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Mariana Reis, Matilde Sobral e Augusto Carreira: “Adolescência” acordou os pais e os políticos?

Mariana Reis, Matilde Sobral e Augusto Carreira: “Adolescência” acordou os pais e os políticos?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

April 30, 20251h 21m

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Show Notes

Neste episódio de Perguntar Não Ofende, voltamos ao tema do impacto dos smartphones nas escolas e no desenvolvimento das crianças e adolescentes. Partindo de novos dados alarmantes — como o facto de os menores passarem, em média, dois meses por ano em frente a ecrãs — debatemos os efeitos da dependência digital, a queda da socialização presencial e a correlação com problemas como ansiedade, depressão e baixa autoestima. A conversa ganha atualidade com a exibição da série “Adolescência” no Reino Unido e a recente reabertura do debate político em Portugal sobre a proibição de smartphones nas escolas. Os convidados são Matilde Sobral e Mariana Reis, fundadoras da Mirabilis, e Augusto Carreira, referência em pedopsiquiatria. Juntos, discutimos a necessidade urgente de agir e de devolver às crianças tempo real para crescerem, brincarem e partilharem emoções.

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Topics

Mariana ReisMatilde Sobral e Augusto Carreira: “Adolescência” acordou os pais e os políticos? Em julho de 2023fizemos um “Perguntar Não Ofende” sobre a urgência de seguir o exemplo da escola de Lourosa e proibir smartphones nas escolas. Das crianças e adolescentes descobrirempelo menos por algumas horasoutras formas de divertimentointeragindo entre siexpressando emoçõesreforçando laços e empatia. Segundo um estudo que incidiu sobre 400 mil famílias de EspanhaEstados UnidosReino Unido e Austráliaos menores entre os 4 e os 18 anos passamem médiadois meses por ano em frente a ecrãs. Horas que nunca mais se repetirão no seu desenvolvimento cerebral e físico. A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria fez uma extensíssima lista de efeitos nocivos da utilização precoce de ecrãs. Apesar de haver quem compare os smartphones a drogamais de 60% das crianças portuguesas recebem o primeiro telemóvel entre os 10 e os 12 anos. A partir dos 13 ou 14 anospraticamente todos o têm. Um estudo do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos mostra que o tempo passado a socializar presencialmente caiuentre 2003 e 2023mais de 20%. Nos últimos vinte anosos jovens europeus que não socializam uma vez por semana passaram de um em cada dez para um em cada quatro. Os adolescentes e jovens na casa dos vinte anos têm os mesmos níveis de socialização presencial que as pessoas com mais de trinta anos tinham há uma ou duas décadas. Um jovem que cresce sem um espaço real para partilhar emoçõesdúvidas e frustrações é presa fácil da ansiedadeda depressão e da baixa autoestima. E os números mostram que o aumento do tempo passado sozinho se correlaciona com o declínio da satisfação com a vida. A frustração acumuladaa ausência de conexões reais e a perceção de que o mundo os abandonou fazem crescer uma raiva latente que se transforma em ressentimento. Uma predisposição amplificada pelos algoritmos das redes sociais e com repercussões políticas comprovadas. A parte boa é que as coisas mudaram desde que fiz o último programa sobre este tema. Se o livro “Geração Ansiosa” tinha conseguido chamar à atenção dos pais mais informadosa minissérie “Adolescência” teve um efeito muito maior. Será exibida nas escolas do Reino Unidoonde 998% das escolas primárias e 90% das escolas secundárias já proibiram os smartphones. Em Portugalpoucos meses depois de terem chumbado esta propostaos dois principais partidos avançam com a possibilidade de avançar com ela para o 1º e 2º ciclo e regular as redes sociais para menores de 12 anos. Os meus três convidados de hoje são agentes desta mudança. Matilde Sobral e Mariana Reismães de nove filhos (no total)primeiro preocupadasdepois interessadas e por fim estudiosas do impacto dos ecrãs na saúde mental e desenvolvimento das crianças e jovenscriaram a Mirabilis (quer dizer “maravilha”em latim). Dedicam-se à formaçãoinformação e lobby nesta área. O terceiro convidado é Augusto Carreirado Conselho Científico da associação e ex-diretor de Pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. Faz parte do Conselho de Administração da Associação Europeia de Psicopatologia da Criança e do Adolescente e foi Presidente da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e Adolescência. Com os trêsfalarei desta mudança e de um mundo que nos parece escapar. 1 – (MR) Comecemos pelo momento publicitário: o que é a Mirabilis e que atividades desenvolve? 2 (MS) – Vamos começar pelo fim. A série “Adolescência” parece ter acordado os políticosa começar pelos do Reino Unidopara os efeitos das redes sociais nas crianças e adolescentes. Isto depois de avisos insistentes de psicólogospsiquiatrasestudos científicos. Até depois de um best seler“Geração Ansiosa”de Jonathan Haidt. A série e o livro conseguiram que os pais tivessem contacto com uma realidade que desconheciam? - (MR) Surgiramdepois desta sériemuitos artigos de opinião a defender que sempre houve este sentimento em relação a novas gerações. E que sempre se reagiu assim a novas tecnologiashábitos. Quena realidadea adolescência não é diferente de todas as adolescênciassempre problemáticas... 3 – (MR) Voltemos então ao início. Comecemos pelo diagnóstico. Já aqui deixei números de um estudo noutros paíseshá alguma ideia de quanto tempo passamas crianças e os jovens portugueses nas redes sociais ou à frente de ecrãs? - (AC) Num artigo que escreveram no ExpressoMatilde Sobral e Mariana Reisdefenderam quecomo as drogas leves e pesadaso álcool ou as apostas a dinheiroo consumo abusivo de ecrãs provoca libertação de quantidades excessivas de dopamina e causa dependência. Não é por acaso que os pais de Silicon Valley punhamjá 2018os seus filhos em escolas com acesso limitado a tecnologia. O psicólogo Marc Massip compara os smartphones à heroína. Quando surgiutambém se desconheciam os seus riscos. É uma força de expressãoou há mesmo comparação possível? 15’ - (AC) A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria fala de efeitos do excesso de expiação a ecrãs e redes no desenvolvimento motor; de aumento do risco da hiperatividade e défice de atenção; riscos para o comportamento social e atraso na linguagem; perda de qualidade do sono; perturbações do comportamento alimentardepressões e ansiedade. Sem ser exaustivopode explicar a profundidade destes efeitos? 4 - (AC) A SPN recomenda que não se usem ecrãs até aos 3 anosexceto para videochamadas (excluindo a televisãona presença de adulto e para conteúdo adequadoaté à meia hora diária). Entre os 4 e os 6 anoso uso deve ser limitado a meia hora de programação de alta qualidadena presença de adultos e sem controlo da mudança de canais ou vídeos. Entre os 7 e os 11 anosuma hora por dia. E entre os 12 e os 15duas horascom cautelas várias. Redes sociais? Só depois dos 16. Nunca à refeição. Nunca no quarto. Têm consciência quese disserem isto à maioria dos paisvão parecer malucos? - (MR) Mesmo sabendo que os paismuitos deles igualmente viciadosnão se vão afastar dos telemóveishá alguma vantagem de interditar os telemóveis nas escolas? 5 – (MS) Existempara alem da saúde física e psicológicaefeitos sociais. Um deles é o bullyng. Mas sempre houve bullyng entre os adolescentes e jovens... 6 – (MS) Desde que comecei a participar neste debatea tecnologia evoluiucom a democratização do acesso a Inteligência Artificial mais sofisticada. Houve um casoque provavelmente conhecemum adolescente norte-americano de 14 anos que se suicidou. Tinha passado os últimos dez meses em diálogo com botsa quem contava tudoincluindo os problemas de saúde mental que escondia dos pais. Os pais processaram uma plataforma online. Os utilizadores destas plataformas passam93 minutos diários à conversa com bots. Isto é uma mudança radical em relação aos problemas de que falávamos antes? 30’ 7 – (MR) Recentementeum artigo da Atlanticdescreveu os efeitos sociais do isolamento provocado pelo excesso de tempo na Internetque referi na minha introdução. Hápara alem dos efeitos para cada criançarazões para temer os efeitos sociais? - (MS) Nesse mesmo artigoé explicado que as pessoas que passam mais tempo isolado e na Internet tendem a votar mais em partidos populistas ou radicais. Pensa que é essa é uma das motivações para os governos agirem? - (AC) Aquilo que se trata em “Adolescência”falando da subcultura “incel”que se consideram celibatários involuntáriosdiz-nos a misoginia está a crescer nas novas gerações por essa via. Será por isso ou porque as raparigas se autodeterminaram e os rapazes não sabemsocorrendo-se do modelo masculino dos paisqual é o seu lugar? - (MR) Personagens como Andrew Tate ouem PortugalNumeirotornaram-se os modelos masculinos dos adolescentes? - (MR) Mas esses modelos não estiveram sempre fora de casa? A diferença é que hoje os pais nem sequer sabem da sua existência? 45’ - (AC) Este mundo subterrâneo que não conhecemos aumento a incomunicabilidade entre gerações? 8 – (AC) As redes tornaram desensinaram os adolescentes a socialização que a sedução e iniciação sexual precisam? E tem efeitos na saúde sexual dos jovens? Nas espectativas criadas? 9 – (MS) 998% das escolas primárias e 90% das escolas secundárias inglesas proibiram os smartphones. Parece ser um caminho imparável. Há alguns dados para fazer algum balanço? - (MS) O avanço é lento por causa dos pais? Uma decisão central daria mais força às escolas para vencer essa resistência? Ou agrada-vos mais uma solução negociada? - (MR) PS e PSD votaram contra uma proposta do Bloco de Esquerdaem outubro de 2024para proibir telemóveis nas escolas. Entretantoo PS já defende essa mudança e a AD veio defenderno seu programao mesmo. A que acha que se deve esta mudança tão rápida? Tem a ver com o efeito políco 1.00’ 10 – (MS) Os jovens não precisam de estar familiarizados com as tecnologias. Faz sentido afastá-los de uma coisa que os vai acompanhar a vida toda? - (MS) Muitos pais argumentam que os seus filhos têm de estar contactáveis. Este controlo permanente também é um problema para o desenvolvimento das crianças e adolescentes? 11 – (MR) Bem mais complicado é a regulação do acesso às redes. Como é que isto se faz? Será difícil a regulação acompanhar ao ritmo a que as coisas avançam? 1.15’