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Sobre ser um palhaço (com Pedro Mexia)
Season 2 · Episode 10

Sobre ser um palhaço (com Pedro Mexia)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

December 18, 202437m 7s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre loucos e palhaços, passe o pleonasmo. Cita um autor brasileiro para o qual loucura é sensatez, e sensatez é loucura. Dedica algum tempo à etimologia da palavra delirar, pretendendo daí retirar uma conclusão interessante. Tal não se verifica. Lê uma passagem de um livro de um autor israelita na qual um humorista faz o pino. No fim, conversa com Pedro Mexia sobre as vantagens de ver o mundo de pernas para o ar.

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Topics

Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre loucos e palhaçospasse o pleonasmo. Cita um autor brasileiro para o qual loucura é sensateze sensatez é loucura. Dedica algum tempo à etimologia da palavra delirarpretendendo daí retirar uma conclusão interessante. Tal não se verifica. Lê uma passagem de um livro de um autor israelita na qual um humorista faz o pino. No fimconversa com Pedro Mexia sobre as vantagens de ver o mundo de pernas para o ar.Sobre ser um palhaçoSobre ser um palhaço Quandona semana passadafalei do escritor brasileiroCampos de Carvalhoautor do livro “O Púcaro Búlgaro” – no qualas palavras púcaro búlgaro são o conjunto de sons que se produzemquando dizemos púcaro búlgaromais do que designarem o objectoa que chamamos púcaroque no caso é búlgaro –lembrei-me deoutro textodo mesmo autor. É uma crónica que começa destemodo: “Não fui claune (talvez ainda o seja um dia: nunca é tarde)mas em compensação já passei por louco várias vezes – e sódependeu de mim tornar-me num louco verdadeiro. Faltou-meexactamente aquele grão de coragem – ou suprema audácia – semo qual não se move uma palha neste mundo tão cheio deespantalhostão pobre de palhaços.” Esta ideia de que a respostaao mundo mais apropriadaou mesmo a única decenteé ser louco(ou palhaçoque acaba por ser a mesma coisa) interessa-me. Numoutro livro chamado “A Lua Vem da Ásia”Campos de Carvalhoescolheu como epígrafe uma frase de Gabriel Brunetum oficialfrancês da Legião Estrangeiramorto em combate na Indochina em1948. Diz o seguinte: “Todo o homem pode desafiar a crueldade ea estupidez do universo fazendo da sua própria vida um poema deincoerência e de absurdo.” Na primeira parte desse livrointitulada“A vida sexual dos perus”o primeiro capítulo começa assim: “Aos16 anos matei o meu professor de lógica. Invocando a legítimadefesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvidopor 5 votos contra 2e fui morar sob uma ponte do Senaemboranunca tenha estado em Paris.” É uma frase que desafia de mais doque uma maneira a lógica convencionale a substitui por outraqueapesar de absurda tem a seu favor alguns argumentos. Por exemplo:gramaticalmenteé impecável. Se a gramática autoriza aquelafrasecom que autoridade é que podemos dizer que ela não éverdadeira?Vou voltar àquela crónica: “Quem nunca sonhou em ser loucojá nasceu morto e não merece nenhum milagre de ressurreição; queo que chamam vida não passa de um museu de cera ou então dehorrores (…). Só a loucura tem o dom de nos salvar de nós mesmose sobretudo dos outrossó ela nos dá o poder da levitação e voo queteimamos sujeitos à lei da gravidadeem nos roubar roubando-sea si mesmos. A loucura é o que se chama Deus ou Demónio eestamos sob o seu gládio o tempo todocomo moscas que somosou o micróbio da mosca.” Bem observadoisto de sermos moscasou até menos: o micróbio da mosca. Recordo que as moscas foramo tema do sexto episódio da primeira temporada deste podcast.Surpreendente é que registar a nossa insignificância pareça estarapenas ao alcance dos loucosou dos palhaçosquando é tãoevidente. Os outrosaqueles que Campos de Carvalho designacomo “os sujeitos à lei da gravidade”não parecem dar-se conta dasua pequenez. Provavelmente por causa disso mesmo: a lei dagravidade aqui não é apenas a que foi formulada por Isaac Newtonmas também a outraainda mais forte – a lei da gravidade que nosimpõe que sejamos gravessolenescircunspectos. Os loucosdelirame delirar significaetimologicamentesair fora do sulco doarado. Oradivergir do sulco do arado talvez seja uma tarefadesinteressante de um ponto de vistadigamosmais utilitáriomastem uma vantagem inegável: explorar um terreno novoao qualninguém deu atenção.Retomo a crónica de Campos de Carvalho: “Profissão: louco.A mais bela das profissõesa mais lúcida no sentido de que traz aluzluciferina. A que exercemos não como um exercício mas comotodo um exército em marcharompe-tréguas e rompe-diquesnumaguerra não santa mas demoníacaantibélicadesnorteando o nortee o sulo leste e o oesteum exército de fantasmas e por isso mesmoinvencível: meu nome é legiãosou mil em ume a mim mesmo meestarreço.” Mais à frenteCampos de Carvalho acrescenta: “Omundo é tão de cabeça para baixoos valores todos tão invertidosque só se pondo de pernas para o ar você consegue pisar no chão eolhar o adversário nos olhosmedi-lo em sua insignificância (…).Nem por outro motivo o claune esse colorido loucoestá sempre adar cambalhotas e a olhar por entre as pernas (…).”No livro “Um Cavalo Entra num Bar”o escritor israelitaDavid Grossman conta a história de um juiz que é convidado porum seu amigo de infânciao humorista Dovalehpara assistir aoseu espectáculo de stand-up comedy. É a esse espectáculo de duashoras que assistimosao longo do livro. A certa alturaDovalehcomeça a andar no palco apoiando-se nas mãosfazendo o pino.Era uma habilidade que tinha começado a desenvolver ainda emcriança. E é assimde cabeça para baixoque diz o seguinte: “Paraonde quer que fosse era sempre assim que andava. Para a escolacom a pasta pendurada à frentedentro de casano corredordoquarto para a cozinhapara trás e para diante milhares de vezes até ao regresso do meu pai. (…) não tinha quaisquer problemas deequilíbrio (…)pelo contrárioporque de pé sentia-me sempre umpouco trémuloquase a cair e sempre cheio de medo. Havia umaespécie de simpática tradição no bairro: cascar no Dov. Nada demuito sériouma estalada aquium pontapé acoláum murro noestômago. Não era por maldadenãoapenas uma coisa técnicacomo um carimbo num bilhete. Já cascaste no teu Dov hoje? (…)Mas quando andava com as mãos no chãosei láninguém batenum miúdo que anda de pernas para o ar. É um facto. Se te der nabola pregar uma chapada num miúdo que está de pernas para o arcomo é que topas com a cara dele? O quê? Baixas-te até ao chão epregas-lhe a chapada? Ou se quiseres dar-lhe um pontapé? Como éque acertas? Aonde é que estão os tomates dele? Uma confusãonão é? Desorienta. Se calhar até começam a ter medo dele. Ummiúdo de pernas para o ar não é brincadeira.”Virar uma coisa de pernas para o ar é uma operaçãohumorística muito produtiva. E se o mundo não se deixa virar depernas para o ar resta-nos a opção de fazer o pinoo que gera omesmo efeito e além disso é uma estratégia defensiva eficaz. Aspessoas costumam ter pudorou até receiode se meter com quemé – ou parece – louco. Os que se comportam desse modofazendoou dizendo o contrário do que se esperaobtêm quase sempre umatolerância mais ou menos ilimitada. Outras vezes é perigosoatenção. Uma pessoa que faz para a semana 2024 anos resolveuproceder desse modoespalhando umas ideias que viravam depernas para o ar o senso comum. Por exemplo: “ama o teuinimigo.” E parece que não acabou bem.Mais sobre isto daqui a pouco.[pausa]Foi o décimo episódio da segunda temporada de Coisa QueNão Edifica Nem Destróium podcast original da SIC comsonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa deVera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de DanielOliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e em Janeirono últimoepisódio da temporadavou falar com sete convidados no festivalde podcasts do Expresso.