
Tecnocracia
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S2 Ep 35O manual de eleição digital para o fascista moderno chegar ao poder
Ouviu o Tecnocracia e veio aqui em busca dos links citados? Cinco dos dez canais que explodiram no ranking do YouTube durante as eleições são de extrema-direita, no The Intercept. Sites que apoiam Bolsonaro apagaram centenas de vídeos nos últimos meses, no Jornal Nacional. Gab, a rede social dos conservadores, testa os limites da liberdade de expressão. Poucas semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, um dos candidatos, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), anunciou que havia registrado seu plano de governo em uma blockchain, a tecnologia por trás do bitcoin. No site da campanha, já fora do ar, mas ainda disponível na Wayback Machine, o comunicado oficial explicava que o registro na blockchain era uma forma de garantir que as propostas, “constantemente modificadas para a manipulação de eleitores”, chegariam a eles na íntegra. Eleitores em dúvida sobre as “teorias criadas pela rede de desinformação do candidato opositor” poderiam, em tese, conferir se era mentira ou não. (mais…)

S2 Ep 34Mark Zuckerberg está no lado errado da história
Em 1954, a Suprema Corte dos Estados Unidos julgou inconstitucional, por unanimidade, a segregação racial nas escolas do país. Até então, os governos estaduais definiam se alunos brancos e negros seriam misturados ou se cada um iria para uma escola diferente — em sua maioria esmagadora, as escolas frequentadas pelos brancos não eram as mesmas escolas frequentadas pelos negros. Estudos feitos nas décadas seguintes mostraram que as escolas dos brancos recebiam mais dinheiro do governo e eram melhores em qualidade educacional que as escolas dos negros. (mais…)

S2 Ep 33Todo dia ela faz tudo sempre igual: trabalho em tempos de COVID-19
Além do cappuccino, do Vaticano e do fascismo, a sociedade moderna deve à Itália o conceito de empresa. Ainda que grupos de pessoas venham se unindo sob uma mesma organização para fazer comércio desde a Mesopotâmia, 3 mil anos antes de Cristo, foi durante o Império Romano que tomou forma a estrutura da empresa que conhecemos até hoje. “Eles certamente criaram alguns dos conceitos fundamentais de legislação corporativa, particularmente a ideia de que uma associação de pessoas pode ter uma identidade coletiva separada dos seus componentes humanos. Eles ligavam as companhias à família, a unidade básica da sociedade. Os sócios — ou ‘socii’ — deixavam a maior parte das decisões gerenciais para os gerentes, que, por sua vez, operavam o negócio, administravam os agentes no campo e mantinham ‘tabulae accepti et expensi’, os livros de contabilidade”. Ainda que os romanos tenham dado a primeira forma, foram outros italianos que, baseado no que os romanos já tinham criado, aperfeiçoaram o modelo. Esse trecho é de um livro excepcional chamado The company: A short history of a revolutionary idea, de dois jornalistas da revista The Economist, John Micklethwait e Adrian Wooldridge. (mais…)

S2 Ep 32O mundo pós-COVID-19: há pouco de novo no “novo normal”
O escritor argentino Julio Cortázar publicou em 1969 o conto que melhor sintetiza a passagem de tempo na literatura mundial, segundo a minha opinião. Chama-se A auto-estrada do Sul e está num livro chamado Todos os fogos o fogo”. No conto, uma multidão de carros avança por uma estrada que liga o interior da França a Paris numa tarde de domingo até que todos são obrigados a parar em um congestionamento. Naquele anda e para conhecido por qualquer um que já tenha passado horas em um engarrafamento, os carros seguem por quilômetros até que param completamente. (mais…)

S2 Ep 31A SoftBank colocou os unicórnios em coma e o coronavírus desligou os aparelhos
No basquete, há uma expressão chamada “heat check”. A Luciana Gimenez vai explicar para você. (Seria ótimo se agora entrasse a Luciana real explicando, mas eu não tenho contatos na high society, então quem vai ter que explicar o que é sou eu.) Basicamente, o “heat check” é quando um jogador percebe que está num daqueles dias em que tudo dá certo e vai checando o quanto a mão está quente (por isso “checagem de calor”). Arremessar uma bola num aro distante não é fácil. Na linha de três pontos, é ainda pior. Mesmo com anos de treino e seguidas horas diárias repetindo o movimento dos braços e das mãos, os melhores arremessadores têm uma média próxima a 50% de acertos de bolas de três, ou seja, a cada dois arremessos, um entra. A média de todos os jogadores está quase em 30%. Um dos atletas com mais momentos de “heat check” na NBA se chama Klay Thompson e ainda joga — quer dizer, ele sofreu uma lesão horrenda em 2019 e só deverá voltar às quadras no fim do ano. Um dos maiores “heat checks” do Klay aconteceu em 12 de maio de 2016, quando o time dele, o Golden State Warriors, jogava contra o Indiana Pacers na Califórnia. De qualquer lugar que ele arremessasse a bola caía. Em 29 minutos em quadra (vamos lembrar que jogo de basquete são 4 tempos de 12 minutos, num total, claro, de 48 minutos), Klay Thompson fez 60 pontos. Chegou um momento da noite em que a torcida sabia que a bola que saísse das mãos dele ia entrar. Era o clássico dia em que tudo dá certo. Por mais que você treine, ainda assim um dia ruim pode impactar sua habilidade de executar o que você vem treinando sua vida toda para. (mais…)

S2 Ep 30O coronavírus tirou qualquer freio à invasão da tecnologia na sociedade
Quando conquistadores holandeses aportaram na Austrália para explorar uma região no oeste do país, a crença global era de que cisnes só eram encontrados em uma cor: branco. A certeza era tamanha que, na Inglaterra medieval, um dos ditados populares usava a expressão “cisne negro” para professar algo impossível. Acreditava-se na época que a probabilidade de ver uma ave negra era a mesma de ver um porco voando. Foi por essa razão que a expedição liderada por Willem de Vlamingh ficou atônita quando viu, nadando no Swan River (Swan é cisne em inglês), um cisne negro. O bicho existia. Além de ter virado uma ave ornamental nos séculos seguintes e povoado todos os continentes depois que os holandeses levaram centenas de espécimes embora, o cisne negro virou também o mote de uma teoria econômica. (mais…)

S2 Ep 29Na era da auto-exposição exagerada, silêncio não significa incompetência
Este Tecnocracia vai contar três histórias diferentes que, à primeira vista, não têm relação entre si. No fim a gente amarra. (mais…)

S2 Ep 28Por trás das campanhas de desinformação sempre tem alguém lucrando — e não é você
Em 1867, uma molecada estava brincando perto da margem do rio Orange na cidade de Hopetown, África do Sul, quando notou umas pedrinhas brilhantes no leito do rio. As pedrinhas, abundantemente espalhadas, acabaram sendo usadas em jogos que o filho do dono da fazenda, Erasmo, jogava com as crianças da vizinhança. A mãe de Erasmo notou que as pedrinhas eram realmente muito brilhantes e mostrou a um fazendeiro vizinho, que se dispôs a comprá-las. Algo lhe dizia que aquilo não eram simples seixos de rio. A ideia era levar para geólogos em Hopetown e na cidade vizinha Colesberg para analisar um potencial valor. (mais…)

S2 Ep 27Se a vigilância é o novo normal, deveríamos ter o controle dos nossos dados
No fim da década de 1980, o Partido Democrata dos Estados Unidos já tinha decidido quem seria seu candidato à Casa Branca para a eleição de 1988. Tudo indicava que, após oito anos de governo do republicano Ronald Reagan, era hora dos democratas voltarem à presidência. Não era só o momento que era favorável. Vencedor das primárias do partido, o senador Gary Hart personificava a figura perfeita. Se um marqueteiro lapidasse um candidato ideal, ele seria Hart, a começar pelo visual: com 51 anos, sorriso fácil e um cabelo raro para a idade, Hart era aquele jovem senhor que desfila charme por aí. Alguns democratas viam nele uma nova encarnação da mística de John Kennedy, presidente assassinado 25 anos antes. (mais…)

S2 Ep 26Monopólios sempre emperraram a inovação — e não é diferente com as Big Tech
Dois mil e dez foi um ano movimentado em tecnologia. A Apple lançou o iPhone 4 e o iPad, comprou a startup Siri (que viraria seu assistente pessoal) e Steve Jobs voltou a aparecer após meses longe dos olhares do mundo. A Microsoft foi atrás da AWS com o Azure e ainda tentava entrar na guerra dos smartphones com o Windows Phone 7. A Amazon já ensaiava atacar outras frentes, mas a venda de livros ainda era seu negócio principal — em 2010, pela primeira vez, os e-books venderam mais que as cópias físicas. A Intel comprou a McAfee, Yahoo, Nokia e HTC eram relevantes e surgiram as primeiras informações sobre o smartphone que o Facebook estava fabricando (três anos depois descobriu-se que era por uma parceria com a HTC). Só o fato de ter o iPhone 4 e o iPad já dariam importância ao ano: o primeiro lançou essa tendências de smartphones “embalados” em vidro, o segundo desengatilhou uma outra tendência — ainda viva, mas de menor fôlego, é verdade —, de tablets como substitutos de notebooks. (mais…)

S1 Ep 25Em 2019, a briga para manter os monopólios se tornou explícita
Roger McNamee é um dos sujeitos mais impactantes do mercado de tecnologia de quem você nunca ouviu falar. No seu primeiro trabalho na área, no começo da década de 1980, ele liderou investimentos na Electronic Arts. Quando foi trabalhar em um dos fundos mais tradicionais do Vale do Silício, o Kleiner Perkins, McNamee se envolveu em investimentos feitos em um navegador chamado Netscape e em uma loja online chamada Amazon. Ambos os negócios se tornaram gigantescos, mas é sempre bom frisar que quem começou o frenesi financeiro da internet foi o Netscape, o primeiro navegador gráfico para usuário final da história. O histórico de acertos do McNamee era tão sólido que ele fez o que qualquer um com naquela posição faz em sua área: para que trabalhar para os outros se eu posso colher os frutos todos para mim? Em 1999, ele fundou a Silver Lake Partners com outros sócios e passou a farejar o mercado atrás de negócios com potencial. (mais…)

S1 Ep 24O governo deveria proteger seus dados, mas é excelente em expô-los
Toda profissão depende de informação, mas algumas dependem mais do que outras. Um cirurgião, por exemplo, precisa conhecer os novos métodos e equipamentos na sua área, mas a maneira como ele vai operar se mantém mais ou menos a mesma. A informação é importante, mas não é o eixo ao redor do qual a profissão gira. Existem profissões onde o principal capital é a informação. Jornalismo, por exemplo. Você vive para buscar, contextualizar e reportar informações. Não é a única atividade que segue a regra. Investidores também precisam consumir vorazmente informações para tomar decisões sobre o que fazer com aquela ação — vender por que a perspectiva é uma merda ou comprar mais já que o futuro tende a ser brilhante. Quer outra? Vigaristas, estelionatários e bandidos. (mais…)

S1 Ep 23A sina do Brasil é exportar commodity e a internet não vai mudar isso
No final do século XVII, Portugal tinha um problemão nas mãos. Em 1695, ano da morte de Zumbi dos Palmares, o outrora grandioso, aventureiro e rico Império Colonial Português parecia estar com os dias contados. Sessenta anos de União Ibérica (a fusão com a Espanha por falta de herdeiros do trono português) e quase um século de guerra contra os holandeses haviam dilapidado os recursos, aniquilado o comércio de especiarias no Oriente e reduzido substancialmente a vastidão dos territórios ultramarinos do reino. A economia do açúcar no Nordeste brasileiro (até então a maior fonte de receita na colônia) estava em crise devido à concorrência dos novos engenhos ingleses, franceses e holandeses na região do Caribe. Os preços caíam em virtude do excesso de oferta. Havia também novos concorrentes no tráfico de escravos, atividade na qual Portugal tinha sido virtualmente monopolista até um século antes. Por toda a costa da África despontavam agora novas fortificações e feitorias de outros povos europeus, incluindo até mesmo suecos, dinamarqueses e alemães. O trecho vem de Escravidão, um livro fundamental em que Laurentino Gomes mergulha no processo que mais profundamente impactou e moldou a sociedade brasileira. O livro deveria ser leitura obrigatória a todos os brasileiros. (mais…)

S1 Ep 22A incrível estupidez da geração que glamourizou o excesso de trabalho
Existe um mito na física chamado “máquina do movimento perpétuo”. Uma máquina do movimento perpétuo seria capaz de, após começar, criar sem ajuda externa uma quantidade de energia suficiente não apenas para garantir seu funcionamento, mas também para fornecer o extra para consumo externo. Em outras palavras: uma fonte de energia infinita que não precisa de nenhum estímulo além daquele no começo. (mais…)

S1 Ep 21Como o Vale do Silício criou o conto de fadas para adultos
Qual é a música mais bonita já escrita no Brasil? Você pode até chutar um monte, mas a minha eu já escolhi. É uma música escrita em parte por um dos maiores brasileiros a ter pisado nessa vida. Paulo Emílio Vanzolini fez uma carreira de enorme sucesso na biologia — médico formado pela USP com doutorado em Harvard e décadas como diretor do Museu de Zoologia da USP, o mais importante do país. Mas você não conhece Paulo Vanzolini por sua carreira de inegável sucesso na biologia. Fora da expediente, Vanzolini compunha músicas baseadas no que observava quando estava em São Paulo ou mergulhado no Pantanal por semanas fazendo seus estudos. Você provavelmente já ouviu Ronda e Volta por cima. (Se não está lembrado, pare de ler este Tecnocracia e vá ouvi-las, de preferência nas interpretações da Maria Bethânia. Uma regra de vida: se a Maria Bethânia cantou, é improvável que você ache uma interpretação melhor.) (mais…)

S1 Ep 20Cuidado para não virar o vovô Simpson gritando para nuvens
Este Tecnocracia começa bem lúdico. Transcreverei duas notícias publicadas por um veículo de massa e um trecho de ensaio falando sobre a chegada de uma nova tecnologia e você vai pensando sobre o que o sujeito está falando: 1. “A tecnologia fez algum bem? Acabou com algum mal, mitigou alguma tristeza? É de alguma consequência que você, de Nova York, deva saber na terça-feira em vez de quarta-feira que Jones amassou o nariz de Thompson no Congresso na segunda-feira? Algum dinheiro a mais é ganho ou perdido pelos especuladores de algodão em Nova Orleans e Nova York por que eles sabem das variações de ambos os mercados em cinco minutos, não mais cinco dias, antes que sua operações passem a valer?” (mais…)

S1 Ep 19A tecnologia prometia diminuir a desigualdade entre brancos e negros, mas periga aumentá-la ainda mais
Este Tecnocracia começa com uma explicação básica para quem não viveu a era da fotografia analógica: nas câmeras do tipo, a foto era “impressa” pela luz em um filme fotográfico, que ia se enrolando a cada pose tirada num tubinho. Os filmes não eram praticamente infinitos como os cartões de memória de hoje; cada um tinha entre 12 e 36 fotografias. Acabadas, o fotógrafo tinha que tirá-lo da câmera e deixá-lo em um estúdio fotográfico, que usaria máquinas caras na época para “transformar” aquele filme em imagens de papel. Basicamente, as máquinas liam a imagem no filme, imprimiam ela no tamanho que você queria e um sujeito, por fim, colocava as fotos em um pequeno álbum. Procure na casa dos seus pais ou avós e você deverá achar um monte desses álbuns com capas medonhas (a Fototica, uma época, colocava uns peixes lisérgicos na capa) e uns adesivos constrangedores para colar nas fotos. Esse foi o modelo que durou mais de 50 anos. A partir da década de 1940, quem quisesse montar um estúdio fotográfico precisava comprar os equipamentos e o papel fotográfico onde o filme seria impresso. Junto com o filme fotográfico, a Kodak, maior empresa do setor e case da líder que foi destruída pela própria petulância, mandava também um cartão colorido chamado Shirley Card. O Shirley Card estampava uma mulher sorridente e maquiada, olhando para a câmera, cercada de quadrados com mais de dez cores, dos tons de cinza às cores primárias. Era com ele que os donos de estúdios calibravam as máquinas que faziam a revelação — era preciso fazer pequenas alterações para garantir que o amarelo que saía nas fotos era o amarelo mais vivo possível. (mais…)

S1 Ep 18Em nome do lucro, o YouTube abriu os portões do inferno da desinformação
Em uma manhã de novembro de 2007, eu estava sentado no confortável sofá do hall de um destes hotéis de luxo da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, esperando para entrevistar um dos sujeitos responsáveis por essa mídia chamada internet. Rápida recapitulação: a internet como conjunto de redes conectadas que formam uma única rede global foi criada por um norte-americano chamado Vint Cerf. A “internet” como a mídia onde a gente passa horas e horas do nosso dia (ou seja, a aplicação que roda sobre a junção das redes), conhecida como web, foi inventada por britânico chamado Tim Berners-Lee. (mais…)

S1 Ep 17A misoginia é um problema fora do controle no mercado de TI
A história mais popular envolvendo tecnologia fora da linha de frente na II Guerra Mundial explica como um matemático britânico chamado Alan Turing criou uma metodologia capaz de decifrar os códigos alemães e como a Inglaterra conseguiu reverter um quadro ruim nos campos de batalha a partir dos códigos interceptados. A chamada “Bletchley bombe”, a máquina construída por Turing e sua equipe no Bletchley Park, automatizava e acelerava a quebra das mensagens codificadas pelo sistema Enigma dos nazistas. A bombe é a mais conhecida máquina de guerra, mas não é a única. Do outro lado do oceano Atlântico, os Estados Unidos também estavam correndo para desenvolver uma máquina capaz de calcular rapidamente trajetórias balísticas — os arcos descritos por projéteis e balas do momento em que eles saem da arma ao impacto. Humanos demoravam, em média, 30 horas para completar uma trajetória balística. Como os exércitos precisavam de dezenas por dia, o jeito era procurar alguma forma de automatizar. Em 1942, o professor John Mauchly, da Moore School of Engineering, na Filadélfia, propôs a construção do que chamou de “calculadora eletrônica”: um hardware que usasse tubos a vácuo, a tecnologia mais moderna da época, para calcular. No ano seguinte, o governo aprovou o projeto e financiou o chamado Project PX. Só em novembro de 1945, quando a guerra já tinha terminado, o projeto foi concluído e ganhou o nome de Electronic Numerical Integrator and Computer, o Eniac. (mais…)
S1 Ep 16Como o governo pode ajudar no fomento à inovação em tecnologia
Na década de 1940, um pediatra chamado Sidney Farber teve uma ideia quando estava tentando encontrar uma forma de tratar crianças com leucemia linfoide aguda (LLA), uma das formas mais agressivas de câncer no sangue. Farber deu aos pequenos pacientes ácido fólico, o que desengatilhou o contrário da sua meta: a doença avançou ainda mais rápido. A partir desta informação, Farber teorizou que, se ministrasse uma substância “contrária” ao ácido fólico, talvez a doença pudesse ser freada ou curada. A lógica de Farber estava correta. Em um teste, 16 crianças com leucemia receberam doses de uma substância chamada aminopterina. Dessas 16, 10 entraram em remissão, ou seja, o câncer não só parou de evoluir, como retrocedeu. Farber não sabia ainda, mas tinha criado a forma mais eficiente de combater à maioria dos tumores humanos: a quimioterapia. (mais…)
S1 Ep 15Do narrar para viver ao viver para narrar
Numa tarde de 1912, um sujeito chamado Adolph Zukor esperou durante três horas para ter uma reunião com um dos homens mais poderosos na indústria cinematográfica norte-americana: Jeremiah Kennedy, o presidente da Edison Company. Zukor nasceu na Hungria e emigrou aos Estados Unidos após seus pais morrerem, quando tinha 16 anos. Depois de trabalhar consertando poltronas em seus primeiros anos nos EUA, Zukor achou uma carreira de sucesso consertando e vendendo peles de animais. Não era tão fã assim de cinema, mas quando um primo lhe pediu um empréstimo para abrir um cinema em Nova York, entrou como sócio. Gostou tanto que investiu US$ 18 mil (uma fortuna na época) do próprio bolso para levar aos EUA um filme francês chamado Queen Elizabeth. O sucesso do filme não apenas pagou o investimento, como capturou a atenção de Zukor. A partir daí, era óbvio para ele qual o caminho que o cinema deveria tomar. (mais…)
S1 Ep 14A improvável aliança entre os bilionários do Vale do Silício e Eduardo Suplicy sobre o futuro do trabalho
Qual é a invenção mais importante da história da humanidade? Se você falou o smartphone, pode passar no guichê, tomar seu remedinho e voltar para o fim da fila. A roda? O motor — primeiro a vapor, depois a combustão? Pólvora? Vacina? Eletricidade? Os tipos móveis de Gutenberg? Todos ótimos candidatos e, como isso não é uma competição, a gente vai deixar a resposta em aberto. (Quando a discussão sobre fofocas das celebridades acabar na mesa do bar, jogue esse assunto e você verá uma interessante conversa florescer — ou não.) E se a gente limitar a maior invenção — ou a que mais impactou a vida das pessoas — dos últimos 100 anos? A internet parece ser uma aposta certeira. O semicondutor, também. Mas existe uma terceira muito menos óbvia que dita a forma como você consome diariamente e para o qual você não dá a menor bola: o contêiner. (mais…)
S1 Ep 13Os bancos estão sob ameaça, mas não pelas fintechs que você imagina
Você já leu a Bíblia? Eu ainda não. Independentemente da sua religião e das barbaridades que muitos religiosos tenham cometido — e continuem cometendo — em seu nome, é inegável o impacto que o livro ainda tem na nossa vida. Se você for à Itália, por exemplo, e visitar os museus de Florença, Roma e do Vaticano, é sempre bom ter em mente que os maiores mecenas de artistas como Michelangelo Buonarotti, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio e Caravaggio foi a Igreja Católica e que os temas das obras de arte eram, majoritariamente, histórias bíblicas. Alguns deles, inclusive, eram contratados exclusivamente por papas ou pelo Vaticano. Rafael, por exemplo, dedicou quase a carreira toda para dois papas, Júlio II e o Leão X, e Michelangelo foi perseguido até o fim da vida por ter recebido uma encomenda também do Júlio II e não ter entregue as estátuas do seu túmulo. (mais…)
S1 Ep 12Os apps de transporte criaram uma dinâmica de trabalho de Robin Hood ao contrário
O cânone do Tecnocracia tem alguns autores que nunca escreveram uma linha sobre tecnologia. A vida é bem mais que gadgets e apps, ainda que, hoje, a vida seja moldada por eles. Um destes autores é um sujeito que só fez sucesso quando começou a contar os segredos da sua profissão. Em 1999, um chef desconhecido chamado Anthony Bourdain publicou um artigo longo na prestigiosa revista New Yorker detalhando como funcionavam restaurantes estrelados por trás da porta da cozinha. O título: “Não coma antes de ler isto”. O artigo foi um sucesso e uma editora sugeriu que Bourdain encorpasse o texto para transformá-lo em um livro. Saiu dali o Cozinha confidencial. O livro é fundamental para qualquer um que não prepare em casa todas as refeições, ou seja, toda a humanidade com a exceção dos religiosos que vivem em comunidades fechadas, como os monges. Além de uns casos escandalosos e fofocas corriqueiras (como a história da noiva que, durante seu casamento num restaurante, saiu da festa para chupar um cozinheiro ao lado da porta da dispensa), o interessante do livro do Bourdain é mostrar como os restaurantes criam métodos de reciclagem de comida para garantir que o que foi desperdiçado hoje não vire lixo, mas lucro, amanhã. Pelo parâmetro do Bourdain, um bom indicativo para entender a saúde financeira de um restaurante é observar se ele está começando a abrir para o brunch. O brunch, essa refeição que não é nem um café da manhã por ter álcool, nem um almoço por só ter ovo e bolo, é um fenômeno muito mais popular nos Estados Unidos que nos Brasil (ainda bem), mas o exemplo se sustenta. Por quê? A real função do brunch é desovar todo o resto de comida comprada que, ao contrário do planejado, não saiu da cozinha nas noites de quinta, sexta e sábado, o filé mignon do horário dos restaurantes. Se tem comida sobrando suficiente para justificar um brunch, é porque o dono não tem a menor ideia de como gerir um restaurante. Aliás, talvez a melhor lição do livro do Bourdain seja deixar claro que cozinhar bem não é incentivo nenhum para alguém abrir um restaurante. A primeira armadilha do dono de restaurante falido, diz o chef escritor, é acreditar nos amigos e familiares que dizem que seu prato específico é bom o suficiente para que alguém pague por ele. Isso enche o cozinheiro amador de esperança de largar as planilhas e a vida corporativa para passar as décadas que sobram da sua vida se dedicando à arte da gastronomia, sem chefe, cercado de amigos, dinheiro jorrando de pessoas desesperadas para provar seu prato específico que seus amigos e parentes tanto amam. O que o Bourdain conta é a realidade por trás do delírio. Abrir um restaurante é uma experiência desgraçada. Você acorda muito cedo para receber fornecedores e dorme muito tarde, apenas depois de limpar a cozinha e o salão inteiros para que, quando você voltar de manhãzinha no dia seguinte, tudo esteja pronto para uso. Os melhores fornecedores já estão tomados por restaurantes maiores e mais antigos que os seus. Os melhores cozinheiros já estão empregados nestes mesmos lugares. E, além de fazer um único prato, você não entende nada de como gerenciar aquele monstro. Bourdain diz que os melhores donos de restaurantes que conheceu não sabiam fazer um arroz, mas manejavam planilhas lindamente. (Olha lá seu sonho de dizer adeus ao Excel dizendo adeus.) Voltemos ao brunch. Para desovar comida que nem sempre está no seu melhor formato para consumo, o restaurante precisa apelar para estratégias que a deixem minimamente apetitosa. E dá-lhe manteiga e empanado. Empanar algo é a receita do sucesso: o que está dentro daquela crostinha crocante quase não importa, já que o gosto vai ficar soterrado em óleo e farinha. Além disso, quem não gosta de coisa frita? Empanar é tirar o foco da frescura do alimento. Você come um peixe ou um frango meio azedo sem perceber. Se Bourdain ficou pasmo com a estratégia dos brunches, lamento que ele tenha morrido sem conhecer a fundo os restaurantes a quilo no Brasil, onde a estratégia de reciclagem de comida está numa outra escala: filé na segunda-feira, carne desfiada do que sobrou na terça, croquete da sobra da sobra na quarta e um sopão para o jantar na quinta do que ainda resistiu no congelador. Se vivesse em tempos atuais, Antoine Lavoisier teria tornado o princípio da conservação da matéria ainda mais complexo depois de um mês comendo no quilo brasileiro. Enfim. O ponto principal do meu argumento é que, num brunch ou no quilo, você come feliz uma coisa que está quase passada e ainda paga a mais por isso. O dono do restaurante fica feliz. Seus triglicérides também. Guarda na cabeça esse pensamento do empanado no brunch. A bolha tóxica do empreendedorismo Todo mundo tem seus “guilty pleasures”, aquela coisa que a gente sabe que não deveria fazer, mas tem prazer em fazer e por isso não nos aguentamos. Um dos meus é entrar no LinkedIn. Antes de entrar, eu preciso me preparar. Vou até a área de serviço e pego um galão de cândida, já que, n
A rede social não está apenas fragmentando sua atenção, mas também te anestesiando para a vida
Esta história começa com um lado macro e um lado micro. O macro: toda geração se acha melhor que as gerações anteriores à sua. A do seu pai achava. A do seu avô achava. E a sua também acha. A incapacidade de ver o futuro, aliada à possibilidade de analisar o passado nos mínimos detalhes, nos coloca na confortável possível de saber como os antigos viviam e não entender como algumas armadilhas tão óbvias não eram vistas pelo seu pai, sua mãe ou seus avós como… bem, armadilhas. O problema é que, enquanto damos risada de como os nossos pais caíram no papinho da indústria tabagista de que fumar era glamouroso, por exemplo, a gente mesmo está caindo em outro papinho ainda pior. (mais…)
S1 Ep 10A internet brasileira é feita de ciclos — e estamos saindo de um
Sístole, diástole. Se você faltou na aula de biologia, esses são os dois movimentos mecânicos do seu coração, repetidos milhões de vezes de quando ele começa a bater, entre a terceira e sexta semanas de gestação, a quando seu corpo é acomodado nem tão confortavelmente na sepultura. É um processo extremamente repetitivo e é ótimo que assim seja. Quando ele perde essa repetitividade, meu amigo… eu tenho más notícias. Sístole é quando os músculos cardíacos se apertam para mandar o sangue pelo corpo. Diástole, quando eles relaxam para que as cavidades se encham de sangue. (mais…)

S1 Ep 9Como o lobby pode ser uma arma para suprimir inovação
Organizar um grupo grande é difícil. Você já deve ter percebido isso quando tentou brindar em uma mesa cheia. Quando estão só você e dois amigos numa mesa de bar, é fácil. Grupos maiores são mais difíceis de gerir. Um brinde entre todas as possibilidades numa mesa com 16 pessoas demora um certo tempo. O papo aqui não é etílico, mas organizacional. Conforme um grupo vai crescendo em tamanho — e a complexidade vai crescendo junto —, é preciso uma forma de organizar as pessoas para que todas elas consigam executar o que devem sem que a complexidade atrapalhe. Foi por isso que nasceram as organizações. “Nós usamos a palavra ‘organização’ para explicar tanto o estado de estar organizado como os grupos que fazem a organização — ‘nossa organização organiza a conferência anual’. Usamos uma das palavras porque, a partir de uma determinada escala, nós não conseguimos nos organizar sem organizações; o primeiro implica no segundo”. Parece um trava-língua, um exercício de um programa infantil da TV Cultura, mas a explicação do Clay Shirky prepara o terreno para entendermos um conceito tão familiar a todos nós que nem paramos para pensar direito. O Tecnocracia desta semana vai falar sobre empresas, especificamente sobre a sobrevivência de empresas. Mais à frente você vai entender. (mais…)
S1 Ep 8A radicalização matou a rede social — e pessoas no mundo real
De vez em quando, o algoritmo do YouTube acerta. Na semana passada, o site me indicou um vídeo do New York Times detalhando como a Arábia Saudita preparou a morte do jornalista Jamal Khashoggi numa embaixada na Turquia, dos voos feitos em aviões oficiais com legistas ao uso de um dublê de corpo semelhante a Khashoggi para simular que o dissidente tinha saído do prédio onde foi brutalmente morto. (mais…)
S1 Ep 7Todo mundo quer seus dados, mas ninguém parece capaz de resguardá-los
Num dia no segundo semestre de 2010, a central de atendimento do UOL recebeu a ligação de um sujeito que dizia ter perdido o acesso à sua conta de e-mail. “Sem problema”, disse o(a) atendente. “Basta confirmar alguns dados pessoais que a gente reseta [a senha]”. A pessoa do outro lado informou CPF, data de nascimento, nome completo e outros dados e o UOL passou, pelo telefone mesmo, uma nova senha para acessar a conta. Esta seria mais uma história monótona de SAC no Brasil se o e-mail cuja a senha tinha acabado de ser redefinida não fosse o de Dilma Rousseff e a pessoa que fez a ligação pedindo a nova senha não fosse a Dilma. (mais…)

S1 Ep 6A internet de hoje não foi feita para conversar
Nas últimas décadas, houve um movimento de trocar cartas com pessoas aleatórias no mundo. Muito antes de existir o PayPal, a plataforma de pagamento, existia o penpal (“amigo de caneta”, em tradução livre). Alguém fazia a intermediação (escolas de inglês, por exemplo) e você saía escrevendo e recebendo cartas de um sujeito em outro país, talvez do outro lado do mundo. Era uma forma ótima de treinar o inglês (por isso as escolas de inglês entravam na jogada). Eu tive uma penpal italiana chamada Anna. Troquei três cartas com ela até que um dia o diálogo terminou, mas a lembrança continua forte. (mais…)
S1 Ep 5O próximo Facebook não sairá do Brasil
Há uma lenda folclórica no jornalismo de tecnologia brasileiro que já dura anos: a fábrica nacional de processadores. Sempre que executivos de Intel ou AMD visitam o Brasil, uma hora ou outra a pergunta aparece . (Não tem nada de errado, já que o trabalho do jornalista é perguntar.) A resposta segue sempre uma mesma linha, a de que o Brasil é um país interessante, um mercado potencialmente enorme, estamos analisando, existe um planejamento. Isso já dura mais de 15 anos e, até agora, nada de fábrica. É uma relação no estilo Vampeta: os executivos fingem que têm planos concretos, o mercado finge que acredita nos executivos e assim a vida segue. (mais…)

S1 Ep 4O homem mais rico do mundo e os dois pesos da privacidade
Em 14 de junho de 2011, a capa do jornal Folha de S.Paulo estampava uma série de quatro fotos tiradas na Cracolândia, quando as gestões recentes da Prefeitura ainda não tinham resolvido definitivamente o problema (essa frase contém ironia e, se você não entendeu, sugiro ler jornal). Nelas, um homem de meia idade, cabeça cheia de cabelos brancos e terno e gravata passeia pela região, no centro de São Paulo, compra uma pedra, fuma no cachimbo e vai embora. Embaixo das fotos, a legenda lia: “O gravata da Cracolândia”. (mais…)
S1 Ep 3A tecnologia aprende com os cigarros e os cassinos
Janeiro de 1964. O Surgeon General, o chefe de uma das divisões de saúde pública do governo norte-americano, conduziu um estudo para revisar mais de 7 mil pesquisas que investigavam os efeitos nocivos do cigarro na saúde humana. O esforço resultou em um relatório chamado Fumo e Saúde: Relatório de Comitê de Aconselhamento do Cirurgião Geral (em tradução livre), que concluía que fumantes tinham chances de 9 a 20 vezes maiores de ter câncer no pulmão que os não fumantes. Para a gente parece óbvio. Na época, não era. (mais…)
S1 Ep 2A Comissão Europeia na linha de frente
Existe um site que congrega todas as principais manchetes do mercado de tecnologia. Chama Techmeme. De hora em hora, uma curadoria humana mostra quais são os assuntos mais comentados na imprensa, agrupando manchetes. É um segredo (ou nem tanto) de jornalistas de tecnologia. Quando precisam saber o que está rolando de mais importante, é para lá que eles vão — pelo menos os mais espertos. O hábito de visitar o Techmeme todo dia, mantido até hoje, quando não me identifico mais como jornalista, me permitiu ver a transformação na cobertura generalizada. (mais…)
S1 Ep 1O fim das utopias
Nota do editor: A partir de hoje, Guilherme Felitti passa a manter a coluna/podcast semanal Tecnocracia, voltada ao mercado de tecnologia, no Manual do Usuário. O podcast está se propagando pela na internet, então os links para assiná-lo ainda estão indisponíveis. Acompanhe o blog para saber quando eles estiverem prontos. Bem-vindo ao Tecnocracia. Você sabe o que quer dizer o termo? Tecnocracia vem da junção dos radicais tecno e cracia. Tecno, do grego, técnica ou habilidade, e cracia, também do grego, governo de. No seu sentido literal, tecnocracia é a forma de governo no qual quem dá as ordens são os mais aptos tecnicamente em suas próprias áreas. É como um governo democrático deveria ser, mas no atual modelo de governo de coalização que persiste desde a redemocratização do Brasil em 1984 não é bem assim que funciona. (mais…)