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Sobre moscas (com Tati Bernardi)
Season 1 · Episode 6

Sobre moscas (com Tati Bernardi)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

October 18, 202339m 28s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre um bicho reles, inútil e sujo, e no fim descobre que esteve a falar de si próprio. Antes de chegar a essa conclusão pouco surpreendente, revela conhecer em profundidade o pensamento de um autor grego, de um autor romano, de um autor guatemalteco, de um autor espanhol, de um autor sueco e de um autor americano – mas esse pensamento é sempre sobre moscas. No fim, fala com Tati Bernardi sobre o modo como ela é irredimivelmente vil e, por isso, excelente. A não perder.

A bibliografia deste episódio está disponível nos sites da SIC e do Expresso.

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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre um bicho relesinútil e sujoe no fim descobre que esteve a falar de si próprio. Antes de chegar a essa conclusão pouco surpreendenterevela conhecer em profundidade o pensamento de um autor gregode um autor romanode um autor guatemaltecode um autor espanholde um autor sueco e de um autor americano – mas esse pensamento é sempre sobre moscas. No fimfala com Tati Bernardi sobre o modo como ela é irredimivelmente vil epor issoexcelente. A não perder.Sobre moscasSobre moscas   Um diadurante as gravações do filme “The Gold Rush”Chaplin irritou-se de tal modo com uma moscaque interrompeu uma reunião entre os criadores do filmee começou a persegui-la pelo estúdio com um mata-moscas. A certa alturaa mosca pousou numa mesa e Chaplin aproximou-se muito devagarcom o mata-moscas em riste. E depois parou e pousou o mata-moscas. “Que foi?”perguntaram-lhe. Ele respondeu: “Era outra mosca”. Acabo de cometer um pequeno delito. Comecei a falar sobre moscas sem primeiro recordar Augusto Monterroso. Sempre que alguém quer dedicar-se a pensar sobre moscascoisa que acontece com muito menos frequência do que deveriaa lei manda que antes de mais nada o autor da reflexão cite o grande escritor guatemalteco. Augusto Monterroso é conhecido por ser o autor de um dos mais curtos contos da história da literatura. Título: “O dinossauro”. Vou ler o conto na íntegra: “Quando acordouo dinossauro ainda lá estava.” Fim. E Monterroso é ainda mais conhecido pela célebre primeira frase de um texto chamado “As Moscas”que é esta: “Há três temas: o amora morte e as moscas.” O texto continua assim: “Desde que o Homem existeesse sentimentoesse temoressas presenças têm-no acompanhado sempre. Tratem outros dos dois primeiros. Eu ocupo-me das moscasque são melhores do que os homensmas não do que as mulheres.” Este fascínio com as moscas parece-me perfeitamente justificado. O escritor espanhol Enrique Vila-Matas conta (depois de citar devidamente Augusto Monterroso) que uma vezquando estava na esplanada do Hotel Charlestonna cidade colombiana de Cartagenauma mosca incomodativa começou de repente a afogar-se num sumo de tomate. E ele resolveu matá-la despejando-lhe em cima uma grande quantidade de sal e pimenta. Concedo que não é das histórias mais interessantes de sempremas revela duas ou três coisas significativas acerca das moscas. A primeira é que são irritantesa segunda é que são gulosasa terceira é que os seres humanos recorrem a meios desproporcionais para as matar. Um magnífico livro sobre a obsessão por moscas chama-se “The Fly Trap”. É o título da tradução inglesa. O nome da edição original sueca eu não consigo pronunciar. O autor é o entomologista sueco Fredrik Sjöbergque estuda as moscas-das-flores. O mundo dos insectos é demasiado vastoe mesmo o das moscas é demasiado grande para poder ser abarcadoe por isso Sjöberg escolheu as moscas-das-floresum tipo de mosca queinteligentementepara se proteger dos predadorestem um aspecto muito semelhante ao de uma abelha. É disso que Sjöberg fala – não sem antes citarna epígrafeAugusto Monterrosoevidentemente. O livro mistura autobiografiahistória da entomologiae reflexões sobre a naturezao silêncioa solidãoo infinitamente pequenoa obsessão. Andrew Brownna Literary Review chamou-lhe “one of the most delight-filled books I have read in years”um dos livros mais cheios de delícias que li em anos. Pode parecer surpreendente mas o livro ganhouem 2006na Suéciaum prémio de literatura humorística. Provavelmente por causa de parágrafos como este: “A literatura entomológica que rapidamente começou a encher a minha casa na ilha fala de um cientista finlandês chamado Olavi Sotavaltacujos interesses incluíam uma investigação sobre as frequências das asas dos insectos. Em particularele ocupava-se dos mosquitos-pólvoraque conseguem atingir uma frequência impressionante de 1.046 batimentos de asa por segundo. Instrumentos sofisticados no seu laboratório permitiam que ele fizesse as suas medições de forma exacta e inequívocamas tão importante para a pesquisa de Sotavalta era a sua maravilhosa musicalidade e o fato de ter ouvido absoluto. Ele podia determinar a frequência simplesmente ouvindo o zumbidoe a sua fama foi estabelecida quandonuma famosa experiênciaconseguiu aparar as asas de um mosquito-pólvora para aumentar a frequência além dos limites do que parecia possível. Ele aqueceu o minúsculo corpo do mosquito alguns graus acima do normal e cortou as suas asas com um bisturi para minimizar a resistência do arapós o que o pequeno bicho alcançou nada menos que 2.218 batimentos de asa por segundo. Isto foi durante a guerra.” A obsessão pelo que é insignificante é uma estratégia humorística eficaz. Resta saber se as moscas são um assunto insignificante. No seu famoso “Elogio das moscas”Luciano de Samósata escreve: “Da sua coragem e da sua bravura não preciso de ser eu a falarmas sim o mais grandiloquente dos poetasHomero. De factoao pretender elogiar o melhor dos heróiscompara a sua bravuranão à de um leãode um leopardoou de um javalimas sim à audácia da mosca e à intrepidez e tenacidade da sua arremetida. O poeta não diz que ela tem thrásos‘descaramento’mas sim thársos‘audácia’.” Luciano refere-se a cenas como aquelana Ilíadaem que as tropas gregas começam a aglomerar-seperto de Tróia. Além de comparar os guerreiros com o fogo violentocom touros e com pássaros cujos gritos fazem ressoar toda a pradariaHomero diz: “Tal como as muitas raças de moscas enxameantesque zumbem através da propriedade do pastor na estação primaverilquando o leite enche os baldes — assim contra os Troianos estavam os Aqueus de longos cabelos posicionados na planíciedesejosos de os desmembrar.” No entantotalvez a nossa opinião acerca das moscas esteja mais longe do poema de Homero e mais próxima do poema “The fly”de Ogden Nash: “God in His wisdom made the fly And then forgot to tell us why.” “Deusna sua sabedoriacriou a mosca / e depois esqueceu-se de nos dizer porquê.” Parece-me que é isto: nós não compreendemos a moscanem a razão da sua existência. É inútil. Não é admirávelcomo a abelha e a formigaque são obreiras. É chata e gulosacomo sabe toda a gente que já tentou fazer um piquenique em paz. Dizem que tem um apetite sexual insaciável. É porcaobcecada não só por excrementos mas por qualquer matéria morta. Está associada à morte e ao demónio. Os dicionários etimológicos esclarecem que a palavra Belzebuum dos nomes do diaboprovém do termo hebraico que significa “Senhor das Moscas”. Ainda assima criação dotou-a de um sofisticadíssimo sistema de defesa que torna quase impossível apanhá-la. De quem é que o Criador gosta mais: de mimque muitas vezes não consigo desviar-me de ameaças que estão mesmo à minha frente; ou de uma moscaque é capaz de se esquivar de inimigos vindos de todo o lado? Eu ou a mosca: em qual destes animais se fez um investimento mais forte em protecção e segurança? A resposta parece-me evidente. Mais: há diassoube que os cientistas descobriram que as moscas zumbem em fá. As moscastodas as moscas do mundoquando voamproduzem a nota musical fá. O cuidado que foi posto na criação da moscaa minúcia com que a obra foi feita é tal que alguém ou alguma coisa se dedicou a pormenores como este: as moscas zumbem impecavelmente afinadas. Em contraponto com o esmero e o rigor milimétrico com que as moscas foram feitaseu subo uma escada e os meus joelhos estalam. Cada um na sua nota. Provavelmente por despeitoexactamente o mesmo despeito de Caimnós damos à mosca tratamento igual ao que reservamos para os piores criminosos: a morte por electrocussão. As tascas instalam aqueles aparelhos de lâmpadas roxas fritam moscasnós adquirimos umas raquetes que fritam moscas. Eno entantoa mosca épara todos os efeitosinofensiva. Chegámos finalmente ao ponto essencial da minha teseque é este: quem mais é que é irritanteinútilfrequentemente apontado como diabólico e atraído por excrementos? Quem mais é quealém dissoé guloso – como Falstaffpor exemplo? Quem mais é que é dotado de uma espécie de invulnerabilidade e tem uma obsessão com a morte? Preciso de dizer? É o humorista. Portantoé possível que aquela história com a qual começámos esta conversa não seja o que parece. Ninguém desperdiçaria assim a oportunidade de matar uma moscanem mesmo Chaplinnem mesmo para fazer aquela excelente rábula. Acontece que Chaplin deve ter percebido naquele momento que moscas e humoristas são almas gémeas. Aquilo que ele fez ao poupar a vida da mosca não foi uma piada. Foi solidariedade profissional. Na segunda parte vou conversar com Tati Bernardique é uma espécie de encarnação brasileira do “Poema em linha recta”de Álvaro de Campos. Vou deixá-lo aquideclamado por [] e já voltamos a falar. [anúncio] Foi o sexto episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre bater em humoristas.moscashumorcomédialiteraturatati bernardiricardo araújo pereirapodcastsicpoema em linha rectaálvaro de camposfernando pessoaportugalexpresso