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Vicente Valentim: como se normaliza a direita radical?

Vicente Valentim: como se normaliza a direita radical?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

March 19, 20241h 44m

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Portugal é dos últimos países europeus a ter uma fortíssima bancada parlamentar de extrema-direita. O crescimento do Chega, à semelhança da maioria dos partidos similares, foi fulgurante. Em cinco anos passou de 1 deputado para 12 e, depois, 48, arriscando-se a colocar um ponto final em cinco décadas de sistema bipartidário. A extrema-direita está no poder em Itália, na Finlândia e na Hungria, suporta um governo na Suécia e está a caminho de ser poder novamente na Áustria. Em França, as mais recentes sondagens dão quase maioria absoluta ao partido de Le Pen nas legislativas. Nas próximas eleições europeias, a direita radical deverá ganhar em nove países e ser a segunda ou terceira força noutros nove, incluindo na Alemanha, onde já nem a memória histórica da barbárie nazi parece conter o crescimento da xenofobia e a perseguição das minorias. Vicente Valentim, cientista político na Universidade de Oxford, é o convidado de Daniel Oliveira no podcast Perguntar Não Ofende. O seu primeiro livro, acerca da normalização da direita radical, vai ser publicado pela Oxford University Press e adaptado para português pela editora Gradiva, num calendário que não podia ser mais oportuno para tentarmos perceber melhor a dinâmica do crescimento destas forças. 

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Vicente Valentim: Como ser normaliza a direita radical? Portugal é dos últimos países europeus a ter uma fortíssima bancada parlamentar de extrema-direita. O crescimento do Chegaà semelhança da maioria dos partidos similaresfoi fulgurante. Em cinco anos passou de 1 deputado para 12 edepois48arriscando-se a colocar um ponto final em cinco décadas de sistema bipartidário. A extrema-direita está no poder em Itáliana Finlândia e na Hungriasuporta um governo na Suécia e está a caminho de ser poder novamente na Áustria. Em Françaas mais recentes sondagens dão quase maioria absoluta ao partido de Le Pen nas legislativas. Nas próximas eleições europeiasa direita radical deverá ganhar em nove países e ser a segunda ou terceira força noutros noveincluindo na Alemanhaonde já nem a memória histórica da barbárie nazi parece conter o crescimento da xenofobia e a perseguição das minorias. As explicações tradicionaiscomo a económicaque realça os efeitos de quem se sente na margem perdedora da globalizaçãoou as culturaisque se centram no protesto de quem aspira a um regresso a um “mundo mais simples” e menos progressistaparecem não conseguir explicar a velocidade galopante deste crescimento populista. O que explicaentãoo progresso destas forças? E a velocidade do seu crescimentonuma sincronia quase perfeita em toda a Europa e EUA? Porque é a direita radical a conseguir captar todas as dinâmicas de protestos e a cristalizar-se como uma força incontornável no xadrez político europeu? De onde vem esta raiva que parece ter tomado conta do espaço público? Estas são algumas das questões de mais um Perguntar Não Ofendedesta vez com Vicente Valentimcientista político na Universidade de Oxford. O seu doutoramentono Instituto Universitário Europeuem Florençavenceu vários prémiosincluindo o Jean Blondel Prize. O seu primeiro livroacerca da normalização da direita radicalvai ser publicado pela Oxford University Press e adaptado para português pela editora Gradivanum calendário que não podia ser mais oportuno para tentarmos perceber melhor a dinâmica do crescimento destas forças. 1 - Durante muitos anos prevaleceu uma espécie de luso-tropicalismo revisitadoque achava que Portugal era imune à extrema-direita. Esta ideia teve o seu funeral no 10. O crescimento exponencial do Chegaem menos de cinco anosresulta de um voto de protesto contra a governaçãocomo muitos comentadores decretaram? Olhando para a Europa e Estados Unidosnão há uma dimensão mais estrutural neste voto? 2 - Pedro Nuno Santos reagiu aos resultados do Chega dizendo que não há um milhão de racistas no país. Olhando para os dados sobre o quadro de valores dos portugueses face aos “outros”concluímos que somos dos mais intolerantes de toda a Europa. Pedro Magalhães falavaem 2019de um “gigante adormecido”. Faltava um político competentecomo André Venturapara acordar esse gigante? - Para que se atinga o efeito de normalizaçãoatravés da exposição pública de quem defenda pontos de vista que se julgavam minoritários e excluídos do espaço públicobasta um político competente? Não tem de haver um rastilho? Ventura usou os ciganosmas vivemos com ciganosque correspondem a apenas 04% da populaçãohá cinco séculos... 3 - Aquilo a que chamas período de latênciaem que as ideias já existemmas ainda não foram ativadas no espaço públicotem mais a ver com o espaço político. Há uns bons anos uma jornalista francesa esteve em Portugal a fazer um trabalho sobre o tal excecionalíssimo portuguêsque lhe tinha sido vendido por quase toda a gente. Eu desmenti-o – como poderia isso acontecer no último país da Europa a descolonizar? – e disse-lhe que a extrema-direita já existia nos programas da manhã. A ativação acontece ao mesmo tempo na política e no espaço público menos institucional? - Qual é o papel da comunicação social para este processo de normalização? Sobretudo a comunicação social mais popular? 15’ - As redes sociais contribuíram para que essas pessoas deixassem de acreditar que as suas ideias eram ultraminoritárias e isoladas? 4 – No Regresso a ReimsDidier Eribonbiógrafo de Foucaultfaz uma visita às suas origens operárias e conta como a sua família votava comunista e passou a votar na extrema-direita. Percebe-se que já eram racistas e homofóbicos e nem havia propriamente vergonha. Sinto o mesmo cá: o racismo contra ciganos ou a homofobia explícita acompanharam as conversas que sempre ouvi no espaço públicono anedotárioem todo o lado. Eram socialmente aceites. O salto para o espaço político não pode apenas significar que essas ideias ganharam centralidade política porque outras perderam. No caso do Regresso a Reimsos pais de Eribon passaram a sentir-se franceses brancos em vez de trabalhadores. A questão é se a disputaem vez de ser em torno das ideiasnão é em torno do sentimento de pertença? Do que é que nas nossas ideias é politicamente relevante... 5 - Se a direita radical se limita a normalizar as ideias que já existiam na sociedadeisso quer dizer que ainda há espaço de crescimento para o Chega e que ele veio para ficarao contrário do PRD. Podemos dizer que o crescimento da extrema-direita é irreversível? Em Portugal e na Europa. 6 - Passos Coelho foi ao Algarvena campanha eleitoralassociar imigrantes à insegurança. Disseram-nos que o discurso era a forma certa de conter o Chega. Se o mainstream político assume como seus os temas da extrema-direita não reforça ainda mais essa normalizaçãotornando as suas ideias mais aceitáveisporque defendidas a partir de um partido do centro e de poder? A ideia de mimetizar o Chega em matérias que lhe são caras não está condenada ao fracasso? - A normalização das ideias perfilhadas por uma parte significativa da população aumentou a participação eleitoraltrazendo centenas de milhar de novos eleitoresque se sentiram representados pela primeira vez. Isto quer dizer que parte da abstenção correspondia à exclusão de valores contrários à democracia? A pergunta pode ser mais paradoxal ainda: o combate à abstençãopara dar maior legitimidade à democraciapassa por ceder a valores que lhe são contrários? 30’ 7 - É provável quea partir de agorapolíticos mais competentes que não arriscavam aproximar-se do Chega o façampor perceberem que ali há espaço de sucesso e que isso já não está tão estigmatizado. É de prever que o Chega ganhe competência técnica e política? Foi isso que aconteceu noutros países? 8 - As normas sociais não são estáticas. Se partidos do que costumávamos chamar arco do podercomeçam a legitimar os valores civilizacionais da direita mais radicala legitimação acrescida que trazemconjugada com o efeito mediático da mesmanão desmonta a censura social que resta? Não é provável que a política da direita radical em relação à imigração se torne mainstreampor exemplo? - Temos alguns exemplos: a radicalização dos conservadores britânicosdepois do Brexitlevou ao expatriamento de imigrantes e refugiados para o Ruanda e ao recuo nas metas climáticas. Na Alemanhaa CDU já fala em copiar a política de imigração do Reino Unido. A direita radical não está a mudar o panorama político em dois tabuleiros ao mesmo tempo? O do seu crescimento e o da aceitação crescente do seu programa? 9- A rejeição dos valores civilizacionais da direita radical resultava do quadro de valores do pós-guerra. Em Portugalessa rejeição resultava de uma ditadura de 48 anos. Que papel pode ter a forma como um país olha para o seu passado na resistência a este fenómeno? Mesmo na Alemanha o dique da memória parece ter cedido. Um dos principais dirigentes da ADFBjörn Höcketem feito declarações sobre a necessidade de fazer uma “viragem de 180 graus” sobre a forma como os alemães vêm a sua históriachamando ao museu do Holocausto “o museu da vergonha”e as sondagens não o penalizampelo contrário. - O Parlamento Europeu votoupor pressão dos países de lestea equiparação entre comunismo e nazismo. No Ocidenteos partidos comunistas tinham sido integrados no sistemafuncionando como pressão sindical para direitos laborais. Este esforço de equiparação não contribuiu para a normalização? Ou até para uma substituição de lugares? 45’ 10 - Um artigo na Foreign Policyde 13 de marçoindica que as forças radicais de direita deverão ser as mais votadas nas eleições europeias em nove paísesincluindo a ÁustriaPaíses BaixosFrança ou Itália. Em noveincluindo Espanha e Alemanhadeverão ficar em segundo ou terceiro. Se o partido de Orban aderir ao grupo da extrema-direitapodem conquistar um quarto dos lugares no Parlamento Europeu. O que é que aconteceu? É verdade que tivemos a crise dos refugiados e a inflação. Mas já tivemos crises maiorescomo a financeirasem este crescimento. - 2016com a vitória de Trump e do Brexitfoi considerado o ano dos populismos. Estamos a assistir agoracom esta possível votação esmagadora no Parlamento Europeu e com a hipótese cada vez mais real de uma vitória de Le Pen em França e de um grande crescimento na Alemanhaà sua consolidação? 11 - A legitimação destes partidos não se faz apenas a nível nacional. Von der Leyen já aludiu à inclusão do partido de Meloni no grupo da direita conservadorade que fazem parte PSD e CDS. Bastou perceber que não iria criar problemas na eurozona e querasgando alinhamento dos partidos da direita radicalmantinha o apoio à Ucrânia. O euroceticismo é a linha vermelha em Bruxelas e tudo o resto se encaixa? - Com mais de 20% dos eurodeputados e peso crescente nos governos europeusdecisões da União que pareciam consensuais e irreversíveis podem estar em causa com o crescimento da extrema-direita. Tendo em conta a fragilidade da democracia à escala europeiasem o lastroa históriao escrutínio e até as instituições que existem no plano nacionalnão podemos dar à extrema-direita instrumentos que nunca teve até hoje? 12 - O cordão sanitário à volta da extrema-direita é cada vez mais fraco. Na Suécia ou Áustria são parceiros da coligação no governo. E o crescimento eleitoral tem colocado pressão sobre as soluções de governabilidadeincluindo em Portugal. O dilema à direita é manter ou não o cordão sanitário quando direita radical tem 20%. O da esquerda é saber se adere a um bloco centraldeixando a extrema-direita sozinha na oposiçãoe transformando a extrema-direita na única alternativa à direitadando-lhe assim força. Tenho opinião firme sobre issomas gostaria de saber a sua... 1.00’ 13 - Há quem advogue que a melhor forma de derrotar a direita radical é que ela governetornando claro que não responde aos problema das pessoas. Na Finlândia e na Áustriapartidos de extrema-direita no governo já saíramna sequência de escândalos como a venda de favores a Putin. Mas voltaram pouquíssimo tempo depoisna Finlândiae estão perto dissona Áustria. Não é um jogo demasiado perigoso? - O primeiro programa do Chega fazia a IL passar por um partido estatistacom o fim do SNS e privatização das escolas. No mais recentedefendia um aumento de 9000 milhões de euros das pensões e apoios públicos para tudo e um par de botas. Ou sejaa adoção da direita radical para os temas mais sociais e caros à esquerdacomo fez Le Pen em relação à Frente Nacional do seu paipara poder vencer. São mudanças oportunistas? É que vemos um grande entusiasmo dessa direita com figuras como Milei e a aliançano Brasilcom os neoliberais.... Esta direita radical tempara alem de um conjunto de valoresum modelo social? 14 - Ventura fala em limpar Portugalmas tem uma concentração de condenados entre os seus dirigentes sem paralelo em qualquer partido português. Trump tem uma dezena de processos. Por que razão o que destruiria meia dúzia de carreiras de uma veznão parece afetar os políticos da extrema-direita?