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Filipe Santa-Bárbara, Luís Simões e Pedro Coelho. O que a Global Media nos avisa sobre o futuro do jornalismo?

Filipe Santa-Bárbara, Luís Simões e Pedro Coelho. O que a Global Media nos avisa sobre o futuro do jornalismo?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

January 9, 20241h 38m

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Show Notes

Os trabalhadores da Global Media estão com salários em atraso e o risco de encerramento da TSF, Diário de Notícias, Jornal de Notícias e vários outros títulos históricos é muito real. Não é uma questão de património histórico que outros títulos venham a substituir. Seria a mais rápida redução de pluralismo num setor em crise profunda e sem o qual, na era da desinformação produzida de forma industrial, nos podemos começar a despedir da democracia. Para falar sobre o que se passa na Global Media e, a partir daí, no jornalismo, recebemos três jornalistas no podcast Perguntar Não Ofende. Filipe Santa-Bárbara, jornalista da TSF e porta-voz da sua comissão de trabalhadores, Luís Simões, presidente do Sindicato dos Jornalistas e jornalista d’A Bola, e Pedro Coelho, presidente da Comissão Organizadora do 5º Congresso dos Jornalistas e jornalista da SIC.

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O que a Global Media nos avisa sobre o futuro do jornalismo? Filipe Santa-BárbaraLuís Simões e Pedro Coelho No dia 10 de janeiro os trabalhadores do grupo Global Media estarão em greve. Não teremos notícias na TSF eno dia seguinte. O mais antigo diário de dimensão nacional em publicação contínuao Diário de Notíciasque faráse lá chegar160 anos este ano; o mais antigo jornal portuguêso Açoriano Orientalque fará 190 anos no próximo anoe o jornal que chega a mais cantos deste paíscontinuando a dar lucroo Jornal de Notíciasnão chegarão às bancas no dia seguinte A situação era má há muito tempo. Sofrecomo toda a imprensa nacional e boa parte da imprensa em todo o mundocom uma crise de modelo de negócio trazida pelas redes sociaisque sugaram grande parte da receita publicitária sem produzir muitos conteúdos e pagando muito poucos impostos. Sofre com uma nova cultura de consumo que não aceita pagar para ler notícias ou consumir conteúdos culturais. E sofre com o preconceito de quem vê o apoio cego do Estado a um bem essencial para a sobrevivência da democracia como mais perigoso para a independência do jornalismo do que o mecenato ideológico privado. Como disse o CEO da Impresa recentemente“os media estão sitiados de pessoas que lá estão pelas razões erradasou para se promoverem a si própriasaos seus negócios ou narrativas falsas”. Há cortes de pessoal até à insustentabilidade de um jornalismo com mínimos de exigência e qualidade em todos os grupos de comunicação social. Mas na Global Media as coisas degradaram-se até ao absurdo. Depois da entrada de empresários sem qualquer relação ou conhecimento do setoro toque de finados veio com a entrada de um fundo com sede nas Bahamas que ninguém sabe a quem realmente pertenceque interesses promove e que parecia depender da venda da participação da Global Media na Lusa ao Estado para pagar os salários nos próximos meses. Os trabalhadores da Global Media estão com salários em atraso e o risco de encerramento da TSFDiário de NotíciasJornal de Notícias e vários outros títulos históricos é muito real. Não é uma questão de património histórico que outros títulos venham a substituir. Seria a mais rápida redução de pluralismo num setor em crise profunda e sem o qualna era da desinformação produzida de forma industrialnos podemos começar a despedir da democracia. E é neste cenário trágico que se realizaa 15 de janeiroo quinto congresso dos jornalistas. Para debatermos o que se passa na Global Media ea parir daíno jornalismotenho três jornalistas comigo. O Filipe Santa-Bárbarajornalista da TSF e presidente da sua comissão de trabalhadores; o Luís Simõespresidente do Sindicato dos Jornalistas e jornalista d’A Bola; e Pedro Coelhopresidente da Comissão Organizadora do 5º Congresso dos Jornalistas e jornalista da SIC. 1 – FSB – Começo por tiFilipe. Explica-nos qual é exatamente a situação dos trabalhadores da Global Medianeste momento. - FSB – Com salários em atraso e sem pagar aos colaboradores externos que garantem a cobertura regional que torna o Jornal de Notícias únicoa administração da Global Media está desvalorizar o valor da marcao que seguramente tem resultados na captação de publicidade e viabilidade financeira do grupo. O que explica este comportamento suicidário? - FSB – Como é queem poucas semanasse passou da contratação de 30 profissionaise de um plano de expansão alimentado pela entrada de novo capitalpara a ameaça de despedimento de 200 jornalistasmetade de um grupo com a dimensão da Global Media? Que explicações são dadas para isso? - FSB –Dá ideia que todo o negócio se baseava na venda da Lusao que é absurdoporque daria apenas para uns meses de salários. 2 - FSB –Na TSFestiveramjá há algum tempopróximos de uma greveainda em conflito com outros acionistas. Os problemas vinham de antes? 15’ 3 – LS – Luíso sindicato marcou uma greve de solidariedadesimbólicade uma horapara todos os jornalistas. Em audição no ParlamentoDomingos Andradeanterior diretor da TSFdisse que as redações “estão a ser controladas pela fome”. Esta greve de uma hora também é um sinal de que se foi longe demais na precarização da profissão a das suas condições de trabalho e autonomia? - LS – O Inquérito Nacional às Condições de Vida e de Trabalho dos Jornalistas em Portugalencomendado pelo sindicatoconcluiu que o salário médio está nos 1250 euros líquidos. Quase metade diz receber menos de mil euros. Esqueçamos a questão social. É possível escrutinar os poderes públicos e privados com este nível de proletarização? 4 – PC – As dificuldades financeiras têm levado a cortes nas deslocações ao estrangeiroreportagens ou investigações de fundo. Os jornalistas estão dependentes do que lhes chega tratada por agências de comunicação e grupos de interessecom orçamentos muito maiores que os órgãos para onde trabalham? A autonomia e filtragem jornalística ainda estão garantidas? - PC – Penso em setores com muito podercomo os regulados ou rentistas (vemos isso nos debates sobre o Serviço Nacional de Saúde ou na habitação). Não têm hoje muito mais poder junto das redações? E isso não lhes dá mais poder junto do Estado? É que sempre que falamos de escrutínio pensamos no poder políticomas o maior poder parece ser o económicocapaz de construir narrativas para jornalistas sem tempo ou instrumentos para fazerem o seu trabalho... - PC – Outro exemplo são setores da justiça. O jornalismo de investigação que parece resumir-se à função de escrivãoseja do Ministério Públicode advogados ou de outros poderes que se digladiamsem capacidade para cruzar fontes e ser mais do que mensageiro de uma versão... O tema é espacialmente relevante por estes dias. 30’ 5 – FSB – Também tem havido cortes no investimento em reportagens e investigação. Quando o jornalismo mais precisava de se diferenciar das redes sociaisfiltrando o que é ou não relevante para o interesse públicosegue as indignações das redes sociais. Mesmo que gere leitores no momentoisso não vai afastando as pessoas dos jornais e TVs? - FSB – Estas vagas das redes sociais sãomuitas vezesorganizadas por grupos de interessepolíticos ou económicoscom os seus exércitos de bots e trolls. Se os media seguem essa agendanão tornamos o jornalismo difusorele própriode desinformação e campanhas orquestradas das quais não conhecemos os interesses e propósitos? 6 – LS – Sabemosporque as vendas e audiências são públicasque há títulos que funcionam anos e anos sem venderem quase nada e a dar prejuízo permanente. Não dependendo de quem os compra ou lêperdem relação entre o que publicam e o seu bom nome. Servem muitas vezes apenas para introduzir temas na agenda política. Não estamos a abrir caminho para a utilização da comunicação social para a desinformação ao serviço de interesses económicos e políticos? – LS – É caso para dizer que temos saudades de empresários que procuravam lucro nos títulos... 7 – LS – Como disse na introduçãoFrancisco Pedro Balsemão disse que os media estão sitiados por pessoas que lá estão para se promoverem a si própriasaos seus negócios ou narrativas falsas. É isso que está a acontecer à Global Media e a outros grupos? 45’ - FSB – Em entrevista ao Públicoum dos fundadores da TSFFernando Alvesdisse que “a TSF foi tomada por um grupo de gente que não é fiável que trata deste assunto sagradoque é a rádio e os jornaiscomo miúdos que desmancham um brinquedo”. Parece que a única área do jornalismo que não é regulada é mesmo a sua propriedade. Isso faz qualquer sentido? Não devíamos ter uma legislação mais clara e incisiva? - FSB – Como é possível fundo não se sabe de quem ésedeado num paraíso fiscalas Bahamasconsiga comprar a maioria de um dos principais grupos de comunicação social e até ter quase metade da agência noticiosa? O que falha aqui? - PC – Não é estranho que títulos que devem fazer o escrutínio dos poderes na nossa sociedadesejam eles próprios geridos na opacidade sobre os seus interesses e até nome dos proprietários? 8 – PC – Como disse na introduçãohá uma crise de modelo de negócio. É possível os empresários de comunicação social oferecerem melhores condições de trabalho e salários quando os órgãos de comunicação social têm de garantir muito mais oferta – manter sites diários e atualizações permanentes – para menos pagantes e publicidade mais barata? - FSB – A crise é global e as causas são conhecidas: as redes sociaiscom a ilusão de notícias gratuitasa Google e Facebookque monopolizam as receitas publicitáriase novas formas de entretimento têm feito cair as audiências televisivas. Em Portugalpaís pobre e com baixos níveis de leituraa questão é ainda pior. Como é que se captam novos públicos e se devolve o valor social do jornalismo que os jovens parecem ter dissociado das suas fontes de informação? 1.00’ - PC – Duas indústrias que pareciam condenadas a sucumbir perante a pirataria digitale jovens que deixaram de a compraracabaram por reinventar o seu modelo económico com o streaming de conteúdos. O jornalismo não precisa de encontrar as suas Netflix ou Spotify? 9 – LS – A fragilidade do sectorcom o impacto que pode ter na degradação democráticanão exigia uma outra intervenção do Estado? Que tipo de apoios poderiam existir? – LS – Vimos a reação de muita gente aos apoios aos media durante a pandemia. Há obviamente agendas políticas antidemocráticas contra estes apoios. Mas um jornalismo cada vez mais dependente de agendas comerciaise que recorrer ao clickbait como forma de aumentar as audiênciasnão tem ajudado para a recusa em interiorizar a sua importância para a democracia? 10 – FSB – Os jornais fazem parte da memória histórica de um país. Os seus arquivos são um acervo relevante das transformações vividas pelo paísao longo dos 160 anos do DNou da história do norte do paísno caso do JN. Corremos o risco de perder esse patrimónioquando a administração fala abertamente na possibilidade do fim do grupo? O Estado não devia intervirgarantindo que esse acervo é protegido? 1.15’