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Paulo Querido: há mais colunistas de esquerda ou de direita?

Paulo Querido: há mais colunistas de esquerda ou de direita?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

October 11, 20241h 18m

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Tentando escapar às perceções subjetivas de cada um, Paulo Querido resolveu utilizar um modelo de inteligência artificial para verificar se há, de facto, um viés político na imprensa. Contrariamente ao que costuma ser feito, não só o objeto de estudo não foram as notícias, mas os artigos de opinião, como o que se procurou definir não foi o alinhamento partidário de cada um, mas o seu enquadramento ideológico. Paulo Querido foi jornalista, é programador, escritor e pioneiro na área do jornalismo digital em Portugal. Com uma carreira de várias décadas, tem-se destacado pela inovação e pelo estudo da interseção entre tecnologia e comunicação. É autor de vários livros e artigos que exploram o impacto da tecnologia na sociedade e na informação. E o autor do projeto “VamoLáVer” – título cheio de ironia –, onde este trabalho foi publicado.

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Paulo Querido: Há mais colunistas de esquerda ou de direita? A convicção de que o nosso lado político é discriminado pela imprensa é quase tão velha como o jornalismo. Uma convicção que ganha força e tração num clima marcado pela polarização política. Tentando escapar às perceções subjetivas de cada umPaulo Querido resolveu utilizar um modelo de inteligência artificial para verificar se háde factoum viés político na imprensa. Contrariamente ao que costuma ser feitonão só o objeto de estudo não foram as notíciasmas os artigos de opiniãocomo o que se procurou definir não foi o alinhamento partidário de cada ummas o seu enquadramento ideológico. Na bimby que são os modelos de linguagem artificialforam analisados artigos de opiniãopublicados no último anopor 99 colunistas que escrevem regularmente sobre política em jornais diáriossemanários e online. Nos jornais diárioshá um razoável equilíbriocom uma ligeira vantagem de centro-direita. Nos semanárioso desequilíbrio é razoável para a direita. Claro que as contas escondem a tendências específicas em cada órgão de comunicaçãoou a prevalência de uma maior polarização à direita em contraste com uma maiora moderação entre os articulistas mais alinhados à esquerda. As conclusões deste trabalho convidam a uma reflexão sobre o papel da imprensa na formação da opinião pública. Será que as nossas perceções estão distorcidas pelas bolhas em que nos inserimos? Como é que a inteligência artificial pode contribuir para uma análise mais objetiva do viés nos media? Paulo Querido é jornalistaescritor e pioneiro na área do jornalismo digital em Portugal. Com uma carreira de várias décadastem-se destacado pela inovação e pelo estudo da interseção entre tecnologia e comunicação. É autor de vários livros e artigos que exploram o impacto da tecnologia na sociedade e na informação. E E o autor do projeto “VamoLáVer” – título cheio de ironia –onde este trabalho foi publicado. Na próxima horavamos falar sobre a abordagem seguida por este estudotentando compreender o mapa ideológico de quem ajuda a moldar a opinião pública e o que isso significa para a democracia e o debate público. Com uma declaração de interesses evidente: desta vezsou objeto de estudo do meu entrevistado. 1 – O que te levou a este estudo sobre o viés político dos colunistas na imprensa portuguesa? - Tinha saído um estudo há pouco tempoda MediaLab. Achaste que o uso da Inteligência Artificial faria diferença? 2 – A imparcialidade na análisedespida das nossas paixões e formas de ver o mundofoi um dos teus objetivos para o recurso à Inteligência Artificial. Mas ainda assimos comandos e definições usados para a análise são humanos e critérios distintos levariam sempre a outras respostas. No fim já falaremos de outras vantagens da IAmas ideia de imparcialidade total não é uma ilusãomesmo com Inteligência Artificial? Não é até perigosapor passar a essa ideia quandopor trásestão os teus critérios? 3 - Ao analisar os textos dos colunistasque indicadores foram considerados mais relevantes para os posicionar ideologicamente? Os socio-económicos? As questões chamadas identitárias? - E como chegas à quela gradaçãodo centro até ao limite da esquerda e da direita? Aliásnão usas extrema-direita e extrema-esquerda 15’ 4 - Níveis crescentes de polarizaçãoe um debate público cada vez mais parecido com o do futebolfaz com que pareça que todos se queixem do alinhamento da imprensavendo sempre o “seu lado” como menorizado e perseguido. Estavas à espera de resultados mais ou menos equilibrados? Ficaste surpreendido? Confirma-se o desequilíbrio que a esquerda e a direita se queixam? É a deixa para fazeres um resumo das conclusões... - É possível fazer isto com as televisões? 5 – Nem todos os temas têm a mesma importância política e na definição do enquadramento ideológico de cada pessoa. Há autores claramente identificados à direita na área económicapapel do Estadodefinição dos serviços públicosmas que têm uma visão que se afasta da visão mais musculada da direita na imigração. Isso não pode distorcer os resultados? - Francisco Mendes da Silva e João Miguel Tavarespara dar um exemploaparecem com a mesma valorizaçãomoderadamente de centro-direita. Para quem lê os doisaté pela linguagem e temas escolhidospode parecer estranho. A defesa da relação da direita com o Chegaque é claramente distinta nos doispode ser secundarizada? - Vou dar alguns exemplos. A Fernanda Câncio aparece claramente à esquerda de Carvalho da Silva. A Maria João Marquesque ainda há uns anos foi elogiada pelo líder do PNR por defender as suas posições sobre imigraçãoaparece como centro-direita e não de direitapor defender posições feministas. Como dizescada um tem as suas paixões e embirraçõesque a Inteligência Artificial não temmas não há resultados que escapam ao senso comum? 30’ 6 - A sensação com que fico é que os temas identitáriosanteriormente considerados fraturantestêm um peso muito maior na definição do enquadramento político que posições sociais ou económicas. Percebo que são uma parte relevante do debate públicomais até nos Estados Unidos que entre nósmas como é que foi feita a ponderação para evitar essa potencial distorção? - Por outro ladoa visão económica parece desvalorizada. Não apenas no número de autoresporque não são abrangidos os jornais de economiamas também na análise. O Pedro Marques Lopes está a meio ponto de ser considerado de esquerda “dura” quandopara quem conhece a sua visão económica e papel do Estadoisso parece difícil compreender. 7 – O período em análisequase um anoparece ter apanhado dois governos distintos. Nas fichas detalhadas para cada autor percebe-se que as críticas ao governo são uma parte importante da avaliação. Não é possível quehá um anotivéssemos mais autores classificados como centro-direita e hoje mais de centro-esquerdapor via do efeito crítica às medidas governamentais? Isso aconteceupor exemplocom o Luís-Aguia Conraria... 8 – Citei aqui alguns casos em que os resultados da IA divergiram do que me pareceria “normal”tentando apontar algumas possibilidades. No texto falas das tuas maiores surpresasinfluenciadas por algumas “embirrações”. Queres desenvolver aqui essas tuas perplexidades no confronto dos resultados com o da tua leitura pessoal? - Eu apareço no centro-esquerdaapesar de estar no limite. Não fiquei propriamente espantadotendo em conta os critérios (muito baseados nas posições socio-económicasnas criticas que faço à deriva identitária e na minha posição não revolucionária)mas muita gente se fixaria no meu percurso partidário e não tanto no que realmente defendo. É essa a vantagem deste sistema? Fazer tábua-rasa da biografia dos autores? 45’ 9 - Encontraste diferenças entre colunistas e jornalistas que assinam artigos opiniãocom os jornalistas a tender mais para o centro-esquerda. Há até casoscuriososjornais que tendem para o centro-direita mas os responsáveis editoriais para o centro-esquerda. Isso confirma a ideia de que as redações são de esquerda? - Achas quecom o peso das redes sociais e a crise da imprensa e televisõesa comunicação social e os colunistas ainda têm um poder real na formação da opinião pública? 10 – Citas um artigo de Arlindo Oliveirano Públicoonde se lê que “todos nós somos relativamente difíceis de convencer pela evidência trazida por novos factos. Estudo após estudo têm confirmado que é extremamente difícil mudar a opinião das pessoas através da apresentação de factos que contrariem as suas opiniões ou convicções”. Acreditas que alguém mude a sua opinião sobre um autor ao ver esta grelhaque tenta ser o mais factual e despida de emoções possível? - O artigo de que falei faz uma análise à forma como as “câmaras de eco” e as “bolhas” ideológicas influenciam a perceção pública. Os meios de comunicação não escapam a essa bolha. Como achas que saímos deste círculo vicioso em que nos fechamos em grupos onde só ouvimos e lemos o que queremos ouvir e ler? 10 - Que desafios ou limitações é que encontraste ao utilizar a IA para analisar conteúdos subjetivos como artigos de opinião? 1.00’ - Terminado este trabalho vês potencialidades adicionais para a utilização da Inteligência Artificial como uma ferramenta para futuras análises no campo do jornalismo e da comunicação? 12 – Procurei estudos similares efetuados no estrangeiro e não encontrei. Conheces alguns? Deram resultados semelhantes? - Faltamem Portugaldados sobre os principais fenómenos sociais. Achas que mais estudos sobre os mediacomo este ou os do MediaLabpodem contribuir para um debate mais informado sobre a comunicação social e o próprio debate público? 13 – Este teu trabalho está a ter impacto. É por ser sobre quem tem espaço mediático? - Chegaram-te reações? 1.15’ 14 - Utilizas uma plataforma independente para fazer o quena verdadeé trabalho de investigação que poderemos considerar jornalísticoou na sua fronteira. Nos podcastshá vários exemplos do mesmo fenómeno. Com novas plataformas que vão aparecendohá espaço para o jornalismo fora das empresas de comunicação? E isso muda esse jornalismo e até as suas fronteirastornando-as menos óbvias?