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No Zambujal, com Tibunga: de regresso à cidade invisível

No Zambujal, com Tibunga: de regresso à cidade invisível

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

November 15, 20241h 30m

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Show Notes

Veja aqui a reportagem fotográfica

No dia do funeral de Odair Moniz, uma jornalista de uma televisão fez um direto, do bairro do Zambujal, dizendo que a paz quotidiana tinha regressado. No entanto, para que os telespetadores reconhecessem de onde falava, escolheu, como cenário, uma paragem de autocarro destruída. Se as palavras eram sobre um bairro que levava um dos seus a enterrar, a imagem era sobre os tumultos. Foi assim durante 15 dias: nós, os da cidade da lei, a olhar assustados, irados ou compreensivos, para eles, os da cidade invisível, para roubar uma expressão de um programa de rádio de António Brito Guterres. A polémica que veio depois, com um autarca socialista a defender regras inconstitucionais para os bairros sociais, resume ainda melhor o sentimento: a maioria da população acredita que a lei não serve para a vida destas pessoas. Que elas não as cumprem, que o Estado não tem de as cumprir. Que têm de ser mantidos na ordem, nada mais.

Alguns discursos mais cuidadosos ou até bem-intencionados preferiram distinguir, no Bairro do Zambujal e em todos onde houve tumultos resultantes de mais uma morte às mãos da polícia, uma minoria criminosa de uma maioria ordeira e trabalhadora. A realidade é capaz de ser mais complicada quando se cresce com falta de quase tudo. Não que a escola e a casa não existam. Falta o que permite romper com o ciclo de exclusão que este território determina.

A exclusão ficou evidente no próprio debate, feito sobre o bairro, mas exclusivamente fora do bairro. Apesar de haver associação de moradores e outras organizações de autorrepresentação, as pessoas que vivem nestes bairros são excluídas do debate público. Elas são o problema, não agentes das suas vidas.

Nas palavras de Ventura, a “bandidagem”, nas dos seus opositores, as “vítimas”. Mas nunca sujeitos da sua própria vontade. Não serve isto para desmerecer quem fala, porque deve falar, da exclusão dos outros. Apenas para sublinhar como a invisibilidade faz parte das regras do jogo. Os moradores dos bairros sociais são vistos ou como um problema de segurança, ou como um problema social, nunca como um problema democrático, na medida em que têm sido excluídos do direito à cidade e à palavra.

Com os meios que tenho, tentarei fazer o que acho faltar: dar alguma palavra ao Bairro do Zambujal. O modelo será semelhante ao que usei com o António Brito Guterres, na antiga Curraleira. O António estará, aliás, connosco nesta viagem a mais um bocado da cidade invisível. Mas o guia principal não será, desta vez, ele. Será Cláudio Gonçalves, que também usa o nome de Tibunga. Nasceu no Bairro da Cova da Moura, cresceu fora daqui e faz parte da Associação de Moradores do Zambujal. Tem 29 anos, é modelo internacional e as oportunidades que agarrou não resultaram das saídas que o bairro tinha para lhe oferecer. Nas duas próximas horas, estaremos no bairro. Não para filmar tumultos, mas para ouvir os cidadãos que aqui vivem. Bem-vindos ao Zambujal, de que só voltarão a ouvir falar nas televisões quando acontecer outra tragédia.

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Cláudio Gonçalves Tibunga: De regresso à cidade invisívelno Bairro do Zambujal No dia do funeral de Odair Monizuma jornalista de uma televisão fez um diretodo bairro do Zambujaldizendo que a paz quotidiana tinha regressado. No entantopara que os telespetadores reconhecessem de onde falavaescolheucomo cenáriouma paragem de autocarro destruída. Se as palavras eram sobre um bairro que levava um dos seus a enterrara imagem era sobre os tumultos. Foi assim durante 15 dias: nósos da cidade da leia olhar assustadosirados ou compreensivospara elesos da cidade invisívelpara roubar uma expressão de um programa de rádio de António Brito Guterres. A polémica que veio depoiscom um autarca socialista a defender regras inconstitucionais para os bairros sociaisresume ainda melhor o sentimento: a maioria da população acredita que a lei não serve para a vida destas pessoas. Que elas não as cumpremque o Estado não tem de as cumprir. Que têm de ser mantidos na ordemnada mais. Alguns discursos mais cuidadosos ou até bem-intencionados preferiram distinguirno Bairro do Zambujal e em todos onde houve tumultos resultantes de mais uma morte às mãos da políciauma minoria criminosa de uma maioria ordeira e trabalhadora. A realidade é capaz de ser mais complicada quando se cresce com falta de quase tudo. Não que a escola e a casa não existam. Falta o que permite romper com o ciclo de exclusão que este território determina. A exclusão ficou evidente no próprio debatefeito sobre o bairromas exclusivamente fora do bairro. Apesar de haver associação de moradores e outras organizações de autorrepresentaçãoas pessoas que vivem nestes bairros são excluídas do debate público. Elas são o problemanão agentes das suas vidas. Nas palavras de Venturaa “bandidagem”nas dos seus opositoresas “vítimas”. Mas nunca sujeitos da sua própria vontade. Não serve isto para desmerecer quem falaporque deve falarda exclusão dos outros. Apenas para sublinhar como a invisibilidade faz parte das regras do jogo. Os moradores dos bairros sociais são vistos ou como um problema de segurançaou como um problema socialnunca como um problema democráticona medida em que têm sido excluídos do direito à cidade e à palavra. Com os meios que tenhotentarei fazer o que acho faltar: dar alguma palavra ao Bairro do Zambujal. O modelo será semelhante ao que usei com o António Brito Guterresna antiga Curraleira. O António estaráaliásconnosco nesta viagem a mais um bocado da cidade invisível. Mas o guia principal não serádesta vezele. Será Cláudio Gonçalvesque também usa o nome de Tibunga. Nasceu no Bairro da Cova da Mouracresceu fora daqui e faz parte da Associação de Moradores do Zambujal. Tem 29 anosé modelo internacional e as oportunidades que agarrou não resultaram das saídas que o bairro tinha para lhe oferecer. Nas duas próximas horasestaremos no bairro. Não para filmar tumultosmas para ouvir os cidadãos que aqui vivem. Bem-vindos ao Zambujalde que só voltarão a ouvir falar nas televisões quando acontecer outra tragédia. 1 – ESQUADRA Com TibungaAM29modelo profissionalnasceu Cova da Mouravive no Bairro do Zambujal Temas: - História de Tibunga - 2015 – Alfragide – memória - Relação com a PSP – polícia de proximidade - Dizem que a presença do Estado não é só policia – casas 2 – ACADEMIA DO JOHNSON Com alguem da Johnson Temas: - O que é a academia - Crescer no bairro - Episódio do policias no futsal (se der) 3 – CAFÉ ONDE HOUVE MANIF Com Jailiza e Edgar Temas: Jailiza - Manifestação ninguém ligou na comunicação social Edgar – Autocarro/tumultos – quem participou/traumas - Visitas políticos (ninguém viu MRS/PNS) Jailiza – O q veio depois: suspensão autocarros/episódio com ela - Conversa sobre Odair/Memórias da esquadra de Alfragide 4 - CAFÉ ODAIR Com Catarina (?) e Fábio Temas: Fábio - Unidade do bairro – o que tinha Odair/rivalidade étinica Catarina - A história de Odair/Estratégia de não falar 5 - ASSOCIAÇÃO DE MORADORES Edgar e Tibunga Temas: - Autorganização – mudou nos bairros