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Solidão: como lidar com os efeitos do isolamento e o impacto que tem na saúde mental e física

Solidão: como lidar com os efeitos do isolamento e o impacto que tem na saúde mental e física

Que voz é esta? · Joana Pereira Bastos e Helena Bento

January 18, 202455m 23s

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Show Notes

A solidão parece ser um problema cada vez mais premente. Tem impacto na saúde física e mental, sublinha Francisco Paulino, presidente da SOS Voz Amiga. Entre os fatores que lhe estão associados, Renato Carmo, professor de sociologia no ISCTE, destaca a existência de uma economia “cada vez mais liberal, com foco crescente no individualismo”, uma educação “focada quase exclusivamente na obtenção de resultados”, a precariedade e o desemprego, e a diminuição do espaço público. “O que está a acontecer nas grandes cidades é uma tragédia do ponto de vista económico e social”, alerta. Oiça aqui o episódio completo.

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A solidão parece ser um problema cada vez mais premente. Tem impacto na saúde física e mentalsublinha Francisco Paulinopresidente da SOS Voz Amiga. Entre os fatores que lhe estão associadosRenato Carmoprofessor de sociologia no ISCTEdestaca a existência de uma economia “cada vez mais liberalcom foco crescente no individualismo”uma educação “focada quase exclusivamente na obtenção de resultados”a precariedade e o desempregoe a diminuição do espaço público. “O que está a acontecer nas grandes cidades é uma tragédia do ponto de vista económico e social”alerta.A solidão parece ser um problema cada vez mais premente. No final do ano passadoa OMS reconheceu que se trata de um "problema global de saúde pública" e criou uma comissão internacional para estudar a gravidade do fenómeno e apresentar medidas de mitigação. É conhecido o impacto que a solidão temseja ao nível da saúde mentalseja na saúde físicaprovocandopor exemploum aumento do risco de desenvolver doenças cardiovasculares e demências. Qual a dimensão deste problema e que dinâmicas sociais e económicas podem estar na origem da solidão?“Acho que a solidãohoje em diapode ser considerada uma doença mental. A solidão mata. A pessoa sente-se rejeitadafica com baixa autoestimaacha que toda a gente a esqueceu. Daí até ficar deprimida é um pequeno passo. E a depressãoem alguns casosestá associada a pensamentos suicidários e ideação suicida"diz Francisco Paulinopresidente da SOS Voz Amigaa mais antiga linha telefónica de apoio emocional e prevenção de suicídio do país. São frequentes as chamadas com queixas de solidão. "Temos pessoas que nos telefonam e dizem que somos as primeiras pessoas com quem estão a conversar naquele dia". São sobretudo mulherescom idades entre os 55 e os 65 anosviúvasdivorciadas ou cuidadoras informais; vivem tanto em zonas ruraiscomo urbanas. “Enfrentam grandes vulnerabilidades. Por exemplohá quem cuide de familiares durante 24 horas por dianão tendo quaisquer oportunidades de socialização.” Também há quem telefone para a linha todas as semanashá vários anos"porque não tem outro tipo de apoio e vive muito sozinho". O responsável pela linha conta o caso de uma mulher que telefonava quase todos os dias pelas 22h00. “Pedia desculpa de cada vez que ligava e depois explicava quecomo vivia sozinhanão tinha ninguém a quem dizer 'boa noite'. Então telefonava-nosdesejava ‘boa noite’ e depois ia deitar-se.”Entre os vários fatores que podem estar na origem destes sentimentos de solidãoprofessor de sociologia no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboadestaca os de natureza económica. "Temos uma economia cada vez mais liberalcom um foco crescente no individualismo." De acordo com o investigadorassiste-sea uma “erosão da vida coletiva” em diversas esferas sociaisnomeadamente ao nível do trabalhocomunidade e família. "Os valores ligados à solidariedade e à cooperação tendem a ser cada vez mais desvalorizados"dando-se primazia à "competitividade e à concorrência". A precariedade no trabalho ou o desemprego podem contribuir para o isolamento social e a solidãoseja porque provocam processos de desligamento e desfiliação socialcom perdas de laços com as outras pessoasseja porque as dificuldades financeiras acabam por limitar as oportunidades de socializaçãoaponta Renato Carmotambém diretor do Observatório das Desigualdades do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE.Também a diminuição do espaço público a que hoje se assisteassim como a maior distância que vamos criando entre nósao habitarmos cada vez mais fora do centro das cidadesonde as rendas das casas são mais acessíveispodem contribuir para o aumento da solidão. “O que neste momento está a acontecer nas grandes cidades do paíscomo Lisboa e Portoé uma tragédia do ponto de vista económico e socialcom todos os processos de gentrificação e especulação imobiliária que estão em curso. Há uma privatização crescente do próprio espaçoincluindo do espaço público"sublinha o investigador. Neste novo episódio do podcast “Que Voz é Esta?” dedicado à solidãofoi também abordada a relação entre as redes sociais e a solidãoe o aumento dos sentimentos de solidão entre os mais jovensinclusive para valores superiores aos reportados pela população idosaconforme têm revelado estudos internacionais.