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Sobre coisas leves e pesadas (com Gregório Duvivier)
Season 1 · Episode 14

Sobre coisas leves e pesadas (com Gregório Duvivier)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

December 13, 202334m 59s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre vários poemas, um dos quais fala de gás engarrafado. Depois, concentra-se num soneto em que toda a gente é aldrabona, o que parece indicar que a própria vida é uma aldrabice. No fim, conversa com Gregório Duvivier sobre estratégias para tornar leves coisas pesadas. A não perder.

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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre vários poemasum dos quais fala de gás engarrafado. Depoisconcentra-se num soneto em que toda a gente é aldrabonao que parece indicar que a própria vida é uma aldrabice. No fimconversa com Gregório Duvivier sobre estratégias para tornar leves coisas pesadas. A não perder.Sobre coisas leves e pesadasSobre coisas leves e pesadas Começo por avisar que vou ensaiar uma teoria. Já sei quequando que alguém ensaia uma teoriahá sempre um desmancha-prazeres que tenta contestá-laapontar-lhe fragilidadesinconsistênciasexcepções. Não me interessa. A teoria é esta: na epopeianós saímos de casa e vamos matar gente de outras famílias; na tragédiaficamos em casa a matar gente da nossa família; ena comédianão saímos do quarto e ficamos sobretudo a pensar na nossa própria morte. Não sair do quarto é aqui uma metáfora. Serve para dizer que o herói cómico está preocupado principalmente consigo mesmocom o seu corpo e com a sua vida. Há um poema intitulado “Survivor” (“Sobrevivente”)de um poeta inglês chamado Roger McGoughque diz o seguinte: EverydayI think about dying. About diseasestarvationviolenceterrorismwarthe end of the world. It helps keep my mind off things. Ou sejamais ou menos isto: “Todos os dias/ Eu penso sobre a morte. / Sobre doençafome/ violênciaterrorismoguerra/ o fim do mundo. // Isso ajuda-me / a não pensar nos problemas.” É um exercício que eu recomendo. Pensar na mortesobretudo na minhaanima muito o meu dia. Como se sabetudo o que é bom acabae é provavelmente por isso que é bom – o que significa que a vida é melhor por causa da morte. Por uma razão qualquera morte costuma ser entendida como um tema grandemas aqui o poeta trata-a como se fosse um assunto mais comezinho. A comédia tem a tendência para tratar de assuntos grandes como se fossem comezinhose de assuntos comezinhos como se fossem grandes. Há um poema de Alexandre O’Neill em que ele repreende os poetas que só se preocupam com os temas grandese descuram os comezinhos. Acho que o faz por considerar que há alguma grandeza no que é pequeno edigamosuma certa banalidade no que é grande. É um poema que se chama “O Transporte do Gás Engarrafado”: Fernandesa transportadorabem gostava de não encontrarlogo à primeirao cliente. De cada vez-garrafa ela cobrava vinte e oito e seiscentosminha gente! Passeava a garrafaconsoante o utente em sua residência se encontrava ou não (ou a transportadora dizia que era ausente); e assimde cada vezFernandes facturavavinte e oito e seiscentossalvo erro ou omissão. Por seu turnoo usuário protestava contra os atrasos da distribuição. Que sim! Que sim! Que estava sempre gente em casa! E olhavadesoladoesquentadorfogão. Somava e seguia sobre rodas a Fernandesque as sabia todase a Cidlaaté às vezes lhe pagava mais do que recebia pela garrafa. Entretantotrabalhadores tomaram a situação em mão e a distribuição do gás já repensaram para bem da população. Que faz do meu país o baladeiro audaz? Canta raivasamores… Por que não canta o gásMais a Fernandes e a distribuição? É possívelno entanto“cantar amores” de um modo que talvez cumpra os requisitos da proposta estética de Alexandre O’Neill. É o casoacho eudo poema “Quadrilha”de Carlos Drummond de Andrade: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi pra os Estados UnidosTeresa para o conventoRaimundo morreu de desastreMaria ficou para tiaJoaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. Assim como O’Neill incluiu no poema a prosaica marca de gás CidlaDrummond de Andrade introduziunesta complicada história de amora personagem J. Pinto Fernandes quesendo embora uma pessoatem nome de marca. Encontramos este mesmo tom – a que talvez possamos chamar descerimoniosonum poema de Mário-Henrique Leiria sobre outro grande tema. Chama-se “A família”: Vamos à pesca disse o pai para os três filhos vamos à pesca do esturjão nada melhor do que pescar para conservar a união familiar a mãe deu-lhe razão e preparou sem mais detença sopa de couves com feijão para ir também à pescaria do esturjão e a mãe e o pai e os três filhos foram à pesca do esturjão todos atentos satisfeitíssimos que bom pescar o esturjão! que bom comer o belo farnel sopa de couves com feijão! e foi então que apanharam um magnífico esturjão que logo quiseram ali fritar mas enganaram-se na fritada e zás fritaram o velho pai apetitoso muito melhor mais saboroso do que o esturjão vamos para casa disse o esturjão. Outra especialista em falar de coisas solenes de uma forma menos reverente do que estamos à espera é Adília Lopes. Vou ler o poema “Prémios e comentários”: A avó Zé e a tia Paulina deram-me os parabéns e disseram: agora já é uma senhora! a Maria disse-me parabéns porquê? é uma porcaria! quanto a comentários a poesia e a menarca são parecidas Em 72 recebi o prémio literário dos pensos rápidos Band-Aid o prémio foi uma bicicleta às vezes penso que me deram uma bicicleta para eu cair e ter de comprar pensos rápidos Band-Aid é o que penso dos prémios literários em geral Mas hoje gostaria de me dedicar mais demoradamente a um poema de Fernando Pessoa. Na verdadepara ser mais precisoo poema é de Álvaro de Campos. E vamos ouvi-lo declamado por Luís Lucas. [Soneto já antigo] A primeira coisa que me interessa no poema é o título: soneto já antigo. Porquê soneto? Porquê já? Porquê antigo? Porquê chamar soneto a um soneto? Parece uma diligência inútil. E porquê dizer do poema que é “já antigo”? “Já antigo” é uma curiosa formulação portuguesa que junta a palavra “já”que exprime imediatismoe “antigo”que indica velhice. Qual é a diferença entre um soneto antigo e um soneto já antigo? A diferença não está na idade do sonetoestá na atitude com que quem fala adopta em relação ao soneto. “Este soneto é antigo” é uma simples constatação de facto. “Este soneto é já antigo” exprime algum desencanto. Como se disséssemos: a derrota a que este soneto se refere não é uma novidadeeu já a conheço há muito. Outra coisa interessante é esta: parece-me que o soneto está a fingir que não é um soneto. Primeiroporque começa com as palavras “olhaDaisy”que encontramos mais facilmente num bilheteou até num recado oraldo que num soneto. E as rimas da primeira quadra sãodisplicentescomo se o objectivo não fosse rimarcomo se o poeta estivesse a falardistraidamenteesem quererrimasse. “Tu hás-de” rima com “Irás de”que é o início da frase “Irás de Londres para York”. E o último verso é “Raios partam a vida e quem lá ande”que também parece mais um desabafo do que um decassílabo. Todos conhecemos o poema em que Pessoa diz que o poeta é um fingidormas agora parece que estamos perante um caso em que o poema é um fingidor. É um soneto que finge que não é um sonetoe talvez seja por isso que é necessário chamar-lhe sonetopôr a palavra soneto no títulopara que se perceba queapesar do seu esforço de dissimulaçãoé de um soneto que estamos a falar. Isso é importante porque todo o poema é sobre dissimulação. A primeira quadra é um pedido para que alguém leve a cabo uma burla: “OlhaDaisyquando eu morrer tu hás-de / Dizer aos meus amigos aí de Londres / Embora não o sintasque tu escondes / A grande dor da minha morte.” É uma missão estranha para entregar a alguém. A primeira preocupação de quem fala é que esta Daisy engane os seus amigos de Londres. Não lhe pede que finja que sente a grande dor da sua mortepede-lhe que finja que esconde a grande dor da sua morte. É uma espécie de bolo de bolacha de logro. Tem várias camadas. Ela não deve apenas fingir que sente o que não sente. Deve fingir que esconde que sente o que não sente. A missão continua: “Irás de / Londres para Yorkonde nasceste (dizes… / que eu nada que tu digas acredito)”. Ou sejaa pessoa a quem o poeta pede que engane os seus amigos de Londres engana-o a ele – tanto que ele não acredita em nada do que ela diz. Parece uma boa ideiaentregar a tarefa de enganar os outros a uma pessoa que éao que pareceespecialista em enganar. Por outro ladotambém é um último recurso desesperado: confiar uma missão importante a uma pessoa que não é de confiança. Continuemos: “Contar àquele pobre rapazito / Que me deu tantas horas tão felizes/ Embora não o saibas”. Este “embora não o saibas” parece esconder nova impostura. Ela não o sabe porque ele lho escondeu. E “embora não o saibas” é um contraponto perfeitamente simétrico do “embora não o sintas” da primeira quadra. O primeiro (“embora não o sintas”) é uma agressão delaque não sente a dor da morte dele; o segundo (“embora não o saibas”) é uma vingança deleque lhe escondeu um facto importante. Próximos versos: “Mesmo elea quem eu tanto julguei amar / Nada se importará…” Aqui há novo engano. O verso não diz “que eu tanto amei”diz “que eu tanto julguei amar”. A voz que fala julgou amar este rapazito – e enganou-se. Euma vez que o rapazito nada se importará com a sua morteé possível que também o tenha enganado. Nos versos seguintes (“Depois vai dar / A notícia a essa estranha Cecily / Que acreditava que eu seria grande…”) percebemos que a Cecily também estava enganada. Acreditava que ele seria grandeo que evidentemente não se verificou. E termina dizendo “Raios partam a vida e quem lá ande!”sugerindo não só que a vida é um sítio (e mal frequentado)mas também que é um sítio em que ele já não está. Resumindo: trata-se de alguém que pretende enganar os seus amigos de Londres com a ajuda de uma Daisy que enganou e por quem foi enganadohá um rapazito acerca do qual ele se enganou e uma Cecily que se enganou acerca dele. A vida deve tê-lo enganado tambéme o próprio poema parece interessado em enganar-nos. Da pessoa que assina o poemaum tal Álvaro de Campostambém poderíamos dizer que é um logrouma vez que tecnicamente não existeo que faz do poema um logro em cadeia. É como se alguém manipulasse um títere que por sua vez manipula outros títeres que manipulam outros títeres. Um Fernando manipula um Álvaroque manipula uma Daisyque manipula uns amigos de Londrese assim sucessivamentee tudo acontece num poema que nos está a tentar manipular a nós. Talvez um bom resumo do poema sejam as frases “Olharaios partam a vida e quem lá ande”mas também “OlhaPetrarcaraios partam os sonetos e quem os escreva. Há um poema de Keats que começa com o “When I have fears that I may cease to be” (qualquer coisa como “quando me ocorre o medo de deixar de existir”) e acaba com os versos “on the shore / Of the wide world I stand aloneand think / Till love and fame to nothingness do sink.” (“Na margem / Do vasto mundo eu fico sozinhoe penso / Até que o Amor e a Fama se somem em nada.”) Se calhar estou sugestionadomas parece-me que há aqui uma desolação parecida com a do Soneto já antigo. A Casa Fernando Pessoa digitalizou a biblioteca pessoal do poeta. Entre os livros que lá se encontram está “The poetical works of John Keats”que Pessoa terá ganho como prémio quando lhe foi atribuído o Queen Victoria Memorial Prizeem 1903quando tinha 15 anos. Na página 336 está o poema “When I have fears that I may cease to be”e os últimos versos estão sublinhados. À margemPessoa escreveu: “good; very painfulvery sad”. “Bom. Muito doloroso. Muito triste”. * Uma vezo humorista e poeta brasileiro Gregório Duvivier leu uma notícia que dizia que o criador da aplicação Tinder veio a Portugal satisfazer uma curiosidade. Ao que pareceos utilizadores portugueses eram os que mais usavam a aplicação para conversar. E o próprio Gregório tinha observadocreio que com base na sua própria experiênciaque em Portugal o ritual de sedução passaquase obrigatoriamentepor ir tomar café. E foi por isso que escreveu o seguinte “Soneto português”: [leitura 1] Mais sobre isto após uma curta pausa. [anúncio] Foi o décimo quarto episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre o meu corpo.comédiahumorpoesiasonetosportugalbrasilporta dos fundosgregório duvivierricardo araújo pereiracoisa que não edifica nem destróipoemafernando pessoaálvaro de campossoneto