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Sobre bonecos (com Pedro Piedade Marques)
Season 2 · Episode 3

Sobre bonecos (com Pedro Piedade Marques)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

October 30, 202434m 43s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre desenhos malvados. Refere bonecos que irritaram políticos corruptos do século XIX e ditadores sanguinários do século XX. Fala de uns bonecos muito ofensivos para uma pessoa que afinal não se ofendeu de todo. Lembra que Deus também não gosta de ser desenhado. Recorda um caso em que 12 bonecos provocaram a morte de centenas de pessoas. Depois, conversa com Pedro Piedade Marques sobre bonecos em geral e bonecos de um autor em particular.

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Ricardo Araújo Pereira fala sozinho sobre desenhos malvados. Refere bonecos que irritaram políticos corruptos do século XIX e ditadores sanguinários do século XX. Fala de uns bonecos muito ofensivos para uma pessoa que afinal não se ofendeu de todo. Lembra que Deus também não gosta de ser desenhado. Recorda um caso em que 12 bonecos provocaram a morte de centenas de pessoas. Depoisconversa com Pedro Piedade Marques sobre bonecos em geral e bonecos de um autor em particular.Sobre bonecosreender qualquer coisacostumamos perguntarsempre num tom sarcástico: queres que te faça um desenho? A pergunta parece presumir duas premissasdigamosproblemáticas: primeiroque um desenho é fácil de fazer; segundoque um desenho é fácil de interpretar. Num pontoao menosa pergunta acerta. Um desenho é rápido e eficazou sejaao contrário do que acontece com um texto (especialmenteum texto longo) um desenho tem um impacto instantâneo. Quando o desenho é um cartunetodas essas características se intensificam. É mais difícil de fazermais difícil de interpretare o impacto que provoca é mais intenso. O grande cartunista colombiano Ricardo Rendón propôs uma famosa definição: uma piada é um dardo revestido de mel. Como as melhores definições de humorsublinha o seu carácter contraditório. Por um ladofere: é um dardo; por outronão fereé doce: está revestido de mel. Uma piada épara usar outra formulação contraditória conhecidauma transgressão benigna. Em alguns momentos da Históriano entantoparece haver uma certa inclinação para a literalidadeque tende a simplificar o que é complicadoe parte da definição é obliterada ou esquecida. O tempo em que vivemos tem algumas características desses momentosem que há uma clara tendência para entender a comédia simplesmente como uma agressão. É um dardoapenas. Uma transgressão – sem mais. E das graves. Jorge de Burgoso bibliotecário cego de O Nome da Rosaconcordaria. De acordo com este entendimentoo riso é eticamente suspeito. Agredir outroseja ele quem foré imoral – e agredi-lo conseguindo com isso provocar o riso éalém do maisdesprezível. Tendo em conta que o riso dá prazerisso significa que estamos a regozijar-nos com uma agressão. Os cartunistas sãopor issoe como é óbvioparticularmente pérfidos. Quando alguém dispõe apenas de meia página e de um lápis para dizer qualquer coisaé natural que recorra a algumas medidas drásticas para se fazer ouvir. Essas medidas costumam incluir o exagero e a distorção – e um objecto com essas característicasse considerado literalmentepode dar origem a interpretações desastrosas. Além dissocomo é costume no humoros cartunistas não respeitam o velho adágio segundo o qual “não se brinca com coisas sérias”. Pelo contrárioé quase só nas coisas sérias que detêm o olhar. O humor é uma espécie de loucura – mas comandada pela razão; parece mesmo uma agressão – mas dá vontade de rir. A natureza paradoxal do humor é particularmente evidente nos cartunes. Um cartune distorce – mas retrata fielmente; exagera muito – mas acerta em cheio. Além disso ése me permitem a platitudeum desenho. E um desenhoinfantil. Fulgurantemente infantilaté. Essa é a contradição maior: um cartune é uma infantilidade perversa. Temos dificuldade em imaginar uma criança malvada. Há uma razão para as vermos com tanta frequência em filmes de terror: precisamente porque a ideia de infantilidade perversa é perturbadora. Onde esperamos ver inocênciaencontramos malícia. Orao cartunista é uma criança malvada. Consegue ser perverso com desenhos infantis. E sabe quequanto mais infantil for o tom dos desenhosmaior a perversidade. No entantotendo em conta que fazer um desenho talvez seja das actividades mais inocenteso facto de provocarem reacções muito violentas acaba por ser sempre surpreendente. Na década de 70 do século XIXo famoso cartunista americano Thomas Nast resolveu dedicar vários dos seus trabalhos ao problema da corrupção em Nova Iorque. William M. Tweedum dos principais políticos visadosterá desabafado: “Temos de acabar com os malditos bonecos. Não me interessa muito o que os jornais escrevem sobre mim: os meus eleitores não sabem ler. Mas conseguem ver os bonecos.” Depois de ter sido julgado e condenadoTweed evadiu-se da prisão e fugiu para a Europarefugiando-se em Vigona Galiza. Segundo se dizfoi capturado pelas autoridades e devolvido à prisão americana depois de ter sido reconhecido por causa de um dos cartunes de Thomas Nast. David Lowum dos maiores cartunistas do século XXficou conhecido porna antecâmara da segunda guerra mundialter dirigido várias sátiras a Hitler. Num livro chamado “The Art of Controversy”Victor Navasky conta que uma vezem 1937depois de regressar de uma reunião em Berlim com Joseph GoebbelsLord Halifaxo equivalente inglês ao nosso ministro dos Negócios Estrangeirosconfidenciou ao editor do Evening Standardo jornal em que os cartunes de Low eram publicadoso seguinte: “Não conseguem imaginar a fúria que estes cartunes causam. Assim que uma cópia do Evening Standard chegaé imediatamente consultada para ver o cartune de Lowe se for sobre Hitlercomo geralmente éos telefones começam a tocaros ânimos exaltam-seas febres aumentame todo o sistema governamental da Alemanha entra em alvoroço. E mal se acalma antes da chegada do número seguinte. Nósem Inglaterranão conseguimos entender a violência da reacção.” A situação era tão gravediz Navaskyque Lord Halifax convidou David Low para um almoço em que lhe explicou o problema. O cartunista perguntou: “Devo entender que me está a dizer que seria mais fácil promover a paz se os meus cartunes não irritassem pessoalmente os líderes nazis?” Como Halifax respondeu afirmativamenteLow disse: “Muito bemnão quero ser responsável por uma Guerra Mundial. No entantoé o meu devercomo jornalistarelatar as coisas com honestidadee tenho de dizer a verdade: eu acho este homem horrível. Mas vou abrandar um pouco.” Como sabemosa mudança de atitude não evitou a catástrofe. Segundo NavaskyLow tinha uma teoria sobre a razão pela qual os seus cartunes eram tão detestados pelo Führer: “Nenhum ditador se sente incomodado ou até desagradado com cartunes que mostram a sua terrível figura a avançar por entre sangue e lama. Essa é a ideia sobre si mesmo que o conquistador ambicioso quer propagar. Isso não só alimenta a sua vaidademasinfelizmentetambém lhe traz benefícios num mundo perplexo. O que ele não quer que se espalhe é a ideia de que é um idiota. Isso é que é realmente prejudicial.” Às vezesnão é o retratado que se ofendemas outras pessoas ofendem-se por ele. Em 1987o americano Gary Larsonautor da célebre série de cartunes “The Far Side”fez um desenho que representava dois gorilas sentados no ramo de uma árvore. A gorila fêmeaque usa os óculos típicos das personagens femininas de Larsonretira um cabelo dos ombros do gorila macho e diz: “Olhaolha. Outro cabelo loiro. Estivemos novamente a fazer ‘trabalho de campo’ com aquela vagabunda da Jane Goodallfoi?” A directora da Fundação Goodall escreveu ao jornal onde o cartune tinha sido publicadodizendo: “Fiquei horrorizada quando vi o cartune (…) de Larson. Referir-se à Dra. Goodall como uma ‘vagabunda’ é imperdoável – mesmo para alguém que se descreve a si próprio como ‘maluco’como Larson. O cartune era incrivelmente ofensivo e de um mau gosto tal que os leitores poderiam questionar o discernimento editorial que leva a publicar tal atrocidade num jornal que afirma fornecer notícias a pessoas com uma inteligência acima da média. O cartune e a sua mensagem eram absolutamente estúpidos... ‘Vagabunda’? Nem por sombras. A irresponsabilidade de The Star ao optar por publicar tal obscenidade é revoltante. Na verdadequalquer mulher deveria sentir-se insultada pela insinuação de que a personagem feminina – neste casoum típico animal de óculos ao estilo Larson – não compreenderia o verdadeiro significado da investigação da Dra. Goodalla sua seriedadee pela suposição de que uma fêmea apenas teria a disposição mental de procurar conotações sexuais.” Na data em que o cartune foi publicadoa própria Jane Goodall estava fora do país. Quando voltou e tomou conhecimento do desenhoa sua reacção foi: “Uau! Fantástico! Verdadeira famafinalmente! Que maravilha aparecer num cartoon do Gary Larson!” A ideia segundo a qual devemos defender-nos de desenhos é antiga. O segundo mandamento diz: “Não farás para ti imagem de vultonem alguma semelhança do que há em cima no céunem abaixo na terranem nas águas debaixo da terra.” A ordem é comum a várias religiõese é interpretada por muitos fiéis como uma proibição de desenhar a face de Deus. Até o Criador do universoque é todo-poderosoparece temer a força dos desenhose impõe um mandamento que o mantenha a salvo deles. Por vezescomo infelizmente tem vindo a ser hábitoalguns cartunes transformam-se eles próprios em acontecimentos – às vezes até mais polémicos do que os temas que abordam (o que não deixa de ser incrível). Dez anos antes do atentado ao Charlie Hebdoa direcção do jornal dinamarquês Jyllands-Posten propôs a 42 cartunistas que desenhassem Maomé. 15 cartunistas responderam ao desafioembora três o tenham feito para dizer que declinavam o convite. O jornal publicou 12 cartunes numa página intitulada “O Rosto de Maomé”. Cinco meses após a publicação foram decretados boicotes a bens dinamarquesesregistaram-se ataques a embaixadas da Dinamarca mas também de outros países europeuse eclodiram vários outros episódios de violênciados quais terão resultado mais de 250 mortos. Hojenão é muito fácil aceder aos cartunes. A página da Wikipédia sobre o caso mostra a página do jornal onde figuram os desenhosmas a reprodução é tão pequena que é impossível vê-los com clareza. Um dos problemas é esse: temendo represáliasmuitos jornais recusaram publicar os cartunes quando noticiaram o casoo que gera um debate bizarroem que ninguém sabe exactamente do que está a falar. Isso fez também com quecomo aconteceu na alturativessem começado a circular imagens falsas. Uma fotografia de um homem disfarçado de porco com a legenda “Eis a verdadeira imagem de Maomé” percorreu o mundo como se pertencesse ao grupo de cartunes publicadosquando era na verdade a imagem de um participante de um concurso francêsque nada tinha a ver com o assuntoe cuja legenda foi acrescentada por alguém com a intenção de acicatar os ânimos. A decisão de não republicar os cartunes também levou a que não fosse possível saber que vários dos desenhos eram críticosnão de Maomé ou do Islãomas da própria iniciativa do jornal que os tinha publicado. O cartunista Lars Refnpor exemplorespondeu ao desafio de desenhar Maomé desenhandona verdadeuma criança com o mesmo nome. O cartune mostra a criança numa escola dinamarquesaa escrever no quadro da sala de aula. A legenda diz: Muhammad7º ano. No quadroo rapaz escreveu uma frase em farsia língua persafalada no Irãono Afeganistão e no Tajiquistão. Traduzindoa frase diz “Os jornalistas do Jyllands-Posten são um bando de reaccionários.” Ironicamenteo autor do desenho foi o primeiro a receber uma ameaça de morte. A história é contada pela cientista política Jytte Klausen no livro “The Cartoons That Shook The World”“Os cartunes que abalaram o mundo”publicado pela Yale University Press. Nas primeiras páginasum comunicado da editora informa queapós longa ponderaçãofoi decidido que o livro não mostraria os cartunes sobre os quais se debruça. Logo a seguira autora diznoutro comunicadoquecom tristezaconcordou com a decisão da editora. Certas pessoas deixam-se ofender gravemente por um desenhoseja porque ele toca num assunto que épara elassagradoou apenas porque não compreendem certos aspectos evidentes do funcionamento da linguagem humorística. E o problema de não compreenderem é queem princípionão adianta fazer-lhes um desenho. Mais sobre isto daqui a pouco. [pausa] Foi o terceiro episódio da segunda temporada de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou falar do povo escolhido.