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Rui Costa Lopes: como é que os portugueses veem os imigrantes?

Rui Costa Lopes: como é que os portugueses veem os imigrantes?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

January 7, 20251h 13m

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Show Notes

Quis a sorte ou azar que, no momento em que a imagem de uma rua do centro de Lisboa com muitas dezenas de imigrantes encostados à parede se tornou viral, fosse conhecido o Barómetro sobre as perspetivas dos portugueses em relação à imigração, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma medida um pouco mais científica sobre as perceções dos portugueses. Quando o estudo foi conhecido, o ministro da Presidência António Leitão Amaro disse que concordava com o juízo feito pelos portugueses sobre as políticas públicas de imigração. Um juízo que se baseia em vários erros de perceção. E que o debate público que pretende responder a estas precessões pode estar a reforçar. É para esmiuçarmos este barómetro que temos, connosco, o coordenador deste trabalho e um dos seus autores. Rui Costa Lopes é psicólogo social, com pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais, onde é investigador, sobre o fenómeno do preconceito racial e a influência das normas sociais na sua emergência.

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Rui Costa Lopes: Como é que os portugueses veem os imigrantes? Quem acabasse de aterrar em Portugal e visse os telejornais não acreditaria que vivemos num dos países mais seguros do mundo e com menos imigrantes do que a média europeia. Tudo parece invertido. Determinado pela estratégia política de um governo pressionado pelo Chegahá dois meses que o país fala de segurança e imigração. E a palavra da moda é “perceções”. A questão é seao concentrar o debate e ação política nestes dois temasnão se ampliam perceções equivocadas. Quis a sorte ou azar queno momento em que a imagem de uma rua do centro de Lisboa com muitas dezenas de imigrantes encostados à parede se tornou viralfosse conhecido o Barómetro sobre as perspetivas dos portugueses em relação à imigraçãofinanciado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma medida um pouco mais científica sobre as perceções dos portugueses. Ele diz-nos muitas coisas interessantes. Que a opiniãomaioritariamente desfavorável dos portugueses em relação à imigração não teve uma evolução com o crescimento exponesial dos imigrantes. Que a visão dos portugueses em relação à imigração é utilitaristaapesar de alguns dados serem contraditórioscom maior disponibilidade para garantir direitos políticos do que sociais. Que a maior resistência à aos imigrantes do subcontinente indianodeterminada pela resistência à diferença cultural. Que os portugueses acham que o número de imigrantes é muitíssimo superior ao realo que determina a sua posição sobre a imigração. E que a relação com a criminalidade é muitíssimo maior do que é e que quase tudo isto é mais determinado por posições política prévias do que pela experiência vivida. Apesar de acharem que são muitosa maioria dos portugueses confessa ter relação com nenhum ou poucos imigrantes. Quando o estudo foi conhecidoo ministro da Presidência António Leitão Amaro disse que concordava com o juízo feito pelos portugueses sobre as políticas públicas de imigração. Um juízo que se baseia em vários erros de perceção. E que o debate público que pretende responder a estas precessões pode estar a reforçar. É para esmiuçarmos este barómetro que temosconnoscoo coordenador deste trabalho e um dos seus autores. Rui Costa Lopes é psicólogo socialcom pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociaisonde é investigadorsobre o fenómeno do preconceito racial e a influência das normas sociais na sua emergência. 1 - 68% dos inquiridos considera que a política de imigração em vigor permite uma entrada muito facilitada e pouco regulada. Passámos de 207 mil imigrantesem 2000para 662 milem 2020 e mais de um milhão em 2023. Este crescimento exponencial tem impacto na perceção das pessoas? Em que vejam a imigração como um problema? -Não há uma diferença relevante em relação aos inquéritos de 2004 e 2010. Até há uma redução de quem deseja uma diminuição do número de imigrantes. Masapesar do Inquérito Social Europeu de 2022 dizer que a oposição à imigração tem diminuido desde 2014garante que a queda foi até à pandemiacom uma súbita inversão nos últimos anos. Será por causa do crescimento mais acentuado de imigrantes nestes anospela mudança de ambiente político ou pelas duas coisas? - Saindo um pouco do estudoa verdade é que a mudança de política de imigração no resto da Europa tornou Portugal numa porta preferencial de entrada. Acha que a mudança política na Europa deixa pouco espaço para políticas menos restritivas de Portugal? 2 - 68% dos inquiridos concordam que os imigrantes são fundamentais para a vida económica do paísum valor que até representa uma subida em relação a 2010. Talvez por isso78% achem que os imigrantes devem regressar aos seus países se não tiverem trabalho. Isto quer dizer que os argumentos utilitaristas podem mudar a opinião dos portugueses sobre a imigração oupelo contrárioque nem eles chegamjá que a oposição à imigração tem consciência de que os imigrantes são necessários? - Mais de dois terços dos inquiridos pensam que os imigrantes contribuem para manter os salários baixos e mais de metade que prejudica as oportunidades dos nacionais. É sabido que os imigrantes trabalham em atividades onde há falta de mão de obra. Por outro ladopode-se dizer que há falta de mão de obra porque são atividades mal pagas e por isso são contratados imigrantes. Há alguma base para dizer que a imigração serve de regulador do custo de trabalho? Historicamenteisso não é falso. 15’ 3 - Apesar da consciência da necessidade dos imigranteshá uma visão distorcida do papel dos imigrantes na sustentabilidade da segurança social. A percentagem de inquiridos que concordam com a ideia de que os imigrantes devem ter os mesmos direitos que os portugueses é apenas muito ligeiramente superior à percentagem dos inquiridos que discordam. Será pela ideia instaladasem qualquer base factualque alguns vêm para receber subsídios? -Na realidadehá quem defenda que a contribuição líquida é temporáriaenquanto são novos imigrantesem princípio jovenschegados ao país. Por outro ladosão muitos os que depois não ficam. - A maioria dos inquiridos tem consciência que os imigrantes têm piores condições de trabalho e habitação do que os portugueses. Mas acham que há igualdade no acesso aos serviços de saúdejustiça e educação. É porque confiam na universalidade do que é garantido pelo Estado? - Um dado interessante é que os inquiridos que mais consideram que as condições dos imigrantes são melhores do que as dos portugueses opõem-se mais à vinda dos imigrantes (faz sentido)mas a perceção de desfavorecimento pessoal do inquirido é pouco relevante para à sua posição sobre a imigração. O que reforça a ideia que a oposição à imigração é mais determinada por perceções do que pela experiência concreta das pessoas... 4 - A presença de imigrantes é vista como mais vantajosa quando vivem acompanhados da família. É a prova que a reunificação familiar é uma boa estratégia de integração ou apenas uma resposta baseada no senso comum? 30’ 5 - Mais de metade dos inquiridos considera que os imigrantes empobrecem os valores e as tradições portuguesas. Aí simtemos um aumento considerável relativamente a 2010quando 28% percecionavam essa ameaça. Isto quer dizer que o medo é mais simbólico e cultural do que propriamente económico e social. Porquê? - Há um preconceito mais forte contra os imigrantes do subcontinente indiano. Mais de 60% acha que deviam ser menos33% que devia diminuir muito. No entantosão apenas 9% do total dos imigrantes. A que se deve esta recusa? - Essa preocupação com os valores e tradições não parecem resultar de um choque com os próprios imigrantes. Tenho ideia que as pessoas nem têm grande contacto com eles. É racismo ou xenofobia? - Porque são tão diferentes os números em relação aos chineses? Também são muito diferentes nos seus hábitos culturais. Na realidadesãodepois dos imigrantes vindos do subcontinente indianoo que é considerado mais diferente pelos inquiridos. E misturam-se pouco. É pelo papel económico e social de uns e de outros? É a cor da pele? - Houve um aumento significativo na perceção de diferença relativamente aos imigrantes de países africanosdesde 2010. É por via da mudança do ambiente político? É porque chegam mais imigrantes vindos de fora dos PALOP? 45’ - Pelo contrárioos imigrantes de países ocidentais são os únicos cuja presença é associada mais vantagens do que a desvantagens. É uma questão racialcultural ou económica? - Curiosamentea rejeição não é muito diferentes para brasileiros e chinesesapesar dos primeiros falarem a nossa língua e serem de uma cultura que nos é familiar. Será por serem mais? 6 - Uma das coisas mais contraditória no estudoé a maioria defender o direito de voto aos imigrantes – que quase nenhum país dá – e que lhes deve ser facilitada a naturalização. Como se explica isto? Uma desvalorização dos direitos políticos face a direitos laborais e sociais? 7 - Contrariando esta ideiamais de 80% defendem que os imigrantes devem ser reenviados para os seus países se cometerem algum tipo de crime. Podem naturalizar-semas ficariam cidadãos à experiência... Dois terços dos inquiridos acham que os imigrantes contribuem para o aumento da criminalidade. Nenhum dado confirma esta perceção. Por outro ladoos dados da segurança pessoal dos portugueses são bons e até melhoraram. A perceção de insegurança e a associação à imigração não parece virmais uma vezde uma experiência pessoal. Ela vem do discurso mediático e político? 8 - Um dos dados que nos dá a entender que as posições sobre a imigração são prévias é que são tanto mais desfavoráveis quanto menos se valoriza a igualdade (já vamos à valorização da meritocracia). Por outro ladoa insatisfação com a economiaa educação ou a saúde não parece ter grande influência nas posições sobre a imigraçãoenquanto a insatisfação com a democracia sim. São posições de basemuito marcantes do ponto de vista ideológicoque moldam o olhar sobre a imigração? 1.00’ - Curiosamentequanto mais se valoriza a meritocraciamais se recusa a imigração. O que é curioso (esta é uma das tuas áreas de investigação). - Há uma posição claramente antagónica entre os eleitores do PS e do Chega – o que serve de aviso para quemno PSacha que deve ceder nestes temas. A AD está a meio caminho. Mais próximo das posições do PS ou do Chega? 9 - Os portugueses achamem média (retirando os 20% que não sabem ou não respondem)que os imigrantes representam 30% dos residentesquando andarão entre os 10% e os 15%. 27% até acham que são mais do que 30%. No entantomais de metade diz não ter contacto com nenhum ou poucos imigrantes. De onde vem uma perceção tão distanciada da realidade? Da visibilidade na rua? Da comunicação social? - Quanto mais imigrantes o inquirido julgam estar no paísmais desfavoráveis são as atitudes face à imigração e aos direitos dos imigrantes. Que efeito terá a concentração do governo na agenda da imigração muda esta perceção? Para aumentar ou diminuir o alarme social? Se lhe dá mais atençãonão transmite que o problema é grande? Mas pode desvalorizar a preocupação? É uma pescadinha de rabo na boca. - Sobre o estudoo ministro da Presidência disse que concordava co o juízo que os portugueses revelaram sobre o que tinham sido as políticas públicas de imigração. No entantocomo vimos aquieste juízo baseia-se em vários erros de perceção. Não há o risco deste estudo reforçar as políticas públicas baseadas em perceções erradas? 1.15’