PLAY PODCASTS
Sobre uma coisa importantíssima que ninguém sabe bem o que é (com Miguel Góis e José Diogo Quintela)
Season 1 · Episode 5

Sobre uma coisa importantíssima que ninguém sabe bem o que é (com Miguel Góis e José Diogo Quintela)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

October 11, 202335m 47s

Audio is streamed directly from the publisher (traffic.omny.fm) as published in their RSS feed. Play Podcasts does not host this file. Rights-holders can request removal through the copyright & takedown page.

Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre pausas, cadências, hesitações e silêncios. Também fala um bocado sobre vírgulas. Elabora uma metáfora que envolve uma fisga. Usa as biografias de grandes humoristas para escarnecer de quem julga ter nascido ensinado. No fim, junta-se a Miguel Góis e José Diogo Quintela com o objectivo de definir com precisão um conceito e falha. Lamenta profundamente tê-los convidado e despede-se. A não perder.

A bibliografia deste episódio está disponível nos sites da SIC e do Expresso.

See omnystudio.com/listener for privacy information.

Topics

comédiahumorricardo araujo pereirarapcoisa que não edifica nem destróipodcastsicexpressoRicardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre pausascadênciashesitações e silêncios. Também fala um bocado sobre vírgulas. Elabora uma metáfora que envolve uma fisga. Usa as biografias de grandes humoristas para escarnecer de quem julga ter nascido ensinado. No fimjunta-se a Miguel Góis e José Diogo Quintela com o objectivo de definir com precisão um conceito e falha. Lamenta profundamente tê-los convidado e despede-se. A não perder.gato fedorentomark twainliteraturaculturaensaioSobre uma coisa importantíssima que ninguém sabe bem o que é   Hojee seguindo a tradição deste podcast de perder bastante tempo com pormenores insignificantesvamos começar por ouvir um excerto de uma canção de Caetano Veloso. https://www.youtube.com/watch?v=8B3F2E16S4Y (0:36 até 0:57) Os versos que Caetano Veloso canta aqui são: “Você traz a coca-colaeu tomo / Você bota a mesaeu como / Você não está entendendo quase nada do que eu digo.” Creio que concordamos todos que estas frases relativamente banais não têm graça nem capacidade para excitar multidões. Mas a plateia deste concerto manifesta-se ruidosamente a certa alturae parte desse ruído são risos. Só por causa de um pequeno truqueque é o seguinte: a música obriga a cantar a primeira palavra do último verso colada ao final do penúltimo. É quase um jogo de criançauma marotice. O que acontece se eu suprimir um silêncio aqui e fizer outro ali? Oraserá isto uma ocorrência de um fenómeno que costumamos designar por “timing”? Não sei. Até porqueem rigornão sei bem o que timing é. Apesar dissoé inegável que todos temos uma noção de timing. Por exemplotoda a gente que já esteve em frente a um bebé e se escondeu atrás de um pano dizendo: “A Gertrudes não está cá. Estáestá!” A Gertrudes mostra assim dominar o timinguma vez que ela sabe que se disser “A-Gertrudes-não-está-cá-está-está” o bebé não ri. E se disser “A Gertrudes não está cá” e depois esperar um quarto de hora até dizer “Estáestá!” o bebé também vai ficar indiferente. Até é capaz de se esquecer de quem a Gertrudes é. Mas a primeira dificuldade que temosquando falamos de timingé chegar a uma definição. É engraçado (enfimmoderadamente engraçado) que o timingque nós suspeitamos que tenha a ver com precisãoseja um conceito tão impreciso. Por issocomo semprevou tentando umas aproximações. Essa deve ser a primeira: timing tem a ver com precisão. Em comédiaparece haver um momento exacto para que uma coisa seja ditaou mostrada. Se isso acontecer instantes antes ou depois da altura certao efeito é diferente (inevitavelmente piorou até nulo). Outra aproximação: esse momento é muitas vezes (mas nem sempre) o da punchlineou sejao do gatilho que faz deflagrar o riso. Também parece claro que o timing muda em função de certos factores. Por exemploo mesmo intérprete a dizer o mesmo texto pode mudar ligeiramente o timing consoante a resposta do público. Ou intérpretes diferentes podem dizer o mesmo texto com timings diferentes e serem igualmente bem-sucedidos. Ou podem ter diferentes modos de falaro que conduz a tipos de timing inevitavelmente diferentese estarem ambos certosdigamos assim. Ainda outra tentativa: aquilo a que chamamos timing está igualmente ligado a hesitaçõesrepetições e até apartes. Talvez também seja proveitoso investigar a relação entre timing e ritmo. A cadência com que um intérprete diz o texto pode influenciar o timingacho eu. É possível que o timing seja sobretudo a gestão de uma tensãoe isso também tenha a ver com uma pausacom silêncio. É o equivalente a esticar o elástico de uma fisga. Esticando demaiso elástico pode partir-se. Esticando de menosa pedra não é projectada com força suficiente. Há um livro do Ray Bradbury chamado “Zen in the art of writing” em que ele cita um poema do Oscar Wilde (queno entantonunca consegui encontrar na obra de Wilde. Talvez seja apócrifo). O poema diz assim: Love will die if held too tightly. Love will fly if held too lightly. Lightlytightlyhow do I know Whether I’m holdingor letting love go? Ou seja: o amor morre se o agarrarmos com força a mais; o amor voa se o agarrarmos com força a menos. Força a mais ou força a menoscomo é que eu sei se estou a agarrá-lo ou a deixá-lo ir. A minha versão é menos interessanteeu seie não rima. Mas o Ray Bradbury aplicava estaa ideia à artee talvez nós possamos aplicá-la ao timing. Ao fazê-lotambém estamos a sugerir que há um certo tipo de sensibilidade envolvidouma característica difícil de definir ou quantificarprópria de cada um. E parece-me evidente que essa sensibilidade se adquire. Pelo processo de tentativa/erropor exemplo. Já agoradeixem-me acrescentar que tenho consciência de que este assuntocomo todas as obsessõestem o seu quê de ridículo. Há um estudo de Salvatore Attardo e Lucy Pickering (https://faculty.tamuc.edu/lpickering/Pdfs/Publish_11.pdf) em que eles referem vários destes problemas. Começam por dizer queapesar de a noção de timing no humor ser frequentemente apontada como muito importantehá muito pouca coisa publicada sobre o assunto. Depoiseles dão-se ao trabalho de cronometrarem centésimos de segundoo tempo de pausa feito antes da punchline em 20 momentos cómicos analisados. A conclusão do estudo parece apontar no sentido de não haver uma pausa significativa antes da punchline. Mas julgo que é possível continuar a afirmar que há uma altura exacta para dizer a punchlinee que essa altura está claramente ligada a uma gestão do silêncio. Deixem-me dar dois exemplos muito diferentes. O primeiro é esta intervenção de Christopher Hitchens no início de um debateem que ele se refere ao modo como o anfitrião do debate o apresentou. https://www.youtube.com/watch?v=Xc0kbM4tBYE (6:04 a 6:18) Diz ele: “Obrigado por essa apresentação suspeitamente sucinta. De todas as apresentações que já me fizeram esta é sem dúvida a mais [pausa] recente.” Todos concordamosacho euque aquele pequeno silêncio é parte essencial da piada. Após uma pausa para pensarnão esperamos que a qualificação da apresentação seja feita com um adjectivo tão prosaicomeramente factual. No sentido opostorepare-se no que acontece nesta cena da série americana The Office. Phyllis está a explicar a Erin a forma como conquistou o marido. (25º episódio da 7ª temporadaaos 19m35s) Traduzo: “Sabes o que foi preciso para que o Bob reparasse em mim? Esperei no escritório dele todas as manhãs a usar apenas umas orelhas de gato. Fiz isso todos os diasao longo de duas semanas. Ao décimo dia ele entroutambém todo nuusando apenas um nariz de cão. Adivinha o que fizemos a seguir.” EmbaraçadaErin procura desviar a conversa e começa a falar. Phyllis interrompe imediatamente e diz: “Bestialismo.” Também me parece claro queneste casoa ausência de pausaa precipitação ao dizer a última palavraé indispensávele a piada não funcionaria se fosse dita de outro modo. Há um texto de Mark Twainchamado “How To Tell a Story” (quena verdadeé sobre como contar uma história humorística)em que o autor fala várias vezes nessa misteriosa pausa que precede a punchline. Exemplifica contando uma história na qualsegundo elea pausa que quem conta deve fazer antes da frase final é o aspecto mais importante. E termina dizendocito: “(…) é preciso fazer a pausa no sítio exacto; e descobri-lo é a tarefa mais complicada e exasperante que alguma vez levaram a cabo.” Talvez seja importante referir ainda que a noção de timing não interessa apenas num texto dito. Nos textos escritos também encontramos a intenção de gerir a tensão de que temos faladode esticar o elástico da fisga até ao ponto certo. É possível que seja mais difícil de fazermas há maneiras de o conseguir. Por exemplohá um outro texto de Mark Twain que diz assim: “John Wagner é o homem mais velho de Buffalo – cento e quatro anos de idade – (…) e no entanto nunca tocou numa gota de álcool na vida – a não ser – a não ser que whisky conte.” Aquela repetição está no textoentre travessõese é evidente a razão pela qual ali está. Em A Causa das Coisasque a Bertrand acabou de reeditarMiguel Esteves Cardoso escreve uma crónica chamada “Merda”que começa assim: “Aquilo que está cada vez pioristo segundo a mais divulgada opinião públicaé esta merda. (…) Que merdaafinalvem a ser esta? Épelos vistosuma merda que está cada vez pior. Deve serpor conseguinteo agravamento de uma merda que já esteve melhor. (…) As pessoas sofremé certocom esta merda. (…) Antigamentese bem se lembramesta merda não ia estandocomo agoracada vez pior. (…) Valha-nosao menosainda haver quem adore esta merda. Os estrangeirospor exemplo. Quantos portugueses discordam da noção básica de que “os estrangeiros se pelam por esta merda”? Nenhum. (…) E sepor acasoalgum estrangeiro calha não se pelaré garantido que qualquer português digno do nome o mandaráinfalivelmenteà merda.” Aquelas expressões entre vírgulas têm o propósito de atrasar o final da frase. Retardar o momento do prazer produzcomo sabemoso efeito de tornar o prazer maior e mais intenso. Recordo que continuamos a falar de comédia. Há um episódio muito famoso da história da comédia que talvez nos interesse aqui. É o programa de rádio (mais tarde seria também um programa televisivo) The Jack Benny Program. Jack Benny era um comediante conhecido especialmente pelo seu timing impecável. Na histórica edição de 28 de Março de 1948a personagem de Bennyconhecida por ser muito forreta (esta parte é importante)é abordada por um ladrão. https://www.youtube.com/watch?v=p_XkdmRkOL0 (25:33 a 26:11) “O dinheiro ou a vida. Longa pausa. O dinheiro ou a vida! Estou a pensar!” Anos mais tardeem 1969Benny foi convidado a recordar os pontos altos da carreirano The Hollywood Reporter. Esta rábula é a primeira que ele citadizendo que costuma ser considerada a que produziu a maior gargalhada da sua vidana rádio ou na televisão. Sendo o timing tão decisivo como difícil de definirhá quem pergunte se esta sensibilidade para a altura exacta em que uma coisa deve ser dita pode ser ensinada. Há uns místicos que dizem que não. Temos escolas de belas-artesde dançade músicade cinemade arquitectura – tudo artes queao que pareceé possível ensinar. Mas há quem garanta quepor uma razão misteriosa qualquer (quecuriosamentetambém não é referida)a comédia não se ensina nem se aprende. Muito esquisito. Pessoalmenteacho que não se nasce com timing. Somos mamíferos iguais aos outros e esse não é um atributo que a gente traga do ventre materno. Marvin Hamlischuma das duas únicas pessoas a ganhar o PEGOT (um Pulitzerum Emmyum Grammyum Oscar e um Tony)conta o seguintea propósito da altura em que acompanhou Groucho Marx ao piano no espectáculo “An Evening with Groucho”no Carnegie Hall: “A certa alturaele dizia uma piada e nós ensaiávamo-lao timing exacto da piadae ele ensinava-me. Depois parecia espontâneo. Trabalhávamos bastantemas divertíamo-nos muito.” Ou sejaGroucho Marx ensaiava o timing exacto de uma piadapara depois tudo parecer espontâneo. Estranho. Parece mesmo uma arte igual às outrasem que se trabalha e praticaem vez de se confiar em aptidões obtidas no útero. De factonão faltam comediantes a referirem-se ao timing falando em treino e aprendizagem. Dou apenas alguns exemplos: John Cleesena autobiografiafala de como estudava obsessivamente o timing de Ronnie Corbett. Cito: “Eu observava o Ronnie C. como um falcãoporque ele jogava com o timingàs vezes arriscando pausas maiores do que eu alguma vez ousariae reparava comopor esperar uma fracção de segundo a mais antes de concluir a piadaele acumulava a tensão e obtinha uma gargalhada maior.” E depois faz uma observação interessante: “Quando eu estava em forma o meu timing verbal era muito bomem parte porque eu ouvia cuidadosamente a plateiae era capaz de ajustar-me muito rapidamente à sua reacção. Há uma fracção de segundoa seguir a dizer uma piadaem que temos de decidir se continuamos ou se esperamos pela gargalhada. (…) O timing depende da confiança. Não conseguimos fazer boa comédia se não estivermos relaxados. Acho que há um paralelismo exacto entre timing na comédia e no desporto: quando acertamos no momento exactoa bola é disparada sem esforço. Mas isso só acontece quando estamos a jogar com confiança e nada nos constrange. É o mesmo com a comédia: qualquer ansiedadequalquer tensão e o discurso deixa de fluirfica forçadoperdemos o ritmo.” Ou sejamais uma vez é a ideia de que o timing é qualquer coisa que se aprendetreina e depende da confiançapor oposição a um dom com o qual uns escolhidos nascem. Noutro ponto da autobiografia ele acrescenta: “na comédiaé muito fácil falhar o timing”. É uma habilidadedigamos assimque é difícil de dominare suficientemente frágil para ser afectada por vários factores alheios ao comediante. Steve Martinrecordando o início da carreiradiz: “Tive as minhas primeiras lições sobre actuarembora não estivesse no palco. Absorvi o timing do Wally Boagdizendo mentalmente a sua piada seguinte (…)e encarava a reacção da plateia como se fosse dirigida a mim.” Mais uma vezo que está em causa éobviamenteuma aprendizagem. Allison Silvermanque foi guionista de Late Night with Conan O’BrienThe Colbert ReportThe Daily ShowThe Officeetc.responde assim quando lhe perguntam se recomenda aos aspirantes a autores de comédia que comecem por fazer comédia de improviso: “Com certeza. Acho que há várias razões para que isso seja uma óptima ideia. Uma é que simplesmente se aprende timing. No livro Jack Benny and the golden age of american radio comedydiz-se que “ele era brilhante a acrescentar ênfase cómica e emocional ao texto com o seu tremendo sentido de timinge era capaz de treinar os outros actores e até não-profissionais” para que conseguissem ter o mesmo sentido apurado. Mais sobre isto daqui a pouco. [anúncio] Foi o quinto episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre moscas.