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Bruno Maçães: que nova ordem mundial é anunciada por Trump?

Bruno Maçães: que nova ordem mundial é anunciada por Trump?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

April 22, 20251h 6m

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Show Notes

Em apenas oitenta dias, os pilares da globalização liberal começaram a ruir, minados por quem mais beneficiou dela: os próprios Estados Unidos. Mas será o trumpismo uma ideologia estruturada para refazer o mundo, ou apenas um sintoma de declínio imperial? A Europa vê-se paralisada entre dois polos: a antiga aliança com os EUA — agora hostis — e a ascensão de uma China confiante, que se posiciona como o centro de uma nova ordem global. Num cenário multipolar, o velho continente corre o risco de se tornar irrelevante. A Nova Rota da Seda simboliza esta transição, com a China a assumir o papel de maior investidor global, especialmente no Sul Global. Estaremos perante um novo imperialismo ou uma nova visão da globalização? Bruno Maçães, político e académico, mergulha nas consequências do trumpismo, no papel transformador da China e no colapso da ideia de “Ocidente”. Através da sua experiência internacional e pensamento estratégico, oferece pistas sobre um mundo em mutação — onde a estabilidade do passado já não é garantida.

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Bruno Maçães: Que nova ordem mundial é anunciada por Trump? Os alicerces da ordem mundial das últimas décadas foram abanados em apenas oitenta dias. E está a ser destruídos por quem mais lucrou com a globalização comercial em que assentavam. Mas será que o trumpismo é um projeto coerente de substituição da arquitetura globalou apenas o reflexo de uma potência em declínio a reagir à emergência de um mundo que sente que já não controla? Enquanto a Europa parece suspensa entre dois mundosnuma fidelidade histórica a uns Estados Unidos que a abominam e uma desconfiança persistente em relação à Chinao colosso asiático deixou de ser apenas uma potência ascendente para se ver a si mesmo como o centro de outra ordem mundial. Num mundo multipolara hesitação europeia pode prender o velho continente à sua própria irrelevância. E se o novo centro de gravidade do mundo já não for o Atlântico? A Nova Rota da Seda construiu uma nova teia de relações económicas e diplomáticas. É a China — e não os Estados Unidos — que ocupa hoje o papel de grande investidor em Áfricana Ásia e na América Latina. Será que isto representa uma nova forma de imperialismo ou um modelo diferente de globalização? Do trumpismo ao papel da China numa nova ordem mundialda guerra na Ucrânia ao colapso da ideia de Ocidenteda atração do conservadorismo político pelo discurso populista radicaleste episódio de “Perguntar Não Ofende” é com alguém que tem vindo a escrever sobre as tendências que moldam o mundo. Doutorado em Ciência Política em Harvardsecretário de Estado dos Assuntos Europeus do governo de Pedro Passos Coelhoautor de livros como “Corredor e RotaUma Ordem Mundial Chinesa” e “Construtores de Mundos”Bruno Maçães é presentemente Conselheiro Sénior da Flint Globalem Londresonde aconselha companhias sobre política internacionale Senior Fellow da Universidade de Renmin (REMI)em Beijinge no Hudson Instituteem Washington. 1 - A ordem mundial que vivemos nestes últimos 80 anos parece estar a ser desfeitaem tempo realpor Donald Trump. Estamos perante um projeto consciente de substituição dessa ordem por outraou perante uma reação desesperada a um mundo onde os Estados Unidos sentem já não ter a hegemonia? A destruição é estratégica ou reativa? - Tens escrito que Trump não compreende a dinâmica do dólar como reserva globale que é esse gigantesco influxo de capitais que explica o crescente défice comercial dos Estados Unidos. É só isso que Trump desvaloriza ao exagerar a decadência americanapor ter uma visão analógica da economia? 2 - É o medo da ascensão da China que move Trump? Quer argir enquanto ainda está numa posição vantajosa? - Perante a atitude hostil de Trump em relação à Europadevíamos repensar a relação com a Chinaque pode funcionar como um contrapeso à unilateralidade americana? Ou isso poderiano longo prazotornar a Europa num ator ainda mais irrelevante num mundo com duas superpotências? 3 - O isolacionismo dos EUAque acelerou de forma decisiva e brutalmas não começou com Trumpdeixa um vazio que será ocupado. Pela China. Que movimentações é que podemos esperardo lado chinêsà desistência dos EUA do “soft power” que ainda exerciam? 15’ - A Belt Road Iniciativemais conhecida entre nós como a Nova Rota da Sedaé muito mais do que um projeto de desenvolvimento económico. É uma tentativa de criar uma nova ordem mundialque recusa o predomínio americano e os valores liberais. Trump é o ator queinvoluntariamenteacende o rastilho desse novo mundonem liberalnem atlântico? - A resposta taco a taco da China às tarifas americanas parece ter apanhado de supresa Trump e os mercados mundiais. Olhando para os dados do comércio mundialvemos que os países emergentes da Nova Rota da Seda já ultrapassam 50% do total das exportações e importações chinesas. Numa décadaos Estados Unidos caíram de 173% para 148% das exportações chinesasao nível da União Europeiaenquanto economias emergentes valem quase 45%. Ao abrir uma guerra comercial com o mundo inteiroTrump não abriu uma nova oportunidade de crescimento à Chinacom uma nova difersificação de parceiros comerciais? - O poder militar chinês continua a ser visto como a sua fraqueza. Até aqui o esforço chinês foi mais na contrução de uma rede de influência políticabaseada nas infraestuturas e dependência económica. Será assim por muito tempo? Podemosbrevementeter supresas em Taiwan? 4 – Tendemosmais até por razões históricas e culturaisa ver o mundo como uma mundo europeu e americano. Mas a guerra da Ucrâniae reações como a de Lulaque em Portugal passaram por minoritárias e inaceitáveismostram como os países emergentes estão distantes nossas preocupações. Quando a maioria do mundo já não reconhece essa ordem mundialnão estão já a ser construídas as bases para uma nova? 5 - O fascínio e a aproximação à Rússia não parecem fazer qualquer sentido estratégico. Ele explica-secomo desprezo pela Europapela partilha de num sentimento antiliberal? É isso que passou no discurso de Vance em Munique... 30’ - Trump parece estar prestes a abandonar a Ucrânia à sua sorte. Mas nem assim a Europa parece ter acelerado a sua produção militar para ajudar a Ucrânia. Esta paralisia europeia resulta de incapacidade de decisão ou de negação em relação à mudança do lugar dos Estados Unidos? 6 - A ideia de que as grandes potências deixaram de disputar território para disputarem o código do mundo — a infraestrutura digitalos algoritmosos padrões tecnológicos — é uma das teses centrais do teu trabalho recente“Os construtores de Mundos”. Estamos a assistir a uma substituição da geopolítica clássica por uma luta pela definição da própria realidade? - No século XXas grandes batalhas foram travadas entre modelos ideológicos. Hojeparece que a luta é entre arquiteturas tecnológicas. A tecnologia substituiu a ideologia como modo de governação? - Dizes que a construção de mundos virtuais — do metaverso à Inteligência Artificial generativa — não é apenas um novo domínio económico. É uma forma de poder ontológico. Quem constrói o mundoescreve as regras e define-as a seu favor. Mas não foi sempre assim? O colonialismo e o imperialismo europeu exportaram códigos de valores que ainda hoje subsistem. Não foi também sempre isso a hegemoniacomo a entendida Gramsci? - O que estes novos mundos permitem são formas de controlo social sem precedentes. Tenderemos para sociedades mais controladas e autoritárias? Mais chinesa e menos norte-americanas e eueoprias? 45’ 7 – Dizes que a Europa está mais preparada para esta fase da virtualização da política por ter sistemas mais parlamentares. Masquando olhamos para a Hungriaficamos com dúvidas. Na verdadeo que parece segurar os nossos sistemas é aceitação de cada poder. Quando quem tem poder não aceitasobre o quê? 8 - O conservadorismo clássico valorizava a ordemo equilíbrioa contenção. Hojeé no espaço que sempre foi ocupado por essa corrente que vemos mais paixão pela ruturapelo conflitopela disrupção. Como é que uma filosofia da prudência se transformou numa política da disrupção? - O Partido Republicano deixou de ser um partido institucional e tornou-se uma plataforma revolucionáriaonde prevalece o culto da personalidadedesprezo pelas regras constitucionais e até o apelo à violência. Como foi possível essa inversão total num espaço de tempo tão curtoe porque é que foi tão eficaz e profunda? 9 - Um dos novos inimigos do trumpismo são as universidadesvistas como um espaço das elites onde os valores conservadores não são respeitados e difundidos. Conheces bem Harvardonde fizeste o teu doutoramento. De que forma é que as Universidades podem resistir à tentativa de controlo autoritário sobre a produção de conhecimento? - A tentativa de controlo dos centros de sabercomo as Universidadesfaz parte do guião de qualquer autocrata. Hitler fez exatamente o mesmolevando à fuga de cérebros do que era então o centro do conhecimento mundial. Há aqui espaço para a uma reacção europeia? 1.00’ - Este ataque às universidades não pode corresponder ao principio do fim do domínio cientificocultural e intelectual norte-americanoque ainda é evidente hoje? Não é um suicídio? 10 - Uma das principais razões para o ataque a Harvard é a criminalizaçãoem vários países (incluindo europeus)das crítica a um paísIsrael. O sentimento de culpa chega para explicar o risco que as sociedades ocidentais estão a corrersacrificando a liberdade de expressão interna em nome de um regime nacionalista e expansionista? - Ainda há hipótese para uma política de Dois Estadosque na verdade é a política ainda teoricamente assumida pelos Estados Unidos e a Europaou já não há retorno e os palestinianos foram definitivamente deixados à sua sorte? - O nacionalismo radical que tomou conta da política israelitae que se sente emboído do mesmo espirítico civilizador (sempre aliado ao extermínio e à violência) que marcou todo o colonialismomuda o lugar de Israel no campo político internacional? 11 – Tiveste uma curta experiência política em Portugal. Ela levou-tealiása fazer-tena alturacríticas duras e até truculentas. Olhando para trásjá totalmente afastado da políticaque avaliação fazes dessetempo e do papel que tiveste nele? Se a queres fazerclaro. 1.15’