PLAY PODCASTS
Ricardo Alexandre: até onde pode o Irão resistir?

Ricardo Alexandre: até onde pode o Irão resistir?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

March 27, 20261h 10m

Audio is streamed directly from the publisher (traffic.omny.fm) as published in their RSS feed. Play Podcasts does not host this file. Rights-holders can request removal through the copyright & takedown page.

Show Notes

Há quase um mês que somos bombardeados com imagens de guerra e destruição com a estética de videojogo. Explosões filmadas por drones, gráficos de mísseis, comunicados triunfalistas. Mas por trás das imagens há um país de noventa milhões de pessoas, uma orgulhosa civilização com cinco milénios e um conflito que não começou há três semanas. Está latente há quase cinco décadas, desde que uma revolução islâmica derrubou uma monarquia sustentada pelos Estados Unidos – que por sua vez tinha derrubado uma democracia de Mossadegh que beliscou os interesses ocidentais. Património da UNESCO, agora parcialmente destruído pelos mísseis, o Palácio Chehel Sotoun, tem um fresco que retrata a batalha de Chaldiran, em 1514. Celebra uma derrota. Na cultura xiita o martírio não é sinal de fraqueza. O regime colegial iraniano não é tão fácil de decapitar como o de Saddam e assenta numa ideia de resistência ao exterior. Não tem a arma nuclear, mas tem o Estreito de Ormuz. Faz mossa aos Estados Unidos, nem tanto a Israel. E este desencontro pode complicar o fim desta guerra. O convidado é Ricardo Alexandre, editor da TSF, onde apresenta o Estado do Sítio e o Mapa Mundo. Doutorado em Ciência Política pelo ISCTE, com reportagem de guerra nos Balcãs, Palestina, Afeganistão e Irão, esteve no país em 2005 e 2015 e acaba de publicar Tudo Sobre o Irão, um impressionante retrato de 448 páginas que vai da história dos velhos reinos persas à morte de Khamenei, da análise do sistema político iraniano até à influência cultural do futebol nesse país e da figura de Carlos Queiroz.

See omnystudio.com/listener for privacy information.

Topics

Ricardo Alexandre: Até onde o Irão pode resistir? Há quase um mês que somos bombardeados com imagens de guerra e destruição com a estética de videojogo. Explosões filmadas por dronesgráficos de mísseiscomunicados triunfalistas. Mas por trás das imagens há um país de noventa milhões de pessoasuma orgulhosa civilização com cinco milénios e um conflito que não começou há três semanas. Está latente há quase cinco décadasdesde que uma revolução islâmica derrubou uma monarquia sustentada pelos Estados Unidos – que por sua vez ttinha derrubado uma democracia de Mossadegh que beliscou os interesses ocientais. Não é claro se Trumpfascinado pela sua vitória na Venezuelasabia onde se estava a meter. Parece claro quecom eleições intercalares em novembro e uma crise inflacionista no horizontequer sair de lá depressa. Nada tem a ganharao contrário de Bejamin Nethanyauque o terá convencido a embarcar nesta aventura. Património da UNESCOagora parcialmente destruído pelos mísseiso Palácio Chehel Sotountem um fresco que retrata a batalha de Chaldiranem 1514. Celebra uma derrota. Na cultura xiita o martírio não é sinal de fraqueza. O regime colegial iraniano não é tão fácil de decapitar como o de Saddam e assenta numa ideia de resistência ao exterior. Não tem a arma nuclearmas tem o Estreito de Ormuz. Faz mossa aos Estados Unidosnem tanto a Israel. E este desencontro pode complicar o fim desta guerra. Ao longo da próxima hora tentaremos aprofundar as contradições de um regime que é simultaneamente repressivo e capaz de gerar surpresas eleitoraisteocrático e pragmáticoprofundamente odiado nas grandes cidades e resistente a todas as tentativas de o derrubar. O meu convidado é Ricardo Alexandrediretor adjunto da TSFonde apresenta o Estado do Sítio e o Mapa Mundo. Doutorado em Ciência Política pelo ISCTEcom reportagem de guerra nos BalcãsPalestinaAfeganistão e Irãoesteve no país em 2005 e 2015 e acaba de publicar Tudo Sobre o Irãoum impressionante retrato de 448 páginas que vai da história dos velhos reinos persas à morte de Khameneida análise do sistema político iraniano até à influência cultural do futebol nesse país…e da figura de Carlos Queiroz. Não se espantem que não comecemos pela guerra. Tentarei seguir a ordem cronológica. Por economia de tempoque não se impõe a um livronão vou recuar milhares de anos. Ficaremos por este regime e a caminhada para esta guerra. Para saberem tudo sobre o Irãopara lá deste momento que vivemosterão mesmo de ler o livro. 1 – Usando uma expressão de Guterreso conflito entre os Estados Unidos e o Irão não nasceu no vácuo. Depois do início dos ataquesTrump veio falar dos reféns da embaixada americana em Teerãoem 1979. A animosidade dos iranianos chegou com o regime islâmico ou é mais antiga? 2 - A Pérsia é uma civilização com cinco milénios e uma das poucas que nunca foi absorvida por um império europeu. Mas o regime dos ayatollahs construiu a sua legitimidade sobre a permanente tentativa de potências estrangeiras dominarem a Pérsia e a colaboração dos seus reis. Esta narrativa ainda mobiliza a sociedade iraniana ou esgotou-se? - A dinastia Pahlavi governou o Irão durante grande parte do século XX. O avô chegou ao poder com um golpe apoiado pelos britânicoso filho pela CIA e o MI5depois do derrube de Mossadegh em 1953. Agorao neto tenta regressar com o apoio de Israel. Há algum espaço para reinstalar esta monarquia? – Construi-se a ideia que o Irão antes da Revolução como um país livre e liberal que os ayatollahs destruíram. Há uma parte de verdademas o Xá sustentava o seu poder na SAVAKconhecida pela tortura e execução de opositores. Quando Khomeini regressou a Teerãoem 1979três milhões de pessoas foram recebê-lo. A pretexto da óbvia rejeição a este regimenão se anda a reescrever a história do Irão? - Hoje as mulheres arriscam a vida por mostrar os cabelosmas há cinquenta anos o entusiasmo com a revolução juntava maoistasintelectuais de esquerdanacionalistas iranianos e uma ampla simpatia internacionalo que foi reforçado com o ataque do Iraque e a utilização de armas químicas. Como é que um regime que tinha tudo para ser o que foi juntou estes apoios? 3 – As mulheres iranianas representam mais de metade dos estudantes universitários em muitas áreasmas a sua participação no mercado de trabalho não chega aos vinte por cento. O desfasamento entre escolarização e oportunidade foi uma das fontes de tensão e de desgaste do regime? - Dedicas um capítulo inteiro do livro ao cinema iraniano. “Uma Separação”de Asghar Farhadiconta a história de dois Irãos dentro do mesmo país: um modernoescolarizadoansioso por abertura; outro profundamente conservadorligado a uma leitura literal do Islão. Conheceste e falaste com estes dois países. Como convivem? - Dentro do sistema repressivo e teocráticohouve momentos de abertura e até de surpresascomo o reformismo de Khatamia eleição de Rouhani ou o acordo nuclear com Obama. A tendência parece ter sidonos ultimos anosde fechamentocom o Conselho dos Guardiões a afunilar cada vez mais as candidaturas. O fechamento das vias diplomáticas e o endurecimento da posição israelita ajudou a linha radical? 4 – O Irão tem um sistema político complexo. O presidente é eleito por voto popularmas subordinado ao líder supremoque controla as forças armadasa justiça e a política externa. O Conselho dos Guardiões filtra quem se pode candidatar. A Assembleia dos Peritos escolhe o líder supremo. E os Guardas da Revolução são um Estado dentro do Estado. Esta natureza colegial dificulta a anunciada decapitação do regime? - A impopularidade do regimesobretudo nas grandes cidadesé esmagadora. Há uma classe média escolarizada que foi empobrecida por décadas de isolamento. Tudo indicava que a transição de liderança seria um momento crítico para o regime. O assassinato de Khamenei não acabou por facilitar? - Na cultura persa e xiitao martírio não é sinal de fraqueza. Faz sentido que Khamenei tenha sido facilmente morto porque o regime precisava de um mártir? – Em 1979a CIA não antecipou a queda do Xá. AgoraTrump partiu do pressuposto de que o regime iraniano colapsaria ou aceitaria um acordo em dias. Uma das vantagens do Irão é a de conhecer melhor o adversário do que o inimigo o conhece? 5 - A Revolução Islâmica é republicanaem contraste com as dinastias do Golfoe derrubou uma monarquia. Os seus dois líderes supremos estavam ligados à fundação do regime e à resistência à invasão iraquiana. A escolha do filho de Khamenei é um sinal de que essa legitimidade fundadora se esgotou? - Que tipo de liderança podemos esperar: mais pragmática por necessidade de sobrevivência ou mais radical por necessidade de afirmação? E que estrutura de poder é que ainda resistirá aos vários assassinatos de altos quadros militares e do regime? 6 - O 7 de outubro mudou o Médio Oriente. Houve um erro de avaliação do regimeque não percebeu que um Netanyahu enfraquecido usaria este trauma para redesenhar a região? – Uma das consequências da guerra do Iraque foi o reforço do peso regional do Irão. Se o regime cair e for substituído pelo caos o que poderá acontecer na região? 7 - A arma de destruição maciça do Irão é o estreito de Ormuzque Trump parece ter negligenciado. Os Estados Unidos são muito reativos a uma subida do preço da energia. Israelonde esta guerra é muito popularnão está tão dependente dessa racionalidade económica. Isso não deixa o Irão numa posição de grande fragilidade perante Israelmesmo que os Estados Unidos saiam desta guerra? - Israel tem um uma estratégiaa que chama “cortar a relva”entrando em guerra sempre que considera que os rivais estão a recuperar. O Irão pode olhar para esse padrão e concluir que qualquer acordo é irrelevante? 8 - No teu livro abordas os passos de Obama para um acordo nuclearque a própria Agência Internacional de Energia confirmou estar a ser cumpridoe a forma como Trump o rasgou. Ao destruir a única via diplomática que existianão se tornou esta guerra quase inevitável? - A Coreia do Norte reagiu ao ataque ao Irão dizendo que reforçou a urgência do seu programa nuclear? Achas que haverá uma corrida ao nuclear depois desta guerra? 9 - O New York Times noticiou a proposta de paz dos Estados Unidos para o Irãoem 15 pontos. É um ponto de partida? Ainda há condições para uma negociação entre Washington e Teerão ou a dinâmica da guerra já ganhou vida própria? - Responsáveis iranianos fizeram saber que os negociadores enviados por Trump no ano passado — o genro e o parceiro de golfe e de negócios – não tinham conhecimentos técnicos para compreender o alcance da proposta apresentada. É possível que o Irão já estivesse disposto a dar um passo semelhante ao que agora lhe é exigido para pôr fim a esta guerra? - A superioridade militar dos Estados Unidos e de Israel é tão esmagadora que a questão nunca foi quem ganha a guerramas quais as consequências. O Irão tem capacidade para atacar infraestruturas petrolíferas na região e lançar o caos no maior centro produtor de energia do mundo. Trump tem eleições em novembro. Quem tem mais margem para aguentar?