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Victor Barros: que lugar tem Amílcar Cabral nas trincheiras da memória?

Victor Barros: que lugar tem Amílcar Cabral nas trincheiras da memória?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

September 26, 20241h 41m

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Apesar do lugar que tem na História, se falarmos de Cabral, os portugueses recordam-se de Pedro, raramente de Amílcar. Resgatar a memória de Cabral é resgatar um discurso anticolonialista que os ventos de um saudosismo anacrónico tentam pôr na defensiva. Fez, em 2023, cinquenta anos que Amílcar Cabral foi assassinado, na Guiné-Conacri. Este mês de outubro, celebra-se o centenário do nascimento. Um bom pretexto para remexer na memória, eterno campo de batalha político. Victor Barros é cabo-verdiano, historiador doutorado pela Universidade de Coimbra, com uma tese sobre a construção da memória do império português nas colónias em África. É investigador do Instituto de Histórica Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e autor de vários artigos sobre Amílcar Cabral.

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Victor Barros: O lugar tem Amílcar Cabral nas trincheiras da memória? Em 2020um conjunto de destacados historiadores fezpara a revista de história mundial da BBCuma lista dos maiores líderes de sempre. Os leitores puseram Amílcar Cabral em segundo lugarà frente de ChurchillJoana d'Arc ou Catarinaa Grande. Apesar do lugar que tem na históriase falarmos de Cabralos portugueses recordam-se de Pedroraramente de Amílcar. Porque a nossa memória continuaem grande parteparada no colonialismo tardio e nos mitos lusotropicalistas que ele construiu. O debate fica mais difícil quandona Cidade da Praiaé mais visível a estátua do navegador Diogo Gomesjunto ao Palácio Presidencialdo que do fundador da Nação. É consensual que a guerra na Guiné-Bissau estava perdida. O talento diplomático de Cabrala teia diplomática que teceuque ia de Moscovo a Estocolmode Havana ao Vaticanode Praga a Hesíquiade Paris a Pequim; o seu génio político; e a estratégia de desgaste das tropas portuguesascom permanente abertura para a negociaçãopara que a guerra colonial corroesse o regimeforam fundamentais para a primeira independência de uma colónia portuguesa em África. Uma independência a que não assistiu. Resgatar a memória de Cabral é resgatar um discurso anticolonialista que os ventos de um saudosismo anacrónico tentam pôr na defensiva. Fezno ano passadocinquenta anos que Amílcar Cabral foi assassinadona Guiné-Conacri. Este mêscelebra-se o centenário do nascimento. Um bom pretexto para remexer na memóriaeterno campo de batalha político. Victor Barros é cabo-verdianohistoriador doutorado pela Universidade de Coimbracom uma tese sobre a construção da memória do império português nas colónias em África. É investigador do Instituto de Histórica Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e autor de vários artigos sobre Amílcar Cabral. É ele quena próxima horanos vai ajudar a perceber a relevância de Amílcar Cabral na história africanaportuguesa e mundial. 1 – Como disse na introduçãoAmílcar Cabral foi escolhido pelos leitores da BBCdepois de uma pré-seleção de historiadorescomo o segundo líder mais relevante da história. Mesmo descontando a subjetividade deste tipo de votaçõeso que torna o líder de um pequeno movimento de libertação tardia de dois países minúsculos colonizados por uma pequena potência europeia tão relevante? 2 - Na Conferência Tricontinentalque juntouem1966movimentos revolucionários e anticolonialistas africanosasiáticos e latino-americanosas intervenções de Amílcar Cabral tiveram forte impacto e impressionaram especialmente Fidel Castroao ponto de contrariar as prioridades de Che Guevara para África. O que viu Castro em Cabral que outros líderes africanos não tinham? - Que papel teve Cuba na guerra na Guiné-Bissau? - O envolvimento de Cuba na guerra civil angolanaparece ser a consequência lógica do seu envolvimento na Guiné. A estratégia cubana em África era um mero prolongamento dos interesses soviéticos ou tinha uma natureza própria? Havia uma rivalidade com a influência do aliado soviético? 3 – A União Soviética deu um forte apoio políticomilitar e financeiro ao PAIGCassim como ao MPLA e à FRELIMO. A relação com a URSS (e com a Checoslováquia) foi tam quedepois da sua morteCabral teve direito a ser nome de uma praça em Moscovo. Cabral também tinha uma relação próxima com o PCPque disse ser intérprete da vontade do povo português de viver em amizade com os então colonizados. Ele não se considerava comunistamasquando ia a Cuba e Moscovonão era assim tão claro... O que eraideologicamenteCabral e que importância isso teve para o apoio soviético? 15’ - Alem da URSS e de Cubao apoio político e militar da Chinafoi importantesobretudo nos primeiros anos. Ao contrário do que aconteceu com o MPLAo PAIGC conseguiucom um intervalo entre 1967 e 1969manter uma dupla relação com a URSS e a China. Como conseguia isto? Eram as suas qualidades diplomáticas? - A guerra na Guiné – ou em Angola e Moçambique - eram guerras por procuraçãono contexto da guerra friaou guerras de libertação entre colonizadores e colonizados? Eram guerras entre o Ocidente e o Leste ou entre o Norte e o Sul? Ou eram as duas coisas ao mesmo tempo? - A guerra poderia ter sido ganha sem o apoio operacional cubano e o armamento soviético? 4 – Apesar do apoio da URSS e Cubapaíses como a Suécia também tiveram um papel importante. Que esforço fez Cabraljunto da opinião pública ocidental (e dos movimentos anticolonialistas na Europa e Estados Unidos)com especial destaque para Françapara isolar Portugal queé bom recordarera membro fundador da NATOEFTA e da OCDE. Não era um Estado pária. - Nessa tentativa de isolamentoque papel teve a ida de Amílcar CabralAgostinho Neto e Marcelino dos Santos ao Vaticanoem 1970para serem recebidos por Paulo VI? 30’ - Para além da Guiné-Conacribase da insurgênciaque importância tiveram as novas nações africanas para o combate militarpolítico e diplomático? Cabral discursou sete vezes na ONU. 5 – Ao contrário de Angola ou Moçambiquea Guiné -Bissau declarou a independência antes do 25 de abril e as FARPbraço armado do PAGCjá controlavam boas parcelas do território. É mais ou menos consensual quepara Portugala guerra estava perdida na Guiné. Porque foi diferente ali? Por causa do território e dos vizinhos? Pelo apoio militar externo? Por causa da estratégia de Cabral? - Cabral disse que “qualquer pessoa com ideias revolucionárias que não entende que a luta tem de incluir negociações não entende nada”. Esta era a diferença da estratégia militar e política de Amílcar Cabral? Resultava de uma vantagem militar (quando comparado com os outros movimentos de libertação) dada pelo armamento a que teve acessosuficiente para criar um impasse? - Apesar de haver uma iconografia que o mostrava como o Che Guevara africanoCabral não costumava estar na frente militar e assumia-o. Ele via-seantes de tudocomo um político e um diplomata? 6 - Portugal foi responsabilizado pela morte de Cabralapesar dos autores materiais terem vindo do próprio PAIGC. O que se sabe hoje sobre o seu assassinato? 45’ - A imagem de Cabral seria a mesma se tivesse chegado a exercer o poder? 7 – A junção das lutas de Cabo Verde e da Guinérelativamente distantese o projeto falhado de unidade binacional resultam da biografia de Cabralda impossibilidade de fazer a guerra em Cabo Verde ou de uma verdadeira unidade histórica? - Isso não foi sempre visto como uma diminuição dos guineenses? Uma espécie de neocolonialismo? É que o papel dos cabo-verdianos no próprio processo colonial não está isento de ambiguidades... 9 – Qual é a relação dos cabo-verdianos com a memória de Cabral? É marcada pela sua relação com um dos partidos? Estamos a falar de um país quepara deixar claro o seu processo de desafricanizaçãomudou a bandeira para se parecer mais europeu? - Na Cidade da Praia é mais visível a estátua do navegador Diogo Gomesdo que qualquer imagem do fundador nacional... 1.00 - E dos guineenses? Veem como património seu? 10 – Cabral dizia que não confundia a exploração com a cor das pessoas e recusava a expressão África negra e a ideia de culturas raciais. Que contributo o seu pensamento pode dar para o debate que hoje temos sobre o racismo estrutural e o colonialismo? 11 – Em Lisboaacabámos de pôr no empedrado da Praça do Império os brasões das províncias ultramarinasimortalizando o que eram apenas arranjos florais. Ao mesmo tempoesperamos há anos que o memorial da escravatura saia do papel. Portugal alguns vez superou a perda do império? Faz sentido falar da descolonização da memória? - No caso dos brasõesnão houve reação das antigas nações coloniais. Isso não diz qualquer coisa? 12 – É um investigador cabo-verdiano que faz boa parte do seu trabalho académico em Portugal. Faz diferença ser um cabo-verdiano? Faz diferença os africanos encontrarem aquilo a que se chama o “lugar de fala”? 1.15’