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As opiniões “formadas nas redes” que bipolarizam a guerra, o papel notável da diplomacia dos EUA e o “fim da linha” para Montenegro

As opiniões “formadas nas redes” que bipolarizam a guerra, o papel notável da diplomacia dos EUA e o “fim da linha” para Montenegro

Miguel Sousa Tavares de Viva Voz · Expresso

October 20, 202324m 8s

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Show Notes

A guerra avança no Médio Oriente e acentuam-se as clivagens entre os lados das trincheiras e entre as opiniões públicas. Miguel Sousa Tavares considera que é o resultado da forma deficitária como se formam as opiniões nas redes sociais, "avessas a um pensamento estruturado e informado". Sobre a guerra no terreno, o cronista sublinha o papel "importante" de Joe Biden, por contraste com as deslocações de Sunak e Macron, à procura de serem popularidade caseira. Destaque ainda para o OE e para Montenegro que Sousa Tavares duvida "que alguma vez chegue a PM", a não ser que o adversário se chame Pedro Nuno Santos.

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A guerra avança no Médio Oriente e acentuam-se as clivagens entre os lados das trincheiras e entre as opiniões públicas. Miguel Sousa tavares considera que é o resultado da forma deficitária como se formam as opiniões nas redes sociais"avessas a um pensamento estruturado e informado". Sobre a guerra no terrenoo cronista sublinha o papel "importante" de Joe Bidenpor contraste com as deslocações de Sunak e Macronà procura de serem popularidade caseira. Destaque ainda para o OE e para Montenegro que Sousa Tavares duvida "que alguma vez chegue a PM"a não ser que o adversário se chame Pedro Nuno SantosMas será assim tão complicado tentar ver claro? Condenarde todas as formas e em todas as circunstânciasum terror como o de 7 de Outubro e exigir que o Hamas liberte os reféns que fez. Condenar também Benjamin Netanyahu e o seu Governo de extremistas e fanáticos religiososque vêm destruindo paulatinamente o Estado de direito em Israel e quepara protegerem os colonatos ilegais da Cisjordâniadeixaram o país indefeso contra o Hamas. Aceitar que Israel tem o direito de perseguir e caçarum por umtodos os executantes e mandantes do 7 de Outubrocomo o fez sempre ao longo da sua Históriadepois de Munique ou de Entebbedepois de cada ataque mortífero do terrorismo islâmicoe através do Kidona unidade especial de extermínio do Mossad. Perceber que neste caso são muitos os inimigos a perseguir e isso levará muito tempo. Que a sociedade israelitaem estado de choqueexige uma reacção em forçaa destruição da raiz do mal em Gazaa eterna garantia do “nunca mais” esimultaneamentea libertação de 150 reféns: uma missão quase impossível e absolutamente impossível sem derramamento de sangue inocente. Mas não aceitar também que isso equivalha à destruição sistemática da cidadeà morte indiscriminada de civis debaixo dos bombardeamentos (que já vai em três mildos quais grande parte crianças)não aceitar a desculpa do “escudo humano”que afinal foi Israel que proporcionou. Indignar-se contra a punição colectiva de todo um povo privado de águaalimentosenergiaintimado a debandar das suas terras e casas para aquilo que o Presidente Herzog garantiu ser uma “zona segura”no Sul de Gazamas onde 600 mil fugitivos continuam privados de tudobombardeados na mesma e até impedidos por Israel de receber o auxílio internacional estacionado há dias do outro lado da fronteira egípcia. (Quando oiço o activíssimo embaixador de Israel em Lisboa dizer que “não há um problema humanitário em Gaza”só posso concluir que ele não considera aquela gente como humana.) Nem tão-pouco se pode aceitar a estratégiajá denunciada por Husseinda Jordâniade Israel aproveitar a situação que está a criar em Gaza para “exportar” mais um milhão de refugiados palestinianos para fora do seu territóriodando mais um passo em direcção à solução final: na Palestinaum só povoum só territóriouma só nação — a judaica. Por issofinalmentea comunidade internacional tem a obrigação de exigir a Israel que desvende os seus planos para quando der por terminado o exercício do seu direitoque será de defesa ou de vingançaconforme a dimensão e duração do mesmo. Porque não é aceitável a declaração do Presidente de Israel à CNN Internacional de que não será mais possível falar de paz ou de dois Estados com os palestinianos. Mas essa ésempre foi e continuará a ser a questão central: quando foi a última vezdesde a cimeira falhada de Camp Davidem 2000com ClintonEhud Barak e Yasser Arafatque Israel quis falar de paz com os palestinianos? O que fez Israel desde então a não ser precisamente promover a emergência do fanatismo religioso dos islamistas do Hamas em Gaza para assim dividir os palestinianos e enfraquecer a OLPo único interlocutor com quem poderia discutir? Foi uma brilhante jogada de estratégia políticaque 20 anos depois — 20 anos de Sharon e Bibi — acaba agora de mostrar os seus resultados. Para que fique de liçãoconvém não esquecer que tanto o Hamas como o actual Governo de Israel chegaram ao poder por voto do povo em eleições livres Ultimamentee com o pretexto justamente de não ter interlocutor com quem negociarIsrael conseguiucom sucessotirar partido do cansaço geral em todo o Médio Oriente de uma questão que parecia adormecida num impasse definitivo e experimentou a tentação de negociar a paz separadamente com vários países árabescomeçando por Marrocosa quem cedeu o seu sofisticado sistema de escutas em troca do reconhecimento diplomático. Daí até aos Acordos de Abraãonegociados sob a égide dos Estados Unidoscom vários países outrora inimigosfoi um passo — não pequenomas de gigante. Faltava a Arábia Sauditao país do príncipe “assassino”como lhe chamou Bidenantes de a necessidade política o ter obrigado a visitá-lo e a curvar-se diante dele. Mas faltava também outro dado essencial: em nenhum desses acordos bilateraisincluindo o iminente acordo com os sauditasestava presente qualquer cláusula sobre o destino dos palestinia­nos e muito menos sobre a criação do Estado Palestinianohá tanto tempo reclamado pela comunidade internacional: era como se o problema não existisseeles não existissem. Foi fácil ao Hamas explorar o sentimento de abandono quea seguir à comunidade internacionalos palestinianos sentiram por parte do próprio mundo árabe. O 7 de Outubro do Hamas teve como objectivo político impedirdesde logoo acordo com a Arábia Saudita eantevendo e provocando a resposta sangrenta de Israellevantar a rua árabe contra os acordos de paz negociados pelos líderes no silêncio dos seus palácios. E por mais selvática que tenha sido a acção desse sábado sangrentoaos olhos populares foi também a primeira vitória árabe contra Israel em muitos anos: morreram mil civis desarmadosmas morreram também 300 soldados israe­litascujas sofisticadas barreiras defensivas foram ultrapassadas. Desde o Yom Kippurquando Israel foi atacado simultaneamente pelos exércitos de dois paísesque não se via nada assim. Mas agora os atacantes que apanharam Israel de surpresa eram um exército de guerrilhaarmado de AK-47 e granadas de mão fabricadas em casa. Chamem-lhes assassinos ou combatenteseles mudaram todo o panorama estabelecido. Agora seria altura para respirar fundo e pensar — um luxo que parece antes um milagre impossível de alcançar entre dois opositores que só pensam no extermínio mútuo. Mas deve saudar-se o extraordinário esforço diplomático que os Estados Unidos e o Presidente Biden têm estado a fazer para segurar a mão vingadora de Is­rael e obrigá-los a pensar. Fosse Trump o Presidentee já tudo teria ido pelos ares. Fosse a UE a gerir a crisee a sua gestão seria uma anedota dentro da tragédia. Mas o que aí vempor mais esforços diplomáticos americanos — os únicos viáveis —não será nada de bom. Ou será mau ou será catastrófico. Para que fique de liçãoconvém não esquecer que tanto o Hamas como o actual Governo de Israel chegaram ao poder por voto do povo em eleições livres. Não há mesmo inocentes ali. 2 Por voto do povo e em eleições livresduvido que Luís Montenegro alguma vez chegue a primeiro-ministro de Portugal. A menos que o PS um dia decida suicidar-se e pôr-lhe à frentepara lhe disputar o lugarPedro Nuno Santos. Masmesmo assimnão sei: a formao tom e as razões invocadas por Montenegro para anunciar o chumbo ao Orçamentosem apresentar qualquer alternativaainda que vagapara mim representam o fim da linha. Não vejo o que possa ainda sair dali que entusiasme um eleitor a votar num PSD dirigido por ele. Por mais que uma maioria possa estar cansada deste Governoou vir a estarentre o cansaço de viver assim e a tentação do vazio não vejo os portugueses a embarcarem no navio-fantasma de Luís Montenegro.nquanto vamos vendo desfilar imagens de terrordestruição e sofrimento humano de uma violência inauditaassistimos aquiparalelamentea uma espécie de competição Benfica-Sporting pela primazia do mal ou a prevalência do bemcom cada lado a desafiar o outro a denunciar as vilanias dos seusenquanto cala as dos próprios. Tal como na Ucrâniao que interessa é a vitória dos nossos “bons” e a derrota dos “maus” delesmesmo que no final tudo o que restar sejacomo escreveu Eugénio de Andrade“um horizonte de cidades bombardeadas”ou “duas naçõesa dos vivos e a dos mortos”como escreveu Mia Couto. Mas eles acreditam que mais vale a sua razão sobre os mortos do que a paz entre os vivos. Temos assimde um ladoaqueles que não são capazes de dizer com todas as letras que o ataque do Hamas em Israel representou o ponto extremo da bestialidade humanaum verdadeiro festim da mortelevado a cabo — a palavra custa-lhes a sair da boca — por terroristas (e não me refiro aos jornalistasquetal como explica e pratica a BBCnão têm nem devem adjectivar como terroristas ou qualquer outra coisa um dos lados de um confronto). E temosdo outro ladoaqueles para quem o terror é exclusivo de organizações terroristas e os crimes de guerrade uma crueldade programadacom que Israel se sacia há 10 dias em Gazasão apenas uma “legítima defesa” e justa retaliação. Não por acasosão os mesmos que vivem a denunciar os crimes de guerra e os ataques a civis da Rússia na Ucrâniacuja dimensão e cenário de guerra não tem absolutamente nada a ver com o que está a acontecer em Gaza.