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Daniel Pinéu: o que mudou com o ataque ao Irão?

Daniel Pinéu: o que mudou com o ataque ao Irão?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

June 24, 20251h 20m

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Show Notes

Na manhã de 24 de junho, num contexto marcado por instabilidade crescente e um frágil cessar-fogo, recebemos Daniel Pinéu para analisar os impactos geopolíticos do ataque israelita ao Irão. Especialista em relações internacionais, Pinéu é professor e investigador na Universidade de Amesterdão, com um percurso académico que passa pelos EUA, Alemanha e Paquistão, onde aprofundou o conhecimento da complexa dinâmica do Médio Oriente. O episódio centra-se na recente ofensiva militar de Israel contra o Irão, desencadeada sob o argumento da iminente ameaça nuclear. Netanyahu, com o apoio tácito dos EUA, parece ter avançado com um plano mais vasto: desestabilizar os vizinhos, consolidar o poder regional e eliminar qualquer possibilidade de um Estado palestiniano. Discutimos também a erosão da ordem internacional, o papel ambíguo da ONU e o silêncio cúmplice das grandes potências perante alegações de genocídio em Gaza. O episódio aborda o papel de Trump, a possível retirada do Irão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, e o impacto desta escalada no equilíbrio geoestratégico global, com destaque para o posicionamento cauteloso da China e da Rússia. Num mundo onde a guerra parece uma constante, Daniel Pinéu ajuda-nos a perceber se ainda há espaço para soluções diplomáticas ou se estamos perante uma mudança irreversível na arquitetura internacional. Este é um episódio urgente, gravado num dos momentos mais voláteis da política mundial recente.

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Daniel Pinéu: O que mudou com o ataque ao Irão? Depois dos ataques do Hamasa 7 de outubro de 2023Netanyahu levou a cabo o que várias organizações internacionais consideram ser um genocídio e que ninguém nega corresponder a crimes de guerra e contra a humanidade. Para alem da terraplanagem e cerco de fome a Gazaque causaram mais de cinquenta mil mortessobretudo mulheres e criançasIsrael invadiuneste ano e meiopartes do Líbano e da Síria e intensificou a ocupação e expulsão de palestinianos na Cisjordânia. A guerra não foi apenas contra o Hamasfoi um pretexto para um velho projeto politico-militar da linha dura israelita. A partir do 7 de outubroBenjamin Netanyahu e os seus aliados de extrema-direita levaram a cabo um processo de reorganização do mapa do Médio Orientenuma guerra em várias frentes com vista à consolidação do poder de Israelalimentando o caos interno nos países vizinhos e destruindo os aliados do seu maior inimigoo Irão. A cada nova frenteo primeiro-ministro israelita adiou o cerco internopolítico e judicial. E enterrou qualquer solução de dois Estadosem que nunca acreditou. Netanyahu poderá ficar na história como um criminosoperseguido pelo Tribunal Penal Internacional. Mas também poderá ser visto como o homem que destruiude uma vez por todaso direito a uma nação palestinianafirmando sobre milhares de cadáveres a segurança de Israel. Aproveitando a fragilidade do regime iranianoNetanyahu voltou a usar o pretexto de construção de armas nucleares iranianasque há décadas diz estar iminentepara atacar o Irãoevitando o retomar do acordo entre Washington e Teerãoque permitia a supervisão internacional dos seus projetos nucleares e que tinha sido abando por Trump em 2018. Com este ataqueconseguiu puxar os Estados Unidos para a guerra e sonhou com uma mudança de regime. Conhecemos os resultados de tentativas semelhantesno Iraquena Líbia e no Afeganistão. No momento em que gravamosna manhã de 24 de junhoo futuro da guerra ainda é incertocom um cessar fogo que durou poucas horas. Para falar deste momento sensíveltenho comigo Daniel Pinéu. É especialista em relações internacionaisprofessor e investigador na Universidade de Amesterdãocom passagens por universidades da Alemanha aos Estados Unidosmas também pelo Paquistão onde ficou a conhecer bem a realidade de toda aquela região A última vez que aqui estive com o Daniel foi no início da guerra da Ucrânia. Não sei se algum de nós esperava quepassados mais de três anosela ainda perdurassesem fim à vista. A segunda vez que o convido é no início de uma guerra que parece estar prestes a nem sequer começar. Esperemos que não seja um mau prenúncio. 1 – Não te vou perguntar sobre o cessar fogo que pode ter sido definitivamente enterrado ou estar definitivamente em vigor ao longo da nossa entrevista. A pergunta é: Israel conseguiu o seu objetivo ou percebeu que ele era demasiado ambicioso e não tinha o apoio necessário para ele? - Há dados que permitam dizer que o Irão estavade factona iminência de ter armamento nuclear? - Trump anunciou que os B52 destruíram a capacidade nuclear iraniana. Umas horas depois passou a estar debilitada. Ontemfontes da administração já admitiam não saber do paradeiro do urânio enriquecido. Que efeito é que estes ataques podem ter tidoverdadeiramenteno programa iraniano? 2 - Netanyahu justificou os ataques contra o Irãodizendo que o país estava a semanas ou meses de ter capacidade nuclear. Mas disse exatamente o mesmo em 2012 e 2015nas Nações Unidase numa conferência em 2018. O que é que levou a atacar agora? - Bombardeou a sede da rádio públicaa universidade e o principal hospital de Teerão. Não é a assunção que este conflito tem muito mais a ver com a destruição da única força que pode conter a sua força regional e o assumir-se como a verdadeira força hegemónica na região? 15’ - Em pouco mais de ano e meioNetanyahu terraplanou Gazaexpandiu os colonatos e aumentou as perseguições na Cisjordâniaentrou no Líbano e fez ocupações na Síria e agora atacou o Irão. Faz tudo parte da mesma guerra? Viu o 7 de outubroprimeiroe a chegada de Trump ao poderdepoiscomo a oportunidade? 3 - Ainda há alguma possibilidade de reativar um programa de supervisãocomo o que foi abandonado por Trumpem 2018? Sobraram algumas pontes para issodepois dos Estados Unidos atacarem a meio de uma negociação? - Uma das hipóteses em cima da mesaé a de o Irão abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Ao rejeitar o acordo assinado por Obamae agora com esta intevenção militaros Estados Unidos não arriscam acelerar a aposta do Irão no seu programa nuclear militar? - Que impacto pode ter o Irão abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear no equilíbrio de forças na região e para o controlo nuclear internacional? É provável que a grande lição que se tira deste ataque é que mais vale ter a bomba? 5 - O encerramento do estreito de Ormuzque concentra 20% do transporte de petróleo mundialteria sido demasiado arriscadopodendo isolar ainda mais o paísperdendo o apoio da Chinacuja economia depende do petróleo da região? 30’ - A China representa hoje cerca de 6% da economia iraniana e é o principal destino do seu petróleo. A Rússia tornou-se um parceiro militar estratégicosobretudo após o reforço da cooperação na guerra da Ucrânia. Até agoratanto Pequim como Moscovo mantiveram alguma distância pública relativamente a este conflito. Não é estranha esta passividade quando estão em causa os seus interesses económicos e geoestratégicos diretos? 6 - Quem é que conduz a política dos Estados Unidos no Médio Orienteneste momentoTrump ou Netanyahu? - Donald Trump chegou à Casa Branca com a promessa de pôr fim ao intervencionismo americano. Todas as sondagens indicam que essa plataforma foi uma das que lhe deu apoio popularprincipalmente entre os mais jovens. Assistismos às primeiras divisõesdepois de Muskno seio de um grupo que até aqui parecia totalmente alinhado? Essas divisões terão sido relevantes para que Trump tenha querido travar a fundo? 7 – À luz do direito internacionalcomo se enquadram os ataques de Israel e dos Estados Unidos? Podem ser considerados legítima defesa preventivapara o qual teria de existir uma prova de uma agressão iminenteou estamos perante uma violação da soberania de um Estado? - A ausência de uma resposta clara do Conselho de Segurança das Nações Unidas pode ter criado espaço para este tipo de unilateralismo armado? Estamos a assistir à erosão final de uma ordem internacional baseada em regras? 45’ - A utilização das Lajes fez de Portugal participante nesta guerracomo o embaixador do Irão dizou é esticar demasiado a corda? 8 – Um ataque externosobretudo de um inimigo históricotende a unir a população em torno do regime. Mas o Irão vive há anos protestos e sinais de cansaço interno. Que efeitos é que esta sensação de cerco internacional poderá ter para o futuro do regime? - Israel e EUA falaram em mudança de regime no Irão. Era ou é uma hipótese real ou uma retórica repetida que ignora o fracasso de todas as experiências anteriores no Iraquena Líbia ou na Síria? - Subitamenteaparece o descendente do Xá Reza Pahlavi. Qual é a real credibilidade deste candidato a sucessor? 9 – A ONU fala em genocídioa Amnistia Internacional fala em genocídiomas o mundo inteiro assiste em silêncio à manutenção de dois milhões de pessoas num minúsculo espaçode 18% de Gaza. Dois milhões que vivem nos escombros do que restasem alimentaçãoágua ou energia. Gaza é um gigantesco campo de concentração e Israelao contrário da Rússianão sofreu qualquer retaliação internacional. Israel ataca o Irão porque sente que a cordapara sinunca quebra? 1.00’ - Quando Israel atacou Gaza estava à beira de assinar acordos de reconhecimento e cooperação com quase todas as principais monarquias árabes. De que forma é que a ocupação de Gaza condicionou essa aproximação? - Qual é lugar do novo poder sírioaqui? 10 - Ainda há alguma esperançamesmo que ténuede uma solução de dois estados viáveis (a parte que quase todos omitem)como é a que ainda hoje consta nas resoluções da ONU e dos acordos de Oslo? - A expansão dos colonatoso crescimento da direita nacionalista e ultrareligiosa tem mudado a política israelitahoje muito mais hostil a uma solução negociada e pacífica para a questão palestiniana. É um movimento imparável ou podemos assistir ao cansaço desta guerra permanente? 1.15’