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O discurso “inatacável” de Guterres,  que Israel interpretou como quis e que acaba por sabotar as hipóteses da ONU mediar do conflito

O discurso “inatacável” de Guterres, que Israel interpretou como quis e que acaba por sabotar as hipóteses da ONU mediar do conflito

Miguel Sousa Tavares de Viva Voz · Expresso

October 27, 202318m 15s

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Miguel Sousa Tavares considera que Guterres não foi mal interpretado nas palavras que usou para caracterizar a situação no Médio Oriente, mas deixa a dúvida sobre se terá sido oportuno do ponto de vista diplomático. As consequências de uma declaração que considera "inatacável", foram o afastamento entre a ONU e Israel, questão que desvaloriza por considerar que só os EUA conseguem, de facto, ser mediadores de "alguma contenção".  A guerra no Médio Oriente está em destaque no podcast, que não passa ao lado da decisão do BCE: "um esboço de tréguas, finalmente" e de mais uma condecoração, "no domínio dos caprichos pessoais" do PR.

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Miguel Sousa Tavares considera que Guterres não foi mal interpretado nas palavras que usou para caracterizar a situação no Médio Orientemas deixa a dúvida sobre se terá sido oportuno do ponto de vista diplomático. As consequências de uma declaração que considera "inatacável"foram o afastamento entre a ONU e Israelquestão que desvaloriza por considerar que só os EUA conseguemde factoser mediadores de "alguma contenção".  A guerra no Médio Oriente está em destaque no podcastque não passa ao lado da decisão do BCE: "um esboço de tréguasfinalmente" e de mais uma condecoração"no domínio dos caprichos pessoais" do PR.O discurso “inatacável” de Guterresque Israel interpretou como quis e que acaba por sabotar as hipóteses da ONU mediar do conflitoHeróis de guerraimperador Frederico IIdo Sacro Império Romano-Germânicoque passou quase todo o seu reinado em guerra (chegou a participar pessoalmente numa Cruzada)disse um dianum momento de lúcida reflexão: “Se os meus soldados pensassemnão restaria nenhum nas fileiras.” Esta semanainscrevendo-se no cortejo a Jerusalém dos mesmos dirigentes ocidentais que aqui há tempos desfilavam em Kiev — e pela ordem protocolar estabelecida: primeiro os Estados Unidosdepois a Inglaterra e a seguir os vassalos da União Europeia — Macron lá foi também oferecer a sua solidariedadena defesa dos “valores comuns” que nósocidentaisteremos com a Israel de Benjamin Netanyahu e os seus ministros ortodoxosexecutores mandatados da vontade do profeta Abraão. Mas fez mais o Presidente francês: sem uma palavra sobre o futuro dos palestinianospropôs uma coligação militar do Ocidente — e das democraciaspresumo — contra os terroristas muçulmanos do Hamas: uma nova Cruzadaenfim. Desde que o mundo é mundodesde que é invocável o valor da civilização contra a barbárie ou as guerras santas dos fiéis contra os heregesou qualquer outro invocado justo pretextoque é insaciável a vontade de sangue e morte dos grandes do mundo. A única diferença relevante é que dantes combatia-se nas guerras a pé e a cavalocom espadas e lançase agora combate-se com uma tão sofisticada e tão cara panóplia de armas queà falta de outros motivos mais nobresa guerra é sempre uma imperdível oportunidade de negócios para a mais rentável indústria mundiala do armamento — como o explicou o ex-Presidente Eisenhower e como o vimospor exemplona metódica destruição aérea de Belgrado. ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO Qualquer guerra é necessariamente precedida de uma preparaçãoque começa junto da opinião pública antes mesmo de as forças combatentes estarem prontas para avançar. Há excepçõesclaroem casos flagrantesmas essa é a regra: a propaganda a favor da guerra deve antecedê-la e jamais esmorecercuste o que custar em sacrifício de soldados ou de civis. Vemo-lo há 20 meses na Ucrâniaondepor maiores que sejam os danos causadosali e no mundo em gerale por maior que seja o impasse militar no terrenoqualquer tímida tentativa para falar de paz — e a própria palavra paz — é vista imediatamentee por ambos os ladoscomo uma capitulaçãouma traição inadmissível. Não por acasovemos sempre Zelensky ou Putin a falar aos generais e às vezes aos soldadosa condecorá-losa incentivá-losmas nunca os vemos entre os civis vítimas da guerraao contrário do que fazia Churchill depois de cada bombardeamento da aviação alemã sobre as cidades inglesas. Em Israelas sondagens e os testemunhos dos jornalistas relatam-nos a existência de uma clara maioriamesmo entre as famílias dos reféns em poder do Hamasfavoráveis à ofensiva terrestre sobre Gazaainda que ela tenha como desfecho quase inevitável a morte de todos eles. Seria curioso fazer saber aos reféns o resultado destas sondagens e fazer-lhes a mesma pergunta: “Concorda queem vez de negociar a vossa libertaçãoIsrael invada Gazacom o resultado presumível de morrerem você e todos os outros reféns?” Mas o pacifismomuito embora por vezes tenha triunfado contra todas as esperanças (GandhiMandela)não ésó por siuma solução universal nem uma doutrina sempre aceitável. Há uma diferença entre ser a favor da paz como solução preferencial ou ser pacifista por definição. Na série da Netflix que estou a ver — “The Pacific”de Steven Spielberg e Tom Hanks —um capitão marinevendo um soldado destroçadofísica e emocionalmentepela violência dos combates contra os japonesesdiz-lhe: “A única razão que nos pode fazer continuar é sabermos que esta é uma guerra justa.” Porque há guerras justas e que têm de ser travadascomo a do Pacífico depois do ataque japonês a Pearl Harbourou a primeira guerra do Iraquedepois da invasão do Koweit por Saddam Hussein. E há guerras absolutamente injustas e por razões manipuladascomo a segunda guerra do Iraquelevada a cabo para satisfazer a vaidade de George W. Bush e o desejo de mostrar a importância de alguns serviçaiscomo o Portugal de Durão Barroso. E depois há situações em que é difícil ver claro e o pacifismo vem a ser julgado como uma opção nefasta — mas regra geralsó depois da guerra travada e ganha. Talvez o caso mais notável — epor issotantas vezes citado a propósito ou a despropósito — seja o acordo de Muniqueassinado entre o PM inglês Neville Chamberlain e Adolf Hitler. Recebido triunfalmente em Inglaterra por uma opinião pública ainda traumatizada por uma guerra terminada apenas 20 anos antes e de uma ferocidade inauditaChamberlain seria impiedosamente julgado por Churchill: “Entre a guerra e a desonravocê escolheu a desonra. Mas terá a guerra.” Churchill não dispunha de muito mais informação do que Chamberlain sobre o grau de rearmamento da Alemanha ou a natureza profunda do nazismo. Mas tinha mais instinto político e nenhum medo da guerraao contrário de Chamberlainqueantevendo o seu horrorqueria evitá-la até ao limite. Na verdadeolhando friamente para os factosambos tinham razão: nada deteve Hitler emenos de um ano depois de Muniquea guerrainevitável e justacomeçava; e o que se seguiu foi uma tragédia mundial. As sondagens e os testemunhos dos jornalistas relatam-nos a existência de uma clara maioriaainda que tenha como desfecho quase inevitável a morte de todos eles Transplantando para os dias de hojecom as devidas e muitas diferençaspoderíamos ver em António Guterres o Chamberlain de agora e em todos os que desfilam em Jerusalémmais Netanyahumais Zelensky (estealiásjá consagrado como tal) os Churchills do nosso tempo. Mas a percepção é falsa e parte de premissas falsificadas. Analisando aquilo que António Guterres disse no seu discurso perante o Conselho de Segurança da ONU acerca do conflito em Israelpodemos questionarmo-nos setal como já o havia feito no início do conflito na Ucrâniaa sua emotiva declaração não terá comprometido uma posição de intermediáriodele e da ONUno conflito. Na Ucrâniaainda conseguiudepois de uma reacção negativa da Rússianegociar com ela a saída de civis da Azovstal e o primeiro acordo de exportação de cereais ucranianos através do Mar Negro. Agoraa avaliar pela reacção de Israeltal estará definitivamente fora de questão. O quese diplomaticamente poderá ter sido uma precipitaçãonão significa que não tenha razão no que disse. EssencialmenteGuterres disse três coisas: que o ataque de 7 de Outubro do Hamas foi uma barbaridade que nada pode justificar; mas que esse ataque também não pode justificar a “punição colectiva” de todo um povocomo a que Israel está a levar a cabo em Gaza; e que o 7 de Outubro não apareceu do “vácuo”mas de uma “ocupação sufocante” de 56 anosem que os palestinianos foram expulsos das suas terrasviram as suas casas destruídas e ficaram condenados a viver em guetoscercados de muros e instalações militares. Tudo isto é rigorosamente verdadetudo isto seria intolerável em qualquer lado do mundo e tudo isto é feito à revelia das decisões das Nações Unidas. Nenhum secretário-geral da ONU pode ignorá-lo e deixar de insistir para que aquilo que a ONU decide seja aplicado. Ou então não está lá a fazer nada. Numa televisão perto de mimvi uma denominada “especialista em política internacional” dissertar contra Guterres e classificar a ONU como “pró-palestiniana” porque ao longo da sua história aprovou várias decisões contra Israel. Seguindo o seu raciocínioa ONU não poderia então tomar posição sobre nenhum assuntodiscutindo-o e votando: ou sejateria a importância política e jurídica de uma reunião de Tupperware. Mas a “especialista” parece ignorar que a ONU não é uma entidade dotada de autonomia própria em matéria de decisõesmas sim o resultado da opinião de todos os seus membrosexpressa na Assembleia-Geral onde estão representados todos os países do mundomais de 190e no Conselho de Segurançacom 15 membros5 dos quais permanentescom direito de veto. A Assembleia-Geralsenhora “especia­lista”aprova moçõesque não são vinculativas mas reflectem a vontade da maioria dos seus membros — e já aprovou dezenas condenando Israel; o Conselho de Segurança aprova resoluçõesque são vinculativas para todos os membros da ONU — e já rejeitou dezenas condenando Israel graças ao veto protector dos Estados Unidosmasmesmo assimaprovou algumasnomeadamente a 242 e a 336que são estruturantes juridicamente nos termos do conflito palestiniano e quese tivessem sido cumpridas por Israel ou impostas pelos desfilantes de Jerusalémnão teriam conduzido à situação em que hoje estamos e que desembocou no 7 de Outubro. PortantoSrª “especialista”não é a ONU que é pró-palestinianasão os países que aceitaram os princípios da Carta das Nações Unidasentre os quais Israelos países que aceitam a prevalência do direito internacionalque condenam a ocupação israelita das terras dos palestinianos. 2Poucos portugueses saberão quem é Umaro Sissoco Embaló e não perdem nada em não saber. Trata-se do pouco recomendável Presidente da pouco recomendável Guiné-Bissauesse Estado cuja história independente tanto dignifica a confraria dos PALOP. Masalém de se autodefinirnão como um ditadorcomo correntemente o vêemmas apenas como “um defensor da ordem e da disciplina”o ilustre Umaro Sissoco Embaló deve ter outros atributos de mérito tão elevados que levaram o Presidente Marcelo a atribuir-lhe a mais alta condecoração habitualmente reservada a Chefes de Estado estrangeiros: o Grande Colar da Ordem do Infante D. Henrique. Umaro Embaló passaassima figurar ao lado de figuras como Nelson MandelaFrançois Mitterrand ou Lech Walesaa quem outros Presidentes portugueses haviam atribuído idêntica condecoração. Não sei se o problema estará em Marcelo não conseguir encontrar mais ilustres pescoços prontos a inclinarem-se diante das suas generosas mãos ou na sua continuada incapacidade de conseguir entender que um Presidente não condecora em nome próprio ou das suas escolhas pessoaismas em nome de todos nós e alguém que todos nós respeitemos.