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Joana Gonçalves de Sá: porque é que a extrema-direita tem mais tempo de antena?

Joana Gonçalves de Sá: porque é que a extrema-direita tem mais tempo de antena?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

February 4, 20261h 25m

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Show Notes

Há anos que discutimos o crescimento da extrema-direita como reflexo de um mal-estar económico e social, entregando-lhe quase sem resistência a representação política do descontentamento. Mas talvez a pergunta decisiva venha antes das urnas: quem decide hoje a forma como nos informamos e quem molda aquilo que queremos saber quando pensamos em política? Temas que não surgiam no topo das preocupações dos cidadãos — como a imigração, a segurança ou questões culturais laterais — tornaram-se centrais no debate público. Não por força de maiorias sociais, mas pela repetição e pela capacidade de dominar a atenção mediática. A extrema-direita pode não ganhar eleições, mas ganha tempo de antena, centralidade e a normalização do seu discurso e das suas prioridades. É sobre este duplo movimento — media tradicionais e mediação através de algoritmos totalmente opacos — que recebemos novamente Joana Gonçalves Sá, licenciada em Engenharia Física Tecnológica pelo Instituto Superior Técnico e doutorada em Biologia de Sistemas pelo ITQB-NOVA, com tese desenvolvida na Universidade de Harvard. Investigadora nas áreas dos sistemas digitais, algoritmos e inteligência artificial, é coautora de dois estudos recentes que analisam a relação entre visibilidade mediática, extrema-direita e motores de pesquisa.

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Joana Gonçalves de Sá: Porque é que a extrema-direita tem mais tempo de antena? Há anos que discutimos o crescimento da extrema-direita como reflexo de um mal-estar económico e socialentregando-lhe quase sem resistência a representação política do descontentamento. Mas talvez a pergunta decisiva venha antes das urnas: quem decide hoje a forma como nos informamos e quem molda aquilo que queremos saber quando pensamos em política? Temas que não surgiam no topo das preocupações dos cidadãos — como a imigraçãoa segurança ou questões culturais laterais — tornaram-se centrais no debate público. Não por força de maiorias sociaismas pela repetição e pela capacidade de dominar a atenção mediática. A extrema-direita pode não ganhar eleiçõesmas ganha tempo de antenacentralidade e a normalização do seu discurso e das suas prioridades. Em paraleloo acesso à informação política deslocou-se silenciosamente dos jornais e telejornais para os motores de busca emais recentementepara sistemas de inteligência artificial. Plataformas percebidas como neutrastécnicas e fiáveis passaram a hierarquizar a realidade política antes mesmo de qualquer debate começar. O que aparece primeiroo que se repete e o que é omitido molda hoje a perceção do que é relevantelegítimo ou inevitável. E como énum e noutro casobeneficiada uma extrema-direita que tem um discurso e prática que ativa a atenção por via da polarizaçãoemoção e ódio. É sobre este duplo movimento — media tradicionais e mediação através de algoritmos totalmente opacos — que vamos falar nesta edição do Perguntar Não Ofende. A minha convidadaque aqui está pela segunda vezé Joana Gonçalves Sálicenciada em Engenharia Física Tecnológica pelo Instituto Superior Técnico e doutorada em Biologia de Sistemas pelo ITQB-NOVAcom tese desenvolvida na Universidade de Harvard. Investigadora nas áreas dos sistemas digitaisalgoritmos e inteligência artificialé coautoracom Íris DamiãoJoão FrancoMariana SilvaPaulo Almeida e Pedro Magalhãesde dois estudos recentes que analisam a relação entre visibilidade mediáticaextrema-direita e motores de pesquisa. O primeirojá publicadoé sobre as “evidências transnacionais de visibilidade mediática desproporcional da extrema-direita nas eleições europeias de 2024”. O segundo“Eleições na era dos algoritmos: viés político dos resultados em motores de busca e LMM”será brevemente publicado. São esses dois trabalhosespecialmente úteis em vésperas de eleiçõesque incidemque concentrarão a nossa atenção ao longo da próxima hora. 1 - O estudo “Evidências transnacionais de visibilidade mediática desproporcional da extrema-direita nas eleições europeias de 2024”que fizeste com Íris Damiãointroduz o conceito de Índice de Visibilidade Desproporcional. Em termos simplesvocês demonstram que a extrema-direita aparece muito mais nas notícias do que o seu peso nas sondagens ou nas eleições passadas justificaria. Que desproporção é essa? - O que te surpreendeu mais — a magnitude do fenómeno ou a sua transversalidade? - Pensas que os resultados seriam diferentes se conseguissem analisar a cobertura televisiva? 2 - O estudo indica que este fenómeno é transnacional. Se os jornalistas em BerlimParis e Lisboa cometem o mesmo erroo problema não é uma falha de formação ou da pluralidade da imprensa em cada paísmas a gramática da extrema-direita — o conflitoa roturao insulto —mas ela ser a única que sobrevive no ecossistema digital em que hoje se centra a informação... 15’ - Vocês não medem diretamente o peso da extrema-direita nas redes sociais — que sabemospor outros trabalhosser significativo. Até que ponto os media se limitam a replicar aquilo que já circula intensamente nas redes? - A extrema-direita beneficia de uma visibilidade porque consegue impor temasgerar conflito e capturar atenção mediática e digital. Estamos a falar de mestria política ou de atores mais compatíveis com o algoritmo que recompensa o choquea polarização e a simplificação? - Se a extrema-direita é mais eficaz porque fala a linguagem do ecossistema mediático atualos partidos tradicionais não estão estruturalmente em desvantagem? 3 - Durante muito tempo discutiu-se se o problema era o tom — positivo ou negativo. O vosso trabalho sugere que a visibilidade em si já é politicamente transformadora. “Não há má publicidade” para a extrema-direita? - No vosso estudo sublinha que os media não “convencem” as pessoas a votar na extrema-direitamas redefinem o que passa a contar como problema político legítimo. Quando certos temas entram de forma permanente na agenda públicamesmo que não fosse os mais relevantes para as pessoasdesloca-se o centro do debate. Foi o que aconteceupor exemplocom a imigração? Ou com os ciganos? A extrema-direita descobriu o que preocupava as pessoas ou conseguiu criar mercado? 30’ - Podemos falar de uma espécie de profecia autorrealizávelem que a extrema-direita pode não ganhar eleiçõesmas acaba por ganhar a agenda e maior peso para o próximo ciclo eleitoral? - Há quem argumente que é dever do jornalismo escrutinar o extremismo e quepor issoé normal falar-se mais dele. Nós aqui estamosaliás. Mas o vosso estudo sugere que esse "escrutínio" acaba por servir de propaganda gratuita. É possível escrutinar sem dar palcoou o jornalismo está preso num paradoxo sem saída? 4 - Olhando para os dados por órgão de comunicação socialo padrão não parece concentrar-se em tabloides ou media sensacionalistas. Que implicações tem o facto de a sobrerrepresentação surgir também nos media de referênciatradicionais bastiões da promoção do interesse público face ao interesse do público? 6 – Falemos de outro estudo vossoainda não publicadoque desloca o foco para motores de busca e de inteligência artificialprincipal fonte de informação para um crescente número de pessoas. A vossa opção metodológica foi usar perguntas e pesquisas neutrassemelhantes às de um cidadão comum. Porque é que isso é crucial para perceber o impacto real destes sistemas na formação de opinião? - Um dos resultados mais fortes é quemesmo com perguntas neutrasos motores de busca sobrerrepresentam a extrema-direita europeia. Isso significa quedo ponto de vista da arquitetura interna do sistema de pesquisao enviesamento surge sem intenção ou intervenção explícita do utilizador... 45’ - Ao contrário das redes sociais e da comunicação socialos motores de busca são vistos como fiáveis e neutrais. Que riscos democráticos existem quando um sistema lido como neutro e fiável introduz enviesamentos subtismas sistemáticos? - O risco é maior porque é maior a opcacidade e escala... - Podemos estar a assistir à passagem de um modelo de mediação jornalística para um modelo de mediação algorítmicaonde a hierarquização da informação é feita sem critérios editoriais explícitos? O jornalístismo como “gatekeeper” do interesse público está a ser subistuido por uma ditadura do que é mais partilhável e pesquisávelquase sempre o mais polémicopolarizado e odioso? 7 - O estudo indica que os Modelos de Linguagem são um pouco mais equilibradosmas que o ChatGPT ainda sobrerrepresenta a extrema-direita. Sendo estas as ferramentas de pesquisa do futurocorremos o risco de passar das nossas bolhasnas redes sociaispara uma realidade ainda mais artificialgerada por IA? - Se o ChatGPT e o Gemini são treinados com os textos da internete a internet está saturada de notícias sobre a extrema-direita (devido ao tal Índice de Visibilidade Desproporcional)a IA está condenada a ser um eco amplificado do desequilíbrio informativo? Podemos sequer "limpar" este viés? 1.00’ 8 - Tens vindo vindo a defender a necessidade de auditorias independentes e da aplicação do Digital Services Act da União Europeia. Estamos preparados para regular sistemas que nem sequer compreendemos totalmente e num contexto em que estas plataformas evoluem mais depressa do que o enquadramento legal? - No vosso estudo sublinham a importância das auditorias independentesmas também a resistência das grandes tecnológicas à abertura dos seus sistemas. Num contexto em que as Big Tech se alinham politicamente com Trump e os EUA ameaçam a União Europeia sempre que ela tenta regularhá força e instrumentos reais para proteger os cidadãos da desinformação e do ódio online? 9 – Pensas que nas empresasmas sobretudo no Estadohá uma espécie de tecnodeslumbramento. Uma ligeireza para aplicar a IA no INEM ou no fiscosem cautelas perante empresas que controlam cada vez mais dimensões da nossa vida? 1.15’