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José Manuel Pureza: há tempo e espaço para o Bloco renascer?

José Manuel Pureza: há tempo e espaço para o Bloco renascer?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

December 16, 20251h 2m

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Show Notes

Esta conversa com José Manuel Pureza no Perguntar Não Ofende parte do contraste entre o passado recente do Bloco de Esquerda e a sua situação atual. O episódio revisita um partido que alcança votação expressiva e forte presença parlamentar sem nunca conseguir uma implantação social sólida, seja no plano autárquico, sindical ou militante. Essa fragilidade estrutural surge como elemento central para explicar a dificuldade em interpretar mudanças no país e em resistir a contextos políticos adversos. O declínio eleitoral recente ocupa um lugar central na entrevista. A queda para uma deputada única é apresentada como um ponto de rutura que obriga a uma redefinição estratégica e organizativa. A crise do Bloco é descrita como existencial, agravada pela escassez de militantes, pela falta de recursos próprios e pela perda de representação parlamentar, que limita drasticamente a visibilidade política do partido. É neste contexto que José Manuel Pureza assume a coordenação do Bloco. A entrevista enquadra a sua escolha como um regresso às origens do partido, com uma liderança associada à moderação e à primeira geração bloquista. Fora do Parlamento, Pureza enfrenta simultaneamente uma crise política, organizativa e financeira, sendo chamado a fazer balanços do passado recente para perceber se deles podem emergir pistas para o futuro, seja através de um renascimento do Bloco, seja como parte de um processo mais amplo de reconstrução da esquerda.

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José Manuel Pureza: Há tempo e espaço para o Bloco renascer? Há uma décadao Bloco de Esquerda tinha mais de meio milhão de votos e 19 deputados. Mas também tinha poucos autarcas e nunca chegou a cinco mil militantes ativos. Com 10%conquistou voto popularmas não tinha implantação. Mesmo no mundo sindicala sua influência era bem inferior ao que o seu peso relativo na esquerda faria supor. Isso deu-lhe pouca capacidade para ler o país e ainda menos para resistir aos ventos difíceis que já se começavam a sentir. A sua participação na geringonçasem entrar no governocorrespondeu a várias vitórias programáticas. Na realidadegrande parte dos maiores avanços dos dois ou três primeiros anos da primeira governação baseada numa maioria do conjunto da esquerda correspondeu a propostas suas e do PCP. Mesmo assimna hora do divórciofoi o PS que ficou com as pratas. Os avanços foram-lhe atribuídos pelos eleitores. Curiosamenteos que se envolveram nesta experiência ficaram associados à situaçãoquando o país virou à direita. A istojuntou-se uma ameaça: o Livreque abocanha o voto orginal do Blocomais jovem e urbano. Nas últimas eleiçõeso Bloco caiu para uma deputada única. O seu rosto ficou associado à derrota e o partido teve mudar de rumo e de liderância. Com a militância cronicamente diminutasem recursos própriosa crise éao contrário da do PCPexistencial. Resta saber se o seu futuro é a irrelevância ou a extinçãoo renascimento ou ser parte de uma urgente reconstrução da esquerda. Para novo coordenadorque chega à liderança na fase mais difícil da história do Blocoo partido escolheu José Manuel Pureza. Fundador do partidotem 66 anosé professor universitárioesteve no MES e na UEDS e fez boa parte do seu percurso com os católicos progressistasque tiveram como figura politicamente mais emblemática Maria de Lurdes Pintassilgo. Tido como moderadotambém representa um regresso do partido à sua primeira geração. Pureza terá de gerir uma crise políticade representação e até financeira. Fora do Parlamentoúnico lugar onde os pequenos partidos conseguem visibilidade. Nesta conversacom uma liderança que tem de fazer balanços e lamber feridasfalaremos muito de passadosobretudo o mais recente. Veremos se isso nos dará pistas sobre o futuro. 1 - O BE reconhece os erros do passado. Que erros foram essesque o levaram a resultados iguais ou piores aos do momento do seu nascimento? 2 - O Bloco teve 20% em 2009 e 2015. É evidente que havia vasos comunicantes como PS. Mas tiveramagoraum péssimo resultado quando o PS consegue um dos piores resultados da sua história. Para onde foi o vosso votos? Sabem? - Que peso teve a história do despedimento das mães no resultado do Bloco? Foi apenas má gestão do processocomo tem sido ditoou há uma contradição insanável entre o discurso e ação? - Aldina Duarteque sempre apoiou o Blocodissenuma entrevistaque o Bloco não sabia para quem estava a falar. Tendo a concordar. Ao mesmo tempo que fazia cartazes a falar de taxar os ricosque independentemente da justiçaé um discurso mais negativo do que aspiracionalpunha os seus antigos dirigentes a fazer videos engraçados nas redes. Foram buscar a campanha do Die Linke alemão e decidiram copiar uma campanha de um partido com muito mais implantação e uma história muitíssimo diferente. Isto não revela desnorte? 3 - O Livre é uma ameaça para o Bloco? É evidente que vos tirou muitos votos... 15’ 4 - Não suponho que vá criticar a sua antecessora. Mas acha que houve pelo menos erro de estilo? Apesar das transposições serem perigosastiraram algumas lições da vitória de Mamdani? Que a radicalidade da esquerda tem de vir com mais esperança e menos raiva. 5 – Fala da ofensiva contra Mariana Mortágua. Essa ofensiva era previsível. Só que a fraca militância não tira apenas capilaridade e capacidade de ler o paíso que explica alguns erros políticos. Tira capacidade de resistência. Votaramnesta convençãopouco mais de mil militantes. Isto é o normal numa concelhia de um partido médio. E não é novoapesar de ter piorado. Mesmo quando chegou aos 10%o Bloco nunca passou dos cinco mil militantes ativos. Como explicam esta incapacidade de alargar a militânciamesmo quando cresceram eleitoralmente? - Não terá algua coisa a ver com o funcionamento internocom as correntes internas a servirem de porta de entrada e pouco interesse em alterar os desequilíbrios internos? 6 - A Geringonça trouxe muitas conquistas e correspondeu aos anos de maior popularidade das instituições democráticas. No entantocomo se viu nas tuas eleições seguintesfoi o PS que ficou com os votos. Mostra que os entendimentos com o PS acabam sempre num abraço do urso? Que é preciso ter mais implantação social para determinar a governação? Quetendo em conta os condicionalismos europeuso tempo das alianças com o centro-esquerda acabou? 7 - O Bloco tem pouca implantação sindical. Será por continuarem subordinados ao discurso e à estratégia do PCP? Há sempre a sensação quemesmo disputando pouco eleitorado comumo BE continua a ser muito determinado pelo discurso e as posições do PCP. Uma coisa vinda do passado. 30’ - Vou dar um exemplo: votaram contra a Agenda do Trabalho Dignoa única reforma laboral que correspondeu a avanços para os trabalhadores e onde várias propostas do Bloco foram integradas. Apesar de ter correspondido a uma melhoria geral para os trabalhadoresseguiram a lógica do PCPque é votar contra se não for suficiente. E agoracomo o PCPapoiam uma greve geral paraem partedefender as conquistas da Agenda do Trabalho Digno. 8 - Uma das razões para a pouca implantação do Bloco de Esquerda é nunca ter apostado no trabalho autárquico. Tirando em Lisboanunca aceitara pelouros. O Livrepercebendo que não tem implantaçãoapostou em alianças e apoios a movimentos independentes. O que lhe pode permitir ir ganhando experiência. E faz isto quando estava a crescer. O Bloco só o fez quando caiu muito. Reconhece que houve um medo centralista de perder o controle? - Mesmo o Pureza protagonizou uma lista em Coimbra quando parece ter havido uma grande atratividade da candidatura do PS para os setores que influenciava ou com quem trabalhava? 9 – Nem quando eram o partido com maior peso de voto jovemconseguiram ter uma forte presença militante entre os jovens. O Bloco diz que quer chegar aos jovens o quepara quem conheça a história do partidoé irónico. Sente que o Bloco e a esquerda são vistospelos jovenscomo sendo da situação? Acha que há uma onda conservadora entre jovens? - O Bloco de Esquerda nasceu da ressaca do primeiro referendo do aborto. Muito marcado pelas causas do feminismo ou dos direitos LGBTque tinham pouco espaço na arena partidária. Imaginando que não tencionam abandonar essas causasé justo dizer que estes temas se colaram demasiado à imagem o partido e o impediram de passar outras mensagens? 45’ - Não há uma certa tribalização da esquerda entre os jovensmuito agarrada a questões de identidade que dificultam o diálogo com uma massa mais abrangente de jovens? Que isto contribuiualiáspara o aumento do conservadorismo? 10 - É um homem cis de 66 anos. Pensa ter as características certas para ganhar os eleitores que fogem ao Bloco e para conquistar o voto jovem e popular que o partido perdeu? 11 – Em vez de deixaram a Andreia Galvão no parlamentouma deputada jovemcom trabalho nos bairros periféricosmulher e racializadaoptaram por ficar com Fabian Figueiredouma cara muito ligada à fase anterior do Bloco e quesendo mais conhecidose pode tornar no líder de factoanulando este vosso esforço. Estando os holofotes no parlamentosobretudo num partido pequenonão corre o risco de ser uma espécie de líder honorário? - Não é mais um caso em que os equilíbrios internos se sobrepuseram aos interesses do Bloco? É que Fabian Figueiredo é a única pessoa do anterior núcleo duro que fica nesse núcleo duro. 12 - Foi escolhido para conseguir fazer pontes? Essas pontes são com quem? O Bloco já teve essa capacidade. Perdeu-a. Porquê? 1.00’ - O Bloco estaria disponível para participar num processo de reconstrução deste espaçomesmo que não seja o protagonista? Em que moldes? - O que vai mudar na mensagem do partido?