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Presidenciais 2026 com Pedro Magalhães: para onde caminhamos nesta segunda volta?

Presidenciais 2026 com Pedro Magalhães: para onde caminhamos nesta segunda volta?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

January 27, 20261h 15m

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A primeira volta das eleições presidenciais confirmou tendências que vinham a ser ensaiadas nas legislativas, mas libertaram-nas de uma disciplina partidária que parece cada vez mais artificial. O que saiu da primeira volta foi uma fragmentação da direita, voto útil à esquerda, normalização da extrema-direita e um eleitorado cada vez mais solto, mais tardio nas decisões e menos fiel às siglas. Pela primeira vez em cinquenta anos, os candidatos apoiados por PS e PSD não chegam a conquistar metade do eleitorado. O centro político, que durante décadas estruturou a democracia portuguesa, já não organiza o voto como organizava. A direita estilhaçou-se, o PSD perdeu capacidade de hegemonia no seu próprio campo, o Chega deixou de ser tabu para uma parte relevante do eleitorado conservador e o espaço político do PS surge, para muitos, menos como projeto político do que como garante de estabilidade. Outras coisas mostram-se mais estáveis do que se pensava: ser socialista não é, final, estigma eterno e a independência partidária não chega para ganhar eleições. Para perceber o que mudou na sociologia do voto, no sistema partidário e nos próprios limites da análise eleitoral, conversamos com Pedro Magalhães, uma visita assídua do Perguntar Não Ofende, nos balanços eleitorais. Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, doutorado pela Ohio State University, antigo diretor do Centro de Sondagens da Universidade Católica, tem estudado ao longo das últimas décadas o comportamento eleitoral, opinião pública e sistemas políticos comparado e é uma das vozes mais consistentes na leitura dos ciclos políticos portugueses.

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Pedro Magalhães: Para onde caminhamos nesta segunda volta? A primeira volta das eleições presidenciais confirmou tendências que vinham a ser ensaiadas nas legislativasmas libertaram-nas de uma disciplina partidária que parece cada vez mais artificial. O que saiu da primeira volta foi uma fragmentação da direitavoto útil à esquerdanormalização da extrema-direita e um eleitorado cada vez mais soltomais tardio nas decisões e menos fiel às siglas. Pela primeira vez em cinquenta anosos candidatos apoiados por PS e PSD não chegam a conquistar metade do eleitorado. O centro políticoque durante décadas estruturou a democracia portuguesajá não organiza o voto como organizava. A direita estilhaçou-seo PSD perdeu capacidade de hegemonia no seu próprio campoo Chega deixou de ser tabu para uma parte relevante do eleitorado conservador e o espaço político do PS surgepara muitosmenos como projeto político do que como garante de estabilidade. Outras coisas mostram-se mais estáveis do que se pensava: ser socialista não éfinalestigma eterno e a independência partidária não chega para ganhar eleições. Para perceber o que mudou na sociologia do votono sistema partidário e nos próprios limites da análise eleitoralo meu convidado deste episódio é Pedro Magalhãesuma visita assídua do Perguntar Não Ofendenos balanços eleitorais. Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboadoutorado pela Ohio State Universityantigo diretor do Centro de Sondagens da Universidade Católicatem estudado ao longo das últimas décadas o comportamento eleitoralopinião pública e sistemas políticos comparado e é uma das vozes mais consistentes na leitura dos ciclos políticos portugueses. Na próxima horatentamos perceber se estamos perante uma crise conjuntural ou uma transformação estrutural da democracia portuguesa. E que pistas isso nos dá para a segunda volta. E até que ponto continuamos a ter instrumentos para a compreender. 1 – Pela primeira vez em 50 anosos candidatos apoiados pelo PS e PSDsomadosnão chegam a metade do eleitorado. É um efeito típico das presidenciais — mais livresmais personalizadas –ou a confirmação de que os partidos centrais perderam a capacidade de fidelizar eleitorado? 2 - Uma parte do eleitorado de Seguro vem da AD. O PS não está a ser empurradopelo próprio eleitoradopara uma posição cada vez mais centralmenos dependente da sua esquerda? Podemos estar de regresso a uma certa ideia de bloco centralnão por acordos de aparelhomas “imposto” pela sociologia do voto? - Face às últimas legislativasSeguro teve mais 312 mil votos do que o PS e reconquistou 160 concelhos à AD e 30 ao Chega. O PS voltou a ser o partido interclassista e urbanoou é a face visível de um eleitorado que acabou por decidir o voto por exclusão de partes? - Seguro conseguiu contrariar a fragilidade socialista junto dos jovens. O que explica que um candidato com um perfil mais clássico e institucional consiga furar um eleitorado jovem que parecia perdido para o protesto ou para um discurso mais liberal? 15’ 3 - O voto em Cotrim Figueiredo é na ILno Cotrim ou nem uma coisa nem outra. Ou sejavindo boa parte desse voto da ADfoi apenas voto útil que foi de Marques Mendes para Cotrimpor ser quem tinha condições para ir à segunda volta? - Cotrim foi o candidato mais votado em seis freguesias do país — todas elas entre as zonas mais carascomo Avenidas NovasEstrela e Belémem LisboaCascais e Estorilou a Fozno Porto. Esta divisão social cada vez mais rígida do votoem que a posição económica parece determinar a escolha políticanão aproxima Portugal de padrões de polarização social semelhantes aos dos Estados Unidosque não existiam quando PS e PSD ocupavam a generalidade do espaço eleitoral? - Os dados indicam que Cotrim foi o candidato mais votado até aos 34 anos (30%)mas quase inexistente entre os eleitores mais velhos. Conhecida a pirâmide demográfica do paíse o peso dos mais idososmais defensores do Estado Socialesta bolha eleitoral não limita o potencial de crescimento dos liberais? 4 - A tenaz que parecia estar a corroer o PS nas últimas legislativas e também autárquicasperdendo o voto popular para o Chega e o voto urbano e mais qualificado para a sua direitapode estar agora a chegar ao PSDcom o crescimento de uma direita económica nas cidadesa de Cotrim e da ILe o crescimento do Chega a norteem bastiões tradicionais do PSD? - Entre o eleitorado da AD de 202531% votou em Cotrimapenas 29% em Marques Mendese até António José Seguro conseguiu captar 17%. Quando fala num “estilhaçar completo” deste eleitoradoestamos perante um efeito circunstancial das presidenciaisou revela uma direita estruturalmente fragmentadaonde o PSD já não consegue exercer hegemonia nem disciplinar o seu próprio campo político? 30’ - Se esta fluidez deixar de ser excecional e passar a ser estruturalestamos a caminhar para uma recomposição da direita portuguesamais parecida com outros países europeusonde a fronteira entre direita institucional e direita radical se esbateu? 5 - André Ventura teve um resultado semelhante ao das legislativasmas com uma geografia diferente: quebrou a barreira católica do Nortetendo resultados idênticos em Lisboa e no Porto e cresceu mais em Trás-os-Montes do que no Alentejo. Isto é um sinal de que ainda tem margem de crescimento? - Já agoraalguma razão que explique ter caído a sul? 6 - A maioria das sondagens que arriscaram cenários para a segunda voltaainda antes das eleiçõespreviam resultados mais altos para Venturana primeira. Ainda assimse a sua taxa de rejeição está a cair (já lá vamos) e a sua aceitação no Norte está a crescernão estaremos a subestimar a sua capacidade de mobilização na segunda volta? - David Dinis lembrava quehá apenas três anosa taxa de rejeição de André Ventura entre os eleitores da AD rondava os 80% e que hoje estará perto dos 30%. Se aceitarmos que o passo mais difícil para um eleitor é votar pela primeira vez num partido diferentea possibilidade de Ventura vir a ter mais votos do que Montenegro tevenão coloca o seu verdadeiro patamar de crescimento claramente acima dos 30%? João Cancela fala de 38%. 45’ - Existe o risco de a segunda volta se transformar num referendo ao regimecom o “sistema” unido contra Venturaalimentando precisamente a narrativa de vitimização que mais o fortalece? 7 – Espero vir a conseguir fazer um episódio apenas sobre istomas fizestecom um grupo de cientistas (entre os quais a Joana Sáque já aqui esteve) um trabalho sobre o tratamento jornalístico das últimas eleições europeiasem que conluiaram queem cinco países europeus que analisaram (PortugalIrlandaAlemanhaÁustria e Polónia)as candidaturas de extrema-direita tiveram mais cobertura do que os seus resultados anterioresprojeções e resultados finais. Ventura tem sidorecorrentementeo candidato com mais tempo de antena. Isto contribui para os seus resultados? 8 - Que efeito pode terem termos eleitoraisa neutralidade de Montenegro? - Não há o risco de oferecer ao Chega a estreia de vários eleitores seus num candidato de extrema-direita? Dito de outra forma: se Ventura chegar a mais de 35%não é legitimo pensar que esse passa a ser o seu patamar de crescimento? - E há o risco do PS se transformar num porto seguro para um voto mais centrista e moderado? 1.00’ 9 - Somos o país em que a extrema-direita cresceu mais depressa. Em sete anos fez um caminho que outros demoraram décadas. E também somos aquele em queà primeira oportunidadedesapareceu o chamado “cordão sanitário”. Nunca chegou realmente a existir. Esta desistência ajudou à normalização e crescimentoou a ordem é inversa: o cordão tornou-se impossível por causa da rapidez do crescimento. - Se cruzarmos fragmentação da direitavoto útil à esquerda e normalização do Chegao sistema parece entrar num equilíbrio instável. Não corremos o risco de bloqueios prolongadoscomo encontramos em França? 10 - Gouveia e Melo captou eleitores da ADdo OS e até do Chega. Que voto é este? Um voto de “ordem sem política”de cansaço do ruído partidáriomas que ainda rejeita a agressividade de Ventura? 11 - Com resultados residuais à esquerda do PSestamos perante a pressão do voto útil ou uma rutura mais profunda? A esquerda perdeu o código de comunicação com as classes popularescorrendo o risco de se tornar um espaço político irrelevante e socialmente fechado? 12 - Há uma assimetria fortíssima entre o voto dos homens e das mulheres. Seguro teve 36% do voto feminino e apenas 27% do masculinoVentura recolheu 26% do voto dos homens e apenas 20% entre as mulheres. Porque é que o populismo radical continua a bater numa parede feminina? É um efeito culturalgeracional ou ligado à perceção de risco? 1.15’