
Season 2 · Episode 2
Sobre metade da Humanidade (com Mariana Cabral)
Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira
October 23, 202429m 41s
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Show Notes
Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre um homem que está convencido de que os homens procuram o riso das mulheres. Depois, cita uma mulher que está convencida de que os homens temem o riso das mulheres. Dá vários exemplos de mulheres que riem perigosamente. No fim, conversa com Mariana Cabral sobre isto de ser do sexo feminino.
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Topics
Em Janeiro de 2007o colunista inglês Christopher Hitchens escreveu na revista Vanity Fair um texto provocatoriamente intitulado “Why women aren’t funny”“Porque é que as mulheres não têm graça”. A tese central do texto é a seguinte: fazer rir é uma estratégia de seduçãoe as mulheres têm outrasmuito melhores. A principal tarefa de um homemdiz Hitchensé impressionar o sexo opostoe a natureza dotou-o de poucas armas para esse empreendimento. O homem médio tem apenas uma hipótese: fazer a mulher rir. Hitchens nota quealém do maiso risoaquele riso que transforma a expressão do rostoleva a cabeça a inclinar-se para tráse faz com que o corpo se abandone a uma espécie de convulsão involuntáriaparece mesmoenfimparece mesmo outra coisa. Oraas mulheresconsidera Hitchensnão sentem uma necessidade equivalente de agradar aos homens deste modoporque já agradam aos homens de outras maneiras. Isto não quer dizerprossegue Hitchensque as mulheres sejam desprovidas de humorou que não haja grandes comediantes do sexo femininoe aponta como exemplos Dorothy ParkerNora Ephron e Fran Lebowitzentre outras. Para testar a sua teoriaHitchens telefona a Fran Lebowitzque responde: “Os valores culturais são masculinos; uma mulher dizer que um homem é engraçado é o equivalente a um homem dizer que uma mulher é bonita. Além dissoo humor é em larga medida agressivo e preventivo [ela usava a palavra no sentido que tem na expressão bélica “ataque preventivo”]e o que é que pode ser mais masculino do que isso?”
Outro aspecto que afasta as mulheres do humor é o facto deo ser humano serele mesmouma piada. A decrepitude do corpo masculino é engraçadamas as mulheres não acham graça ao seu declínio físico. A reprodução éno entender de Hitchensa questão central – ou até a única – para as mulheres. O humor tem origem no facto inelutável de que nascemos todos para uma luta perdidaescreve ele. E acrescenta: a missão de trazer crianças ao mundo impede que sejamos dados a frivolidades. Para as mulheresconcluia questão de ter graça é secundáriaporque têm a noção inata de um chamamento superior que não é para rir.
Hitchens junta ainda outra ideia: o humor é frequentemente apontado como sinal de inteligência ediz elemuitas mulheres
acreditam que se tornam ameaçadoras para os homens se lhes parecerem demasiado inteligentes.
O riso feminino parece ter sido sempre problemático. No primeiro livro da BíbliaDeus anuncia a Abraão o seguinte: “(…) Saratua mulherterá um filho. E ouviu-o Sara à porta da tendaque estava atrás dele. E eram Abraão e Sara já velhos e adiantados em idade; já a Sara havia cessado o costume das mulheres. Assimpoisriu-se Sara consigodizendo: Terei ainda deleite depois de haver envelhecidosendo também o meu senhor já velho? E disse o Senhor a Abraão: Por que se riu Saradizendo: Na verdadegerarei eu aindahavendo já envelhecido? Haveria coisa alguma difícil ao Senhor? Ao tempo determinadotornarei a ti por este tempo da vidae Sara terá um filho. E Sara negoudizendo: Não me riporquanto temeu. E Deus disse: Não digas issoporque te riste.” Sara tinha 90 anosAbraão tinha 100. Que ela se risse da ideia de ir engravidar é bastante natural. Mas “porquanto temeu”preferiu mentir a admitir que tinha rido. Entre mentir a Deus e rir de Deusela achou que a primeira hipótese era melhor.
No nosso tempoao que tudo indicao riso feminino mantém-se ameaçador. Em Janeiro de 2017Desiree Fairooz foi assistir à cerimónia de confirmação de Jeff Sessions como novo procurador-geral dos Estados Unidos. Fairooz estava na cerimónia em protestopor considerar que Sessions tinha um comportamento discriminatório em relação aos negros. Quando o senador republicano Richard Shelby disseno seu discursoque Sessions tinha a reputação de sempre ter tratado todos os cidadãos de igual modo perante a leiFairooz riu-se. Segundo a CNNa gargalhada durou três segundos. A polícia retirou-a da sala e Fairooz foi acusada de desacatos e perturbação da ordem pública. Em Maiofoi condenada. Em Julhoo juiz indicado para pronunciar a sentença anulou a condenação e convocou novo julgamento. Em Novembrodez meses após o delitoo Estado retirou finalmente as acusações.
Num texto chamado “Writing The Male Character”que leu numa conferência sobre a escrita de personagens masculinasMargaret Atwood escreve o seguinte:
“‘Porque é que os homens se sentem ameaçados pelas mulheres?’perguntei a um amigo do sexo masculino. (Adoro este
maravilhoso recurso retórico‘um amigo do sexo masculino’. É frequentemente usado por jornalistas mulheres quando querem dizer algo particularmente maldosomas não querem ser responsabilizadas por isso. Também serve para mostrar que temos amigos homensque não somos uma daquelas criaturas míticas que deitam fogo pela bocaas Feministas Radicaisque andam por aí com pequenos pares de tesouras e dão pontapés nas canelas dos homens se eles lhes abrirem a porta. ‘Um amigo do sexo masculino’ também confere – admitamos – um certo peso às opiniões expressas.) Ora bemesse amigo do sexo masculinoquea propósitoexiste mesmoentrou convenientemente no seguinte diálogo. ‘Refiro-me ao seguinte’disse eu‘os homens são maioresna maior parte das vezescorrem mais depressaestrangulam melhor eem médiatêm muito mais dinheiro e poder.’ ‘Eles têm medo que as mulheres se riam deles’disse ele. ‘Que subvertam a sua visão do mundo.’ Depois perguntei a algumas alunas num seminário breve de poesia que estava a dar: ‘Porque é que as mulheres se sentem ameaçadas pelos homens?’ ‘Têm medo de ser mortas’disseram elas.”
Alguém sintetizou este trecho da seguinte forma: “Os homens têm medo que as mulheres se riam deles; as mulheres têm medo que os homens as matem.” Esta frase é a sua própria demonstração prática. É proferida por uma mulher que está a arriscar rir dos homens. E tem uma grande vantagem pedagógica: ridiculariza o medo de ser ridicularizado. Estabelece uma distinção clara entre um acto de violência física e o acto de rir de alguém. Fazer isso éhojeprestar um serviço importante.
Donald Trump é conhecido por inventar alcunhas ofensivas para os seus adversários. Hillary Clinton era “Lyin’ Hillary” (Hillary mentirosa)Joe Biden é “Crooked Joe” (Joe vigarista). Mas a Kamala Harris ele tem aplicado outro epíteto: “Laughing Kamala”. Ou sejaKamala ridenteKamala que ri. “Já a ouviram rir? Ela é louca”disse ele em vários comícios. Mulheres que riem são loucas e perigosas – até porque constituem um perigo para os outros e para elas mesmas. No início do século XXem que os primórdios do cinema coincidiram com o auge da popularidade do vaudevilleos jornais americanos publicaram uma série de notícias sensacionais sobre mulheres que literalmente morriam de riso em
salas de espectáculos. Confrontadas com a novidade do cinemaas vítimas não aguentavam o poder das comédias e riam até à morte. O pânico em torno de mortes provocadas pelo riso fez com que as seguradoras da época lançassem seguros contra o risco de morrer a rir em espectáculos de comédia.
Pouco depois de Trump ter feito considerações acerca do riso de Kamala HarrisVladimir Putin fez o mesmo. “Tem um riso tão expressivo e contagioso que isso significa que está tudo bem com ela”disse elecom ironia. E no dia 27 do mês passadoSantana Lopes escrevia no Correio da Manhã: “(…) os Democratas escolheram (…) esse vazio inconcebível que dá pelo nome de Kamala Harris. Se não têm visto as intervençõesfaçam o favor de procurar. Já acompanhei dezenas e dezenas de eleições eao nível equivalentegaranto que nunca vi nada assim. Sobre essa candidatadeixa-nos em pânico só a hipótese de ganhar aquele conjunto de banalidades envolto em permanentes e despropositadas gargalhadas.”
Tenho dificuldade em considerar uma coincidência que tantos homens revelem algum incómodo com o riso de uma mulher. O risoque além do mais é do domínio do prazer e tem laivos de certa irracionalidadenão é para histéricasque têm dificuldade em controlar-se – ao contrário dos homensevidentemente. Só eles estão aptos a lidar com essa substância nociva. No entantoé curioso que Trumppor exemploo paradigma do homem fortecapaz de enfrentar qualquer perigo sem medoque sobrevive até a atentados e volta a erguer-sede punho erguidocom sangue no rosto – é curiosodizia euque Trump nunca tenha sido vistopelo menos que eu me lembrea dar uma gargalhada. Leva tiros e permanece imperturbável. Mas rirele não arrisca.
Mais sobre isto daqui a pouco.
[pausa]
Foi o segundo episódio da segunda temporada de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel
Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódioSobre metade da humanidade