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Sobre xixi e cocó (com Jorge Sousa Braga)
Season 1 · Episode 3

Sobre xixi e cocó (com Jorge Sousa Braga)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

September 27, 202328m 53s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre um bobo do século XII especializado em ventosidade. Lê um bocado de um livro francês em que as personagens comem muito e defecam mais ainda. Desenvolve uma teoria sobre a condição humana e os excrementos. Ao contrário do prometido, quase não fala de xixi. Faz referência a um debate entre padres medievais sobre a digestão de Deus. No fim, conversa com o poeta Jorge Sousa Braga sobre merda, poesia e poesia sobre merda. A não perder.

A bibliografia deste episódio está disponível nos sites da SIC e do Expresso.

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Topics

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre um bobo do século XII especializado em ventosidade. Lê um bocado de um livro francês em que as personagens comem muito e defecam mais ainda. Desenvolve uma teoria sobre a condição humana e os excrementos. Ao contrário do prometidoquase não fala de xixi. Faz referência a um debate entre padres medievais sobre a digestão de Deus. No fimconversa com o poeta Jorge Sousa Braga sobre merdapoesia e poesia sobre merda. A não perder.Sobre xixi e cocóSobre xixi e cocó Este título éevidentementeprovocatório. Seria absurdo dedicar um episódio apenas ao tema do xixi e cocó. Como é óbvio também vou falar de flatulência. No século XIIdurante o reinado de Henrique IIhavia na corte inglesa um bobo chamado Roland The Farter. Rolandoo Flatulento. Outalvez mais precisamenteRolandoo Peidão. Roland era um artista bastante bem-sucedido. Os relatos variammas o lexicógrafo e antiquário Thomas Blount escreve que Roland terá recebidopelos seus serviçosuma propriedade de tamanho equivalente a 100 campos de futebolem Suffolkno sudeste de Inglaterra. Não admiradado o seu talento. Blount regista os termos do contrato. Vou citar: em troca daquelas terrasRoland devia levar a caboperante Sua Majestadeo Reitodos os anosno dia de Natalao mesmo tempo e apenas uma vezunum saltumunum siffletum et unum pettum. Ou sejaa execução simultânea de um saltoum assobio e um peido. A todos os ouvintes que estão a dedicar a este número um sorriso desdenhosorecomendo que experimentem tentar a habilidade. O modo como imagino este número é: um mortal à retaguardano decurso do qual Roland silva por cima e no momento da aterragem silva por baixo. Esta habilidade – um saltoum assobio e um peido – eraao que tudo indicamuito admirada. E essa admiração perdurou durante bastante tempo. Quatro séculos mais tardeRabelais põe Panurge a fazer exactamente o mesmo. É no capítulo XXVII do Pangruel. GargântuaPantagruel e o livro terceiro foram recentemente publicados em Portugal pela E-Primaturcom tradução de Manuel de Freitase é essa edição que vou citar. Diz assim: [leitura 1 (estou a fazer assim por falta de tempodepois transcreverei o texto)] Penso que todos reconhecemos a estreita afinidade entre os peidos e o discurso humorístico. Entre as histórias cómicas reunidas em latimem meados do século XVpor Poggio Bracciolinium grande vulto do humanismo renascentistahá várias sobre flatulência. Uma das mais conhecidas conta a história de Pietro Gonellao bobo do século XV cujo retrato Jean Fouquet pintou. Um homem de Ferrara contrata Gonella e promete pagar-lhe se o bobo fizer dele um adivinho. Gonella diz ao homem para se deitar com ele na camae depois diz-lhe que meta a cabeça debaixo dos lençóis. O homem obedece mas volta a pôr imediatamente a cabeça de fora das cobertasdizendo: “Creio que te peidaste.” Gonella diz: “Podes pagar-meacabei de fazer de ti um adivinho.” Rabelais também tinha grande interesse no assunto de que nos ocupamos hoje. Quando Gargamellea mãe de Gargântuaestava mesmo no final da gravidezfez uma refeição que Rabelais descreve assim: [leitura 2] “Oh! la belle matière fécale”. Esta frase muito famosa pode ser uma espécie de emblema da atitude humorística em relação a xixi e cocó. Humoristas de todos os tempos e lugares têm demonstrado um fascínio muito grande por matéria fecal – uma idiossincrasiaentre muitasque partilham com crianças pequenas. Rir das chamadas funções menos nobres do corpo humano e dos excrementoso que acontece com frequêncianão significa exactamente desprezá-los. Pelo contrárioé uma espécie de celebração. O que é que se celebraquando se celebra os excrementos? Em primeiro lugarcelebra-se o prazero prazer da comidaa vibração da vida no nosso corpo. Que bela matéria fecal se revolve no nosso interiorde facto. Mas também se celebracom issoa nossa condição específica. Somos um bicho que é capaz do soneto e da digestão. Um bicho que é capaz do sublime e do excremento. Um bicho que faz catedrais e também faz cocó. Deuses não têm graçamas um bicho que é animal e deus dentro da mesma embalagemtem. É isso que nós somosessa mistura: a maravilha da criação borra-se. O humor festeja essa coincidência: diverte-se a assinalar que estamos mais longe dos deuses do que pensamose mais perto dos animais do que gostaríamos de admitir. É essa nossa condição de corpos produtores de cocó que nos deixa tão distantes de deustão próximos do cocó. Entre o xixi e o cocójá devem ter reparadoestou mais concentrado no cocó porque me parece quena hierarquia da abjecçãoo cocó figura em primeiro lugar. O xixi disputa com o peido a segunda posiçãose é que não fecha mesmo o pelotão da infâmia. O peido acaba por ser parente do cocóque é o campeão da baixeza. Esse estatuto do cocó fica muito claro quando observamos um interessante debate que decorreu no século IV. É um debate sobre a digestão de Jesusisto étrata-se de saber se Jesus defecou. Apolinário de Laodiceia responde que não. Jesus fez-se homem mas eraapesar de tudodiferente de nós. Santo Eustácio de Antioquia responde que sim. Secomo diz o evangelho de São Joãoo verbo se fez carnese deus tomou a forma humanaentão nada do que é humano lhe seria alheio. Ele lança mão da anatomia aristotélicaque relacionava a alma com o coraçãoe o coração com o aparelho digestivo. Se Jesus tem alma humanadiz eleentão tem coraçãosem o qual não há alma. E se tem coraçãotem sistema digestivosem o qual não há coração. Ou sejaa alma humana depende do sistema digestivo. O que significa que só é verdadeiramente humano aquele que faz cocó. Portantopara Santo Eustácionegar o sistema digestivo de Cristo é negar a autêntica fisicalidade da encarnação. Mas Santo Epifânio de Salamina receia que seja indigno que Jesus tivesse as necessidades físicas normais. Ele concorda que a carne do Senhor não é diferente da nossamas considera que a ideia de lhe atribuir funções digestivas seria um erro horroroso. A solução que ele encontra é a seguinte: Jesus tem uma alma humanamas é incapaz de pecar. Com o corpo acontece o mesmo. Ele tem um corpo humanomas está isento das suas funções vergonhosas. Ou sejaApolinárioEustácio e Epifânio acreditam que Jesus é consubstancial ao Pai. Mas só Eustácio e Epifânio acreditam que Ele tem uma alma humana racional e um corpo humano integraldotado de sistema digestivo. Mas Epifânio acredita que o Senhorsendo dotado de sistema digestivonão o usou. Margareta Ebnerbeata dominicana do século XIV que ao longo de vários anos teve experiências místicas e visões espirituaisescreveu no seu diário que “Nossa Senhora não teve de lidar com sujidade vinda do menino Jesus”ou sejanunca mudou uma fralda. A ideia segundo a qual seria indecoroso que Jesus tivesse feito a digestão reforça aquela nossa suspeita de há pouco. A suspeita de que cocó é antónimo de deus e sinónimo de humano: está aqui toda uma filosofia. Os excrementos são a primeira parte de nós que cumpre o destino de voltar a ser terrade ser adubo. Nós lá chegaremos tambémporque somos excrementos adiadosestamos pacientemente à espera de ser excrementos. Ora aqui está outra ideia bem bonita. A minha guia nesta curiosa discussão foi a professora Kelley Spoerlque ensina História da Igreja na Saint Anselm Collegee cujas comunicações em congressos internacionais de estudos patrísticos li com muito interesse. É uma tarde bem passada que recomendo a todos. * O poeta Jorge de Sousa Braga é médico ginecologista e obstetradirector do serviço de obstetrícia da maior maternidade do paíso Centro Materno Infantil do Norte. Publicou o primeiro livrochamado “De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu”em 1981. Seguiram-se “Plano para salvar Veneza”“A greve dos controladores de voo” e outrosreunidos num volume chamado “O Poeta Nu”primeiro na Fenda e depois na Assírio & Alvim. Entre outras coisasorganizou também “O vinho e as rosas”uma antologia de poemas sobre a embriagueze acaba de publicarna editora Língua Morta“Quando a lua desce à terra”uma colecção em que traduz poemas de mulheres sobre “as especificidades do seu corpo e da sua fisiologia”. E tempronto para publicaçãoo livro “A Flor Cadáver e outros poemas”. Para apresentar melhor o poeta vou ler dois poemasum longo e um curto. [leitura 3] Mais sobre Jorge Sousa Braga a seguir a esta pausa. [anúncio] Foi o terceiro episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre cozinhar bebés.jorge sousa bragaricardo araújo pereiraflatulênciaxixicocómerdahumorcomédiaespiritualidadeportugalrodrigo leãoa flor cadáverpoesia