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Sobre rir de tudo e rir de nada (com Joana Marques)
Season 1 · Episode 10

Sobre rir de tudo e rir de nada (com Joana Marques)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

November 15, 202343m 26s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre uma personagem fictícia do século XVIII que quer rir de tudo e um bispo real do século IV que não ri de nada. Compara o escritor Dinis Machado com a personagem de banda desenhada Deadpool. Encoraja os ouvintes a contemplarem brincadeiras de cães para perceberem melhor o fenómeno humorístico. Discute as opiniões de um filósofo progressista do século XXI que parece mesmo aquele bispo do século IV. No fim, pergunta à malvada Joana Marques se é possível ridicularizar quem não é ridículo. A não perder.

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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre uma personagem fictícia do século XVIII que quer rir de tudo e um bispo real do século IV que não ri de nada. Compara o escritor Dinis Machado com a personagem de banda desenhada Deadpool. Encoraja os ouvintes a contemplarem brincadeiras de cães para perceberem melhor o fenómeno humorístico. Discute as opiniões de um filósofo progressista do século XXI que parece mesmo aquele bispo do século IV. No fimpergunta à malvada Joana Marques se é possível ridicularizar quem não é ridículo. A não perder.Sobre rir de tudo e rir de nadaSobre rir de tudo e rir de nada A certa altura da conversaJacqueso fatalistadiz ao seu amo que tentou adoptar uma curiosa estratégia para viver melhor: JACQUES – Troçar de tudo. Ahse eu tivesse conseguido… O Амо – Para que te serviria? JACQUES – Para me livrar de preocupaçõespara não ter necessidade de mais nadapara me tornar perfeito senhor de mim mesmopara sentir tão bem a cabeça encostada a um marcoà esquina da ruacomo num bom travesseiro. É como eu sou às vezesmas o diabo é que não dura muito (…). Uns catorze séculos antes de Diderot ter escrito estas palavrasSão Basílio de Cesareia propunha uma conduta bastante diferente. Nas suas regras monásticas ele diz o seguinte: “Importa também conter o riso. (…) Eis uma questão frequentemente negligenciada mas digna de atenção. Entregar-se a um riso ruidoso e imoderado é sinal de intemperançae revela a incapacidade de manter a calma e reprimir a frivolidade da alma pela santa razão. Não é impróprio mostraraté mesmo com um sorriso alegreo florescimento da almacomo indica o provérbio das Escrituras: “Coração contente alegra o rosto” (Provérbios 1513). No entantorir alto e ser sacudido involuntariamente não é próprio de uma alma tranquilaíntegra ou senhora de si mesma. Esse tipo de riso é condenado também pelo Eclesiastes como o grande adversário da estabilidade da alma: “Do riso eu disse: Tolice!” (Ecl 22). E: “assim como crepita o fogo debaixo da caldeiratal é o riso do insensato” (ibid. 76). O próprio Senhor quis experimentar todos os sentimentos inseparáveis da natureza humana e mostrar a Sua virtude na fadigapor exemploou na compaixão pelos infelizesmascomo os relatos evangélicos testemunhamEle nunca cedeu ao riso; pelo contrárioEle lamenta aqueles que riem (Lucas 625).” São Basílio refere-se ao sermão da montanhaem que Jesus diz: “Ai de vósque agora ridesporque ireis ficar aflitos e ireis chorar.” E recorda uma observação decisivaque São João Crisóstomo terá sido o primeiro a fazer: nos evangelhos canónicosJesus Cristo nunca riembora chore duas vezes (quando avista Jerusalém e quando Lázaro morre). E um pouco mais adianterespondendo a uma pergunta sobre se é lícito rirSão Basílio repete: “tal como o Senhor condena os que riem agoraé evidente não haver para o fiel tempo algum próprio ao riso.” São Jerónimo e Santo Ambrósio partilham a mesma desconfiança em relação ao riso. E São Clementeembora reconhecendo que o Homem é um animal que riavisa que daí não decorre que deva rir de tudo. O cavaloacrescenta ele a propósitoé um animal que relincha – eno entantonão relincha por tudo e por nada. O Deus da Bíblia não parece ser dado ao risoapesar decreioaté ter motivos para isso. A um Deus com sentido de humorem princípionão escaparia o seguinte: o facto de uma entidade omnipotente e omnisciente ter produzido criaturas tão flagrantemente imperfeitas éevidentementemuito engraçado. Mas Deus reage sempre expulsando as suas criaturas do Paraísoou castigando-as com pragasdestruição e dilúvios – e nunca com uma mais do que justificada (e humana) gargalhada. Não gosto muito de fazer afirmações categóricasmas estou convencido de duas coisas: primeiroque a razão pela qual São Basílio defende que não devemos rir de nada é precisamente a mesma razão pela qual Jacquesdeseja rir de tudo; segundoqueno que toca ao risosó existem essas duas posições radicais. Não creio que haja meio-termo. Ou defendemos que é possível rir de tudo ou defendemos que não é possível rir de nada. A partir do momento em que abrimos uma excepção (“podemos rir de tudo excepto disto” ou “não podemos rir de nada excepto daquilo”)deixa de ser possível sustentar a posição. O mesmo argumento que valida uma excepção sanciona todas as outras. Por exemplo: podemos rir de tudo excepto do sagrado. Que sagrado? Deus? Só um deus ou todos os deuses? Podemos rir de Poseidon? E aquelas pessoas que não são crentes mas para as quais outras coisas são sagradas – coisas tão diferentes como a famíliao partidoo paíso presidente da repúblicaouporque nãoo tricô? Um dos principais motivos desta discórdia é o facto de muita gente ter uma ideia errada do riso. Por exemplohá muitas pessoas convencidas de que rir é o contrário de chorar. Não é. Rir e chorar são vizinhostalvez mesmo parentes. Por vezesaté ocorrem ao mesmo tempo. Ambos funcionam como a válvula da panela de pressão. O contrário de rir é não rir. Estar sério. Acumular tensão. É bastante importante entender isso. A mesma coisadita no âmito de um discurso sério ou no âmbito de um discurso não-sériotem valores diferentes. O riso pode ser agressivoclaro. Masmesmo quando étrata-se de uma agressividade especial – o que é frequentemente esquecido. Até Samuel Butlerescritor inglês autor de sátirasrelacionou o riso com a agressividade puraassinalando que não é possível rir sem mostrar os dentes. É falsono entanto. Os bebés conseguem fazê-lo. Um bom exercício é observar cães a brincar. A brincadeira é em tudo igual à luta: a mesma agressividadeo mesmo barulhoas mesmas dentadastudo. Mas é a brincar. Não devemos deixar-nos enganar pelo facto de também ser feito com os dentes. Na introdução de um livro sobre Charles Dickens chamado “The Violent Effigyo autorJohn Careyescreve o seguinte: “(…) Dickens é essencialmente um escritor cómico. A vontade de esconder este factoevidenciada em alguns estudos recentespode talvez ser atribuída à suspeita de que a comédiaem comparação com a tragédiaé leve. A comédia é tida como artificial e escapista; a tragédiaduramente real. O oposto parece ser mais exacto. A tragédia simpatiza com a dignidade do Homem e com a sua importânciae preserva a ilusão de que ele é uma criatura nobre. A comédia destapa a absurda verdadee é por essa razão que as pessoas receiam tanto que se riam delas na vida real. Como veremosassim que Dickens começa a rirnada está a salvodesde o cristianismo até bebés mortos.” Rir de tudo talvez sejadigamosuma atitude com pouco prestígio. Mas tem advogados estimáveis. Num texto chamado “Qual é o lado mais cómico disto?”incluído num livro chamado “Reduto Quase Final”Dinis Machado diz: [leitura] Talvez seja possível dizer que a grande ambição dos cómicos é teralém do corpo de borrachao ego de borracha. Um dos grandes heróis cómicos do nosso tempo éacho euo Deadpool. É um super-herói da Marvel – na verdadeé difícil dizer se se trata de um super-herói ou de um supervilãocomo acontece com todos os malandros (ver episódio sobre o trickster) – cujo superpoder é a capacidade de se regenerar. Dão-lhe um tiro e a ferida fechacortam-lhe uma perna e ela volta a crescer. Mas o mais interessante é que o ego do Deadpool também é invulnerável. Uma das características invulgares da personagem é o facto de ela ter consciência de si própria. Sabe que é uma personagem de ficção. Os heróis trágicos estão demasiado embrenhados em si mesmos e na sua importância para que lhes ocorra que são apenas personagens. Mas a atitude cómica leva a que a personagem de um filme diga “calmaisto é só um filme”e a que uma pessoa real seja capaz de dizer “calmaisto é só a vida”. Claro que essa atitude se apresenta não só como incompreensívelmas também como reprovável para as pessoas sérias. Em Abril de 2022ou seja1643 anos após a morte de São Basílio de Cesareiao Centro de Estudos Judiciários organizou um colóquio chamado “HumorDireito e Liberdade de Expressão”. Numa comunicação intitulada “Quando o humor é danoso”o filósofo português Desidério Murchoprofessor na Universidade Federal de Ouro Pretoem Minas Geraisafirmou o seguinte: [som 1] Esta ideia é interessante porqueem sociedades como a nossao critério para limitar o discurso éprecisamenteo facto de ele causar dano. Por exemplonós punimos o incitamento à violênciaquando ela é provável e iminente. Esta parte é importanteaté porque explicahá cerca de 100 anosAlmada Negreiros tenha podido dizer “morra o Dantasmorra! Pim!” sem ser incomodado pelas autoridades judiciais. Vamos então entender quais sãono entender do professor Desidério Murchoos danos causados pelo humor. [som 2] “É quase sempre incómodo.” O dano parece serportantoo facto de causar incómodo. Orase o critério para limitar o discurso de alguém é o facto de causar incómodoe uma vez que é impossível rebater o argumento de uma pessoa que se disser incomodadapor mais implausível que esse incómodo sejaquantos tipos de discurso ficam a salvo desta limitação? Vamos conhecer um tipo de humor ainda mais danoso. [som 3] Talvez possamos perguntar se isto é realmente assim. Ou sejaquando fazemos humor com as nossas fragilidades epistémicasestamos a desistir e a actuar irresponsavelmente? Rir da humilhação de estarmos mergulhados na nossa fragilidade epistémica é uma desistência ou uma consciência. Assinalar a nossa fragilidadeatravés do risoé danoso ou saudável? Por outro ladoomitir a existência daquela fragilidade humilhante é apropriado ou perigoso? Agoraoutro tipo de humor danoso. [som 4] Mais uma vez: o humor sobre coisas sérias é uma maneira de fingir que as coisas não são sériasou é uma maneira de encarar com outro ânimo as coisas que são sérias? Não nos levarmos a sériono sentido de mantermos presente a nossa insignificânciaé danoso ou é útil. Vamos a mais um tipo de humor danoso. [som 5] De factoa lepra foi curada com ciência séria. Epelos vistoso facto de alguém andar a fazer piadas sobre a lepra não constituiu um obstáculo sério à descoberta da cura da lepra. Porque a humanidade não estava toda empenhada na cura da lepranão é? Uns tratam de estudar a cura da lepraoutros de fazer sapatosoutros de limpar chaminésoutros de dançaroutros de fazer filosofiae outros de dizer piadas sobre a lepra. Vamos descobrir mais um tipo de humor danoso. [som 6] Neste pontodeixem-me só fazer um breve resumo: fazer humor sobre coisas sérias é danosofazer humor sobre outras pessoas é danosofazer humor sobre nós próprios é danosofazer humor de crítica social é danosofazer humor sobre facínoras é danoso. Desta vez porque o humor sobre o tirano impede uma acção social e política concertada para eliminar o tirano. Durante a segunda guerra mundialas tropas aliadas cantavam uma canção chamada “Hitler has only got one ball”“O Hitler só tem um tomate”. Vamos ouvir. https://www.youtube.com/watch?v=pKp6uD1JAdc [0:24 a 0:40] A letra completa diz: o Hitler só tem um tomateo Göering tem dois mas são muito pequeninoso Himmler a mesma coisa e o Goebbels não chega a ter tomate nenhum. É apenas um exemplo das inúmeras piadas que se fizeram sobre os nazis em geral e sobre o Hitler em particular – e quemilagrosamentenão foram capazes de impedir a deposição do tirano. Mais sobre isto a seguir ao intervalo. [anúncio] Foi o décimo episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre .literaturahumorcomédiajoana marquesextremamente desagradáveltinta da chinarenascençaportugal