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Oxigênio Podcast

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202 episodes — Page 1 of 5

#218 Rodrigo Alves: Bastidores e Futuro do Podcast

Apr 30, 202644 min

#217 – Daniela Arbex: entre páginas de livros e jornais

Apr 16, 202628 min

#216 – O futuro do cacau entre saberes tradicionais, ciência e tecnologia

No episódio desta semana, Talita Gantus conta sobre um novo projeto interdisciplinar em desenvolvimento pelo BI0S, na Unicamp. O CacauClima, como foi apelidado, alia técnicas de sensoriamento remoto, sistemas agroflorestais e ciência cidadã para investigar o cultivo de cacau e pensar como é possível melhorar essa prática. Participam do episódio Giovanni Moura de Holanda, que coordena o projeto pela FITec, Jurandir Zullo Junior e Priscila Coltri, pesquisadores do CEPAGRI, e Claudia Pfeiffer, pesquisadora do Labeurb. ____________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO Talita: No sul da Bahia, o cacau não cresce sozinho. Ele cresce junto a árvores altas, aproveitando sua sombra, e entre troncos centenários da Mata Atlântica. Cresce em sistemas que misturam floresta e cultivo. Cresce com a memória de quem aprendeu a ler o tempo olhando pro céu. Durante mais de um século, essa paisagem moldou a economia, a ciência agrícola e os modos de vida da região. Mas, ao longo do tempo, a busca por maior produtividade e por respostas mais rápidas do mercado foi transformando essa relação com a terra. Sistemas tradicionais, como o cacau que cresce sob a sombra da floresta, passaram a conviver com modelos de cultivo mais intensivos, que apostam na mecanização e no uso ampliado de fertilizantes e agrotóxicos. É uma mudança de ritmo e rendimento. As paisagens também mudam. E nos últimos anos, um novo fator entrou nessa equação: o clima. Secas mais longas, chuvas fora de época, ondas de calor mais intensas… Pra quem vive da terra, essas mudanças não aparecem somente em relatórios científicos. Elas aparecem na flor que não abriu, na doença que se espalhou, na produção que caiu. Ao mesmo tempo, satélites monitoram a superfície do planeta todos os dias. Modelos climáticos projetam cenários pra 2050, 2070, 2100. E algoritmos tentam traduzir o futuro em gráficos. Mas, como transformar informações sobre as imprevisíveis mudanças do clima em decisões concretas no campo hoje? E como fazer isso junto com quem cultiva o cacau todos os dias? Eu sou Talita Gantus, e nesse episódio do Oxigênio a gente vai conhecer o CacauClima – apelido do projeto Solução de Monitoramento Inteligente Climático nas Esferas Produtiva e Ambiental da Cacauicultura. A pesquisa acontece em fazendas de cacau no sul da Bahia, uma das regiões mais tradicionais da produção no Brasil. O objetivo é combinar sensoriamento remoto, modelagem climática e conhecimento dos próprios agricultores para entender como as mudanças do clima estão afetando os cacaueiros – e transformar esse conhecimento em recomendações práticas de manejo para tornar as lavouras mais resilientes. A urgência desse tipo de iniciativa ficou evidente nos últimos anos. Durante o evento de El Niño de 2015 e 2016, uma seca excepcional atingiu agroflorestas de cacau na região e causou cerca de 15% de mortalidade dos cacaueiros, além de uma queda de até 89% na produção, acompanhada pelo aumento de doenças como a vassoura-de-bruxa. Estudos recentes também indicam que sistemas agroflorestais como a cabruca, em que o cacau cresce sob a sombra de árvores nativas, podem reduzir a vulnerabilidade das plantações frente ao clima quando comparados a cultivos a pleno sol. É nesse contexto que o CacauClima busca apoiar agricultores e técnicos a adaptar a produção – integrando ciência, tecnologia e conhecimento local para fortalecer a sustentabilidade da cacauicultura brasileira. [vinheta Oxigênio] Talita: No senso comum, foi cultivada a imagem de que as descobertas e os avanços científicos brotam da noite pro dia, acompanhado com um grito de “Eureka”! Mas, na verdade, a ciência começa como uma semente discreta, quase invisível, lançada à terra por muitas mãos, regada dia após dia, ano após ano. Assim como plantar, produzir ciência é um ofício que demanda seu próprio ritmo. Na maior parte das vezes, porém, o que chega até os leitores e ouvintes curiosos é só o instante em que essa árvore já está frondosa – o anúncio da descoberta, o “avanço revolucionário”, o rosto de um pesquisador transformado em protagonista solitário. Essa ideia reforça a aura de genialidade que esconde todo o sistema de raízes, insumos, tempo, trabalho e colaborações que tornam a ciência possível. A divulgação científica, quando assume seu papel de contar a história inteira, e não apenas o “grande momento”, abre uma trilha diferente. É nessa trilha que este episódio caminha: como um passeio guiado por uma agrofloresta em construção, em que cada edital aprovado, cada parceria firmada entre instituições, cada definição de método e cada visita de campo é mais uma semente plantada, e que só pode florescer de verdade quando todo mundo enxerga o processo desde a semeadura, e não apenas na colheita. Giovanni: A ideia surgiu, pra esse projeto especificamente, surgiu como uma resposta ao edital da FINEP. E era um desafio colocado nesse edital, que era aumentar a produtividade e a sus

Apr 2, 202633 min

#215 – Tecnologias para a soberania digital

Diante dos diversos problemas éticos, políticos e sociais causados pelas grandes corporações tecnológicas (big techs) na última década, cresce a busca por alternativas à estrutura digital moldada por estas empresas do Norte Global. O uso de softwares livres e de código aberto — replicáveis por qualquer pessoa, comunidade, instituição ou governo — reacende o debate sobre soberania digital no mundo. Nesse sentido, redes sociais alternativas, construídas sobre bases de código aberto surgem como saída plausível do monopólio das big techs e das estruturas opacas e dominantes. Neste episódio, Damny Laya e Rogério Bordini conversam com especialistas da comunidade do software livre e redes descentralizadas (Fediverso) sobre experiências concretas de tecnologias voltadas à soberania digital no Brasil e no mundo. __________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO DAMNY: Rogério, eu queria começar com uma pergunta incômoda: o que significa, hoje, participar de uma rede social na internet? ROGÉRIO: Eu diria que é uma espécie de plataforma multiúso: serve pra gente se conectar com nossos amigos, familiares, compartilhar conteúdos diversos, como um vídeo interessante, um meme, participar de grupos de discussão, como no saudoso Orkut, lembra? Tudo isso como se fosse uma extensão das nossas interações sociais, só que no mundo virtual. Mas parece que a coisa hoje em dia tá BEM diferente. Hoje a gente não é só usuário dessas redes, mas também produto, audiência, e até alvo. E, diria mais, cada vez mais, reféns. DAMNY: Refém é uma palavra forte, mas talvez seja a mais adequada. Refém de um modelo de negócio que extrai nossos dados, monitora nossos passos, lê nossas conversas, mapeia nossos gostos e comportamentos, e depois vende tudo isso como se fosse mercadoria. ROGÉRIO: E o problema não é só econômico. Também é político. Nos últimos anos, as grandes plataformas deixaram claro de que lado estão. Em janeiro de 2025, por exemplo, Mark Zuckerberg, CEO da Meta e dono do Instagram, Facebook e WhatsApp, anunciou mudanças profundas nas políticas de moderação de conteúdo, alinhando a empresa à agenda da extrema-direita nos Estados Unidos. O próprio Donald Trump, que tinha sido banido das redes após os ataques ao Capitólio, foi readmitido com honrarias. DAMNY: E não foi só a Meta. O X, antigo Twitter, adquirido pelo Elon Musk, transformou a moderação num vale tudo. Discurso de ódio, desinformação organizada, ataques sistemáticos a cientistas e jornalistas. Tudo isso enquanto as plataformas investem pesado para inviabilizar qualquer tentativa de regulação, seja no Brasil, na Europa ou no mundo tudo. ROGÉRIO: Essas redes deixaram de ser espaços de encontro e se tornaram territórios hostis. E muitos usuários, insatisfeitos com essas políticas e mecanismos de uso destas plataformas, têm buscado por alternativas, como aconteceu com o êxodo quando Musk assumiu o X. DAMNY: Mas para onde ir? As alternativas pareciam muito semelhantes às já existentes com políticas de uso também questionáveis. Até que, nos últimos anos, um ecossistema silencioso começou a chamar a atenção. ROGÉRIO: Você tá falando do Fediverso? DAMNY: Exato. O Fediverso. Uma constelação de redes sociais descentralizadas, interconectadas, que funcionam numa lógica completamente diferente daquela das big techs. Sem um dono. Sem um algoritmo sombrio. Sem anúncios. Sem vigilância como modelo de negócio. [música] DAMNY: Eu sou Damny Laya, jornalista de ciência e tecnologia, pesquisador e bolsista Mídia Ciência do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri). Tenho me dedicado a estudar redes descentralizadas, governança da internet e soberania digital. O incômodo que a gente descreveu agora há pouco não é só profissional, é também de quem passa o dia pensando sobre esses sistemas e se pergunta: dá pra fazer diferente? ROGÉRIO: E sou Rogério Bordini, também jornalista de ciência. Pesquiso o Fediverso e o uso de ferramentas de acesso aberto como forma de emancipação dos algoritmos de controle. O tema do Fediverso tem aparecido cada vez mais nas conversas que a gente tem com colegas, estudantes e gestores públicos. DAMNY: Tanto que, para este episódio, a gente foi atrás de quem entende do assunto. Conversamos com especialistas do Fediverso, da cultura do software livre e da agenda da soberania digital. Queríamos entender não só o que é esse ecossistema, mas como ele funciona na prática. ROGÉRIO: Então, neste episódio, a gente vai explicar o que é o Fediverso, como ele está organizado e sobre algumas plataformas que fazem parte dele, além de como você pode fazer parte desse ecossistema. Mas também vamos discutir os desafios, a moderação de conteúdo, a governança comunitária e a barreira de entrada para quem não é familiarizado com a tecnologia. DAMNY: E, claro, vamos ouvir quem está na linha de frente. Nossos convidados vão ajudar a gente a entender também se o Fediverso pode ser, de fato, um caminho para a soberania digi

Mar 12, 202641 min

#214 – Paisagens sonoras revelam mudanças climáticas

  Neste episódio, Mayra Trinca fala sobre duas pesquisas que, ao seu modo, usam o som para estudar maneiras de enfrentamento à crise climática. Na conversa, Susana Dias, pesquisadora do Labjor e Natália Aranha, doutoranda em Ecologia pela Unicamp contam como os sons dos sapos fizeram parte das mesas de trabalho desenvolvidas pelo grupo de pesquisa para divulgação sobre esses anfíbios. Participa também Lucas Forti, professor na Universidade Federal Rural do Semi-Árido do Rio Grande do Norte. Ele conta como tem sido a experiência do projeto Escutadô, que estuda a qualidade do ambiente da caatinga através da paisagem sonora. ____________________________________________________________ ROTEIRO [música] Lucas: É incrível a capacidade que o som tem de despertar a memória afetiva. Mayra: Você aí, que é ouvinte de podcast, provavelmente vai concordar com isso. O som consegue meio que transportar a gente de volta pros lugares que a gente associa a ele. Se você já foi pra praia, com certeza tem essa sensação quando ouve um bom take do barulho das ondas quebrando na areia. [som de ondas] Mayra: O som pra mim tem um característica curiosa, na maior parte do tempo, ele passa… despercebido. Ou pelo menos a gente acha isso, né? Porque o silêncio de verdade pode ser bem desconfortável. Quem aí nunca colocou um barulhinho de fundo pra estudar ou trabalhar? Mayra: Mas quando a gente bota reparo, ele tem um força muito grande. De nos engajar, de nos emocionar. [música de violino] Mayra: Também tem a capacidade de incomodar bastante… [sons de construção] Mayra: Eu sou a Mayra Trinca e você provavelmente já me conhece aqui do Oxigênio. Mayra: No episódio de hoje, a gente vai falar sobre som. Mais especificamente, sobre projetos de pesquisa e comunicação que usam o som pra entender e pra falar sobre mudanças climáticas e seus impactos no meio ambiente. [música de fundo] Natália: E as paisagens sonoras não são apenas um conjunto de sons bonitos. Elas são a própria expressão da vida de um lugar. Então, quando a gente preserva uma paisagem sonora, estamos preservando a diversidade das espécies que vocalizam naquele lugar, os modos de vida e as relações que estão interagindo. E muitas vezes essas relações dependem desses sons, que só existem porque esses sons existem. Então, a bioacústica acaba mostrando como os sons, os sapos também os mostram, como que esses cantos carregam histórias, ritmos, horários, temperaturas, interações que não aparecem ali somente olhando o ambiente. [Vinheta] João Bovolon: Seria triste se músicos só tocassem para músicos. Pintores só expusessem para pintores. E a filosofia só se destinasse a filósofos. Por sorte, a capacidade de ser afetado por um som, uma imagem, uma ideia, não é exclusividade de especialistas. MAYRA: Essa frase é de Silvio Ferraz, autor do Livro das Sonoridades. O trecho abre o texto do artigo “A bioacústica dos sapos e os estudos multiespécies: experimentos comunicacionais em mesas de trabalho” da Natália. Natália: Olá, meu nome é Natália Aranha. Eu sou bióloga e mestra pelo Labjor, em Divulgação Científica e Cultural. Durante o meu mestrado, eu trabalhei com os anfíbios, realizando movimentos com mesas de trabalhos e com o público de diferentes faixas etárias. Atualmente, eu sou doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia pelo Instituto de Biologia da Unicamp. MAYRA: A Natália fez o mestrado aqui no Labjor na mesma época que eu. Enquanto eu estudava podcasts, ela tava pesquisando sobre divulgação científica de um grupo de animais muitas vezes menosprezado. [coaxares] Susana: Os sapos, por exemplo, não participam da vida da maioria de nós. Eles estão desaparecidos dos ecossistemas. Eles estão em poucos lugares que restaram para eles. Os brejos são ecossistemas muito frágeis. São os lugares onde eles vivem. Poucos de nós se dedicam a pensar, a se relacionar, a apreciar, a cuidar dessa relação com os sapos. Mayra: Essa que você ouviu agora foi a Susana, orientadora do trabalho da Natália. Susana: Meu nome é Susana Dias, eu sou pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, professora da pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural, do Labjor/IEL/Unicamp. E trabalho com comunicação, artes, ciências, desenvolvendo várias metodologias de experimentação coletiva com as pessoas. Mayra: Mas, o interesse da Natália pelos sapos não começou no mestrado. Ela já era apaixonada pela herpetologia antes disso. [som de ícone] Mayra: Herpetologia é a área da biologia que estuda répteis e anfíbios. E eu posso dizer que entendo a Natália. Pra quem não sabe, eu também sou bióloga. E durante a faculdade cheguei a fazer um estágio na mesma área, porque também era um tema que me interessava muito. Mayra: Só que eu trabalhei mais com répteis, que são as cobras e os lagartos. E eu acabei desistindo da área em pouco tempo, apesar de ainda achar esses bichinhos muito legais. Já a Natália descobriu o amor pelos sapos num congresso de herpetologia que foi durante a gradu

Feb 26, 202634 min

#213 – Curupira: da floresta à COP30

O Curupira foi incorporado ao folclore brasileiro e foi transformado em personagem de histórias infantis, filmes e séries. Recentemente, se tornou mascote da COP-30, a conferência internacional da Organização das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que em 2025 foi realizada pela primeira vez no Brasil, em Belém do Pará. Mas para os povos da floresta ele é muito mais que um mito. Você vai descobrir curiosidades sobre esse personagem nesse episódio que foi idealizado e produzido por Juliana Vicentini, revisado por Mayra Trinca e editado por Yama Chiodi. ____________________ Roteiro Juliana: Se você entrar na floresta e ouvir um assobio, fique atento, você não está sozinho. É o Curupira, o guardião da natureza. Ele defende a mata e os animais daqueles que invadem, desmatam, caçam ou exploram o meio ambiente sem necessidade. O Curupira nasceu na cultura dos povos indígenas e continua vivo por meio da oralidade e da memória que se perpetua de geração em geração. Para os indígenas, ele é uma entidade, um espírito protetor da floresta e dos seres vivos. Mas durante o processo de colonização, o Curupira foi distorcido e sofreu tentativas de apagamento. Ele resistiu a isso e saiu do seu habitat natural para ganhar o Brasil e o mundo. O Curupira foi incorporado ao folclore brasileiro e foi transformado em personagem de histórias infantis, filmes e séries. Recentemente, se tornou mascote da COP-30, a conferência internacional da Organização das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que em 2025 foi realizada pela primeira vez no Brasil, em Belém do Pará. Juliana: Nesse episódio, nós faremos uma viagem para entendermos o Curupira. Nossa trilha começa pela perspectiva de quem cresceu ouvindo sobre ele não como uma lenda, mas como uma presença viva e protetora da natureza. Ao longo do nosso caminho, pesquisadores e jornalistas nos conduzem nessa jornada, nos revelando camadas que passam pela linguística, história e colonialidade, apresentando a trajetória do Curupira desde uma figura ancestral até a sua chegada como símbolo da COP30. Essa viagem nos ajuda a compreender o Curupira como um símbolo potente de resistência cultural, de decolonialidade e de sustentabilidade. Juliana: Eu sou a Juliana Vicentini, esse é o podcast Oxigênio e o episódio de hoje é o “Curupira: da floresta à COP30”. [vinheta] Juliana: Algumas histórias não são ensinadas em aulas, não são vistas em livros, vídeos e fotografias. Elas são compartilhadas na convivência entre as pessoas, no chão da floresta, em meio ao som das águas e pássaros, e até mesmo ao redor de uma fogueira. Tem histórias que não são apenas lúdicas, mas que fazem parte da vida, da memória e do território e que pulsam no coração das pessoas com um significado especial. Juliana: No Brasil, há 391 etnias indígenas, segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2022. E cada povo indígena tem suas próprias entidades que protegem a natureza. O Curupira é um desses seres e ainda assim, suas características nem sempre são contadas da mesma maneira por todos os povos. Juliana: Hoje nós vamos ouvir alguém que cresceu entre a aldeia e a escola e que carrega histórias que quase não se contam no povo Suruí atualmente — histórias guardadas, íntimas, que vêm do vínculo com o pai e com o território. Maribgasotor Suruí: Não é um ser mitológico, não é um ser assim, de livro de história, né? Mas é verdadeiro. Nós acreditamos no Curupira. Juliana: Maribgasotor Suruí é estudante de Direito na Universidade Federal de Rondônia. Ele pertence a etnia Suruí, da terra indígena Sete de Setembro, localizada nos estados de Rondônia e Mato Grosso. Maribgasotor Suruí: Eu cresci no meio disso, alguém falando disso, já faz parte do meu convívio, da minha cultura, do meu sangue, inclusive eu tenho curiosidades, tem isso também, um dia a ver, né? Mas como meu pai mesmo fala que não é qualquer pessoa que vê, e é um privilégio um dia, né? Hoje em dia, no Suruí, ninguém conta muito, ninguém pergunta muito, ninguém tem essa história que nós estamos falando. Eu e meu pai somos muito íntimos, né e desde pequenos, somos uma pessoa muito curioso. Eu saí muito cedo de casa, eu estudei com a escola internato, escola agrícola, eu estudei em São Paulo, né? Eu tenho esse conhecimento, essa mistura de duas culturas diferentes. Eu sempre tive curiosidade com meu pai contar isso para mim, não é todos que querem saber, né? Porque hoje em dia, como eu falo, a evangelização chegou né, junto com os contatos e isso tirou a sensibilidade, a tradição, é como a gente descreve no direito indígena, como se fosse etnocídio. Juliana: A própria palavra Curupira carrega em si muito da história desse ser com os povos indígenas. Quem explica para a gente é o Thomas Finbow da Universidade de São Paulo, onde é professor de linguística histórica, área que investiga como as línguas evoluem. Thomas: Curupira é uma palavra que vem do tupi, especificamente a fase que a gente conhece como tupi antigo, que seria aproximadamen

Feb 12, 202642 min

#212 – Ugo Giorgetti em 4 documentários – 2º Episódio

Este é o segundo episódio da série de podcasts Ugo Giorgetti em 4 documentários e trata de dois médias-metragens: “Variações Sobre Um Quarteto de Cordas” e “Santana em Santana”, documentários produzidos pelo diretor e produtor, que também são muito diferentes entre si, mas que têm um ponto crucial em comum. No episódio, Liniane Brum e Mayra Trinca revelam como eles entrelaçam as trajetórias de vida de dois artistas, em meio ao desenvolvimento da cidade de São Paulo. _____________________________ Roteiro [Som de tráfego em cidade: buzinas, carros, ruídos de fundo.] Mantém em BG até entrada da música de transição. LINI: Esse é o segundo episódio da série de podcasts Ugo Giorgetti em 4 documentários. Meu nome é Liniane Haag Brum, sou doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e realizei a pesquisa de pós-doutorado “Contra o apagamento – o cinema de não ficção de Ugo Giorgetti” também na Unicamp, no Labjor, com o apoio da Fapesp. Essa pesquisa surgiu da descoberta de uma lacuna. Percebi que não havia nenhum estudo sobre a obra de não ficção de Giorgetti. Apesar de ela ser tão expressiva quanto a sua ficção, e mais extensa. MAYRA: E eu sou a Mayra Trinca, bióloga e mestra em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor. Você já deve me conhecer aqui do Oxigênio. Eu tô aqui pra apresentar esse episódio junto com a Liniane. Nele, vamos abordar os médias-metragens “Variações sobre um Quarteto de Cordas” e “Santana em Santana”. [Música de transição – tirar da abertura de “Variações Sobre um Quarteto de Cordas”] LINI: No primeiro episódio, apresentamos os documentários “Pizza” e “Em Busca da Pátria Perdida”, destacando os procedimentos e recursos de linguagem empregados pelo cineasta para retratar a complexidade da capital paulista. MAYRA: Em “Pizza”, as contradições de São Paulo surgem na investigação de pizzarias de diversas regiões, por meio de depoimentos de seus donos, funcionários, clientes e pizzaiolos. Já “Em Busca da Pátria Perdida” se concentra no bairro do Glicério, e registra a experiência de migrantes e imigrantes que encontram acolhida e fé na Igreja Nossa Senhora da Paz. Se você ainda não ouviu, é só procurar por “Ugo Giorgetti” no nosso site ou no seu agregador de podcasts. LINI: Nesse segundo episódio, vamos falar sobre dois médias-metragens: “Variações Sobre Um Quarteto de Cordas” e “Santana em Santana”, documentários que também são muito diferentes entre si, mas que tem um ponto crucial em comum. Vamos revelar como eles entrelaçam as trajetórias de vida de dois artistas, ao desenvolvimento da cidade de São Paulo. (pausa) Vinheta Oxigênio LINI: Se você não tem muita ligação com a música de câmara, seja tocando, estudando ou pesquisando o tema, é provável que nunca tenha ouvido falar em Johannes Olsner. “Variações Sobre Um Quarteto de Cordas” retrata a trajetória profissional desse violista que chegou no Brasil em 1939, vindo da Alemanha para uma turnê musical, e nunca mais voltou pra casa. MAYRA: Sobre esse documentário o crítico literário e musical Arthur Nestrovski escreveu o seguinte na Folha de São Paulo, em setembro de 2004: “O filme é muito simples. O que, no caso, é uma virtude: (…) a vida de Johannes Oelsner se confunde com a arte que praticou ao longo de quase 70 anos de carreira.” LINI: O violista alemão fez parte da formação inicial de músicos do que é hoje o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo. [Música de transição – escolher excerto de “Variações Sobre um Quarteto de Cordas”] MAYRA: Talvez você esteja se perguntando o que é um quarteto de cordas… Vamos por partes: Um quarteto de cordas é uma das formações mais emblemáticas da música de câmara e reúne quatro instrumentistas em dois pares: dois violinos, uma viola e um violoncelo. [Entra música de fundo: escolher excerto de “Variações Sobre um Quarteto de Cordas”] [Sugestão – time code do Youtube – 09:32 até 10:42] A expressão “música de câmara” tem sua origem na “musica da câmera”, termo italiano que significa “música para a sala”. É originalmente um gênero de música erudita para ser tocada em ambientes privados e íntimos, como nos aposentos palacianos e gabinetes da aristocracia, – e não nas grandes salas de concerto. LINI: A música de câmara pode ter diferentes formações, como por exemplo um dueto ou um quinteto. Mas – sim! – o quarteto é a sua forma mais clássica. [Música de transição] Embora os quartetos de cordas se dediquem a um repertório de alto refinamento artístico, sua presença no Brasil é pouco comum. Foi pensando nisso que perguntei pra Ugo Giorgetti por que motivo ele decidiu fazer um documentário sobre um tema tão específico. Ouve só como foi a nossa conversa: LINI: Sobre o quarteto de cordas eu queria perguntar o seguinte: é um tema restrito? Fica um documentário mais assim, restrito, você acha? GIORGETTI: O Quarteto de Cordas é só um lado do documentário. Ele fala também de São Paulo, ele fala do Mário Andrade, ele fala do Prestes Maia, ele fala um

Jan 29, 202625 min

#211 – Mãos à Obra – Ep. 2

No segundo episódio da série “Reparos de um Ataque – 8 de Janeiro”, Aurélio Pena, Marcos Ferreira e Rogério Bordini contam como é o delicado processo de restauro de obras de arte danificadas. É um trabalho minucioso que envolve vários experimentos, alguns deles realizados no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), usando as linhas de luz do acelerador de partícula Sirius. Eles também te contam como o restauro das obras danificadas nos ataques golpistas é um sinal de fortalecimento dos símbolos da democracia brasileira. _____________________________________________________________________ ROTEIRO “Série – Reparos de um Ataque – 8 de Janeiro” – Ep.2 Mãos à Obra Presidente Lula: Hoje, é dia de dizermos em alto e bom som, ainda estamos aqui, ao contrário do que planejávamos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Se essas obras de arte estão aqui de volta, restauradas com esmero por homens e mulheres que a elas dedicaram mais de 1.760 horas de suas vidas, é porque a democracia venceu. Muito obrigado, companheiros. Aurélio: Este é o segundo episódio da série sobre a restauração das obras vandalizadas no 8 de janeiro de 2023. Se você ainda não escutou o episódio anterior, dá uma olhadinha nele e aí volta pra cá, porque hoje nós vamos nos aprofundar em toda a ciência do restauro de uma obra rara e também pensar sobre o atual cenário da democracia brasileira. Marcos: Eu sou o Marcos Ferreira, um dos apresentadores dessa série. Aurélio: E eu sou o Aurélio Pena, e você está ouvindo o Podcast Oxigênio. Aurélio: Uma das obras mais famosas entre as restaurações é o mural Mulatas à Mesa, de Di Cavalcanti, parte do acervo do Palácio da Alvorada. Natural da cidade do Rio de Janeiro, Di Cavalcanti viveu entre 1897 e 1976. O artista modernista produziu principalmente pinturas, desenhos, murais e caricaturas. Suas reconhecidas cores vibrantes e temas tipicamente brasileiros o tornaram um dos grandes nomes da pintura e do modernismo do Brasil. Marcos: A obra, produzida em 1962, mostra uma cena na qual predominam figuras femininas, as chamadas mulatas, retratadas com curvas voluptuosas, pele morena e uma postura que mistura sensualidade e introspecção. Elas aparecem em um ambiente descontraído, cercadas por elementos tropicais, como frutas e flores, que evocam a exuberância e o calor do Brasil. A pintura é de grande importância porque reflete a valorização da cultura e da identidade nacional, exaltando a miscigenação como um elemento central do Brasil. Di Cavalcanti buscou celebrar a mulher brasileira, representando não apenas a sua beleza, mas também como um símbolo da força e do espírito nacional. Foi essa obra que levou sete facadas. Aurélio: A cultura japonesa tem um tipo de arte chamado Kintsugi. Nela as rachaduras e avarias de um objeto são mantidas e valorizadas, normalmente com ouro. Essas imperfeições contam a história desses objetos. Marcos: Uma lógica parecida com a do Kintsugi foi utilizada na restauração da Mulatas à Mesa, como nos contou a coordenadora do projeto de restauro, a professora Andréia Bachettini, que você também ouviu no primeiro episódio desta série. Andréia Bachettini: Quando eu desembrulhei ela lá no início, em setembro de 23, eu fiquei muito impactada assim com a brutalidade que ela foi agredida. E o processo de restauração foi muito pensado assim, como que a gente vai não tirar o valor dessa obra, mas também a gente não podia esconder essas marcas que ela sofreu, essas sete perfurações que ela sofreu. Então a gente optou por remover esse reentelamento, o reentelamento, para os leigos, é colar uma tela para dar sustentabilidade à tela original. Então ela já tinha essa tela, ela tem a tela original, e colada a ela um outro linho que era um tecido bem resistente. Esses dois tecidos foram rasgados, inclusive a sustentação dela é feita com um bastidor em madeira que também foi quebrado, os montantes, as travas desse bastidor foram quebradas. Então a gente teve que fazer uma substituição de travas do bastidor, e aí optamos então por fazer um reentelamento com o tecido de poliéster de vela de barco, de vela, que é transparente assim, e não esconderia então as cicatrizes por trás da obra. Pela frente ela ficou imperceptível, a gente fez a restauração com a técnica de pontilhismo, que são sobreposição de pontinhos na cor, dando a ilusão de ótica da cor na superfície. Então ela fica imperceptível pela frente, mas pelo verso as marcas dessa restauração estão evidenciadas. Aurélio: Ao destacar a figura da mulata, que frequentemente é marginalizada na sociedade brasileira, a obra também provoca reflexões sobre questões sociais, como a posição da mulher negra e mestiça no Brasil. Assim, vai além da mera representação de uma imagem, tornando-se um manifesto visual da busca por uma identidade cultural, nacional e autêntica no contexto modernista. Marcos: O restauro de uma obra é extremamente sofisticado, e envolve profissionais de áreas das quais normalmente nem imaginamos. Um exemplo d

Jan 15, 202625 min

#210 – Restauros de um golpe – Ep. 1

No primeiro episódio do ano, Aurélio Pena, Marcos Ferreira e Rogério Bordini retomam os eventos do 8 de janeiro de 2023 para pensar como a destruição de obras de arte reflete a forma de pensar que motivaram as ações golpistas nesse dia. E depois, como o restauro dessas obras pode ajudar a elaborar a reconstrução da democracia no país? No episódio, você escuta pesquisadores que explicam os impactos dos atos golpistas e também como foi o processo de restauro das obras danificadas. _________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO “Série – Reparos de um Ataque – 8 de Janeiro” – Ep.1 Restauros de um golpe Golpistas: Quebra tudo. Vamos entrar e tomar o que é nosso. Chega de palhaçada. Marcos: Quebradeira, gritaria e confusão. Ouvindo essa baderna, pode-se imaginar que estamos falando de um cenário de guerra. Mas esse foi o som ouvido durante os ataques antidemocráticos do 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Golpistas: Entremos no Palácio dos Três Poderes. Telejornalista: Milhares de pessoas invadiram a sede dos três poderes em 8 de janeiro de 2023. Elas não aceitavam a derrota de Jair Bolsonaro e pediam um golpe de Estado. Golpistas: Intervenção federal. Intervenção federal. Telejornalista: De lá pra cá, investigações da Polícia Federal descobriram que a tentativa de golpe começou meses antes. Políticos e militares alinhados a Bolsonaro se reuniram e elaboraram planos para permanecer no poder. Para eles, era importante que os manifestantes se mantivessem exaltados. Aurélio: Durante o atentado, os golpistas danificaram diversas obras de arte do Acervo Nacional, sendo elas de valor inestimável para a cultura, memória e história do nosso país. Quadros como o Mulatas à Mesa, do pintor Emiliano di Cavalcanti, o retrato de Duque de Caxias, do artista Oswaldo Teixeira e o Relógio de Baltasar Martinot são apenas alguns dos itens danificados e destruídos. Marcos: Os escombros de toda essa devastação não foram simplesmente abandonados. Hoje, tais obras estão restauradas, quase como se nada tivesse acontecido naquele dia fatídico. E é isso que a gente vai contar pra você nesta série, com dois episódios. No episódio de hoje, vamos rememorar como foi o dia da invasão à Brasília. Vamos também conhecer um pouco sobre as etapas do processo de restauro das obras que pertencem ao nosso Acervo Nacional, que você já consegue visitar novamente. E no próximo episódio, vamos explorar mais detalhes dos desafios técnicos e científicos em se estudar e restaurar as obras raras no Brasil, de forma mais aprofundada. Aurélio: Eu sou Aurélio Pena. Marcos: E eu sou o Marcos Ferreira. Aurélio: Nosso editor é Rogério Bordini. E este é o podcast Oxigênio. Vinheta: Você está ouvindo Oxigênio. Aurélio: Para entender a importância desse restauro, primeiro a gente precisa saber um pouquinho sobre o que foi o 8 de janeiro. Marcos: A mudança do ano de 2022 para 2023 foi o período de troca entre governos presidenciais no Brasil. Em 2022, o atual presidente Lula foi eleito com 50,9% dos votos contra 49,1% para o agora ex-presidente Bolsonaro, durante o segundo turno das eleições. Essa disputa acirradíssima representa uma enorme divisão política no Brasil, como nunca tivemos antes na nossa história. Aurélio: O cenário era de tensão. Durante anos, Bolsonaro vinha questionando a legitimidade das eleições e dando declarações favoráveis a um golpe de Estado, caso não vencesse as eleições. Bolsonaro: Nós sabemos que se a gente reagir depois das eleições vai ter um caos no Brasil, vai virar uma grande guerrilha, uma fogueira. Nós não podemos, pessoal, deixar chegar as eleições, acontecer o que tá pintado, tá pintado. Eu parei de falar em votos, em eleições há umas três semanas… Cês tão vendo agora que acho que chegaram à conclusão, a gente vai ter que fazer alguma coisa antes. Aurélio: Dessa forma, quando o ex-presidente foi derrotado nas urnas, ele já havia plantado as sementes de uma revolta antidemocrática que explodiu nos ataques do 8 de janeiro de 2023. Marcos: Vale ressaltar que as inúmeras alegações de fraude eleitoral feitas por Bolsonaro nunca foram confirmadas. Pelo contrário, segundo um relatório encomendado pelo TSE, o Tribunal Superior Eleitoral, que contou com uma análise de nove organizações internacionais independentes, o sistema eleitoral brasileiro é, abre aspas, ”seguro, confiável, transparente, eficaz, e as urnas eletrônicas são uma fortaleza da democracia”, fecha aspas. E ainda mais, o próprio ex-presidente nunca forneceu evidências que suportassem essas alegações. Aurélio: Em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula, alguns grupos alinhados ao bolsonarismo, insatisfeitos com o resultado da eleição e, claro, influenciados por discursos de contestação ao processo eleitoral, organizaram as manifestações que culminaram na invasão de prédios dos três poderes da república na cidade de Brasília. Trajados de verde e amarelo, os golpistas invadiram o Congresso Naci

Jan 8, 202618 min

#209 – Sinais de vida num planeta fora do sistema solar?

Em abril deste ano foi anunciada a detecção de possíveis sinais de vida extraterrestre num planeta fora do sistema solar com o telescópio espacial James Webb, mas a descoberta não foi confirmada. Afinal, tem ou não tem vida nesse outro planeta? Que planeta é esse? Como é possível saber alguma coisa sobre um planeta distante? Este episódio do Oxigênio vai encarar essas questões com a ajuda de dois astrônomos especialistas no assunto: o Luan Ghezzi, da UFRJ, e a Aline Novais, da Universidade de Lund, na Suécia. Vamos saber um pouco mais sobre como é feita a busca por sinais de vida nas atmosferas de exoplanetas. __________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO Danilo: Você se lembra de quando uma possível detecção de sinais de vida extraterrestre virou notícia de destaque em abril deste ano, 2025? Se não, deixa eu refrescar a sua memória: usando o telescópio espacial James Webb, pesquisadores teriam captado sinais da atmosfera de um exoplaneta que indicariam a presença de um composto químico que aqui na Terra é produzido pela vida, algo que no jargão científico é chamado de bioassinatura. A notícia bombou no mundo todo. Aqui no Brasil, o caso teve tanta repercussão que a Folha de São Paulo dedicou um editorial só para isso – os jornais costumam comentar política e economia nos editoriais, e raramente dão espaço para assuntos científicos. Nos dois meses seguintes, outros times de pesquisadores publicaram pelo menos quatro estudos analisando os mesmos dados coletados pelo James Webb e concluíram que as possíveis bioassinaturas desaparecem quando outros modelos são usados para interpretar os dados. Sem o mesmo entusiasmo, os jornais noticiaram essas refutações e logo o assunto sumiu da mídia. Afinal, o que aconteceu de fato? Tem ou não tem vida nesse outro planeta? Aliás, que planeta é esse? Como é possível saber alguma coisa sobre um planeta distante? Eu sou Danilo Albergaria, jornalista, historiador, e atualmente pesquiso justamente a comunicação da astrobiologia, essa área que estuda a origem, a evolução e a possível distribuição da vida no universo. Nesse episódio, com a ajuda de dois astrofísicos, o Luan Ghezzi e a Aline Novais, vou explicar como os astrofísicos fazem as suas descobertas e entender porque a busca por sinais de vida fora da Terra é tão complicada e cheia de incertezas. Esse é o primeiro episódio de uma série que vai tratar de temas relacionados à astrobiologia.   [Vinheta] Danilo: Eu lembro que li a notícia quentinha, assim que ela saiu no New York Times, perto das dez da noite daquela quarta-feira, dia 16 de abril de 2025. No dia seguinte, acordei e fui checar meu Whatsapp, já imaginando a repercussão. Os grupos de amigos estavam pegando fogo com mensagens entusiasmadas, perguntas, piadas e memes. Os grupos de colegas pesquisadores, astrônomos e comunicadores de ciência, jornalistas de ciência, também tinham um monte de mensagens, mas o tom era diferente. Em vez de entusiasmo, o clima era de preocupação e um certo mau-humor: “de novo DMS no K2-18b fazendo muito barulho”, disse uma cientista. Outra desabafou: “eu tenho coisa melhor pra fazer do que ter que baixar a fervura disso com a imprensa”. Por que o mal-estar geral entre os cientistas? Já chego lá. Os cientistas eram colegas que eu tinha conhecido na Holanda, no tempo em que trabalhei como pesquisador na Universidade de Leiden. Lá eu pesquisei a comunicação da astrobiologia. Bem no comecinho do projeto – logo que eu cheguei lá, em setembro de 2023 – saiu a notícia de que um possível sinal de vida, um composto chamado sulfeto de dimetila, mais conhecido pela sigla DMS, havia sido detectado num planeta a 124 anos-luz de distância da Terra, o exoplaneta K2-18b. Eu vi a repercussão se desenrolando em tempo real: as primeiras notícias, os primeiros comentários críticos de outros cientistas, a discussão nas redes sociais e blogs. Como eu estava no departamento de astronomia de Leiden, vi também como isso aconteceu por dentro da comunidade científica: os astrônomos com quem conversei na época estavam perplexos com a forma espalhafatosa com que o resultado foi comunicado. O principal era: eles não estavam nem um pouco animados, otimistas mesmo de que se tratava, de verdade, da primeira detecção de vida extraterrestre. Por que isso estava acontecendo? Vamos começar a entender o porquê sabendo um pouco mais sobre o exoplaneta K2-18b, em que os possíveis sinais de vida teriam sido detectados. Primeiro: um exoplaneta é um planeta que não orbita o Sol, ou seja, é um planeta que está fora do sistema solar (por isso também são chamados de extrassolares). Existem planetas órfãos, que estão vagando sozinhos pelo espaço interestelar, e planetas girando em torno de objetos exóticos, como os pulsares, que são estrelas de nêutrons girando muito rápido, mas quando os astrônomos falam em exoplaneta, quase sempre estão falando sobre um planeta que gira em torno de outra estrela que não Sol. O Sol

Dec 18, 202538 min

#208 – A infraestrutura da IA: o que são datacenters e os riscos que eles representam

A inteligência artificial, em seus múltiplos sentidos, tem dominado a agenda pública e até mesmo o direcionamento do capital das grandes empresas de tecnologia. Mas você já parou para pensar na infraestrutura gigantesca que dê conta de sustentar o crescimento acelerado das IAs? O futuro e o presente da inteligência artificial passa pela existência dos datacenters. E agora é mais urgente que nunca a gente discutir esse assunto. Estamos vendo um movimento se concretizar, que parece mais uma forma de colonialismo digital: com a crescente resistência à construção de datacenters nos países no norte global, empresas e governos parecem estar convencidos a trazer essas infraestruturas imensas com todos os seus impactos negativos ao sul global. Nesse episódio Yama Chiodi e Damny Laya conversam com pesquisadores, ativistas e atingidos para tentar aprofundar o debate sobre a infraestrutura material das IAs. A gente conversa sobre o que são datacenters e como eles impactam e irão impactar nossas vidas. No segundo episódio, recuperamos movimentos de resistência a sua instalação no Brasil e como nosso país se insere no debate, seguindo a perspectiva de ativistas e de pesquisadores da área que estão buscando uma regulação mais justa para esses grandes empreendimentos. ______________________________________________________________________________________________ ROTEIRO [ vinheta da série ] [ Começa bio-unit ] YAMA: A inteligência artificial, em seus múltiplos sentidos, tem dominado a agenda pública e até mesmo o direcionamento do capital das grandes empresas de tecnologia. Mas você já parou para pensar na infraestrutura gigantesca que dê conta de sustentar o crescimento acelerado das IA? DAMNY: O futuro e o presente da inteligência artificial passa pela existência dos data centers. E agora é mais urgente que nunca a gente discutir esse assunto. Estamos vendo um movimento se concretizar, que parece mais uma forma de colonialismo digital: com a crescente resistência à construção de datacenters nos países no norte global, empresas e governos parecem estar convencidos a trazer os datacenters com todos os seus impactos negativos ao sul global. YAMA: Nós conversamos com pesquisadores, ativistas e atingidos e em dois episódios nós vamos tentar aprofundar o debate sobre a infraestrutura material das IAs. No primeiro, a gente conversa sobre o que são datacenters e como eles impactam e irão impactar nossas vidas. DAMNY: No segundo, recuperamos movimentos de resistência a sua instalação no Brasil e como nosso país se insere no debate, seguindo a perspectiva de ativistas e de pesquisadores da área que estão buscando uma regulação mais justa para esses grandes empreendimentos. [ tom baixo ] YAMA: Eu sou o Yama Chiodi, jornalista de ciência e pesquisador do campo das mudanças climáticas. Se você já é ouvinte do oxigênio pode ter me ouvido aqui na série cidade de ferro ou no episódio sobre antropoceno. Ao longo dos últimos meses investiguei os impactos ambientais das inteligências artificiais para um projeto comum entre o LABMEM, o laboratório de mudança tecnológica, energia e meio ambiente, e o oxigênio. Em setembro passado, o Damny se juntou a mim pra gente construir esses episódios juntos. E não por acaso. O Damny publicou em outubro passado um relatório sobre os impactos socioambientais dos data centers no Brasil, intitulado “Não somos quintal de data center”. O link para o relatório completo se encontra disponível na descrição do episódio. Bem-vindo ao Oxigênio, Dam. DAMNY: Oi Yama. Obrigado pelo convite pra construir junto esses episódios. YAMA: É um prazer, meu amigo. DAMNY: Eu também atuo como jornalista de ciência e sou pesquisador de governança da internet já há algum tempo. Estou agora trabalhando como jornalista e pesquisador aqui no LABJOR, mas quando escrevi o relatório eu tava trabalhando como pesquisador-consultor na ONG IDEC, Instituto de Defesa de Consumidores. YAMA: A gente começa depois da vinheta. [ Termina Bio Unit] [ Vinheta Oxigênio ] [ Começa Documentary] YAMA: Você já deve ter ouvido na cobertura midiática sobre datacenters a formulação que te diz quantos litros de água cada pergunta ao chatGPT gasta. Mas a gente aqui não gosta muito dessa abordagem. Entre outros motivos, porque ela reduz o problema dos impactos socioambientais das IA a uma questão de consumo individual. E isso é um erro tanto político como factual. Calcular quanta água gasta cada pergunta feita ao ChatGPT tira a responsabilidade das empresas e a transfere aos usuários, escondendo a verdadeira escala do problema. Mesmo que o consumo individual cresça de modo acelerado e explosivo, ele sempre vai ser uma pequena fração do problema. Data centers operam em escala industrial, computando quantidades incríveis de dados para treinar modelos e outros serviços corporativos. Um único empreendimento pode consumir em um dia mais energia do que as cidades que os abrigam consomem ao longo de um mês. DAMNY: Nos habituamos a imaginar a inteligência artif

Dec 11, 202534 min

#207 – Especial: A cobertura jornalística na COP30

No episódio de hoje, você escuta uma conversa um pouco diferente: um bate-papo com as pesquisadoras Germana Barata e Sabine Righetti, ambas do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor). Elas estiveram na COP30 e conversaram com Mayra Trinca sobre a experiência de cobrir um evento ambiental tão relevante e sobre quais foram os pontos fortes da presença da imprensa independente. __________________________________________________________________________________ TRANSCRIÇÃO [música] Mayra: Olá, eu sou a Mayra, você já deve me conhecer aqui do Oxigênio. Hoje a gente vai fazer uma coisa um pouquinho diferente do que vocês estão acostumados. E eu trouxe aqui duas pesquisadoras do LabJor pra contar um pouquinho da experiência delas na COP30, que rolou agora em novembro. Então vai ser um episódio um pouco mais bate-papo, mas eu prometo que vai ficar legal. Vou pedir pra elas se apresentarem e a gente já começa a conversar. Então eu estou com a Germana Barata e a Sabine Righetti, que são pesquisadoras aqui do Labjor. Germana, se apresenta pra gente, por favor. Germana: Olá, pessoal, eu sou a Germana. Obrigada, Maíra, pelo convite pra estar aqui com vocês no Oxigênio. Eu sou pesquisadora do LabJor, do aula também por aqui, e tenho coordenado aí uma rede de comunicação sobre o oceano, que é a Ressou Oceano, que é o motivo da minha ida pra COP30.Então a gente vai ter a oportunidade de contar um pouquinho do que foi essa aventura na COP30. Mayra: Agora, Sabine, se apresenta pra gente, por favor. Sabine: Oi, pessoal, um prazer estar aqui. Sou pesquisadora aqui no LabJor, ouvinte do Oxigênio, e trabalho entendendo como que o conhecimento científico é produzido e circula na sociedade, sobretudo pela imprensa. Então esse foi um assunto central na COP lá em Belém. [vinheta] Mayra: Eu trouxe a Sabine e a Germana, porque, bom, são pesquisadoras do Labjor que foram pra COP, mas pra gente conhecer um pouquinho o porquê que elas foram até lá a partir das linhas de interesse e de pesquisa. Então, meninas, contem pra gente por que vocês resolveram ir até a COP e o que isso está relacionado com as linhas de trabalho de vocês. Germana: Bom, acho que uma COP no Brasil, no coração da Amazônia, é imperdível por si. Sabine: Não tinha como não ir. Germana: Não, não tinha. E como eu atuo nessa área da comunicação sobre o oceano pra sociedade, esse é um tema que a comunidade que luta pela saúde do oceano tem trabalhado com muito afinco para que o oceano tenha mais visibilidade nos debates sobre mudanças climáticas. Então esse foi o motivo que eu percebi que era impossível não participar dessa grande reunião. Enfim, também numa terra onde eu tenho família, Belém do Pará é a terra do meu pai, e uma terra muito especial, uma cidade muito especial, eu acho que por tantos motivos era imperdível realmente essa experiência na COP. Sabine: Voltamos todas apaixonadas por Belém. O pessoal extremamente acolhedor, a cidade incrível, foi maravilhoso. Eu trabalho tentando compreender como a ciência, conhecimento científico, as evidências circulam na sociedade, na sociedade organizada. Então entre jornalistas, entre tomadores de decisão, entre grupos específicos. E no meu entendimento a COP é um espaço, é um grande laboratório sobre isso, porque a ciência já mostrou o que está acontecendo, a ciência já apontou, aliás faz tempo que os cientistas alertam, e que o consenso científico é muito claro sobre as mudanças climáticas. Então o que falta agora é essa informação chegar nos grupos organizados, nos tomadores de decisão, nas políticas públicas, e quem pode realmente bater o martelo e alterar o curso das mudanças climáticas. Claro que a gente precisa de mais ciência, mas a gente já sabe o que está acontecendo. Então me interessou muito circular e entender como que a ciência estava ou não. Porque muitos ambientes, as negociações, os debates, eles traziam mais desinformação ou falsa controvérsia do que a ciência em si. Germana: E é a primeira vez que a COP abrigou um pavilhão de cientistas. Então acho que esse é um marco, tanto para cientistas quanto outros pavilhões, outras presenças que foram inéditas ou muito fortes na COP, como dos povos indígenas ou comunidades tradicionais, mas também de cientistas, que antes, claro, os cientistas sempre foram para as COPs, mas iam como individualmente, vamos dizer assim. Sabine: Para a gente entender, quem não tem familiaridade com COP, os pavilhões, e isso eu aprendi lá, porque eu nunca tinha participado de uma COP, os pavilhões são como se fossem grandes estandes que têm uma programação própria e acontecem debates e manifestações, eventos diversos, culturais, enfim. Então a zona azul, que a gente chama, que é a área central da COP, onde tem as discussões, as tomadas de decisão, tem um conjunto de pavilhões. Pavilhões de países, pavilhões de temas. Oceanos também foi a primeira vez, né? Germana: Não foi a primeira vez, foi o terceiro ano, a terceira COP, mas estava enorme, sim, para marcar a presença. Ma

Dec 9, 202538 min

#206 – Traduzir a Antiguidade: memória e política nos textos greco-romanos

Você já parou pra pensar quem traduz os livros que você lê e como esse trabalho molda a forma como entende o mundo? Neste episódio, Lívia Mendes e Lidia Torres irão nos conduzir em uma viagem no tempo para entendermos como os textos gregos e latinos chegam até nós. Vamos descobrir por que traduzir é sempre também interpretar, criar e disputar sentidos. Conversamos com Andrea Kouklanakis, professora permanente na Hunter College, Nova York, EUA, e Guilherme Gontijo Flores, professor da Universidade Federal do Paraná. Eles compartilharam suas trajetórias no estudo de línguas antigas, seus desafios e descobertas com o mundo da tradução e as questões políticas, históricas e estéticas que a prática e as teorias da tradução abarcam. Esse episódio faz parte do trabalho de divulgação científica que a Lívia Mendes desenvolve no Centro de Estudos Clássicos e Centro de Teoria da Filologia, vinculados ao Instituto de Estudos da Linguagem e ao Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, financiado pelo projeto Mídia Ciência da FAPESP, a quem agradecemos pelo financiamento. O roteiro foi escrito por Lívia Mendes e a revisão é de Lidia Torres e Mayra Trinca. A edição é de Daniel Rangel. Se você gosta de literatura, história, tradução ou quer entender novas formas de aproximar o passado do presente, esse episódio é pra você. __________________________________________________________________ ROTEIRO [música, bg] Lívia: Quem traduziu o livro que você está lendo? Lívia: E se você tivesse que aprender todas as línguas dos clássicos que deseja ler? Aqueles livros escritos em russo, alemão ou qualquer outra língua diferente da sua? Lívia: E aqueles livros das literaturas que foram escritas em línguas que chamamos antigas, como o latim e o grego? Lidia: A verdade é que, na maioria das vezes, a gente não pensa muito sobre essas questões. Mas, no Brasil, boa parte dos livros que lemos, tanto literários quanto teóricos, não chegaria até a gente se não fossem os tradutores. Lidia: Essas obras, que fazem parte de todo um legado social, filosófico e cultural da nossa sociedade, só chegaram até nós por causa do trabalho cuidadoso de pesquisadores e tradutores dessas línguas, que estão tão distantes, mas ao mesmo tempo, tão próximas de nós. [música de transição] Lívia: Eu sou a Lívia Mendes. Lidia: E eu sou a Lidia Torres. Lívia: Você já conhece a gente aqui do Oxigênio e no episódio de hoje vamos explorar como traduzimos, interpretamos e recebemos textos da Antiguidade greco-romana. Lidia: E, também vamos pensar por que essas obras ainda hoje mobilizam debates políticos, culturais e estéticos. Lívia: Vem com a gente explorar o mundo da antiguidade greco-romana que segue tão presente na atualidade, especialmente por meio da tradução dos seus textos. [vinheta O2] Andrea [1:05-2:12]: Então, meu nome é Andrea Kouklanakis e, eu sou brasileira, nasci no Brasil e morei lá até 21 anos quando eu emigrei para cá. Lívia: O “cá” da Andrea é nos Estados Unidos, país que ela se mudou ainda em 1980, então faz um tempo que ela mora fora do Brasil. Mas mesmo antes de se mudar, ela já tinha uma experiência com o inglês. Andrea Kouklanakis: Quando eu vim pra cá, eu não tinha terminado faculdade ainda, eu tinha feito um ano e meio, quase dois anos na PUC de São Paulo. Ah, e mas chegou uma hora que não deu mais para arcar com a responsabilidade financeira de matrícula da PUC, de mensalidades, então eu passei um tempo trabalhando só, dei aulas de inglês numa dessas escolas assim de business, inglês pra business people e que foi até legal, porque eu era novinha, acho que eu tinha 18, 19 anos e é interessante que todo mundo era mais velho que eu, né? Os homens de negócios, as mulheres de negócio lá, mas foi uma experiência legal e que também, apesar de eu não poder estar na faculdade daquela época, é uma experiência que condiz muito com o meu trabalho com línguas desde pequena. Lívia: Essa que você ouviu é a nossa primeira entrevistada no episódio de hoje, a professora Andrea Kouklanakis. Como ela falou ali na apresentação, ela se mudou ainda jovem pros Estados Unidos. Lidia: E, como faz muito tempo que ela se comunica somente em inglês, em alguns momentos ela acaba esquecendo as palavras em português e substitui por uma palavra do inglês. Então, a conversa com a Andrea já é um início pra nossa experimentação linguística neste episódio. Andrea Kouklanakis: Eu sou professora associada da Hunter College, que faz parte da cidade universitária de Nova York, City University of New York. E eles têm vários campus e a minha home college é aqui na Hunter College, em Manhattan. Eh, eu sou agora professora permanente aqui. Lívia: A professora Andrea, que conversou com a gente por vídeo chamada lá de Nova Iorque, contou que já era interessada por línguas desde pequena. A mãe dela trabalhava na casa de uma professora de línguas, com quem ela fez as primeiras aulas. E ela aprendeu também algumas palavras da língua materna do seu pai, que é grego e mais tarde, estudou francês

Nov 27, 202541 min

#205 – A disputa pela governança da Internet no Brasil

A governança da internet, da maneira como é feita hoje, envolve diversos setores e promove um modelo focado na distribuição e acesso por todo o país. Mas mudanças e propostas recentes podem mudar esse cenário, concentrando a gestão da internet em poucas grandes empresas. Neste episódio, apresentado por Damny Laya e Thais Lassali, produzido também por Mayra Trinca, te contamos o que está por trás da queda da Norma 4 da Anatel, que separa o que é telecomunicações do serviço de internet no Brasil. Para isso, falamos com representantes de associações de provedores de internet, membros do Comitê Gestor da Internet no Brasil e da Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel. _____________________________ ROTEIRO [música de introdução] – Chicken Steak THAIS: Hoje a gente vai falar sobre internet. Mas não sobre o vício que as redes sociais causam ou sobre como conteúdos cada vez mais extremistas e violentos têm vindo à tona. DAMNY: O que não significa que o assunto seja menos importante… ou menos espinhoso. THAIS: A gente vai falar sobre como o acesso de algumas pessoas a internet pode ser abalado com algumas mudanças que estão por vir. Mas, talvez até mais importante, o episódio de hoje é sobre quem toma as decisões sobre o funcionamento da internet no Brasil. DAMNY: Eu sou Damny Laya, bolsista Mídia Ciencia do Nucleo de desenvolvimento da Criatividade que abriga o Labjor. THAIS: E eu sou Thalis Lassali, bolsista Mídia Ciência do Geict, o grupo de estudos interdisciplinares em ciência e tecnologia do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp. [VINHETA] DAMNY: Pra começar essa conversa, é importante ter em mente algumas questões técnicas. A gente vai tentar ser breve e didático aqui, mas presta atenção porque vai ser importante. THAIS: A internet funciona dependendo basicamente de três coisas: a camada de infraestrutura básica, as conexões entre diferentes pontos e os conteúdos transmitidos por essas conexões. [música] – Slider DAMNY: A infraestrutura são os cabos e os sistemas de armazenamento de informação, como os cabos submarinos e os data centers, por exemplo. A conexão entre os pontos é a parte lógica do funcionamento, que envolve a identificação na rede e as maneiras de ligar os IPs, os endereços de rede, entre si. THAIS: E a parte de conteúdo é a cobertura de tudo isso, a parte que a gente realmente vê e interage. E, vamos ser sinceros aqui, a parte que mais recebe nossa atenção. Eu não sei você, mas eu mal penso em todo o quebra-cabeça necessário que permite que eu consiga me conectar a rede pra ouvir um episódio de podcast, por exemplo. DAMNY: Só que as camadas de baixo são essenciais pra esse funcionamento. A gente não conseguiria fazer esse podcast chegar até você se não fosse a conexão que existe pra distribuir o episódio nos agregadores e fazer ele chegar no seu fone. THAIS: E não adianta a gente tentar distribuir esse episódio se não tem cabo que leve as informações de um lugar para o outro. Nas grandes cidades, quem costuma fazer o trabalho de instalação desses cabos são as empresas de telecomunicação. DAMNY: Essas empresas são aquelas que nasceram com a telefonia, ganharam corpo com a rede celular e aí foram se adaptando e incluindo no seu serviço a oferta de internet. [encerra música] BASILIO: E existe uma diferença muito importante, que é assim, nas cidades mais grandes, cidades de mais de 500 mil habitantes, quase todas elas são dominadas pelas grandes operadoras, 80% dos acessos são feitos pela Vivo, pela Claro, pela TIM, por empresas desse porte. THAIS: Esse é o Basílio Perez. Ele é vice-presidente da Abrint, a Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações e presidente da Federação de Associações e Câmaras de Provedores de Internet da América Latina e do Caribe. BASILIO: Mas, quando você vai descendo em cidades menores, em cidades abaixo, já na faixa de 200 mil habitantes, já está meio a meio, metade pequenos provedores, metade grandes operadores. Quando você vai descendo em cidades menores, chegando em cidades de 30 mil habitantes, 90% do acesso é da pequena operadora. DAMNY: O que o Basílio tá dizendo é que a internet do Brasil é organizada de diferentes formas dependendo da região. Nas cidades maiores – em geral mais ricas e com mais infraestrutura – quem predomina são as grandes operadoras. RAFAEL: E muitas vezes elas não têm interesse de levar esse cabo até a cidade do interior. Mas tem um cara que quer prover internet lá. Então ele fala, ei, manda um cabo aqui, eu pago, que depois eu faço o cabeamento aqui da região. Chega o cabo da telecom, ele compra essa conexão, ele compra uns IPs. E monta um negócio vendendo essa conexão. THAIS: Esse agora é o Rafael Evangelista, ele é pesquisador aqui no Labjor e conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI, representando o setor técnico-científico. DAMNY: CGI. Guarda esse nome que a gente ainda vai voltar nele. RAFAEL: Mas você tem um certo arranjo que p

Nov 14, 202530 min

#204 – A ciência na busca por novos medicamentos

Você já se perguntou como novos medicamentos são desenvolvidos? Neste episódio, vamos apresentar uma das abordagens científicas para desenvolver novos tratamentos para doenças humanas: a descoberta de fármacos baseada em alvos biológicos. Você vai conhecer como a ciência une o trabalho de diferentes áreas do conhecimento para encontrar moléculas que podem se tornar medicamentos, tanto a partir de experimentos de bancada, nos laboratórios, quanto com o uso de ferramentas computacionais. Você vai ouvir entrevistas com Katlin Massirer, farmacêutica e pesquisadora que coordena o Centro de Química Medicinal (CQMED) da Unicamp e com Karina Machado, professora na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e coordenadora do Laboratório de Biologia Computacional (Combi-Lab). Elas vão explicar como é realizado o complexo trabalho que envolve equipes multidisciplinares para identificar e produzir proteínas-alvo em laboratório, testar milhares de moléculas capazes de modular a função dessas proteínas e mostrar como a ciência da computação pode acelerar essas etapas. O episódio foi produzido por Lívia Mendes e Daniel Rangel e faz parte do trabalho de divulgação científica que o Daniel Rangel desenvolve no CQMED da Unicamp financiado pelo projeto Mídia Ciência da FAPESP. ____________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO [música – BG] Lívia: Capivasertibe. Você provavelmente nunca ouviu falar nesse nome, mas ele nomeia algo que tem uma importância muito relevante na saúde da nossa população, principalmente na saúde das mulheres. Lidia: Agora, se a gente falar “Outubro Rosa”, você deve associar o nome à campanha de conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama, que aliás está acontecendo no mês que esse podcast tá sendo gravado. Lívia: Isso mesmo. O “Outubro Rosa” é um movimento internacional de conscientização no controle do câncer de mama, criado no início da década de 1990, com a primeira Corrida pela Cura, em Nova Iorque. No Brasil é realizado desde 2002, e foi instituído por lei federal em 2018. Lidia: Mas, você deve estar se perguntando, qual a relação do Capivasertibe com o Outubro Rosa? Lidia: Então, o capivasertibe é um medicamento usado pra tratar certos tipos de câncer de mama avançado. Ele bloqueia uma proteína chamada AKT, que atua de forma desregulada em células cancerígenas, inibindo o crescimento do tumor, dando assim uma maior expectativa de vida pros pacientes. Lívia: Mas, porque a gente escolheu falar exatamente do tratamento do câncer de mama com capivasertibe nesse episódio? Lidia: Porque hoje a gente vai te contar uma abordagem da ciência pra desenvolver novos medicamentos, e o capivasertibe é um dos exemplos de medicamento disponível nas farmácias desenvolvido a partir dessa abordagem. Lívia: Essa abordagem é a descoberta de novos fármacos baseada em alvos biológicos e já já você vai entender isso. [música de transição] Lidia: Todo mundo já precisou de um medicamento em algum momento da vida. Desde um tratamento pra uma dor leve, causada por algum acidente doméstico, ou um para aliviar um mal-estar e até pras doenças mais graves, como os diferentes tipos de cânceres. Lívia: Mas, provavelmente você nunca parou pra pensar como novos medicamentos são descobertos. E é exatamente isso que a gente vai te contar nesse episódio. Lidia: Você vai conhecer como a ciência une o trabalho de diferentes áreas do conhecimento pra encontrar moléculas que podem se tornar fármacos. Tanto a partir de experimentos de bancadas, nos laboratórios, quanto a partir de ferramentas da computação. Lívia: Eu sou a Lívia Mendes e esse é o episódio “A Ciência na Busca por Novos Medicamentos”. Lidia: Eu sou a Lidia Torres. Vem com a gente embarcar no mundo invisível dos genes, das proteínas e das pequenas moléculas, pra entender como os cientistas desenvolvem os medicamentos que a gente utiliza pra tratar as nossas enfermidades. Lívia: Hoje a gente vai falar das fases iniciais do desenvolvimento de novos fármacos, mais especificamente das estratégias de descoberta baseadas em alvos biológicos. [Vinheta Oxigênio] Lívia: A história da descoberta de novos fármacos nos mostra que a humanidade sempre buscou soluções na natureza. Lidia: Basicamente, existem duas formas de se descobrir um novo medicamento. A primeira delas é essa, mais lógica, que a Lívia falou, a partir de compostos naturais. Sabe aquele chazinho que a sua vó te indicava pra tratar uma indisposição? Então, esse é o costume mais antigo dos seres humanos, usar compostos naturais pra aliviar sintomas que nos incomodam. Lívia: Mas, lembra do capivasertibe? Que a gente te apresentou lá no início do episódio? Ele foi descoberto de outra forma, sua origem não é a partir de produtos naturais, seu princípio ativo é uma molécula sintetizada em laboratório. Lidia: A história do capivasertibe começa com a busca por tratamentos que pudessem atacar o câncer de forma direcionada

Oct 30, 202531 min

#203 – O que (não) é quântica?

Não é de hoje que a quântica carrega um ar de misticismo e a reputação de ser a solução para os mais diversos tipos de problemas, sejam eles relacionados ao corpo ou à alma. Essa fama faz com que o termo seja usado de maneira irresponsável por charlatões que procuram lucrar com a venda de produtos e serviços pseudocientíficos, baseados em mentiras. Mas fato é que a quântica tem, sim, muitas aplicações reais e é uma área muito importante da ciência – não à toa, foi o tema central do Prêmio Nobel de Física em 2025. Por isso, no quarto episódio da série Parcerias, produzido por Eduarda Moreira e Mayra Trinca junto com o Fronteiras da Ciência, da UFRGS, e em comemoração ao centenário da Física Quântica, trazemos dicas e informações que ajudam a diferenciar o que é do que não é quântica. ___________________________________________________________________ ROTEIRO Eduarda: Imagina a seguinte cena: um professor entra na sala de aula no primeiro dia do curso e diz: Pedro: Hoje é um dia muito emocionante pra mim porque vamos começar a estudar Mecânica Quântica, e faremos isso até o fim do período. Agora, eu tenho más notícias e boas notícias: a má notícia é que é um assunto um pouco difícil de acompanhar intuitivamente, e a boa notícia é que ninguém consegue acompanhar intuitivamente. O Richard Feynman, uma das grandes figuras da física, costumava dizer que ninguém entende mecânica quântica. Então, de certa forma, a pressão foi tirada de vocês, porque eu não entendo, vocês não entendem e Feynman não entendia. O ponto é que…o meu objetivo é o seguinte: nesse momento eu sou o único que não entende mecânica quântica nessa sala, mas daqui uns sete dias, todos vocês serão incapazes de entender mecânica quântica também, e aí vão poder espalhar a ignorância de vocês por vários lugares. Esse é o único legado que um professor pode desejar! Guili: Isso realmente aconteceu! O físico indiano Ramamurti Shankar, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, ficou famoso por esse discurso de boas-vindas – um tanto quanto sincero – aos seus alunos. Eduarda: Se a quântica é esse negócio tão complicado de entender até pra especialistas da área, imagina pra gente que nem lembra mais as equações que decorou pro vestibular. Não é à toa que muita gente usa o termo “quântico” pra dar um ar científico a produtos que não têm nada de científico, muito menos de quântico. Guili: A lista é bastante longa: tem “terapia quântica”, “coach quântico”, “sal quântico”, “emagrecimento quântico”… eu tenho certeza que você já se deparou com algum desses por aí. Mas, afinal, como saber o que não é, e, principalmente, o que realmente é a ciência quântica? Eduarda: É isso que eu, Eduarda Moreira, e o Guili Arenzon vamos te contar no episódio de hoje, que é uma parceria entre o Oxigênio e o Fronteiras da Ciência, podcast de divulgação científica do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Eduarda: Esse episódio é mais um da série comemorativa dos 10 anos do Oxigênio! Marcelo Knobel: Então, recentemente eu recebi um, inclusive de um aluno, que era uma mesa quântica estelar para resolver processos judiciais, para dar um exemplo extremo do que pode acontecer, mas tem aí cursos de pedagogia quântica, brincadeira quântica para criança, tem pulseiras quânticas e assim vai, é infinita a imaginação humana. Guili: Esse é o Professor Marcelo Knobel Marcelo Knobel: …eu sou professor de Física da Unicamp, sou professor há mais de 35 anos, fui reitor da Unicamp, atualmente estou em Trieste, na Itália, como diretor executivo da Academia Mundial de Ciências para Países em Desenvolvimento. E tenho trabalhado com divulgação científica, com gestão universitária, gestão da ciência, e é um prazer estar aqui com vocês. Guili: O Marcelo tem um gosto pessoal por investigar pseudociências, especialmente as quânticas, o que faz sentido, já que ele também é físico. Eduarda: Então, a gente conversou com ele justamente pra tentar entender porque as pessoas gostam tanto de usar o termo “quântico” nos mais diferentes contextos. Marcelo Knobel: Eu acho que a quântica ganhou um imaginário popular como algo complexo, algo realmente que está ali no mundo subatômico, que todos sabem que tem a ver com física, é uma física complexa, difícil de entender, não é trivial, nem para quem faz física, mestrado em física, doutorado, quem trabalha na área, é algo realmente muito, muito complexo de entender, porque tem fenômenos muito esquisitos que acabam acontecendo. Guili: A percepção de que a física quântica é uma área do conhecimento muito específica e difícil, e o fato de que nem os maiores estudiosos da área entendem completamente – como o professor Shankar falou pros alunos no primeiro dia de aula – acabaram tornando esse termo um prato cheio pros charlatões. Marcelo Knobel: …primeiro que ela exige e tem um formalismo matemático bastante avançado e complexo. Então, você precisa conhecer um pouco mais de matemática avançada para p

Oct 27, 202525 min

#202 – Sônia Bridi: histórias de vida, de jornalismo e de ciência

Ao planejar a série comemorativa dos 10 anos, a equipe do Oxigênio pensou em vários podcasts que poderíamos convidar e logo veio a ideia de convidar o Vida de Jornalista, um podcast independente, conduzido pelo jornalista Rodrigo Alves. Além de produzir o podcast que é uma referência para quem faz e quem estuda jornalismo, Rodrigo oferece oficinas de podcast e algumas pessoas do grupo já tinham sido suas alunas. Convite aceito, logo nos reunimos online e acertamos quem seria nossa entrevistada: Sônia Bridi, de quem faríamos o perfil, buscando mesclar com elementos do jornalismo narrativo, no estilo do Oxigênio. Nosso parceiro entrou de cabeça no projeto. Com contatos na Globo, onde trabalhou por alguns anos, e amigos em comum, Rodrigo conseguiu fazer o convite e a Sônia aceitou. Entrevista agendada, estúdio reservado, e aí tivemos uma breve disputa para ver quem seria a/o privilegiado de entrevistar a grande jornalista, junto com o Vida de Jornalista, no Estúdio Rastro, no Rio… e a coordenadora do podcast, que dificilmente produz um episódio, ganhou a disputa. Bem, neste episódio saímos bastante do padrão do Oxigênio, estando mais próximo dos episódios produzidos pelo Vida de Jornalista, nosso parceiro neste episódio da série Parcerias. Com uma hora de duração e apenas uma entrevistada, o episódio traz várias histórias da jornalista Sônia Bridi, um ícone do jornalismo brasileiro, bastante conhecida por seu trabalho na TV, mas que nossos ouvintes vão ouvir que antes de chegar ao Fantástico, Sônia realizou outros trabalhos. Apresentamos nesse perfil, histórias de jornalismo, de jornalismo científico, socioambiental, e algumas passagens da vida pessoal da nossa entrevistada. Agradecemos muito a disponibilidade de Sônia pra dar a entrevista e em especial ao Rodrigo Alves que fez um trabalho incrível de edição do material (enorme) e por ter aceito tocar essa parceria com o Oxigênio. _______________________________ Roteiro [Vinheta Oxigênio: Voz feminina: Você está ouvindo Oxigênio]. [MÚSICA – Todas as músicas do episódio são tocadas no violão]. SÔNIA BRIDI: Eu sempre falo isso. Que eu era uma criança deslumbradona assim, sabe, de deitar na grama e ficar olhando para as nuvens, e tentar entender por que é que umas estavam indo para um lado e outras estavam indo para o outro. Adorava ficar observando. Adorava ficar olhando o céu de noite. Naquelas noites frias de inverno. Então, pouca poluição luminosa. Ficava aquele céuzão assim que parecia que ia cair em cima da gente. E eu gostava de andar no mato. Eu gostava de olhar as flores, as plantas. Eu tinha uma horta em casa que eu cuidava. E eu me lembro que eu amava pegar a enciclopédia e ficar: como são formados os vulcões? O Popocatepetl surgiu de um dia para outro numa plantação de milho no México. E aquilo, para mim, era um troço assim incrível. Eu tinha curiosidade. E a ciência é fascinante, né? A ciência, quanto mais a gente sabe, mais a gente se dá conta que não sabe. E mais fascinante vai ficando e mais curiosa a gente fica. [MÚSICA] RODRIGO ALVES: Essa voz que você ouviu na abertura… você provavelmente já sabe quem é. Não só porque você já deve ter visto o título do episódio, mas porque você já deve ter escutado muito essa voz na televisão. A gente tá falando de uma lenda do jornalismo brasileiro. A Sônia Bridi. E sim, esse é um perfil que vai passar por toda a trajetória dela. SIMONE: E esta voz que você acaba de ouvir é bem provável que você também conheça. É o Rodrigo Alves, do podcast Vida de Jornalista. Oi, Rodrigo, você pode se apresentar e apresentar o Vida pra quem ainda não conhece. RODRIGO: Oi oi. Obrigado demais por essa parceria, tô muito feliz de dividir esse episódio com o Oxigênio. Parabéns pelos 10 anos. O Vida de Jornalista tem 7 anos e eu já acho que é muita coisa, imagina o Oxigênio que tá na estrada há tanto tempo. O Vida é um podcast narrativo com histórias e bastidores do jornalismo. Então esse episódio é uma honra pra mim, tanto pela nossa parceria, como pela entrevistada. SIMONE: E eu sou a Simone Pallone, coordenadora do Oxigênio. Este é o episódio número 202 e o terceiro da nossa série comemorativa dos 10 anos, que estamos fazendo com podcasts que admiramos. Fizemos o convite ao Rodrigo e ele não só aceitou, como entrou de cabeça na produção do episódio. E pra celebrar esse encontro, entrevistamos a incrível Sônia Bridi. O episódio está bem diferente dos outros. Está mais longo e temos uma única entrevistada. Aproveitamos a parceria com o Vida, que tem produzido uma série de perfis, pra inovar. Esse material está também no feed do Vida de Jornalista, com uma abertura um pouco diferente, mas o conteúdo da entrevista é o mesmo. E pra você que ainda não segue o Vida, aproveita pra começar a seguir. Você não vai se arrepender. E vamos à entrevista que, como diz o Rodrigo, a gente começa do começo. No caso da Sônia, a quem agradecemos muito que tenha aceitado o nosso convite, o começo é em Santa Catarina. SÔNIA BRIDI: As minh

Oct 9, 202558 min

Ep 201#201 – Um bate-papo sobre café

Neste episódio, você acompanha Mayra Trinca e Lidia Torres em uma conversa sobre uma pesquisa de percepção de mudanças climáticas com cafeicultores. A pesquisa faz parte do projeto Coffee Change, parte de um grande projeto interdisciplinar sediado na Unicamp. Ao longo do episódio, as professoras Simone Pallone e Claudia Pfeiffer explicam mais sobre suas pesquisas e falam sobre as vantagens do método utilizado: os grupos focais. Participa também do episódio Guilherme Torres, doutor em Geografia, que participa do projeto e acompanhou o grupo nas pesquisas. ______________________________________ ROTEIRO MAYRA: Foi. Então agora que eu aprendi a usar esse gravador, onde é que a gente tá indo? SIMONE: A gente tá indo pra Espírito Santo do Pinhal. MAYRA: E o que que a gente tá indo fazer lá? SIMONE: Vamos fazer um grupo focal com produtoras de café. Dessa vez a gente vai fazer um grupo só de mulheres produtoras, cafeicultoras. 0:25 [encerra áudio] MAYRA: Na verdade, eu ainda não tinha aprendido a usar o gravador. MAYRA: e aí eu gravei um monte de coisa legal e descobri que eu não tava gravando LIDIA: Mas, calma, fica aqui, a gente ainda tinha um tempo de viagem pela frente e regravamos tudo que foi falado de interessante. MAYRA: E é isso que vamos te contar aqui agora. Eu sou a Mayra Trinca. LIDIA: E eu sou a Lidia Torres. Nesse episódio do Oxigênio vamos te falar como são feitas algumas das pesquisas que investigam a relação de produtores de café com as mudanças climáticas. Elas fazem parte do programa Coffee Change, que é um braço do grande projeto interdisciplinar, BIOS. [VINHETA: Você está ouvindo Oxigênio, um programa de ciência, cultura e tecnologia] LIDIA: Naquele dia, a gente tava a caminho da cidade Espírito Santo do Pinhal… MAYRA: pra acompanhar a parte de uma pesquisa que a professora Simone Pallone faz parte, que é a coordenadora aqui do Oxigênio. Então, você vai ter a possibilidade ilustre de ouvir a voz da Simone, que sempre foge dos microfones. MAYRA: Pinhal, pros íntimos, é uma cidadezinha no interior de São Paulo, quase chegando na divisa do Sul de Minas Gerais. “A gente” era eu, a Lidia, a Simone e o Guilherme, que vocês vão conhecer daqui a pouco. LIDIA: O objetivo da visita era fazer o terceiro grupo focal de um estudo que está em andamento, coordenado pela professora Claudia Pfeiffer – que ainda vai aparecer nesse episódio – e que a Simone também participa. MAYRA: Então, Simone, explica pra gente o que é um grupo focal. SIMONE: Bom, grupo focal é uma técnica de pesquisa usada bastante nas áreas de comunicação, de ciências sociais, na área de saúde também, que você reúne um grupo de pessoas, que aí você define que perfil vão ter esses participantes, pra tratarem, pra conversarem sobre um assunto determinado. Então, no nosso caso, a gente vai conversar sobre mudanças climáticas. SIMONE: Então, eu vou procurar pistas em relação ao que esses produtores conhecem sobre ciência e tecnologia, como os conhecimentos deles sobre ciência interferem na interpretação deles sobre as mudanças climáticas, e também sobre como eles se informam sobre isso, como eles se informam a respeito de ciência e tecnologia, em quem eles confiam para se informar sobre essas questões, e quais são as atitudes, como eles se preparam para enfrentamento dessas questões, ou o que eles estão dispostos a fazer em prol de atender, de mitigar os efeitos, ou se adaptar aos efeitos que eles identificam sobre mudanças climáticas. MAYRA: Você deve ter percebido uma diferença grande na qualidade desse áudio da Simone agora. É que depois do Grupo Focal, a gente sentou de novo no estúdio aqui do Labjor pra conversar mais e entender alguns pontos importantes que surgiram depois da nossa ida pra Pinhal. LIDIA: A gente pediu pra Simone explicar melhor como é possível investigar essas questões, que são hipóteses de pesquisa, através de uma roda de conversa entre produtores. SIMONE: A gente lança algumas perguntas e, na discussão, na conversa, conforme eles vão respondendo e interagindo com as respostas de outras pessoas que estão fazendo parte do grupo, a gente vai formando uma opinião sobre o que eles entendem, como eles estão agindo, como eles estão se informando, para que a gente tenha instrumentos também para oferecer alguma coisa que possa ajudá-los. MAYRA: Então, em cada grupo focal, e foram 3 nessa pesquisa, as pesquisadoras levantaram algumas perguntas disparadoras, que serviam pra começar uma conversa sobre um determinado tópico. LIDIA: Conforme as pessoas vão respondendo e conversando entre si, se complementando, a pesquisadora vai anotando os pontos chaves que percebe, quais comentários se repetem, o que aparece de diferente ou surpreendente. MAYRA: Ah, e o encontro do grupo é filmado também. Porque daí é possível voltar pra esse vídeo depois e captar mais detalhes da conversa, reconhecer quem tá falando, quais pessoas conversam mais entre si e até as expressões faciais e movimentos durante a fala que ajudam a entender os sentimentos

Sep 25, 202538 min

# 200 – Ugo Giorgetti em 4 documentários – 1a parte

Este é o primeiro episódio de uma série que a pesquisadora Liniane Haag Brum desenvolveu para o Oxigênio. Trata-se da divulgação de um conjunto de documentários produzidos pelo cineasta Ugo Giorgetti, que foram tema de estudo de um pós-doutorado que Liniane desenvolveu no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, intitulado: “Contra o apagamento, o cinema de não ficção de Ugo Giorgetti”. Neste episódio nossos ouvintes vão conhecer um pouco sobre os documentários “Pizza”, de 2005 e “Em busca da pátria perdida”, de 2008. Os dois próximos serão: “Variações sobre um quarteto de cordas” e “Santana em Santana”. Acompanhe aqui a série! _______________________________________ [Trilha sonora do documentário “Pizza”] Liniane: O cineasta Ugo Giorgetti é conhecido por abordar a cidade de São Paulo em sua obra. Um dos seus filmes mais conhecidos é “Boleiros – Era Uma Vez o Futebol”. O longa-metragem apresenta histórias de um grupo de ex-jogadores que se reúne em um boteco paulistano e relembra glórias e fracassos da profissão. A produção é de 1998 e tem a participação de nomes como Denise Fraga e Lima Duarte. A filmografia de Ugo Giorgetti conta com 31 títulos, entre longas-metragens ficcionais, documentários e peças audiovisuais de não ficção de formatos variados. Mas, como o diretor continua em atividade, esse número não para de crescer. Nesse episódio, iremos tratar de uma parte pouco explorada da obra de Giorgetti, – o perfil documentarista desse importante diretor brasileiro. Meu nome é Liniane Haag Brum, sou doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e realizei a pesquisa de pós-doutorado “Contra o apagamento – o cinema de não ficção de Ugo Giorgetti” também na Unicamp, no Labjor, com o apoio da Fapesp. Essa pesquisa surgiu da descoberta de uma lacuna. Percebi que não havia nenhum estudo sobre a obra de não ficção de Giorgetti. Apesar de ela ser tão expressiva quanto a sua ficção, e mais extensa. Lidia: E eu sou a Lidia Torres, sou doutoranda em Ciências Sociais pela Unicamp e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor, também na Unicamp. Atualmente pesquiso memórias e oralidades, e também produzo documentários. Eu colaborei com o roteiro desse podcast e vou apresentá-lo junto com a Liniane. Vamos trazer um recorte desse estudo. Ou seja, vamos apresentar dois filmes que fazem parte da pesquisa: os médias-metragens “Pizza” e “Em Busca da Pátria Perdida”. Em outro episódio traremos mais dois, acompanhe o Oxigênio para não perder. Lidia: Você lembra que bem no início do episódio a gente afirmou que Ugo Giorgetti aborda a cidade de São Paulo em sua obra? Só que afirmar isso é um pouco “chover no molhado”. Que o cineasta retrata a metrópole em sua obra, muita gente sabe, o que poucas pessoas sabem é sobre quais os procedimentos e recursos de linguagem ele usou pra tratar o conteúdo dos documentários, trazendo toda a complexidade da capital paulista. [Vinheta Oxigênio] Liniane: Pra começar, vamos de “Pizza”? [Trilha sonora do documentário “Pizza”, do Maestro Mauro Giorgetti] Sabe aquele documentário que coloca o espectador aos poucos dentro da narrativa? “Pizza” é assim. Ele inicia com dona Amélia Baraglia, que sempre morou no bairro da Mooca: “Pizza”: Tinha um senhor, chamava César, o nome dele. E ele fazia pizza no fundo do quintal dele, ele tinha um forno à lenha, ele fazia pizza. Fazia um pizzinha assim, um pouquinho maior que o brotinho, mas era uma delícia a pizza dele. Aí ele enchia uma lata enorme de alumínio, com as pizzas uma em cima da outra; ele tinha um pano branco que era a coisa mais branca que eu vi na minha vida, ele jogava no ombro, punha aquela lata no ombro e saia nas ruas para vender pizza. Liniane: O que esse depoimento desperta na gente é mais do universo afetivo e sentimental. Mas, aos poucos esse tom muda, fica mais direto, sem nunca perder a subjetividade do relato: “Pizza”: A pizza da Castelões não é uma pizza de massa grossa, a massa é extremamente fina no centro, a única coisa, o que diferencia, é que a borda dela é alta, é uma borda que cresce. Isso é uma pizza tipicamente napolitana, de onde venho, a nossa receita. Liniane: Esse que você acabou de ouvir é o Fabio Donato, dono da Castelões e neto de Vicente Donato, que fundou a pizzaria. Castelões talvez seja a cantina mais antiga da capital paulista. Ela foi inaugurada em 1924, no bairro do Brás, onde se concentrava parte dos imigrantes italianos que viviam em São Paulo. Lidia: Logo no começo do documentário também tem o depoimento da Cibele Freitas, uma das sócias da pizzaria chamada A Tal da Pizza: “Pizza”/Cibele Freitas: A Tal da Pizza é uma pizzaria diferenciada em primeiro lugar pela qualidade de seu produto, que é um produto escolhido por nós, os proprietários que fazemos as compras. Além da massa, que é receita e segredo da família, essa linguiça também era uma receita do meu avô e que era feita por ele até quando ele faleceu e hoje é feita por uma prima da minh

Aug 29, 202528 min

Série Termos Ambíguos – #6 Politicamente Correto

Neste novo episódio da série Termos Ambíguos, o verbete abordado é o “Politicamente Correto”. O termo começou a ser usado no século XVIII, nos Estados Unidos, para denotar visões e ações políticas e sociais consideradas “corretas e justas” . Como outros termos, aos poucos passou a ser acionado para defender ou justificar declarações que ofendem e agridem verbalmente pessoas negras, mulheres, pessoas LGBTQIA+, PCD’s e outras minorias. Humoristas têm sido grandes opositores do termo, alegando que o politicamente fere a liberdade de expressão. Ouvimos as especialistas Nana Soares, Joana Plaza e Anna Bentes sobre o uso e a desqualificação do termo. ________________________________________________ ROTEIRO Gravação Léo Lins (Humorista): “Tudo fica divertido. Se alguém fala ‘Po, o que aconteceu ali? Um estupro’. Pesado. ‘Que que aconteceu ali? Um estuprito’ Divertido. Estuprito? Posso participar um pouquito? Só a cabecita”. Tatiane: Essa fala foi dita pelo humorista Leo Lins pra ser engraçada, mas brincar com estupro, vamos combinar, não tem nenhuma graça. Daniel: Em junho de 2025, Leo Lins foi condenado a 8 anos e meio de prisão por incitação à discriminação contra pessoas com deficiência. A decisão reconheceu que o conteúdo de suas piadas ultrapassa os limites do humor e configura discurso de ódio. Gravação Léo Lins: “Assim como no meu show, também tem avisos: Show de HUMOR, apresentação de stand up Comedy, obra teatral, ficção, você está entrando em um teatro, está no canal do humorista Léo Lins; mas parece que as pessoas perderam a capacidade de interpretar o óbvio”. Tatiane: A frase, que parece apenas uma defesa pessoal, ecoa um discurso mais amplo, uma tentativa de deslegitimar qualquer responsabilização por falas públicas sob a acusação de que vivemos numa “ditadura do politicamente correto”. Daniel: Tenho certeza de que você já ouviu falar neste termo. Nas últimas décadas, o termo “politicamente correto” tem aparecido constantemente no debate político, e no imaginário coletivo atual. Mas afinal, o que ele realmente significa? [INSERT TRILHA] Tatiane: Pra você que ainda não nos conhece, eu sou a Tatiane… Daniel: E eu sou o Daniel. E esse é o Termos Ambíguos, o podcast que mergulha nas palavras e expressões que se tornaram comuns no debate público atual. Tatiane: Este projeto é uma parceria entre o podcast Oxigênio, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, e o Observatório de Sexualidade e Política, o SPW. Daniel: A cada episódio, analisamos termos usados principalmente por vozes de ultra direita que recorrem a essas expressões para “tensionar, inverter e distorcer as disputas políticas”. Hoje, o termo é: politicamente correto. Tatiane: Desde a primeira onda de propagação nos anos 2000, o termo politicamente correto se cristalizou como acusação pronta. No Brasil e em muitos outros países essa expressão é acionada para desqualificar as ditas “patrulhas que se opõem à Liberdade de expressão”, sendo invocado constantemente para defender ou justificar declarações que ofendem e agridem verbalmente pessoas negras, mulheres, pessoas LGBTQIA+, PCD’s e outras minorias. Daniel: Por conta disso, nos últimos anos, o termo tem causado muitos embates, especialmente sobre os limites do humor, como no caso recente de Léo Lins. Tatiane: Entretanto, é bom saber que o termo Politicamente Correto não é exatamente uma novidade. Já no século XVIII, nos Estados Unidos, o termo era usado para denotar visões e ações políticas e sociais consideradas “corretas e justas” . Daniel: Mais tarde, no século XX, na União Soviética eram “Politicamente Corretas” as visões e ações que não se desviavam da “linha correta” do Partido Comunista. Joana Plaza: “[…] como politicamente correto mudou de sentido ao longo do tempo. Tatiane: Essa é Joana Plaza, professora do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários, da Universidade Federal de Goiás. Joana Plaza: […] já foi usado como uma categoria, de uma certa etiqueta do debate público, que buscasse então tanto dar visibilidade para determinadas identidades quanto colocar intenção em determinados status de poder. Daniel: Por exemplo, nos Estados Unidos, nos anos 60, estudantes universitárias começaram a nomear atitudes e comportamentos, tais como machismo e racismo, como discursos ou gestos “politicamente incorretos”. Tatiane: Ou seja, quando as muitas formas de manifestação do status superior ou maior poder das ditas “maiorias sociais”, que podem ser pessoas brancas, homens machistas, começou a ser questionada, surgiu a oposição política ao uso do termo. Daniel: Nos Estados Unidos, à medida que forças conservadoras ganhavam relevância, e ao mesmo tempo que se ampliavam as demandas feministas, mobilizações antiracistas e pelos direitos LGBTQIAP+, esse repúdio continuou crescendo. A partir da década de 90 o Politicamente Correto começaria a ser debatido nas universidades e em artigos acadêmicos. Tatiane: Quando o debate chegou ao Brasil, no artig

Aug 18, 202515 min

#199 Comida ancestral: a alma da cultura brasileira

Para celebrar os 10 anos do Podcast Oxigênio, tivemos a ideia de fazer episódios em parceria com outros podcasts. Este projeto começou com a parceria que fizemos com o podcast Café Com Ciência e neste episódio será com o podcast Vozes Diamantinas, uma produção do curso de Jornalismo do Campus XXIII da UNEB em Seabra, do estado da Bahia, que visa divulgar os saberes e as práticas culturais da Chapada Diamantina. Ao longo de 2025, teremos muitas parcerias boas, as próximas serão com os podcasts Vida de Jornalista, Fronteiras da Ciência e Ecoa Maloca. Neste episódio especial vamos explorar como os hábitos alimentares brasileiros refletem nossa cultura, história, identidade e resistência. A alimentação será apresentada não apenas como fonte de nutrição, mas como prática cultural viva, carregada de significados, afetos e histórias. Você vai ouvir relatos afetivos com a comida, como da Elizete Pereira, moradora da comunidade quilombola do Tejuco, em Brumadinho, Minas Gerais e da Larah Camargo, que nasceu em São Paulo, mas carrega a cultura alimentar das suas raízes familiares da Bahia, região da Chapada Diamantina. E vai escutar, também, entrevistas com especialistas, professores universitários, secretário de agricultura da cidade de Novo Horizonte e coordenadora-geral e coautora dos processos pedagógicos do Instituto Comida e Cultura. Eles irão abordar a formação da culinária brasileira, a partir das influências indígenas, africanas e portuguesas; a gastronomia territorial como uma forma de resistência e cuidado com a terra, com destaque para o papel das mulheres nas comunidades tradicionais da região da Chapada Diamantina; e a importância da educação alimentar desde a infância, como uma forma de reconexão com a terra e valorização cultural. Neste episódio procuramos evocar a cozinha como espaço de encontro e resistência, reforçando a importância da recuperação de narrativas alimentares como forma de preservar a memória coletiva e a diversidade cultural brasileira. Roteiro [BG] Lidia: “A farinha é feita de uma planta Da família das euforbiáceas De nome manihot utilíssima Que um tio meu apelidou de macaxeira E foi aí que todo mundo achou melhor” (Farinha, Djavan) Lívia: Você já parou pra pensar que a mandioca é um dos alimentos mais representativos da culinária brasileira, é um dos mais versáteis também. Lucas: A diversidade já aparece desde o seu nome. Lívia: Aqui no sudeste nós chamamos de mandioca. Lucas: Já aqui no nordeste e em algumas regiões do norte de “macaxeira” ou “aipim”. Lívia: Mandioca, macaxeira, aipim, castelinha, uaipi, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniva, maniveira, pão-de-pobre, diferentes nomes e diferentes preparos, pra um ingrediente coringa da alimentação na mesa de todas as regiões do país. Lucas: Nativa do Brasil, com a mandioca dá para fazer farinha, polvilho doce e azedo, fécula, goma, tucupi, tapioca e muito mais. Lívia: E, pra degustar esse alimento típico do nosso país, e que é cultivado pelos indígenas desde antes da colonização portuguesa, você não precisa lembrar que a mandioca faz parte da família botânica das euforbiáceas e que seu nome científico é “Manihot utilíssima”, como o Djavan cantou na música “Farinha”, que a gente ouviu os primeiros versos lá no começo. Lívia: Mas, caso tenha ficado a curiosidade, ela é “prima” da mamona, da seringueira, coroa-de-cristo – todas liberam aquela seiva leitosa de seus caules. Inclusive, a mandioca era classificada como ‘Manihot utilíssima’, mas hoje, o nome científico adotado é ‘Manihot esculenta’. Lucas: Devidamente apresentada, nós destacamos sua importância como uma das grandes representantes do tanto de diversidade de plantas e alimentos que nós temos aqui no Brasil. Diferentes nomes, diferentes preparos e uma gama de possibilidades para uma alimentação saudável, popular e afetiva. [Vinheta] Lívia: Eu sou a Lívia Mendes, sou linguista e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor, e você já conhece aqui do Oxigênio. Lucas: E eu sou Lucas Assumpção, estudante de Jornalismo da UNEB Seabra, na Chapada Diamantina, Bahia. Lívia: Neste episódio, nós do Oxigênio. Lucas: E nós do Vozes Diamantinas, queremos te convidar a refletir sobre como os nossos hábitos alimentares contam histórias, que revelam muito mais do que apenas escolhas de nutrição, elas falam também de cultura, memória e identidade. Lívia: Lembrando que esse episódio é ainda mais especial, porque faz parte das comemorações dos 10 anos do Oxigênio Podcast. Em 2025, teremos muitas parcerias boas. Além desta com o Podcast Vozes Diamantinas, da Universidade Estadual da Bahia, nós já fizemos um episódio com o Café Com Ciência, da UNESP e as próximas serão com o Vida de Jornalista, com o Fronteiras da Ciência e com o Ecoa Maloca. Lucas: Quem sabe teremos mais algum, não é? Lidia: “Assim como a língua falada, o sistema alimentar contém e transporta a cultura de quem a pratica, é depositário das tradições e da identidade de um grupo” (Massimo Montanari, Comida como cultura)

Jul 31, 202526 min

#198 – Escolas bilíngues no contexto brasileiro

A demanda por escolas bilíngues cresceu e se diversificou no Brasil nos últimos anos. Há diferentes modelos, com diferentes faixas de preço. A propaganda dessas escolas reforça a aprendizagem contextualizada de um novo idioma como um diferencial. Neste episódio, Mayra Trinca e Marco Centurion exploram o tema, tentando desvendar se o investimento vale a pela ou não. Para isso, participam do programa Ingrid Finger, pesquisadora de bilinguismo e cognição, Miqueli Michetti, socióloga, e Yasmin Faiad, que foi aluna de uma escola bilíngue. ________________________________________ ROTEIRO MAYRA: Se você procurar por “escolas bilíngues no Brasil” no google, vai ver diversas manchetes como: LÍVIA: “Procura por modelo de ensino bilíngue ultrapassa 60% no Brasil”; Escolas bilíngues e internacionais no Brasil cobram mensalidades de até R$ 12 mil; saiba como funcionam”; ou “Escolas bilíngues disparam no Brasil”. MARCO: Dá pra perceber que o modelo vem crescendo e ganhando espaço nas famílias com maior poder aquisitivo. Se você é responsável por alguma criança e tem uma folguinha financeira, é bem possível que já tenha se perguntado se vale a pena investir nesses espaços e nesse tipo de ensino. MAYRA: Se você tá numa situação dessa, ou se interessa pelo assunto, esse episódio é sobre isso: escolas bilíngues. Vamos contar o que é necessário pra uma escola ser chamada de bilíngue, quais as vantagens (e desvantagens) e filosofamos um pouco sobre as influências sociais e culturais no meio disso tudo. Eu sou a Mayra Trinca. MARCO: E eu, o Marco Centurion. E, apesar de tratarmos do tema como escolas bilíngues, o foco principal é nas escolas que utilizam o idioma inglês como a língua estrangeira. Há poucas escolas que adotam outras línguas no Brasil; inclusive línguas originárias. YASMIN: Meu nome é Yasmin, eu tenho 19 anos e no meu ensino fundamental eu passei por uma escola bilíngue. Foram 5 anos nessa escola e depois disso, no meu ensino médio eu entrei para uma escola regular, sem ser bilíngue. E agora eu comecei a fazer faculdade. MAYRA: Essa que você ouviu foi a Yasmin. Ela foi aluna do Marco alguns anos atrás. Eu e o Marco nos conhecemos no curso de especialização em jornalismo científico aqui do Labjor. Eu sou bióloga e o Marco, físico. MARCO: Coincidentemente, nós dois já trabalhamos como professores de ciência em escolas bilíngues, onde eu dei aula pra Yasmin. MAYRA: Hoje, nem eu nem o Marco estamos mais nesse meio. Mas desde que eu saí da escola, eu fiquei com vontade de investigar sobre o ensino bilíngue porque algumas coisas no modelo da escola que eu trabalhei me incomodavam. Aí chamei o Marco pra colaborar comigo nessa pauta. MARCO: Desde as nossas primeiras conversas sobre o tema deste episódio, notamos mais uma coincidência: os nossos incômodos eram bastantes similares. Tocavam desde aspectos cognitivos, culturais, sociais e, claro, pedagógicos. MAYRA: E a partir disso, o Marco pensou que a gente podia falar com a Yasmin pra saber um pouco mais da perspectiva dela como aluna. YASMIN: O meu processo no ensino fundamental, numa escola bilíngue, foi muito interessante para mim e eu sinto os efeitos dele até hoje. Então, no meu trabalho, nos meus estudos, eu percebo como foi uma coisa muito importante e que eu fui muito sortuda de ter tido essa oportunidade de ter esse contato com o inglês desde pequena. MARCO: Mas antes da gente continuar com a experiência da Yasmin, acho importante a gente definir aqui o que é uma escola bilíngue. Faremos isso com a ajuda da Ingrid Finger. INGRID: No Brasil a gente tem escolas bilingües, com currículo bilingüe. MARCO: Que são as escolas onde as crianças têm aulas de matérias específicas, como ciências, matemática ou geografia em inglês. Com isso, a língua é explorada em mais contextos e fica mais integrada no currículo. INGRID: Então, a escola bilíngue é a escola que possui um currículo integrado no qual os conteúdos e as habilidades são desenvolvidas nas duas línguas do currículo. Mas a gente também tem um número grande de escolas que têm o que a gente tem chamado de programa bilingüe. MAYRA: Que é uma escola regular que oferece carga horária estendida na língua adicional. Essas horas variam muito, tem escola que oferece 5 horas a mais na semana, tem escola que oferece 10, e por aí vai. INGRID: O que é o formato mais comum no Brasil? Um número maior do que o previsto na legislação de carga horária na língua adicional. Então, a escola às vezes tem 5 horas na língua adicional, mas o que o professor de inglês faz, ele faz separado do que é feito no resto da escola, não existe essa integração. MARCO: Faltou a gente dizer quem é a Ingrid Finger. INGRID: Sou professora titular do Departamento de Línguas Modernas com vínculo permanente ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Eu faço pesquisa na área de bilinguismo e cognição, educação bilíngue, biliteracia, processamento bilíngue. Já há um bocado de tempo, desde 2006, eu coordeno um laborató

Jun 26, 202530 min

#197 – Por dentro do decrescimento econômico

Decrescimento econômico? Será isso mesmo? Em um mundo onde a busca pelo aumento do Produto Interno Bruto (PIB) parece ser a única meta, é importante questionar se essa lógica realmente atende às necessidades humanas e ambientais. Neste episódio, o Oxigênio vai explorar o conceito de decrescimento econômico, uma proposta que desafia a ideia de que mais sempre é melhor, e nos apresenta alternativas para repensar a nossa relação com o consumo, a natureza e a sociedade. A partir de entrevistas realizadas com as pesquisadoras Juliana Vicentini e Sabine Pompeia, dos professores Luiz Marques e Paulo Wolf e da profissional de comunicação Cristina Pens, a equipe de egressos do curso de Jornalismo Científico nos conta o que está por trás dessa ideia e como ela pode nos ajudar a construir um mundo mais equilibrado e consciente. ________________________________________ Roteiro Maria Vitória: Imagine um mundo em que todas as pessoas têm maior qualidade de vida, em que há igualdade social, as pessoas precisam trabalhar menos. Um mundo no qual o ser humano vive em paz e onde a natureza é preservada. Parece utópico? Impossível? Algo que nunca aconteceria? Marcos Ferreira: Agora, imagine um outro mundo, no qual temos a capacidade de produzir mercadorias em níveis recorde. Entretanto, nesse mundo de enorme produtividade, a desigualdade só aumenta. Esse cenário parece distópico, mas ele é a realidade em que nós estamos vivendo. Maria Vitória: A pesquisa realizada pelo Instituto Tecnologia e Sociedade concluiu que metade dos brasileiros está muito preocupada com o meio ambiente e quase 70% deles acreditam que o aquecimento global pode prejudicar muito as suas vidas. Embora haja essa inquietude coletiva, estamos imersos em um modelo econômico que cria demandas de consumo, que visa o lucro, que degrada o meio ambiente, e é socialmente injusto. Mas será que essa lógica faz sentido? Marcos Ferreira: Fomos ensinados que a única maneira para um país ou para a economia se desenvolverem é crescendo. Só que o crescimento da economia significa produzir mais. E, para produzir mais, é preciso explorar mais ainda o meio ambiente. Será que crescer de tal maneira é a única opção? Será que não existe uma outra forma de desenvolvimento? Ou mesmo, será que existem saídas para as atuais crises globais? Maria Vitória: Eu sou a Maria Vitória. Marcos: E eu sou o Marcos Ferreira, e juntos vamos explorar o contraste entre o capitalismo praticado hoje em dia e o movimento político, social e econômico chamado de decrescimento. Para embasar essa conversa e desvendar algumas das questões relacionadas ao capitalismo, convidamos o Paulo José W. Wolf, que é professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Paulo, quais são as premissas do capitalismo e como elas se relacionam com o crescimento econômico? Paulo Wolf: Eu diria que o capitalismo é um sistema de organização da vida social que é movido em última instância pela busca do ganho privado. O neoliberalismo, por sua vez, é uma forma de funcionamento desse sistema de organização da vida social. O neoliberalismo se baseia em um entendimento sobre como esse sistema funciona e quais são as suas consequências. Segundo esse entendimento, a busca do ganho privado leva como que por uma “mão invisível” ao ganho social. Então, nesse sentido, todos vão ter o suficiente para si e para os seus, desde que se esforcem para isso. Nesse contexto, na visão do neoliberalismo, há pouco espaço para a intervenção do Estado via políticas públicas. Então, num capitalismo neoliberal, a gente tem o capitalismo agindo de acordo com a sua própria lógica. A intervenção do Estado é muito reduzida. Entretanto, penso eu, essa é uma visão equivocada. A busca do ganho privado não leva necessariamente ao ganho social. O que a gente vê, na prática, é justamente o contrário. Esse sistema capitalista é pródigo, antes de tudo, em privar, em excluir, em segregar, em discriminar, em destruir. Então, nesse contexto, a intervenção do Estado via políticas públicas é fundamental para assegurar que todas as pessoas tenham condições de atender suas necessidades fundamentais e viver uma vida digna. Marcos: O que é o Produto Interno Bruto, o PIB, e porque muitos economistas dizem que ele sempre precisa crescer? E como o capitalismo é associado ao PIB? Paulo Wolf: Consolidou-se o entendimento de que o progresso no capitalismo, ele pode ser medido pela produção de bens e serviços e é justamente isso o que o PIB mostra. O PIB, ele é o valor de todos os bens e serviços produzidos em um determinado país, em um determinado momento. Dessa forma, quanto maior for o PIB, maior a produção de bens e serviços e, consequentemente, nesse entendimento, maior é o progresso no capitalismo. Logo, quanto maior o PIB, maior a produção de bens e serviços, maior o progresso do capitalismo. Por isso que alguns economistas dizem que ele precisa crescer porque se ele estiver crescendo, essa é uma medida de que um país está progredindo. Marco

May 8, 202542 min

#196 – Bacteriófagos e Fagoterapia

Um dos graves problemas da área da saúde é encontrar alternativas para tratar doenças causadas por bactérias. Neste episódio vamos entender como a fagoterapia, terapia à base de fagos, que são vírus, pode ser uma solução. Para ajudar a destrinchar como esse tratamento funciona, Bianca Bosso e Eduarda Moreira conversaram com as pesquisadoras Layla Farage Martins, do CEPID B3 e Silvia Figueiredo Costa, chefe do laboratório de Bacteriologia no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, a USP. _______________________________ BIANCA BOSSO: Os antibióticos são uma das ferramentas mais usadas contra as doenças causadas por bactérias, como infecções na pele, no sistema respiratório ou mesmo em casos graves de sepse hospitalar. EDUARDA MOREIRA: Mas o papel desses medicamentos tem sido desafiado por um processo chamado “resistência bacteriana”, que é quando microrganismos, como as bactérias, se tornam capazes de sobreviver e se reproduzir mesmo na presença dos antibióticos. BIANCA: Em um cenário preocupante, onde cada vez mais bactérias estão se tornando resistentes, a atenção de médicos, biólogos e outros profissionais da saúde tem se voltado para uma alternativa antiga, mas que ficou de lado por bastante tempo no ocidente: os fagos e a fagoterapia. EDUARDA: Eu sou Eduarda Moreira. BIANCA:Eu sou Bianca Bosso. EDUARDA: E neste episódio conversamos com Layla Farage Martins, bióloga e especialista de laboratório no Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos, o CEPID B3, e com Silvia Figueiredo Costa, médica, professora e chefe do laboratório de Bacteriologia no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, a USP. LAYLA: A fagoterapia é uma terapia em que você utiliza os fagos para tratar doenças, infecções bacterianas. BIANCA: Esta foi a Layla. Os fagos, ou bacteriófagos, citados por ela, são uma categoria específica de vírus que têm a capacidade de reconhecer e infectar bactérias. LAYLA: Eles não têm um metabolismo próprio e eles dependem de outras células para poder se reproduzir. No caso dos fagos, eles dependem das células bacterianas. Então, eles só infectam e se reproduzem dentro de células bacterianas. EDUARDA: Os fagos estão presentes em uma variedade imensa de ambientes, como o solo, a água e o ar. Diferentes espécies infectam uma grande diversidade de bactérias e, como explica Silvia, alguns vivem, inclusive, dentro de nossos corpos, mas eles não causam nenhuma doença. Pelo menos não costumam causar. LAYLA: Eles são as entidades mais abundantes do planeta. Onde tem bactéria, tem, necessariamente, fagos. E nós somos revestidos por bactérias, por fora e por dentro. SILVIA: O fago, apesar de ser um vírus, ele vai agir só contra aquela bactéria e aquela bactéria que está causando aquela infecção. Então não tem nenhum dos outros sintomas que uma infecção viral costuma causar. SILVIA: Atualmente, a gente consegue fazer esse estudo por meio de biologia molecular, a gente consegue identificar fagos presentes também na nossa própria microbiota do trato gastrointestinal, também trabalhos de microbiota vaginal, né, da vagina. BIANCA: Durante o processo de infecção e reprodução, o vírus bacteriófago injeta seu material genético dentro das bactérias, utiliza os mecanismos celulares ali disponíveis para se multiplicar e prejudica a sobrevivência da bactéria. Em alguns casos, a bactéria é completamente destruída para que o vírus conclua seu ciclo e consiga se espalhar no organismo do hospedeiro. EDUARDA: Por conta desse mecanismo, os bacteriófagos, nome que vêm do grego e pode ser traduzido como “comedores de bactérias”, são considerados agentes antimicrobianos, ou seja, com potencial de inibir ou eliminar bactérias, assim como os antibióticos. BIANCA: Uma boa notícia para a área da saúde é que é possível aproveitar a capacidade desses vírus – que, afinal, não comem as bactérias – no desenvolvimento de novos tratamentos. A Layla explica: LAYLA: A fagoterapia traz algumas vantagens em detrimento aos antibióticos. Uma delas é que os fagos são extremamente específicos contra a bactéria que está sendo tratada. A vantagem disso é que ele não vai afetar bactérias benéficas à microbiota. Ele só vai afetar aquelas bactérias ou a bactéria que está causando a doença. Além disso, ele tem uma propriedade que é de se propagar no local onde tem essa bactéria alvo. Então ele é capaz de aumentar o título, a concentração dele naquele local, impedindo que a bactéria se espalhe e que a doença aumente. Enquanto o antibiótico pode perder a atividade dele ao longo do tempo. EDUARDA: Embora seja um consenso científico que os vírus e, consequentemente, os bacteriófagos, não são seres vivos, eles têm capacidade de evoluir e se adaptar às mudanças de seus inimigos. Essa característica garante mais um benefício para aplicar essas entidades biológicas no combate às bactérias. LAYLA: Existe o que a gente fala em inglês “Arms Race”, ou a corrida armamentista microbiológica, que as bactérias,

Apr 25, 202525 min

#195 – Série Poluição Luminosa. Ep. 3 – Luzes que confundem: os impactos e danos da poluição luminosa na natureza

Este é o terceiro episódio da série Poluição Luminosa, que foi produzida por Marco Centurion. Neste episódio, Marco, que é físico e especialista em jornalismo científico, conta como as luzes artificiais cada vez mais intensas rompem o equilíbrio natural das noites, afetando diretamente a saúde humana, alterando o crescimento das plantas e desorientando espécies animais. Os entrevistados do episódio são a Juliana Ribeirão de Freitas, bióloga e docente do Instituto Federal do Mato Grosso, e Raone dos Reis Mariano, biólogo e mestrando no Programa de Pós-graduação em Biotecnologia e Monitoramento Ambiental (PPGBMA) pela UFSCar – Sorocaba. Esta série tem três episódios e foi produzida por Marco Centurion, como trabalho de conclusão do curso de Especialização em Jornalismo Científico, curso oferecido pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, da Universidade Estadual de Campinas. O orientador do projeto foi Alfredo Luiz Suppia, colaborador do curso e professor do Instituto de Artes, da Unicamp. __________________________________ Roteiro [Abertura com a trilha “'Six Coffin Nails' by Kerosyn | Electronic Metal Music (No Copyright)] Marco Centurion: As luzes artificiais cada vez mais intensas vêm rompendo o equilíbrio natural das noites, afetando diretamente a saúde humana, alterando o crescimento das plantas e desorientando espécies animais. Muito além de apagar as estrelas do céu, a poluição luminosa impacta profundamente os ciclos biológicos e nossa conexão com a natureza. Raone dos Reis Mariano: Existem espécies de aves que fazem migração ainda à noite. Então a luz pode interferir no trajeto migratório dessas aves. Existem espécies de tartarugas que também sofrem com isso, principalmente quando eclodem dos ovinhos, estão saindo pela praia. Se houver ali uma iluminação e próximo da praia, isso pode direcionar a tartaruguinha ao invés de ir para o mar para sentir o continente, então acaba sendo predado ou até mesmo morrem aí por n questões, né? Marco: Entender como o excesso de luz atrapalha diversos pontos da vida na Terra e as implicações de vivermos em um mundo onde as noites já não são verdadeiramente escuras, é só um ponto de partida. Outras instâncias da sociedade precisam começar a atuar ativamente na retenção da poluição luminosa. Juliana Ribeirão de Freitas: Publiquei aí com o meu aluno um artigo em que a gente fez um levantamento, aí da questão legislativa com relação a com foco na biodiversidade no Brasil. E a gente encontrou ali um punhado de leis municipais e a maior parte delas focada na questão da observação astronômica, né, e que acaba tendo algum impacto na biodiversidade. Um impacto benéfico, claro. Mas não é esse o foco, né? Marco: Meu nome é Marco Centurion e neste episódio trataremos de como a poluição luminosa é taciturna em suas consequências nos seres vivos. Alterações comportamentais na vida selvagem, influenciadas pela iluminação artificial inadequada, já são assunto dentro da comunidade científica, especificamente os biólogos, já há uns bons anos. Taxas de reprodução, migração, crescimento e até mesmo extinção entre de espécies, vêm sendo observadas de perto em ambientes em que antes havia uma demarcação precisa em padrões de dia e noite. Juliana Ribeirão é bióloga e docente do Instituto Federal do Mato Grosso. Juliana, que possui publicações justamente acerca dos impactos da poluição luminosa e preservação da biodiversidade, ressalta que poucos anos sob os efeitos dessa luz não natural, não são suficientes para que haja alguma adaptação no modo de vida dos animais. Juliana Ribeirão de Freitas: Na verdade, a poluição luminosa como um todo, é qualquer alteração dos níveis de iluminação artificial, seja em quantidade, ou seja em intensidade ou em tipo, um tipo de onda de luz que está sendo emitida. E como a gente tem a vida na Terra, todas as formas de vida na Terra, desde que surgiu, ela vem evoluindo ao longo do tempo, com ciclos. São ciclos de claro e escuro, ciclo de 24 horas de claro e escuro, ciclos mensais da Lua que tem uma parcela de iluminação também, né? E então a gente vem evoluindo nesse padrão, e aí de repente digo de repente porque a gente está falando aí numa escala de milhões de anos, e aí, de repente, no último século, a gente tem uma alteração brusca desses padrões, né? E isso vai ter impactos em vários níveis biológicos. Tem registro de impacto genético, fisiológico, comportamental, no sucesso reprodutivo das espécies porque não conseguem acasalar. No caso dos vagalumes, esse é um problema. Eles não conseguem se encontrar para acasalar. E aí tem um problema do sucesso reprodutivo, né, que leva à extinção da espécie, pode levar à extinção da espécie. E pode haver alterações, por exemplo, de densidade populacional, alteração dos padrões migratórios, né? Tudo isso tá, são impactos, né? Que as alterações da iluminação podem causar na biodiversidade. Marco: O biólogo Raone dos Reis, em concordância

Apr 18, 202523 min

#194 – Série Poluição Luminosa – Ep2: Como a luz artificial afeta a astronomia

Este é o segundo episódio da série Poluição Luminosa, que foi produzida por Marco Centurion. Neste episódio, Marco, que é físico e especialista em jornalismo científico, trata dos impactos que o excesso de luzes artificiais geram para a pesquisa em astronomia. Essa poluição interfere nos equipamentos e dificulta o trabalho de pesquisa de astrônomos, que precisam se instalar em lugares cada vez mais remotos para realizar a atividade de pesquisa. Os entrevistados do episódio são Renato Cássio Poltronieri, presidente e fundador da Rede Brasileira de Monitoramento de Meteoros (BRAMON); Marcelo Zurita, presidente da associação paraibana de astronomia e coordenador do Asteroid Day Brasil e diretor técnico da BRAMON; e Cledison Marcos da Silva, também membro da Associação Americana de Observadores de Estrelas Variáveis. Esta série tem três episódios e foi produzida por Marco Centurion, como trabalho de conclusão do curso de Especialização em Jornalismo Científico, curso oferecido pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, da Universidade Estadual de Campinas. O orientador do projeto foi Alfredo Luiz Suppia, colaborador do curso e professor do Instituto de Artes, da Unicamp. _______________________________ Roteiro [trilha “’Six Coffin Nails’ by Kerosyn | Electronic Metal Music (No Copyright)”] Marco Centurion: O avanço das luzes artificiais tornando as noites cada vez mais acesas, faz com que a pesquisa em astronomia observacional se torne um desafio crescente. A poluição luminosa não apenas apaga as estrelas do céu noturno, mas também interfere nos equipamentos e dificulta o trabalho de pesquisa de astrônomos, que precisam buscar locais cada vez mais remotos. Renato Cássio Poltronieri: Essa alta poluição luminosa da lâmpada LED é diferente da lâmpada anterior. Eu venho notado na minha estação e alguns outros colegas, que ao adentrar a lâmpada LED, além de matar o céu, está cegando a câmera. O software continua… ele sabe que ele está posicionado. A câmera está travada naquela posição, na posição. Porém, mesmo com novas câmeras hoje em dia que nós estamos utilizando. A gente não vê mais as estrelas e a quantidade de meteoros registrados pelas câmeras caiu “barbarosamente”. Não caiu pouco não. Caiu muito, muito mesmo. Marco: A pesquisa em astronomia, que será o foco deste episódio, se feita de maneira observacional, sofre muitos reveses com o crescimento de luzes urbanas que escapam para cima. Contudo, os riscos não se fecham somente na perda de dados científicos, o que por si só já é uma perda enorme, mas também podemos estar nos cegando a um problema muito maior. Marcelo Zurita: Muitas vezes, a poluição luminosa, ela impede a realização de certas atividades, como, por exemplo, a busca por asteroides próximos à Terra. É praticamente impossível a gente fazer esse tipo de atividade em um local com poluição luminosa, porque os asteroides, né? Eles são os asteroides que a gente procura descobrir, são objetos muito tênues, então a gente não consegue exposição suficiente em ambientes com muita poluição luminosa. Então, isso impacta diretamente, inclusive é o trabalho de proteção planetária. Marco: Meu nome é Marco Centurion e hoje falaremos de algumas iniciativas de ciência cidadã que tem suas atividades diretamente impactadas pelo avanço do mal uso da iluminação urbana. A perda do céu noturno é um preço altíssimo a ser pago e a ciência é um dos atores da sociedade diretamente implicados. Para quem trabalha com a observação de estrelas variáveis, como os astrônomos da AAVSO – a Associação Americana de Observadores de Estrelas Variáveis –, a poluição luminosa é um dos maiores problemas, se não o principal. Cledison Marcos: A AAVSO é uma associação bem antiga já. Ela não é a mais antiga, né? Tem uma na Inglaterra que é mais antiga que ela. Mas a AAVSO, ela é a maior instituição em relação a membros, número de membros e número de observações recebidas no banco de dados. A AAVSO foi fundada em 1911 porque os egípcios já sabiam que estrelas variavam. A própria Algol e eles tinham um cálculo bastante preciso do período dela. Claro, eles não sabiam a causa da variabilidade, mas sabiam que ela variava. Os aborígenes têm relatos de estrelas variáveis. Eles têm lendas sobre Antares, Betelgeuse, Aldebaran. Índios na Bolívia viram supernova. Os próprios aborígenes viram pessoal da Mesopotâmia, viu? Mas isso lá no passado, na nossa época, né? O primeiro registro de estrela Variável foi feito em 1572 pelo Ticho Brahe. 1596 o Davi Fabricius viu Mira a olho nu. Em 1604, o Johannes Kepler viu uma supernova também. Então perceberam que existia uma crença aristotélica que não estava fazendo tanto sentido. O céu não era perfeito, ele mudava, ele passava por alterações. Então começaram a investigar esses objetos e um certo número de estrelas variáveis foi descoberto ali no finalzinho do século XVI, século XVII até o século XVIII. No final do século, ali por volta de 1890, alg

Apr 11, 202523 min

#193 – Série: O que é poluição luminosa? – Ep. 1 Aspectos gerais e seus impactos

A poluição luminosa é um tipo de interferência silenciosa nos padrões naturais e paradoxalmente, é uma poluição invisível. Invisível e invisibilizante! Esta é uma preocupação de astrônomos, mas também de qualquer cidadão que compreenda como o excesso de luminosidade no ambiente tem um impacto enorme sobre o desenvolvimento de diferentes espécies da fauna e da flora. O Oxigênio traz esta série que pretende provocar os ouvintes sobre este tema. O idealizador e produtor é o Marco Centurion, que produziu a série como parte do seu Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Jornalismo Científico, do Labjor. Neste primeiro episódio ele aborda aspectos gerais da poluição luminosa. Os entrevistados foram o Rodrigo Felipe Raffa, Cledison Marcos da Silva e Raone dos Reis Mariano. No segundo episódio, Marco vai falar sobre como a luz artificial afeta a astronomia, e no terceiro, o tema serão os impactos dessa luminosidade excessiva para a natureza. Acompanhe! __________________________ Roteiro [Trilha de abertura com a trilha “’Six Coffin Nails’ by Kerosyn | Electronic Metal Music (No Copyright)”]. Narração: Com um planeta cada vez mais iluminado, a humanidade vem perdendo a conexão com uma lindíssima cena que nos acompanhou por quase toda a nossa história na Terra: uma bela noite de céus limpos e estrelados. Rodrigo Felipe Raffa: Olha a poluição luminosa, ela é um. É um. É um dos graves problemas do crescimento urbano, mas principalmente da má gestão, né? Dessa iluminação pública. Porque, de certa forma, é um desperdício de energia. E quando você percebe que a iluminação está indo para cima. Não iluminando nada, sendo desperdiçada no espaço, prejudicando o meio ambiente, porque a gente sabe que alguns animais são prejudicados pela problemática da poluição luminosa. Então eu vejo um problema muito maior do que o problema da astronomia em si. Narração: A poluição luminosa, tema central deste podcast, é um problema silencioso, invade nossas vidas de forma sorrateira e interfere em ecossistemas, com consequências que vão muito além da simples perda da beleza do céu. Muito além do visível Cledison Marcos: Bom, a gente sempre vê qualquer tipo de poluição como prejudicial, né? No caso da poluição luminosa, do ponto de vista observacional, ela é completamente prejudicial, porque, como a gente depende de ver, quanto mais luz parasita tiver por ali, a gente vai ter dificuldade para enxergar o objeto mais apagado. Então meio que vai limitando a gente a atingir alvos que podem por ventura entrar em erupção. A gente não consegue ver por causa da luz, que não permite que a gente chegue lá. Inclusive, em algumas cidades ela pode prejudicar as observações a olho nu. No caso dos amadores, eles entram bastante com a parte da observação a olho nu de estrelas variáveis. Tem bastante estrelas variáveis a olho nu que de uma cidade, mais ou menos, com 100.000 habitantes, altamente poluída, a pessoa já não vai conseguir ver. Então vai meio que levando essas observações exclusivas para as pessoas que moram longe dessas áreas com maior índice de poluição luminosa. Marco Centurion: Meu nome é Marco Centurion e neste episódio, exploraremos do que se trata a poluição por luz artificial, como o seu excesso afeta nossa visão do céu noturno e o impacto na vida animal. Narração: A humanidade teve na maior parte da sua história na Terra, um ambiente com iluminação regulada principalmente pela luz solar. O controle do fogo permitiu o prolongamento do tempo sob luzes de fontes não solares. Contudo a mudança dramática do tempo exposto a iluminação foi alterada mesmo quando a eletricidade foi dominada. A facilidade que a eletricidade permitiu aos humanos no manejo do mundo nos períodos noturnos, alterou completamente as paisagens. Os humanos, esticaram suas horas de atividade com luzes que simulam perfeitamente a luz solar. Consequentemente, toda a fauna e flora no entorno da atividade humana teve de seguir essas alterações nos padrões naturais. A essas luzes que iluminam os períodos com ausência de iluminação natural solar, dá-se o nome de luzes artificiais. A questão chave aqui é o excesso dessas luzes artificiais! Raone dos Reis: Quando a gente fala em poluição a gente precisa entender que poluição está muito atrelado a excesso. Tudo aquilo que é em excesso faz mal. Então, se eu falo de poluição luminosa, eu estou falando de excesso de luz. Ou o mau uso dessa luz. Quando nós estamos viajando e estamos chegando perto de uma cidade, um grande centro urbano, principalmente à noite, a gente já observa de longe aquela mancha alaranjada no céu. Essa mancha alaranjada no céu são basicamente toda luz que é mal direcionada. Essa luz, ela se propaga pelo céu e reflete nas nuvens. Parece bobo, mas esse tipo de fenômeno que ocorre, essa iluminação que acaba ali refletindo nas nuvens, ela traz inúmeros impactos. Narração: Raone dos Reis Mariano é biólogo pela UFSCar e em suas pesquisas, conseguiu perceber impactos em diversas espécies animais R

Apr 3, 202521 min

#192 – Pequenas-grandes bibliotecas

Este é o segundo episódio sobre acervos bibliográficos abrigados em museus-casas. Neste episódio você vai conhecer a história e as particularidades de três bibliotecas que estão abrigadas em museus-casas e que preservam a memória de três importantes intelectuais do nosso país: o Guilherme de Almeida, o Mario de Andrade e o Haroldo de Campos. Você vai ouvir entrevistas com o Marcelo Tápia, poeta, ensaísta e tradutor, que dirigiu por quinze anos a rede de museus-casas da cidade de São Paulo; a Marlene Laky, conservadora-restauradora no Museu-Casa Guilherme de Almeida desde 2011; o Julio Mendonça, poeta e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, ex-coordenador do Centro de Referência Haroldo de Campos da Casa das Rosas e o Arthur Major, técnico de Programação Cultural e pesquisador do Centro de Pesquisa e Referência no museu Casa Mário de Andrade desde 2019. Este episódio é parte da pesquisa do Trabalho de Conclusão de Curso na Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp da aluna Lívia Mendes Pereira e teve orientação do professor doutor Rodrigo Bastos Cunha. As reportagens deste trabalho também foram publicadas no dossiê “Memória e Preservação” da Revista ComCiência, que você pode ler neste link Revista ComCiência. [música] Lidia: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da sua vista; o telefone é extensão da sua voz; ainda temos o arado e a espada, extensões do braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação” (Jorge Luis Borges) Mayra: É assim que o escritor argentino Jorge Luis Borges inicia seu ensaio “O Livro”, texto escrito por ocasião da sua primeira aula, ministrada na Universidade de Belgrano, em 1979. No texto, o autor pensa o objeto-livro como um instrumento sem o qual não poderia imaginar a sua vida e que não era menos íntimo a ele do que os olhos ou as mãos. Lívia: Se você já ouviu e lembra do episódio “Acervos pessoais abrigados em museus-casas”, nós já falamos sobre esse poder dos livros em instigar nossa imaginação e nos fazer recordar do passado. Mayra: Mas, se você ainda não ouviu, a gente te lembra que esse é o segundo episódio sobre acervos pessoais e bibliotecas abrigadas em museus-casas, que são aquelas casas onde poetas ou intelectuais viveram e hoje em dia acomodam os arquivos pessoais deixados por eles. Se quiser entender melhor sobre arquivamentos e tratamento de acervos pessoais, volta lá e escuta o primeiro episódio, a gente te espera por aqui. Lívia: Pra quem já ouviu o primeiro episódio, segue com a gente. Eu sou a Lívia Mendes, que você já conhece aqui do Oxigênio. Esse episódio foi resultado do meu Trabalho de Conclusão de Curso na Especialização em Divulgação Científica no Labjor da Unicamp. Mayra: E sou a Mayra Trinca, que também fiz o Curso de Especialização e que você já me conhece aqui do Oxigênio. [música de transição – vinheta] Mayra: Como a gente já tinha anunciado, no estado de São Paulo, mais precisamente na capital, existem três museus-casas que preservam a memória de três importantes intelectuais para a cultura do nosso país. São as casas Guilherme de Almeida, Mario de Andrade e Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos. Elas são geridas pelo governo estadual em parceria com uma Organização Social, a Poiesis (Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura). Marlene Laky: Como eu moro aqui na rua, ele falou assim, pode passar lá se quiser conhecer, a casa tava fechada para reforma na época, ela não tava desse jeito. Aí claro que a Abelhuda aqui veio tocar a campainha, né? Vim conhecer a casa. Aí comecei a percorrer assim, quando eu subi na mansarda, eu vi aquele lugar, falei assim: “Nossa, eu fiquei assim babando, eu falei: “eu preciso trabalhar aqui!” Lívia: Essa é a Marlene Laky. Ela trabalha como conservadora e restauradora no Museu-Casa Guilherme de Almeida desde 2011. Ela contou pra gente que seu contato com o acervo do poeta Guilherme de Almeida foi paixão à primeira vista. Ela começou a trabalhar como voluntária e foi se encantando cada vez mais pela casa e pelo acervo. Aí, ela resolveu se especializar em conservação e cuidado de acervos bibliográficos. Mayra: Mas quem foi Guilherme de Almeida, afinal? Lívia: O Guilherme foi um poeta muito influente na década de 1920 no Brasil, ele se formou em direito, mas se dedicou à carreira literária e passou por diversos modelos textuais. Ele ajudou a fundar e foi editor da revista Klaxon, além de ter sido o criador da icônica capa da revista e de produzir anúncios publicitários dos patrocinadores. Esses anúncios foram precursores na visualidade da arte de vanguarda e da própria propaganda moderna. Mayra: E ele também participou da Semana de Arte Moderna de 1922, né? Lívia: Sim, ele foi um membro ativo da organização. E, não para por aí, ele ainda atuou como tradutor de obras em diferentes línguas e como jornalista na crítica literária e

Mar 20, 202530 min

Série Termos Ambíguos – #5 Marxismo Cultural

O episódio 5 da Série Termos Ambíguos trata da expressão Marxismo Cultural. A partir do verbete publicado no Termos Ambíguos do Debate Político Atual, um pequeno dicionário que você não sabia que existia.e de entrevistas realizadas com Sonia Corrêa, autora do verbete e dos professores André Kaysel e Sávio Cavalcante, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Estadual de Campinas, o jornalista Valério Paiva explora o termo, desde sua origem, e como tem servido à ultradireita no Brasil e em outros países. A apresentação é dividida com Tatiane Amaral e a edição é de Daniel Farias. Esta série é uma parceria entre o Observatório de Política e Sexualidade, vinculado à Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, e do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp e este episódio fez parte do Trabalho de Conclusão de Curso de Valério Paiva, na Especialização em Jornalismo Científico do Labjor, da Unicamp. ______________________________________________________ Roteiro Áudio de Pablo Marçal: E aí, eles falaram que eles precisavam de 100 anos para fazer o marxismo cultural entrar em todas as esferas da sociedade. 1920, 2020, 100 anos. Você acredita? Os caras conseguiram. Eles decidiram entrar na cultura, eles decidiram entrar na parte acadêmica. Eles criaram um mecanismo tão absurdo para entrar na vida das pessoas que a cultura foi mudada por esses caras. Tatiane Amaral: O trecho que vocês acabaram de ouvir é de Pablo Marçal, ex-candidato à Prefeitura de São Paulo e autodenominado coach, que tenta definir o que é marxismo cultural. Áudio de Pablo Marçal: Tudo aquilo que representava a glória de Deus, eles pegaram e desconfiguraram. Então, por exemplo, o Belo, na arte, você vai lá nas catedrais na Europa, você vai ver sempre o Belo representado. Eles descobriram que para desconfigurar o Belo no cérebro humano é só fazer o abstrato. Então, hoje, as obras de arte mais poderosas da Terra são só abstratas. E aí desde 1920 estão mudando isso. Valério Paiva: Em suas entrevistas, declarações, palestras ou cursos, Pablo Marçal geralmente não cita fontes específicas ao abordar o conceito de marxismo cultural. Ele apresenta suas interpretações com convicção, baseando-se na sua compreensão pessoal do tema. Por exemplo, em seu livro A Destruição do Marxismo Cultural, Pablo Marçal discute como acredita que o marxismo cultural moldou culturas, afetou sistemas econômicos, crenças, religiões e a individualidade humana. Áudio de Pablo Marçal: Um, eu falo sobre a destruição do marxismo cultural e é uma bandeira minha, pessoal, enquanto eu estiver vivo, fazer todo mundo na Terra descobrir sobre isso. Tatiane: Pablo Marçal frequentemente utiliza o conceito de marxismo cultural para promover seus cursos, livros e sua suposta missão pessoal, que está ligada a fazer as pessoas prosperarem e ele também, claro. Essa abordagem é muito comum entre alguns membros da extrema direita, que empregam termos enraizados no imaginário político coletivo, como marxismo cultural, para criticar mudanças sociais e culturais que consideram prejudiciais aos valores tradicionais. No entanto, nem todos os integrantes desse espectro político adotam explicações simplistas. Alguns apresentam análises mais elaboradas e sofisticadas sobre o tema. Por exemplo, o conceito de marxismo cultural tem sido discutido em ciclos acadêmicos e políticos, com interpretações que variam desde teorias da conspiração até críticas fundamentadas sobre a influência de ideologias marxistas na cultura ocidental. Áudio Ricardo Gomes: Marx dizia que existe uma infraestrutura na sociedade que sustenta o resto do que nós chamamos da cultura de uma sociedade. Ele dizia que as relações econômicas é que determinavam a moral, determinavam as relações políticas, o direito de uma sociedade, o seu modelo de família, a religião, a estética com a arte, etc. Valério: Quem fala agora de uma forma mais didática é nada mais nada menos do que o vice-prefeito de Porto Alegre, Ricardo Gomes, apresentador e colaborador da Brasil Paralelo, uma produtora que produz vídeos sobre política e história sob um viés conservador e de extrema direita. Ricardo Gomes: Marx dizia o seguinte, existe a classe dos capitalistas e a classe dos proletários. Nós vamos promover o conflito entre eles e derrubando o modelo capitalista de produção, cairá toda a cultura ocidental, isso é, a moral burguesa, a arte burguesa e assim sucessivamente. Tatiane: E para justificar as suas teorias, o vice-prefeito de Porto Alegre cita uma figura que aparecerá aqui em outros momentos. Áudio Ricardo Gomes: No século XX, um pensador chamado Antônio Gramsci entendeu que, na verdade, este triângulo é ao contrário. O que Marx entendia que era a superestrutura, na verdade, é o que dá sustentação à economia capitalista. Gramsci disse: “é a moral, é a estética, é o direito, é a família, é a religião, é a ciência burguesas que sustentam o modelo de economia capitalista”. Isso fez com que toda a esquerda moderna mudasse

Mar 14, 202551 min

#191 – Mulheres na Ciência

Em 2025 o Podcast Oxigênio completa 10 anos. Nesse tempo, produzimos mais de 200 episódios, várias séries e participamos de duas semanas nacionais de ciência e tecnologia. Também abrigamos inúmeros projetos da Especialização em Jornalismo Científico do Labjor e do Programa Mídia Ciência, da FAPESP. Aos poucos, passamos a fazer parte das playlists do pessoal que gosta de podcast, que gosta de ciência e, que gosta de podcasts de ciência. Ficamos conhecidos também nos cursos de jornalismo, inclusive, sendo objeto de pesquisas acadêmicas. Queremos continuar crescendo. Sempre. Trazendo mais colaboradores, ampliando e diversificando o nosso público e quem sabe, influenciando mais pessoas a gostarem de temas científicos. Conversando e compartilhando esses assuntos, acreditando e confiando mais na ciência. E fazendo do podcast um meio de comunicação cada vez mais popular, mais agregador e mais acessível a um público maior e mais diverso. Para celebrar esses 10 anos, tivemos a ideia de fazer episódios em parceria com outros podcasts. Com isso pretendemos apresentar outros podcasts e levar nossas ideias para outros ouvintes de podcast. Este projeto de 10 anos, começa com este episódio de hoje, que fizemos em parceria com o Café Com Ciência, uma iniciativa do CBioClima, com apoio da FAPESP e da UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho. Este é também um episódio especial, em homenagem ao mês das Mulheres. A entrevistada do programa é a Profa. Clarisse Palma da Silva, professora do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp e coordenadora de equidade, diversidade e inclusão do CBioClima. A apresentação é de Daiane Carreira, bióloga e pesquisadora, da Gabriela Andrietta, filósofa e comunicadora e do Thiago Ribeiro, biólogo, geógrafo, doutorando em Geociências e Meio Ambiente e membro do Oxigênio, que se juntou às meninas do Café Com Ciência neste episódio que vai tratar de temas como ciência, biodiversidade e como as mudanças no clima podem afetar o nosso dia a dia. Além de um destaque para a questão da representatividade das mulheres na ciência. Prepare o seu cafezinho e venha ouvir este episódio de dupla celebração! ________________________ Roteiro Gabriela: Olá a todas e todos, bem-vindos ao podcast Café com Ciência, uma iniciativa do CBioClima com o apoio da Unesp e da FAPESP. Daiane: Nós vamos falar sobre ciência, biodiversidade e como as mudanças do clima podem afetar o nosso dia a dia. Eu sou a Daiane Carreira, bióloga e pesquisadora. Gabriela: E eu sou Gabriela Andrietta, filósofa e comunicadora. Daiane: Prepara o seu cafezinho que nós vamos começar. Gabriela: A nossa convidada de hoje é a professora doutora Clarice Palma da Silva. Clarice é a professora do departamento de biologia vegetal da Unicamp. É pesquisadora nas linhas de genômica e evolução das plantas neotropicais. Também é coordenadora de equidade, diversidade e inclusão do CBioClima e líder do LEEG, o Laboratório de Ecologia Evolutiva e Genômica de Plantas da Unicamp. Além dessa incrível trajetória acadêmica, a Clarice nos confessou que um dos seus hobbies é tricotar. Muito obrigada, professora, pela sua a participação. Clarisse: Muito obrigada, Gabi. Estou muito contente de estar aqui hoje. Queria agradecer a Daiane e o Thiago também. Acho que vai ser um uma tarde muito boa. Daiane: E hoje, gente, nós estamos realizando uma edição especial do podcast Café com Ciência em homenagem ao mês das mulheres. E além de ser uma edição especial, nós temos aqui a participação, a parceria do podcast Oxigênio com o Thiago, um dos membros do Oxigênio. Então, Thiago, seja muito bem-vindo. Thiago: Obrigado, Daiane, Gabi, Clarice, nossos ouvintes, que tão acompanhando. É uma honra poder participar dessa edição comemorativa, em homenagem ao mês da mulher. E a gente do Oxigênio também está muito feliz de poder contribuir com essa pauta que é muito importante, né? Thiago: Aí, aproveitando essa edição de comemorações, essa parceria é uma primeira parceria de várias que a gente vai fazer ao longo de 2025, em comemoração aos 10 anos do Oxigênio. Esse que é um podcast produzido pelo Labjor, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, que é feito em parceria com a Rádio Unicamp. Então, desde já, a gente agradece demais. Gabriela: A gente que agradece. E nessa edição comemorativa do Dia das Mulheres, eu queria reforçar que no CBioClima, a maioria das integrantes são mulheres, pesquisadoras, doutorandas, pós-doutorandas, mestras. Então, eu queria te perguntar, professora Clarice, como você vê o papel das mulheres na ciência hoje? Clarisse: Bom, eu acho que essa é uma pergunta bastante relevante, né? Bastante importante, ainda mais se a gente pensar no dia comemorativo do Dia das Mulheres. Mas o ponto talvez principal da gente pensar na representatividade feminina é a gente pensar de uma forma, de uma visão um pouco mais ampla, que é a diversidade na ciência como um todo, né? Clarisse: Então a gente tem esse recorte homens e mulheres (gênero), enf

Mar 7, 202545 min

#190 Acervos pessoais abrigados em museus-casas

Você já parou pra pensar que todos nós acumulamos um acervo pessoal durante a vida? Neste episódio vamos apresentar como funciona o arquivamento e a musealização de acervos pessoais de escritores e pessoas influentes na história literária e cultural do Brasil. Você vai descobrir as características e particularidades do trabalho de arquivamento e tratamento de acervos pessoais, em particular de pequenas-grandes bibliotecas, com livros que foram adquiridos e utilizados por importantes escritores brasileiros. Nós conversamos com gestores, arquivistas e pesquisadores que atuam diretamente em arquivos e acervos abrigados em museus. Você vai escutar entrevistas com a Roberta Botelho, coordenadora técnica do Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulalio” (Cedae/Unicamp); o Marcelo Tápia, poeta, ensaísta e tradutor, que dirigiu por quinze anos a rede de museus-casa da cidade de São Paulo; a Aline Leal, pesquisadora em práticas arquivísticas, processos e procedimentos de escrita, com foco nas marginálias da biblioteca da escritora Hilda Hilst; o Max Hidalgo, professor associado na Universidade de Barcelona e estudioso do acervo bibliográfico do poeta Haroldo de Campos e o Pedro Zimerman, coordenador do museu do livro esquecido, formado em Psicologia pela USP. Este episódio é parte da pesquisa do Trabalho de Conclusão de Curso na Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp da aluna Lívia Mendes Pereira e teve orientação do professor doutor Rodrigo Bastos Cunha. As reportagens deste trabalho também foram publicadas no dossiê “Museus” da Revista ComCiência, que você pode ler na página comciencia.br. Mayra: Você já parou pra pensar que todo mundo constrói um acervo pessoal durante a vida? Essas coisas que guardamos em casa: nas gavetas, em armários, em estantes… são objetos diversos e especiais que contam um pouco da nossa própria história de vida e de quem somos. Lidia: “E quem sabe, então O Rio será Alguma cidade submersa Os escafandristas virão Explorar sua casa Seu quarto, suas coisas Sua alma, desvãos” Lívia: Nessa música, “Futuros Amantes”, do cantor e compositor Chico Buarque, que você provavelmente já ouviu tocar por aí e que você ouviu a declamação de alguns versos, é apresentada uma imagem da cidade do Rio de Janeiro submersa pela água do mar. Milênios depois dessa suposta inundação, é imaginada uma cena em que os escafandristas, mergulhadores que investigam o fundo do mar, encontrariam alguns vestígios espalhados pela casa de um casal apaixonado. Esses vestígios seriam cartas, poemas e fotografias, tudo aquilo que a gente costuma guardar como lembranças. Na música, esse acervo pessoal que sobreviveu ao alagamento funciona como a chave para decifrar os vestígios de “uma estranha civilização”. Mayra: E é exatamente isso que os acervos pessoais fazem na vida real. Quando sobrevivem ao tempo e às intempéries, eles revelam nossos traços de personalidade, nossa trajetória pessoal, acadêmica, profissional. Eles contam histórias dos lugares que foram percorridos, daquilo que gostamos e das mudanças no percurso histórico que vivemos. O acervo pessoal também pode refletir nossas escolhas, aquilo que escolhemos guardar ou descartar. Lívia: Já que eles carregam tanta informação, esses acervos devem estar disponíveis para serem acessados. É esse o trabalho que os profissionais em arquivos, fundos e museus fazem com acervos pessoais importantes. Eles permitem acessar um material que contém memórias da história política, social e artística de nosso país. Lidia: “Sábios em vão Tentarão decifrar O eco de antigas palavras Fragmentos de cartas, poemas Mentiras, retratos Vestígios de estranha civilização” Lívia: E sou a Lívia Mendes. Eu sou linguista e esse episódio foi resultado do meu Trabalho de Conclusão de Curso na Especialização em Divulgação Científica no Labjor da Unicamp. Mayra: E sou a Mayra Trinca, que conheci a Lívia nesse mesmo curso de especialização. Mayra: Neste episódio vamos apresentar como funciona o arquivamento e a musealização de acervos pessoais de escritores e pessoas influentes na história literária e cultural do Brasil. Lívia: Neste primeiro episódio você vai descobrir as características e particularidades do trabalho de arquivamento e tratamento de acervos pessoais, em particular de pequenas-grandes bibliotecas, com livros que foram adquiridos e utilizados por importantes escritores brasileiros. Mayra: No segundo episódio, ainda nesse tema, a gente vai te contar as histórias que estão por trás de três acervos pessoais abrigados em museus-casas na cidade de São Paulo. Os acervos bibliográficos de três escritores significativos para a nossa história literária: o Guilherme de Almeida, o Mário de Andrade e o Haroldo de Campos. Vem com a gente! Roberta Botelho: Não separamos os conjuntos documentais, tratamos eles individualmente, com o que a gente chama de fundo e coleção. Fundo é tudo que veio organicamente de uma pessoa ou de uma instituição, que foi acumulada ao longo da vida da

Feb 27, 202524 min

#189 – Ep. 3: Pistache, cookies e muita soberania

Este é o terceiro episódio da série Impactos socioambientais das Big Techs, produzida por Juliana Vicentini e Rogério Bordini como Trabalho de Conclusão da Especialização em Jornalismo Científico, do Labjor. No primeiro episódio da série os jornalistas contaram o que são os Data Centers, que tipos e volume de dados eles guardam, quanta energia eles consomem pra isso e quem eles atendem: usuários de redes sociais, entre outros. No segundo, eles trataram do surgimento das Big Techs e da estrutura e localização dos data centers no Brasil. Abordaram também questões relacionadas ao lixo eletrônico, a extração ilegal de minérios que são usados nos data centers, e os impactos como emissão de gases de efeito estufa e como mitigar os impactos que essas estruturas provocam no ambiente. Neste terceiro episódio, a dupla Juliana e Rogério retornam para falar, agora, sobre capitalismo digital, coleta de dados, educação midiática, soberania digital e apresentam redes sociais contra hegemônicas. As entrevistados do episódio são a Daniela Zanetti, que é professora de Comunicação Social na Universidade Federal do Espírito Santo, que já participou do episódio 2, e a Dulce Márcia Cruz, professora Associada da Universidade Federal de Santa Catarina, líder do grupo de pesquisa EDUMÍDIA. Vamos ao episódio! ______________________________   Rogério: E aí Ju, beleza? Bora de sorvetinho de pistache hoje? Juliana: Mas, de novo, Roger? Nesses dias mesmo já tomamos! O que tá te fazendo ficar tão sedento assim por sorvete? Rogério: É que ontem eu vi no Insta que abriu uma sorveteria aqui pertinho no centro, ah, daí fiquei com vontade. Juliana: Ah, eu já sei o que aconteceu. O algoritmo do Instagram provavelmente guardou suas buscas da sorveteria da semana passada e agora tá te enviando propaganda de novos lugares. Muito espertinhos eles, hein! Rogério: Sério? Mas como isso é possível? Juliana: Por meio de cookies. Rogério: Cookie? Quero! Juliana: Não esses que você tá pensando. Cookies, no contexto digital, são fragmentos de informações que websites coletam a partir dos dados de nossa navegação e buscas. Eles memorizam padrões de comportamento, preferências e histórico de cliques. Isso permite que sites interpretem e personalizem a experiência online de cada usuário, principalmente com envio de propagandas. Rogério: Nossa, então quer dizer que eles sabem de tudo que faço, onde estive, as fotos que eu posto, os memes que eu compartilhei e até as conversas com a crush? Juliana: Basicamente sim. E sabe do que mais? Você, pleno, concordou em ceder todas essas informações no momento que aceitou os termos e condições quando criou sua conta na rede social. Mas quem tem tempo de ler esses documentos gigantes e super tecnicistas, não é mesmo? Rogério: Ah, nem me fale, pra mim parece até bula de remédio. Deveriam usar uma linguagem mais amigável pras pessoas entenderem essas informações. Ninguém aqui nasceu com diploma em computação! Juliana: E isso tudo tem a ver com a conversa que tivemos nos episódios anteriores da nossa série. Pode-se dizer que todo crescimento exponencial dos data centers e o alvoroço ambiental que eles vêm causando têm sido motivados por um objetivo principal: coletar o seu dado. Rogério: Mas não sou ninguém na fila do pão! Juliana: Você que pensa, meu bem. (pequenas pausa) Meu nome é Juliana Vicentini e, no episódio de hoje, o Rogério Bordini e eu vamos entender como o modelo de negócios das Big Techs têm, direta e indiretamente, impulsionado o uso, a dependência e, consequentemente, o crescimento da coleta e armazenamento de dados das pessoas. Rogério: Mas gente, não sabia que eu tava com essa bola toda com eles. Mas bora lá… (pausa para fade-out da música) Rogério: Episódio 3 – Pistache, Cookies e muita Soberania (fade-in de nova música) Juliana: Certo dia, zapeando pela internet, esbarrei em um artigo cujo título me chamou a atenção: “O capitalismo digital é uma mina, não uma nuvem”. O artigo era da instituição holandesa de pesquisa Transnational Institute, o mesmo que comentamos no episódio anterior. Como descobrimos que as coisas da internet não ficam em lindas nuvens no céu, mas sim, em grandes salões de concreto com mega computadores que usam recursos naturais 24 horas por dia, fiquei curiosa pra entender o que seria essa analogia às minas. Juliana: O capitalismo digital se baseia na extração e na mercantilização de dados, que dependem da exploração de mão de obra, da extração de minérios em territórios indígenas, e do consumo significativo de energia e água. As grandes empresas de tecnologia, as Big Techs, transformam os dados em uma nova matéria-prima. Pode ser como um recurso renovável, como a luz solar, mas isso oculta as infraestruturas e as aspirações corporativas que impulsionam a extração de dados. Essa mercantilização, assim como ocorre com a terra, o trabalho e o dinheiro, requer intervenção política e regulamentação, pois têm consequências tanto para os indivíduos, quanto para a sociedade. Danie

Feb 14, 202518 min

#188 Ep. 2: Por dentro da nuvem

Cada dia mais usuários adentram as redes sociais das Big Techs, como Facebook, Instagram, Threads, e assim por diante. Em 2024, mais de 5 bilhões de pessoas estavam usando as redes sociais, e esses usuários precisam de espaço de armazenamento para guardar seus arquivos, novos data centers precisarão ser construídos para atender às crescentes demandas. Mas qual é o impacto ambiental causado por essas estruturas de armazenamento de dados? Esta inquietação levou a Juliana Vicentini e o Rogério Bordini, a produzirem esta série de podcasts, em três episódios, para tratar do tema Impactos socioambientais das Big Techs, como parte do trabalho de Conclusão de Curso da Pós-Graduação em Jornalismo Científico, um programa do Labjor em parceria com o Departamento de Política Científica e Tecnológica, do Instituto de Geociências, da Unicamp. Os três episódios que compõem a série são: 1) Uma luz que nunca se apaga, (2) Por dentro da nuvem e (3) Pistache, cookies e muita soberania. Neste segundo episódio, os jornalistas científicos ouviram a Daniela Zanetti, professora de Comunicação Social na Universidade Federal do Espírito Santo e também o Plinio Ruschi, engenheiro ambiental formado pela UNESP que atua como gerente de projetos climáticos na BRCarbon e o Alexandre Ferreira, especialista em computação verde e pesquisador do Recod.ai, Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, que já conhecemos no primeiro episódio. Acompanhe a série completa! Roteiro: Rogério: Gente, olha só esse sorvete maravilhoso, Juliana! Vou pegar um pra postar no meu Insta! Juliana: Tá bonito mesmo. Também vou querer. (pausa) Moço, me vê dois de pistache? (pequena pausa) Rogério: Junta aqui pra tirar uma selfie! (entra efeito sonoro de click de câmera seguido de som de notificação de erro) Rogério: Ixi, meu celular tá falando que tô sem espaço de armazenamento pra subir essa foto. Juliana: Afff esses serviços de nuvem limitados. Os caras têm milhares de data centers no mundo e mesmo assim nos cobram um rim pra subir uma mísera fotinho. Rogério: Pois é, né. Até ouvi falar que tem um site chamado Data Center Map que monitora a distribuição desses centros de dados pelo mundo. Numa escala global, já são quase 8000. Já pensou? Juliana: No Brasil temos 150 deles, sendo que 55 estão aqui pertinho da gente em São Paulo, e a tendência é que apareçam ainda mais. Segundo um relatório do Santander que eu li, essa vinda de data centers das Big Techs no território nacional está relacionada ao baixo custo para instalação aqui, boa infraestrutura, menor preço da energia quando comparado ao que é cobrado em outros países, e matrizes energéticas de hidrelétrica, eólica e solar, que, modéstia a parte, temos bastante por aqui. Rogério: Isso quer dizer então que em breve a gente ter espaço de sobra pra arquivar nossas fotos, certo? Juliana: Não é bem assim. Duvido muito que as empresas que estão instalando esses data centers no Brasil estão pensando no benefício dos usuários. É claro que a vinda dessas estruturas poderá gerar empregos à população local, mas certamente as empresas continuarão a expandir seus modelos de negócio enquanto usam nossos recursos naturais. E isso me preocupa um pouco. Rogério: Mas como o uso de recursos naturais acontece? Será que esses centros de dados só causam danos mesmo? Juliana: Não sei, Roger. Melhor pedir ajuda aos nossos universitários. Juliana: Meu nome é Juliana Vicentini e no episódio de hoje, eu e o Rogério Bordini vamos tentar desvendar o que está por detrás dos centros de dados que estão pipocando cada vez mais no Brasil e no mundo, e quais são os impactos socioambientais que eles geram. Este é o segundo episódio de uma série sobre data centers e o impacto socioambiental que eles causam. Se quiser saber mais, ouça o primeiro episódio e acompanhe os próximos. Rogério: Bora lá então, mas eu antes posso terminar meu sorvete? Juliana: Pode, vai. O meu já até derreteu com esse calorão. Rogério: Episódio 2 – Por Dentro da Nuvem Juliana: No episódio anterior, o pesquisador Alexandre Ferreira, especialista em computação verde e pesquisador do Recod.ai, Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, nos ajudou a entender o que são data centers. Alexandre Ferreira: Eu fiz meu doutorado na Politécnica de Milano, que fica em Milão, na Itália. O foco dele, a linha de pesquisa principal era exatamente um projeto que tinha como objetivo desenvolver várias técnicas usando a inteligência artificial também, mas não apenas, nas diversas áreas, e diversos níveis de um data center para redução do consumo energético. Juliana: São instalações físicas que armazenam, processam e gerenciam grandes volumes de dados por meio de máquinas, chamadas de servidores. Eles são importantes para o funcionamento diário de serviços como internet, bancos e telecomunicações. Por meio de servidores, equipamentos de rede e infraestrutura de segurança, eles garantem a continuidade das operações e a integridade das informações. Rogério: Você já assistiu S

Feb 6, 202523 min

#187 – Ep. 1: Uma luz que nunca se apaga

Cada dia mais usuários adentram as redes sociais das Big Techs, como Facebook, Instagram, Threads, e assim por diante. Em 2024, mais de 5 bilhões de pessoas estavam usando as redes sociais, e esses usuários precisam de espaço de armazenamento para guardar seus arquivos, novos data centers precisarão ser construídos para atender às crescentes demandas. Mas qual é o impacto ambiental causado por essas estruturas de armazenamento de dados? Esta inquietação levou a Juliana Vicentini e o Rogério Bordini, a produzirem esta série de podcasts, em três episódios, para tratar do tema Impactos socioambientais das Big Techs, como parte do trabalho de Conclusão de Curso da Pós-Graduação em Jornalismo Científico, um programa do Labjor em parceria com o Departamento de Política Científica e Tecnológica, do Instituto de Geociências, da Unicamp. Os três episódios que compõem a série são: 1) Uma luz que nunca se apaga, (2) Por dentro da nuvem e (3) Pistache, cookies e muita soberania. Neste primeiro, os jornalistas científicos ouviram Alexandre Ferreira, pesquisador do Recod.AI, um laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp e o engenheiro ambiental Plínio Ruschi, gerente de projetos climáticos na BRCarbon. Acompanhe a série completa! _________________________ Roteiro Rogério: Noutro dia eu tava largado no sofá de casa scrollando pelo meu Google Photos, revendo umas imagens e vídeos antigos. Vi umas fotos de uma viagem que fiz a Curitiba pra participar de um congresso nos idos de setembro de 2016. Eu já nem lembrava mais dessas fotos, mas foi nostálgico rever aqueles parques floridos e arranha-céus curitibanos. O curioso é que entre aquelas fotos, havia algumas super tremidas e um vídeo estranho de meus pés andando na rua. Sabe quando a gente põe o celular destravado no bolso e sem querer ele acaba gravando um vídeo ou até ligando pra alguém? Pois é, foi isso. E o resultado não foi diferente: tudo literalmente com pés, mas sem cabeça. Eram mais de 300 megabytes de nada, ali, entocados nas profundezas da nuvem, ocupando o sofrido limite de armazenamento gratuito que esses serviços geralmente oferecem. Daí uma pulga me perseguiu por dias: como essas imagens ficam assim, armazenadas, acessíveis e disponíveis por anos a qualquer momento? Quem cuida delas? Será que alguém no mundo viu esse meu vídeo esquisito? Não sou lá grande conhecedor dos sistemas de informação, mas sei que esses arquivos ficam hospedados em grandes centros de dados espalhados pelo mundo – os chamados data centers, ou simplesmente “nuvens”, para os mais poéticos. Alexandre Ferreira: A gente vive no mundo onde cada vez mais a gente tem se movimentado, a nossa vida real para o mundo digital. Rogério: Esse quem fala é Alexandre Ferreira, especialista em computação verde e pesquisador membro do Recod.AI, laboratório de inteligência artificial da UNICAMP. Alexandre Ferreira: Então, cada vez mais dependente das tecnologias, cada vez gerando mais dados, então, a gente vive nesse mundo Big Data, que é uma massa gigantesca de dados, não estruturada, e a gente usa cada vez mais esses recursos que a gente fala que está na nuvem, afinal de contas, o que é a nuvem? Então, isso está em algum lugar, quando você usa um recurso. Ah, estou usando agora, não estou mais instalando um aplicativo no meu celular ou no meu computador pessoal, meu notebook, meu desktop, estou usando agora um aplicativo que ele está na web, está na nuvem. Isso está rodando em algum lugar, está rodando em algum servidor, em algum grande centro de dados, e nesse servidor está consumindo energia elétrica, está causando algum impacto ambiental. Empresas dominantes do setor de tecnologias, as Big Techs – como Google, Apple, Amazon, Meta e Microsoft – constroem ou alugam esses espaços para guardar milhares de dados e informações de seus usuários. Dentre eles, nossas informações, documentos, imagens e vídeos, como aquele desajeitado que gravei em Curitiba. Plínio Ruschi: Quando a gente fala das Big Techs, vale a pena esclarecer para as pessoas o que são essas empresas. Rogério: Esse quem fala é Plinio Ruschi, engenheiro ambiental formado pela UNESP, que atua como gerente de projetos climáticos na BRCarbon. Plínio Ruschi: São empresas que atuam no setor de tecnologia e de inovação, e apresentam uma dominância bem grande no mercado. São as empresas que fornecem pra gente os serviços de nuvem, as plataformas de streaming, as redes sociais, e assim por diante. Acho que todo mundo usa alguma forma desses serviços hoje em dia. Rogério: Mas foi aí que a pulga coçou mais. Esses centros, que diariamente recebem quantidades absurdas de dados de usuários, certamente demandam grande quantidade de recursos naturais para funcionarem, como energia para manter os servidores ligados, ar-condicionado para equilíbrio térmico, e assim por diante. Plínio Ruschi: São estruturas né, que consomem muita energia, seja de modo direto, quando essas máquinas estão conectadas na rede elétrica, ou seja aí de um modo indi

Jan 31, 202518 min

#186 – Água potável e saneamento: Como estamos no cumprimento do ODS6 da ONU??

Neste episódio, discutimos como está o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6, da Organização das Nações Unidas (ONU), no Brasil. O ODS 6 busca garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos. Para isso, conversamos com Gesmar Rosa dos Santos e com Alesi Teixeira Mendes, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que monitoram a evolução das metas do ODS 6. Também apresentamos o projeto Conservador das Águas, da cidade de Extrema, em Minas Gerais, que é considerado um exemplo de gestão hídrica e está sendo levado para mais de 400 municípios brasileiros. ________________________________________________ Roteiro LIDIA TORRES: A Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, a ONU, voltou ao debate no governo Lula, depois de alguns anos na gaveta. SONORA DE LULA: A mais ampla e mais ambiciosa ação coletiva da ONU voltada para o desenvolvimento, a Agenda 2030, pode se transformar no seu maior fracasso. Estamos na metade do período de implantação e ainda muito distantes das metas definidas. MARCO CENTURION: A Agenda 2030 foi criada em 2015, em uma assembleia geral das Nações Unidas. Lá, foram estabelecidos dezessete objetivos de desenvolvimento sustentável que deveriam ser cumpridos pelos países até 2030. Esses objetivos são chamados de ODS. LIDIA: A ideia da agenda foi garantir que os 193 países-membros se comprometessem com metas ligadas, por exemplo, à erradicação da pobreza, à garantia de educação de qualidade e ao combate às mudanças climáticas. MARCO: Um desses objetivos, o ODS 6, busca garantir, abre aspas: “a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos”, fecha aspas. Ele é considerado chave em um país como o Brasil, onde cerca de 40% das pessoas não têm acesso à rede de coleta de esgoto e só metade dele é tratado. Isso sem considerar as diferenças gritantes entre as regiões. LIDIA: O tema foi abordado em julho do ano passado pelo Ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, em encontro do G20 no Rio. SONORA DE JADER BARBALHO FILHO: A necessidade de investimentos para reverter o déficit do saneamento do Brasil é alta, estimada em aproximadamente 100 bilhões de dólares. Se queremos alcançar as metas estabelecidas pelo ODS 6 até 2030 é imprescindível que os países tenham em vista a necessidade da mobilização ativa de recursos financeiros internacionais. MARCO: Eu sou Marco Centurion, aluno do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor. LIDIA: E eu sou Lidia Torres, também aluna da especialização do Labjor. Neste episódio do Oxigênio, a gente discute onde o país está no cumprimento do ODS 6. MARCO: Faltando cinco anos para 2030, estamos perto de ter acesso equitativo à água potável, prover saneamento para todos ou implementar gestão integrada de recursos hídricos? LIDIA: Para tentar entender esse cenário, a gente conversa com Gesmar Rosa dos Santos e com Alesi Teixeira Mendes, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea. Além de monitorar o cumprimento das metas do ODS 6, eles trazem questionamentos importantes sobre os próprios indicadores estabelecidos pela ONU. MARCO: Depois, a gente conhece um projeto criado na cidade de Extrema, em Minas Gerais, que é considerado um exemplo de gestão hídrica e está sendo levado para mais de quatrocentos municípios brasileiros. [VINHETA] GESMAR ROSA DOS SANTOS: O ODS 6, ele tem uma importância para o Brasil, para os países da América Latina, países da África, países da Ásia, países mais pobres que não atingiram ainda, não alcançaram, níveis razoáveis dos serviços públicos de água, saneamento, resíduos sólidos e drenagem urbana. O Brasil, ele iniciou de forma atrasada a implementação da Agenda 2030. LIDIA: Esse que você está escutando é o Gesmar Santos. Ele é um dos autores de um relatório que o Ipea publicou em julho de 2024 para avaliar o progresso das metas do ODS 6 no Brasil. MARCO: Apesar de a Agenda 2030 ter sido criada em 2015, só no final do ano seguinte o governo federal criou a comissão nacional pra difundir sua implementação. Essa comissão foi extinta em 2019, no governo Bolsonaro, e recriada no final de 2023, já no governo Lula. GESMAR: Com a mudança de governo, em 2019, o governo deliberou claramente dois aspectos: primeiro, optar por não levar adiante a agenda 2030, era um xingamento falar em sustentabilidade, em ONU, em ODS. Outro item era que não se acreditava na participação social, na cooperação, no atendimento às minorias, na expansão organizada pelo Estado. Foi um período de quatro anos ruins em termos de gestão de água e saneamento. Se você interrompe uma trajetória, você vai começar, não do zero, mas você vai começar com atrasos. E é esse recomeço que nós precisamos fazer. LIDIA: Dentro do ODS 6, existem oito metas estabelecidas pelas Nações Unidas. Entre elas, estão: “melhorar a qualidade da água”, “aumentar a eficiência do uso da água em todos

Jan 23, 202523 min

#185 – Terapia gênica para anemia falciforme no SUS é viável?

Neste episódio, apresentamos o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), suas origens e a relevância do programa no desenvolvimento e aprimoramento do SUS. Contamos a origem do projeto, que atua regulando a imunidade fiscal de hospitais filantrópicos, e discutimos a real capacidade de implementação de um produto de terapia gênica para doença falciforme no sistema público de saúde. Para explicar como o programa funciona, sua relação com o grupo de pesquisa em terapia gênica do Hospital Albert Einstein e quais as implicações na saúde pública, conversamos com Guilherme Schettino, Ricardo Weinlich e Francisco Barbosa Junior. O episódio também conta com a participação de Simone Bruna, pessoa com doença falciforme e ativista na área. _________________________________________ Roteiro FRANCISCO: Eu como um ser humano, né? O que que o que que eu queria? Qual que seria o mundo ideal, né? Que existissem todos os tratamentos, todos os medicamentos e tudo para todo mundo, né? Então sem dúvida, esse é o mundo ideal, mas é a hora que a gente chega e fala ok? Como que a gente vai viabilizar a maior parte dos tratamentos para a maior parte das pessoas e não só o tratamento mais formas de tratar que daí vem a prevenção vem a educação, mas que a gente consiga levar à saúde para todo mundo para todos. MAYRA: Segundo o Ministério da Saúde, a estimativa é de que existam entre 60 e 100 mil casos da doença falciforme no Brasil. Mas, o teste do pezinho, um teste de sangue que detecta a doença em recém nascidos, só foi padronizado no país em 2001. ANDRÉA: E os hospitais só passaram a ser obrigados a notificar os casos da doença para o Ministério em 2023. KARINA: Tem muita gente que nasceu para trás que às vezes não sabe que tem a doença e vai descobrir em idade jovem, idade adulta então existe aí provavelmente uma subnotificação. E isso é distribuído de forma heterogênea dentro do país, a gente sabe que, por exemplo, a Bahia é o estado que mais concentra casos de doença falciforme. MAYRA: Essa distribuição da doença não é aleatória e tem tudo a ver com a história do Brasil. ANDRÉA: Neste episódio, a gente vai te contar mais sobre a doença falciforme no Brasil e sobre uma tentativa de disponibilizar um tratamento mais efetivo para a população de graça através do SUS. Mas antes disso, deixa eu te avisar que esse episódio é a segunda parte de uma dupla de episódios. Você pode ouvir esse aqui agora, mas talvez ele faça mais sentido se você ouvir o primeiro o episódio anterior. MAYRA: Se quiser, vai lá que a gente te espera por aqui. ANDRÉA: Se você já ouviu o primeiro, segue aqui com a gente. Eu sou a Andréa Grieco. MAYRA: E eu a Mayra Trinca. Este episódio é parte do trabalho de conclusão do curso de especialização em jornalismo científico, que fizemos no Labjor, da Unicamp. [VINHETA] MAYRA: No episódio anterior, a gente pediu ajuda da Karina Maio, médica hematologista, pra explicar pra gente o que é a doença falciforme: KARINA: E aí o que que acontece por conta dessa mutação, então que é herdada do pai e da mãe, tá para que a pessoa tenha de fato a doença, tem uma hemoglobina ali que ela é estruturalmente diferente do que seria uma hemoglobina normal, ela acaba formando polímeros uma hemoglobina gruda na outra tá de forma assim muito forte e aí isso acaba formando polímeros dentro da hemácia dentro do glóbulo vermelho, que é o que dá algo vermelho o formato de foice que é muito característico da doença. ANDRÉA: Nessa conversa, ela também explicou pra gente porque a doença falciforme não ocorre na mesma proporção no mundo todo. KARINA: Tem um conceito que a gente fala de haplótipo. Então, existem algumas outras mutaçõezinhas ali, perto da mutação falciforme, alguns outros padrões de mutação que eles são herdados em conjunto. E é a partir desse padrão de mutações que a gente consegue rastrear essa origem e por isso que a teoria mais bem aceita é que a doença, ela se originou em 5 pontos diferentes e não em um ponto só que são República Democrática do Congo, Senegal, Camarões, Benim e tem um haplótipo que é o árabe-indiano. MAYRA: A partir desses pontos de origem, a mutação falciforme se espalhou em diversas populações africanas e só passou a estar presente por aqui depois das migrações forçadas da África para o Brasil durante a invasão e colonização das Américas. As localidades que receberam mais africanos são as que têm maior prevalência da doença, ainda hoje. ANDRÉA: Isso também significa que a população mais afetada pela doença é a população negra, que é historicamente negligenciada, com menor renda e mais dependente de serviços públicos, como o acesso à saúde via SUS. MAYRA: Como diz a Simone Bruna, pessoa com doença falciforme SIMONE: Mas eu acredito que você ter uma doença falciforme independente do seu fenótipo, né? Você sofre o racismo que a doença sofre, né? MAYRA: Por isso, não dá pra pensar em um tratamento para doença falciforme que não passe pela saúde pública. Então a gente

Jan 11, 202526 min

#184 – Ditadura e repressão aos camponeses

Este episódio trata de fatos pouco lembrados sobre a história da ditadura militar no Brasil que foi a prisão, tortura, sequestro e assassinatos da população do campo, trabalhadores rurais e indígenas brasileiros, durante o regime militar. Foi produzido pela antropóloga e especialista em Jornalismo Científico, Lidia Torres, que pesquisou arquivos sobre a ditadura no Brasil e entrevistou professores da Unicamp e da Universidade Federal de Pelotas para contarem o que as pesquisas na área revelam sobre a perseguição, tortura e assassinatos da população campesina e indígena, durante os anos de governo militar no Brasil. A repórter traz também a visão de Antônio Canuto, ativista histórico da luta contra a concentração fundiária no Brasil e um dos fundadores da Comissão Pastoral da Terra, que infelizmente faleceu na véspera da apresentação deste podcast à banca de defesa do trabalho de conclusão. O episódio é dedicado a sua memória e em memória dos que lutaram para a transformação política e social do país. _______________________________ LIDIA TORRES: Era março de 1964. Milhares de casas brasileiras estavam sintonizadas ouvindo a mesma chamada que você acabou de ouvir. A Rádio Nacional, uma rádio pública do estado brasileiro, convocava a população para sair às ruas para assistir ao Comício do então presidente João Goulart, o Jango. LUCAS LAMBERT: Ali, em frente à Central do Brasil, para um público de mais de 200 mil pessoas, além daqueles que acompanhavam ao vivo pelo rádio e pela TV, Jango falou em defesa das reformas de base do seu governo: as reformas agrária, bancária, administrativa, universitária e eleitoral. LIDIA: Nesse dia, ele também apresentou dois decretos que ele tinha acabado de assinar. O primeiro desapropriava as refinarias de petróleo que ainda não pertenciam à Petrobras, para estatizar todas elas. LUCAS: E o segundo criava a Superintendência Regional de Política Agrária, a SUPRA. Esse decreto foi a base para o que ficou conhecido como a mãe de todas as reformas de base do seu governo: a reforma agrária. SONORA CHAMADA RÁDIO: “Reforma agrária, reforma bancária, reforma universitária. Brasileiros, a reforma agrária, ao invés de tirar terras, vai aumentar o número de propriedades redistribuindo com justiça os latifúndios improdutivos.” (Fonte: Canal Futura: https://www.youtube.com/watch?v=P-LRa15wYP8 ) LIDIA: Diante de uma plateia que segurava cartazes com os dizeres “Reforma Agrária na Lei ou na Marra”, Jango comunicou que autorizava a desapropriação de terras do Estado que estavam em áreas ao longo das ferrovias, rodovias, zonas de irrigação e dos açudes, para que elas fossem redistribuídas aos trabalhadores rurais que não tinham uma terra própria. SONORA DE JOÃO GOULART: “Os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reivindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra farta para eles trabalharem, um pedaço de terra para ele cultivar.” (Fonte: Tv Univesp: https://cultura.uol.com.br/videos/35063_1964-comicio-da-central-do-brasil.html ) LUCAS: O Comício das Reformas foi seu último grande discurso público. Dezoito dias depois dessa sua fala, um golpe de Estado tirou Jango do mais alto cargo político brasileiro. Um cargo que ele tinha alcançado democraticamente. Jango tinha sido eleito por voto popular. LIDIA: Este episódio trata de fatos pouco lembrados sobre a história da ditadura militar no Brasil que foi a prisão, tortura, sequestro e assassinatos da população do campo, trabalhadores rurais e indígenas brasileiros, durante o regime militar. Eu sou a Lidia Torres, doutoranda em Ciências Sociais e pós graduanda em Jornalismo Científico pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, da Unicamp. LUCAS: Eu sou o Lucas Lambert, advogado, formado pela Puc de Campinas e atualmente servidor público da Unicamp. VINHETA OXIGÊNIO LUCAS: Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o IBOPE, apontou que o Jango tinha 70% de aprovação popular. Isso, um dia antes dos militares assumirem compulsoriamente o governo. Em março de 1964 começava o regime ditatorial brasileiro, que deu fim às reformas de base. LIDIA: E não dá pra gente atribuir unicamente ao Comício na Central do Brasil a articulação do golpe e a instauração do regime de ditadura no Brasil. Foi um conjunto de fatores políticos, internos e externos que influenciaram o golpe, incluindo o contexto internacional. Mas é fato que as reformas de base, e que a reforma agrária tiveram um papel importantíssimo nisso tudo. LUCAS: Pra se ter ideia da centralidade do debate agrário naquela época, outra pesquisa feita em 1964, também pelo IBOPE, em oito capitais brasileiras, apontou que 72% dos entrevistados eram favoráveis à reforma agrária e consideravam que essa política deveria ser implementada com urgência no Brasil. LIDIA: É difícil imaginar uma aceitação tão grande de uma medida que ainda hoje é tão polêmica. Só que essa era a realidade sociopolítica daque

Dec 20, 202439 min

#183 – A saga da terapia gênica brasileira para anemia falciforme

Neste episódio, apresentamos dados e relatos sobre a Anemia Falciforme e sobre os estudos para desenvolver um tratamento definitivo para esses pacientes. No episódio nós descortinamos as razões pelas quais a anemia falciforme também é um alvo terapêutico adequado para os pesquisadores ganharem experiência com as ferramentas de edição e terapia gênica e abordamos o processo de formação e de estudos da equipe de pesquisa, além do desenvolvimento da pesquisa em si. Contamos com entrevistas de Karina Maio, médica hematologista do grupo de pesquisa, e com relatos da vivência de uma pessoa com a doença, a Simone Bruna, ativista e pessoa com anemia falciforme. Conversamos também com Davi Torres, cientista da equipe de pesquisa em terapia gênica, e com Ricardo Weinlich, coordenador do grupo. _______________________ Roteiro SIMONE: Quando tem essa obstrução desses vasos, né? A gente sente dores absurdas que a gente precisa de uso de morfina e todo o paciente já tem essa informação e quando a gente vai buscar a emergência, às vezes os profissionais não tem essa informação correta, então a gente às vezes é visto de forma errada que você tá buscando uma morfina por outros objetivos e não para acalmar essa dor. Então a gente lida muito com essa invisibilidade da doença. RICARDO: Mas foi muito triste, muito dolorido, né? Porque a gente tá falando não só de muitas horas de esforço, muito tempo dedicado, muito recurso dedicado, mas também a frustração de que você vai ter que andar para trás para poder andar para frente de novo, né? SIMONE: Embora a gente tenha ansiedade, eu sei que tudo requer tempo, mas se estamos fazendo hoje, se a ciência está acontecendo agora, uma hora isso vai acontecer. Então a gente tem que se apegar a essa esperança, que uma hora vai acontecer. MAYRA: Essa é a Simone Bruna. SIMONE: Eu tenho doença falciforme, tenho 37 anos e eu faço parte da Associação Paranaense de pessoas com doença falciforme desde 2007. ANDRÉA: A gente procurou a Simone porque, além de ter doença falciforme, que vai ser tema do nosso episódio, ela faz parte do movimento social em busca dos direitos e visibilidade de quem tem essa doença e também faz um trabalho de divulgação sobre isso no Instagram e no Youtube. SIMONE: Compartilhando a minha vida, conteúdos informativos sobre autocuidado em doença falciforme, tanto na visão da pessoa que convive com a doença e também trago profissionais, médicos, cientistas para falar sobre avanços na ciência, sobre pesquisas e principalmente na orientação de familiares que recebem um diagnóstico e de pessoas que convivem com a patologia também. MAYRA: E logo no começo da conversa ela explicou pra gente porque o ideal é se referir a essa patologia como doença falciforme e não como anemia. SIMONE: Porque a anemia, ela dá para gente um entendimento de uma anemia simples que você conseguiria resolver com a alimentação ou tratamento mais simples. A anemia em si, ela é só um sintoma daquilo que a doença falciforme é, né? A doença, ela é algo muito mais grave. ANDRÉA: A doença falciforme é um grupo de doenças hereditárias que alteram a forma da hemoglobina, a proteína responsável por segurar o oxigênio nas hemácias enquanto ele vai sendo transportado pelo corpo. Em uma pessoa sem a doença, as hemácias são redondinhas, côncavas e flexíveis SIMONE: A nossa, ela se torna rígida, em forma de meia-lua, então, por isso falciforme né – em forma de foice – e ela nesse trabalho de transporte de oxigênio em todo o organismo… Então, onde você pensar que tem sangue, ela tem esse déficit de transporte de oxigênio. Então nós vamos ter problemas variáveis em todo o corpo. MAYRA: Além de prejudicar o transporte de oxigênio, esse formato de foice das hemácias faz com que elas se agreguem, formando pequenos coágulos que podem interromper o fluxo de sangue nos capilares, os vasos sanguíneos fininhos que irrigam todos os órgãos do corpo. ANDRÉA: Essa interrupção da circulação causa dores intensas, que podem levar a internação durante vários dias. Além disso, pode diminuir a imunidade, o que exige uma série de cuidados extras, como evitar frio ou calor intenso, tomar vacinas específicas e um cuidado constante com a hidratação. MAYRA: Eu sou a Mayra Trinca. ANDRÉA: E eu sou a Andréa Grieco. MAYRA: Esse episódio é resultado do trabalho de conclusão de curso da especialização em jornalismo científico do Labjor, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP. ANDRÉA: A gente vai te contar um pouco mais sobre doença falciforme e sobre um tratamento com terapia gênica que está em desenvolvimento no Brasil. MAYRA: As doenças falciformes são doenças genéticas, causadas por uma mutação no gene responsável pela beta-globina, uma das proteínas que forma a hemoglobina. A doença aparece quando a pessoa tem duas cópias do gene mutado. KARINA: E aí, o que que acontece? Por conta dessa mutação, então, que é herdada do pai e da mãe, para que a pessoa tenha de fato a doença, a gente tem uma hemoglobina ali que ela é e

Dec 6, 202437 min

#182 – Racismo ambiental: uma herança colonial

Em homenagem ao Dia da Consciência Negra, o programa mergulha nas raízes históricas do racismo ambiental e em como ele afeta, de forma desproporcional, populações negras, quilombolas e indígenas no Brasil. O episódio também destaca a resistência dessas comunidades e suas contribuições para a preservação ambiental em meio à crise climática. No episódio, Maíra Rodrigues, quilombola, bióloga e pesquisadora do Instituto de Geociências da Unicamp, e Lucas Silva, técnico em controle ambiental e jongueiro da comunidade Jongo Dito Ribeiro são entrevistados. Larah Camargo: O ano era 1982. Em Afton, na Carolina do Norte, Estados Unidos, um grupo de mulheres deitava na estrada que dava acesso ao condado para impedir a passagem de dezenas de caminhões. Esses caminhões não levavam qualquer carga: eram toneladas de terra contaminadas por bifenilas policloradas, os chamados PCBs. [vinheta Oxigênio] Raphael Alves: Os PCBs são produtos químicos sintéticos que foram amplamente utilizados por diferentes indústrias no século 20. Desde tintas, plásticos, adesivos, até em refrigerantes… Já na década de 1970, cientistas descobriram que eles eram extremamente tóxicos e se acumulavam no ambiente. Até 1979, a sua produção já tinha sido completamente banida no país e em diversas partes do mundo. Se essas substâncias são inaladas ou absorvidas pela pele, elas podem causar câncer, danos cerebrais, nascimentos prematuros com deformações e outros efeitos negativos na saúde humana. No meio ambiente, os PCBs levam muitas décadas para se degradar, e o seu descarte inapropriado pode contaminar o solo, os leitos dos rios, diferentes espécies de animais e toda uma cadeia alimentar de uma região. Larah: Eu acho que você também não ia querer ter esse tipo de descarte no seu quintal. E foi exatamente por isso que as mulheres de Afton tavam deitadas na estrada naquele 16 de setembro. Elas tavam protestando contra a criação de um lixão no qual iam despejar esse material tóxico, próximo a área onde essas famílias moravam. Mais de 500 manifestantes foram presos nessa ocasião. Mas o protesto não conseguiu evitar o aterro de lixo, e o governo começou a empilhar a terra contaminada em uma área equivalente a quase 9 campos de futebol – escavando em terras que eram agrícolas. E tem um “detalhe” que eu ainda não te contei: 70% da população de Afton na época era composta por pessoas negras – e que, na sua grande maioria, viviam abaixo da linha da pobreza. Essa foi a primeira vez que a gente ouviu a expressão “racismo ambiental”. O Reverendo Benjamin Franklin, que tava presente na manifestação em Afton, usou esse termo para se referir ao fato de que a degradação ambiental atinge principalmente os grupos étnicos e sociais mais vulneráveis. Esse episódio virou um marco na luta por Justiça Climática e depois inspirou as ideias do Robert Bullard, outro grande nome do ativismo ambiental negro e que conceitualizou o racismo ambiental nas suas obras. Raphael: Quando a gente olha pro Brasil dos anos 70, também estavam acontecendo lutas muito importantes pelos territórios dos povos tradicionais e indígenas – que mais tarde foram reconhecidas como movimentos ambientais. Um exemplo emblemático foi a resistência dos seringueiros, liderados pelo Chico Mendes, que depois culminou na criação de reservas extrativistas na Amazônia. Mas a gente sabe que o Brasil de hoje, assim como muitos países, ainda segue um modelo de desenvolvimento que prioriza o crescimento econômico em detrimento da preservação ambiental e dos direitos dessas populações. Larah: Grandes empreendimentos nacionais e multinacionais forçam o deslocamento de comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas e transformam os seus territórios em alvo de especulação e degradação. Assim como as mulheres de Afton, muitas dessas populações lidam com o drama de viver perto de áreas de risco de desastres e de impacto ambiental – as chamadas “zonas de sacrifício”. Maíra Rodrigues: O racismo ambiental perpassa por essas violações de direitos que acontecem desde um período colonial, onde a gente tem as comunidades quilombolas, os povos tradicionais num lugar de salvaguarda desses territórios, mas que muitos outros são impactados por diversos, a gente chama hoje na militância quilombola, dos setores agro, hidro, mineral, de especulação, enfim, energético. A gente coloca essa grande sigla para dizer esses setores que desde um período colonial até os dias de hoje violam territórios. Raphael: A Maíra Rodrigues, que você acabou de ouvir, é quilombola, bióloga, mestre e doutoranda no Instituto de Geociências da Unicamp e estuda contaminação ambiental e ecotoxicologia. O seu interesse pelo tema surgiu olhando para sua própria comunidade, que fica na bacia do Vale do Ribeira, em São Paulo. Maíra: Eu parto de uma perspectiva de que o racismo ambiental tem a ver com violações de direitos e o primeiro direito que foi violado foi o direito de existir. Lucas Silva: É uma configuração d

Nov 20, 202419 min

# 181 – Série Cidade de Ferro – ep. 3: Entre a vila e a mina

Este é o terceiro episódio da série Cidade de Ferro, uma série sobre os impactos sofridos pela cidade mineira Itabira, conhecida por ser a cidade natal de Carlos Drummond de Andrade que usou de sua poesia e suas crônicas políticas para denunciar a destruição que a antiga Companhia Vale do Rio Doce – hoje, Vale, provocou na cidade, no Morro do Cauê, principalmente, que se tornou um buraco gigante. Em conversa com Lucas Nasser, pesquisador e advogado itabirano, autor do livro “Entre a Mina e a Vila: violações de direitos em Itabira”, Yama Chiodi, jornalista do Geict, colaborador do O2, mostra que Itabira não é só mineração, é uma cidade que tem memória, que tem povo, que tem multiplicidade e um tecido social muito heterogêneo, com várias experiências e modos de vida. __________________________________ Fernanda Capuvilla: A cidade que deu ao país mais de 6 bilhões de cruzeiros, saídos de seu subsolo, e que sustenta, sozinha, 70% da renda de uma grande ferrovia interestadual, continua sendo, paradoxalmente uma das mais desaparelhadas, mais melancólicas e mais esquecidas cidades brasileiras. Esta é a mancha escura, no quadro da indústria da mineração. E seria bom que deputados e senadores mineiros, sem distinção partidária, não somente secundassem aquele parlamentar, mas assumissem a dianteira de uma campanha que, afinal, se resume nisso: impedir que a exportação de hematita – o filé mignon da frase do cel. Juraci – deixe a Itabira, ou a Minas Gerais, apenas os ossos descarnados. Correio da Manhã, 12 de junho de 1955. Yama Chiodi: O trecho que você acabou de ouvir não vem do Drummond poeta, mas do Drummond cronista político, desencantando com o mundo pós-guerra e desolado do que foi feito da sua cidade natal. O trecho da crônica, como outros que você escutará nesse episódio, foram publicados no diário carioca Correio da Manhã, na década de 50. E a escolha desse período não é sem propósito. Foi na década de 50 que a então Companhia Vale do Rio Doce construiu sua primeira vila operária. Após sustentar o ferro necessário para a segunda guerra mundial, a Companhia vivia agora um segundo momento de sua produção. A hematita era arrancada da terra não mais apenas nos braços dos leões da Vale, mas com uso de explosões. [som de explosão 1] Não por acaso, a primeira vila operária recebia o apelido pejorativo de Explosivo. Longe do centro de Itabira e perto da mina do Cauê, a vila onde viviam os trabalhadores de mais baixa hierarquia da estatal ganhou nome jocoso que caracterizava uma das precariedades de viver tão perto das operações minerárias. O que havia entre a mina e a vila? A primeira vila operária foi também a primeira a ser removida quando o progresso que nunca chega passou com seu trator insaciável. [ som de explosão 2] Yama: Eu sou o Yama Chiodi, jornalista do GEICT, e neste terceiro episódio da série cidade de ferro, me encontro uma vez mais com o amigo itabirano Lucas Nasser, autor do livro “Entre a mina e vila: violações de direito em Itabira”. O episódio de hoje tem o mesmo nome do livro, que se encontra disponível pra download gratuito no link da descrição. Se você ainda não ouviu os dois primeiros episódios dessa série, corre lá antes pra ouvir. [ Vinheta Cidade de Ferro ] Yama: No episódio de hoje, a gente deixa a poesia de lado por um instante ao olhar pra geografia de Minas Gerais. Em uma das incríveis passagens do livro de José Miguel Wisnik sobre Drummond e a mineração, o autor diz que, abre aspas, “Os pontos culminantes da literatura mineira estão entranhados na geografia física, e em Minas Gerais a geografia física, entranhada na experiência individual e coletiva, é geografia humana”. E é isso que a gente busca aqui hoje. A geografia humana no coração da montanha, às margens da mina do Cauê. Das muitas remoções que aconteceram e acontecem até hoje, uma vila operária ganha protagonismo. Distante do centro de Itabira, mas perto da mina, a Vila Explosivo foi pioneira e o lar da família materna do Lucas. Lucas Nasser: O Explosivo, além dela ser uma primeira vila operária da Vale, muito emblemática, porque ela cedeu espaço para a mina do Cauê, inclusive do Pico do Cauê, Famigerado, etc., que está na poesia do Drummond, que não existe mais. Tem uma relação familiar também. Meu avô foi um dos moradores da vila do Explosivo, do Pé de Pombo, minha mãe cresceu no Explosivo, meus tios, então sempre escutei histórias do Explosivo, do Pé de Pombo. Yama: Sem cerimônia, a vila criada nos anos 50 deixou de existir nos anos 70. A Companhia, ainda estatal, fortalecida em seu propósito desenvolvimentista da ditadura militar, iria começar um dos projetos mais destrutivos da história ambiental do Brasil: o projeto cauê. O mesmo que mudou a paisagem da cidade em definitivo, trocando um pico por um buraco de mais de 200 metros de profundidade. Como lembra José Miguel Wisnik, a maior das ironias que o Cauê dê nome à operação que causou seu extermínio. Do ventre da montanha foi tira

Nov 12, 202434 min

Série Termos Ambíguos – #4 – Patriotismo

Neste quarto episódio, a Série Termos Ambíguos traz uma análise do termo Patriotismo, mostrando as interpretações que a extrema direita tem feito sobre o termo ao longo da história, e como ele foi incorporado ao discurso dos seguidores do bolsonarismo. Os entrevistados do episódio são Raquel Rodrigues, Adriana Marques e Odilon Caldeira Neto. Daniel Faria: Nas ruas, nas redes sociais, em conversas de família… nos últimos anos, o Brasil assistiu ao ressurgimento de um sentimento nacionalista que ecoa por todos os lados. O termo patriotismo foi ressignificado e instrumentalizado para consolidar uma narrativa populista, conservadora e autoritária. Mas essa ideia de patriotismo, que para muitos soa como a defesa da pátria e dos valores morais, esconde um lado obscuro, que ameaça as instituições democráticas e fomenta o discurso da extrema direita. Tatiane Amaral: Em 2018, o Brasil presenciou a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência, mas essa trajetória não surgiu do nada. Por mais de duas décadas, Bolsonaro foi uma figura à margem do debate político, com um discurso que atraía a atenção de uma parcela restrita da população. Contudo, foi durante o golpe de 2016, que destituiu a então presidente Dilma Rousseff, que Bolsonaro se aproveitou da polarização para se apresentar como uma alternativa ‘salvadora’. Sua retórica de patriotismo e ‘Brasil acima de tudo’ se tornou um chamado à ação oportunista, explorando o clima de incerteza política do país. Daniel: Seu discurso era simples, direto, mas repleto de ideais fascistas. Deus, Pátria, Família e Liberdade. Uma retórica que atraía a atenção dos conservadores de extrema direita. O patriotismo, para Bolsonaro, se tornou um símbolo central de sua campanha, um emblema que evocava a “nostalgia” de um Brasil dominado pela Ditadura Militar de 1964. Esse período, marcado por repressão política, censura e tortura, é visto por alguns como um tempo de ordem e desenvolvimento, usando o patriotismo como justificativa para ações autoritárias. Essa visão romantizada do passado se entrelaça com a narrativa de Bolsonaro, que sugere que a defesa da “pátria” justifica medidas drásticas contra opositores, colocando o patriotismo acima da democracia e dos direitos individuais. Tatiane: Mas o uso do patriotismo na retórica bolsonarista vai além de um simples sentimento de orgulho nacional. Durante e após a campanha presidencial de 2018, essa ideia foi instrumentalizada para estabelecer uma divisão clara entre ‘nós’ e ‘eles’. De um lado, os chamados ‘patriotas’, cidadãos que, na visão de Bolsonaro e de seus seguidores, defendem os valores tradicionais da nação. Do outro, a oposição, representada por um imaginário comunista e partidos de esquerda, rotulados como ameaças aos pilares do país. Nesse contexto, a narrativa bolsonarista distorce a noção de patriotismo, colocando-a como um escudo contra aqueles que desafiam sua visão de Brasil Daniel: Pra você que ainda não nos conhece, eu sou o Daniel. Tatiane: E eu sou a Tatiane, e esse é o quarto episódio da série Termos Ambíguos, que apresenta a cada episódio um termo popularizado no debate público pela extrema direita. Esses termos são analisados pela publicação “Termos ambíguos do debate político atual: pequeno dicionário que você não sabia que existia”. Daniel: Esse podcast é uma parceria entre o podcast Oxigênio, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp, e o Observatório de Sexualidade e Política, o SPW, na sigla em inglês. Aqui vamos explorar termos que estão muito presentes no nosso dia a dia, mas principalmente no debate político atual. E como vimos na agora, o tema de hoje é PATRIOTISMO. Tatiane: Mas, de onde vem realmente esse conceito? Como essa ideia de patriotismo foi moldada ao longo da história, até se tornar um dos principais pilares da retórica da extrema direita? Para entender o que significa ser patriota no mundo contemporâneo, é importante voltar à origem desse termo. Afinal, o que é realmente o patriotismo? Raquel Rodrigues: O termo patriotismo é um termo de origem grega a parte da pátria na palavra grega, ela tem ali a pátria e pai dentro da pátria. E o mais importante é que ele nasce como um termo de lealdade à República. Tatiane: Essa é a Raquel Rodrigues, autora do verbete sobre patriotismo no dicionário de Termos ambíguos, explicando como o conceito foi construído historicamente. Raquel Rodrigues: O termo vem da palavra grega patriotas, que é composta por pátria externa, que também vem de pater, pai, Na Grécia, Roma, era associado à lealdade à polis, à República. O apego ao bem comum, as leis de em termos de direitos e a organização da sociedade. E depois ele renasce nas repúblicas autônomas italianas do século 15, e ganha novos contornos a partir do século 18 com o estado de nação se tornando um modelo universal de gestão da vida política. O Rousseau associou patriotismo e nacionalismo à valorização de traços de uma nação, tanto políticos, culturais como étnicoracia

Nov 1, 202437 min

Série A mente dos peixes – Habilidades dos Peixes: Parte 3: Autorreconhecimento

O Oxigênio apresenta um novo podcast parceiro, o Fish Talk. Desta vez tratando de peixes. Isso mesmo, um podcast sobre peixes! The Fish Mind, ou A Mente do Peixe, é um programa desse podcast com foco na capacidade que esses animais têm de sentir dor e experimentar outros estados emocionais. Vamos ouvir também sobre suas habilidades cognitivas nos episódios desse programa. A ideia é trazer essas informações importantes em um diálogo informal de poucos minutos. O programa geralmente é composto por episódios independentes, mas temas que precisam de mais aprofundamento são apresentados em mais de um episódio. O Fish Mind faz parte de um projeto que é fruto de uma colaboração do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp) no Brasil com a FishEthoGroup, uma associação sem fins lucrativos que trabalha em prol do bem-estar dos peixes, preenchendo lacunas entre a ciência e as partes interessadas no setor da aquicultura, entre eles: produtores, certificadores, comerciantes, ONGs, decisores políticos e consumidores. A entidade foi criada em 2018 e está sediada em Portugal. ROTEIRO João: Sabia que, assim como os humanos, os peixes conseguem reconhecer-se? O autorreconhecimento é uma habilidade que até recentemente só havia sido demonstrada em mamíferos. Mas agora foi demonstrada em uma espécie de peixe também! Carol: Neste episódio de A Mente do Peixe, vamos falar sobre a habilidade dos peixes de se reconhecerem, algo que envolve autoconsciência. Eu sou a Carol Maia. João: E eu sou o João Saraiva, e começa agora o episódio Habilidades dos Peixes: Auto-Reconhecimento! TRILHA SONORA Carol: Reconhecer a si mesmo diante de um espelho é uma habilidade cognitiva que só havia sido cientificamente demonstrada em alguns primatas – como chimpanzés, bonobos e orangotangos – além de elefantes e golfinhos. Mas o artigo ‘Cleaner fish recognize self in a mirror via self-face recognition like humans’, publicado em 2023 na revista PNAS, veio para mudar essa história… João: Nesse estudo, Kohda e os seus colaboradores mostraram que um peixe-limpador cientificamente conhecido como Labroides dimidiatus é capaz de se reconhecer no espelho. Através de uma série de experiencias, os pesquisadores demonstraram não apenas que esse peixe se reconhece, mas também que a autoconsciência surge da habilidade desse peixe de formar uma imagem mental do seu próprio rosto com base em experiências anteriores. Carol: Quando esse peixinho foi apresentado a imagens suas ou de outros indivíduos de sua espécie, ele realizou ataques como faria normalmente. Mas, quando os pesquisadores fizeram uma marca externa na região da garganta do peixe para simular a presença de um parasita e o colocaram diante do espelho, observaram que o peixe-limpador tentava se livrar do ‘parasita’, esfregando o rosto em pedrinhas! João: Após essa experiência, os pesquisadores observaram que o pequeno peixe-limpador continuou atacando imagens de outros indivíduos de sua própria espécie, mas parou de atacar a sua própria imagem em fotos! TRILHA SONORA Carol: Uau! E os mesmos pesquisadores não pararam por aí. Eles também fizeram um teste em que apresentaram ao peixe-limpador imagens que combinavam o corpo de outro indivíduo, mas com seu próprio rosto, ou o rosto de outro indivíduo, mas com seu próprio corpo, para ver em qual situação o peixe era capaz de se reconhecer nas fotos. João: Quando o rosto era do peixe sendo testado, ele não atacou muito a imagem, mas os ataques tornaram-se mais intensos quando era o corpo, e não o rosto, que pertencia ao peixe testado. Com isso, esses pesquisadores demonstraram que o mecanismo pelo qual esse peixe-limpador se reconhece no espelho é formando uma imagem mental de seu próprio rosto! Carol: E tem mais! Em outro teste do mesmo estudo, os pesquisadores ainda observaram que peixes não marcados, mas visualizando imagens com seus rostos contendo a marca usada para simular a presença de um parasita, tentavam esfregar a região correspondente no substrato arenoso do fundo! João: Assim, fica claro que esse pequeno peixe é capaz de se reconhecer por meio do auto-reconhecimento facial. E ao realizar outros testes, os mesmos investigadores também demonstraram que esse peixe-limpador provavelmente consegue distinguir entre indivíduos familiares e não familiares, mostrando menos agressividade em relação às imagens familiares. TRILHA SONORA Carol: Fascinante! Tudo isso demonstra que essa espécie tem a capacidade de autoconsciência ao formar uma imagem mental do próprio rosto, assim como nós humanos. João: E não há motivo para suspeitar que os peixes-limpadores sejam excepcionais dentro dos vertebrados ou até mesmo dentro dos peixes em relação aos mecanismos cognitivos que permitem esse tipo de auto-reconhecimento, o que significa que é possível que outras espécies de peixes também tenham essa habilidade incrível. Carol: E esta não é a única habilidade cognitiva incrível que os peixes conseguem realizar. Muitas outras já foram descoberta

Oct 18, 20246 min

#180 – Soluções Baseadas na Natureza

A crise ambiental é uma realidade que se apresenta diante de nós e já está alterando o nosso cotidiano. É possível solucionar esse problema? Ou ao menos mitigá-lo para que possamos viver de maneira digna nos próximos anos? As Soluções Baseadas na Natureza (SBN) se apresentam como alternativas tanto para mitigar a crise e melhorar a nossa vida nas cidades, quanto para aumentar a produtividade de cultivos – tornando a agricultura sustentável e também oferecendo um custo-benefício bem mais em conta. Neste episódio, Pedro A. Duarte irá te contar como essa prática surgiu e trazer alguns exemplos de aplicações práticas. Você vai escutar entrevistas com Jean Paul Metzger, Gabriela Marques di Giulio, Rafael Chaves, Pedro Krainovic. E, também, Luara Tourinho. ______________________________________________________ Pedro A. Duarte: Em maio deste ano, o estado do Rio Grande do Sul enfrentou enchentes em quatrocentas e setenta e uma cidades; pessoas tiveram que deixar suas casas e, em um mês, mais de cento e setenta mortes foram confirmadas. Se, em setembro do ano passado, diversos estados do país sofreram com ondas de calor, este ano o problema se agravou: em apenas um dia foram registrados cinco mil focos de incêndio ao redor do país. A fumaça emitida pegou carona nos rios aéreos e chegou a diversos estados do Centro Oeste, Sudeste e Sul do país, deixando a qualidade do ar insalubre. Chuva atípica e enchentes, ondas de calor, neblina tóxica. A crise ambiental (anteriormente conhecida como “aquecimento global”) é uma realidade que se apresenta diante de nós e já está alterando o nosso cotidiano. É possível solucionar esse problema? Ou ao menos mitigá-lo para que possamos viver de maneira digna nos próximos anos? As Soluções Baseadas na Natureza se apresentam como alternativas tanto para mitigar a crise e melhorar a nossa vida, quanto para aumentar a produtividade de cultivos – tornando a agricultura sustentável e também oferecendo um custo-benefício bem mais em conta. Com a ajuda de especialistas, vou te contar como essa prática surgiu e trazer alguns exemplos de soluções foram aplicadas para resolver problemas na prática. Bom dia, boa noite ou boa tarde. O meu nome é Pedro A. Duarte. E você está escutando o podcast Oxigênio. Jean Paul Metzger: Basicamente o que a gente está tentando utilizar nas nossas soluções são esses serviços, esses benefícios que a natureza traz para a espécie humana. Então são soluções que são suportadas por esses benefícios que se dirigem a, ou que lidam com desafios ambientais, ou socioambientais, humanos. Então é algo bem antropocêntrico, a gente está lidando com problemas da sociedade humana. Segundo ou terceiro, que promovam ao mesmo tempo bem estar e que protejam a biodiversidade através de um leque muito amplo de ação que vai desde a proteção à restauração, ao manejo seguro e o uso sustentável.” Pedro A. Duarte: Você acabou de ouvir o biólogo Jean Paul Metzger, professor do Instituto de Biociência e do Instituto de Estudos Avançados da USP. Jean explicou que o conceito de “Solução Baseada na Natureza”, que vamos tratar também pela sigla SBN neste episódio, é relativamente recente. Surgiu em 2016 em um grupo de trabalho da IUCN, a União Internacional para a Conservação da Natureza. Eles entendem a natureza não apenas como algo impactado pela atividade dos humanos, mas também como algo que ajuda a solucionar desafios sócio-ambientais. O conceito teve uma aderência muito forte pela União Européia e rapidamente se difundiu no meio científico ao redor do mundo. Jean Paul Metzger: Então é um tema bastante guarda-chuva que tem um risco de ser entendido como se fosse uma panaceia de todas as soluções. Tem uma crítica muito grande de falar “ah, solução baseada na natureza é apenas mais um termo que redefine de uma forma charmosa ou interessante, atrativa algo que a gente já está fazendo, já conhece? É, não tem nada de novo”. E, em parte, eu acho que isso acontece de fato: é um termo que que foi apropriado ou que tá muito na moda. Mas, por outro lado, se a gente olhar a comunidade que lida com essas questões de soluções baseadas na natureza, eles são um pouco mais restritivos do que você deveria ou não chamar de solução baseada na natureza. Pedro A. Duarte: Jean enumerou três aspectos essenciais para caracterizar uma Solução Baseada na Natureza utilizados pela comunidade científica. Primeiro: a solução deve trazer um benefício mútuo à espécie humana e para as demais espécies. Segundo: ao solucionar um problema, o projeto também deve trazer outros co-benefícios. Terceiro: o custo-benefício de uma solução baseada na natureza, deve ser melhor que o de uma “solução cinza”, as soluções baseadas na engenharia. Vamos ouvir alguns exemplos: Jean Paul Metzger: A gente não pode pensar, por exemplo, em uma ação de conservação de restauração apenas focada na biodiversidade – isso não seria uma Solução Baseada na Natureza. Agora, se é uma ação de conservação, a criação de um parque

Oct 10, 202435 min

#179 – Comida Frankenstein e a ética na ciência

Você já ouviu falar na Comida Frankenstein? Ela faz referência ao nome de um dos monstros mais conhecidos da ficção científica e traz consigo inúmeros debates. Neste episódio, Lívia Pereira e Lidia Torres falam sobre a ética científica instigada pela ficção científica e as problemáticas que envolvem as técnicas de obtenção dos Organismo Geneticamente Modificados, mais especificamente os alimentos transgênicos, ou como já foram denominados no passado, os Frankenfoods ou Comidas Frankenstein. Você vai escutar entrevistas com Vânia Massabni, professora da ESALQ – USP/Piracicaba, coordenadora da pós-graduação em Ecologia Aplicada e coordenadora do grupo de pesquisa e extensão GEDePE (Grupo de Estudos Desafios da Prática Educativa), onde trabalha com temas ligados a parte ambiental conectados ao ensino de ciências. E também vai ouvir a Suzi Cavalli, doutora em Alimentos e Nutrição pela UNICAMP e docente na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a nutricionista, socióloga da alimentação e professora na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Elaine de Azevedo, que também é produtora do podcast “Panela de Impressão”. Elas vão nos contar como o livro Frankenstein desperta o debate para ética na ciência, porque ele emprestou seu nome aos alimentos transgênicos e quais são os debates que envolvem os OGMs, 30 anos depois da sua criação. [sons de tempestade] Narrador (Daniel Rangel): “Foi numa lúgubre noite de novembro que contemplei a conquista de meus pesados trabalhos. Com uma ansiedade que era quase agonia, coletei os instrumentos da vida ao meu redor, para que pudesse infundir uma centelha na coisa inanimada aos meus pés. Já era uma da manhã; a chuva batia melancolicamente contra as vidraças e minha vela fora quase toda consumida, quando, sob a luz débil, vi o torpe olho amarelo da criatura se abrir, ela respirou fundo, e um movimento convulsivo agitou seus membros” (Shelley, 2017, p.65). Lívia: Esse trecho que você acabou de ouvir foi o relato do personagem Victor Frankenstein, o cientista que é protagonista de um dos livros mais famosos do século XIX. Você provavelmente já leu ou ouviu falar, porque ele ganhou diversas releituras em filmes e desenhos animados. Também aparece em propagandas e em produtos por aí. De peças de teatro a fantasias de carnaval, de filmes e músicas a jogos e histórias em quadrinhos, a lista de menções ao universo do livro e do personagem Frankenstein é inesgotável. Escrito por Mary Shelley, publicado em 1818, quando a autora tinha apenas 20 anos, o romance adquiriu status de clássico da literatura e se disseminou pela cultura popular mundo afora. O trecho que você ouviu conta exatamente o momento em que Victor Frankenstein dá vida a um corpo inanimado, que ele construiu com pedaços de outros corpos, de pessoas que já estavam mortas. Lidia: Esse fato narrado no livro é um dos motivos dele ser considerado a primeira obra de ficção científica da literatura ocidental. Mary Shelley ousou contar uma história que descrevia a possibilidade de criar vida por meio de princípios científicos e não mais sobrenaturais, como era de costume até então. Lívia: O livro discute as principais questões da segunda revolução científica, que marcou sua época. As tensões científicas que estavam fervilhando tiveram grande impacto na narrativa. Foi um momento, na história da humanidade, de intensas mudanças no entendimento do homem e da natureza. Lidia: Os novos conhecimentos científicos pareciam achados fantásticos, como os estudos de Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, que desafiava a visão tradicional da criação divina da vida. Outro exemplo são os achados de Luigi Galvani, com seus experimentos em bioeletricidade, que procuravam estabelecer uma relação entre a corrente elétrica e o impulso nervoso que causa a contração muscular. As descobertas de Galvani levaram à construção da Pilha Voltaica e marcaram a evolução dos estudos sobre magnetismo e eletricidade. Narrador: “Ascendem aos céus: descobriram poderes novos e quase ilimitados; podem comandar os trovões do céu, imitar o terremoto e até escarnecer do mundo invisível com suas próprias sombras” (p.56) “Após dias e noites de incrível labuta e fadiga, descobri a causa da geração da vida; mais do que isso, tornei-me capaz de animar matéria sem vida” (Shelley, 2017, p.60). [Vinheta Oxigênio] Lidia: Como a gente comentou, a originalidade do livro está, exatamente, nessas descrições dos progressos científicos da época, diante das indagações fundamentais sobre a vida e a sociedade. A ficção científica construída por Mary Shelley foi relevante para as discussões que estavam quentes na sociedade inglesa do século XIX, mas que reverberam ainda hoje em questões importantes da atualidade: o desejo humano em transcender os limites da natureza por meio da ciência e, ao mesmo tempo, ainda ter de lidar com o diferente ou o inimaginado. Lidia: Eu sou a Lidia Torres, aluna do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor. Lívia: Eu sou a Lívia

Aug 15, 202436 min

Série Termos Ambíguos – #3 – Racismo Reverso

Este é o terceiro episódio da série Termos Ambíguos, baseada na publicação “Termos ambíguos do debate político atual: pequeno dicionário que você não sabia que existia”. O termo tratado neste episódio é Racismo Reverso. A partir do que a professora da UFRJ Fátima Lima escreveu no dicionário, e de entrevistas realizadas com a diretora executiva da ONG Koinonia, Ana Gualberto, da jornalista, diretora da consultoria Ser Antirracista, Paula Batista e do advogado Thiago Amparo, este podcast traz a resposta à pergunta: Racismo Reverso existe? _____________________ Daniel Faria: Em janeiro deste ano, no estado de Alagoas, um homem negro virou réu em ação de injúria racial movida por um cidadão italiano branco. O italiano prestou queixa-crime após ser chamado de, entre aspas, cabeça europeia e escravagista, pelo réu, e teve a denúncia aceita pelo Ministério Público daquele estado, com base na lei N° 14.532, de 2023, que tipifica o crime racial. Porém, no artigo de número 20 desta lei consta que o juiz deve considerar como discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que causem constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião ou procedência. Tatiane Amaral: Essa nota foi publicada no portal de notícias antirrascista Notícia Preta. Os comentários que seguem a nota são bastante indignados, como não poderia deixar de ser. Um disse: “só faltou o italiano ser minoria para a denúncia ter sentido, né?”. Outra pessoa afirmou: “Nada a ver o uso dessa lei para defender colonizador”. Segundo a defesa do homem negro, “Ao usar a lei para punir um homem negro de suposto racismo cometido contra um homem branco, de origem europeia, a ação admite a existência do ‘racismo reverso’. Isso representa uma verdadeira aberração jurídica, nas palavras do advogado”. Daniel: Taí, a gente chegou ao tema deste episódio: Racismo reverso. Mas, será que isso existe? Faz sentido essa expressão cada vez mais propagada por vozes racistas ou de extrema direita no Brasil e em outros países? Eu sou o Daniel Faria. Tatiane: E eu sou a Tatiane Amaral. E esta é a série Termos Ambíguos, que traz a cada episódio a explicação de uma categoria das muitas popularizadas pelos discursos da extrema direita em anos recentes. Essas categorias são analisadas nos verbetes da publicação “Termos ambíguos do debate político atual: pequeno dicionário que você não sabia que existia”. Daniel: Esta série é uma produção do Observatório de Política e Sexualidade, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, e do podcast Oxigênio, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp. Vamos falar sobre racismo reverso, mas não dá pra falar desse assunto sem antes falar de RACISMO, que o dicionário Aurélio define como preconceito e discriminação direcionados a alguém em razão de sua origem étnico-racial. Embora essa definição seja aparentemente neutra, ela se refere à opressão e à discriminação que resultam da ideologia ou crença na superioridade da raça branca sobre as demais. Ou práticas de subordinação e exclusão baseadas na cor da pele ou origem étnica das pessoas “não brancas”. Ou seja, o questionamento do racismo é o questionamento de uma longa história de opressão, desigualdade e injustiças sócio-raciais. Tatiane: Há muito tempo as pessoas negras e de outras etnias têm interrogado de frente as teses da superioridade branca que está na origem da escravidão moderna. O combate ao racismo é antigo, e parece não ter fim, porque o racismo parece não ter fim. Desde o século 18, pelo menos, a crítica ao racismo elaborada por autores e autoras negras tem sido fundamental para nutrir a luta antirracista em todo mundo. São exemplos o ex escravizado Olaudah Equiano que lutou pela abolição da escravidão na Grã Bretanha, no século 18, assim como Frederick Douglas e Luis Gama, intelectuais abolicionistas do século 19, nos EUA e no Brasil. Mais perto de nós, temos o movimento Black Power e os Panteras Negras, nos Estados Unidos, mas também o Movimento Negro Unificado no Brasil, cujas vozes intelectuais mais conhecidas foram Abdias do Nascimento e Lelia González. Não fossem essas lutas, estaríamos ainda mais longe de alcançar a igualdade racial. Daniel: É Tati, mas nem todos compartilham a ideia de que pessoas negras – ou de outras etnias tenham os mesmos direitos que as pessoas brancas. Isso em relação à formação escolar, emprego, moradia, bens, acesso à saúde, à educação superior e tudo o mais que tem sido garantido às pessoas brancas desde sempre. Na verdade, foi quando se anunciaram medidas do estado e de outras instituições para promover a igualdade racial que surgiu essa acusação de Racismo Reverso. Tatiane: Conversamos com Ana Gualberto, que é mestra em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia e História pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Ela também é diretora Executiva de Koinonia, organização c

Aug 1, 202431 min

Série A mente dos peixes – Habilidades dos Peixes: Parte 1: Memória

O Oxigênio apresenta um novo podcast parceiro, o Fish Talk. Desta vez tratando de peixes. Isso mesmo, um podcast sobre peixes! The Fish Mind, ou A Mente do Peixe, é um programa desse podcast com foco na capacidade que esses animais têm de sentir dor e experimentar outros estados emocionais. Vamos ouvir também sobre suas habilidades cognitivas nos episódios desse programa. A ideia é trazer essas informações importantes em um diálogo informal de poucos minutos. O programa geralmente é composto por episódios independentes, mas temas que precisam de mais aprofundamento são apresentados em mais de um episódio. O Fish Mind faz parte de um projeto que é fruto de uma colaboração do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp) no Brasil com a FishEthoGroup, uma associação sem fins lucrativos que trabalha em prol do bem-estar dos peixes, preenchendo lacunas entre a ciência e as partes interessadas no setor da aquicultura, entre eles: produtores, certificadores, comerciantes, ONGs, decisores políticos e consumidores. A entidade foi criada em 2018 e está sediada em Portugal. Conheça agora o The Fish Mind Programme e acompanhe todos os episódios. Você vai descobrir muitas curiosidades sobre peixes! TRILHA SONORA João: Sabia que, assim como os seres humanos, os peixes podem ter uma boa memória de longo prazo? Ao contrário da crença popular, esses animais aquáticos podem se lembrar das coisas por muito tempo. Carol: Neste episódio do programa A Mente do Peixe, vamos falar sobre a capacidade dos peixes de memorizar coisas, que vai muito além da suposta memória de apenas alguns segundos. Eu sou a Carol Maia. João: E eu sou o João Saraiva, e começa agora o episódio Habilidades dos peixes: Memória! TRILHA SONORA Carol: Você já ouviu falar que os peixes têm uma memória de apenas três segundos? Esta é uma crença popular muito difundida. Mas, na verdade, há evidências científicas indicando que, ao contrário dessa crença, os peixes podem expressar uma boa memória de longo prazo que pode durar meses! E isso não é novidade na ciência. Existem pesquisas sobre isso publicadas há cerca de 34 anos. João: Este é um estudo muito interessante chamado ‘Long-term memory and recognition of another species in the paradise fish’, que foi publicado em 1989. Os pesquisadores mostraram que um pequeno peixe popularmente conhecido como peixe paraíso (Macropodus operculari) foi capaz de memorizar um peixinho dourado (Carassius auratus) por até três meses! Carol: Para demonstrar isso, os pesquisadores avaliaram o comportamento exploratório do peixe paraíso em relação ao peixinho dourado. Quanto menos o peixe paraíso explorava o peixinho dourado, mais os pesquisadores consideravam que ele já estava acostumado a ele e, portanto, se lembrava daquele peixinho dourado. E é interessante notar que o peixe paraíso conseguiu memorizar um indivíduo de uma outra espécie! João: Mais do que isso, este estudo também mostrou que o peixe paraíso foi capaz de memorizar o peixinho dourado por todo esse tempo – três meses – depois de encontrá-lo anteriormente por apenas 5 minutos! TRILHA SONORA Carol: Impressionante! E é incrível saber que um estudo mais recente mostrou que a memória formada quando os peixes passam por uma situação ruim pode durar ainda mais tempo. Vamos falar sobre isso. João: No estudo ‘Long‐term memory retention in a wild fish species Labroides dimidiatus eleven months after an aversive event’, publicado em 2020, os pesquisadores descobriram que a espécie de peixe conhecida como bodião-limpador (Labroides dimidiatus) foi capaz de se lembrar de ter sido capturada por uma rede, em um único evento, por quase um ano! Carol: Essa pesquisa mostrou que um número significativo de indivíduos silvestres dessa espécie apresentou a resposta incomum de ‘esconder-se’, quando houve a colocação de uma rede para capturá-los. Isso aconteceu apenas em um lugar onde eles haviam sido capturados da mesma forma 11 meses antes. João: Os pesquisadores levantaram a possibilidade de que foi a combinação da presença da rede e da proximidade do mergulhador que coletava os dados para a experiência que desencadeou a resposta de esconderijo do bodião limpador. Mas, de qualquer forma, isso não nega o fato de que os peixes responderam porque se lembraram daquele evento. TRILHA SONORA Carol: Isso significa que um único evento muito aversivo, tal como ser capturado em uma rede, pode resultar em peixes armazenando informações por um prazo bem longo, o que permite que eles evitem ser capturados novamente em uma situação semelhante no futuro. João: Então, sim, pelo menos algumas espécies de peixes expressam memória de longo prazo assim como os humanos. E não há razão para duvidar que outras espécies de peixes provavelmente também sejam capazes dessa capacidade, especialmente considerando que o peixe paraíso e o bodião-limpador não são espécies muito próximas. Carol: E essa não é a única habilidade cognitiva incrível que os peixes são capazes de fazer. Muitas outras já foram descobertas, send

Jul 2, 20246 min

#178 – Série Adolescência ep.3 – Impactos da pandemia na educação

A educação como um todo foi uma das áreas mais afetadas pela pandemia. Com as escolas fechadas, processos de aprendizagem foram interrompidos, assim como os de socialização. Algumas atividades foram suspensas ou feitas de outra forma, e isso teve um impacto significativo na vida desses adolescentes. E é sobre isso que as jornalistas Cristiane Paião e Mayra Trinca vão tratar neste terceiro episódio da série Adolescência. Para saber mais sobre o tema, elas conversaram com Bernardo Baião, coordenador de políticas educacionais da Organização Não Governamental Todos pela Educação e com a Professora Sabine Pompeia, do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo. CRIS PAIÃO: Olá, eu sou a Cristiane Paião, e começa agora mais um episódio do Oxigênio, o podcast de jornalismo de ciência e cultura do Labjor, o laboratório de estudos avançados em jornalismo da Unicamp. CRIS PAIÃO: este é o terceiro episódio – de uma série de três – em que a gente mergulha na adolescência. Você pode ouvir os nossos outros dois episódios sobre esse assunto, na sua plataforma de podcasts preferida. E quem me acompanha agora, é a Mayra Trinca. Tudo bem, Mayra? MAYRA TRINCA: Tudo bem, Cris. Nesse episódio, a gente vai falar sobre o retorno das aulas depois da pandemia, o que as últimas avaliações mostram sobre o desempenho dos alunos, que anda bastante preocupante. A pandemia pode ter passado, mas o impacto dela na educação, principalmente na educação básica ainda vai longe. CRIS PAIÃO: Exatamente, MAYRA: Claro que a gente não vai aqui ficar só falando de números… O nosso objetivo é entender o que a ciência, a psicologia, e as pesquisas mais recentes sobre esse impacto da pandemia na educação podem ensinar pra gente. Mas eu já trago um dado bastante importante aqui. Olha só, a porcentagem de crianças do segundo ano do ensino fundamental, que têm geralmente entre 7 e 8 anos, que não sabem ler e escrever — nem palavras isoladas – ou seja, palavras, não são nem frases…. Mais do que dobrou na pandemia. Isso segundo o INEP, que é o Instituto Nacional De Estudos E Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pelo levantamento desses dados. MAYRA TRINCA: Pois é, isso é super preocupante. Porque, imagina a continuidade dessa aprendizagem, as dificuldades. A gente precisa falar desse processo, a longo prazo. E só mais um dado aqui, pra gente já ir pros nossos entrevistados. De cada dez alunos de 7 anos, mais do que 3 não estão alfabetizados. Esses resultados podem ser ainda piores do que os indicados pelo SAEB, que é a prova de português e matemática, porque alguns estados registraram taxas de participação no exame abaixo de 50%. É o caso de Roraima. CRIS PAIÃO: E esses números, no ensino médio, também são alarmantes, a gente vai falar mais sobre eles daqui a pouquinho… e tudo isso em meio a um debate que tá acontecendo agora: o da reforma do ensino médio. O governo, os deputados, os senadores, ainda não entraram em um consenso sobre como vai ficar a grade de aulas pro ano que vem. A educação, como um todo, foi uma das áreas mais afetadas pela pandemia. Com as escolas fechadas, processos de aprendizagem interrompidos, assim como os de socialização — que é aquela delícia mesmo da escola, de brincar, de conviver com os amigos, porque tem muita coisa boa na escola. Algumas atividades foram suspensas ou feitas de outra forma, e isso teve um super impacto na vida desses adolescentes. Você que é professora, viu tudo bem de perto… MAYRA TRINCA: Vi e ainda tenho visto, viu, Cris. A gente pode falar horas aqui sobre isso… As crianças e os adolescentes tendo aulas em casa dependiam muito das famílias, que não sabiam também como lidar com esse processo. E não foi só a aprendizagem formal que foi afetada, né. A gente viu muitos casos de abandono, de abusos e violência, fome, uma série de questões ligadas com o isolamento da pandemia. [trilha transição] CRIS PAIÃO: Para entender melhor tudo isso, eu conversei com o pessoal da ong “TODOS PELA EDUCAÇÃO”. Já ouviu falar? MAYRA TRINCA: Eu descobri quem são eles recentemente, Cris, através da Sabine, que daqui a pouco a gente chama pra essa conversa. Mas sei que eles têm um trabalho muito legal de acompanhar a educação no brasil. Como foi a conversa com eles? CRIS PAIÃO: Foi ótima! Eu conversei com o Bernardo Baião, coordenador de políticas educacionais. E aí, eu perguntei sobre esses resultados do SAEB, que foram muito ruins pras duas principais disciplinas que q gente tem no currículo, que são português e matemática. Bora saber o que ele disse sobre isso? Vamos ouvir a entrevista. BERNARDO BAIÃO: “Aqui, tem duas mensagens, que são bastante importantes sobre esse tema. A primeira, é que a pandemia ela alarga os problemas de aprendizagem no Brasil, mas ela não inaugura. O Brasil já vivia problemas de aprendizagem historicamente, é um país com grandes desafios de aprendizagem. Essa é a primeira mensagem, então só de exemplo, quando a gente olha para 2019 e vê

Jun 7, 2024

Série Fish Talk – Os peixes também sofrem – ep. 4

OS PEIXES TAMBÉM SOFREM: PARTE 4 ABERTURA DO FISH TALK TRILHA SONORA Carol: Você sabia que, assim como os humanos, os peixes não apenas sentem dor, mas também sentem estresse, ansiedade e até medo? E essas podem ser fontes importantes de sofrimento para os peixes também… João: Neste episódio do programa ‘A mente do peixe’, vamos explorar as respostas de estresse, ansiedade e medo dos peixes. Eu sou o João Saraiva. Carol: E eu sou a Carol Maia, e começa agora o episódio Os peixes também sofrem – parte 4! TRILHA SONORA João: É comum ver pessoas a reclamar que estão estressadas com uma alguma situação difícil que esteja a causar algum tipo de pressão psicológica sobre elas, certo? Alguns estudos vêm demonstrando ao longo dos anos que esse tipo de fenômenos também podem acontecer com os peixes. Carol: Sim, os peixes podem ficar estressados! Existem muitos estudos demonstrando que o cortisol – hormônio que indica resposta ao estresse em muitos outros animais, inclusive em seres humanos, – aumenta em indivíduos estressados de várias espécies de peixes. João: E não são apenas as respostas fisiológicas podem ser observadas nos peixes. Além de outras substâncias – como glicose ou lactato, que também ficam alteradas em peixes estressados assim como em outros animais – mudanças comportamentais também podem ser facilmente observadas em peixes estressados, como a respiração ou batimentos cardíacos acelerados. Carol: No estudo ‘Caution for using ventilatory frequency as an indicator of stress in fish’, publicado pelos Drs. Barreto e Volpato em 2004, o registro da frequência ventilatória da tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) pela observação do batimento opercular dos peixes foi validado como uma ferramenta confiável para inferir a resposta ao estresse nessa espécie. João: E já foi demonstrado que algumas espécies, como a própria tilápia do Nilo, mudam a cor do seu corpo e até mesmo a coloração dos seus olhos em resposta ao estresse! E não podemos esquecer que, pelo menos nos humanos, a ansiedade pode ser uma potencial fonte de estresse… Será que os peixes também podem ficar ansiosos? Vamos falar sobre isso! TRILHA SONORA Carol: A ansiedade tem sido estudada em peixes ao longo dos anos. Aliás, tem até espécies que são utilizadas como modelo experimental em estudos sobre ansiedade, como é o caso do peixe paulistinha (Dano rerio), por exemplo. Esses estudos geralmente avaliam os efeitos ansiolíticos de agentes farmacológicos ou os efeitos comportamentais de substâncias tóxicas, e investigam as bases dos comportamentos relacionados à ansiedade em geral. João: O artigo ‘Scototaxis as anxiety-like behavior in fish’, publicado em 2010, apresenta um protocolo para avaliar melhor as respostas de ansiedade em diferentes espécies de peixes. A proposta é colocar um peixe em um compartimento central de um aquário metade preto, metade branco, e observar o peixe por 15 minutos, registrando o número e a duração das entradas em cada compartimento. Carol: Os pesquisadores desse estudo mencionaram que os paulistinhas, peixinhos dourados, lebistes e tilápias são peixes que claramente preferem o compartimento escuro nesse tipo de teste. Assim, um aumento de sua atividade no compartimento branco, que é indicado por mais tempo e maior número de entradas ali, deve refletir um comportamento ansiolítico desses peixes! TRILHA SONORA João: E quanto ao medo dos peixes? Bom, quando os peixes sentem medo, eles expressam alterações fisiológicas e comportamentais bem semelhantes aos humanos com medo. Os níveis de cortisol e a frequência cardíaca aumentam, indicando que o peixe está a enfrentar uma situação estressante. Além disso, quando estão com medo, os peixes podem expressar comportamentos de fuga ou mesmo uma espécie de congelamento, parando de se mover! Carol: O artigo ‘Pain perception, aversion and fear in fish’, que foi publicado pela Dra. Braithwaite e o Dr. Boulcott em 2007, oferece uma ótima revisão que explora a questão do medo em peixes e sua relação com respostas aversivas e o sofrimento desses animais. Carol: É muito interessante saber que os peixes podem ficar bem estressados e que provavelmente esses animais são capazes de ficar ansiosos e de sentir medo também. Mas essas são todas emoções negativas. Os peixes também são capazes de sentir estados afetivos positivos e expressar incríveis habilidades cognitivas. Esses são temas dos nossos próximos episódios do programa ‘A mente do peixe’! Fique ligado! TRILHA SONORA João: Este episódio foi apresentado por mim, João Saraiva, e pela Carol Maia, que também o coordenou. Somos da FishEthoGroup Association. Carol: E você pode seguir a FishEthoGroup Association em nossas redes sociais. Nós estamos no Facebook (facebook.com/fishethologyandwelfare), Instagram (@fishethogroup) e no Twitter (@group_fish). Vejo você no próximo episódio! TRILHA SONORA ENCERRAMENTO DO FISH TALK

Jun 5, 2024

#177 – Ecologia do reparo – Parte 2: informalidade, improviso e a polêmica da gambiarra

Esta é a segunda parte do episódio produzido por Yama Chiodi sobre a pesquisa da antropóloga portuguesa Liliana Gil, sobre as atividades relacionadas à tecnologia do bairro Santa Ifigênia, em São Paulo. O foco desta vez é a escola de reparos de celulares, a Prime, que atrai pessoas de todo o Brasil. Foi nesse espaço que a pesquisadora encontrou não apenas alunos, mas ativistas da tecnologia, como você vai ouvir. YAMA: No primeiro episódio a gente começou comentando do caos urbano do Santa Ifigênia. Em algum lugar do bairro um forte contraste se apresenta para quem sabe procurar. Uma escola de conserto de celulares que atrai pessoas de várias partes do Brasil. As cores são pensadas com critérios rigorosos, os espaços organizados, limpos e arquitetados para serem fluidos e funcionais. Seu contraste com o bairro onde está localizada não passa sem algumas contradições. Se na estética ela quer se diferenciar do bairro, sua proposta de formar técnicos capazes de reparar celulares a aproxima do Santa Ifigênia. Nossa convidada hoje é novamente a antropóloga portuguesa Liliana Gil, que esteve presente na escola como etnógrafa, mas também como aluna de duas diferentes turmas. Em sua pesquisa, refletiu sobre a escola e o bairro de Santa Ifigênia enquanto aprendeu na prática a reparar celulares. Em seguida a gente conversa sobre o trabalho de campo da professora na escola de consertos de celulares Prime, sobre formalidade e informalidade na formação técnica no Brasil e também sobre as polêmicas em torno do termo gambiarra. Oh… se você caiu de paraquedas neste episódio, recomendo que você escute a primeira parte antes de continuar, ok? Essa é uma parte dois que realmente é uma parte dois. Risos Eu sou o Yama Chiodi, jornalista do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, e nesse segundo episódio eu converso mais uma vez com a Dra. Liliana Gil, professora da universidade Ohio State, nos Estados Unidos, que fez sua pesquisa de doutorado no Brasil. Contamos em primeira mão, também, que sua pesquisa está em vias de virar livro. Depois da vinheta. YAMA: Continuando nossa conversa, agora nos voltando à Prime em si. Como foi que conheceu a escola e porquê decidiu fazer dela seu campo de pesquisa etnográfica? LILIANA: Então, eu achei que ia fazer pesquisa sobre Santa Ifigênia enquanto bairro e entrevistar todo mundo, mas de fato foi difícil fazer esse tipo de trabalho e em parte pelas questões de gênero. Até que numa conversa com um colega, ele me falou nesta escola, ah mas sabes que existe esta escola, talvez fosse um bom ponto de entrada e foi assim, foi um amigo, enfim. Inclusive a primeira vez que fui lá, fui com ele e conversei com os professores, com os instrutores e inclusive expliquei, eu estou a fazer uma pesquisa sobre Santa Ifigênia, seria interessante para mim saber como funciona a escola. Ah, claro, vem ser aluna! YAMA: E como aluna? Se sentiu acolhida pelos colegas? Era estranho uma antropóloga entre eles? LILIANA: Achei muito engraçado, porque durante todo o processo eu fiz o curso de reparo e várias vezes falava no meu doutorado e meio que as pessoas me diziam, sim, sim doutorado, claro, quando você perceber, quando você ver, o dinheiro que pode fazer com reparos, deixa o doutorado, deixa a antropologia de lado e vai abrir a sua lojinha, porque é outra dimensão. Não, os meus colegas achavam que bom, bom era eu abrir um box em Lisboa e trazer os meus colegas para lá e trabalhávamos todos juntos na nossa box. Íamos fazer muito dinheiro assim. YAMA: Já que estamos falando sobre seus colegas. Qual é o perfil dos alunos da Prime? Dá pra fazer alguma generalização demográfica? LILIANA: Talvez não dê, eu acho que a generalização é que havia pessoas de todas as idades e de todos, inclusive de muitos estados diferentes, tinha um colega que tinha vindo do Acre, tinha colega do Recife, tinha colega, sabe, era assim um conjunto de pessoas mesmo muito diferente, eu fiz o curso com duas turmas diferentes. YAMA: Mas migrantes ou pessoas que vieram para estudar na escola? LILIANA: Brasileiros que vieram estudar na escola, não, que moravam lá e vinham fazer o curso uma semana, duas semanas, o tempo que fosse necessário, um mês, dependendo se faziam em formato intensivo ou não, ficavam em São Paulo e depois regressavam para as suas cidades para desenvolver o seu negócio. Então tinha, mas também tinha, tinha jovenzinhos, tipo, sei lá, havia um colega que tinha que ter uns 18 anos, os pais dele pagaram o curso porque queriam que ele fizesse alguma coisa profissional com reparos. Mas também tinha pessoal mais velho que tinha tido uma profissão a sua vida toda, tinha ficado desempregado e estava um pouco a tentar reinventar-se. Há a história de uma mulher em particular da periferia de um dos bairros, penso que da Zona Leste, já não tenho a certeza, mas de um bairro periférico de São Paulo que tinha uma lojinha de acessórios, de celulares e muita gente vinha à loja dela, perguntava se ela fazia reparos, ela

May 24, 202433 min

#176 – Ecologia do reparo: a produção tecnológica no Santa Ifigênia, parte 1.

Santa Ifigênia, bairro central da capital paulista, conhecido pelo comércio de componentes e produtos eletrônicos, é também um lugar de reparos desses produtos. Neste episódio produzido e apresentado por Yama Chiodi, jornalista do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, o bairro é o protagonista. Quem vai falar sobre ele, tratar das atividades que ali são desenvolvidas é a antropóloga portuguesa Liliana Gil, que desenvolve sua pesquisa sobre o Santa Ifigênia na universidade Ohio State, nos Estados Unidos. Liliana conta também como foi a escolha sobre seu objeto de estudo e quais são os resultados encontrados até agora. Este é a primeira de duas partes da história. Acompanhe por aqui. _____________________________________ Roteiro [ sons urbanos caóticos aumentam progressivamente] LILIANA: É um caos, não é? Carros, vendedores de bolo, facas, lojas de eletrônicos, muitos CCTV, sistemas de segurança, vários moços meio que te chamando pra comprar isto e ver aquilo, cê tá interessado nisto? [ som de caos urbano continua por um instante e depois um fade out até eu começar a falar ] YAMA: A voz que você escutou é da antropóloga portuguesa Liliana Gil e ela tá falando sobre o Santa Ifigênia, bairro central da capital paulista. Eu sou Yama Chiodi, jornalista do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, e este episódio é mais uma parceria do GEICT com o Oxigênio. [ vinheta oxigênio] [começa a tocar Bio Unit ] O Santa Ifigênia é um bairro antigo, que vem desde o século XIX, e já mudou muito ao longo do tempo. Mas é pelo menos desde a década de 70 do século XX um pólo de venda de produtos e componentes eletrônicos… e também de reparo. De acordo com o Portal da Santa Ifigênia, catálogo online dos comércios da região, são mais de mil lojas. A maioria delas na rua de mesmo nome. O bairro é uma referência internacional. Antigamente seu público era bastante técnico porque supria uma demanda bem mais específica. Profissionais de vários ramos iam até lá em busca de componentes para a construção e manutenção de máquinas e aparelhos elétricos e eletrônicos. Isso ainda acontece hoje, mas seu público se diversificou muito. Hoje a maior parte dos frequentadores do bairro são consumidores finais em busca de fones, tablets, celulares e outros produtos com preços bem mais baratos. Os produtos são de fontes e qualidades variadas. Há produtos originais importados legalmente como em qualquer loja da cidade, mas há também produtos contrabandeados e falsificados. Iphones de todas as idades e produtos sem marca importados da China. Mas além de tudo, é isso é frequentemente invisibilizado, há vendedores capacitados a ajudar as pessoas a resolver seus problemas tecnológicos dentro de suas possibilidades financeiras. Você deve se lembrar de um episódio relativamente recente em que o deputado federal e polemista Celso Russomanno visitou o bairro, causando confusão e gerando memes. [Que correção monetária, aqui é Santa Ifigênia, paizão]. Reportagem completa disponível no canal de Celso Russomanno, no link: https://www.youtube.com/watch?v=AOGyS7VRGI4 A reportagem de Russomanno reforçou um estereótipo classista do bairro, muito difundido entre parte da classe média e entre as elites paulistanas. As contradições características dos comércios de centro estão lá: por um lado, uma linha tênue entre práticas legais e ilegais. Por outro, uma democratização do acesso a eletrônicos para pessoas de baixa renda. E a gente sabe que tanto uma coisa como outra gera incômodos nas partes mais abastadas da cidade. Mas o estereótipo classista que associa o bairro a atividades ilícitas não é o único fato que tem afastado potenciais consumidores da região. Lojistas dizem que nos últimos anos o público tem diminuído consideravelmente – o que eles atribuem à prática de comprar pela internet e ao aumento da violência no centro de São Paulo, fatores que foram potencializados durante e após a pandemia. Reportagem da Folha de São Paulo de setembro de 2023 não exita em dar uma explicação logo na manchete, sugerindo que o esvaziamento do Santa Ifigênia está diretamente relacionado com a dispersão da cracolândia. Mas o que será que uma antropóloga portuguesa, cursando doutorado nos Estados Unidos, encontrou no Santa Ifigênia que contrasta com as visões classistas sobre o bairro? Você já parou para pensar no Santa Ifigênia como um lugar que PRODUZ tecnologia? É sobre isso que a gente conversa em seguida. [ separador baixo] YAMA: Uma trajetória inesperada, como muitas vezes é o caso com antropólogos. Uma antropóloga portuguesa com origens na periferia industrial do sul de Lisboa, vai à universidade e acaba pesquisando ciência e arte, tema que a leva aos Estados Unidos. Já durante seu doutorado, uma escola de verão na Unicamp a impacta profundamente. Não apenas ela muda seu tema para priorizar a produção tecnológica, como passa a pensar no Brasil como um lugar ideal para fazer seu trabalho de campo. Visita a zona f

May 16, 2024