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António Gomes: o que nos dizem as sondagens? E podemos confiar nelas?

António Gomes: o que nos dizem as sondagens? E podemos confiar nelas?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

May 14, 20251h 23m

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Show Notes

Portugal teve três legislativas em quatro anos, duas delas no espaço de apenas doze meses. Num país habituado à estabilidade, vivemos agora em ciclos curtos e marcados por cansaço político e desconfiança nas instituições. A polarização cresce e os eleitores parecem votar mais por reação do que por convicção. Neste cenário, forças como o Chega crescem apesar dos escândalos, e os jovens mostram sinais de radicalização e desconexão com a política tradicional. Ao mesmo tempo, as sondagens multiplicam-se, mas será que nos dizem o que realmente importa? A personalização da política, o voto estratégico, a fidelidade geracional e o desejo de estabilidade são apenas algumas das variáveis difíceis de medir. Diferenças metodológicas e a dificuldade em recolher dados fiáveis tornam a leitura mais complexa. Neste episódio, falamos com António Gomes, diretor-geral da GfK-Metris e especialista com três décadas de experiência em estudos de opinião. Uma conversa para perceber os limites e as potencialidades das sondagens numa democracia fatigada.

Capítulos:

(02:54) Eleições e desconfiança nas instituições
(06:11) Voto estratégico e dinâmicas eleitorais
(09:08) A imagem dos líderes e mobilização eleitoral
(12:06) O impacto dos escândalos na opinião pública
(14:57) Campanhas eleitorais e proximidade com o eleitor
(17:58) A polarização e o voto útil
(21:05) Expectativas e realidade nas eleições
(32:05) Desconforto e identidade política
(34:57) Expectativas e imagem do líder
(38:21) Imigração e economia no voto
(40:47) Avaliação do Governo e expectativas
(42:13) A imigração e o debate político
(46:11) Escândalos e a reação do eleitorado
(51:02) O eleitorado do Chega e a lógica anti-sistema
(54:49) Impacto do Passos Coelho e voto dos mais velhos
(57:27) Diferenças de género no voto jovem
(58:07) A influência das redes sociais nas eleições
(01:01:09) A nova dinâmica do voto feminino
(01:04:01) A fragmentação da esquerda e suas consequências
(01:08:12) A fiabilidade das sondagens e métodos de pesquisa
(01:19:19) O impacto do voto na última hora

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Topics

António Gomes: O que nos dizem as sondagens? E podemos confiar nelas? Três eleições legislativas em quatro anos. Duas em apenas doze meses. Três eleições diferentes este ano. Numa democracia que se habituou à estabilidade governativaPortugal vive um novo ciclo de pequenos cicloscoincidindo com níveis crescentes de desconfiança nas instituições e de fadiga do eleitorado. Os discursos polarizam-se e as sondagens multiplicam-se — mas será que nos dizem aquilo que queremos saber? Ou apenas o que conseguimos medir? Mais do que nuncaos eleitores parecem votar em reação e não por convicçãonum ambiente político onde a má imagem dos líderes e o desgaste das principais forças partidárias fragiliza as leituras tradicionais. Estamos a viver uma personalização extrema da políticasem que haja uma identificação com quem se apresenta ao voto. Como interpretarneste contextoo crescimento de forças como o Chegamesmo depois de tantos escândalos? Será a radicalização do eleitorado jovem uma consequência da sua desconexão com o sistema político? E o que nos dizem os dados sobre o voto estratégicoa fidelidade geracional e o desejo de estabilidade? As diferenças metodológicas entre sondagenso impacto da redução da abstençãoa crescente dificuldade em obter respostas representativas — tudo isto levanta questões sobre a confiança que podemos (ou não) depositar nas sondagens e estudos de opinião. Neste episódio do Perguntar Não Ofendetentaremos compreender os limites e potencialidades das sondagens em tempos de cansaço eleitoral. Para issona próxima hora estarei à conversa com António Gomesque tem três décadas de experiência. É director-geral do GfK-Metris e director da Associação Portuguesa de Empresas de Estudo de Mercado e de Opinião. Uma hora e meia para tentar distinguir o que interessa do ruídonum país onde as eleições se repetemmas as respostas parecem cada vez mais incertas. 1 - Uma coisa são os dados das sondagensoutra as manchetes e ângulo seguido pelos órgãos de comunicação social. Se fosse editor de políticaque conselho daria ao jornalista que vai fazer a transposição dos dados das sondagens para uma peça noticiosa? 2 – Já voltamos às questões ténicas das sondagens. Um estudo do ICS indica queo ano passado21% dos eleitores só decidiu o seu sentido de voto na última semana. Um dado unânime em todos os estudos deste ano é o desejo de estabilidade e rejeição de novas eleições. Pode-se repetir o fenómeno que deu maioria absoluta a António Costa em 2022ou a má imagem de Montenegro torna isso muito improvável? - Durante anoso PS lutou pelo voto útil à esquerda. Masao contrário da ADnão é fácil acreditar que terá parceiros para uma maioria. Nesta lógica de desejo de estabilidadeisso pode prejudicá-lo? - E a ADtem onde ir buscar voto útil? A IL ainda pode sofrernestes diascom essa pressão? O Chega é insensível a ela? 3 - PSD e PS nunca tiveram líderes com tão má imagem. Que impacto é que isso pode ter na mobilização eleitoral destes dois partidos? 15’ -Conheces vários estudos qualitativosos famosos focus group. De onde vem a má imagem de um e de outro? - No entantonunca tínhamos assistido a uma campanha tão pessoalizada. Dos hinos das duas principais campanhasaos números para as televisõescomo o volley e banho na praia ou o andar de mota. Será para corrigir a má imagem? - A imagem dos dois líderes é máper siou é um reflexo do crescente do descrédito do sistema partidário. A figura de Gouveia e Meloalguém sem qualquer experiência políticatambém não é um sinal dessa tendência (internacional até)? 4 - A campanha tem-se focado pouco do caso que nos trouxe até ao segundo ato eleitoral no espaço de um anoa Spinumviva. Se a AD ganhar novamenteconcluímos que os portugueses falam muito de éticatransparênciacorrupçãomas são temas que não se refletem no sentido de voto? - Mesmo depois de um período de forte inflaçãoestudos pós-eleitorais nos Estados Unidos indicam que os eleitores valorizam cada vez os temas culturais do que os económicos. São as famosas “percepções”mesmo sobre economiaque também tomaram conta do debate público em Portugal sobre a imigração ou a insegurança. Já estaremos nesse patamarou ainda é a economia que determina a manutenção ou não de um governo? 30’ – Montenegro concentrou ao seu discurso nos dados governação. Mas a avaliação que os portugueses fazem do governonão sendo péssimanão é famosa. Mesmo na economia metade diz que piorou e só 16% que melhorou. Há um engano nos estrategas ou está-me a escapar alguma coisa? - Que efeito real tem o fenómeno da imigração no voto? 6 - O Chega parece beneficiar da degradação da imagem dos principais partidosmesmo tendo um número infindável de escândalos e casos de justiça entre os seus dirigentes e deputados. A lógica de exigência e escrutínios aplica-se de forma distinta entre partidos tradicionais e os que defendem destruição do sistema? - Um dos indicadores que mais me surpreendeu nas sondagensmas que bate certo com algumas que me têm referidoaté nas autarquiasé ver os potenciais eleitores do Chega terem mais certos de ir votar que entre os do PS ou PSD. Ainda mais sendo um partido com voto mais jovem. No entantoo seu crescimento coincidiu com a queda da abstenção. São dados contraditórios... - Vicente Valentimum cientista político radicado em Oxfordque esteve no Perguntar Não Ofende para falar do seu livro “O fim da vergonha”. Aliescreveu que as bases para o sucesso eleitoral da extrema-direita sempre estiveram entre nósfaltava era um agente político que acabasse com a vergonha social de as expressar. Os estudos que conheces sobre o nosso quadro de valores indicam isso? 45’ 7 - O Partido Socialista parece continuar a merecer a escolha dos pensionistas. O trauma Passos Coelho continua a marcar a nossa vida política e o comportamento do segmento mais relevante em termos eleitorais? - Entre os jovens portuguesesos homens votam cinco vezes mais na extrema-direita do que as mulheres. São os incelsque têm dado tanta conversa internacional. Temos estudos sobre que tipo de valores é que determinam essa radicalização e diferença entre géneros? - Confirma-setambém em Portugaluma enorme diferença de voto entre homensmais à direitae mulheresmais à esquerda? Sobretudo entre os mais jovens? 8 - As sondagens têm sido pouco sólidas na ordem em que ficarão BlocoLivre e CDU. Há dados consistentes sobre tendências? - Os partidos mais à esquerda não podem perder representaçãocom a sua crescente fragmentação nos últimos anose ter cada vez mais dificuldade em eleger fora dos maiores círculoscomo LisboaPorto e Setúbal? 1.00’ 9 - A Iniciativa Liberal diz que se perderam 700 mil votos na última eleição sem qualquer representação e por isso propõe um circulo de compensação. Mas nos sistemas uninominais são milhões de votos que ficam sem representaçãona Alemanha são necessários 5% para entrar no Parlamento e a União Nacionalem Françaandou anos a fio com 20% e sem qualquer deputado. O nosso Parlamento é ou não uma representação bastante aproximada dos sentimentos e alinhamentos sociais e políticos que notamos nos estudos de opinião sobre vários temas? 10 – Há alguns estudosou até dados comparativosque nos possam indicar que podemos vir a ter um efeito de arrasto do partido vencedor nestas eleições para as próximas autárquicasque serão já depois do verão? - E quanto às presidenciais? 11 - Uma das conversas mais recorrentes sobre as sondagens é em torno da dimensão da amostradesvalorizando as mais pequenasassim como as que são feitas por telefone em vez de voto em urna. Há métodos mais fiáveis do que outros? E há razões para confiar mais nuns do que noutros? - O número de entrevistas necessárias para ter respostas válidas é cada vez maiorhavendo cada vez mais pessoas a não respondersobretudo com maior nível de escolarização. Este desvio não torna mais difícil o trabalho de quem faz as sondagens? 1.15’ - As tracking polls não são sondagensao contrário do que a imprensa vendemas um instrumento de trabalho para direções de campanhaque permitem testar diferentes ângulos e ver tendências. Ao ser vendidas ao grande públicona imprensapelo que não sãonão se estão a desvalorizar as sondagensajudando ao seu descrédito? 12 - Duas das três principais sondagensna sexta-feira antes das últimas eleições legislativasdavam a vitória da AD por 6 pontos de distância. A diferençacomo sabemosfoi de décimas. Que razões temos para acreditar que desta vez será diferentee que teremos indicações mais precisasse é que podemos esperar isso de uma sondagem?