto, ele argumenta, é suficiente para que seja decretado o fim do Holoceno. Yama: Pensando somente no impacto humano no sistema terrestre, mudanças climáticas e antropoceno parecem se confundir. Mas o conceito de mudanças climáticas passa longe de ser controverso como o de antropoceno na comunidade científica. Por que isso acontece? Seus maiores entusiastas acreditam que o conceito de

May 19, 2023

Meu divã interior (episódio 4)

Este é o quarto episódio de Meu divã interior, um romance radiofônico, que é um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura) e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Neste episódio, Fabiano se interessa por uma de suas alunas de pós-graduação, tudo parece correr bem até não correr mais. São muitas diferenças, era evidente que não daria certo. E além disso, sempre aparece um ex pra atrapalhar… Mas ele não desiste e continua a sua busca por um amor. PENSAMENTOS DE FABIANO: Por indicação da Alice, procurei uma médica homeopata. Para tentar solucionar o problema do sono. Tentamos dois remédios diferentes, sem nenhum efeito. Não me lembro exatamente quando e por que decidi suspender as sessões de terapia com a Alice. Acho que tem a ver com a minha falta de persistência em relação a certas coisas. Eu tentei duas vezes o vestibular para arquitetura e não passei. Poderia ter insistido, mas desisti. Justamente depois do segundo malogro, ofereceram-me um cargo na cidade em que meus pais moravam e eu decidi voltar a morar com eles. Acontece o mesmo quando tento ficar com alguém. se não dá certo nas primeiras tentativas, eu não insisto. Se a pessoa não quer, não consigo acreditar que há alguma coisa que eu possa fazer para ela mudar de ideia. Por isso, não insisto. Além disso, não sou cachorro para ficar abanando o rabo até conseguir atenção. Como eu não via nenhuma mudança nas noites de sono e nem na perspectiva de ficar de novo com alguém, devo ter achado que a terapia não estava surtindo efeito. (pausa) Algum tempo depois, procurei outra psicóloga que já conhecia de longa data e que não via há muito tempo, a Nadini. Ela se dizia especializada em questões de relacionamento. NADINI: Para o seu problema de sono, indico melatonina, um remédio fitoterápico… PENSAMENTOS DE FABIANO: …Que também não surtiu nenhum efeito. Gosto dela como pessoa, mas como terapeuta, incomodou-me uma coisa que ela disse em uma das sessões. A pedido dela, eu estava contando uma das coisas que não deram certo no casamento. FABIANO: Tem vários outros motivos pra não ter dado certo, mas dá pra resumir a nossa relação pela falta de afeto, de carinho. Pra mim, essa é a base de um relacionamento. Se não fosse por mim, não havia afeto, não adiantava eu esperar isso dela. O exemplo que ela teve dos pais não era muito bom, eu nunca presenciei uma troca de carinho entre eles. NADINI: É uma pena que você não tenha me procurado antes. Eu faço terapia de casal e poderia ter ajudado vocês no período difícil do relacionamento. PENSAMENTOS DE FABIANO: (irritado) Por que fazer aquele comentário sobre o leite que já estava derramado? Eu tinha contado só a parte mais suave do que não tinha dado certo, tinha coisa muito mais pesada na história. FABIANO: (neutro) A última coisa que eu queria na vida era voltar a viver com ela. Só não digo que não tínhamos nunca que ter ficado juntos porque meu filho não existiria. NADINI: OK. Você disse que não quer ficar sozinho. O que você tem feito pra não ficar sozinho? PENSAMENTOS DE FABIANO: (irônico, agressivo) Retrucou Nadini, impassível, em sua saída pela direita de Leão da Montanha. (rugido de leão) FABIANO: (segurando a irritação) Eu não sou muito de sair. Acabo só conhecendo novas pessoas nas aulas. PENSAMENTOS DE FABIANO: Contei para Nadini sobre um quase namoro que tive com uma aluna minha de pós-graduação. Ela era professora em uma universidade particular. Mais uma Alice em minha vida. De todos os alunos da turma, a Alice era a que mais interagia comigo nas atividades extraclasse que eu propunha por e-mail e assim, fomos descobrindo afinidades em termos de visão de mundo (pausa). FABIANO: Você topa ir ao cinema comigo? PENSAMENTOS DE FABIANO: Perguntei um dia pra ela. Começou a resposta com um balde de água fria: ALICE: Moro em outra cidade, Fabiano… PENSAMENTOS DE FABIANO: Mas para minha surpresa, (ri) ela topou ALICE: Mas com certeza gostaria, só peço que seja no sábado, depois do pôr do sol. PENSAMENTOS DE FABIANO: Demorei um tempo para descobrir o significado simbólico que aquilo tinha e eu desconhecia. Para alguns grupos religiosos, como os judeus e os adventistas, o sábado é um dia destinado a abrir mão de interesses pessoais, para dedicação completa a uma espécie de retiro espiritual, com orações, cantos e meditação. Quando nos encontramos na porta do cinema, achei que ela tinha exagerado na maquiagem. Por um lado, eu podia ver naquilo um sinal positivo, ela tinha dado importância ao encontro e achou que devia se arrumar. Por outro, o exagero, que me pareceu meio brega, podia indicar que as aparentes afinidades no campo das ideias não se estenderiam para todo tipo de coisa, como a preocupação com o visual, por exemplo. O que é normal, cada um é cada um. Depois do filme, ficamos conversando na praça de alimentação até os funcionários do shopping começarem a levantar as cadeiras e percebermos que tínhamos que ir embora, eles precisavam fechar. A conversa percorreu caminhos t

May 17, 2023

#165 – Paleoceanografia: Estudos sobre o passado do oceano trazem previsões para o futuro

Você sabe que é paleoceanografia? A jornalista Maíra Torres conversou com Karen Costa e Felipe Toledo, professores da USP e também com Maria Alejandra Pivel, professora da UFRGS, para entender e explicar do que se trata, e como os estudos na área têm trazido respostas sobre os efeitos do aquecimento global na vida dos oceanos. ___________________________________________ Roteiro Maíra: Oi pessoal, eu sou a Maíra Torres ex aluno do curso de especialização e jornalismo científico aqui pelo Labjor da Unicamp, sou bolsista mídia ciência pela Fapesp. E hoje a gente está aqui, e eu digo a gente porque temos também convidados lá direto da USP e também da URFGS no Rio Grande do Sul. Hoje o assunto do oxigênio vai fazer uma ponte entre o tema da paleoceanografia e também o tema das mudanças climáticas, então junto comigo eu tenho aqui o professor Felipe Toledo. Felipe: Olá, tudo bom? Ele é professor do Instituto oceanográfico e também a Karen Costa. Karen Costa: Oi, tudo bom? Maíra: Ela também é professora do Instituto Oceanográfico e, por ligação, a gente tá com a Maria Alejandra Pivel. Ela é do Instituto de Geociências da UFRGS. Oi Maria. Maria Pivel: Oi, tudo bem? Maíra: Tudo bem por aqui a gente vai falar um pouco sobre o tema de mudanças climáticas, né? Esse ano, por exemplo, foi um ano atípico, a gente começou com várias chuvas, e acredito que na verdade o próprio assunto do clima seja um assunto que permeia a humanidade, desde que ela existe. A gente depende do clima para comer, para sobreviver, para construir cidades, residências. Enfim, sem nada disso a gente não consegue estabelecer a nossa civilização, né, Felipe? Felipe: Isso. Eu acho que para começar acho que era importante a gente falar mudanças climáticas. O que é, uma definição rápida: que seriam aquelas mudanças que acontecem no planeta, né? E essas mudanças incluem o aquecimento global, já que a gente usa esse termo para quando ocorre o aumento de temperatura no planeta a longo prazo, né? Então, é errado. Quando a gente fala em mudanças climáticas não necessariamente a gente tá falando em aquecimento global. Aquecimento global faz parte das mudanças climáticas, então o esfriamento global também seria uma mudança climática, né? O aquecimento climático é uma das coisas que veio à tona no século 20, por influência do ser humano. Quer dizer, a gente começa a ver um aporte de CO2 muito grande na atmosfera, ou seja, gases do efeito estufa sendo lançados na atmosfera por efeito antropogênico, por ação humana. O “coração dos nossos maquinários”. Mas se a gente pensar como você falou, em Paleocenografia, a gente tem que voltar no passado. Quer dizer, existem mudanças climáticas que são naturais ao planeta, ou seja, se a gente pegar no Gondwana, ou seja, quando os continentes estavam unidos e começam a se separar, você tem uma quantidade muito grande de CO2 sendo expelido para a atmosfera por causa do intenso vulcanismo do momento de abertura. Maíra: Isso ainda quando o mundo nem era o mundo que a gente conhece do jeito que a gente conhece hoje, né? Era pangeia, assim, todo mundo junto. Felipe: Isso, a gente já tá em Gondwana, 200 milhões de anos atrás. Esse é um gás formador. Então a gente tem um período mais quente, a configuração dos oceanos era diferente, então isso seria uma mudança climática natural. E o que causa essas mudanças que são externas, né? Seria a irradiação solar o ser humano, não tem influência sobre isso, né? Vulcanismo, e posição da Terra em relação ao ao sistema todo. Maíra: Isso naturalmente no sistema de translação. Você diz né? Rotação mais perto do sol mais longe do Sol nesse esquema de mudança climática? Maria Pivel: Na verdade o que a quantidade de radiação que chega na Terra, até que o Felipe comentou, da variabilidade na intensidade da radiação solar, isso aí varia ao longo do tempo, mas é o que faz o clima variar mais ainda, é como essa radiação solar fica mais nos trópicos, chega mais ou menos nas altas latitudes, depende de como essa radiação solar se distribui. Depende dos parâmetros que a gente chama de parâmetros orbitais, que tem a ver com a excentricidade da órbita se ela é mais circular mais excêntrica, a obliquidade do eixo de rotação em relação ao plano da órbita, e também é outro movimento que a Terra faz que é como se fosse um movimento de peão, que a gente chama de momento de precessão, que faz com que o contraste sazonal entre inverno e verão seja maior ou menor. Então o que vai mudar isso não vai mudar tanto como “quanto chega de radiação solar como um todo na Terra”, mas vai mudar como elas se distribui. Maíra: E isso faz toda a diferença principalmente pra gente, que é humano. As diferenças de temperaturas entre os trópicos, por exemplo, o Hemisfério Norte, o Hemisfério Sul, inverno, verão, já é praticamente gritante pra gente. Maria Pivel: Sim. Esse aí varia muito, e na realidade esses parâmetros são um conjunto de fatores que interagem entre si então, para uma mesma configuração orbital o clima pode ser difere

May 4, 2023

Meu divã interior (episódio 3)

Neste episódio, acompanhamos Fabiano em algumas desventuras amorosas arranjadas em um aplicativo de namoro e suas dificuldades – dentre risadas, músicas, cobras e lagartos – de encontrar alguém que cumpra as suas expectativas. Meu divã interior é um romance radiofônico, fruto de um projeto de extensão da PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura) e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, a partir de romance homônimo de Rodrigo Bastos Cunha. A adaptação foi feita por Antero Vilela e Helena Chiste. _____________________________________ Roteiro ALICE: Você tinha dito pra mim que estava procurando alguém no Tinder. Conta como foi essa experiência. FABIANO: Eu não dou muito certo com essas coisas. A primeira vez que eu entrei nesse aplicativo foi há mais ou menos uns dois anos, por indicação de uma amiga minha. Pra ela, deu super certo. Ela até me ensinou a usar. Quer dizer, mais ou menos. Demorei um tempo pra perceber que deslizar pra esquerda significa uma coisa e deslizar pra direita significa outra. Mas eu não entendo por que tanta gente acha que só a imagem basta pra fazer uma escolha. Um monte de gente nem escreve nada sobre si mesmo no próprio perfil. ALICE: Você chegou a sair com alguém? Combinou algum encontro pessoalmente? FABIANO: Sim. A primeira pessoa com quem eu saí me pareceu legal e acho que a gente tinha algumas afinidades. Ela também é professora. De física. Ficamos amigos pelas redes sociais. Não sei que amizade é essa, porque a interação entre a gente é mínima. ALICE: Isso acontece. Então, se essa é a primeira, você saiu com outras. FABIANO: Sim. Com a segunda, foi um pouco diferente. Ela é sua xará. Alice. Nos encontramos num show da Ana Salvagni, por sugestão minha. Era um teste pra ver se o nosso gosto musical batia, e queria que alguém como a Ana testemunhasse minha tentativa de ficar com alguém. ALICE: Por que ter uma testemunha é importante pra você? FABIANO: Não sei. Se ninguém vê, é como se fosse uma mentira, uma ilusão. Depois do show, fomos a uma padaria ainda aberta. ALICE DO TINDER: Aceita chá? FABIANO: (ri) Eu não gosto, obrigado. PENSAMENTOS DE FABIANO: Conversamos por um bom tempo. Ela tinha passado por coisas bem pesadas, parecia estar tentando uma virada na vida, assim como eu. Nos despedimos com um abraço. Voltamos a nos ver, ela foi pra minha casa. Ofereci bolo e café. Expressei duas preocupações minhas sobre a possibilidade de ficar com ela. Uma era que eu não sabia se conseguiria lidar com o convívio com o pai dela, que ela tinha dito ser conservador, de direita. Contei que tentei ter uma relação respeitosa com o pai da minha ex, mas o meu jeito reservado e quieto era visto como hostil. A outra preocupação era FABIANO: que eu estou esperando o resultado do pedido de bolsa que fiz para passar um período pesquisando no exterior e sinceramente, acho estranho começar um namoro e logo depois… sumir… por um tempo. ALICE DO TINDER: Legal você estar me contando isso, Fabiano. Isso é importante para você, tá tudo bem! FABIANO: Na despedida, me beijou. Na boca. Eu não tava preparado pra isso. Achava que a gente ainda não se conhecia o suficiente pra saber se queria ou não aquilo. ALICE: E aí dessa vez foi você quem não quis continuar a encontrar? FABIANO: Fui eu, mas não foi logo de cara. A gente ainda saiu uma vez prum concerto de orquestra. Eu consegui falar pra ela que não tava preparado pra namorar. Ela me entendeu. Contei pra ela que eu fiquei de olho, por um tempo, em uma flautista da orquestra. Escrevi uma história em que ela aparecia como personagem. Alice sugeriu que eu fosse falar com ela no intervalo do concerto. Preferi esperar acabar e aí, sim, fui falar com ela. Não deu em nada. Ela disse que… FLAUTISTA DA ORQUESTRA: …Não terminei de ler. Eu comecei, mas achei muito parecida com Desmundo da Ana Miranda. FABIANO: Não entendi se eu devia ficar lisonjeado pela comparação ou indignado por uma acusação de plágio. Nunca li nada da Ana Miranda pra saber. ALICE: Esse foi seu último encontro com alguém que você conheceu pelo Tinder? FABIANO: Não. Eu ainda tive dois encontros com a Alice, um pra tomar um suco perto da Lagoa e outro pra ver o filme sobre o Erasmo Carlos no cinema. Nesse dia, eu tava mal-humorado. Acontece muito, por causa do problema do sono. Pela manhã, faltei à aula de ioga, não me lembro por quê. A ioga ajudava pelo menos a trazer mais equilíbrio. ALICE: Sua aula não era à noite? FABIANO: Durante a semana era no final da tarde, começo da noite. Mas eu também ia no sábado de manhã. (breve silêncio) ALICE: O que você costuma fazer quando percebe que está mal humorado? FABIANO: Quando eu não tô muito bem comigo mesmo, tento fazer um esforço pra não deixar o mal humor atrapalhar todo o resto. Fazia tempo que eu não ia prum shopping. Prefiro ver filme em casa. Eu desacostumei totalmente com aquela multidão de gente, com aquele barulho todo, não gosto disso. Ponto pro mal humor. A Alice atrasou pra caramba, chegou bem depois do horári

May 2, 2023

#164 – Emergências: Crise da COVID e Gabinete Paralelo (ep. 5)

Neste quinto e último episódio, a Fabíola Junqueira (@fabiolamjunqueira) e a Flora Villas (@flora.villas) falam sobre o papel da comunicação na construção da compreensão da crise da COVID-19 no Brasil e sobre o surgimento de um grupo influente conhecido como Gabinete Paralelo. O entrevistado foi Felipe dos Reis Campos, pesquisador do grupo CIRIS, que investiga Governança, Riscos e Comunicação no Brasil. Este episódio faz parte de uma série que fala sobre os trabalhos do grupo formado por pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A divulgação científica destes trabalhos é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. __________________________________________________ Roteiro Fabíola Junqueira: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e este é o quinto e último episódio de Emergências, uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de pesquisar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. Flora Villas: Olá, eu sou Flora Villas e ao longo dos episódios você vai ouvir pesquisadores e pesquisadoras do grupo CIRIS, que fazem parte dos programas de mestrado e doutorado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além de outros cientistas e especialistas convidados. Fabíola: Neste episódio vamos falar sobre o papel da comunicação na construção da compreensão da crise da COVID-19 no Brasil. Como aspectos já existentes de desigualdades, vulnerabilidades e comunicações equivocadas ficaram mais visíveis durante a crise, além do surgimento de um grupo influente nas tomadas de decisão do presidente Jair Bolsonaro, conhecido como Gabinete Paralelo. Fabíola: Para entender um pouco sobre a complexidade deste tema conversamos com o pesquisador doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo, Felipe dos Reis Campos. Flora: O Felipe se dedicou a analisar os tweets publicados por 26 membros, de um total de 39 membros, do grupo de influenciadores da presidência, conhecido como gabinete paralelo. Atualmente o Twitter tem sido uma das redes sociais mais importantes no cenário político, tem servido de fonte para estudos de diversos pesquisadores pela facilidade de trabalho com dados e pela possibilidade de recuperação de históricos de publicações de diversos temas. Felipe Reis: A principal motivação foi essa, eu acho que eu sempre tive vontade, de estudar de pesquisar essa parte da comunicação desses novos fenômenos e a pandemia por mais que… por todas as consequências negativas e todo o clima que ela trouxe de insegurança, de medo, de tristeza, e de isolamento social. Acho que todo mundo tem um pouco de depressão, um pouco de ansiedade, foi um momento bem difícil, não que ela tenha terminado, ou que passou, mas eu acho que com a vacinação. Eh, principalmente com a vacinação, né? As várias rodadas de vacinação, eu acho que deu uma segurada no número de mortes, a gente acabou um pouco aquele clima mórbido que meio que balizava nossa vida. E na covid a aquela pulguinha atrás da orelha que eu tinha sobre essas transformações do sistemas comunicacionais, para mim, elas ficaram de uma forma muito muito aparente e muito óbvias. E conversando com a minha orientadora, que é a professora Gabriela, a gente bolou um projeto, que a gente aposta muito, né? Porque ainda não está pronto, que pelo menos consiga contornar algumas das questões, Flora: A orientadora do Felipe é a Gabriela Di Giulio, nossa entrevistada do episódio anterior, que tratou de Desastres. Eu recomendo muito que você ouça depois. Mas de acordo com o Felipe, estamos vivendo várias crises além da crise sanitária. Felipe Reis: Por exemplo, a mais conhecida é a crise climática, né? A gente não sabe quais são os limites do planeta. A gente não sabe qual a resiliência do planeta em termos de utilização de recursos ou desmatamento, a gente vive num sistema que é baseado na produção. Então se produz por produzir, disso vem o consumismo, disso vem toda uma ideologia liberal de que o indivíduo é livre e que ele vai alcançar a prosperidade através do trabalho. A grande questão, as grandes incoerências desse sistema é que se você analisar a Índia, por exemplo, você tem 300 milhões de pessoas que não têm acesso a energia elétrica. Então você tem mais de um Brasil, você tem um Brasil e meio de pessoas que não têm acesso a energia elétrica. E a questão, essa questão da sustentabilidade de complexidade, e aí eu já vou chegar onde que isso tem a ver com a COVID, é que eu sempre pensei… imagina quando esse pessoal do mundo que hoje está escanteado c

Apr 20, 2023

Meu divã interior (episódio 2)

Neste segundo episódio de Meu divã interior, nosso protagonista Fabiano continua sua busca por uma solução para seu problema de insônia. A medicação prescrita pelo seu médico não fez efeito, ele começa a pensar que talvez ter alguém em sua vida poderia ser o remédio que lhe falta. Buscando relaxar, Fabiano se aventura em uma viagem ao litoral, lá ele conhece Márcia. Uma conexão astral paira pelo ar junto à maresia. Pensamentos de Fabiano: Quase cinco anos já se passaram desde que eu decidi procurar aquela clínica especializada em distúrbios do sono. Fiz exame de polissonografia. Eu passei a noite lá, com uma porção de eletrodos grudados na cabeça. Em nova consulta, o médico, um sujeito calvo, de fala sonsa, daqueles que cumprimentam a gente sem vontade, com um aperto mole de mão, comentaria o resultado do exame, que apenas confirmava o que eu já sabia. Médico: Você desperta muitas vezes ao longo da noite e passa mais tempo no sono leve do que no sono profundo. Pensamentos de Fabiano: Disse que tinha passado recentemente pelo trauma da separação, ele prescreveu um remédio e disse para eu retornar. Perguntei: Fabiano: Não tem como atacar a origem do problema? Eu não quero ficar dependente de remédio. Ele respondeu: Médico: As causas podem ser várias, não tem como determinar. A ideia é que seu organismo reaprenda, aos poucos, a dormir bem. A gente vai acompanhar a evolução e, à medida que for melhorando, a gente vai tirando aos poucos a medicação. Pensamentos de Fabiano: Eu tinha duas escolhas: seguir a prescrição médica ou não. Mas aquilo era sério, e eu queria voltar a dormir bem. Fui à recepção para marcar o retorno. Recepcionista: A agenda dele para janeiro ainda não está aberta. Liga no começo de dezembro. Pensamentos de Fabiano: Comecei a tomar o medicamento. Imaginei que não faria efeito logo de início, levaria um tempo. No começo de dezembro, liguei para a clínica. Recepcionista: Ele vai estar de férias nesse período. Fabiano: E o que eu faço? Pensamentos de Fabiano: Liguei várias vezes pedindo esse retorno e nada de resposta. Alice foi a primeira alternativa de ajuda profissional que procurei. Além do problema do sono, acrescentei algo para tentarmos resolver juntos: eu não queria continuar sozinho. Na época, eu estava apaixonado pela minha professora de yoga. Alice: A mãe do seu filho apertava botões dentro de você que despertavam coisas ruins e essa professora de yoga aperta botões que despertavam coisas boas. Fabiano: (ri) Como em Divertidamente. Pensamentos de Fabiano: Descobri que a minha paz não vinha da yoga e nem da minha professora de yoga, por quem eu estava apaixonado. A paz estava dentro de mim e era despertada por ela. Depois de ter contado isso a Alice, ao sair da terapia, liguei o carro e imediatamente começou a tocar no rádio “A paz”, de Gilberto Gil e João Donato. (ligando carro) Alice: O Jung chama isso de sincronicidade. – Ela me disse. Alice: Jung afirma que a ligação entre os acontecimentos, em determinadas circunstâncias, pode ser de natureza diferente da ligação causal. Segundo ele, somos incapazes de imaginar acontecimentos inexplicáveis e sem relação causal e, por isso, geralmente admitimos que o acaso é suscetível de alguma explicação causal, e só pode ser chamado ‘acaso’ ou ‘coincidência’, porque sua causalidade ainda não foi descoberta”. Pensamentos de Fabiano: Jung era um místico. No prefácio desse livro que está esse conceito, ele faz um agradecimento a uma colega que o ajudou com “o material astrológico”. Inspirado em Schopenhauer, Jung diz que a Astrologia e os vários métodos intuitivos de interpretação dos acontecimentos causais têm, todos eles, um denominador comum que ele procurou descobrir por meio de uma ‘especulação transcendental’”. Sempre achei divertido ver como as pessoas, inclusive eu, se identificavam com algumas características gerais de traços de personalidade atribuídos a cada signo do zodíaco. Não faz muito tempo, pedi para uma amiga fazer meu mapa astral. Eu gostava de ouvi-la falar sobre astrologia e me colocava, na conversa, muito mais como uma pessoa questionadora do que cética. Ela parecia uma entendida no assunto. Certamente era uma interessada e estudiosa, mas percebi que o mapa havia sido feito a partir das ferramentas digitais de hoje em dia, o que talvez não seja nenhum demérito. A minha identificação com alguns itens positivos era evidente: visionário, rebelde, futurista, sensível, sonhador, curioso… Curioso que a astrologia veja a rebeldia como algo positivo. De fato, é. Mas há quem ache o contrário. Com alguns itens negativos, também havia identidade: dramático, precipitado, pretensioso, sem persistência, impaciente, disperso. É difícil, para mim, pensar que a disposição dos astros no momento do nosso nascimento, possa ter alguma interferência nisso. (Na praia) Pensamentos de Fabiano: Fazia pouco tempo que eu havia conhecido aquela amiga que fez meu mapa astral. Mônica tinha me convidado para ir com um grupo de amigos dela para a

Apr 19, 2023

#163 – Emergências: uma série sobre Governança, Risco e Comunicação (Ep. 4)

Neste episódio a Fabíola Junqueira (@fabiolamjunqueira) e a Flora Villas (@flora.villas) falam sobre como percebemos fenômenos naturais que deflagram desastres socialmente construídos. Elas conversaram com a professora Gabriela Di Giulio, coordenadora do grupo CIRIS, que investiga Governança, Riscos e Comunicação no Brasil, além dos pesquisadores Jefferson Picanço e Claudia Comaru sobre desastres. Este episódio faz parte de uma série que fala sobre os trabalhos do grupo formado por pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A divulgação científica destes trabalhos é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. Roteiro Fabíola: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e este é o quarto episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de pesquisar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. Flora: Olá, eu sou Flora Villas e ao longo dos episódios você vai ouvir pesquisadores e pesquisadoras do grupo CIRIS, que fazem parte dos programas de mestrado e doutorado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além de outros cientistas e especialistas convidados. Fabíola: Neste episódio vamos falar sobre Desastres. Mas não é qualquer tipo de desastre. Vamos falar sobre desastres relacionados aos fenômenos naturais cíclicos. E sobre como podemos compreender esses fenômenos a partir de uma perspectiva socioambiental, ela envolve conceitos como: saúde global, saúde planetária e até a subjetividade de profissionais bombeiros que lidam com o resgate e salvamento de vida quando ocorrem os desastres. Fabíola: Regiões que em alguns dias recebem a quantidade de chuva prevista para meses. Cidades conhecidas pela presença das águas e por canais que agora enfrentam secas. Temperaturas extremas que afetam plantações e criações. Tremores de terras, alteração migratória de aves, surtos de doenças infectocontagiosas. Estes são alguns dos sintomas observados em decorrência das alterações climáticas pelas quais estamos passando. E que, pela severidade de seus efeitos, têm sido considerado por muitos autores, uma Emergência Climática. Flora: De acordo com a Organização Meteorológica Mundial esses fenômenos mostram claramente o impacto da presença de gases de efeito estufa no planeta. Ações para reduzir o aquecimento global e fortalecer a adaptação à nova realidade são urgentes. Fabíola: Além disso, é urgente o debate, a pesquisa, a reflexão e a conscientização de que o planeta em que vivemos é um ser vivo que responde à forma como nos relacionamos com ele. A professora do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e pesquisadora do CIRIS, Gabriela Di Giulio, conversou com a gente sobre essa Emergência Climática. Gabriela: A crise climática está diretamente associada aos efeitos da chamada exploração capitalista predatória dos recursos naturais e caracterizam as práticas hegemônicas ao longo do século 20, mas com muito mais força a partir da década de 1950 até os dias atuais. Essa forma da gente explorar os recursos naturais associado a esse crescimento populacional, os efeitos do crescimento populacional, urbanização desorganizada, acelerada, o próprio processo de globalização continuam sendo capazes de alterar características naturais de maneira bastante decisiva modificando o funcionamento do sistema terrestre de forma bastante perigosa para sobrevivência humana. E qualidade de vida para a maior parte das pessoas. Flora: Notícias sobre as consequências de eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes nos jornais. Também já tratamos disso em alguns episódios do Oxigênio, como no anterior a este, ouça lá. Desde a década de 1980, a comunidade científica tem se empenhado em pesquisar sobre o fenômeno das mudanças climáticas, além de formas de reduzir os efeitos destas mudanças e sobre como podemos nos adaptar à nova realidade de fenômenos extremos cada vez mais intensos. Gabriela: Então essa crise climática expõe uma necessidade urgente do que a gente chama de uma redefinição qualitativa, da estrutura das prioridades políticas econômicas da sociedade. Na tentativa de reverter esse modelo predatório de esfoliação da natureza e dessa necessidade de postular, de forma bastante urgente, um modelo baseado na solidariedade, no respeito com a diversidade biológica. Mas ainda que a compreensão da comunidade científica sobre as mudanças climáticas envolva um longo processo de aprendizado coletivo, com o acúmulo de dados observados, construção de teorias, d

Apr 6, 2023

Meu divã interior (episódio 1)

Este é o primeiro episódio de Meu divã interior, um romance radiofônico realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, ingressantes do ano de 2020. O projeto é uma adaptação do romance homônimo, escrito por Rodrigo Bastos Cunha, para ser escutado em formato de áudio. É também um projeto de extensão da PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura), da Unicamp. Neste episódio, conhecemos Fabiano, alguém em constante procura de um amor que ainda não encontrou e que segue atravessado pela angústia de uma persistente insônia, em um relato que oscila entre a espontaneidade de uma conversa de botequim e uma pretensiosa reflexão que ele supõe ir além de suas próprias dores – as quais são reveladas em parte para a sua psicoterapeuta Alice, e em parte partilhadas com os ouvintes deste romance radiofônico. Introdução – PRÓLOGO (Ouve-se Vinheta e logo após música de introdução ao piano acompanhando as falas de Alice, aqui exercendo função de narradora onisciente): Fabiano é uma pessoa comum, assim como eu e você. E se o chamo de Fabiano é porque assim ele se autodenomina. Deixemos então do modo como ele escolheu. Da mesma forma que o poeta fingidor de Pessoa, Fabiano finge suas dores, que podemos supor de fato sentidas, e as apresenta em um relato sem dúvida falseado aqui e acolá e ao mesmo tempo repleto de verdades desnudas, românticas, talvez, com um toque de classicismo. Os relatos de Fabiano, paradoxalmente, nos revelam pensamentos que ele nunca abriu para ninguém, o que pode nos levar à interpretação de que ele já estava mais para lá do que para cá e resolveu abrir sua caixa de Pandora. Ou não. Em narrativa, tudo (ou quase tudo) é fingimento sincero e verdade floreada. Esse relato de Fabiano oscila entre a espontaneidade de uma conversa de botequim e uma pretensiosa reflexão que ele supõe ir além de suas próprias dores. Se é bem sucedido nisso, deixo para que o digam os cinco ou dez ouvintes desse relato que podemos estimar. Fabiano: Você acha que pode me ajudar, depois de tudo que eu já tentei? Alice: O que você acha, Fabiano? [Pensamentos de Fabiano]: Imagino que ela queira saber se eu realmente quero ser ajudado. Mas não vou tentar decifrar isso em seu olhar firme e sereno. Lembro do dia em que Alice fez como a Sharon Stone naquela cena de Instinto Selvagem em que a personagem dela está sendo interrogada como suspeita do assassinato de um amante: a cruzada de pernas mais famosa da história do cinema. A diferença é que essa personagem estava sem calcinha e Alice estava usando uma branca com bolinhas pretas. Pode ser que tenha sido um ato involuntário ou que tenha sido premeditado. Lembrei que ela é junguiana. Alice: Fabiano, você presta atenção à sua volta? Fabiano: Sim, até demais. [Pensamentos de Fabiano]: foi o que respondi. Não sei se ela queria confirmar se eu prestava mesmo. Mas eu não vou falar nada disso a ela. Não tenho coragem. São apenas pensamentos que passam como relâmpago por minha cabeça. Fabiano: Não sei. Não sei nem mesmo se o meu problema é psicológico. Se fosse, talvez ter feito yoga e meditação (acompanhamento instrumental e sino tibetano com áurea astral) pudesse ter ajudado. Nem mesmo a acupuntura ajudou. Alice: Você parece estar mais preocupado agora com o problema do sono do que com o fato de não querer ficar sozinho. Fabiano: É. Não é que eu tenha desistido ou me conformado. Mas acho que preciso resolver primeiro uma coisa pra depois tentar resolver a outra. Preciso ficar bem primeiro. E pra ficar bem, tenho que dormir bem. (som perturbador constante) É básico. Eu nem tenho mais vida noturna. Saí da banda porque tanto os ensaios quanto as apresentações eram à noite. Recuso convites pra shows ou qualquer outro programa que seja à noite. Vou pra cama super cedo, porque sei que vou acordar várias vezes durante a noite. Aumento as horas na cama pra tentar garantir um mínimo de sono reparador, pra não ficar tão cansado. (despertador toca). [Pensamentos de Fabiano]: Ao colocar os dois problemas lado a lado, é inevitável lembrar de quando eu disse que sabia que não podia fazer isso, mas se pudesse, queria pedir a ela para me deitar em seu colo e fazer cafuné em mim. Alice: A nossa relação aqui não é essa [Pensamentos de Fabiano]: Eu sabia que não. E falei que não sabia se uma coisa tava relacionada com a outra, mas achava que o meu problema do sono ia se resolver quando eu encontrasse de novo alguém que quisesse ficar comigo, me oferecesse colo e me fizesse cafuné. Alice: “Eu também acho”, ela disse. É só isso mesmo? Não tem mais nada? Fabiano: Eu tenho me lembrado de algumas coisas da minha infância e adolescência que têm a ver com a minha solidão. Quando eu era criança, a minha família frequentava um clube. Eu pegava uma bola de basquete e ia pra quadra jogar sozinho. (Som de bola de basquete quicando). Alice: Você nunca jogou com outras pessoas? [Pensamentos de Fabiano]: Pergunta esperta. Se ela tivesse questionado se eu nunca “jogava” com outras pessoas, estaria se refe

Mar 31, 2023

#162 – Adolescência

Adolescência é uma nova série do Oxigênio, que trata de descobertas científicas que podem ajudar a quebrar preconceitos sobre essa fase da vida. Neste primeiro episódio, a Cristiane Paião e o Leandro Magrini falam sobre o que muda no corpo e no cérebro quando se entra na puberdade, e sobre como essas alterações fisiológicas impactam o comportamento do adolescente. Os entrevistadas foram as professoras Sabine Pompeia e Mônica Carolina de Miranda, pesquisadoras do projeto Adole-sendo da Unifesp, além de Daniel Utsumi, doutorando em psicobiologia na Unifesp e Breno Pedroni, que faz o mestrado na Unifesp. ROTEIRO Cristiane Paião – Este episódio da série “adolescência” trata de temas difíceis, como depressão, ansiedade, impulsividade e sentimentos ligados às relações familiares, entre eles conflitos entre pais e filhos e também como lidar com essas questões. Ao falar destes temas, a nossa expectativa é trazer ideias de como você pode superá-los. Mas, se você estiver passando por problemas emocionais, avalie se deve ouvir este conteúdo. Talvez seja preciso fazer isso na companhia de uma pessoa próxima, e se você for menor de idade, é importante que um adulto responsável por você esteja junto. Além disso, é importante lembrar que você pode buscar apoio emocional no centro de valorização da vida pelo telefone 188. Os voluntários do CVV vão te ouvir de forma totalmente sigilosa e anônima. Olá, eu sou a Cristiane Paião e começa agora mais um episódio do oxigênio, o podcast de jornalismo de ciência e cultura do Labjor, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp. Este é o primeiro – de uma série de três episódios – em que a gente vai mergulhar em um período lindo das nossas vidas – mas que também, pra algumas pessoas, pode ser um pouco conturbado… cheio de polêmicas, e de preconceitos. É, eu tô falando da adolescência. Eu não sei que idade você tem, mas quando eu me lembro dessa época, muita coisa vem na minha cabeça, são muitas memórias boas, ruins, algumas engraçadas, outras tristes… Leandro Magrini – Exatamente, Cris, geralmente… quando eu converso com as pessoas sobre esse período, todo mundo fala sobre como foram as mudanças no corpo, o impacto da chegada da puberdade. E justamente por ser uma fase marcante na vida de todos, é que cientistas da Unifesp – a Universidade Federal de São Paulo – se debruçaram sobre esse assunto nos últimos anos. Eu sou Leandro Magrini e vou acompanhar a cris nessa conversa. Cristiane – Eles fizeram parte de um projeto temático da Fapesp, que é a fundação de amparo à pesquisa do estado de são paulo e que deu os recursos pra eles estudarem tudo sobre a adolescência. Foram quase 40 pesquisadores envolvidos, de todos os níveis de formação// desde iniciação científica até pós doutorado, professores, inclusive de universidades de fora do Brasil. Leandro – E quem vai contar essa história pra gente é a professora Sabine Pompéia, responsável pelo projeto adole-sendo. Que se escreve com um hífen entre adole e sendo. A Sabine é do departamento de psicobiologia da Unifesp e participa da Rede Nacional de Ciência para a Educação. Ela estuda as bases biológicas do comportamento, em especial do processo de cognição – ou seja, de adquirir conhecimento.// Sabine Pompéia – “As pesquisas que eu faço, em geral, relacionam nossos comportamentos com a forma com que o nosso corpo funciona. E aí muitas pessoas não sabem muito bem o que significa comportamentos. Elas acham que comportamento só tem a ver com a forma com que a gente age, as nossas ações. Mas na verdade, comportamentos envolvem também a forma com que a gente pensa e percebe o mundo, percebe as nossas próprias emoções. Além de questões como aprendizagem, memória, atenção, bem como a forma com que a gente age. Eu estudava essas relações de comportamento com o corpo em adultos, mas isso mudou quando os meus filhos entraram na adolescência. Aí comecei a perceber um monte de coisas que eu comecei a achar muito interessantes no comportamento deles. Por exemplo, como que crianças acordam antes dos pais, a gente sempre era acordado pelas crianças,. Mas de repente eu não conseguia mais acordar meus filhos pra irem pra aula. Eu acordava muito mais cedo que eles. Outra coisa que é comum em crianças é ter, por exemplo, muito mau humor quando estão com fome, quando estão com sono. E aí comecei a perceber muitas alterações de humor nos meus filhos, muitas vezes ao longo do dia, sem ter relação com essas coisas e com esse mal estar mais imediato. A bagunça também, gente uma bagunça no quarto, bagunça de adolescente é diferente de bagunça de criança, então fiquei super curiosa com isso, eu não estudava esse assunto. Então eu comecei a estudar um monte de trabalhos científicos para tentar entender melhor o que estava acontecendo com os meus filhos. E aí eu percebi que tinha uns buracos assim nos nossos conhecimentos que tinham bem a ver com a minha área de atuação, que é como é que as transformações do corpo dos meus

Mar 24, 202339 min

#161 – Mudanças Climáticas e as Implicações do Relatório do IPCC: Episódio 2

Neste segundo episódio de Mudanças Climáticas e as Implicações do novo Relatório do IPCC (2021-2022) vamos continuar nossa conversa com a Nathalia, moradora da ocupação da Várzea em Recife, que foi bastante afetada pelas chuvas em maio de 2022; com Patrícia Pinho, pesquisadora do IPAM, e com o David Lapola , pesquisador do CEPAGRI, Unicamp, e que assim como Patrícia, também é autor do Sexto Relatório do IPCC. Se você não ouviu o episódio anterior, não deixe de ouví-lo antes ou depois deste. Neste episódio tratamos, entre outros assuntos, sobre (1) as contribuições que nossos convidados pesquisadores deram para o novo relatório do IPCC nos capítulos em que foram autores; (2) o papel que o Brasil representa no combate às mudanças climáticas; (3) como as mudanças climáticas já estão afetando a resiliência do bioma amazônico; (4) como o desmatamento e a degradação florestal agravam esse cenário em seus efeitos negativos sobre os serviços ecossistêmicos e nos modos de subsistência das comunidades tradicionais da Amazônia (indígenas, quilombolas e ribeirinhos); (5) e sobre as medidas ou estratégias já adotadas no Brasil para o enfrentamento das mudanças climáticas. ________________________ ROTEIRO Leandro Magrini: Este é o segundo episódio de Mudanças Climáticas e as implicações do novo Relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU. O primeiro episódio foi lançado em outubro de 2022. No mês seguinte, foi realizada a 27ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP 27, que aconteceu no Egito. Mayra Trinca: Depois de duas semanas de negociações que quase fracassaram, um grande avanço histórico foi conquistado na COP27. Finalmente os países chegaram a um consenso para estabelecer um fundo específico para perdas e danos para os países mais vulneráveis às mudanças climáticas. O objetivo do Fundo é que os maiores responsáveis pela crise climática paguem pelos prejuízos causados por eventos extremos nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Leandro Magrini: O desafio agora será como operacionalizá-lo, ou seja, colocar esse fundo em funcionamento. De acordo com o Instituto Climainfo, “ainda não há clareza sobre os termos dos acordos de financiamento. A avaliação de quais países pagam e quais recebem também será uma questão importante a ser definida”. Contudo, os países assumiram o “compromisso” de discutir a operacionalização do Fundo ao longo de 2023, até a COP28 deste ano, que acontecerá em Dubai, nos Emirados Árabes. Por outro lado, temas essenciais no combate ao aquecimento global como a eliminação dos combustíveis fósseis – que são responsáveis, no nível global, por 86% das emissões de gases de efeito estufa lançados na atmosfera na última década – foram, mais uma vez, deixados de lado no texto final da COP27. Leandro Magrini: Apresentamos agora este segundo episódio da série, logo após a mais recente tragédia devido a emergência climática, que aconteceu no litoral Norte de São Paulo em meados de fevereiro, e as vésperas do lançamento do último resultado do Sexto Relatório do IPCC, anunciado para o mês de março de 2023, que consiste numa síntese das três partes já divulgadas do Relatório. [vinheta Oxigênio] Mayra Trinca: Não, não foi uma chuva de verão! As chuvas que caíram entre sexta-feira (18) e sábado (19) de fevereiro no Litoral Norte de São Paulo foram as maiores registradas em 24 horas na história do país, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, e do Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet. Leandro Magrini: A chuva que caiu em Bertioga, 683 milímetros acumulados no período de 24h, é o maior registro da história do país. Em São Sebastião, cidade mais afetada do litoral Norte de São Paulo pelas chuvas, foram 627 mm. Na tragédia em Petrópolis, em 2022, foram registrados 534 mm. Mayra Trinca: Para cada milímetro de chuva que cai, o volume equivale a um litro de água despejado em uma área de 1 metro quadrado. Para se ter uma comparação, uma caixa d’água para uma casa de até 3 pessoas tem, em média, de 500 a 1.000 litros. Em São Sebastião, em que choveu cerca de 630 litros de água por metro quadrado, seria como se uma caixa d’água fosse despejada em cada m2 em 24h. Esse evento climático extremo resultou, até o momento, em pelo menos 54 vidas perdidas, mais de 30 pessoas desaparecidas, e 2500 desalojadas ou desabrigadas [atualizado para 65 mortes em 06/03]. Leandro Magrini: Em maio de 2022 as chuvas extremas ocorreram na região de Recife. No primeiro episódio, falamos desta tragédia, que é a segunda maior calamidade pública da história do estado de Pernambuco. De acordo com a Agência Pernambucana de Águas e Clima, o mês de maio registrou praticamente o dobro do total de chuvas em relação à média histórica dos últimos 30 anos. Foram 22 dias de chuva no mês e no dia de maior índice, no dia 28, foram registrados 190 mm. Em decorrência dos impactos e do número de pessoas afetadas pelas chuvas no fin

Mar 9, 2023

#160 – Emergências: Governança, Risco e Comunicação – Ep. 3: Desinformação e Jornalismo Científico

Neste terceiro episódio da série Emergências: Governança, Risco e Comunicação, a Fabíola Junqueira (@fabiolamjunqueira) e a Flora Villas (@flora.villas) falam sobre desinformação, principalmente sobre vacinas, e sobre como a Rede Globo e a Rede Record transmitiram informações científicas sobre a pandemia nos principais telejornais de domingo. Elas conversaram com a Mariana Hafiz e com o Rafael Revadam, pesquisadores do grupo CIRIS, que investiga Governança, Riscos e Comunicação no Brasil. Este episódio faz parte de uma série que fala sobre os trabalhos do grupo formado por pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A divulgação científica destes trabalhos é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. #ciência #unicamp #divulgaçãocientífica #fapesp #usp #unicamp #governança #fakenews #desinformação #gabineteparalelo #covid #vacina ________________________________________ Roteiro Fabíola Junqueira: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e este é o terceiro episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de estudar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. Flora Villas: Olá, eu sou Flora Villas e ao longo dos episódios você vai ouvir pesquisadores e pesquisadoras do grupo CIRIS, que fazem parte dos programas de mestrado e doutorado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além de outros cientistas e especialistas convidados. Fabíola: Neste episódio vamos falar sobre Desinformação. O que significa, como circula nos meios de comunicação, os impactos na nossa vida diária. E vamos falar também sobre como a Rede Globo e a Rede Record transmitiram informações científicas sobre a pandemia nos principais telejornais de domingo. Fabíola: Para entender um pouco sobre o que significa Desinformação conversei com a Mariana Hafiz, mestranda em divulgação científica e cultural e jornalista especializada em ciência pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, da Unicamp. Ela analisou diversas peças de desinformação sobre vacinas que circularam nas redes sociais durante os dois primeiros anos da pandemia de COVID-19. A Mariana selecionou e analisou peças de comunicação identificadas como Desinformação por agências de checagem participantes da Coronavirus Fact Alliance. Uma iniciativa mundial para checagem de informações. Mariana Hafiz: Eu estudo desinformação sobre vacina. Eu sempre tive mais interesse para pesquisa e estudar comunicação. Aí eu fui fazer especialização em jornalismo científico e comecei a explorar essa relação de ciência e sociedade, acabei acabando essa especialização em 2020, quando eclodiu a pandemia, né? E aí explodiu com a pandemia e vários temas vieram, né? Desinformação sobre a sobre as máscaras, sobre o próprio vírus e sobre as vacinas. E as vacinas me chamaram atenção porque é algo muito constitutivo nosso, né? Enquanto brasileiro a gente tem momentos marcantes na história Flora: O primeiro passo do estudo da Mariana foi mapear como surgiu a discussão sobre o tema. Quando começamos a falar sobre desinformação? Em que momento começamos a nos preocupar com a circulação de informações incorretas e começamos a tratar este fenômeno como algo de interesse científico? Mariana Hafiz: Como é uma área muito nova de pesquisa, desinformação a gente começa a estudar tanto nos Estados Unidos, na Europa e aqui no Brasil em 2016 e 2018, né? Então a gente tem um contexto ali da eleição presidencial dos Estados Unidos, que elege Donald Trump, que é quando a gente começa a falar de Fake News. Aí a gente tem aqui no Brasil, principalmente a eleição de 2018. É lógico que isso não são fenômenos que começam a acontecer aí, mas eles ganham uma relevância especial no debate público para começar a ser estudado de forma científica. E realmente a minha primeira dificuldade foi entender esses diferentes termos, né? Que antes a desinformação começa a ser estudada dentro de um contexto muito político, de eleições e plebiscitos. Fabíola: Em seguida foi necessário identificar as diversas formas de desinformação que circulam por aí. A Mariana encontrou alguns termos ainda sem tradução em português. Você já deve ter ouvido falar em Fake News ou Misinformation, não é mesmo? Mariana Hafiz: A primeira o que é mais é bem citada nos trabalhos que eu tenho olhado é essa tríade aí: Desinformação – que são conteúdos falsos e compartilhados intencionalmente. Então essa é uma definição que ela parte do pressuposto de que um conteúdo pode ser enquadrado mais ou menos como desinform

Feb 10, 2023

#159 – O mundo em 10 anos – Trabalho, juventudes e oportunidades

Conheça o podcast “O mundo em 10 anos”, para quem é curioso pelo futuro e quer saber o que pesquisadores e cientistas têm a dizer sobre as transformações que vão afetar a nossa vida. Produzido e apresentado por Luís Botaro, este primeiro episódio é sobre trabalho, juventudes e oportunidades e traz a economista Denise Guichard Freire, o economista Marcelo Manzano e a socióloga Julice Salvagni para falar sobre o mercado de trabalho para os jovens e temas como digitalização e plataformização do trabalho, empregos informais, Indústria 4.0 e Quarta Revolução Industrial, além de analisar como governos e empresas podem preparar os jovens para esse futuro. ROTEIRO DO EPISÓDIO Luís: Você já parou pra pensar como vai ser o mundo daqui 10 anos? Eu imagino que sim, porque se tem uma coisa que todo mundo é um pouco, é curioso. É a nossa curiosidade, inclusive, que move coisas incríveis como a ciência. Se hoje a gente usa o celular pra ouvir um podcast ou assistir um tiktok, é porque muitos curiosos, que depois se tornaram estudiosos e cientistas, trabalharam pra que isso fosse possível. A ciência tá até mesmo nas coisas que a gente nem percebe logo de cara: pra que um país saiba qual região vai precisar de mais abastecimento de água daqui a 5 anos, e você não fique sem tomar banho no dia de uma festa ou de uma entrevista de emprego, muitos conhecimentos precisam ser mobilizados, como a geografia, a física, a demografia, a engenharia e muito mais. Então, se você gosta de saber como as coisas funcionam e como elas podem se transformar ao longo do tempo, você tá no podcast certo. Meu nome é Luís Botaro, e nesse primeiro episódio de “O mundo em 10 anos”, eu chamei alguns especialistas para conversar sobre um tema muito importante, especialmente para os jovens que tão chegando agora na vida adulta: o trabalho. Por quais transformações a gente deve passar nos próximos anos? E os jovens, eles estão preparados pra elas? E quem vai ser mais afetado pela digitalização do trabalho? E os salários, estão melhorando ou estão piorando? Pra começar, eu quero que você imagine comigo dois personagens fictícios, mas que são baseados em dados reais sobre os jovens do Brasil. O primeiro é o Miguel, um jovem de classe baixa que terminou o ensino médio em atraso, já com 19 anos, e nem chegou a prestar o vestibular. Na pressa pra conseguir emprego, ele já trabalhou em um shopping e um supermercado, ocupações temporárias, mas que já ajudaram a juntar dinheiro para dar entrada em uma moto e começar a trabalhar como entregador por aplicativo — uma função que, segundo ele, “é mais cansativa, mas pelo menos garante algum dinheiro o ano todo”. E a gente também tem a Júlia, que é de uma família que tem uma renda um pouco melhor. A Júlia terminou o ensino médio com 17 anos e até prestou o vestibular de uma universidade pública, mas não passou. A sua família também não tem como bancar uma universidade particular, já que ela tem mais dois irmãos que, inclusive, ela cuida por meio período enquanto os pais estão no trabalho. Ela também já trabalhou no shopping no fim de ano e, de vez em quando, faz alguns freelas num buffet de festas infantis. A Júlia sabe que, em algum momento, vai fazer faculdade, já que tem estudado para o vestibular, mas enquanto isso não acontece, ela observa de longe alguns amigos que já estão indo para o segundo ano de curso. Com o Miguel e a Júlia, a gente tem exemplos do que mostram vários dados sobre juventude e o trabalho no Brasil. O IPEA, vinculado ao governo federal, mostra em um relatório de 2020 que a inserção de jovens no mercado de trabalho é marcada por entradas e saídas frequentes, geralmente em ocupações informais e que pagam pouco — algo que os dois personagens têm em comum. O mesmo relatório mostra que a taxa de desocupação dos jovens, ou seja, o desemprego, é maior do que na população em geral. Além disso, em 2019, cerca de 30% dos jovens entre 18 e 24 anos não estudavam e não trabalhavam, são os chamados “nem-nem”. Uma situação que descreve bem a trajetória da Júlia. Outra pesquisa importante sobre os jovens é o Atlas das Juventudes, feito pela FGV Social com outras instituições. A pesquisa mostra que a situação escolar é preocupante: até 24% dos jovens brancos e quase 40% dos jovens pretos ou pardos não concluíram o ensino médio. Outro dado que preocupa é que os jovens representam a faixa da população que mais teve redução de renda desde a crise que começou em 2014. Esses são alguns dados que mostram que a juventude brasileira é marcada por incertezas e vulnerabilidades num momento decisivo da vida. Aliás, o correto mesmo é falar juventudes, como o próprio Atlas usa, porque as juventudes são diversas e desiguais — em relação às classes sociais, etnias, gênero, mas também geograficamente. A minha conversa começa com a economista Denise Guichard Freire. Ela pesquisou os jovens que não estudam e não estão ocupados pra sua tese de doutorado, além de trabalhar há mais de duas décadas no IBGE com a síntese de indicador

Feb 2, 2023

#158 – Emergências: Governança, Risco e Comunicação – Ep. 2: Obstáculos e perspectivas para as Ciências

Neste episódio a Fabíola Junqueira (@fabiolamjunqueira) e a Flora Villas (@flora.villas) falam sobre dificuldades da ciência ao longo da história e sua relação com alguns governos ao longo do tempo. Elas conversaram com o professor Marko Monteiro, do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp e um dos líderes do grupo de pesquisa CIRIS, que investiga Governança, Riscos e Comunicação no Brasil. Este episódio faz parte de uma série que fala sobre os trabalhos do grupo formado por pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A divulgação científica destes trabalhos é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. ___________________________ Fabíola Junqueira: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e este é o segundo episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de pesquisar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. Flora Villas de Carvalho: Olá, eu sou Flora Villas e ao longo dos episódios você vai ouvir pesquisadores e pesquisadoras do grupo CIRIS, que fazem parte dos programas de mestrado e doutorado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além de outros cientistas e especialistas convidados. Fabíola: Neste episódio vamos falar sobre o cenário político da ciência atualmente e rever um pouco do histórico. Como a ciência foi vista e cuidada no Brasil ao longo do tempo. [vinheta oxigênio] Fabíola: Às vésperas do primeiro turno das eleições de 2022 no Brasil, uma das mais importantes revistas científicas do mundo, a Nature, publicou um artigo sobre o que o futuro presidente da república pode significar para a ciência no país. O artigo foi escrito por Jeff Tollefson. Experiente repórter nas áreas de ciência ambiental e políticas públicas que envolvem mudanças climáticas, energia e desenvolvimento global. Questões muito importantes. Questões que devem ser refletidas e discutidas no Brasil principalmente depois de escancaradas as diversas crises pelas quais estamos passando. Thiago Ribeiro: “Em junho, a Academia Brasileira de Ciências divulgou um relatório para os diversos candidatos que concorrem à presidência do Brasil, pedindo investimentos em ciência, educação e desenvolvimento sustentável. Apenas um respondeu. Representantes da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas à medida que as eleições de 2 de outubro se aproximam, visitaram cientistas na academia do Rio de Janeiro algumas semanas depois.” Fabíola: A Academia Brasileira de Ciências foi fundada há mais de 100 anos, com o objetivo de estimular o desenvolvimento da pesquisa brasileira e a difusão do conceito de ciência como fator fundamental do desenvolvimento tecnológico do país. À época da fundação, em 1916, somente as áreas Matemática, Ciências Físico-Químicas e Ciências Biológicas faziam parte da instituição. E somente treze anos mais tarde a publicação regular dos Anais da Academia Brasileira de Ciências foi assegurada. Flora: Muito tempo se passou e a nossa compreensão de ciência foi se transformando, se desenvolvendo, reconhecendo que ciência é muito mais do que as áreas calculáveis do conhecimento. Há diversas formas de se fazer ciência, a partir de diversas áreas, de diversos saberes. Quando falamos de ciência não estamos falando apenas das Ciências Duras, aquelas feitas em laboratórios de física, química, biologia, com o cientista usando jaleco branco e manuseando beckers e pipetas, por exemplo, ou fazendo cálculos complexos em lousas ou em computadores de ponta. Fabíola: Ao longo do tempo, a Academia Brasileira de Ciências foi incorporando outras áreas do conhecimento. Mas foi somente a partir do ano 2000 que a instituição abriu as portas para as Ciências Humanas. Área que envolve estudos como História, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Comunicação, Globalização e Humanização, Meio Ambiente, Literatura, Artes, Economia, entre outras. Áreas que estudam o ser humano como um ser social, que se relaciona entre si, que se relaciona com o mundo, com o meio ambiente, com o outro, sendo O Outro, um ser humano ou não humano. As ciências dos povos originários, por exemplo, consideram rios, animais e montanhas tão ou mais importantes do que eu ou você. Flora: Foi apenas em 2022 que uma cientista mulher assumiu a presidência da academia. A biomédica da Universidade Federal de São Paulo, Helena Nader, deve ficar à frente da instituição por três anos, até 2025. Isso significa representar as demandas da comunidade científica em um cenário de instabilidades políticas vi

Dec 8, 2022

#157 – Velhices digitais

O uso frequente da internet por pessoas acima de 60 anos passou de 44,8% em 2019 para 57,5% em 2021, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a PNAD Contínua, sobre Tecnologia de Informação e Comunicação, feita pelo IBGE. Em entrevista para a Mayra Trinca, Cíntia Liesenberg, conta um pouco sobre o que encontrou em sua pesquisa sobre a relação dos idosos com o mundo digital que aparece em matérias da revista Longeviver. ROTEIRO – VELHICES DIGITAIS MAYRA TRINCA: A nossa relação com o meio digital anda tão íntima, que às vezes parece que a tela é uma extensão, um membro a mais que se conectou ao nosso corpo. Parece que mais um pouco, dá pra ouvir o aparelho falando com a gente. Só que, ao contrário do que a gente pensa, não são só as gerações mais novas que estão passando por essa simbiose com o mundo digital. Os velhinhos, as velhinhas, os senhores e as senhoras também estão cada vez mais conectados. NARRAÇÃO de LENDRO MAGRINI: Justo eu, Astrogildo, laptop de Clotilde, aluna do curso Narrar é Longeviver, fico sem internet ao começar a primeira aula. Sei que tenho trazido alegrias, mas também dificuldades para minha dona que tem 83 anos e parcos conhecimentos da tecnologia moderna. Durante décadas em que lecionou História, era muito chegada a alguns antigos companheiros, usando com maestria o mimeógrafo, o xerox e, finalmente, o maravilhoso FAX. Agora que descobriu que gosta de escrever, vive implicando para eu ser mais eficiente, mas não sou infalível, Clotilde. Sei que, hoje em dia, tenho um grande rival, o tal de WhatsApp. Rápido demais, cheio de mentiras e denúncias maldosas. Mas até que pode ser útil. Para avisos e convites, é bom. Mas tem coisas que só eu faço, como transcrever as narrativas da Clotilde, cheias de admiração e carinho, pelos fatos que gosta de contar. MAYRA: Você acabou de ouvir o trecho de uma coletânea publicada este ano pelo Portal do Envelhecimento e Longeviver. CÍNTIA LIESENBERG: Foi um livro feito na pandemia, chama “2020: o ano que o mundo se afetou”. MAYRA: O livro é resultado de um curso de escrita ministrado pela jornalista e pesquisadora Cremilda Medina, e voltado para a população da terceira idade. CÍNTIA: Eu participei do curso, e aí é muito interessante, porque era um curso sobre narrativa a professora, né chegando aos seus 80 anos, então foi um curso riquíssimo, porque uma jornalista de trajetória belíssima, né?, que se apresenta, que se coloca conversando por meios digitais. E aí a maioria das pessoas que participaram do curso, e pessoas de diversas regiões do país, pessoas acima de 60 anos e depois todas construíram narrativas, todas usando mídias digitais, escrevendo em mídias digitais. CÍNTIA: Meu nome é Cíntia Liesenberg, eu sou professora da PUC de Campinas, sou relações públicas e dou aula no centro de linguagem e comunicação MAYRA: A Cíntia tá aqui hoje pra falar sobre um assunto que foi tema do doutorado dela e que agora tá sendo aprofundado num edital de pesquisa do Itaú, com o Portal do Envelhecimento. MAYRA: Eu sou a Mayra Trinca e nesse episódio você ouve sobre idosos, participação e apropriação de mídias digitais. MAYRA: Se você escutou nosso último episódio, “Morreu de velho não existe”, vai perceber que ele conversa muito com este aqui. Nele, falamos sobre a expressão “morrer de velho”, mostrando que ela não é verdadeira, e quais podem ser as consequências da propagação de ideias como essa na vida e na autoestima dos idosos. Se você ainda não ouviu, volta lá pra ouvir depois. MAYRA: A Cíntia começou a investigar esse assunto no doutorado, que ela defendeu em 2019. Foi uma pesquisa sobre como os idosos eram representados nas matérias publicadas pelo Portal do Envelhecimento. CÍNTIA: Eu fiz uma pesquisa bem ampla, tinha vários recortes, né, eu estudei pessoas anônimas, celebridades, pessoas centenárias, e velhices LGBTI. E dentro desse recorte vários dos sujeitos que eu pesquisei, lidavam com as mídias e a população 60 mais e é isso me chamou bastante atenção MAYRA: Depois do doutorado, ela resolveu se aprofundar mais no tema, aproveitando materiais que já tinha coletado mas também indo em busca de novas fontes. CÍNTIA: Eu estudei a revista “Longeviver”, que é do portal do envelhecimento, e uma revista do SESC, se chama “Mais 60”. Essas revistas são muito ricas, porque elas trazem relato de experiências, elas trazem atividades intergeracionais, elas contam esse processo que foi sair do analógico pro digital no momento da pandemia. E aí como uma série de atividades foram reapresentadas. É uma criatividade imensa do universo que envolve as pessoas que estão lá trabalhando com os idosos e também as ideias dos idosos para aprimorar e aperfeiçoar esse aspecto. MAYRA: Nesse segundo recorte, a Cíntia percebeu que surgiram mais materiais com uma abordagem diferente, que acabou definindo a pergunta central da pesquisa atual: CÍNTIA: Como essa como a mídia divulga é esse processo de apropriação digital por idosos e iniciativas de inclusão en

Dec 1, 2022

# 156 – “Morreu de velho não existe”

Embora seja muito comum ouvir essa frase sobre a morte de alguém que conhecemos, a expressão morreu de velho não condiz com a realidade. Velhice não é uma doença, não pode ser a causa da morte de ninguém. Foi mais ou menos essa a resposta recebida pela jornalista Karina Francisco, dos três profissionais que ela entrevistou para o episódio: Guita Debert, antropóloga e professora aposentada do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp; Alexandre Kalache, médico, gerontólogo e ex-diretor do departamento de envelhecimento e saúde da Organização Mundial da Saúde, e Daniella Nunes, enfermeira e professora da Unicamp, que lidera o Grupo de Pesquisa em Tecnologias e Cuidado no Envelhecimento. Nosso episódio trata dos processos do envelhecimento, que a velhice é muito heterogênea no Brasil, e que as condições de vida influenciam muito em como a velhice vai ser experienciada por cada pessoa dependendo de sua condição socioeconômica. E que a idade pode trazer novas e boas experiências, novas atitudes em relação à vida e aos relacionamentos. _____________________________ Roteiro Karina Francisco: Se você já perguntou a alguém de que morreu uma pessoa idosa é muito provável que tenha recebido como resposta algo como “ah, morreu de velha, né? Já tinha passado dos oitenta”. Mayra Trinca: Essa ideia de morrer de velhice é tão comum, que até o médico da família real britânica colocou velhice como causa de morte do marido da rainha Elizabeth, que faleceu no ano passado, aos 99 anos. Fato que incomodou muito o ex-diretor do departamento de envelhecimento e saúde da OMS. Alexandre Kalache: Pô, deve ser um bom médico, né? Pra tratar lá dos príncipes, da rainha, etc. E no atestado de óbito colocou: velhice. Ah, não. Que eu vou morrer velho sei, porque já sou, mas não vai ser de velhice. Vai ser de doença com o nome e sobrenome. Mayra: Também aconteceu, no ano passado, uma tentativa de adicionar o envelhecimento no CID, um documento internacional que lista e classifica as doenças. Com isso, seria mesmo possível considerar velhice como causa de morte. Karina: Eu sou Karina Francisco. Mayra: E eu sou a Mayra Trinca. Nesse episódio do Oxigênio, vamos investigar se realmente dá pra morrer de velhice e quais as implicações dessa ideia na vida das pessoas idosas. Karina: No ano passado, a morte do Duque de Edimburgo, o marido da rainha, ganhou as manchetes, mas não causou grandes surpresas, afinal, Philip já estava com 99 anos. Mais surpreendente talvez tenha sido a morte de sua esposa, a Rainha Elizabeth, no início de setembro deste ano. Mayra: A rainha era famosa na internet pelos memes sobre sua longevidade, e estava com 96 anos. Nos meses antes da sua morte, a rainha diminui suas aparições públicas e o palácio indicou que isso se devia a problemas de saúde. Karina: Depois da morte dela, alguns jornais publicaram que a rainha “faleceu após uma deterioração rápida no estado de saúde que a deixou sob observação médica”, outros colocaram ainda como “em decorrência de uma piora de saúde”. Mayra: Ou seja, existia um problema de saúde. Entretanto, o palácio afirmou apenas que ela teria morrido pacificamente. Quando seu atestado foi divulgado, apontou a causa mortis apenas como “velhice”. Isso mesmo, a rainha morreu de velha. Karina: Pode parecer estranho, mas é bem comum casos em que idosos têm “velhice” como causa de morte. Mas como é possível morrer de velho? É claro que pessoas morrem de parada cardíaca, inatividade cerebral, falência múltipla de órgãos, entre muitas outras doenças. Qual é a diferença entre envelhecer e ficar doente? Daniella Nunes: Na verdade o envelhecimento é um processo irreversível. A gente vai ter o declínio das nossas funções físicas e durante esse processo de envelhecimento eu posso ter uma doença. Mayra: Essa é a Daniella Nunes, enfermeira e professora da Unicamp, liderando o Grupo de Pesquisa em Tecnologias e Cuidado no Envelhecimento. Ela explicou pra gente que o envelhecimento é marcado por uma queda nas capacidades intrínsecas do indivíduo. Daniella: Que que envolve capacidade intrínseca? Envolve várias condições do indivíduo, acuidade visual, acuidade auditiva, capacidade emocional, psicológica, cognitiva, mobilidade e aspectos relacionados à vitalidade que tá muito atrelada à questão nutricional Karina: É claro que esse processo envolve também o sistema imunológico, o que acaba realmente tornando as pessoas mais vulneráveis às doenças. A Daniella chamou esse processo de imunossenescência e explicou pra gente que: Daniella: As funções de defesa do nosso corpo, elas são diminuídas, então por isso que o idoso tem que todo ano fazer o reforço a vacinação para gripe, para prevenir essas infecções virais que podem prevenir, por exemplo, a pneumonia, que pode gerar um agravo muito grande para essa pessoa idosa. Mas não quer dizer que o envelhecimento é doença. Mayra: A gente também conversou sobre esse assunto com a Guita Debert, antropóloga e professora aposentada do Instituto de Filosofia e Ciência

Nov 19, 2022

#155 – Vida com Saúde – ep. 3 : Câncer de mama: da ciência à prática clínica

Falamos muito da importância da ciência, mas qual é o impacto dela na vida das pessoas? Neste episódio, vamos entender como as descobertas científicas relacionadas ao câncer de mama se aplicam no dia a dia da prática clínica e permitem uma melhor qualidade de vida às pessoas diagnosticadas. A jornalista Ludimila Honorato conversou com a oncologista Debora Gagliato e com a produtora de conteúdo Jussara Del Moral, que falam sobre suas experiências como médica e paciente. ____________________________________ Jussara Del Moral – Meu nome é Jussara Del Moral, eu tenho 58 anos, sou criadora de conteúdo, uma apaixonada pela vida, que se cura todos os dias. Ludimila – O termo “cura” nessa fala da Jussara pode ter um significado diferente daquele que conhecemos. É que faz 15 anos que ela trata um tipo de câncer de mama que, na maioria dos casos, não tem cura. Jussara – Eu não falei no começo da minha apresentação, mas sou paciente com câncer de mama metastático e eu não falo porque, às vezes, eu esqueço. Porque eu vivo uma vida tão absolutamente normal, mesmo com essa condição de ser paciente, porque o meu normal é um pouco diferente do normal de todo mundo, mas, enfim, para mim é normal. Ludimila Honorato – Meu nome é Ludimila Honorato e esse é o Vida com Saúde, um podcast de encontro entre pessoas e saúde pelas lentes da ciência. Essa série tem parceria com o podcast Oxigênio. Neste episódio, a gente vai entender como descobertas científicas relacionadas ao câncer de mama se aplicam na prática e permitem uma melhor qualidade de vida às pessoas diagnosticadas. Ludimila – Um câncer é considerado metastático quando as células afetadas pelo tumor em uma região se espalham para outras áreas do corpo. Elas se espalham pela corrente sanguínea ou pelo sistema linfático. No caso da Jussara, ela foi diagnosticada com câncer de mama pela primeira vez em janeiro de 2007. O tratamento envolveu cirurgia, quimioterapia, radioterapia e ela ficou bem. Dois anos depois, ela recebeu o diagnóstico de câncer metastático nos pulmões, o que quer dizer que as células do câncer original tinham ido para outra região, para os pulmões da Jussara. Jussara – Eu sempre fui muito bem informada. Desde o dia que eu descobri que eu tinha câncer, eu comecei a me informar sobre o assunto, eu sabia o que era metástase. Ludimila – Sim, estar informada ajudou a Jussara a entender aquele novo diagnóstico, de que o câncer tinha se espalhado. Por estar envolvida pessoalmente com o câncer de mama, ainda mais do tipo metastático, ela percebe mudanças no tratamento ao longo do tempo. Jussara – Sem ser técnica, só paciente, eu consigo ver um avanço muito grande da ciência em relação ao câncer de mama. Eu vou dizer da minha percepção, de como as pacientes estão vivendo muito mais com câncer de mama metastático, por exemplo, que é o que eu tenho. Ludimila – Não é só percepção da Jussara, não. A ciência tem mostrado isso, que há grandes avanços nos tratamentos de câncer no Brasil, e que representam aumento do tempo de vida das pacientes. Um estudo brasileiro feito com mais de 5 mil mulheres com câncer de mama em diferentes estágios, que foram atendidas no A.C. Camargo Cancer Center, calculou a porcentagem de pacientes que vivem ao menos cinco anos após o diagnóstico e tendo passado por tratamento. É a chamada sobrevida. No caso daquelas que tinham câncer de mama metastático à distância, em que o segundo tumor aparece numa região distante do original, essa sobrevida passou de 20,7% no ano 2000 para 40,8% em 2012. Ao considerar a média de todos os estágios de câncer, com e sem metástase, a taxa passou de 82,7% para 89,9% no mesmo período. Mas para chegar a esse resultado, muitas pesquisas foram feitas, muita gente estudou muito para conseguir pistas e respostas para a questão. Foi o avanço na ciência, com descobertas relevantes, que permitiu, na prática, que a sobrevida das pessoas diagnosticadas com câncer fosse ampliada. Como exemplo, um artigo publicado em 2017 na revista eCancer por pesquisadores do Brasil e da Bélgica traça um panorama do tratamento do câncer de mama. Os autores dizem que o câncer é uma das doenças mais antigas já descritas, sendo que, desde o antigo Egito, já havia tentativas de tratar e curar essa doença. No caso do câncer de mama, o crescente conhecimento sobre a biologia da doença e as melhorias nos tratamentos permitiram mudar a abordagem. Se antes o câncer era uma condição sem cura, hoje é possível fazer cirurgia para retirar o tumor, há tratamentos variados que se adequam melhor a cada tipo de câncer e existem medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais. Muita coisa mudou. E mudou para melhor. Debora Gagliato – Mudou muito. Quando eu comecei a tratar exclusivamente câncer de mama, em 2010, são já 12 anos, basicamente, os pacientes recebiam muito mais quimio do que hoje em dia. Ludimila – A observação é de Debora Gagliato, oncologista clínica especializada em

Nov 10, 2022

#154 – Emergências: uma série sobre Governança, Risco e Comunicação

Neste episódio a Fabíola Junqueira e a Flora Villas falam sobre o oitavo workshop realizado pelo GEICT, o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia da Unicamp, realizado em parceria com o grupo CIRIS, dedicado a pesquisar Governança, Risco e Comunicação a partir da crise da COVID-19. Elas conversaram com as professoras Simone Pallone, do Labjor/ Unicamp, Gabriela Di Giulio, da Faculdade de Saúde Pública da USP, e com o professor Marko Monteiro, do Instituto de Geociências da Unicamp, líderes de pesquisa do grupo. Este episódio faz parte de uma série que fala sobre os trabalhos do grupo CIRIS, formado por pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A divulgação científica destes trabalhos é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. __________________________________________________________________ Roteiro Fabíola Junqueira: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e este é o primeiro episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de pesquisar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. Flora Villas: Olá, eu sou Flora Villas Carvalho e ao longo dos episódios você vai ouvir pesquisadores e pesquisadoras que fazem parte do grupo CIRIS, dos programas de mestrado e doutorado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além de outros cientistas e especialistas convidados. Fabíola: Neste episódio vamos falar sobre um aspecto essencial da ciência, o compartilhamento do conhecimento. Mais do que pesquisar, questionar e investigar, é papel da ciência compartilhar com os pares e com a sociedade as descobertas, reflexões, dúvidas, desafios e construções de pensamento que surgem ao longo do processo de compreender um fenômeno. Vamos falar também sobre o primeiro workshop realizado pelo grupo CIRIS em parceria com o GEICT, o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia da Unicamp. Fabíola: No dia três de outubro de 2022 aconteceu o oitavo workshop de compartilhamento de pesquisas e reflexões do GEICT, o grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia da Unicamp. Já faz parte do calendário de atividades do grupo este tipo de encontro em que os pesquisadores compartilham seus trabalhos e debatem sobre as pesquisas. Mas este ano o evento contou com a participação de pesquisadores do grupo de estudos sobre Governança, Risco e Comunicação, o CIRIS. Marko Monteiro: Então, Fabíola, o CIRIS é um projeto coletivo da Simone Pallone, Gabriela di Giulio e eu. Que enfim, nós temos colaborações diversas esparsas há muitos anos e com a pandemia a gente se viu colocado esse desafio de várias pesquisas ligadas a COVID. Eu e Gabriela começamos a colaborar diretamente em dois projetos, né o COMPCORE a Rede COVID de Humanidades. E aí a gente entendeu que já tava madura a nossa colaboração para a gente propor algo mais consolidado. A gente tá tentando construir, na verdade, esse projeto de pesquisa representado por essa coisa da governança, risco e comunicação. E a ideia sempre foi produzir um laboratório permanente de de pesquisas nesses campos e por isso que nós três decidimos montar isso, né? A partir da ideia da Gabi e da Simone, 03:15 Flora: Este é o professor Marko Monteiro, professor e pesquisador do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, ele é um dos líderes do grupo CIRIS e também orienta trabalhos de pesquisadores do GEICT. Para o próximo episódio desta série, “Obstáculos e perspectivas para as Ciências​​”, ele falou com a gente sobre as guerras da ciência. Vale a pena conferir. Fabíola: Como você ouviu, a ideia do CIRIS surgiu em parceria com a Gabi e a Simone. A Gabi é a Gabriela Marques Di Giulio, professora do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, a USP. Ela pesquisa sobre Ambiente e Sociedade, Ciência e Comunicação, Riscos e Incertezas, Comunicação e Governança do Risco, Percepção de Risco e Mecanismos de Participação Pública. Atualmente Gabriela é vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados, também da USP. Flora: A seguir ela conta pra gente o contexto em que surgiu o grupo de pesquisa e como os estudos abordam temas de quatro eixos centrais. Gabriela: O CIRIS surge em um momento bem interessante em que os nossos olhares e reflexões estavam muito endereçados à compreensão sobre as dinâmicas da crise da covid-19, dessa crise grave sanitária do ponto de vista de saúde pública, de saúde global, mas que tem f

Oct 31, 2022

#153 – Emergência climática e as implicações do Relatório do IPCC (ep. 1)

O sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, o IPCC foi lançado no primeiro semestre deste ano. Conhecido por AR6 (Assessment Report 6, na sigla em inglês) ele foi produzido por cientistas de destaque do mundo inteiro, divididos em três Grupos de Trabalho (GTs). No final de 2022 ou início de 2023 está prevista a publicação de uma síntese dos principais destaques de todo o relatório. Leandro Magrini entrevistou dois pesquisadores brasileiros que participaram da elaboração do relatório, que são a Patrícia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, o IPAM e o David Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, o Cepagri, da Unicamp. Os dois apresentaram para o Oxigênio algumas constatações do documento e já sugerem algumas medidas para mitigação das causas das mudanças climáticas, quanto de adaptação. Este episódio foi dividido em duas partes. ROTEIRO Leandro Magrini: “É pior, muito pior do que você imagina. A lentidão da mudança climática é um conto de fadas, talvez tão pernicioso quanto aquele que afirma que ela não existe, e chega a nós em um pacote de ilusões reconfortantes: a de que o aquecimento global é uma saga ártica, que se desenrola num lugar remoto; de que é estritamente uma questão de nível do mar e de litorais, não uma crise abrangente que afeta cada canto do globo, cada ser vivo; de que se trata de uma crise do mundo natural, não do humano; de que vivemos hoje de algum modo acima ou no mínimo protegidos da natureza, não inescapavelmente dentro dela e literalmente sujeitados a ela; de que a riqueza pode ser um escudo contra as devastações do aquecimento; de que a queima de combustíveis fósseis é o preço do crescimento econômico contínuo; de que o crescimento e a tecnologia que ele gera nos propiciarão a engenharia necessária para escapar do desastre ambiental; de que há algum análogo dessa ameaça, no longo arco da história humana, capaz de nos deixar confiantes de que sairemos vitoriosos dessa nossa medição de forças com ela. Nada disso é verdade!” Leandro Magrini: Esse é um trecho da abertura do livro “A Terra Inabitável: uma história do futuro”, de autoria do jornalista David Wallace-Wells, publicado originalmente em inglês em 2019, e traduzido para o português no mesmo ano. De 2019 para cá, apesar de estarmos falando de apenas 3 anos, podemos observar com nossos próprios olhos e também tomar conhecimento das constatações inequívocas da ciência, de que as consequências do aquecimento global e das mudanças climáticas – mais adequadamente nomeada como Crise ou Emergência Climática – estão ficando mais severas a cada ano. Nos últimos anos tivemos recordes sucessivos de eventos climáticos extremos e catástrofes por todo o planeta… Fernanda Capuvilla: Em meados de 2021, e neste ano, no final de fevereiro e na primeira semana de abril, tivemos a publicação, respectivamente, das três partes (ou volumes) do Sexto Relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. Esse relatório, também conhecido como AR6 (Assessment Report 6, na sigla em inglês) é produzido por cientistas de destaque do mundo inteiro, divididos em três Grupos de Trabalho (GTs). O 1º grupo se dedica às bases físicas das mudanças climáticas, ou seja, a parte de meteorologia e de modelagem da mudança do clima; o 2º grupo estuda a adaptação e as vulnerabilidades às mudanças climáticas; e o grupo 3 trata da mitigação das causas das mudanças climáticas, ou seja, da redução das emissões de gases de efeito estufa. Leandro Magrini: Ao longo de dois episódios conversaremos com dois dos autores brasileiros do novo relatório do IPCC sobre as mensagens principais do relatório e suas implicações para o Brasil, com maior atenção para a Floresta Amazônica e para o mundo. Os convidados são Patricia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, o IPAM; e David Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, o Cepagri, da Unicamp. Um destaque especial é dado à segunda parte do relatório, que tratou dos “Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades” das Mudanças Climáticas. Os impactos das mudanças climáticas também são exemplificados pelas consequências das chuvas extremas neste ano, na região metropolitana de Recife, pelo depoimento de Nathalia Gabriele Alves Davi, que dá voz a sua comunidade, que foi bastante afetada. No final de 2022 ou início de 2023 está prevista a publicação pelo IPCC de uma síntese dos principais destaques de todo o relatório. Leandro Magrini: Eu sou Leandro Magrini. Fernanda Capuvilla: E eu sou a Fernanda Capuvilla. [vinheta Oxigênio] David Lapola: O IPCC existe desde 1988. Ele lançou o primeiro relatório em 1990. Os relatórios foram ficando cada vez maiores, mais grossos porque as evidências sobre esse assunto foram ficando mais numerosas, certo? Mas esse primeiro relatório, se você voltar lá, ele está disponí

Oct 15, 2022

#152 – Vida com Saúde – episódio 2: ‘Não tente enfrentar tudo sozinho’

O suicídio é um fenômeno complexo, tem diversos fatores envolvidos e é um grave problema de saúde pública. Por isso, é preciso olhar para as muitas variáveis que levam à maior ou menor incidência do caso em grupos específicos. Neste episódio, o foco é na relação do suicídio com as condições socioeconômicas, sendo que as pessoas mais vulneráveis são as que estão em maior risco. Conversamos com a pesquisadora Daiane Machado, da Universidade de Harvard e Fiocruz/Bahia, e com a doutora em psicologia pela USP Karen Scavacini. Ludimila Este episódio da série Vida com Saúde vai tratar de temas difíceis, como depressão e suicídio. Ao falar desses temas, nossa expectativa é trazer ideias de como superá-los. Mas se você estiver passando por problemas emocionais, avalie se deve ouvir esse conteúdo. Talvez, seja preciso fazer isso na companhia de uma pessoa próxima, e se você for menor de idade, é importante que um adulto responsável por você esteja junto. Além disso, você pode buscar apoio emocional no Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188, em que voluntários vão te ouvir de forma sigilosa e anônima. Relato anônimo Eu estava com 33 anos de idade. Tinha acabado de me separar de um casamento de 7 anos, meus dois filhos eram pequenos e eu trabalhava de forma autônoma. Não foi um planejamento racional – algo que partiu de um plano estruturado -, mas uma reação visceral para encerrar uma dor que beirava o desespero. Ludimila O suicídio é um grave problema de saúde pública e muitas mortes por suicídio podem ser evitadas. Falar sobre esse tema é difícil, mas também é necessário e possível. Abordar o suicídio de forma correta e respeitosa pode, sim, salvar vidas. É por isso que esse episódio começa com um relato de uma pessoa que depois de oito anos do ocorrido, nunca mais pensou nisso. Essa pessoa preferiu não ser identificada, então a voz que você ouviu aqui é da Letícia Naísa, que vai narrar, ao longo do episódio, alguns trechos do depoimento que foi escrito pra gente. Ludimila Não é à toa que estamos falando de suicídio em um podcast sobre saúde. Muito relacionado à saúde mental, esse fenômeno é complexo, envolve aspectos sociais, culturais, psicológicos e diferentes fatores individuais, que é impossível dimensionar. E tudo está dentro de um grande guarda-chuva, que é o da saúde integral. Nesse sentido, a campanha Setembro Amarelo, mês de conscientização e prevenção do suicídio, dá maior visibilidade ao tema, que ocorre muito mais do que imaginamos. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que, no mundo, 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos. Só no Brasil, foram 14.540 registros em 2019, ou seja, quase 40 suicídios por dia. Como já mencionamos aqui, o suicídio é um fenômeno complexo e tem vários fatores envolvidos. Mas estudos populacionais têm mostrado que desigualdade social, baixa renda, desemprego e baixa escolaridade influenciam na ocorrência desses casos. E é especialmente sobre como as condições socioeconômicas influenciam na incidência de suicídio que vamos falar nesse episódio. Meu nome é Ludimila Honorato e esse é o Vida com Saúde, um podcast de encontro entre pessoas e saúde pelas lentes da ciência. Essa temporada tem parceria com o podcast Oxigênio. Daiane A desigualdade social, o desemprego e a baixa renda influenciam na ocorrência de suicídio de várias formas. Primeiro que todos esses fatores impactam no indivíduo de forma direta e indireta, tanto em termos psicológicos impacta na autoestima, no senso de merecimento, ocasionando uma situação de estresse e preocupação constante. E os sujeitos, nessas circunstâncias, podem se sentir em risco extremo, o que de fato estão. Ludimila Essa análise é da psicóloga Daiane Machado, mestre e doutora em saúde coletiva, saúde populacional e epidemiologia. Ela estuda o suicídio há mais de dez anos e atualmente é pesquisadora do tema na Universidade de Harvard e no Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz da Bahia. Daiane conta que, desde a graduação em psicologia, na Universidade Federal da Bahia, ela já se interessava pelos casos mais graves da área, em atender pessoas em risco de suicídio, e queria que sua atuação tivesse um impacto social. Daiane Mas, na época, não tinha nenhum curso, nenhum treinamento específico para os psicólogos atuarem na prevenção do suicídio. Então, eu comecei a trabalhar o tema através da pesquisa. Ludimila Um dos estudos mais recentes que ela desenvolveu com outros pesquisadores, publicado em maio deste ano na revista científica Plos Medicine, investigou a relação entre o programa Bolsa Família e a incidência de suicídio no Brasil. Daiane Nosso estudo vem mostrar isso, que a transferência de renda para a população brasileira mais pobre esteve associada a uma redução de até 56% no risco de suicídio entre os que receberam o benefício. Então, o benefício, além de assegurar o básico, como alimentação, ele também aumenta o acesso aos serviços de saúde, já que o sujeito vai conseguir pagar a

Oct 3, 202226 min

#151 – Dicionários temáticos: significados além das palavras

Neste episódio a Fabíola Junqueira e a Fernanda Capuvilla falam sobre dicionários temáticos na divulgação de ciência, promoção de debates e estímulo ao conhecimento. Elas conversaram com o professor José Luiz Ratton, pesquisador do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. Ele também é coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Crime, Violência e Políticas Públicas de Segurança da mesma universidade, organizador do “Dicionário dos negacionismos no Brasil”, publicado pela CEPE Editora neste ano de 2022, com a professora Sônia Corrêa, ativista e pesquisadora nos temas de gênero, sexualidade, saúde e direitos humanos e o professor Rodrigo Borba, docente do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, organizadores do dicionário “Termos Ambíguos do Debate Político Atual” realizado com apoio do Observatório de Sexualidade e Política (SPW) e Programa Interdisciplinar de Pós-graduação em Linguística Aplicada da UFRJ, também publicado em 2022. _________________ Roteiro Fabíola Junqueira: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e junto com a Fernanda Capuvilla te convido a nos acompanhar neste episódio do Oxigênio que vai falar sobre dois dicionários brasileiros, bem diferentes daqueles que a gente já conhece. Vamos falar de dois dicionários que nos ajudam a entender o momento histórico e político que estamos vivendo atualmente. São dicionários temáticos, ambos publicados neste ano de 2022. Será que estes dicionários fazem parte da divulgação científica brasileira? Será que eles realmente contribuem e estimulam o conhecimento e a promoção de debates? José Luiz Ratton: Você pode traduzir em termos menos herméticos aquilo que a linguagem de cada ciência ou disciplina do âmbito acadêmico científico discute em outro plano. É muito importante abrir esse espaço para mostrar para as pessoas. Abrir a caixa da ciência e mostrar as ferramentas, as engrenagens, como é que funciona e como é que isso pode, pode (em destaque a condição de possibilidade), não necessariamente, melhorar a vida das pessoas. De todas as pessoas, não só de algumas. Fabíola: Este que você acabou de ouvir é o professor José Luiz Ratton, pesquisador do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. Ele também é coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Crime, Violência e Políticas Públicas de Segurança da mesma universidade. José Luiz Ratton: Eu e o Zé, o … Fabíola: O Zé, a quem ele se refere, é o professor José Leon Szwako, pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Além de outros temas, ele pesquisa sobre as formas de mobilização e oposição às ciências como contramovimentos científicos, negacionismos, ceticismos, anti-intelectualismo e as formas acadêmicas de organização em defesa das ciências. Juntos eles organizaram o “Dicionário dos negacionismos no Brasil”, publicado pela CEPE Editora em abril deste ano, 2022. José Luiz Ratton: … nós vínhamos discutindo o tema, digamos, da anticiência, dos negacionismos, nos espaços acadêmicos da área de ciências sociais. Tanto em conversas informais quanto em mesas redondas, seminários e grupos de trabalho científicos, acadêmicos. O que acontece é que o Zé tem a ideia da gente organizar uma espécie de dicionário anticiência. É uma pauta que me interessava também e ele sabia. Eu proponho para ele, faço uma contraproposta, vamos discutir anticiência e vamos discutir os negacionismos, porque como há uma conexão entre posições anticiência e os negacionismos contemporâneos, que tal se a gente fizer uma questão mais ampla que abrange o fenômeno a partir de diversos olhares? Fabíola: O Dicionário dos Negacionismos no Brasil, que eles organizaram, contou com a colaboração de 112 especialistas que abordaram, em linguagem acessível, mais de 100 termos relacionados aos negacionismos identificados atualmente no Brasil. Fernanda: Olá, Eu sou Fernanda Capuvilla. O outro dicionário que vamos falar é o dicionário “Termos Ambíguos do Debate Político Atual: Pequeno dicionário que você não sabia que existia”. Sônia Corrêa e Rodrigo Borba: a resposta imediata foi muito bacana. Foi muito legal. E agora a gente tá trabalhando com outra equipe, uma nova equipe, eu e Sônia pra escrever mais quatro, são quatro, cinco verbetes novos até o final do ano. A gente tá monitorando o que esse povo tá fazendo. Fernanda: Esses que você ouviu são a Sônia Corrêa e o Rodrigo Borba. Ambos são responsáveis pela organização e atualizações periódicas do dicionário “Termos Ambíguos do Debate Político Atual”. Este material tem acesso livre, gratuito e acompanha o movimento dinâmico dos debates. O link de acesso está disponível na página do Oxigênio Podcast. [vinheta Oxigênio] Fabíola: A vivência da pandemia nos anos de 2020 e 2021 deflagrou divers

Sep 28, 2022

#150 – Divulgadoras científicas enfrentam o machismo nas redes sociais

Diariamente, divulgadoras científicas enfrentam o machismo nas redes sociais. Apesar de estarem cada vez mais presentes nas plataformas digitais falando sobre ciência, as pesquisadoras ainda encontram dificuldades que homens não precisam enfrentar. Neste episódio, o Oxigênio ouviu relatos das divulgadoras Sara Tatiane, historiadora e mestranda na UFMG, Ariel Strauss, estudante de Geografia na UFF, Yanna Martins, astrônoma e doutoranda no Observatório do Valongo, da UFRJ, e Lucy Souza, bióloga e doutora em paleontologia. ROTEIRO Voz masculina 1: Pediria, por favor, para pronunciar corretamente alguns nomes. Voz masculina 2: Só acho que você deveria usar uma máscara para cobrir o rosto, pois a sua beleza estava desviando a minha atenção. Voz masculina 1: Estranho seria alguém que se veste assim não ter depressão. Dimítria Coutinho: Esses são alguns comentários deixados por homens em conteúdos de divulgação científica feitos por mulheres nas redes sociais. Apesar de estarem cada vez mais presentes nas plataformas digitais falando sobre ciência, as pesquisadoras ainda encontram dificuldades que homens não precisam enfrentar. Sara Tatiane: Muitas vezes os problemas que eu tinha não era os problemas que os rapazes tinham. Muitas vezes, eles estavam preocupados com o engajamento, com outras coisas e a gente tinha tantas outras coisas para preocupar: é a roupa que a gente estava usando, porque a gente se culpava sobre isso porque as pessoas comentavam isso nos comentários. A nossa própria voz. Eu percebi isso, foi muito frustrante, que as pessoas não estão acostumadas a ouvir em mulheres e a entonação da voz, a sua voz, era irritante para eles. “Ai que voz fina que voz, que voz isso, você não está arrumado o suficiente ou você está arrumada demais”, sabe? E eu vi as meninas se culpando, ‘questionando sobre isso no Twitter ou às vezes no nosso próprio grupo falando, e os rapazes: “nossa por que que as pessoas estão preocupados com isso?”. Elas não estão, é porque você é mulher, né? Então acaba que sempre vai ter alguma coisa que não é interessante para elas. Acaba que os comentários que eu recebo das mulheres são totalmente diferentes dos comentários que eu recebo dos homens, né? Normalmente os meus vídeos, eles são muito longos. Então é entre 30 e 40 minutos e de 30 a 40 minutos eu falando sem parar muitas vezes o comentário que os homens deixam são relacionados a minha aparência ou corrigindo alguma coisa, e normalmente essa correção não tem nada a ver com o que eu falei, ou eu nem disse aqui aquilo, ou às vezes repetindo o que eu falei com outras palavras, sabe? Eu sinto que o público masculino ele tem uma necessidade de afirmar sobre as mulheres muito forte o conhecimento deles, a opinião deles, então não vai ter um vídeo de conteúdo que eu não vou postar em que algum homem tem alguma consideração a fazer. Dimítria Coutinho: Eu sou Dimítria Coutinho, e no episódio de hoje você vai ouvir relatos de mulheres que divulgam ciência nas redes sociais e enfrentam o machismo diariamente. Dimítria Coutinho: Quem falou agora há pouco é a Sara Tatiane, historiadora, mestranda na UFMG e divulgadora científica no Twitter, onde tem quase 2 mil seguidores, e no YouTube, no canal Plein Air, com mais de 3 mil inscritos. Além dos comentários machistas que ela recebe do público, a cientista conta que o problema é tão estrutural que vem, por vezes, até da própria comunidade de divulgadores. Quando comentou a adentrar esse universo, a Sara conta que teve bastante apoio, começou a participar de grupos de WhatsApp nos quais outros divulgadores já mais renomados ajudavam os ingressantes com dúvidas técnicas e de engajamento. Mas o que parecia ser um ambiente acolhedor, acabou se mostrando um ambiente tão machista quanto aquele que ela já estava acostumada a vivenciar na Academia. Sara Tatiane: Que foi um episódio sexual, sabe? Por parte de um dos divulgadores, e não era um divulgador comum, por assim dizer, era um divulgador que já tinha engajamento muito alto na mídia, nas plataformas que ele oferece o conteúdo dele e e ele tinha, dentro do grupo, ele era uma voz mais ativa, ele ajudava direcionar pessoas, principalmente mulheres que estavam chegando como eu. E eu cheguei até a ter um contato com ele através do WhatsApp e recebi várias mensagens de cunho não profissional. Só que na época eu eu meio que ignorei, assim, não me passou na minha cabeça que pudesse ser isso. E aí um tempo depois veio o exposed, né? As pessoas começaram a expor, mulheres, e os prints, e foi algo perturbador, porque o grupo de divulgação para ele era algo predatório em que ele pegava mulheres que estavam chegando no campo da divulgação científica, que queriam crescer, queriam apresentar o seu trabalho e ele utilizava isso para poder se aproximar delas, né? Inclusive com um proposta sexuais. Foi algo assim, muito horrível, sabe? E muitas dessas dessas meninas, eu conheci do grupo da divulgação, então quando a gente chegou a conver

Sep 23, 2022

#149 – Vida com Saúde – episódio 1: ‘Feliz com esclerose múltipla’

O podcast Vida com Saúde estreia no Agosto Laranja, mês de conscientização da esclerose múltipla. Neste episódio, vamos conhecer a história de Gustavo San Martin, de 35 anos, um administrador de empresas, pai, filho e irmão protetor que foi diagnosticado com a doença em 2011 e ressignificou essa nova identidade em duas associações de pacientes. Conversamos também com os cientistas Marcos Aurélio Moreira, que é neurologista, e Ana Maria Canzonieri, enfermeira especializada em saúde mental que atua com pessoas que vivem com esclerose múltipla. Roteiro Gustavo San Martin: Era como se tivesse um borrão no meu olho e aquele ardor de se tivesse entrado uma lágrima, uma gota de suor, aliás, no meu olho, como se eu tivesse fazendo um esporte contra o sol, você fica com aquele borrão e entra aquela gotinha de suor, começa a arder. Ludimila Honorato: Incômodo, né? O caminho natural foi buscar um oftalmologista, que fez uma avaliação muito rápida e disse que o problema era falta de óculos. Não satisfeito, Gustavo procurou outro médico e, no fim das contas, ele se consultou com um neuro-oftalmologista. Dessa vez, o especialista demorou mais tempo no atendimento e apontou algumas possibilidades. Gustavo poderia ter uma de cinco doenças: aids, câncer, sífilis, tuberculose ou esclerose múltipla. Seria um jogo de eliminação, um jogo nada agradável, por sinal, até restar somente uma opção. Gustavo: E ali naquele consultório, eu falei: ‘poxa, se eu tenho que ter uma dessas cinco, eu prefiro ter tuberculose porque hoje em dia se trata, né?’ Ludimila: Mas a gente sabe que não é simples assim, né? Não dá pra escolher. E mesmo que houvesse a possibilidade de escolha, era escolher entre cinco doenças, e não escolher não ter nenhuma. Gustavo: Eu me senti como se eu tivesse num quarto gelado escuro e eu sozinho. Ludimila: Aquele momento ainda é muito vívido para ele, mas não mais num sentido negativo. Porque o Gustavo de hoje já ressignificou aquele quarto escuro e gelado. Naquela época, ele não sabia, mas a vida podia ser muito boa, como de fato é hoje em dia. Gustavo: A gente fala muito de trocar preposição, sabe? Eu sou feliz mesmo com esclerose múltipla, apesar. Mas na verdade eu sou feliz com esclerose múltipla. Ponto. Ludimila: Eu sou Ludimila Honorato e esse é o Vida com Saúde, um podcast de encontro entre pessoas e saúde pelas lentes da ciência. Essa temporada tem parceria com o podcast Oxigênio e o primeiro episódio estreia durante a campanha Agosto Laranja, mês de conscientização sobre a esclerose múltipla. Gustavo: Meu nome é Gustavo San Martin, tenho 35 anos, em 2011 eu fui diagnosticado com esclerose múltipla. Eu me vejo como pai, sobretudo, do Bento, que tem 2 anos e 8 meses. Me vejo um esclerosado, uma pessoa que tenta, a partir da informação sobre esclerose múltipla, quebrar estigma, preconceito, sensibilizar a sociedade para, quem sabe, a gente encurtar essa jornada de diagnóstico. Então, me vejo um ativista social, de certa forma comunicador sobre saúde e sou feliz. Ludimila: Eu conheci o Gustavo em 2019, durante um evento sobre esclerose múltipla. Você já deve ter ouvido falar sobre essa doença na televisão ou mesmo nas redes sociais, porque muito se falou sobre ela quando as atrizes Claudia Rodrigues e Ana Beatriz Nogueira disseram publicamente que tinham essa condição de saúde. No dia do evento que eu conheci o Gustavo, ele contou um pouquinho da história dele e falou de uma cena que me marcou muito, que foi quando ele comunicou para a família dele que tinha sido diagnosticado com a doença. Ele vai contar isso de novo mais pra frente, segura aí. Mas entre o primeiro sintoma – aquele incômodo no olho – e a confirmação da doença, cerca de oito meses se passaram, um período em que ele esteve numa espécie de limbo da síndrome clínica isolada. Isso porque o Gustavo havia manifestado apenas um sintoma, algo isolado mesmo. E essa demora para confirmar o diagnóstico acaba sendo uma característica da esclerose múltipla. Marcos Aurélio Moreira: Os sintomas da esclerose múltipla, quando eles aparecem, né? Eles podem às vezes ter uma remissão espontânea, ainda mais as agudizações mais leves. Ludimila: Esse é Marcos Aurélio Moreira, neurologista que começou a estudar esclerose múltipla há pelo menos 20 anos e tem artigos publicados em diferentes áreas da saúde sobre esse tema. Quando ele fala de agudizações, quer dizer que um sintoma ficou mais agudo, aumentou de intensidade ou se agravou. E isso pode acontecer mesmo com sintomas mais leves, que não comprometem tanto o dia a dia. Depois que o sintoma passa, tudo parece voltar ao normal. Marcos Aurélio: Por isso também é um dos motivos que aquele indivíduo demora às vezes a fazer um diagnóstico. Tem esse exemplo também: ele tem a dormência, por exemplo, na perna e no braço direitos e geralmente esse paciente, inicialmente, não vai no neurologista, ele vai no ortopedista. O ortopedista avalia, vai fazer uma radiografia, não vai encontrar nada, e aí melhora e acaba

Aug 26, 2022

#148 – Como você se desloca na sua cidade?

O deslocamento das pessoas pelos centros urbanos é sempre uma preocupação, não só para os cidadãos, mas para o poder público, que deve fornecer o melhor tipo de transporte para a população, sejam os ônibus, trens, metrô. Neste último episódio da série Cidades, o Oxigênio mostra algumas das opções de transporte coletivo, e como é o sistema em Campinas. Os entrevistados foram o Fernando Ribeiro, que é mestre em Sistemas de Infraestrutura Urbana pela Puc Campinas e a Renata Pereira, mestra em sustentabilidade e estudou justamente a mobilidade urbana sustentável em Campinas. Quem produziu esse podcast foram a Bianca Bosso, o Luís Botaro e a Mariana Meira, estudantes do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp. __________________________________________________ Roteiro Bianca Bosso: Quanto tempo você gasta no trânsito diariamente? Essa resposta pode variar bastante dependendo da sua cidade, do tipo de transporte que você usa e da distância entre sua casa e os locais onde você trabalha, estuda e se diverte. E pra entender quais são os fatores que influenciam essa resposta, nós entrevistamos especialistas e pesquisadores que vão falar um pouco sobre mobilidade urbana, mais especificamente na cidade de Campinas, no interior de São Paulo. Eu sou a Bianca, e esse é um episódio especial da série “Cidades” pro podcast Oxigênio. É com você, Luis! Luís Botaro: Pra começar nossa discussão sobre mobilidade urbana em Campinas a gente decidiu trazer alguns dados disponibilizados pela plataforma Moovit. Esse serviço atua na cidade oferecendo informações que ajudam os usuários do transporte público a descobrir os horários e as rotas dos ônibus e também o tempo de espera. Em média, as pessoas levam 49 minutos para completar uma viagem de ônibus. E nessa conta, a gente ainda pode adicionar o tempo de espera pelo ônibus, que é de cerca de 26 minutos. Somando isso tudo, desde o momento em que a pessoa sai de um ponto até o momento em que ela chega no destino, ela leva em média 1 hora e 15 minutos. E se a gente considerar que ainda tem a volta, são pelo menos 2 horas e meia de transporte por dia. Bastante tempo, né, Mariana? Mariana Meira: Pois é, Luís! Mas olha, esses números são um pouco diferentes dos dados apresentados pela EMDEC, Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas. Ela é quem atua em parceria com a Secretaria Municipal de Transportes e quem tem a concessão dos ônibus coletivos municipais. E segundo um relatório que ela publicou em 2019, esse tempo de viagem seria 9 minutos mais curto: ou seja, levaria 40 minutos no total. Só que esses dados do relatório são baseados em uma pesquisa de 2011 – 11 anos atrás – e por isso não refletem com exatidão a situação atual em uma metrópole que já mudou muito. Bianca: A boa notícia é que esse tempo pode mudar bastante com a implantação do BRT, uma sigla que quer dizer Ônibus de Trânsito Rápido. Esse projeto está sendo implantado em Campinas desde 2016, e a expectativa pra conclusão da obra não para de crescer na cidade, já que a previsão inicial era o final de 2020. Só que antes de falar sobre prazos, me fala, você sabe exatamente o que é o BRT? Luís: Para entender do que se trata esse projeto, a gente chamou o Fernando Ribeiro, que é mestre em Sistemas de Infraestrutura Urbana pela Puc Campinas. Na primeira resposta, ele explicou o que é o BRT e como ele vai funcionar na cidade. Vamos ouvir o que ele disse: Fernando Ribeiro: O BRT, atualmente em obras, será constituído de dois corredores principais, Ouro Verde e Campo Grande, que farão a ligação dos respectivos distritos ao Terminal Central, e também será constituído do Corredor Perimetral, que ligará os dois corredores principais. O BRT, ele está localizado nesta região específica de Campinas para atender dois dos maiores fluxos de transporte coletivo da cidade, que conectam os distritos ao centro e vice-versa. Então, ele tem o potencial de suprir as necessidades dessas regiões, mas não de Campinas como um todo, porque ele está localizado numa região específica da cidade. Porém, é esperado que, uma vez que haja um aumento da eficiência na região desses corredores, as linhas convencionais que alimentam e são alimentadas por esses fluxos também serão beneficiadas pelo aumento da eficiência. Então, vai existir um raio de influência desses corredores, por mais que não vai influenciar a cidade como um todo. Mariana: O Fernando explicou também por que é tão importante criar um sistema de ônibus que conecta os bairros mais distantes à região central de Campinas: Fernando: A configuração espacial da cidade de Campinas é caracterizada pela concentração da oferta de serviços e empregos, exigindo mais deslocamentos das áreas periféricas para as centrais. Bianca: Gente, é bem interessante perceber que os corredores do BRT foram projetados pensando especificamente na organização urbana de Campinas, né? Luís: Sim, Bianca, esse projeto de BRT foi pensado para

Jul 15, 2022

#147 – Veredas do Tietê

Veredas do Tietê foi o nome escolhido por Maíra Torres, Fernanda Pardini e Alexandre Hilsdorf, para esse podcast que compõe a série Cidades, que está sendo produzida pelos estudantes do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor. Com a ajuda do professor Janes Jorge, do departamento de história da Universidade Federal de São Paulo, o grupo conta histórias e curiosidades do Tietê, esse importante rio que corta praticamente todo o estado de São Paulo e que tem uma presença marcante na capital paulista. Um rio que já serviu para nado, competições de remo, pesca, navegação, extração de pedras e areia para construção, esgoto, que é muito lembrado pela poluição, mas que em determinados trechos é limpo e ainda tem uso recreativo. _______________________ Roteiro Alexandre Hilsdorf: Água do meu Tietê, Onde me queres levar? – Rio que entras pela terra E que me afastas do mar… É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável Da Ponte das Bandeiras o rio Murmura num banzeiro de água pesada e oleosa. É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras, Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca, Uma lágrima apenas, uma lágrima, Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê. [Vinheta Veredas do Tietê] Maíra Torres: Oi pessoal! Eu sou a Maíra Torres e estou aqui com meus colegas do curso de especialização de jornalismo científico da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo. Comigo está a Fernanda Pardini. Fernanda Pardini: Oi, pessoal! Maíra: E o Alexandre Hilsdorf, dono da voz que você ouviu recitar a poesia “A Meditação sobre o Tietê”. Alexandre: E aí, pessoal, tudo bom? Maíra: Essa é uma série de podcasts de seis episódios em que vamos discutir a importância do rio Tietê, suas origens e como a relação das pessoas com o rio e modo como o usam mudou ao longo dos anos, principalmente em seu trecho mais urbano. Bom, começamos aqui com uma poesia do Mario de Andrade, feita em 1945, pouco antes dele morrer. Na época ele aproveitou para discutir outros temas da modernidade que o incomodavam, e o rio, já super poluído, para ele, era um reflexo das consequências negativas dessas mudanças sociais, da forma como as pessoas passaram a usar o rio em si. A Fernanda, aqui do grupo, já trabalhou numa ONG que tinha um projeto de educação ambiental que navegava no Tietê na cidade de São Paulo lá em meados de 2007. Apesar de já fazer um tempinho, né, Fernanda, é uma experiência que você não esquece, né? Fernanda: Hahaha Pois é. Maíra: Qual a impressão que você teve sobre a percepção das pessoas em relação ao Tietê, durante o projeto? Fernanda: Então, Maíra, para quem mora na Cidade de São Paulo, em geral, as pessoas nem acham que dá para navegar no rio Tietê. As pessoas acham, tem gente que tem a experiência de ter navegado no interior, ir lá em Barra Bonita, passar pela eclusa. Mas, em São Paulo, a imagem do tietê é que ele é um esgoto. Mas, quando a gente embarcava o pessoal, lá na ponte do Limão ou no cebolão, quando eles chegavam dentro do rio, na verdade, eles achavam que era menos fedido do que fora, sabe? Maíra: Ai, que bom. Fernanda: E, assim, eles achavam que era mais interessante do que o que eles esperavam. Sabe? Porque dava para ver, às vezes, até uma capivara, uma coisa diferente. Alexandre: Sabe, Fernanda. Na verdade, parece que o rio Tietê são muitos rios em um só. Ele nasce limpinho, no meio de uma floresta, parece um corguinho, lá perto de Salesópolis, que é uma cidade que fica ali na divisa com Caraguatatuba, com São Sebastião e Paraibuna. Mas, o interessante é que a maioria dos rios normalmente, quando nasce, vai para o mar. Esse é o curso da maioria dos rios. O Tietê, não, O Tietê, ao invés de ir para o mar, ele vai para o interior de São Paulo. Nesse caminho, conforme ele vai ficando mais volumoso, ele vai passando por áreas bem urbanizadas e industrializadas, que é o caso da Região Metropolitana de São Paulo, e inclui cidades como Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Guarulhos e a própria São Paulo. Esse trecho, todo esse trecho, a gente conhece como alto Tietê, e é onde nós vamos concentrar nossa discussão dentro desse podcast. Mas, para entender a importância do Rio, a gente precisa falar um pouquinho dos outros trechos também. Depois do Alto Tietê, o rio vai seguindo, daí ele passa o médio Tietê, até o baixo Tietê, que é lá no rio Paraná, na divisa de São Paulo com o Mato Grosso do Sul. Ele deságua no rio Paraná. E, nesse caminho, o rio apresenta diversas cachoeiras e muitas barragens. Na verdade, o rio é bem interrompido por barragens para a geração de energia hidrelétrica. Maíra: E essa característica que você estava comentando do Tietê, de correr da Serra do Mar para o interior, foi o que deu para ele uma importância histórica. O rio Tietê, aliás, pra fazer um adendo, ele era antes conhecido como Anhembi ou rio das anhumas, uma ave típica da região, foi ganhar destaque com os Bandeirantes, que perceberam o potencial que o Tietê tinha. Mas o nome ti

Jul 7, 2022

# 146 – Sotaques variados dão o tom da língua brasileira

A forma de falar o português em algumas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, com o erre forçado, o caipirês, está perdendo espaço mesmo nessas localidades, segundo a pesquisa de Lívia Carolina Baenas. O aumento da escolaridade das pessoas, o avanço da tecnologia e da internet contribuíram com esse processo. No Brasil, assim como em outros países, as diferentes regiões adotam diferentes dialetos e com a migração pelos estados, ocorre tanto o estranhamento como a incorporação de novas palavras ou modos de falar, ou seja a língua é viva, sofre mudanças ao longo do tempo, e para as pessoas que vivem nas cidades, é preciso se adaptar aos diferentes sotaques. É disso que trata esse episódio, o terceiro da série Cidades, uma atividade da Oficina de Multimeios, do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor. A produção do episódio é de Fernanda Cruz, Luciene Telli e Patrícia Bellas, alunas do curso. A edição foi feita por Rafael Oliveira, bolsista do Programa PAPI, do Serviço de Apoio ao Estudante.

Jun 24, 2022

#145 – Ocupação da cidade para o bem-estar

Ocupar os espaços públicos é importante para garantir sua manutenção, segurança e melhorias. Fazer atividade física é fundamental para manter a saúde. Para algumas condições crônicas, como o diabetes, a prática de exercícios é ainda mais relevante. Então, juntar as duas coisas, ou seja, praticar atividade física visando a prevenção ou o tratamento do diabetes ao mesmo tempo em que se ocupa a cidade é o que fazem os entrevistados deste episódio. As jornalistas Ludimila Honorato e Letícia Naísa, alunas do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp , apresentam o episódio, que foi produzido por elas e editado por Richard Paião, aluno bolsista do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE). Roteiro Emerson Bisan: A Cidade Universitária é uma carta na manga e, para quem pratica esporte, aqui é a nossa praia. Letícia Naísa: Esse é o Emerson Bisan, maratonista e preparador físico. Ele tá meio ofegante porque, enquanto ele falava comigo, ele corria pelas ruas da Universidade de São Paulo, a USP. É por isso que você vai ouvir, ao longo desse episódio, barulhos de carros e de pessoas conversando. E claro que, pra gravar essa conversa com o Emerson, eu precisei correr com ele. Ludimila Honorato: Opa! Pera aí! Correr não é bem a palavra certa, né, Le? Acho que você e eu estávamos mais para caminhar rápido [risos]. Letícia: Tá bom, Ludi, concordo, vai! Bruno Helman: Tem essa dinâmica que é justamente a ideia de uma forma orgânica criar uma comunidade que utilize a atividade física, que utilize a ocupação do espaço público para uma vida mais ativa e mais saudável. Ludimila: Esse é o Bruno Helman. Ele e o Emerson fazem parte do Instituto Correndo pelo Diabetes, que foi fundado pelo Bruno. O Instituto reúne uma comunidade de pessoas com diabetes que usa o espaço público para correr e caminhar, que são atividades que ajudam no tratamento da doença. Letícia: No dia que a gente se conheceu, eles estavam organizando uma corrida na cidade universitária. Eram 8 horas da manhã de um sábado e o pessoal lá já tava animado, pronto pra correr. E a gente foi lá pra entender um pouco mais sobre essa ocupação do espaço público como um recurso pra saúde e pro bem-estar. Eu sou Letícia Naísa. Ludimila: E eu sou Ludimila Honorato. E você está ouvindo a estreia do Vida Com Saúde, um podcast desenvolvido para o curso de pós-graduação em Jornalismo Científico do Labjor, da Unicamp. Letícia: A estrutura das cidades pode favorecer ou dificultar a promoção da saúde das pessoas que vivem nelas. Por exemplo: morar perto de um parque pode reduzir o risco de infarto do miocárdio, mas se expor constantemente à poluição do ar pode aumentar esse risco. Um estudo feito por pesquisadores da USP analisou as relações entre o ambiente construído e a saúde coletiva. Eles avaliaram tópicos como: mobilidade e atividade física, ilhas urbanas de calor, conforto térmico e saneamento. Todos eles são importantes e estão relacionados entre si, mas a gente vai citar aqui só alguns pontos que têm mais a ver com nossa discussão. Os pesquisadores mostram que, do ponto de vista da saúde, os carros são prejudiciais. Isso porque eles diminuem a atividade física, contribuem para o isolamento social e causam estresse pelas longas horas perdidas no trânsito. Além disso, acabam poluindo o ar e geram uma barulheira insana! Ludimila: Ah, isso é verdade! Eu moro de frente pra uma avenida super movimentada [sons de carro em avenida] e é o dia todo com barulho de carros, motos, caminhões passando, buzinas, sirenes… Nossa, incomoda demais! E assim como os autores do estudo da USP contam, eu também sinto os efeitos de tudo isso: olhos ardendo, alergias, dor de cabeça. Sem contar que outros estudos indicam que se expor a altos níveis de poluentes, mesmo que por pouco tempo, aumenta a internação por doenças cardiovasculares e respiratórias. Letícia: Cara, é muito problema, né?! Será que toda cidade é assim? Como que faz atividade física nessas condições? Priscila Bezerra Gonçalves: Existem dois pontos principais a serem considerados pra que as pessoas usem mais o espaço público pra praticar atividade física. Ludimila: Essa é Priscila Bezerra Gonçalves, professora de Educação Física e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Atividade Física e Qualidade de Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a PUC PR. Priscila Bezerra Gonçalves: Primeiro seria ter espaços adequados, e aqui incluo não só a existência de um parque ou praça na cidade. O fato de uma cidade não ter calçada, ou esta estar sem condições de uso já dificulta, por exemplo, o deslocamento das pessoas até um mercado, padaria, escola. E o segundo é a segurança. Não basta ter o espaço e a estrutura em si. Se as pessoas não se sentem seguras, elas não utilizarão aquele espaço. Ludimila: Em 2018, a Priscila e outros dois pesquisadores da PUC PR publicaram o Ranking das Capitais Brasileiras Amigas da Atividade Física. Priscila: A cidade amiga da atividade física poss

Jun 2, 2022

#144 – Série cidades – Astrocity: Os efeitos da poluição luminosa para a astronomia

O primeiro episódio da série Cidades trata do tema da Poluição Luminosa, fenômeno causado pelo excesso de luzes acesas nas casas, edifícios, ruas ou escape de iluminação e que impede que se veja o céu noturno e os astros. A poluição luminosa pode afetar a saúde humana, colocar em risco a biodiversidade e ainda gera custos desnecessários para as cidades. Este é o primeiro episódio do Astrocity, um podcast que está sendo criado por alunas do curso de Especialização em Jornalismo Científico, do Labjor/Unicamp, associado ao Oxigênio. Tânia Dominici: Tem um fato que aconteceu, um blackout na Califórnia em 1954 e aí os telefones de emergência começaram a ser invadidos pelas pessoas ligando que tinha uma coisa no céu, que tinha um negócio no céu. E era a Via Láctea, né? As luzes da cidade tinham apagado por causa do blackout e as pessoas estavam vendo ali o centro da nossa galáxia, que é onde tem um adensamento maior de estrelas e regiões de gás, de poeira. As pessoas nunca tinham visto e acharam que aquilo era um óvni, um efeito perigoso. A gente perdeu a conexão com o céu noturno que foi base do nosso desenvolvimento tecnológico: contar o tempo, se localizar, começar a pensar ambientes com processos físicos que não são reprodutíveis no planeta pra entender melhor a física do universo. E a gente tá se desconectando disso. Dimítria Coutinho: Uma das grandes culpadas por essa nossa desconexão com o céu noturno é a poluição. Mas não é o tipo de poluição que a gente está mais acostumado a ouvir, como das águas, do ar ou até a visual. Aqui, estamos falando da poluição luminosa. Você já ouviu esse termo? É difícil pensar que a luz pode ser um poluente, né? Greta Garcia : É difícil mesmo… mas na prática você, que mora em uma metrópole, já olhou pro céu à noite e só viu escuridão? E quando viajou para alguma cidade no interior do seu estado, conseguiu observar o céu estrelado? Dimitria: E você, que vive em cidades menores e afastadas de grandes centros urbanos, que está acostumado a observar o céu iluminado pelos astros todas as noites: já viajou para alguma metrópole e, quando olhou para cima, não enxergou nada além de escuridão? Tânia Dominici: A poluição Luminosa é toda luz utilizada para além do seu objetivo. Então se você vai iluminar um local, mas essa luz escapa para outras para as redondezas ou se essa luz é excessiva para sua aplicação, você provoca a poluição Luminosa. Em particular, a gente na Astronomia se preocupa com a luz que é emitida acima da Linha do Horizonte. Então aquela luz artificial que vai na direção do céu, que não tem utilidade nenhuma para vida humana, mas que apaga as estrelas, apaga a visão do céu noturno. Dimítria: Eu sou Dimítria Coutinho. Greta: E eu Greta Garcia. Dimitria: Você está ouvindo o primeiro episódio do Astrocity, um podcast sobre a astronomia nas cidades. Bem-vindo! Greta: No episódio de hoje você vai entender porque a poluição luminosa é um problema para a observação do céu noturno. Dimitria: Como você ouviu agora na fala da Tânia Dominici, astrofísica e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, o uso incorreto de iluminação artificial nas cidades interfere na observação do céu noturno e, consequentemente, no estudo dos astros. Thiago Gonçalves: Eu acho que, de uma forma geral, em termos de tipos de ciência, todas as áreas da astronomia são afetadas, porque você tá apagando tudo que tá fora da atmosfera, que é justamente o objeto de estudo da astronomia. Greta: Quem acabou de falar é o Thiago Gonçalves, astrofísico da Sociedade Astrológica Brasileira. Esse impacto que ele mencionou aparece também num estudo publicado na revista Science em 2016, que estimou que o excesso de luz artificial durante a noite impede um terço da população mundial de enxergar a Via Láctea. Mas ter céus menos estrelados é apenas um dos prejuízos causados pela poluição luminosa. Dimítria: Para a sociedade, a poluição luminosa afeta a saúde humana porque a iluminação artificial interfere na produção de melatonina, hormônio que ajuda a promover uma boa noite de sono; além de trazer prejuízos econômicos na administração pública, uma vez que grande parte da energia utilizada para iluminar os ambientes externos é desperdiçada por ser direcionada incorretamente. Para o meio ambiente, coloca em risco a biodiversidade, por alterar o ciclo natural de vida das plantas e animais. Estudos, como uma pesquisa de 2020 da Universidade Tufts [tãfitis], nos Estados Unidos, mostram que milhares de espécies de vagalumes, por exemplo, estão mais próximas da extinção por conta da iluminação artificial, que atrapalha seus rituais de acasalamento. Greta: Esse é um tema bastante abrangente, porque se conecta com diversas áreas da nossa vida. Mas o nosso foco hoje é entender como a poluição luminosa prejudica os estudos de astronomia. Thiago Gonçalves: Mas a gente pode pensar também do ponto de vista do tipo de observação que se faz, de qual região do espectro eletromagnético você tá observando. Quer di

May 20, 2022

# 143 – Aporofobia: Rechaço, preconceito e hostilidade ao pobre

Neste episódio a Fabíola Junqueira e a Fernanda Capuvilla falam sobre o significado da palavra Aporofobia na vida cotidiana de pessoas em situação de rua no espaço urbano. Elas conversaram com o padre Julio Lancelotti que constantemente denuncia espaços hostis, com o professor Raimundo Ferreira Rodrigues que já esteve em situação de rua e hoje é doutorando em educação pela Universidade Federal do Tocantins e com a arquiteta Débora Faria que pesquisou sobre arquitetura hostil em seu projeto de mestrado. #aporofobia #padrejuliolancellotti #oxigêniopodcast _________________________________________________________________________ Roteiro Prof. Raimundo: A maioria do tempo na rua, dormia na rua. A minha situação de rua era essa, em busca de alimento, em busca de sobrevivência. E aí quando eu conseguia alguma coisa, a mais do que eu poderia comer, eu levava para minha mãe. Sofri bastante, tive muitas dificuldades, muitos impedimentos, mas nada disso me tirou a ideia da cabeça de um dia ter uma vida melhor e busquei correr atrás do meu sonho, que era ser professor. Fabíola: Olá! Eu sou Fabíola Junqueira e este que você acabou de ouvir é o Raimundo Ferreira Rodrigues, doutorando em educação pela Universidade Federal do Tocantins. Ele também é professor do ensino fundamental em Palmas. Hoje vamos falar sobre aporofobia e as dificuldades enfrentadas pela população em situação de rua. Fernanda: E eu sou Fernanda Capuvilla. Para fazer este episódio também falamos com o Padre Júlio Lancelotti, responsável pela pastoral do povo da rua em São Paulo e com a arquiteta Débora Raquel Faria. [vinheta Oxigênio] Fernanda: A história de vida do professor Raimundo é repleta de momentos de dificuldades para atender necessidades básicas de qualquer ser humano como se alimentar, ter um local seguro para dormir, ter acesso à educação e cuidados de saúde. Ele nos contou sobre sua infância em Varjota, no interior do Ceará. Prof. Raimundo: Passamos muitas necessidades, muita fome. Cheguei a desmaiar várias vezes de fome. E em um período também passamos sede porque faltava água na cidade e como não tínhamos casa, nem água encanada, morávamos de favor. A partir dos 7 anos eu comecei a entender um pouco mais as coisas e passei a andar na rua em busca de alimento como pedinte, pedia alimentos. Pedia de porta em porta na rua, nas casas, nas feiras… Fabíola: E no meio de tantas dificuldades, alguns encontros foram importantes para mudar o rumo da história de Raimundo. Certo dia ele entrou escondido em uma escola, onde costumava acompanhar algumas aulas pela janela do lado de fora, e pediu à secretária que o matriculasse. Ela, sensibilizada pelo pedido do menino, o matriculou. Prof. Raimundo: Tinha só o primeiro ano nessa escola. Daí eu frequentei o primeiro ano lá e nesse mesmo período eu continuei na rua, eu não tinha onde comer. E aí um dia eu parei em frente uma casa, tinha um pé de goiaba com muita goiaba. Subi, estava comendo as goiabas lá no pé, tinha só uma muretinha baixinha, e eu com fome … Fabíola: E nesse momento, enquanto Raimundo estava alí, entre os galhos da goiabeira, aconteceu um segundo encontro importante na vida do menino. Desta vez com uma senhora que morava na casa em frente à árvore. Prof. Raimundo: … eu subi nesse pé de goiaba, já tinha comido umas quatro goiabas. E aí a dona da casa saiu lá fora e me viu lá em cima desse pé de goiaba. Falou: “Oi, meu filho, tudo bem? Então, lhe vejo aqui sempre passando na rua. Vejo você pedindo comida. Você quer me ajudar aqui no meu jardim? Se você me ajudar, eu eu te dou comida todo dia e te dou mais um dinheiro.” Foi o que eu queria, né? Eu: “Sim, quero sim a ajuda da senhora.” Daí eu fiz um jardim para ela e ela me convidou para continuar fazendo a manutenção desse jardim. Foi quando eu disse que eu estudava nessa escola e ela conseguiu uma vaga numa escola que tinha até a quarta série, para estudar à noite. Eu passei a estudar à noite, cuidava do jardim dela e fiquei nessa um ano. Eu passei a viver melhor. Foi a minha chance. Eu agarrei com unhas e dentes. De lá para cá, até agora, nunca mais parei de estudar. Fernanda: Publicado no Brasil em 2020 pela editora Contra Corrente, o livro “Aporofobia, a aversão ao pobre: Um desafio para a democracia” foi escrito por Adela Cortina, uma filósofa espanhola. O termo dá nome a um fenômeno social antigo de aversão à pobreza tendo o pobre como alvo de ações hostis da sociedade e invisibilização nas políticas públicas. Pe. Júlio Lancellotti: A aporofobia é um termo cunhado pela filósofa espanhola Adela Cortina, que tem um livro chamado Aporofobia, que justamente busca nominar um fenômeno que é antigo, que não é novo, e ela até coloca que a Espanha recebe milhões de turistas, todos são bem-vindos desde que não sejam refugiados africanos, desde que não sejam etíopes, moçambicanos… Nos Estados Unidos, todo mundo é bem-vindo desde que não sejam refugiados de El Salvador, da Nicarágua, da Guatemala… Então, a ap

May 5, 2022

# 142 – Por trás da conta de luz: o futuro do setor elétrico – parte 2

A energia elétrica no Brasil é cara e estava mais cara ainda nos últimos tempos. A crise hídrica pode ser apontada como uma grande responsável, que levou o país a usar a energia produzida nas usinas termelétricas, até a semana passada. Mas outra razão é a falta de estímulo à modernização do sistema elétrico nacional, o que inclui inovação tecnológica, investimento em energias renováveis e expansão das linhas de transmissão. Quem faz essa análise sobre o futuro do setor elétrico brasileiro, é a Alessandra Amaral, meteorologista e co-criadora da empresa Solver Energia. Ela atua há mais de 10 anos no ramo da energia elétrica no Brasil. Esta é a segunda e última parte do episódio Por trás da conta de luz, produzido pelo Thiago Ribeiro, e apresentado por ele e pela Fabíola Junqueira. Thiago Ribeiro: Como o Brasil pode caminhar para se tornar menos dependente da energia que vem das usinas termelétricas, sobretudo em épocas de estiagem mais severa? Qual o futuro do setor energético brasileiro diante das mudanças climáticas? Como isso afeta o nosso bolso? Eu sou o Thiago Ribeiro e este é o segundo episódio sobre o mercado de energia elétrica brasileiro Fabíola Junqueira: Eu sou Fabíola Junqueira e nesse segundo programa vamos continuar nosso papo com a Alessandra Amaral que vai nos explicar melhor a dinâmica atmosférica, gestão elétrica e sustentabilidade. Lembrando que a Alessandra é meteorologista e co-criadora da empresa Solver Energia. Ela atua há mais de 10 anos no ramo da energia elétrica no Brasil [Vinheta Oxigênio] Thiago: Como dissemos no primeiro episódio, os leilões de energia têm sido a principal forma de expansão da oferta de energia elétrica no Brasil. Esse modelo dos leilões de geração e transmissão foram implementados em 2004, junto com o ‘novo modelo do setor elétrico’, visando sua modernização. Fabíola: Além da garantia de viabilidade dos projetos, a competitividade e a inovação, dentre esses objetivos também se propõe a inserção de novas tecnologias, tendo como base a neutralidade tecnológica. Isso significa que o Estado não deve impor preferências a favor ou contra tipos específicos de tecnologia. Thiago: Apesar desse novo modelo estimular a competitividade e a inovação, a Alessandra destacou que, durante o período de 2012 a 2016, mais de 60% do investimento em energia no Brasil foi destinado para a instalação de parques eólicos. Porém, esse crescimento não foi acompanhado da expansão das linhas de transmissão. Alessandra Amaral: Ou seja, o que adianta você ter toda a energia sendo gerada no Nordeste, sendo que lá não se consome toda essa energia? Você vai precisar, obrigatoriamente, transferir pra cá. Então, se você constrói parque eólico e você não constrói linha de transmissão, esquece. E, basicamente, durante anos, só a eólica foi vencedora desses leilões como um todo, e ocasionou um desbalanço na nossa matriz energética. Fabíola: Vale lembrar que os leilões de transmissão de energia elétrica seguem, praticamente, o mesmo processo dos leilões de geração. No entanto, a Empresa de Pesquisa Energética deve realizar um estudo prévio, contendo um planejamento de médio e longo prazo, que precisa ser outorgado pelo Ministério de Minas e Energia antes de ser submetido à consulta pública. Thiago: Outra diferença é que, após a consulta pública, o edital deve ser avaliado pelo Tribunal de Contas da União – o TCU, antes de ter sua versão definitiva publicada. É o TCU quem avalia o valor a ser oferecido nos leilões de transmissão de energia elétrica para que este seja competitivo no mercado. Fabíola: Esse mecanismo de regulação,leva em conta os principais determinantes na precificação dos leilões, como por exemplo o risco de investimento no país, buscando garantir a segurança energética e uma tarifa acessível ao consumidor. Thiago: O resultado dessa equação nos revelou, no final de 2021, o nível de incerteza dos investidores no mercado brasileiro e o risco à segurança energética que estamos passando. Os leilões de transmissão tiveram uma desvalorização de mais de 200 milhões de reais sobre os 902 quilômetros de redes de transmissão instaladas, além de três subestações de energia. Fabíola: Mas, Alessandra, voltando para a questão da geração de energia. Depois da expansão dos parques eólicos, temos visto muitas iniciativas impulsionando as usinas solares. Me parece que elas têm ganhado mais espaço nessa matriz. É isso mesmo? Alessandra: Agora a gente está vivendo um movimento da solar. Mas também tem aí seus desafios como fonte. A diferença da solar para a eólica é que sol, você tem em todo o lugar. Então você consegue colocar a solar ali, também muito próxima dos centros de consumo. O que também é muito bom. Você evita um custo de perdas porque você não tem tanta energia percorrendo tanta distância. Thiago: Ou seja, ela pode ser produzida mais próxima do local onde vai ser consumida, evitando, não só a perda de energia durante a transmissão, mas também reduzindo o custo desse quilowatt/hora. Poderíamos di

Apr 25, 2022

#141 – Os impactos das hidrelétricas na Amazônia

Você sabe quais podem ser os impactos da construção de uma usina hidrelétrica na região da Amazônia? Pois é, não são poucos e para esclarecer sobre esse tema, nós conversamos com alguns especialistas que nos mostraram como essa questão envolve estudos e análises de diferentes áreas das ciências e como está relacionada com o dia a dia de todos nós e com a vida de futuras gerações. Os entrevistados deste episódio foram o Nathan Barros, que biólogo e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, a mestranda Luciana Guarreschi, do Instituto de Psicologia Clínica da USP e participante do projeto “Clínica do Cuidado” e o Marcelo Laterman, porta-voz da campanha de Clima e Justiça do Greenpeace e especialista em transição energética e justiça socioambiental. Roteiro Juliana Stern– Em relação ao mundo, o Brasil desponta como um dos países que mais utilizam fontes de energia consideradas renováveis. A grande capacidade dos rios brasileiros para a geração de energia é um dos principais fatores. Atualmente, cerca de sessenta e três por cento da capacidade instalada do Sistema Interligado Nacional são usinas hidrelétricas distribuídas em dezesseis bacias hidrográficas pelo país. Em dois mil e vinte, mais de setenta por cento da energia elétrica do país veio da força hídrica. Dos cinco empreendimentos hidrelétricos com maior potência instalada do país em funcionamento, quatro se localizam na Amazônia. São as usinas de Belo Monte, Tucuruí, Jirau e Santo Antônio. Além disso, estudos da Empresa Brasileira de Energia Elétrica apontam que a Bacia do Amazonas concentra quarenta e dois por cento do potencial hidrelétrico do país, dos quais setenta por cento já foram inventariados. Apesar da existência de todo esse potencial energético, é justificável continuar investindo em hidrelétricas na região amazônica? Nesse episódio, discutiremos os impactos social, ambiental, político e econômico das usinas hidrelétricas na região. (Áudio – Reportagens externas) Juliana – Além da grande capacidade de geração de energia, as hidrelétricas também provêm uma série de serviços auxiliares. Os reservatórios das usinas, por exemplo, auxiliam no controle de cheias, irrigação, processamento industrial, suprimento de água para consumo humano, recreação e serviços de navegação. Mas, todos esses serviços e a energia gerada dependem de um recurso que está ficando cada vez mais escasso: a água. (Áudio – Reportagens externas) Patrícia Bellas – Segundo o ONS, que é o Operador Nacional do Sistema Elétrico, estamos atravessando um cenário hidrológico crítico, com as menores vazões desde 1930. Essa escassez de água é resultado, entre outros fatores, da intensificação do El Niño – fenômeno de aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e das mudanças climáticas que alteram os níveis e ciclo das chuvas no país, impactando na vazão dos rios. Segundo estudo publicado na revista científica Global Environmental Change, essas mudanças no clima podem inviabilizar a geração de energia hidrelétrica em usinas na Amazônia. A pesquisa analisou 351 hidrelétricas planejadas para a região amazônica, sendo que 60% delas são previstas para construção em território brasileiro. Com a baixa da vazão dos rios, em especial no sul da Amazônia, onde a vazão pode cair até quarenta por cento, os custos das hidrelétricas propostas podem mais que dobrar, tornando-as menos competitivas que outras fontes renováveis, como solar e eólica. Nathan Barros, professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora, biólogo, mestre e doutor em ecologia, explica o porquê. Nathan Barros: Existem, basicamente, dois tipos de reservatórios na Amazônia. Existem os reservatórios de acumulação, que são aqueles reservatórios antigos, que tem uma uma barragem e um grande lago, e existem os reservatórios a fio d’ água. Até pouco tempo atrás, privilegiava-se a construção de reservatórios de acumulação, porque eles garantem água em períodos de menor nível do rio. Então, eles aumentam a segurança na produção de energia em períodos de seca. E mais recentemente, decidiu-se investir em reservatórios a fio d’ água, que é o caso dos reservatórios do Rio Madeira, o caso de Belo Monte. Esses reservatórios não geram energia pela gravidade, eles geram uma energia pelo fluxo da água, pela vazão, e por isso eles têm uma necessidade de inundar uma área bem menor do que os reservatórios de acumulação. Patrícia: Contando com cenários futuros de cada vez mais escassez hídrica, os reservatórios a fio d’água deixarão de ser o melhor tipo de investimento quando tratamos de hidrelétricas. A solução, então, seria voltar a investir em reservatórios por acumulação? Nathan Barros: Esses reservatórios de acumulação são terríveis em relação a emissão de gases de efeito estufa, porque eles alagam uma área muito grande. Na Amazônia, alagar uma área muito grande significa alagar uma biomassa e uma quantidade de matéria orgânica muito grande. Então, exist

Apr 8, 2022