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Sobre políticos e palhaços (com António Feijó)
Season 1 · Episode 8

Sobre políticos e palhaços (com António Feijó)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

November 1, 202338m 3s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre duas personagens de uma peça inglesa do século XVI. Organiza um teatrinho em que faz de Falstaff e intima uma pessoa respeitável a fazer de Príncipe Hal. Engendra uma teoria segundo a qual reinar é diferente de reinar. Cita diversos casos em que as previsões sobre o extraordinário poder do humor não se concretizaram. No fim, fala com o professor António Feijó, que é a pessoa respeitável da primeira parte, sobre a diferença entre humor e política. A não perder.

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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre duas personagens de uma peça inglesa do século XVI. Organiza um teatrinho em que faz de Falstaff e intima uma pessoa respeitável a fazer de Príncipe Hal. Engendra uma teoria segundo a qual reinar é diferente de reinar. Cita diversos casos em que as previsões sobre o extraordinário poder do humor não se concretizaram. No fimfala com o professor António Feijóque é a pessoa respeitável da primeira partesobre a diferença entre humor e política. A não perder.Sobre políticos e palhaçosSobre políticos e palhaços   No drama histórico Henrique IVde Shakespeareo que me interessa mais é a relação entre o príncipe Halque há-de vir a ser o rei Henrique Ve Falstaff. Falstaff écomo se sabepreguiçosofanfarrãogatunobêbadovigaristaglutãocobarde – a lista de defeitos é muito extensa –e o príncipepara desgosto do seu paiinsiste em conviver com ele e com o grupo de pequenos bandidos que o rodeia. Logo no início da peçavemos o príncipe no meio dos delinquentesnuma taberna. A certa alturaHal abandona-os e faz um monólogo em que revela claramente as suas intenções. É na cena 2 do primeiro acto: Sei bem quem soise por enquanto amparo Os humores sem freio da vossa ociosidade. Mas nos meus actos hei-de imitar o SolQuando permite que as nuvens peçonhentas Ao mundo ocultem toda a sua belezaPara que elesentida a sua faltaReapareçae seja então maior o espanto Por irromper das feias e nojentas brumas De vapores que o pareciam sufocar. Se todo o ano fosse feito de feriadosCansava o folguedo o mesmo que a labuta; Mas como são rarosentão são desejadosJá que nada agrada senão o que é fugaz. Quando eu me despir desta imoral conduta E pagar a dívida nunca prometidaPor quanto melhor sou do que a minha palavraTanto mais valerei do que de mim esperam. E como metal brilhante em fundo escuroA minha emendaa luzir sobre o meu erroSurgirá mais vistosamais atenção terá Se comparada com a que não tem contraste. Ao ofenderfarei da ofensa engenho E hei-de remir o tempo quando ninguém esperar. Ou sejao comportamento de Hal éna verdadeuma estratégia política. O plano épor estranho que possa parecerobter propositadamente uma má reputaçãopara que depoisquando chegar a sua vez de herdar o tronoe se apresentar subitamente honrado e íntegroa regeneração seja mais impressionante. Na altura em quecomo ele dizse despir da imoral condutaserá como o solquando as nuvens negras o descobrem e o seu brilho parece mais intenso. De Falstaff também se pode dizer que tem uma estratégiamas não é política. É humorística. É uma estratégia que parte da seguinte verificação: há uma insuperável desigualdade de forças entre nós e o mundo. O peso das coisas é demasiado difícil de suportar. Mas o mundoaparentemente sólido e inexpugnáveltem uma vulnerabilidade – talvez a única. Permite que o olhemos de mais do que uma maneira. Apontar-lhe as ambiguidades não é apenas uma artimanha – é uma pequena vingança. Umas vezes essa ambiguidade é manifestaoutras vezes é fabricada por um tipo de raciocínio astucioso e ágil que costumamos reconhecer nos burlões. Falstaff é um mestre no ofício de fazer desfeitas ao mundo através dessa estranha forma de pensar que é capaz de vergar a lógica das coisas de modo que elas sirvam o nosso conforto. Tanto Hal como Falstaff levam uma vida de pecadomas Hal peca por amor ao poder; Falstaff peca por amor ao pecado. Hal está bêbado de ambição; Falstaff está bêbado de álcoolmesmo. Na cena 4 do segundo actoo príncipe Hal e o seu companheiro Poins resolvem pregar uma partida a Falstaff: mascaradosfazem-lhe uma emboscada durante a noite; ele assusta-se e foge imediatamentedeixando para trás o dinheiro que tinha acabado de roubar a outros. Mais tardena tabernasem saber que está a falar com os seus assaltantesFalstaff conta a Hal e Poins o que aconteceufazendo ligeiras alterações à história do seu encontro com os ladrões: FALSTAFF: Já não há rezas nem meias rezas que lhes valhamdois deles fi-los eu em fanicos. Dois tenho a certeza de que arrumeidois sacanas de fatos engomados. É o que te digoHale se for mentira podes cuspir-me na cara e chamar-me cavalo. (…) Quatro sacanas engomados atiram-se a mim… PRÍNCIPE: Quatro? Mas ainda agora disseste que eram dois. FALSTAFF: Quatroeu disse quatro. POINS: Simsimele disse quatro. FALSTAFF: Avançaram os quatro juntos e atiraram-se principalmente a mim. Não estive com mais nadaparei as sete pontas das espadas no meu broquelassim! PRÍNCIPE: Sete? Mas ainda agora eram só quatro. FALSTAFF: (…) Setejuro por este punho da espadaou eu seja um miserável. PRÍNCIPE: Deixá-lovão já ser mais. FALSTAFF: (…) Dizia eu que esses nove todos engomados… PRÍNCIPE: Portantojá são mais dois. FALSTAFF: (…) Começaram a ceder terreno. Mas eu não os largueideitei-me a elese lesto como um pensamentodos onze logo ali aviei sete. PRÍNCIPE: Que monstruosidade! De dois homens engomados saíram onze! O príncipe deixa que Falstaff termine o seu relato aldrabão e depois revela-lhe o que ele e Poins tinham feito: PRÍNCIPE: Nós dois vimos vós os quatro a deitar a mão a quatroa amarrá-los e a tomar conta do dinheiro deles – tomai agora nota de como uma história simples vos deita por terra. Então nós os dois deitámos a mão a vós os quatro e num abrir e fechar de olhos arrecadámos o vosso saqueque temos connosco aqui em casa e vos podemos mostrar. Emeu caro Falstaffvós levastes embora a vossa pança com tanta levezacom tão lesta agilidadee berrastes por piedadee continuastes a correr e a berrar como nunca a um vitelo eu ouvi. Que abjecto tu éspara amolgares assim a tua espada e depois vires dizer que foi em combate. Que artimanhaque disfarceque toca vais tu arranjar agora para te esconderes desta vergonha clara e descarada? POINS: Vamos láJackque artimanha tens tu agora? IngenuamenteHal e Poins acham que Falstaff habita o mesmo mundo que elesum mundo em que a vergonha humilhaa desonra magoaa cobardia rebaixa. A resposta de Falstaff volta a revelar que ele vive de acordo com uma estratégia que o torna imune a agressões. FALSTAFF: Valha-me Deuseu reconheci-vos tão bem como quem vos fez. Oiçam cámeus senhoresentão acham que eu ia matar o herdeiro legítimo? Havia eu de me voltar contra o verdadeiro Príncipe? Vós bem sabeis que eu sou tão valente como Hércules. Mas respeito o instinto. O leão não toca no verdadeiro Príncipe. O instinto é uma coisa muito séria. Neste caso fui cobarde por instinto. Terei assim melhor opinião de mime de vóspara toda a vida – de mim como um valente leãode vós como verdadeiro Príncipe. Ou sejaatravés de um pequeno truqueFalstaff transforma a sua cobardia num gesto da maior nobreza. De factofugiu – mas não por o seu carácter ser desprezívelantes pelo contrário: por ser tão nobre que reconheceuinstintivamenteque estava na presença do futuro reie por isso não poderia atacá-lo. Enfrentá-lo com coragem teria sido a verdadeira ignomínia. Esta é a especialidade de Falstaff: transformar defeitos em virtudesderrotas em vitóriasmudar as coisas sem lhes tocaralterando apenas a maneira de olhar para elas. Na primeira cena do quinto actoFalstaff faz um discurso célebre a propósito de um valor supremo daquela época: a honra. Pode a honra endireitar uma perna? Não. Ou um braço? Não. Ou tirar a dor de uma ferida? Não. A honra então não tem jeito para a cirurgia? Não. O que é a honra? Uma palavra. O que há nessa palavra honra? O que é essa honra? Ar. Lindas contas! Quem a tem? O que morreu na quarta-feira. Ele sente-a? Não. Ouve-a? Não. Então não é sensível? Para os mortosnão. Mas não vive com os vivos? Não. Porquê? A calúnia não deixa. Portantonão quero nenhuma. A honra é apenas um pendão para funerais. E assim termina o meu catecismo. Talvez esta seja uma diferença essencial entre o mundo de Falstaff e o mundo de Hal. Para o príncipenada é mais importante do que a honratanto que vale a pena morrer por ela. É próprio de um guerreiro mostrar indiferença em relação ao corpo. Para Falstaffisso é impensável. A única integridade que lhe interessa é a integridade física. Três cenas mais adianteFalstaff põe em prática o seu catecismo. Após uma luta com DouglasFalstaff cai morto no campo de batalha. O príncipe descobre o seu cadáver e lamenta: O quêvelho conhecidonão pôde tanta carne Guardar uma exígua vida? Adeusmeu pobre Jack! (…) Mais tarde ou mais cedo vou ver-te estripadoAté lá jaz em sanguee o nobre Percy a teu lado. Quando o príncipe sai de cenaFalstaff levanta-se e diz: FALSTAFF Estripado? Se me estripares hojeautorizo-te a que me temperes e ainda me comas amanhã. Raios me partam se aquilo não era altura para fingirou aquele arruaceiro escocêsfurioso como estavatinha saldado as minhas contas até ao último centavo. Fingir? Mintoeu não sou fingidor nenhum. Morrer é que é ser fingidorporque quem não tem uma vida de homem é um homem a fingir. Mas fingir a mortequando por via disso se vivenão é ser fingidomas é ser antes a verdadeira e perfeita imagem da vida. A melhor parte da coragem é a discriçãoe foi essa melhor parte que me salvou a vida. Mais uma vezFalstaff defendecom uma lógica irrepreensíveluma ideia que parece indefensável: que entre um morto e alguém que finge estar mortoo fingidor é o defunto. E que a verdadeira coragem é discreta – e ninguém é mais discreto (epor issomais corajoso) do que o cobarde que finge estar morto para evitar o combate. Faltam duas cenas essenciais para compreendermos a diferença entre Falstaff e Hal. A quarta cena do segundo acto decorre na tabernae eles resolvem fazer um pequeno jogo de imaginação. No dia seguinteHal será chamado à cortee vai ser repreendido pelo pai. Decidem então simular esse encontropara que Hal se prepare. É uma rábula em que imaginam o que acontecerá quando o príncipe for falar com o rei. Masnessa pequena peça de teatroque encenam à frente dos amigosFalstaff interpreta o papel do jovem príncipee o príncipe interpreta o papel do pai. PRÍNCIPE EntãoHarryde onde vindes? FALSTAFF Meu nobre senhorvenho de Eastcheap. PRÍNCIPE As acusações que contra ti me chegam são graves. FALSTAFF Pelas chagas de Cristomeu senhoré tudo falso! À minha fé que vos amimo como um jovem príncipe. PRINCIPE Tu praguejasmeu desgraçado rapaz? Nem sequer olhes para mim de ora em diante. Estás definitivamente afastado da graça. Há um demónio que te apoquenta na forma de um velho gordoum tonel de gente que é teu companheiro. Porque te dás com esse baú de humoresesse crivo de bestialidadeesse inchado pacote de hidropisiasesse enorme caneco de secoessa mala de porão atafulhada de tripasesse boi assado com a pança recheadaesse reverendo Vícioessa Iniquidade encanecidaesse Avô Rufiãoessa Vaidade caquética. Em que é ele boma não ser a provar seco e a bebê-lo? Em que é esmerado e limpoa não ser a trinchar um capão e a comê-lo? Em que é hábila não ser em manhas? Em que é manhosoa não ser em patifarias? Em que é patifea não ser em tudo? Em que é honradoa não ser em nada? FALSTAFF Pudera eu acompanhar a discorrência de Vossa Graça. A quem se refere Vossa Graça? PRÍNCIPE A esse abominável patife desencaminhador da juventudeFalstaffesse velho Satanás de barba branca. FALSTAFF Meu senhoresse homem sei eu quem é. PRÍNCIPE Eu sei que sabes. FALSTAFF Mas dizer que sei nele maior mal do que em mim seria dizer mais do que eu próprio sei. Lá que ele é velhotanto mais se lamentaos seus cabelos brancos são disso testemunho; mas agora que ele sejacom o devido respeito a vossa reverênciaum putanheiroisso eu inteiramente o nego. Se seco com açúcar for um crimeque Deus valha aos malfeitores! Se ser velho e alegre for pecadoentão muito velho estalajadeiro que eu conheço há-de estar já condenado aos infernos. Se por ser gordo se há-de ser odiadoas vacas magras do Faraó serão então amadas. Nãomeu bom senhor! Apartai Petoapartai Bardolphapartai Poins; mas quanto ao doce Jack Falstaffao afável Jack Falstaffao fiel Jack Falstaffao valente Jack Falstaff – e ainda mais valentesendo como é velho o velho Jack Falstaff – não aparteis o vosso Harry da sua companhianão aparteis o vosso Harry da sua companhia. Apartai o gorducho Jacke apartareis o mundo inteiro. PRÍNCIPE Eu o façoeu o farei. Quando diz esta fraseHal já não está a imaginar que é o seu pai. Está a falar por sia anunciar o que de facto irá fazer quando for rei. Está a cometer um delito dos mais execráveis: fala a sério no meio de uma brincadeira. É o tipo de pessoa perigosa da qual se costuma dizer que não sabe brincar. De todos os que participam nesta rábulaentre actores e espectadoresele é o único que abandona o mundo da imaginação. Falta o final da peçaem que o príncipe Hal sobe ao trono. É na cena 5 do quinto acto da segunda parte da peça. Falstaff apresenta-se na cerimónia de coroaçãoe tenta chamar a atenção do amigo para o saudar. O rei dirige-se a Falstaff nestes termos: Não sei quem ésó velho. Vai às tuas rezas. Que mal ficam as brancas a um tolo e um bufão! Sonhei por muito tempo com um homem assimInchado à sobreposseassim velho e profanoMas agora acordado desprezo esse sonho. Olha menos ao corpo e mais à graçaDeixa a gulodiceque se arreganha o túmulo Três vezes mais para ti do que para os outros. Não me respondas com gracejo de toloNão me presumas a mesma coisa que eu eraPois Deus bem sabe – e o mundo há-de perceber – Que eu mandei embora a minha antiga pessoa; E o mesmo farei com quem me acompanhava. “Não sei quem ésó velho”diz o rei. Recordo queno início da peçao seu primeiro solilóquio começa com as palavras “Sei bem quem sois.” Ao rejeitar Falstaffo príncipe segue o plano que delineou e cumpre a promessa que fez. Com esta longuíssima introduçãoquero chegar aqui: parece-me que é possível entender Hal como a corporização da ideia de política e Falstaff como a corporização da ideia de humorou de comédia. Ambas as ideias assentam numa forma de dissimulaçãomas a estratégia do príncipe serve para enganar os outrosao passo que a de Falstaff é um modo de enganar os outros massobretudode se enganar a si próprio. Tanto a estratégia do príncipe como a de Falstaff têm como objectivo conseguir um benefício para aquele que a põe em prática. Mas são estratégias de natureza muito diferente. A estratégia política visa obter e reforçar o poder; a estratégia humorística éela própriao poder. A estratégia política depende de um tipo de raciocínio convencional; a humorística depende da imaginaçãoe baseia-se na ideia de que pensar nas coisas da maneira certa équase sempreinsuportável. Quem aplica a estratégia política deseja assenhorear-se do mundo; quem aplica a estratégia humorística deseja assenhorear-se de si – para resistir ao mundo. É possível que o melhor resumo seja este: tanto Hal como Falstaff desejam reinar. Mas Hal deseja reinar no sentido próprio – de ocupar o trono e governar; Falstaff deseja reinar no sentido que damos à palavra na frase “os miúdos estão no jardim a reinar”. Talvez seja por causa dessa confusão entre reinar e reinar que surgiu a ideia mitológica do enorme poder político do humor. * Sempre que se fala no poder do humor (e poder no sentido políticode ser capaz de eleger deputados e derrubar governos)os argumentos são quase sempre os mesmos. Em Outubro de 2022um artigo do Expresso sobre o poder do humor acabava assim: “Na Ucrâniao Presidente Zelensky era um humorista político. Algum poder o humor terá…” O raciocínio é simples: um humorista foi eleitologoo humor tem poder. No entantonão é preciso sair da Ucrânia para perceber que o argumento talvez tenha algumas fragilidades. O presidente da câmara da capitalKievé Vitali Klitschkoque era pugilista. Nunca ninguém assinalou o poder do pugilismo. Nem mesmo quando Manny Pacquiaooutro pugilistafoi eleito para a Câmara dos Representantesnas Filipinase mais tarde para o Senado. No Brasilquando o palhaço Tiririca foi eleito deputado federal por São Paulovoltou a falar-se do poder do humor. Masquando Alexandre Frota também foi eleito deputado federal por São Paulonão se falou muito do poder político da pornografia. Queainda por cimatinha antecedentesuma vez que Cicciolina já tinha sido eleita para o parlamento italiano. Do mesmo modoquando Arnold Schwargenegger foi eleito governador da Califórnianinguém se lembrou de alegar que talvez estivéssemos perante uma manifestação do poder dos filmes de acção. O que todas essas figuras têm em comum é o facto de serem celebridades. Equando toca a ser eleito para um cargo públicoé possível que o facto de se ser conhecido ajude. Mas a ideia do poder do humor está muito arreigada. A 17 de Setembro de 2004o humorista Jon Stewartapresentador do Daily Showfoi entrevistado por Bill O’Reilly na Fox News. O programa começou assim: https://www.youtube.com/watch?v=henBucLtitY (0:24 – 0:38) O’Reilly: Sabes o que é mesmo assustador? Tu tens de facto uma influência nestas eleições presidenciais. Stewart: Se isso fosse verdade seria mesmo assustador. O’Reilly: É verdade. Esta era uma opinião bastante populare Stewart costumava ser confrontado com ela. Fazia o que podia para a desmentirmas não era fácil. Numa entrevista à revista Timeperguntaram-lhe: “Mas então acha que o Daily Show não é influente?” Stewart respondeu: “Recomendo-lhe que olhe para o estado do mundo e depois compare com o estado em que eu gostaria que estivesse. E depois diga-me se eu tenho alguma influência.” Em 2006em entrevista à Rolling StoneStephen Colbert disse: Isto não significa que o que fazemos não tenha valor. É difícile as pessoas gostame isso é óptimo. Mas não significa que tenha um efeito político.” E Stewart acrescentou: “Ou que nós tenhamos uma agenda de transformação social. Não somos guerreiros no exército de alguém.” Noutra entrevista à mesma revistamas em 2011Stewart disse: “Toda a gente sobrestima o poder da sátira. Uma vez o Peter Cook disse uma coisa excelente. Alguém lhe disse que os satiristas mais poderosos da história tinham sido os artistas dos cabarés de Berlimnos anos 30. E o Peter Cook respondeu: simeles deram cá uma ensinadela ao Hitlernão foi? Em grande medida é isso que eu sinto.” Nada disso convenceu Bill O’Reillyque manteve que Jon Stewart iria influenciar aquelas eleições. E depois realizaram-se aquelas eleições. E George W. Bushque Stewart criticava impiedosamentefoi reeleito com mais 12 milhões de votos do que tinha obtido na primeira eleição. No entantoem 2004vários títulos de jornal informavam que um determinado estudo mostrava que os espectadores se informavam através do Daily Show. Outra prova do seu poder. Só em 2008 saiu outro estudofeito pelo The Project for Excellence in Journalismque dizia que nãoos espectadores do Daily Show obtêm a sua informação em programas de informação – caso contrárioconcluía o estudonão perceberiam as piadas. Mais tardeem Fevereiro de 2016o Huffington Post escreveu que John Oliver tinha demolido Donald Trump no seu programa. O Los Angeles Times disse que Oliver lhe tinha destruído a mística. A Rolling Stone titulou: John Oliver aniquila Donald Trump. Em Marçoa revista Bustle publicou um artigo chamado “Como Donald Drumpf e o Efeito John Oliver já influenciaram a eleição presidencial.” O texto falava sobre uma emissão do programa do humorista integralmente dedicada a Donald Trump. Oliver descobrira que os antepassados de Trump se chamavamDrumpfum nome com muito menos encanto do que Trumpe decidiu lançar o movimento “Make Donald Drumpf Again”para destruir o poder de sedução do milionário. A Bustle vaticinava que o “Efeito John Oliver” (uma expressão quealiáshavia sido cunhada pela revista Time) podia ser “aquilo que finalmente ajudaria a fazer com que o até ali indestrutível Donald Trump descesse nas sondagens”. Num artigo do mesmo géneroa revista Fortune (queem Novembro de 2015já tinha publicado uma peça intitulada “Porque é que o impacto de John Oliver não é brincadeira”)noticiava que a linha de bonés com o lema “Make Donald Drumpf Again”criada por Olivertinha esgotado. E o New York Times informava ainda que a echetégue #MakeDonaldDrumpfAgain tinha batido recordes nas redes sociais. Além dissouma aplicação para transformar todas as ocorrências cibernéticas do nome Trump em Drumpf tinha sido descarregada cerca de meio milhão de vezes. Oito meses depoiso destruídodemolido e aniquilado Trump era eleito presidente. Para desenjoarvamos voltar ao Falstaff. [anúncio] Foi o oitavo episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre .