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Bruno Nogueira: o humor serve para mais do que rir?

Bruno Nogueira: o humor serve para mais do que rir?

Perguntar Não Ofende · Daniel Oliveira

July 21, 20251h 25m

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Show Notes

Neste episódio do Perguntar Não Ofende, recebemos Bruno Nogueira, figura incontornável do humor em Portugal. A conversa parte dos limites do humor, mas rapidamente avançamos para algo mais profundo: qual é, afinal, a função social, política e cultural do humor? Tem de ter uma? Ao longo do episódio, revisitamos os marcos principais de duas décadas de carreira de Bruno, do Curto-Circuito ao stand-up, dos Contemporâneos ao Último a Sair, passando pelo fenómeno Deixem o Pimba em Paz, ao inesperado sucesso do talk-show confinado no Instagram, durante a pandemia, Como é Que o Bicho Mexe?, até à série Ruído. Mas esta não é uma entrevista biográfica. Falamos do sentimento de perseguição que atravessa muitos humoristas, sobretudo os mais bem-sucedidos, e da contradição entre essa perceção e o espaço sem precedentes que o humor hoje ocupa. Discutimos o sketch final do “Ruído” e os ecos da justiça como nova forma de censura, como no caso da Joana Marques, ou da cartoonista Cristina Sampaio. Afinal, o humor é uma ameaça ou está só a ser levado (finalmente) a sério? Bruno reflete também sobre o poder do humor e as suas responsabilidades: existe uma ética do humor? Quem tem graça também tem de saber ouvir? É um espaço de crítica ou só uma forma de escapar à realidade? Da música popular à sátira política, dos podcasts aos palcos esgotados, Bruno fala sobre a tensão entre arte e entretenimento, e sobre como tenta manter-se fiel à vontade de experimentar, mesmo com o conforto que o sucesso já poderia garantir. É uma conversa sobre risco, criatividade e sobre o lugar que o humor pode (e talvez deva) ocupar no espaço público.

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Topics

Bruno Nogueira: O humor serve para mais do que rir? Começou no Curto-Circuito e a fazer stand-uppassando por vários programas de entretenimento e peças de teatrona primeira década deste século. Mas foi com o “Tubo de Ensaio”um programa diário da TSFescrito também por João Quadrose os “Contemporâneos”que parece ter dado um salto. Não para a famaque já tinhamas para outros voos. Que “O Último a Sair”uma série de humor de que foi criador originalque usa o mecanismo narrativo de reality-showconfirma definitivamente. Há 12 anos que foi para a estrada com o “Deixem o Pimba em Paz”do qual também nasceu a experiência televisiva do “Som de Cristal”aqui na SICem que acompanhou vários cantores do universo da música popular. Não há quase nada que Bruno não tenha tentado ecuriosamentefoi durante a pandemia que a sua carreira voltou a explodircom um talk-show confinadotransmitido no seu Instagramfeitos de casaatingindo mais de 50 mil espetadores diários. Se há coisa que se pode dizer de Bruno Nogueira é que arriscameio caminho andado para que o talento seja mais do que um privilégio. O que frutifica dá imenso trabalho. Dito istoo Perguntar Não Ofende não serve para revisitar carreiras. Aquilo de que mais quero falar com o meu convidado de hoje não é apenas dos já sobejamente discutidos limites do humorapesar de até começarmos por aí. Esse é o olhar negativo da questão. O que quero discutir é a função socialpolítica e cultural do humor. Tem alguma? Tem de ter? De caminhorecordaremos o que ele foi fazendo nestas duas décadas. No meu casoinspirado pela noite de ontemem que assisti ao último espetáculo do Deixem o Pimba em Pazno Teatro Maria Matosem Lisboa. 1 – O “Ruído” foi embrulhado por uma narrativa em que o humor é proibidoclandestino e os humoristas são perseguidos e presos. Sinto que esse é um sentimento que atravessa os humoristasem quase todo o mundo livre. Parecem sentir-se acossados. No entantonão tenho memória do humor ter tanto espaço como hoje. Não é estranho ouvir tantas estrelas galácticascom especiais milionários na Netflix e nas plataformasa queixaram-se tão recorrentemente de censura e cancelamento? - A rábula (extraordinária) do último episódio do Ruídosobre o facto de nada se poder dizerconclui queno fimem Portugalacaba tudo em nadaquanto muito com muita tração nas redes. É contraditório com toda a série (e até irónico pelo facto de uma das participantes no sketch estar a ser pedido mais de 1 milhão de euros por causa de uma piada?). É de propósito? - Em PortugalCristina Sampaio está a ser processada pelo antigo diretor da PSP por causa de um cartoon. Neste podcastdisse “recebi ameaças e mensagens de ódio às dezenas por causa deste cartoon. O sentido de humor está a perder-se completamente”. A indignação passou a ser o modo natural no espaço públicoé isso? - Olhando para os Estados Unidos e para alguns países da Europaa cruzada contra “politicamente correto” não pode começar a estar desfasada no tempo e até a ser aproveitada por quem quer censurar e perseguir minorias? 2 – Tenssuponhoacompanhado o julgamento de Joana Marques. Muitos veem como sinal do humor estar a ser perseguido. Mas não pode ser o contrário? Hojeao contrário do que aconteceu com a “Última Ceia”do Hermantenta-se censurar recorrendo à justiça... Por outro ladochegou a julgamentoo que não deixa de ser extraordinário. 15’ - Fora deste caso ridículoo humor tem poder. É difícil responder-lhe e pode afetar a vida dos visados. Há uma ética do humor? - Salvador Martinha mandou umas piadas fortes sobre Joana Marques porque ela gozou irmã dele. Sem nos concentrarmos no casoaté porque julgo que és amigo do Salvadoros humoristas têm poder de encaixe? Há uns mesestambém foste alvo em dois episódios do Extremamente Desagradável da Joana (por acaso também já fui). Sei que os jornalistas não gostam de ser escrutinados e os médicos odeiam ser diagnosticados... 3 - O espaço que o humor hoje tem pode resultar de uma forma de escapismo? As coisas estão tão mal que as pessoas precisam de rir. Oupelo contráriotornou-se a forma mais eficaz de crítica social? - O humor tem uma função social e política ou só serve para fazer rir e entreter? Ou depende de quem o faz... - A diferença de acrescentar alguma coisa ou servir apenas para nos entreter é a diferença entre ser cultura e arteou ser apenas uma atividade lúdica e comercialo que não tem mal algum. O que épara ti? Isso faz de ti mais lírico ou cético? [referência ao podcast do Martinha] 30’ - Nos Estados Unidoso humor foi usado contra Donald Trump. Não parece ter resultado e até pode ter o efeito oposto. É possível que as pessoas consumam humor como mero entretenimentonão lhe dando qualquer credibilidade crítica? Há vários humoristas que dizem “isto é só uma piada”como se uma piada não fosse uma forma de comunicar coisas... - Achas que o humor português tem medo de se comprometer? 4 – Sou fã do “Deixem o Pimba em Paz”que oiço desde o inícioe ontem vi finalmente ao vivoao fim de 12 anos. Mas desde “Som de Cristal” que tenho uma dúvida que também se aplica ao meu fascínio pelo pimba ou música romântica: se aquilo é um tributo ou se não algum risco de condescendência. Qual é exatamente a fronteira? Como evitas isso? - Oiço o “Bichos da Fazenda”do Quim Barreirose pela forma como a Manuela Azevedo canta o sentido da música muda bastante. Os trocadilhos tornam-se muitíssimo violentosque é o que na realidade são. Não é só pôr outras roupas. Às vezes podem estar a despir... - Ontempara encerrar este regresso do “Deixem o Pimba em Paz”tiveste o Marante como convidado. Foi uma música dele que deu nome ao programa “Som de Cristal”. Estabeleceste uma relação especial com ele. Porquê com ele? 45’ - Decidiste cantarno “Deixem o Pimba em Paz”. E cantar ao lado de uma das melhores vozes portuguesas. Longe de mim pôr em causa os teus dotesmas não se te sentes... intimidado? 5 – Em “Uma Nêspera no Cu”em que eu tive o privilégio de participar duas vezes (um gravadooutra ao vivo)vocês fazem que já deviam fazer em miúdos (eu fazia)que são os jogos de dilemas parvos. O humor é muito esse regresso à infância e à adolescência ou és tu que és assim? - E tem muito imaginário masculino... É um humor de rapazes... - Os homens ainda dominam imenso humor. Porquê? [Por acaso estou a ser injusto. Duas das principais figuras no trabalho que estás a fazer ou fizeste há pouco temposão mulheres: a Rita Cabaço e a Manuela Azevedo] 6 –“Último a sair” (onde imitavas um reality-show); o “PrincípioMeio e Fim”quase uma lição de escrita criativa; os diálogos com o Miguel Esteves Cardoso; o “Odisseia” (talvez o teu trabalho mais denso); concertos do Pimbadepois o “Som de Cristal” (que era quase uma série de reportagens); as peças de teatro (até como ator dramático); os vários podcastsalguns transformados em espetáculos (como o “Nêspera no Cu”); o “Ruído” e os “Contemporâneos”mais próximona formados programas de humor mais tradicionais; e apresentação de vários programas.... Sentes necessidade de ir experimentando modelos. Tens medo de te acomodar? 1.00’ - Achas quecom o espaço que ganhouhá muitos humoristas acomodados a receitas? - Como é que nasceu a ideia de fazer o programa com o MEC? 7 - Durante a pandemia usaste as redes para lançar o “Como é que o Bicho Mexe”. Acabou por ser mais umdas váriosrelançamentos da tua carreira. Aquilo teve um impacto extraordinário. Conseguiste perceber o que aconteceu ali? Sentes alguma diferença entre o Bruno Nogueira antes e depois desse fenómeno? As pessoas reconhecem isso? - Outro projeto teu que começou nas redes (no casono youtube)foi a “Nêspera no Cu”. E acabou a pôr dezenas de milhares de pessoas em salas. Estás sempre a querer provar que não precisas da indústria? - É o lado bom das redespoder dispensar a indústria? - Voltaste ao stand-up em testes no Maria Matos e em espetáculos esporádicos no estrangeiro. Estás a pensar esgotar novamente a MEO Arena? 1.17’Neste episódio do Perguntar Não Ofenderecebemos Bruno Nogueirafigura incontornável do humor em Portugal. A conversa parte dos limites do humormas rapidamente avança para algo mais profundo: qual éafinala função socialpolítica e cultural do humor? Tem de ter uma? Ao longo do episódiorevisitamos os marcos principais de duas décadas de carreira de Brunodo Curto-Circuito ao stand-updos Contemporâneos ao Último a Sairpassando pelo fenómeno Deixem o Pimba em Pazao inesperado sucesso do talk-show confinado no Instagramdurante a pandemiaComo é Que o Bicho Mexe?até à série Ruído. Mas esta não é uma entrevista biográfica. Falamos do sentimento de perseguição que atravessa muitos humoristassobretudo os mais bem-sucedidose da contradição entre essa perceção e o espaço sem precedentes que o humor hoje ocupa. Discutimos o sketch final do “Ruído” e os ecos da justiça como nova forma de censuracomo no caso da Joana Marquesou da cartoonista Cristina Sampaio. Afinalo humor é uma ameaça ou está só a ser levado (finalmente) a sério? Bruno reflete também sobre o poder do humor e as suas responsabilidades: existe uma ética do humor? Quem tem graça também tem de saber ouvir? É um espaço de crítica ou só uma forma de escapar à realidade? Da música popular à sátira políticados podcasts aos palcos esgotadosBruno fala sobre a tensão entre arte e entretenimentoe sobre como tenta manter-se fiel à vontade de experimentarmesmo com o conforto que o sucesso já poderia garantir. É uma conversa sobre riscocriatividade e sobre o lugar que o humor pode (e talvez deva) ocupar no espaço público.