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#Toque80: Música do Silêncio com Carol Araújo

#Toque80: Música do Silêncio com Carol Araújo

Bom dia, boa tarde, boa noite! Neste podcast, Josisley conversa com Carol Araújo . Flautista e estudande de música desde a infância, porém com um agravante: Ela nunca feminino o som do próprio instrumento.

Toque2 Podcast

March 28, 202053m 34s

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Show Notes

Bom dia, boa tarde, boa noite!

Neste podcast, Josisley conversa com Carol Araújo . Flautista e estudande de música desde a infância, porém com um agravante: Ela nunca feminino o som do próprio instrumento.

Este é um desses programas que estavamos devendo. E com ele o Toque2 entra definitivamente no mundo da diversidade e inclusão.

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Não Ritmo da Vida. Na Batida do Coração!

Equipe Toque2

@toquedois

QUEM FEZ?

Vinheta: Josisley de Souza

Arte da Vitrine: Josisley de Souza

Vírgula Sonora: Débora Meneses

Abertura: Maria Maria / Milton Nascimento

Toca na Pista: Ligia / Tom Jobim

Edição: Eduardo Oliveira

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#Carol Araújo
Trompetista / Professor / Empreendedor

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Transcrição do PodCast para acessibilidade há deficientes auditivos:

INÍCIO

Vinheta de Abertura: Seja bem-vindo ao Toque2 (Podcast) Bandas e Fanfarras. No ritmo da vida, na batida do coração.

Áudio do Youtube: Áudio de um jazz

ABERTURA:

Josisley: Seja bem-vindo ao Toque2 podcast – Bandas e Fanfarras. No ritmo da vida, na Batida do Coração. Bom dia, boa tarde, boa noite, sejam bem-vindos a mais um Toque2 Podcast – Bandas e Fanfarras. No ritmo da vida, na Batida do Coração. E hoje, nós vamos falar aqui de um assunto bastante interessante, bastante especial para mim. Bastante intimista por assim dizer. E para tocar nesse assunto que a gente já vai falar daqui a pouquinho, está aqui a convidada Carolina Araújo. Seja bem-vinda ao Toque2.

Carol: Olá, boa noite, boa tarde, bom dia. Muito obrigada pelo convite e vamos lá bater uma prosa.

Josisley: É isso daí. Bom, só para vocês saberem, vocês já vão entender: eu estou aqui conversando com ela com a câmera aberta, né? E a gente já vai saber o porquê dessa câmera estar aberta, logo depois da nossa vírgula sonora.

Virgula Sonora: Olá, você está ouvindo o podcast do Toque2 – Bandas e Fanfarras, no site toque2.com.br. Você também pode ouvir os nossos podcasts através do aplicativo exclusivo do Toque2, disponível para os sistemas Android e iOs. Para entrar em contato conosco, você pode acessar as nossas redes sociais, através do nosso site, ou então pelo e-mail [email protected]. E se você gosta do nosso trabalho e deseja nos ajudar a produzir um conteúdo com qualidade cada vez melhor, acesse a nossa plataforma de contribuição pelo site apoia.se/toque2 e veja como contribuir. Esse podcast tem o apoio cultural do Portal Brasil Sonoro. Clique, ouça e toque. Para ter acesso às partituras, visite o site brasilsonoro.com.

Josisley: Muito bem, Carolina. Nós estamos no mês da mulher. É um mês bastante emblemático para mim, pessoalmente, e certamente para muitas mulheres que fazem a música acontecer no Brasil. Recentemente eu gravei um podcast especial do Dia das Mulheres, como a gente sempre faz, e a maestrina Célia Bitencourt, lá de Caieiras, da Fanfarra do Valter, ela citou você: “poxa, Josisley, eu acabei esquecendo”, ela se desculpou e falou alguma coisa de você. Eu falei: “não fala mais nada, já tá bom. Eu vou conversar com ela. Vamos escutar e vamos aprender um pouco”. E foi assim que eu cheguei até você. Já me adianto também a dizer que Carolina é o nome da mulher da minha vida. Minha esposa se chama Carolina.

Carol: Legal

Josisley: Carolina, conta para a gente: esse daqui eu não sei se vai sair como soneto, ou se ele vai sair como podcast normal, mas eu vou fazer as três perguntas que eu sempre faço. Eu quero saber o seu nome completo, a sua idade – eu sei que não se pergunta isso para uma dama, mas eu gostaria de saber -, qual a sua profissão, se é que você já tem uma profissão, você paga suas contas, não sei. E o quarto item: por que você é tão especial? Por que será que eu te chamei para participar desse podcast?

Carol: Vamos lá. A primeira pergunta: meu nome é Carolina Araújo Martins de Siqueira. A minha idade é 23 anos. Eu sou musicista, mas atualmente não trabalho com música para ganhar dinheiro para pagar as minhas contas. É uma aula aqui, uma ali que vai surgindo. E a quarta pergunta é que eu faço música em silêncio. Como assim música em silêncio? Eu sou surda, eu tenho perda profunda no ouvido direito e severa a moderada no ouvido esquerdo. Uso aparelho auditivo no esquerdo, mas quando estou no palco não costumo colocar o aparelho. Por isso que eu faço música em silêncio. Porque para mim é silêncio, e é música para quem está ouvindo. É essa a resposta da quarta pergunta.

Josisley: Eu tenho que confessar que estou um pouco emocionado de falar com você porque a minha mãe é deficiente. Ela também tem uma deficiência auditiva. Em off eu te perguntei como eu deveria tratar, se deveria falar surda ou deficiente auditiva, porque vira e mexe eu estou acompanhando minha mãe a algum médico e falo “ela é surda”, e mais de uma vez a pessoa que está recepcionando fala ” ela não é surda, ela é deficiente auditiva “. Isso é realmente muito impactante? Como você trata isso?

Carol:Então, eu trato isso como uma questão de competente mesmo. A palavra “deficiente” não é legal, do meu ponto de vista. Eu vou te dizer que não gosto de ser chamada de deficiente, então eu sou surda, porque em um dos meus ouvidos – eu vou falar em porcentagem – eu tenho 5% de audição. Então eu literalmente sou surda. Eu sei que essa é uma palavra que incomoda muita gente, tendo a surdez ou não. Mas eu acho que é uma questão de queixas mesmo. Como você gosta de ser chamado? Por exemplo, eu gosto que me chamem de Carol. Eu falo que quando me chamam de Carolina parece que estão me batendo. Quando eu escuto todas as letras do meu nome, eu falo “nossa, meu nome é muito comprido”. Então eu gosto que me chamem de Carol. A coisa mesma está relacionada com a surdez: eu gosto que me chamem e de referir a mim mesma como surda.

Josisley: Poxa vida. E fala para mim: você já nasceu com a condição da surdez ou você chegou a ter uma audição 100%?

Carol:Eu nasci com perda leve e fui perdendo ao longo do tempo. Com 4 anos, mais ou menos, foi fechado o diagnóstico, no meu otorrino, de que a minha perda seria progressiva. Então chegaria uma idade na minha vida em que eu não teria metade da audição, como é hoje. E o que ele aconselhouhou aos meus pais na época? Ou me colocar numa fono, mas poder estimular a fala e a escrita, ou me colocar para fazer aula de Libras, que é a língua dos surdos e a segunda língua oficial do nosso país, inclusive. E o meu pai, que é surdo de um lado, do lado direito, optou por estimular minha fala, e minha mãe acabou indo na dele também, mas deixou bem aberto para a questão de eu querer aprender a língua de sinais, e foi o que eu fiz. Eu cheguei nela e falei: “mãe, eu quero aprender língua de sinais”, (inaudível) com mais ou menos seis anos, ” Mas foi um trabalho feito com a minha fonoaudióloga, em que ela conseguiu fazer um tratamento no qual eu pudesse falar sem me ouvir. Ela, sabendo do meu diagnóstico, fez todo um tratamento que envolvia meu otorrino, meu pai, minha mãe, meus irmãos, e acabou acontecendo. Eu comi a fazer fono com quatro, e só fui ter alta com 15 anos. Então foram mais de dez anos para falar do jeito que eu falo hoje. Como também foram mais de dez anos com um surdez evoluindo, cada vez piorando, até chegar no que é hoje. Mas foi um trabalho feito com a minha fonoaudióloga, em que ela conseguiu fazer um tratamento no qual eu pudesse falar sem me ouvir. Ela, sabendo do meu diagnóstico, fez todo um tratamento que envolvia meu otorrino, meu pai, minha mãe, meus irmãos, e acabou acontecendo. Eu comi a fazer fono com quatro, e só fui ter alta com 15 anos. Então foram mais de dez anos para falar do jeito que eu falo hoje. Como também foram mais de dez anos com um surdez evoluindo, cada vez piorando, até chegar no que é hoje. Então foram mais de dez anos para falar do jeito que eu falo hoje. Como também foram mais de dez anos com um surdez evoluindo, cada vez piorando, até chegar no que é hoje. Então foram mais de dez anos para falar do jeito que eu falo hoje. Como também foram mais de dez anos com um surdez evoluindo, cada vez piorando, até chegar no que é hoje.

Josisley: Você se comunica muito bem, diga-se de passagem. Mas e aí, você aprendeu a falar em Libras?

Carol: Sim, eu aprendi a falar em Libras, eu sou bilíngue, falo os dois.

Josisley: É bilíngue mesmo?

Carol: Falo a língua de sinais americana também.

Josisley: Está bem melhor que eu. A minha mãe chegou a estudar livros, ela faz alguns movimentos, mas ela tem reumatismo, então a mão dela é bem torta. Então, quando ela vai falar, ela parece o Karajan (Maestro Herbert von Karajan) regendo o Bolero de Ravel. Conhece o Karajan. E como veio essa questão música? Apesar de parecer meio lógico a gente se apaixonar por coisas que parece que vão ficar distantes da gente, e tal, como que veio essa paixão pela música?

Carol:Mais uma vez meu pai entrando na história. Ele tocou corneta no exército. Os sobrinhos dele, meus primos, são músicos por hobby, tocam violão. O gênero que eles mais gostam de tocar é rock nacional. Eu sempre esse contato com a música na casa deles, seja através de discos, ou através dos amplificadores dos meus primos. Aquela mania de pegar o violão e tocar, sentir a vibração do violão, ficar em cima da caixa do amplificador, ficar perto da vitrola que ele tinha na época. E tentar puxar o máximo de conteúdo musical para mim. E quando eu falei para ele que eu queria aprender a tocar um instrumento, ele me deu o maior apoio, ele me levou nas aulas. Eu tenho que estudar teoria musical na corporação musical da minha cidade; eu sou de Santa Branca, interior de São Paulo, mas atualmente eu moro em São Caetano. Eu participei de estudar música na banda municipal da Cooperação Municipal Santa Cecília, que é de Santa Branca. Comecei no clarinete, mas não gostei muito, não. Fui para o trompete, e levei até as épocas de fanfarras de bandas. Mas meu contato com a música foi através do meu pai, desde muito pequena.

Josisley: Legal. Você chegou a tocar em banda marcial, participar de campeonato, alguma coisa assim?

Carol: De campeonato não. Eu cheguei a acompanhar a Bamolo , que era uma banda municipal de Monteiro Lobato, mas eu não cheguei a tocar com ela em campeonatos. Eu toquei em uma fanfarra que foi fundada em Santa Branca que não tem mais, que é a (inaudível); toquei na fanfarra de Jambeiro; toque em uma fanfarra em Taubaté também. Mas em campeonato eu não cheguei a ir. Quando eu ia para o campeonato como primeiro trompete, meu otorrino barrou, falou “você está com uma infecção de ouvido muito grande. Eu não arriscaria ir em campeonato de música. Isso iria acabar destruindo seus tímpanos”. Meus tímpanos são perfurados ainda: ele foi perfurado uma vez, fiz a cirurgia, eis que surgiram pequenos furos, então ele achou melhor eu não ir, e eu acabei não indo. Mas eu fui só para assistir mesmo.

Josisley: Muito legal. Desculpepa, você disse que tem 23 ou 26 anos?

Carol: 23 anos.

Josisley: 23. Você faz faculdade, ou fez?

Carol: Eu me formei na Fundação das Artes, estudei no curso livre, fiz flauta transversal. Iria começou a faculdade agora, mas com (inaudível) [00:12:47] na faculdade, não conseguiu fechar turma. Eu voltei a estudar para o vestibular, tenho outros planos para o final do ano. Vou prestar para Federal de Pernambuco e é isso aí: estudando para caramba para conseguir ter uma nota boa e passar lá. Eu ia fazer licenciatura em música, que já estava na minha área.

Josisley: Legal.

Carol: (inaudível) aula para outros surdos usando uma língua de sinais, usando o português, usando uma língua musical. Já estava na minha área, então eu optei por fazer uma licenciatura. Mas aí eu queria regência musical.

Josisley: Regência, meu sonho. Quem sabe. Você falou um pouco sobre os seus primos e seus irmãos, que você ia lá e tocava. Eu já vi em algum lugar – possivelmente em algum desses canais: Canal de história , esses canais assim – que as pessoas com deficiência de audição, como surdos, eles normalmente se dão o melhor com os instrumentos de corda, em função da vibração. Você até citou aí que sente uma vibração. E por fim, pela foto que eu estou vendo aqui no seu Skype, você toca flauta, que é um instrumento extremamente dócil. É uma coisa tão diferente, não tem nada vibrando ali. Como que foi? Você já quis o sopro mesmo?

Carol:Então, eu toco violão, mas o que fez eu me apaixonar pela vibração do sopro – sopro em geral, porque eu também toco trompete e sax – foi exatamente a vibração estar na minha mão. Você citou que “flauta transversal não tem vibração”. Pelo contrário: você tocando ela, é muito mais harmônico do que um instrumento de corda, dependo do que você toca nela. Então o que me levou a tocar flauta transversal é exatamente a vibração que tem na mão. Tocando flauta, ela vira praticamente toda a mão. É uma coisa que me fez eu me apaixonar, desde a época do Guri, quando eu comai a fazer Guri. Quando eu peguei uma primeira flauta transversal, lá na Corporação Musical Santa Cecília, ela toda com uma sapatilha estourada, mas eu consegui tirar som dela. Aquilo me deixou totalmente apaixonada pela vibração porque eu queria fazer a vibração vibrar mais dela do que vibrava para mim. Por isso que eu fui estudar flauta transversal. A flauta transversal eu estudei em outras cidades: em São José dos Campos também; (inaudível) [00:15:20] Paraíba, saída da (inaudível) [00:15:22], pegava o ônibus na rodoviária e ia para São José estudar flauta transversal no Projeto Guri, no polo regional de São José dos Campos . E lá, eu estudei durante três anos. E cada conquista – no Guri eu já estava com a audição bem debilitada – eu achava aquela vibração da flauta o máximo. E foi quando a minha professora do Guri falou: “tenta uma escola em São Paulo, porque se você já está gostando de tocar aqui no Guri, imagina você se aprofundando no instrumento”. Como eu completei a maioridade, eu tivo que sair do projeto e tentar como aventuras por São Paulo. Foi quando eu consegui a Fundação das Artes aqui em São Caetano.

Josisley: Então o instrumento veio mais por esta questão física mesmo de pegar e tocar. Não teve nenhum gosto musical? Eu estou perguntando isso porque quem toca violão e toca flauta eventualmente gosta muito de chorinho.

Carol:Exatamente. Mas eu ainda vou no (inaudível) [00:16:23], na bossa nova. Eu falo que eu sou muito teimosa, que eu não gosto de seguir uma partitura, então eu olho aquela partitura e quero sair colocando nota nela. É algo ruim. Aqui na Fundação, eu estudei nos combos que tinha. Inclusive tem um grupo que eu participei que (inaudível) [00:16:41] eu dou palestras, eu acabo levando eles comigo porque é uma confiança que eu tenho neles em cima do palco, e eles em mim, é uma sintonia que rola entre a gente. Eles falam que eles são (inaudível), eles falam que quando estão comigo, também ficam surdos, porque é uma coisa de louco. A gente inclusive se comunica em cima do palco através da língua de sinais. Se tem alguma coisa que eles acham que pode melhorar, eles fazem um sinal, (eles que combinaram isso também) [00:17:12], e acaba acontecendo.

Josisley: Puxa vida que legal. Então você é mais voltada para o Jazz, esse é o seu estilo musical, ou você gosta de tudo?

Carol: Assim, eu gosto de tocar Jazz, mas de ouvir, eu ouço de tudo.

Josisley: Puxa vida. Você sabe que você falando, – me ocorreu agora isso aqui – o Jazz tem uma linguagem muito do improviso mesmo, né? E soa como um pouco de preguiça. Parece que o cara que não quer estudar a música. Mas quando você coloca esse sentimento que você sente o instrumento vibrar, e que você quer colocar nota ali, passa a verdade do Jazz, parece que tem tudo a ver mesmo. Puxa vida, que bacana. Vou para São Paulo, já que no Guri a galera não me quer mais, eu estou ficando velha. Então vou lá para São Paulo. Aí você vai lá e bate na porta da Fundação das Artes. A Fundação das Artes estava preparada para assumir uma aluna surda? E complementando: como foi para você, como que é essa jornada de procurar uma escola e tentar encontrar uma escola que aceite uma aluna na sua condição?

Carol:Então, para chegar na Fundação, foi um caminho meio (percorrido) [00:18:43]. Conversando com meus (inaudível) [00:18:45], eles me indicaram o Maestro Eduardo Carlos Moreno, que na época era regente do Instrumental de Repertório, lá de São Paulo. E ele me indicou uma outra profissional que trabalhava com música e inclusão, que era a Viviane Louro. Aí a Viviane Louro tinha um projeto na Fundação, que chamava PAPI, que ainda tem. Era um projeto de inclusão na Fundação das Artes, e ela me falou dele e tudo mais, conversou com a outra professora que era coordenadora do projeto, e ainda é, professora Lisbeth Soares e a gente começou a conversar. Foi mais ou menos um ano conversando sobre a possibilidade de eu ir, fazer teste, (inaudível) [00:19:29] acessível para mim, preparar os professores, preparar os funcionários, enfim. Foi mais ou menos um ano dessas conversas que a gente teve. Aí eu fui na Fundação, fiz o teste, eles prepararam uma sala específica para fazer o teste teórico e uma outra sala específica para o teste prático com instrumento. E aconteceu que eu passei em terceiro lugar em flauta transversal e nem preciso entrar pela cota. Entrei como se fosse uma pessoa que não tem deficiência nenhuma, que não tem surdez nenhuma. Na Fundação das Artes, os professores não eram preparados para ter uma aluna surda, mas eles estavam disponíveis totalmente, como ainda estão, para sentido ou tentar o meu lado. Eu lembro que na Fundação, quando eu passei, que veio o resultado de que eu tinha passado no teste, foi mais ou menos na época em que eu estava colocando, adaptando meu segundo aparelho auditivo, minha segunda tentativa. E eles foram super dispostos a ficar horas a mais comigo para tentar me passar o conteúdo de coisas que eu não entendia na aula, aproximar, ter esse contato, ter esse diálogo para tentar entender. Eu tinha aulas de apoio; qualquer hora que eu tenho dúvida, eu poderia chegar em um professor e falar “eu estou com dúvida nessa matéria”, “eu preciso de ajuda nessa matéria”, e eles eram super oferta a isso. Até mesmo em aprender um pouco da língua de sinais. Eu estudei na Fundação das Artes por mais ou menos três anos e meio, e esses três anos e meio, metade dos meus professores, se eu chegar neles e falar em Libras “oi, tudo bem?”, Eles vão sentido e vão responder. Ou era uma coisa de eu chegar neles e falar: “essa nota está (inaudível) [00:21:29] vários (inaudível) [00:21:30] para mim.

Josisley: Para o nosso ouvinte entendre: eu toco, eu brinco no trombone. Quando eu vou trocar o meu trombone, eu assopro. Eu tenho a questão muscular, do rosto, dos lábios; tem uma movimentação da mão, que eu sei onde eu paro na posição; a pressão do ar que eu vou jogar ali; tudo para tirar a altura aquela nota. E a minha memória é auditiva, eu escuto aquele som. E com isso eu gravo aquele monte de filhos possíveis, e eu consigo executar. Me parece que a sua mecânica é diferente. Você conseguiria descreve essa mecânica? Você falou que tem a questão das vibrações, mas a vibração do violão é diferente da vibração da Flauta. E como que você faz? Você cria um arquivamento na sua memória de todas as vibrações?

Carol:Meio que foi um mapeamento que eu fiz ao longo do tempo. A questão da vibração eu sinto desde criança, para você ver que é um estudo muito longo que eu tenho comigo. Você falou do trombone, o trombone para mim, por exemplo, não vai vibrar na mão como a flauta transversal, o pessoal da madeira, clarinete, oboé, e assim por diante. Ele não vai vibrar na mão. O trombone vai vibrar na minha nuca. E a vibração do trombone é um pouco mais agressiva. Bater a vibração dos metais é. Mas eu sei diferenciar, “isso aqui é um trombone, isso é um trompete, isso é uma tuba”, eu acredito que pela intensidade mesmo, pelo jeito que vem a vibração para mim. Até mesmo quando você está tocando piano sem trombone, uma vibração vai ser a mesma, mas eu vou conseguir diferenciar, “você está tocando piano, você está tocando forte,

Josisley: Nossa.

Carol: Imagina isso em um piano.

Josisley: Estou tentando, acredite. É bastante coisa. Agora eu ou falo uma coisa muito besta, porque na nossa cabeça de ouvinte, assim que se diz, você é surda e eu sou um ouvinte, né?

Carol: Sim.

Josisley: Você não escuta de forma atrasada, você escuta, o pouco que você escuta, você escuta na realidade um som mais piano. Então você não recebe, por exemplo, a minha voz deformada. Você escuta a minha voz normalmente, porém bem piano, é isso?

Carol:No caso, o que você está falando, com aparelho auditivo eu escuto falar normal. Eu posso até aumentar o volume da sua voz para mim, mas sem um aparelho eu não vou escutar nada, só leitura labial. E a música é a mesma coisa. Um exemplo: ano passado eu fui no Loolapalooza e eu fui sem o aparelho auditivo. Eu fui com amigos e alunos que tocam no mesmo grupo em que eu toco aqui em São Paulo. A gente foi em três surdos e quatro ouvintes, se eu não me engano. Desses três surdos, uma única que usava aparelho auditivo era eu. Conversando com a minha fono, que cuida da parte da minha saúde auditiva, eu falo que do meu ouvido biônico, porque literalmente ele é biônico, ela me aconselhouhou: “não vai de aparelho”. E realmente, eu não fui. O barulho estava tão alto que – a gente ficou embaixo do palco – os ouvintes subiram para o morro, porque é no Interlagos. Eles subiram a montanha lá, e a gente ficou curtindo um som lá emb