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Ricardo Dias Felner: e se a cozinha portuguesa não for assim tão boa?

Ricardo Dias Felner: e se a cozinha portuguesa não for assim tão boa?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

December 23, 20241h 21m

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Show Notes

Os portugueses até podem suportar que se diga que os seus descobrimentos foram, em grande parte, uma história de crimes que deixou como grande legado a maior transferência populacional forçada intercontinental. Até podem suportar que insultem Vasco da Gama ou Cristiano Ronaldo. Haverá sempre alguns, mesmo que sejam uma minoria, que acompanharão estas críticas. O que os portugueses não aceitam, e aqui o consenso aproxima-se da unanimidade, é que ponham em causa a sua gastronomia. Em julho de 2015, houve quem dissesse pior do que isso. Alguém se atreveu a escrever que a nossa cozinha era mesmo a pior do mundo. O conhecido crítico britânico de restaurantes Giles Coren escrevia, no “The Times”, a maior ofensa que um português pode ouvir. A reação dos leitores portugueses foi semelhante a um tsunami de ódio, deixando insultos e até ameaças de morte.  No Twitter, Coren até perguntou se havia algum dispositivo para silenciar, naquela rede, um país inteiro, tal a dimensão viral da indignação. Cinco anos depois, quando o jornalista Ricardo Dias Felner escreveu, aqui no Expresso, um texto com um título provocatório: “E se a cozinha portuguesa não foi a campeã do mundo?”. De forma racional, desapaixonada e rigorosa, ajudava a desmontar alguns mitos sobre o que comemos. E, acima de tudo, sobre o que os estrangeiros acham do que comemos. Sim, é verdade, não adoram. A maioria acha a nossa gastronomia apenas moderada ou razoável. Poucos veem a Portugal por causa dela. Muito acham pouco variada, sensaborona, pouco atrativa. Ela está ausente de quase todos os rankings internacionais. Porque a vendemos mal. E provavelmente vendemo-la mal porque, com a boca cheia de orgulho, achamos que se chega a si mesma. É Ricardo Dias Felner o convidado do último episódio do Perguntar Não Ofende em 2024, a abrir o apetite para a consoada. 

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Os portugueses até podem suportar que se diga que os seus descobrimentos foramem grande parteuma história de crimes que deixou como grande legado a maior transferência populacional forçada intercontinental. Até podem suportar que insultem Vasco da Gama ou Cristiano Ronaldo. Haverá sempre algunsmesmo que sejam uma minoriaque acompanharão estas críticas. O que os portugueses não aceitame aqui o consenso aproxima-se da unanimidadeé que ponham em causa a sua gastronomia. Em julho de 2015houve quem dissesse pior do que isso. Alguém se atreveu a escrever que a nossa cozinha era mesmo a pior do mundo. O conhecido crítico britânico de restaurantes Giles Coren escreviano “The Times”a maior ofensa que um português pode ouvir. A reação dos leitores portugueses foi semelhante a um tsunami de ódiodeixando insultos e até ameaças de morte.  No TwitterCoren até perguntou se havia algum dispositivo para silenciarnaquela redeum país inteirotal a dimensão viral da indignação. Cinco anos depoisquando o jornalista Ricardo Dias Felner escreveuaqui no Expressoum texto com um título provocatório: “E se a cozinha portuguesa não foi a campeã do mundo?”. De forma racionaldesapaixonada e rigorosaajudava a desmontar alguns mitos sobre o que comemos. Eacima de tudosobre o que os estrangeiros acham do que comemos. Simé verdadenão adoram. A maioria acha a nossa gastronomia apenas moderada ou razoável. Poucos veem a Portugal por causa dela. Muito acham pouco variadasensaboronapouco atrativa. Ela está ausente de quase todos os rankings internacionais. Porque a vendemos mal. E provavelmente vendemo-la mal porquecom a boca cheia de orgulhoachamos que se chega a si mesma. É Ricardo Dias Felnero o convidado do último episódio do Perguntar Não Ofende em 2024a abrir o apetite para a consoada.Ricardo Dias Felner: E se a cozinha portuguesa não for assim tão boa? Os portugueses até podem suportar que se diga que os seus descobrimentos foramé que ponham em causa a sua gastronomia. Em julho de 2015a maior ofensa que um português pode ouvir. Cito: “A cozinha portuguesa é a pior do mundo. Oupelo menosa pior de todas as nações quentes do mundo. Obviamentea cozinha irlandesa poderá competir com ela. Ou a polaca. Mas na sua insipidez de chumbona sua insipidez hiperssalgadaa comida de Portugal éna melhor das hipóteseso que a cozinha de Inglaterra seria se o país tivesse melhor clima.” A reação dos leitores portugueses foi semelhante a um tsunami de ódiodeixando insultos e até ameaças de morte. No Twittertal a dimensão viral da indignação. Como destacaram colegas seuso artigo não seria dos mais informados e a motivação de dar nas vistas terá contado para o estilo. Masestilo à parteacabou por ser útil. Só dei pelo artigo cinco anos depoisum texto com um título provocatório: “E se a cozinha portuguesa não foi a campeã do mundo?” De forma racionalachamos que se chega a si mesma. Conheci o Ricardo Dias Felner como jornalista político. Reencontro-otantos anos depoiscomo um dos principais jornalistas gastronómicos em Portugal. É criador do blogue “O Homem que Comia Tudo”que virou livropodcast e programa de televisão. Aconselho especialmente as suas crónicas em versão podcast. Pode devorá-las de uma vez ou ir depenicando. Por mimeste será o episódio que farei mais fora de pé. Adoro comer e isso até é visível. Mas dentro de uma cozinhaatrapalho sempre que não esteja a lavar a loiça. Não sei que lugar ocupa num ranking a cozinha portuguesade que sou fã tão incondicional como qualquer português. Sei quese dependesse da minha arteestaria nos últimos lugares. Ainda assimnão me ocorre melhor conversa antes da consoada. 1 – Antes da nossa conversacomo é que chegaste ao jornalismo gastronómico? 2 - Como dizes no artigoquase todos os povos acham a sua gastronomia excelente. Mas os portugueses têm-lhe um amor especial. 81% acham que é imbatívelsó sendo ultrapassados pelos italianos e estamos muito à frente dos espanhóis. De onde vem esta fé no que comemos? - Sempre achei fast food não vingaria em Portugal e vingou. Assim como os restaurantes étnicos. O nosso amor ao que comemos é assim tão forte como dizemos ser? 3 – Quais são os países que estão no pelotão da frente dos rankins internacionais e o que explica o sucesso de uma gastronomia nacional? -Nós não estamos no TOP10nem TOP30. Porque não somos conhecidos? 15’ - No artigo que escreveste para o Expressoem 2021usaste comentários de estrangeiros no “The Portuguese News” sobre o tal artigo do “The Times”feitos por estrangeiros que vivem cá. A Internet é melhor barómetro do que os comentários diretos? Achas que os portugueses querem ser enganados e eles nos enganam? 4 - A partir do artigo de Giles Corenfizeste uma pesquisa junto de jornalistas e gastrónomos internacionaisleste inquéritos e comentários na nete concluíste quedescontado o estilo“Coren está longe de estar sozinho”? É falso que os estrangeiros gostem da nossa gastronomia? - Só 12% dos turistas tinham como motivação gastronómica a escolha de Portugal. 60% visitavam diziam oferta era apenas moderada ou razoável. Portantoa comida não éao contrário do que pensamosum atrativo turístico. - Os turistas conhecem os bons restaurantes? 5 -Quais são as fragilidades da comida portuguesa para os estrangeiros? Genericamentedepois já vamos aos pormenores. 30’ 6 - Os nossos pratos são pesadosacho que todos conseguimos aceitar isso. Talvez até com algum orgulho. Mas o aspeto e a textura também não ajudam. De factonão deve ser fácil convencer um estrangeiro uma comer açorda que parece vomitado. Ou arroz de cabidelaque adoro. E a comida é muito gordurosa. Mesmo o cozido à portuguesaque nos parece evidentenão o é para os estrangeiros... Estamos tão habituados ao que comemos que nem conseguimos perceber a estranheza dos outros? 7 - Uma queixa dos estrangeirosque me espantou no teu artigo até ter começado a pensar melhoré a falta de vegetais. Uma das especialistas que entrevistastes diz que o mais interessante é o esparregadoe não é coisa muito sofisticada. Isso deve-se a quê? - Os nossos legumes estão nas sopas. Mas os estrangeiros não comem as nossas sopas... 8 - Os estrangeiros dizem que comida portuguesa não tem graçanão tem sabor. Na realidadea nossa gastronomia é pouco sofisticada e depende da qualidade dos produtos. Isso é evidente no peixepor exemplo. Onde está a riqueza? Nos produtos? No que é artesanal? E isso não foge ao radar de qualquer estrangeiro? - A globalização da produção alimentarque leva restaurantes alentejanos a servirem porco polacoa fazermos gaspacho com tomate estufas de Múrciadestrói uma gastronomia que depende dos produtos? Se baixarmos a qualidade do produtoperdemos tudo? 45’ - Ouvi um episódio teu sobre a comida alentejanaassunto a que agora sou bastante sensívele levantas a questão dos produtos como a razão para a sua degradação... 9 - No entanto a globalização de produtos foi um dos nossos principais contributos para a gastronomia. Com os espanhóissomos responsáveis por grandes revoluções alimentares. Trouxemoscom elesa pimenta e a noz-moscadao tomatea batatao feijãoos pimentos. Sabemos contar a história do que comemos aos estrangeiros? - O nosso amor ao bacalhau é especialmente estranho. Temos peixe maravilhoso e vamos buscar o nosso preferido a quilómetros de distância... 10 - David Leiteescritor gastronómico de origem portuguesa premiado nos Estados Unidosdiz que o calcanhar de Aquiles da culinária portuguesa é a sobremesa. É tudo ovosleite e às vezes caramelo. Sobretudo muitos ovos. A doçaria portuguesa é mais do que isso e somos nós que a vendemos mal? 11 - No livro “Signature Dishes That Matters”editado pela Phaidoncom os pratos de assinatura mais importantes dos últimos 300 anosEspanha está lá com uma dezena de receitas. Portugal não tem nenhuma. Espanha está no topo dos rankings e nós não. Tem 253 estrelas Michelin e nós 35. Espanhaque tem a gastronomia mais próxima da nossaé uma marca gastronómica fortíssima. O que não fazemos? É o marketing? Espanha ofusca-nos? 1.00 - Vendemos a nossa gastronomia como mediterrânica. Aliáso artigo de Giles Coren parte desse erro. É mediterrânica? 12 - Há recenseamento dos produtos e do receituário tradicional e moderno que nos distinga dos outros? Ou em Portugal é tudo improvisado? - Coisas como o pastel de bacalhau com queijo são o caminho? Criar produtos diferentes? 13 - No teu artigode 2021dizes que a oferta gastronómica tinha dado um salto enorme desde o artigo de Giles Coren de 2015escrito em 2015. Essa evolução continuou? - As nossas escolas de hoteleira estão a preparar caminho? - Dizes que o exagero do artigo de Giles Coren é útil para mos questionarmos. Achas que nos falta humildade para ouvir os outros? Faz sentido ouvir os outros numa coisa tão identitária como a gastronomia? 1.15’