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5 desafios ao noticiar uma campanha eleitoral na televisão? Nuno Santos
Episode 205

5 desafios ao noticiar uma campanha eleitoral na televisão? Nuno Santos

Pergunta Simples · Jorge Correia

April 9, 202559m 43s

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Show Notes

Até 18 de maio, e nas semanas seguintes, até tudo estabilizar, veremos a dança de vários tipos de comunicação: a política, a do ‘marketing’ e a institucional. Todas a rodar no palco mediático. Media que ora fazem o papel de observadores, ora de criadores de agendas públicas. É neste contexto que convido Nuno Santos, jornalista e diretor do canal de notícias mais visto da televisão por cabo, a CNN Portugal. Nuno Santos passou pela RTP, pela rádio pública, onde coincidimos, pela SIC e pela TVI. Ora no lado das notícias, ora no lado do entretenimento. Na dupla função de diretor de informação da TVI e do canal CNN Portugal, montar a gigantesca operação de cobertura eleitoral. Antes, durante e depois. Como noticiar uma campanha eleitoral na televisão? Nuno Santos Como noticiar uma campanha eleitoral na televisão? Nuno Santos Os “5 desafios” discutidos na entrevista: Planeamento editorial antes da campanha Gestão de debates e critérios de imparcialidade Mudança dos hábitos de consumo informativo Pressões externas e internas sobre o jornalismo Concorrência entre redes sociais e media tradicionais Esta edição contém boas pistas de como se organizam os debates entre os candidatos ao lugar de Primeiro-ministro. Como se escolhem os temas, como se negoceiam as regras comuns. Quais os interesses dos jornalistas mas também dos candidatos.  Os debates já começaram, as equipas de reportagem estão na rua e as caravanas políticas também. As mensagens já enchem as redes sociais. Estão aí as eleições.  Mais uma vez, o país vai escolher um governo e, como sempre, a imprensa é chamada a cumprir o seu papel de relatar, explicar, analisar.  Nada de novo, certo? Talvez não seja bem assim.  Porque se há coisa que muda mais depressa do que as vontades do eleitorado, é a maneira como recebemos e consumimos informação. E é aqui que as coisas se complicam. Porque a verdade, aquela verdade sólida, bem fundamentada e confirmada, tem hoje uma concorrência feroz.  As redes sociais tomaram de assalto o espaço público.  Opiniões, factos mal digeridos, "soundbites", teorias da conspiração… está tudo ali, à distância de um gesto de dedos.  O jornalista deixou de competir com o seu camarada da estação concorrente  e passou a competir com o mundo inteiro.  Gente que publica o que quer, quando quer, como quer.  Sem editores, sem filtros, sem regras. Tantas vezes sem ética. Muitas outras de forma mal intencionada. E depois há outra coisa: o público que mais cresce nas redes, e que já olha com desconfiança para o jornalismo tradicional, é publico o mais jovem.  Aqueles que preferem ouvir uma notícia no TikTok, em 20 segundos, do que assistir a um telejornal completo.  São milhões que consomem informação em pedaços soltos, descontextualizada, sem critérios claros. O ‘sexy’, panfletário ou incendiário é escolha do algoritmo para servir constantemente. E o que fazem os jornalistas perante isto?  Tentam adaptar-se.  Tentam perceber como se faz jornalismo relevante e apelativo num mundo que está sempre a correr para a próxima coisa.  E é aqui que entram projetos como a CNN Portugal. Os outros meios onde se faz informação a sério. Confiável, credível, escrutinada. A CNN Portugal nasceu com a promessa de trazer um jornalismo sério, factual, com um selo de qualidade que carrega décadas de história da marca-mãe, dos Estados Unidos.  Mas será que isso é suficiente num país onde a informação já não é recebida, é disputada? Porque hoje não basta fazer bem. É preciso que alguém, do outro lado, queira ver e ouvir. A campanha eleitoral que agora começa vai ser um teste real a este modelo.  Porque cobrir uma eleição em 2025 não é o mesmo que em 2015 ou em 2005. Agora, cada acontecimento é imediatamente esmiuçado, comentado, até distorcido, e partilhado por milhões de pessoas, muitas vezes antes mesmo de chegar aos canais oficiais. E então? Como se trabalha assim?  Como se garante que o jornalismo de qualidade sobrevive e se faz ouvir num mundo onde a gritaria é mais audível do que a conversa sensata? Há outra questão que também se impõe: a da credibilidade.  Porque, se o jornalismo perdeu a sua aura de autoridade intocável, isso não aconteceu por acaso.  Os erros existiram e continuam a existir.  Os enviesamentos, intencionais ou não, acontecem. E a verdade é que o público, hoje, está mais atento e mais desconfiado. Falar sobre eleições é falar sobre imparcialidade. E, mais do que nunca, essa imparcialidade tem de ser sentida, não somente proclamada. Porque de nada serve repetir que um canal é independente se depois não se nota esse esforço na prática diária. Neste episódio, vamos explorar tudo isto. Vamos perceber como um canal como a CNN Portugal se prepara para cobrir um evento tão relevante como umas eleições legislativas, num ambiente mediático no qual a verdade não tem só concorrentes… tem inimigos declarados. A CNN Portugal apresenta-se como um projeto ambicioso. Um projeto que quer recuperar a confiança do público ao oferecer jornalismo sério e rigoroso, mas que também quer ser apelativo e relevante para as novas gerações. E é aqui que o desafio se torna fascinante. Fazer televisão e fazer redes sociais. Atingir públicos clássicos e novos públicos. Velhas e novas gerações. Fazer televisão em 2025 é diferente de fazer televisão há 10 ou 20 anos. Os canais de notícias são agora uma espécie de híbrido entre aquilo que sempre foram — bastiões do jornalismo factual, credível e ponderado — e o que precisam de ser para sobreviver — produtos ágeis, ávidos por captar a atenção de públicos que já não se sentam em frente a um ecrã durante uma hora seguida. Mas será que essa agilidade não pode comprometer a qualidade da informação? Será que o jornalismo consegue resistir à tentação de se tornar um espetáculo, somente para competir com o entretenimento frenético das redes sociais? E depois há a questão das Fake News.  Porque, se o jornalismo luta pela atenção do público, as notícias falsas, manipuladas e mal-intencionadas lutam para o enganar. É uma guerra desigual.  Uma mentira bem contada é muitas vezes mais cativante do que uma verdade complexa. E o problema é que essa mentira, quando se espalha, é quase impossível de corrigir. Mas como se combate a desinformação? Com rapidez ou com rigor? Com verificações intermináveis ou com uma presença constante e quase intuitiva nas plataformas digitais? Neste episódio, vamos falar sobre tudo isto. Vamos perceber como se cobre uma eleição em pleno 2025, quando os partidos comunicam diretamente com os eleitores através das redes sociais, quando os jornalistas têm de competir com influencers e canais de opinião que não jogam segundo as mesmas regras. Vamos falar sobre a responsabilidade de quem informa. Sobre as escolhas difíceis que se fazem diariamente numa redação. E vamos tentar perceber se, neste novo ecossistema, ainda é possível fazer o bom e velho jornalismo. O jornalismo que importa. O jornalismo que serve. O jornalismo que, mesmo quando o mundo parece virar-se contra ele, continua a fazer sentido. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO 00:00:00:00 - 00:00:16:00 viva. Nuno Santos Jornalista, sempre jornalista. Posso apresentar te assim, sem. Por exemplo, quando eu chego a um hotel e há os menus, não é? Mas me entregam aquele tipo de papel para por preencher uns quantos dados. 00:00:16:02 - 00:00:39:21 Acho que você quer isso. Passaporte ou o cartão de cidadão da data de nascimento e tal. Profissão? Jornalista. E isso é o que eu coloco. Mas depois tens aí uma de medalhas, não é que é diretor da CNN Portugal, director de informação da TVI? Sim, e de facto, ao longo da minha vida eu nem sempre fui jornalista. Ou melhor, eu entrei e saí do jornalismo algumas vezes. 00:00:39:23 - 00:01:03:15 Como é que te aguentas sem fazer, sem fazer jornalismo? Ouvi dizer que é um vicio e um vício no sentido que eu gosto. Mas nas épocas da minha vida em que eu estive a fazer outras coisas, designadamente em que eu estive do lado do rádio, diz disse do lado da música, na televisão diz se do lado do entretenimento ou da ficção, ou da programação. 00:01:03:17 - 00:01:30:20 Eu também gostei dessas fases da minha vida, porque significa lidar com outros géneros, outros fragmentos, outros momentos da indústria que são igualmente muito estimulantes. São talvez tão ou mais estimulantes que o jornalismo aos jornalistas. Eu tenho alguma dificuldade para explicar isto, mas por exemplo, produzir um grande programa de entretenimento como o The Voice. Eu não o fiz em Portugal, mas fi lo em Angola. 00:01:30:20 - 00:01:58:11 Imagina em Angola. É extraordinário produzir um programa para o qual uma certa elite olha de lado, como o Big Brother, porque aquilo olha de lado para me agradar, olha de lado, mas vê, olha pelo buraco da fechadura, porque é um grande formato de entretenimento. Então o que é que você é? Porque supostamente aquilo que o Big Brother é um projecto de grande sucesso, basta ver as diz Ele sempre está a fazer 25 anos. 00:01:58:13 - 00:02:22:07 É um programa que mexe com as emoções das pessoas. E quando apareceu, era verdadeiramente revolucionário. Hoje é quase comum todos sabermos a vida de todos, digamos assim. Não é aquilo que fulanos o nosso organismo, absolutamente. Isso normalizou se, mas eu recordo, e à época eu trabalhava na SIC e o Big Brother apareceu na TVI, onde eu trabalho hoje. 00:02:22:09 - 00:02:57:23 E eu recordo me que houve na sociedade portuguesa uma enorme campanha contra essa ideia de nós estarmos a ver a vida dos outros em 24 horas sobre 24 horas ainda em directo. E tinham existido uns filmes antes e que pareciam filmes. Não é que não pareciam a realidade. Lembro me de um código QR que, salvo erro em português,