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Sobre esses malandros (com António Prata)
Season 1 · Episode 9

Sobre esses malandros (com António Prata)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

November 8, 202332m 20s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre um turco do século XIII. Conta dez histórias. A propósito de humor refere, sem que se perceba porquê, o golo de Carlos Alberto na final do campeonato do mundo de 1970. Lê, com sotaque português, um texto escrito em português do Brasil, o que se revela catastrófico. No fim, fala com António Prata sobre malandragem em geral e sobre malandragem brasileira em particular. A não perder.

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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre um turco do século XIII. Conta dez histórias. A propósito de humor referesem que se perceba porquêo golo de Carlos Alberto na final do campeonato do mundo de 1970. Lêcom sotaque portuguêsum texto escrito em português do Brasilo que se revela catastrófico. No fimfala com António Prata sobre malandragem em geral e sobre malandragem brasileira em particular. A não perder.Sobre esses malandrosSobre esses malandros   Um homem está à procura de alguma coisa no chão. Chega um amigo e dispõe-se a ajudar: – O que é que perdeste? – As minhas chaves. – Tens ideia de onde as perdeste? – Dentro de casa. – Então porque é que estás a procurá-las na rua? – Aqui há mais luz. Este homem é muito burro ou muito inteligente? A pergunta é mais difícil do que parece. Por um ladoé capaz de ser mais sensato procurar uma coisa no sítio em que a perdemos. Mas também parece incontestável que é melhor procurar uma coisa onde há boa iluminação do que às escuras. O homem que protagoniza esta história chama-se Nasreddin Hodja. Segundo o professor Şükrü KurganNasreddin Hodja nasceu em 1208 e morreu em 1284. Mas há boas razões para acreditarmos que muitas das histórias que se contam sobre ele são apócrifasassim como parece evidente que as anedotas de Bocage não foram todas protagonizadas pelo poeta setubalense. Mas Nasreddin é uma figura importantíssima do folclore do médio oriente. Há estátuas em sua homenagem desde Bruxelasna Bélgicaaté Astanano Cazaquistão. A Turquia tem estátuas de Narseddin Hodja em várias localidades. A estátua é quase sempre a mesmae representa Nasreddin sentado ao contrário num burroou sejavirado na direcção da cauda do animal. É uma referência a mais uma das suas histórias. Alguém encontra Nasreddin e pergunta: porque é que estás sentado ao contrário? Ele responde: eu estou sentado na direcção certao burro é que vai ao contrário. Várias das histórias de Nasreddin incluem um burro. Um vizinho vai a casa de Nasreddin e pede-lhe o burro emprestado. ele responde: lamentomas já o emprestei a outra pessoa. Nesse momentoouve-se o burro a zurrardentro do estábulo de Nasreddin. O vizinho zanga-se: então mas eu estou a ouvir o burro ali… E Nasreddin fecha-lhe a porta na cara dizendo: um homem que acredita mais na palavra de um burro do que na minha não merece que eu lhe empreste nada. Só mais uma história (antes de contar várias outras histórias): um diaum ladrão assalta a casa de Nasreddin e leva todos os seus pertences. O ladrão volta para sua casa só que Nasreddin segue-o. Surpreendido por ver Nasreddin em sua casao ladrão pergunta: o que fazes aqui. Nasreddin responde: ao que pareceestou em processo de mudança para esta casa. Por issovinha pagar o primeiro mês da renda. Nasreddin é aquilo a que em inglês se costuma chamar um trickster. Na imaginação das pessoas que falam portuguêstalvez essa figura se chame “malandro”. O que me interessa é o tipo de raciocínio específico a que o malandro recorreporque implica um olhar sobre as coisas que obedece a uma lógica muito diferente da habitual. Note-se que éapesar dissouma lógica. Uma antilógicase quisermosmas uma lógica. Nas histórias de Nasreddin ele é muitas coisas: umas vezes é um sábiooutras vezes é um juizum médicoum camponês ou um professor. Mas é sempre uma espécie de filósofo. O que ele pratica não é o contrário da filosofiaé uma filosofia do avesso. É diferente. Uma camisola do avesso não é o contrário de uma camisola. Continua a ser uma camisolaestá é do avesso. Às vezeso raciocínio do malandro é apenas a astúcia pela astúcia. Mas quase sempre tem um objectivo egoísta: destina-se a facilitar a vida ao malandro. E – essa é a parte milagrosa – não dá muito trabalhoporque é quase sempre uma operação do olhar. Trata-se apenas de ver de outra maneira. Onde o mundo inteiro vê um assaltoo malandro vê uma mudança de casa. E é melhor (enfimmenos mau) mudar de casa do que ser vítima de um assalto. No fundoo raciocínio do malandro é um modo de fazer batota na vida. A história da sopa da pedra é um bom exemplo. Um frade pobre bate à porta de uma casa a pedir esmola. Os donos da casa recusam. O frade encolhe os ombros e diz para si: bomvou ver se faço uma sopa com esta pedra. Os donos da casa riem-se dele. Esta parte é importante. O mundohabituado ao modo de raciocinar convencionalri-se do malandro. Fazer uma sopa com uma pedra? Sempre queremos ver isso. O frade pede uma panela com águadeposita a pedra lá dentroe põe ao lume. Os donos da casa perguntam: e basta isto para fazer a sopa? Basta istodiz o frade. Claroficava ainda melhor se tivessem um fiozinho de azeite que me pudessem dispensar. Interessados em ver como se faz sopa com uma pedraos donos da casa acedem. E o frade vai pedindo mais um bocadinho de salcouveum pedaço de chouriço para dar graçaetc. tudo ingredientes que não são essenciais para a sopa da pedraclaromas que se destinam a dar-lhe um saborzinho. Depois o frade come a sopa até ao fim e os donos da casa perguntam: então e a pedra. E o frademuito sériodiz: lavo-a e levo comigo para quando precisar de fazer a sopa novamente. As histórias dos filósofos cínicos são parecidas. Num jantaros convivas estavam a escarnecer de Diógenesatirando-lhe ossoscomo se ele fosse um cão. Quem pensa da maneira habitual talvez se ofendesseprovavelmente ficaria humilhado por estar a ser comparado com um cão. Mas Diógenes raciocinava da maneira que nos interessa. Por issoaproximou-se das pessoas que lhe estavam a atirar ossoslevantou a pata e mijou-lhes em cima. Outra vezalguém viu Diógenes a pedir esmola a uma estátua e perguntou: porque é que estás a fazer isso? Diógenes respondeu: estou a treinar ser rejeitado. Noutra ocasiãoperguntaram-lhe: – Diógenesque tipo de vinho gostas mais de beber? – O de outras pessoas. Aristipo de Cirenediscípulo de Sócratesfoi uma vez repreendido por alguémpor ter mandado o filho embora: – Como é possível desprezares o teu filhoque tu geraste? Aristipo deu uma boa resposta: – Eu gero igualmente expectoração e também a expulso para longe. De factoé um argumento difícil de rebater. O raciocínio do malandro é uma espécie de burla. Quando um ladrão roubaopera uma mudança no regime de propriedade (isto era teuagora é meu). O malandro faz o mesmo com a razão (à lógica habitualoponho a minha). Ecom o raciocínio convencionalé difícilou até impossívelderrubar essa lógica nova. Só mais uma história de Nasreddin Hodja. Um dianuma altura de seca tremendaforam ter com Nasreddin Hodja porque tinham ouvido dizer que ele sabia fazer chover. – É verdade– disse ele. – Preciso de uma bacia de água. Como o problema eraprecisamentea falta de águativeram de fazer um esforço enorme para lhe fazer a vontade. Quando lhe entregam a baciapara espanto de todosNasreddin despe-se e começa a lavar as suas roupas na bacia. – Calma. Eu sei o que estou a fazer. Agora preciso de outra bacia de água. As pessoas desesperadas que tinham ido ter com ele protestaramfuriosasmas reuniram a pouca água que lhes restava noutra bacia e entregaram-lha. Quando Nasreddin retirou as roupas da primeira bacia e começou a enxaguá-las na bacia novaalgumas pessoas quiseram bater-lhe. Mas ele permaneceu muito calmoe repetiu. – Calma. Confiem em mim. E começou a estender a roupa. Quando acabounuvens negras surgiram no céu e começou a chover. Nasreddin disse: – Viram? Nunca falha. Sempre que eu estendo roupachove. * Na segunda partevou falar com o convidado ideal para discutir a figura do malandro porque ele junta três características fundamentais: é humoristacronista e brasileiro. Os humoristasparece-me evidenteraciocinam como os malandros; os cronistassobretudo os que se dedicam a escrever acerca de temas comezinhos como se fossem importantesrecorrem aos mesmos estratagemas; e os brasileiros têm uma inclinação especial para este tipo de malandrice. Isso nota-se bem no futebol. Às vítimas dos dribles de Garrincha os brasileiros chamavam João. Disse vítimas porque é isso que um João é: vítima de um enganode uma burla. O joanismo (que é a volúpia de fazer dos adversários joões) passou a ser um atributo do futebol brasileiro – epor issodo futebol. O verdadeiro futebol é o que divide o mundo entre malandros e joões. Em 1970segundos antes do golo de Carlos AlbertoClodoaldo fez quatro joões italianos. Quatro giovannisportanto. O golo podia esperar: anteshavia umdoistrêsquatro joões para fazer. Aqui não se pode ver a jogada mas fica o relato. https://www.youtube.com/watch?v=tkPIjwdpzzw (0:00 a 0:16 – até “brilhante”) “Engana”diz o comentador. E isso é um valor em si. Marcar golos é importantee ganhar é fundamental – mas ganhar sem joanismosem o prazer de enganar o adversáriocomo costuma fazer a Alemanhanão é exactamente futebol. É uma modalidade muito parecidamas menos excitantemenos vivamenos alegre. O convidado chama-se António Prata e eu vou apresentá-lo lendo uma crónica sua. Título: “O Engano”. [anúncio] Foi o nono episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre .malandrosricardo araújo pereirahumorcomédiaportugalantónio pratatricksterlokitrapaceirossicmalandroliteratura