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Sobre bater em humoristas (com Cristina Sampaio)
Season 1 · Episode 7

Sobre bater em humoristas (com Cristina Sampaio)

Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira

October 25, 202332m 1s

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Show Notes

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre uma lei medieval que dava a cidadãos ofendidos o direito de espancar e matar um determinado tipo de criminoso. Depois avança 800 anos e verifica que no nosso tempo continua a ser possível espancar impunemente certos engraçadinhos. Lê um bocado de um livro checo e outro de um autor francês que levou três tiros. Refere algumas piadas que assassinaram pessoas e algumas pessoas que foram assassinadas por causa de piadas. Recorda o conceito de comédia do comissário soviético Anatóli Lunatcharski, que é muito parecido com o conceito de comédia de alguns comissários contemporâneos. No fim, fala com a perigosa cartunista e ilustradora Cristina Sampaio, cujos bonecos fazem dói-dói a pessoas sensíveis. A não perder.

A bibliografia deste episódio está disponível nos sites da SIC e do Expresso.

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Topics

Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre uma lei medieval que dava a cidadãos ofendidos o direito de espancar e matar um determinado tipo de criminoso. Depois avança 800 anos e verifica que no nosso tempo continua a ser possível espancar impunemente certos engraçadinhos. Lê um bocado de um livro checo e outro de um autor francês que levou três tiros. Refere algumas piadas que assassinaram pessoas e algumas pessoas que foram assassinadas por causa de piadas. Recorda o conceito de comédia do comissário soviético Anatóli Lunatcharskique é muito parecido com o conceito de comédia de alguns comissários contemporâneos. No fimfala com a perigosa cartunista e ilustradora Cristina Sampaiocujos bonecos fazem dói-dói a pessoas sensíveis. A não perder.Sobre bater em humoristasSobre bater em humoristas   Quem diz bater diz matar. Em 1997quando ganhou o prémio Nobel da literaturao escritor italiano Dario Fo proferiu um discurso intitulado “Contra jogulatores obloquentes”. Significa qualquer coisa como “Contra gracejadores maledicentes”. É o nome de uma lei de Frederico IIImperador do Sacro Império Romano-Germânicopublicada em 1221. “A lei em questão”diz Dario Fo“permitia a todos e quaisquer cidadãos insultarespancarou até – se estivessem nessa disposição – matar os gracejadoressem correr o risco de serem levados a julgamento e condenados.” Fo terminava esse parágrafo dizendo: “Apresso-me a garantir-vos que esta lei já não está em vigorpelo que posso prosseguir em segurança.” Acontece queembora seja certo que aquela lei já não existehá boas razões para considerar que o espírito da lei perdura. Refiro-me à ideia segundo a qual uma piada é uma agressãoe que por isso uma resposta justa e adequada é outra agressão. Oitocentos anos depois da publicação daquela leio gracejador Chris Rock disse uma piada e o cidadão ofendido Will Smith respondeu com uma agressão. Foi na cerimónia dos Óscares de 2022. Após cometer o crime (não sei se tenho de recordar que agredir uma pessoamesmo um humoristaé crime. Chama-se “ofensa à integridade física simples”. É o artigo 143º do código penal)Will Smith voltou a sentar-seordenou duas vezesaos gritosque Chris Rock não mencionasse o nome da sua mulhere ninguém interveio. Nem a polícia deteve o criminosonem a organização o intimou a abandonar a sala pormanifestamentenão saber comportar-se. Nada. Cerca de uma hora depoisWill Smith estava a ser aplaudido de péenquanto pedia desculpa a toda a gente menos ao agredidoe justificava o seu comportamento com o “amor”que “nos faz fazer coisas malucas”e com o nobre propósito de “proteger a família”. Vale a pena recordar o contexto daquele significativo acontecimento. Em Dezembro de 2021o canal Entertainment Tonight emitiu uma reportagem sobre o modo como Jada Smith estava a lidar com o facto de ter alopécia. (Está disponível no YouTube.) Primeiroapareciam imagens que a actriz tinha publicado no Instagramnas quais contemplava descontraidamente a sua cabeça rapada e dizia: “Nesta altura só me resta rir-me.” A acompanhar as imagensJada tinha escrito: “Aqui a mamã vai ter de rapar a cabeça todapara que ninguém pense que ela foi operada ao cérebroou assim (emoji a rir com a língua de fora e a piscar o olho). Eu e esta alopécia vamos ser amigas… ponto final! (emoji a rircom os olhos substituídos pelos sinais de maior e menor que)”. A seguira reportagem lembrava queem Julhoa actriz tinha publicado uma fotografia em que tanto ela como a filha apareciam com a cabeça rapadacom a legenda: “A Willow [a filha] obrigou-me a fazer isto porque já era tempo de me libertarMAS… os meus 50 anos estão prestes a ser divinamente iluminados por esta rapadela (emoji de coração seguido de emoji a rir com a língua de fora e a piscar o olho)”. Por fimo canal recordava a participação de Jada num talk showem Setembroondeentre risoshavia declarado que adorava a sua nova aparência e que rapar o cabelo tinha sido uma experiência muito libertadora. Três meses depois desta jovial reportagemChris Rock entrou em palco e não disse: “Jadaadoro-te. Estou ansioso pelo remake do Kojak”insinuando que ela estava parecida com Telly Savalas. Disse: “Jadaadoro-te. Estou ansioso pelo G.I. Jane 2”sugerindo que ela estava parecida com Demi Moore quando desempenhou o papel de uma valente guerreira. Ou sejaa piada comparava uma linda estrela de Hollywood que está orgulhosa da sua aparência com outra linda estrela de Hollywood quando interpreta o papel de uma personagem admirável. Uma selvajariaportanto. Não admira que a violência física seja uma resposta aceitável. De factoa ideia de que uma piada é uma espécie de delitoao qual se pode e deve reagir com uma agressão físicanão é propriamente extravagante. O bobo do Rei Lear está sempre sob ameaça: “Cuidadovelhaco. Olha o chicote.” No início de “O Bom Soldado Svejk”o protagonista está numa cervejariaa comentar o atentado ao arquiduque Francisco Ferdinando. Alguém faz a seguinte observação: – Aqui costumava estar pendurado um quadro do Imperadornosso Senhor (…). Precisamente onde agora está o espelho. O dono da cervejaria responde: – Pois aí tem razão (…)estava ali pendurado e cagavam nele as moscaspor isso guardei-o no sótão. Sabe como éainda alguém poderia permitir-se um comentárioe podiam vir daí ralações. E eu preciso disso? A certa alturaum dos frequentadores da cervejaria identifica-se como inspector da polícia política e leva os outros para a prisão. “Porquê eu?”pergunta o dono da cervejaria. – Porque disse que as moscas estavam a cagar em cima do Imperadornosso Senhor. Deixe lá que já lhe vão tirar o Imperadornosso Senhorda cabeça. À chegada à prisãoSvejk pergunta aos outros seis presos a razão pela qual estão presos. Cinco respondem que estão ali por causa de comentários sobre o atentado. Cito o parágrafo seguinte: O sextoque evitava os outros cincodisse que não queria ter nada a ver com elespara não cair sobre si qualquer suspeitae que só estava ali pela tentativa de assassínio de um pai de família (…)por ocasião de um assalto à mão armada. Julgo que simpatizamos todos com a atitude deste delinquente e com a sua tentativa de não ser confundido com os verdadeiros criminososque tinham sido presos por delitos bem mais graves. Em nome da honestidadedevo reconhecer quede factoas piadas são perigosíssimas e podem matar. Numa das poucas vezes que tive a sorte de falar com o Raul Solnadoperguntei-lhe: “Há uma lenda segundo a qualno decurso de um espectáculo seuuma senhora na plateia riu tanto que acabou por morrer. Isso é verdade?” Ele disse: “NãoRicardo. Foram duas. Mas também houve uma senhora grávida que se riu a ponto de ter o bebé no teatro. Portantoestá 2 a 1. Não é um resultado assim tão mau.” Há registo de mais piadas assassinas. Dizem que Martim I de Aragãodepois de comer uma refeição temperada com demasiados afrodisíacosficou de cama com febres altíssimas. Borrao seu bobofoi visitá-lo e fez um comentário acerca de o rei ter ficado doente por causa dos afrodisíacos antes de poder beneficiar do seu efeito. O rei riu tanto que morreu sem que o padre chegasse a tempo de lhe dar a extrema unção. Na maior parte das vezesno entantoé o bobo que morreou quasepor causa de uma piada. Uma vezum nobre ofendido ameaçou matar o famoso Tribouletbobo da corte de Francisco I de França. Triboulet pediu protecção ao reique lhe garantiu o seguinte: se o nobre cumprisse a promessa e o matasseseria enforcado no espaço de um quarto de hora. Triboulet perguntou: “Não dá para o enforcar um quarto de hora antes de ele me matarem vez de um quarto de hora depois?” E em 1532Zuñigabobo da corte de Carlos Vfoi vítima de outro aristocrata ofendido. Quando o levaram para casajá moribundoa mulher perguntou: “O que se passou?” E ele próprioprovavelmente conformado com o facto de aquela ser uma ocorrência normalrespondeu: “Nada de especialSenhoraexcepto que mataram o seu marido.” (“No es nadaseñiorasino que han muerto vuestro marido.”) Em 1943o padre Joseph Müller contou a seguinte anedota: “Um soldado alemão moribundo pede à enfermeira que lhe ponha um retrato de Hitler de um lado da cama e um retrato de Göring do outro. E depois disse: agora posso morrer como Jesus Cristo. Com um criminoso de cada lado.” O padre foi preso e interrogadomas recusou revelar quem lhe tinha contado a anedota. No dia 28 de Julho de 1944 foi julgado e condenado à morte e no dia 11 de Setembro desse ano foi executado. Desde o fim da segunda guerra mundialos sinos da igreja da pequena aldeia de Gross Düngen tocam sempre no dia 11 de Setembro. No mesmo ano em que o padre contou a anedotaem 1943um advogado americano chamado Nat Schmulowitz publicou nos Estados Unidos um livrinho de 15 páginas chamado “The Nazi Joke Courts”“Os tribunais nazis de piadas”. O assunto écomo o próprio nome indicao tipo de tribunal especial em que Joseph Müller foi julgado. Esses tribunais faziam cumprir novas regras como uma proibição imposta por Himmler que impedia polícias e camponeses alemães de chamarem Adolfo aos seus cavalos ou animais domésticos. Segundo Schmulowitzum cartoon da época mostrava um soldadojunto de um cavalo que tinha uma franja e um bigodinho muito característicosa dizer a um oficial: “A sériochefejuro que o nome dele é Winnie.” Uma anedota muito popular nesta altura fazia referência a estes tribunais: “Um juiz está num café com um amigo e de repente começa a rir. ‘Hoje ouvi uma piada muito engraçada’diz ele. ‘Conta!’pede o amigo. ‘Não posso. Acabei de condenar o homem que a contou a dez anos de prisão.” Na União Soviéticaalgumas piadas eram consideradas “agitação anti-soviética”e punidas ao abrigo do célebre artigo 58-10 do código penal. Jonathan Waterlowno livro “It’s Only a JokeComrade!”conta queem Abril de 1929 teve iníciono jornal literário “Literaturnaia gazeta” um interessante debateque se prolongou pelos dois anos seguintessobre se o humor em geral e a sátira em particular teriam um lugar na nova sociedade soviética. Para ajudar a decidir o debate foi criada em 1930 a Comissão para o Estudo do Género Satírico na Arte e na Literatura que chegou à seguinte conclusão: a sátira poderia continuar a existirdesde que usada para fazer o Bem. Anatóli Lunatcharski resumiu a ideia desta forma: “A tarefa da comédia soviética é ‘matar com o riso’ os inimigos e ‘corrigir com o riso’” aqueles que são leais ao regime. Mesmo os que são leais precisam de um toquezinho de vez em quandocomo se sabe. Por issoo Comissariado do Povo de Assuntos Internos entretinha-se a perseguir e prender quem fosse apanhado a contar anedotas como esta: – Dimitriarranjei um emprego. Vou para o cimo daquela torre e o meu trabalho é estar atento. Quando o mundo perceber que o nosso regime é o melhor e a revolução finalmente triunfarsopro nesta corneta. Pagam-me um rublo por dia. – Ivanisso é pouquíssimo. – Eu seiDimitri. Mas é um trabalho para a vida toda. Regimes actuaiscomo o da Bielorrússiacontinuam a perseguir e punir quem conta piadas críticas do governo. As próprias anedotas são prova disso. Uma que se conta em Minskde preferência quando ninguém está a ouvirdiz assim: “Lukashenko e Biden estão a discutir qual é o país mais democráticoos EUA ou a Bielorrússia. Biden insiste que é a América e argumenta o seguinte: nos Estados Unidos as pessoas podem ir para a rua gritar que o Biden é um idiota e não lhes acontece nada. Lukashenko responde. Na Bielorrússia as pessoas também podem ir para a rua gritar que o Biden é um idiota e não lhes acontece nada.” Na véspera de Natal de 2019a sede do colectivo humorístico brasileiro Porta dos Fundos foi atacada com cocktails molotov por causa de um filme humorístico sobre Jesus Cristo. Um tribunal de justiça do Rio de Janeiro resolveu agir imediatamente – e suspendeu o filme. A medida destinava-se a “acalmar os ânimos”dizia a sentença. Não tinha sido cometido um crimehavia ânimos exaltados. E no dia 7 de Janeiro de 2015dois terroristas armados entraram nos escritórios do jornal satírico francês Charlie Hebdo e abateram a tiro 12 pessoasferindo outras 11por causa de cartoons sobre Maomé. Mais uma veza condenação de uma reacção desta violência a desenhos satíricos não foi unânime. Mesmo quem condenou o ataque não deixou de usar a adversativa do costume. Uma semana após o atentadoo Papaa bordo de um aviãocondenou a chacina mas – o mas é dele – “masse aqui o sr. Gasparrimeu amigodisser uma coisa feia sobre a minha mãedeve esperar um soco. É normal.” E repetiu: “É normal.” E acrescentou: “Não se pode provocarnão se pode insultar a fé dos outrosnão se pode fazer pouco da fé. Quem brinca (giocattoliza) com a fé dos outros está a provocar.” Um desses jogulatores obloquentes que estavam presentes naquela manhãna redacção do Charlie Hebdoera um homem chamado Philippe Lançon – queapesar de ter sido atingidosobreviveu. Escreveu um livro chamado “O Retalho”em referência ao retalho de carne que uma das balas lhe arrancou do rosto. A certa altura do livroele diz o seguinteacerca do convívio com os seus amigosno momento anterior ao ataque: “Sublinho istocaro leitor: naquela manhãcomo em todas as outraso humora gritaria e uma forma teatral de indignação eram os juízes e os guiasos génios bons e mausnuma tradição muito francesa que valia o que valiamas o que se seguiria mostrou que a maior parte do mundo não aprecia [esse exercício]. Eu tinha levado algum tempo a livrar-me da seriedade para conseguir aceitá-la – ealém dissonão tinha sido totalmente bem-sucedido a fazê-lo. Não tinha sido programado para o compreender e nessa alturacomo a maior parte dos jornalistaseu era um burguês. À volta daquela mesa estavam artistas e militantesmas poucos jornalistas e ainda menos burgueses. O Bernard Maris permaneceu no Charlie Hebdo nos últimos anos sem dúvida pela mesma razão que eu: porque se sentia livre e à vontadelá. Dizer disparates sobre um escritor ou um acontecimento não tinha importânciadesde que conduzisse a outra coisa que o transformasse: uma ideiauma piadaou um desenho. As palavras corriam como cães famintos de uma boca para a outra. Na melhor das hipótesesencontravam uma presa. Na piornão iam a lado nenhum e eram esquecidas entre um copo vazio um papel gorduroso. Pessoas obcecadas com a sua competência escrevem artigos rigorosossem dúvidamas acaba a faltar-lhes imaginação. Aqui dizíamos ou gritávamos muitas coisas vagasfalsasbanaisidiotas e espontâneasdizíamo-las do mesmo modo que as pessoas se espreguiçam. Masquando resultavaseguia-se a imaginação.” A seguir falo com outra pessoa que faz o mesmo exercíciotão desconsideradode se livrar da seriedade para chegar à imaginação. [anúncio] Foi o sétimo episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre .chris rockwill smithviolênciahumorcomédiacristina sampaioameaçasricardo araújo pereiraAnatóli Lunatcharskisicliteraturaportugal