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Sobre o povo escolhido (com Daniel Blaufuks)
Season 2 · Episode 4

Sobre o povo escolhido (com Daniel Blaufuks)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

November 6, 202430m 59s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre pessoas que sofreram as piores agruras e, não tendo outra alternativa, reagiram rindo. Resume um livro da Bíblia parecido com os Looney Tunes. Depois, pergunta a Daniel Blaufuks até que ponto a índole de um povo se revela em piadas.

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Topics

Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre pessoas que sofreram as piores agruras enão tendo outra alternativareagiram rindo. Resume um livro da Bíblia parecido com os Looney Tunes. Depoispergunta a Daniel Blaufuks até que ponto a índole de um povo se revela em piadas.Sobre o povo escolhido  Um judeu está a rezar e a sua oração é a seguinte: “Senhorsomos o teu povo escolhidoe por causa disso temos enfrentado perseguiçõesmassacresextermínio. Senhorpodes escolher outro povoagora?” Uma versão desta piada aparece no filme Um Violino no Telhadobaseado na obra do grande escritor judeu Sholom Aleichem. Uma das operações humorísticas mais produtivas é virar uma coisa de pernas para o ar. Esta piada inverte um queixume nosso conhecido: transforma a pergunta “Senhorporque me abandonaste?” em “Senhorporque não me abandonas?” É interessante que o resultado de inverter um lamento desesperado seja um lamento ainda mais desesperado. Acaba de ser publicado em Portugal o livro “Os Judeus e a Comédiauma história muito séria”de Jeremy Dauber. O livro abre com uma informação que os leitores do século XXI talvez estranhem: “Durante a maior parte da sua históriaos judeus não eram propriamente vistos como tendo um grande sentido de humor.” A sensação que temos é não só a de que há uma afinidade antiga entre o judaísmo e o humor mas também a de que esse humor tem características específicas. No entantoDauber tem razão. No século XIXtanto o francês Ernest Renan como o escocês Thomas Carlyle afirmaram famosamente que os judeus eram um povo desprovido de humor. Em 1893Hermann Adlero líder espiritual da comunidade judaica no império britânicopublicou o ensaio “Jewish Wit and Humor”“O Espírito e o Humor Judaicos”provavelmente para se defender dessa acusação. Mas em 1812um homem chamado Lippmann Moses Büschenthal tinha publicado na Alemanha um livro chamado “Colecção de ideias espirituosas de judeus como contributo para a caracterização da nação judaica”. No prefácioBüschenthal escreve: “As piadas e a sagacidade espirituosa são há muito reconhecidas como atributos do povo de Israel. (…) Que os judeus sejamde um modo geraltão engraçados como sãodeve-se aos séculos de opressão que sofreram. A necessidade e a fraquezacomo o sexo feminino demonstraderam origem à astúcia. E a astúcia é a mãe do espíritopois é mais comum entre os judeus oprimidos e pobres do campo do que entre os ricos e abastados.” Esta ideiasegundo a qual o humor judeu nasce do sofrimentotambém nos é familiar. Jeremy Dauberno entantodetecta sete correntes ou traços distintivos presentes no humor judaico. Um éde factoa “resposta às perseguições e ao anti-semitismo”. Mas há outraspor vezes contraditóriaso que é natural. Por exemploDauber diz que uma das características do humor judaico é o facto de ser “literárioespirituosocheio de referências intelectuais.” Por outro ladodiz que é também “vulgarbrejeiro e obcecado pelo corpo.” O capítulo dedicado a este traço começa com a seguinte frase: “OKjá chega de coisas inteligentes. Vamos falar sobre peidos.” Dauber diz quetradicionalmentese considera que a grande fonte do humor judaico é bíblicae encontra-se no livro de Ester. É um livro que parece um episódio do Roadrunnera série de animação protagonizada pelas personagens conhecidas em Portugal com o nome de Papa-Léguas e Coiote. Nos desenhos animadoso Papa-Léguas salva-se sempre graças à sua astúciaà burrice do adversáriomas também a uma sorte tão extraordinária que se diria estar a ser concebida por um deus gozão. Parece ser esse o deus do livro de Esterque conta a seguinte história: por uma razão que agora não interessao rei Assuero resolveu mudar de rainha. Para issoabriu uma espécie de concurso público em que as candidatas deviam comparecer no paláciopara que ele escolhesse a que mais lhe agradasse. Esteruma linda jovem judia que tinha sido criada pelo seu primo Mardoqueu foi a eleitaescondendopor recomendação do primoo facto de pertencer ao povo judeu. Mardoqueu era funcionário do palácio real eum diatendo descoberto um plano para matar o reiavisa Esterque por sua vez comunica ao marido que corre perigo. Os dois assassinos são enforcados e o rei fica muito grato a Mardoqueu. Sucede que Amãum homem tão poderoso que ocupa uma posição hierárquica superior à dos ministros (ele é o número doislogo a seguir ao rei)odeia Mardoqueuque não flecte o joelho na sua presença. Essa recusa em ser reverente enfurece Amãque decide convencer o rei a matar todos os judeus. É publicado um decreto ordenando o extermínio dos judeus e Amã manda construir uma forca de 25 metros especificamente para enforcar Mardoqueu. Nessa noiteo rei tem dificuldade em dormir e recorda o episódio em que Mardoqueu o salvou. Verificando que não chegou a recompensá-lo devidamenteno dia seguinte pergunta a Amã como é quena sua opiniãose deve tratar um homem que o rei quer honrar. Pensando que as honras são para si mesmoAmã desenha um extravagante plano de ricas homenagens. Quando percebe que é Mardoqueu que o rei quer honrarAmã enfurece-se mais ainda. EntretantoEster vai à presença do rei e desmaia na sua presença. Condoído com a sua fragilidadeo rei promete satisfazer qualquer desejo que ela tenha. Ester revela então que é judiae que o seu desejo é salvar a vida do seu povo. Amã percebe que tem a vida em riscoe implora à rainha para que o salve. Mas implorou com tal intensidade que talvez se tenha aproximado demasiadamente da rainha. O rei interpretou mal a cena e decidiu matá-lo imediatamente. Alguém se lembra de que Amã tem em sua casa uma útil forca de 25 metrose é precisamente nela que ele é enforcado. Depoissai um novo decreto real que não só revoga o plano anterior como dá aos judeus o direito de matarem todos os que os quisessem atacar. Tanto a ideia de disfarce (Ester começa por não revelar quem é)como os enganos (as honras que vão inadvertidamente parar ao inimigoa forca que acaba por matar quem a construiu) são características típicas das histórias cómicas – além do final felizevidentemente. Mas é possível que o traço principal do humor judaico seja menos festivo edigamosmais negro. Mais parecido com o da primeira história deste episódio. O psicanalista Martin Grotjahn diz o seguinte: “A agressão voltada contra o próprio parece ser um traço essencial da verdadeira piada judaica. É como se o judeu dissesse aos seus inimigos: ‘Não precisam de nos atacar. Nós sabemos fazê-lo – e melhor que vocês.’” Jeremy Dauber conta que quandoapós o caso dos cartunes dinamarqueses discutido no episódio anterior deste podcastum jornal iraniano propôs um concurso para o melhor cartoon anti-semitao ilustrador israelita Amitai Sandy anunciou outra competiçãoapenas para judeusdizendo: “Vamos mostrar ao mundo que conseguimos fazer os melhoresmais acutilantes e mais ofensivos cartunes anti-semitas já publicados! Nenhum iraniano nos vai superar no nosso próprio território!” Mais sobre isto daqui a pouco. [pausa] Foi o quarto episódio da segunda temporada de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou falar do maior humorista português.