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Sobre o meu corpo (com José Raposo)
Season 1 · Episode 15

Sobre o meu corpo (com José Raposo)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

December 20, 202335m 8s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre a graça de cair. Faz referência a dois grandes comediantes do século XX que achavam piada a estar em apuros. Cita um escritor espanhol que enumera várias maneiras de andar. No fim, conversa com José Raposo sobre os velhos tempos da revista e a figura do compère. A não perder.

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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre a graça de cair. Faz referência a dois grandes comediantes do século XX que achavam piada a estar em apuros. Cita um escritor espanhol que enumera várias maneiras de andar. No fimconversa com José Raposo sobre os velhos tempos da revista e a figura do compère. A não perder.Sobre o meu corpo Slapstick é um utensílio quecomo o próprio nome indicaé feito de madeira e produz o som de uma bofetada. E é tambémpor metonímiao nome de um determinado tipo de comédia na qual são frequentesacima de quaisquer outrasduas ocorrências: cair e levar uma chapada na cara. A queda clássica costuma ser precedida de um escorregão numa casca de bananae a cara que leva a chapada pode ser atingida pela mão ouainda melhorpor uma tarte. Uma chapada com a mão produz um susto e um barulhomas a tarte de nata garante que a humilhação perdura um pouco mais: pelo menos o tempo que leva a limpar. É um bom pretexto para perguntar o que será tão sedutor na queda e na chapada. A queda tem conotações religiosase por isso talvez seja impossível ver uma casca de banana sem pensar em Adão e Eva. E a chapada acerta na caraque é uma espécie símbolo da pessoa a que pertence. Ofendendo a caraofende-se o indivíduo todo. Jerry Lewis disse uma vez: “Não sei se tenho uma teoria cuidadosamente pensada sobre o que faz as pessoas riremmas a premissa de toda a comédia é um homem em sarilhos.” Umas décadas antesem 1918num ensaio importante chamado “The Comic Side of Trouble” (“O Lado Cómico dos Sarilhos”)Bert Williams escreveu: “Uma das imagens mais engraçadas do mundo é um homem cujo chapéu lhe saiu da cabeçaou ficou arruinado por ter sido levado pelo vento – desde queclaroo chapéu não seja o nosso.” Mas acrescentava logo a seguir: “O homem que tem verdadeiro sentido de humor é o que tem a capacidade de se pôr no lugar do espectador [de si próprio] e rir do seu próprio infortúnio.” E concluía: “Só quando fui capaz de me ver a mim mesmo como outra pessoa é que o meu sentido de humor se desenvolveu. Porque não acredito que exista algo como sentido de humor inato. Tem de ser desenvolvido com estudo e trabalho árduotal como qualquer outra qualidade humana.” Em 1918ficar sem chapéu tinha mais graça do que em 2023. O chapéu era outra maneira de dizer dignidade. Por isso é que rimos quandonos filmes do início do século XXalguém apanha o chapéu do chãodepois de ele ter sido pisado por um automóvelpor exemploe volta a pô-lo na cabeçacomo se ele estivesse intacto. Talvez seja uma boa definição de comédia: tentar convencer os outros de que a dignidade destroçada se mantém intacta. Cair é uma boa maneira de destroçar a dignidadee é provavelmente por isso que os cómicos caem muitas vezes. Não sei com que frequência Jerry Lewis terá caídomas a queda que deu no dia 20 de Março de 1965durante uma actuação no The Andy Williams Showcausou-lhe uma lesão da qual nunca mais haveria de recuperar. Dessa veza queda foi involuntáriamas toda a gente pensou que era propositada. “Afinal”diz Lewis numa autobiografia“eu tinha passado uns bons 25 anos a cair nos palcos.” Num livro chamado “La Risa Canibal”o escritor espanhol Andrés Barba faz uma observação interessante sobre o corpo dos cómicos. Diz ele: “A vida do cómico nasceprecisamentepelo mais elementarpor onde começa qualquer vida humana: aprender a caminhar.” E depois faz a lista de cómicos com modos de andar peculiares: CantinflasJacques Tati em “O Meu Tio”John Cleese em “The Ministry of the silly walks”ou Groucho Marxem quem o modo de andar éainda mais do que nos outrosa manifestação de um modo de ser. Cito Barba: “É difícil imaginar uma maneira de andar mais apropriada para a personagem que ele representou durante toda a vida: furtivodialécticoelásticoesquivomentirosoconstantemente à espreita. Groucho parece "mergulhar" ao caminhar de uma maneira completamente dissimuladadando grandes passadascom o olhar fixo e os ombros encolhidospara surgir subitamente onde deseja materializar-se de maneira inesperada. Groucho não respira enquanto caminhae o mundo por onde ele se move (…) é um mundo denso pelo qual é preciso caminhar agachadoescondido como se fosse um predadorou melhor aindacomo se estivesse permanentemente a fugir da justiça. Groucho tem o andar dos criminosos porque na realidade é um burlãoum embusteiro que tenta confundir os outros com palavras de cujo verdadeiro significado ele mesmo duvida; e quando não conseguenão lhe resta outra opção senão desapareceragachar-se e fugir.” Barba regista ainda a quantidade de vezes que o passo cómico parodia o passo militar: Benny Hillos Monty PythonSasha Baron Cohen em “O Ditador”Roberto Benigni em “A Vida É Bela”sempre que a sua personagem quer fazer rir o filho. Mas o andar cómico mais célebre de todos éprovavelmenteo de Chaplin. Não sei o que é que Chaplin descobriuquando inventou aquele modo de andarmas é indiscutível que descobriu qualquer coisa extraordinária. Tão extraordinária que levou o mundo à loucura. Havia concursos para premiar o melhor imitador da maneira de andar de Chaplin. E havia também uma cançãochamada “That Charlie Chaplin walk”. https://www.youtube.com/watch?v=Svih10EdWe4 É possível que a obsessão dos cómicos pelo acto de cair revele o desejo de transmitir a seguinte ideia: a queda não é assim tão trágicaa dor não é assim tão assustadora. E o mais interessante talvez seja o facto de essa ideia só se obter através do seguinte paradoxo: normalmenteos cómicos que exibem as limitações do corpo são os que têm maior habilidade física. A queda mais cómica só está ao alcance do acrobata mais competente. O corpo mais trapalhão tem de ser forçosamente o corpo mais ágil. Todosou quase todosos grandes cómicos do cinema mudo tinham feito o seu tirocínio nos espectáculos de vaudeville. Um parente americano do nosso teatro de revista. Mais sobre isto após uma curta pausa. [anúncio] Foi o décimo quinto episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre discorrer chatamente.ricardo araújo pereirahumorcomédiadaniel oliveirapodcastjosé raposorodrigo leãoespetáculovaudevilleteatrorevistaportuguesaportugalliteratura