PLAY PODCASTS
Sobre o melhor remédio (com Manuel Neves)
Season 2 · Episode 1

Sobre o melhor remédio (com Manuel Neves)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

October 16, 202439m 2s

Audio is streamed directly from the publisher (traffic.omny.fm) as published in their RSS feed. Play Podcasts does not host this file. Rights-holders can request removal through the copyright & takedown page.

Show Notes

Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre a divertida prática ancestral que consiste em escarnecer de médicos. Cita uma peça do século XVII sobre um doente imaginário escrita por um doente verdadeiro. Lê epigramas satíricos de um poeta setubalense que também desconfiava da medicina. Relata uma epidemia de riso ocorrida em África há mais de 60 anos. No fim, conversa com o eminente hematologista Manuel Neves sobre a seguinte circunstância: por um lado, a hematologia é admirável e complexa; por outro, contém a palavra tolo.

See omnystudio.com/listener for privacy information.

Topics

Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre a divertida prática ancestral que consiste em escarnecer de médicos. Cita uma peça do século XVII sobre um doente imaginário escrita por um doente verdadeiro. Lê epigramas satíricos de um poeta setubalense que também desconfiava da medicina. Relata uma epidemia de riso ocorrida em África há mais de 60 anos. No fimconversa com o eminente hematologista Manuel Neves sobre a seguinte circunstância: por um ladoa hematologia é admirável e complexa; por outrocontém a palavra tolo.Sobre o melhor remédioNo dia 17 de Fevereiro de 1673um homem que tinha acabado de fingir que estava morto no palco de um teatrofoi para casa e morreu mesmo. O homem chamava-se Jean-Baptiste Poquelinera mais conhecido pelo nome de Molièree a peça em que simulava estar mortoa última que escreveuera Le Malade ImaginaireO Doente Imaginário. O protagonista é Arganum hipocondríaco. Masembora Argan e a sua hipocondria também sejam justamente escarnecidosa sátira dirige-se sobretudo aos médicos. Troçar de médicos e da medicina é uma tradição antiga. Marcialo poeta latinoescreveu muitos epigramas troçando de médicos. Um dos mais famosos dizia algo como “O Diaulus começou por ser médico mas agoranuma evolução de carreira lógica e coerentepassou a ser coveiro.” Para Marciala ciência médica era uma charlatanice que redundava com frequência na morte do paciente. Talvez seja exagerado chamar ciência médica às práticas clínicas de há dois mil anos. Plínioo Velhona sua “História Natural”publicada no primeiro século depois de Cristodescrevia um tratamento dentário que consistia emcito“introduzir nas cavidades dos dentes as cinzas das fezes de ratos ou do fígado seco de lagartos.” Era mais ou menos natural que houvesse sátiras sobre isso. Poetas mais recentes e mais próximos de nós mantiveram o saudável hábito de rir da profissão médica. No século XVIIIBocage escreveu vários epigramas satíricos sobre médicos. Por exemplo: “Doutoraté do hospital / Te sacode enfermo bando. / Qual será disto a causal? / É porqueem tu receitando/ Qualquer doença é mortal.” Ou: “Um chapadoum retumbante / Corifeu de Medicina / Certa menina adorava/ E adoeceu-lhe a menina. // Ei para curá-la o chamam/ Pela alta fama que tem. / Geme o doutore responde: ‘Não vouque lhe quero bem.’” Ou ainda: “Lê-se numa sepultura / Da antiguidade Afonsina: / ‘Aqui jaz quem não jazera/ Se jazesse a Medicina.’” Só mais um: “Um homem ricooutro pobre / Grave moléstia prostrou. / Qual deles morreu? O rico/ Que mais remédios tomou.” Menti. Afinal vou ler mais este: “Lavrou chibante receita / Um doutor com todo o esmero; / Era para certa moça/ Que ficou sã como um pêro. // ‘Tão cedo! É milagre!’ (assenta / A mãeque de gosto chora). / ‘Minha mãenão é milagre: / Deitei o remédio fora.’” Uma curiosa tradição humorística junta médicos e pintores. Certa história que atravessou tempos e lugares diz que um pintor mudou de cidade para se tornar médico noutro lugar. Um homem que o conhecia perguntou-lhe a que se devia a mudança. O pintoragora médicorespondeu: “como médicodesespero muitas vezes para encontrar a cura para determinado doente. Mas às vezesquando volto à sua presençaencontro-o curado. Como pintornunca me aconteceu deixar um quadro a meio e depoisao regressar ao estúdioencontrá-lo terminado.” Também persistentes eram histórias que descreviam o percurso inversoem que um médico se tornava pintor. A razão era a seguinte: os erros do pintor ficam à vista de todos os que contemplarem os seus quadrosmas ninguém vê os erros do médico. que são enterrados a sete palmos de profundidade. Molière tem uma aversão particular aos profissionais de saúde do seu tempo. Em L’Amour Médecinuma das personagens discorda que se diga que determinada pessoa morreu de febre ou de pleurisia. Deve dizer-se que morreu de quatro médicos e dois farmacêuticos. E n’O Doente ImaginárioMolièrenessa altura já muito doenteestá ainda mais irritado. Logo num dos prólogosuma pastora lamenta: “Vosso mais alto saber não passa de pura quimeramédicos vãos e sem juízo.” E depois assistimos às provações de Arganrodeado de médicos charlatães (uma expressão quepara Molièreé um pleonasmo) que o submetem a constantes clisteres e purgastratamentos que não têm outro efeito a não ser torturar o paciente e fazê-lo gastar dinheiro em vão. A certa altura da peçaBéraldeirmão de Argandiz-lhe estar convencido de que ele não sofre de qualquer doençaexprime a sua desconfiança em relação à medicina e propõe-lhe um melhor remédio: levá-lo a ver uma comédia de Molièrepara o animar. Arganque nas primeiras representações da peça era interpretado pelo próprio Molièreresponde: “Esse teu Molièrecom as suas comédiasé um bom impertinente. Acho muito engraçado que ande a fazer pouco de pessoas honestascomo os médicos.” O irmão diz que Molière faz pouco de toda a genteincluindo príncipes e reise que os médicos são um alvo tão bom como qualquer outro. Ainda hoje persiste o riso cruel sobre a atrapalhação dos médicosque fatalmente os leva a cometer erros. Há menos de 100 anoso português Egas Moniz foi galardoado com o Prémio Nobel da Medicina por um tratamento que nos nossos dias é considerado abominável. Chama-se lobotomia. Abrir a cabeça de um paciente como se fosse o capô de um carro para mexer lá dentro passou de magnífico a execrável em poucas décadase quem assiste ao decorrer desse processo não pode deixar de o considerar hilariante. Com muito menos estudos do que os médicosos humoristas riem deles. Concedo que seja muito injusto. Mas a profissão médica é evidentemente cómica. Os médicos estudam muitoe ao longo de toda a vidaassuntos extraordinariamente complexos. No entantouma boa parte do trabalho tem mais a ver com actividades que se praticam no talho e na sala de costura. É divertido verificar que pessoas com uma formação académica muito avançada passam boa parte do tempo a retalhar carne e a cosê-la. Há um contraste irresistivelmente engraçado entre a erudição e a solenidade da tarefa de salvar vidaspor um ladoe a prática prosaica edigamossujapor outro. Um médico é um bruto. É um bruto com estudosmas é um bruto. Uma operação cirúrgica é um conjunto de facadas. São facadas sábiasmas são facadas. Ao longo dos séculospessoas relescomo os humoristasentretiveram-se a escarnecer dos esforços da medicina. Para cúmuloos médicos ainda têm de ouvir quede acordo com uma crença bastante arreigadarir é que é o melhor remédio. Na verdadenão é. De factoo riso é muito mais parecido com uma doença do que com um remédio. Provoca convulsões físicas relativamente violentasdesfigura as feições do rosto e pode provocar dor de barriga. Além dissotal como algumas doençasé contagioso – às vezesdevastadoramente contagioso. No dia 30 de Janeiro de 1962três alunas começaram a rir num colégio interno feminino em Tanganica. De repenteos ataques de riso alastraram a 95 das 159 alunas do colégio. A primeira vaga da epidemia durou cerca de um mês e meio. Em Marçoa escola entrou em quarentena. Em Maio reabriumas uma segunda vaga de riso descontrolado atingiu 57 alunase a escola voltou a fechar em Junho. As alunas foram para casa e contagiaram alguns habitantes das aldeias em que viviamespalhando a epidemia fora das paredes do colégio. Houve notícia de localidades afectadas num raio de cerca de 150 quilómetros do epicentro. Um ano e meio depois de ter começadoe após ter provocado o encerramento de 14 escolasa epidemia extinguiu-se. Não sendo o melhor remédio – ou sequer um remédio – o riso éainda assimum expediente ao qual os médicos recorrem. Um estudo de 1959 revelasem grande surpresacreioque o humor é um dos mais importantes modos de reagir à ansiedade de lidar com a doença e a mortetanto para os médicos como para os doentes. Num artigo publicado em 1985 numa revista académicaum enfermeiro anestesista dirige-se à filha de um pacientedizendo: “Sei que me viu rir após a morte do seu pai. Eu estava a lavar a cara num lavatório a meio caminho entre a sua sala de espera e o gabinete em que o corpo dele estava deitado. Alguém fez uma piada e eu ri-mecomo um idiotaesquecendo o decoro até encontrar o seu olhar por cima do ombro do médico – os seus olhos cheios de lágrimas. Devo ter-lhe parecido um palerma insensível vestido de pijama verdeuma personificação de tudo o que é frio e impessoal nos hospitais. Em silêncioenxuguei o rosto com toalhas de papel ásperas como serapilheira e voltei para a sala de operações. A minha gargalhada foi desapropriadae por isso peço desculpa. Masmesmo assimfoi necessária. (…) Nenhum de nós naquela sala encarou as suas tarefas de ânimo levemuito menos eu. (…) Confrontar a morte com tanta frequência como nós o fazemos nos hospitais faz com que a tristeza acabe por pesar mais na balança. Não temos alternativa a não ser procurar as nossas próprias fontes de alegria que sirvam de contrapeso. (…) [A] fonte mais universalbarataigualitárialegal e portátil de alegria é o riso. Espero que seu pai entendesse que minha gargalhada não significava falta de respeito. Era uma tentativa de equilíbrio (…). Naquele diaquando me viu a rireu sabia que tinha outro paciente à esperaa precisar da minha atenção na cirurgia. Enquanto estava alia lavar suor e vómito do meu rosto e dos meus braçosa minha gargalhada não foi menos purificadora para mim do que as suas lágrimas foram para si.” Mais sobre isto já a seguir. [pausa] Foi o primeiro episódio da segunda temporada de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou tentar falar de um tema do qual infelizmente nada seique é: mulheres.ricardo araújo pereiracomédiahumorportugalliteraturasaúdecoisa que não edifica nem destróitinta da chinaexpressosic