
Linha Direta
49 episodes
Portugal enfrenta revolta de 'golden visas' após mudanças na lei da nacionalidade
Alemanha julga ex-militante de extrema esquerda que tinha ligações com brasileiros
Manifestação de universitários na Argentina denuncia desmantelamento da Educação promovido por Milei
Mãe de preso político morto sob custódia cobra explicações do governo venezuelano
Navio com casos de hantavírus gera tensão política e mobiliza autoridades na Espanha
Lula busca diálogo com Trump sobre segurança e tenta blindar eleições brasileiras de interferência
Marco Rubio visita a Itália para reconciliar laços com Vaticano e governo Meloni
Brasileiro detido em Israel tem prisão prorrogada e pode ser enquadrado na lei antiterrorismo do país
Acordo UE-Mercosul entra em vigor e abre mercado trilionário a exportações brasileiras
Comissão Europeia aposta em benefícios iniciais do acordo com Mercosul para destravar ratificação
Dinamarca avalia reduzir idade penal para prisão perpétua para 15 anos
Guerra no Irã, tensão com Trump e caso Epstein marcam início de visita de Charles III aos EUA
Charles III visita os EUA em meio à crise na relação entre Londres e Washington
Guerra no Irã pressiona arsenal dos EUA, apesar de extensão de cessar-fogo entre Israel e Líbano
Com renda corroída, cubanos enfrentam dificuldade para comprar itens básicos
'Brasil cansou de ser tratado como invisível', diz Lula ao defender multilateralismo com chanceler alemão
Lula abre giro europeu com Sánchez na Espanha para ampliar agenda bilateral e 'defender democracia'
Lufthansa completa 100 anos com greves, proposta pela TAP e reconhecendo passado nazista
Trump volta a atacar papa: 'Alguém poderia dizer a Leão XIV que Irã matou milhares de manifestantes?'
Afluência recorde às urnas na Hungria dá vitória à oposição com Péter Magyar encerrando a era Orbán
Eleições na Hungria podem pôr um fim à era Orbán – para o alívio da União Europeia
Bruxelas mantém cautela após acordo entre Estados Unidos e Irã
'Grande dia para paz no mundo': Trump adia ameaças e anuncia cessar-fogo de duas semanas no Irã
Caso Koldo: Supremo da Espanha inicia julgamento de ex-ministro, assessor e empresário em suposto esquema de corrupção
Kast e Milei se encontram em meio a crises e forte queda de popularidade
Em meio a guerras, Leão XIV marca sua primeira Páscoa como papa carregando cruz na Via Sacra
Nesta Semana Santa, marcada pelo conflito no Oriente Médio, Leão XIV celebra a primeira Páscoa de seu pontificado. As cerimônias ocorrem um ano após a morte de seu antecessor, Francisco. O pontífice americano traz também algumas novidades na celebrações, retomando algumas tradições antigas. Gina Marques, correspondente RFI na Itália A primeira celebração da Páscoa sob o pontificado de Leão XIV é marcada por uma novidade de forte simbolismo. Na noite desta sexta-feira (3) durante o rito da Via Sacra no Coliseu, o papa - que tem 70 anos - carregará pessoalmente a cruz de madeira ao longo das 14 estações que narram o calvário de Jesus, da condenação à morte até o sepultamento. A decisão de conduzir a cruz em todas as estações da Via Sacra chamou atenção por seu caráter excepcional. Em tempos recentes, nenhum pontífice portou a cruz percorrendo todas as etapas que relembram os últimos momentos da vida de Cristo. Embora não tenha as dimensões nem o peso da cruz histórica - que segundo estimativas pesava cerca de 70 quilos - a iniciativa é voltada às dores do presente. O gesto de Leão XIV pode ser interpretado como a sua vontade de ressaltar o sofrimento de Cristo e das vítimas dos conflitos em curso, como as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, além da devastação, dos abusos e da violência sistemática contra inocentes. Reação do papa contra a guerra Esta semana começou tensa devido aos conflitos na chamada Terra Santa. O Patriarca Latino de Jerusalém, o cardeal italiano Pierbattista Pizzaballa, teve sua entrada no Santo Sepulcro negada pelas autoridades israelenses, algo que não acontecia “há séculos”. Leão XIV é o primeiro pontífice norte-americano da Igreja Católica, mas desde que foi eleito em maio do ano passado, ele evitou comentários sobre seu país natal e nunca havia mencionado publicamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Recentemente o papa mudou de tom e criticou abertamente a guerra do Irã. Na última terça-feira ele mencionou pela primeira vez Trump publicamente, ao pedir que o presidente americano encontrasse uma “saída” para acabar com a guerra. Dois dias antes de fazer esse apelo direto a Trump, Leão XIV disse que Deus rejeitou as orações de líderes que iniciam guerras e têm “mãos cheias de sangue”. Os comentários foram interpretados como sendo dirigidos ao secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que invocou a linguagem cristã para justificar os ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã que iniciaram a guerra. Com Leão XIV retorna à tradição O Leão XIV retomou a tradição na cerimônia do “Lava-Pés” celebrada na quinta-feira (2) na Basílica de São João de Latrão com 12 sacerdotes. O rito recria o gesto de serviço de Cristo na Última Ceia com os apóstolos. Ele rompeu com a prática de Francisco, que lavava os pés de detentos, migrantes ou pessoas em situação de rua, simbolizando o cuidado com os marginalizados. Durante a cerimônia, Leão XIV ressaltou que a ação repete o gesto de humildade de Jesus na noite anterior à sua morte. A celebração deveria inspirar os católicos a cuidar dos necessitados. "À medida que a humanidade é colocada de joelhos por tantos atos de brutalidade, vamos também nos ajoelhar como irmãos e irmãs ao lado dos oprimidos", disse Leão. “Deus nos deu um exemplo não de como dominar, mas de como libertar”, disse o papa, antes de se abaixar para derramar água secar e beijar os pés de cada um dos 12 homens. Segundo fontes do Vaticano, Leão decidiu lavar os pés dos padres este ano para demonstrar apoio ao clero católico, que geralmente trabalha longas horas e lidera mais de uma paróquia. O papa também dedicou sua oração mensal de abril aos sacerdotes, pedindo aos 1,4 bilhão de católicos do mundo que rezassem para que Deus cuidasse deles e os encorajasse. Papa Francisco Vale lembrar que em 2025 as celebrações da Semana Santa foram marcadas pelas últimas aparições públicas do papa Francisco. Entre os católicos, a memória do pontífice argentino permanecerá viva. Na cerimônia do Lava-Pés do ano passado, quando estava se recuperando de uma pneumonia dupla, Francisco fez uma visita surpresa ao Regina Coeli de Roma, uma das prisões mais superlotadas da Itália, para desejar felicidades aos detentos.
Israel: ONGs pedem anulação de lei sobre pena de morte visando palestinos
Aprovada pelo Knesset, o Parlamento de Israel, por 62 votos a 48, a lei que institui a pena de morte por enforcamento para condenados por terrorismo continua a causar discussões no país. Partidos da extrema direita da coalizão de governo alegam que a medida poderá evitar novos ataques contra civis, enquanto organizações de direitos civis e grupos da sociedade israelense argumentam que a lei se destina apenas aos palestinos. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Fora de Israel, a decisão foi criticada pela ONU, União Europeia, por países aliados de Israel, e por organizações de direitos humanos, aumentando ainda mais o isolamento do país na comunidade internacional. A aplicação da pena de morte já estava prevista na legislação, por exemplo, como punição a indivíduos envolvidos em situações consideradas de extrema gravidade, como “provocar uma guerra contra Israel para ajudar o inimigo”, “ajudar um inimigo durante uma guerra” e para os “crimes cometidos pelos nazistas”. Apesar disso, a pena de morte foi aplicada a um civil apenas uma vez, contra o criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, em 1962, em um julgamento que marcou a história de Israel. Eichamann foi capturado pelo Mossad, o serviço secreto israelense, na Argentina e trazido a Israel. O julgamento em Jerusalém foi transmitido pela TV e se transformou também num momento chave para os sobreviventes do Holocausto em Israel, que enfrentavam dificuldades de lidar com a própria história e de dar o seu testemunho. Organizações de direitos civis israelenses entram com petição Pelo menos oito organizações de direitos civis apresentaram uma petição à Suprema Corte pedindo a anulação da nova lei, em um movimento liderado pela Associação pelos Direitos Civis de Israel (ACRI). Integrantes da entidade ouvidos pela RFI disseram acreditar na possibilidade de que a Suprema Corte derrube a legislação. Outras fontes consultadas pela reportagem também avaliaram o mesmo. O argumento da ACRI é que a lei adiciona um novo crime, punível com pena de morte ou prisão perpétua, para aqueles que agiram "com o objetivo de negar a existência do Estado de Israel". Este é um ponto considerado fundamental sob o aspecto legal israelense porque, em tese, é um critério que exclui terroristas judeus que cometam os mesmos atos. A petição argumenta também que o Knesset não tem autoridade para legislar sobre a Cisjordânia porque Israel não detém a soberania da região. “O gabinete do procurador-geral, o conselho jurídico do Knesset, o Ministério da Justiça, os consultores jurídicos do exército, antigos chefes do Shin Bet (o serviço de segurança interna de Israel) e uma ampla coalização de juristas e organizações da sociedade civil levantaram objeções sérias quanto ao projeto. Todas elas foram ignoradas”, afirmou a ACRI em comunicado. Outro argumento é que a lei seria inconstitucional. Israel não tem uma constituição formal, como o Brasil, mas um conjunto de 14 leis básicas com poder análogo ao de uma constituição. Uma das leis básicas é definida como “Dignidade Humana e Liberdade”. Segundo as associações israelenses, a lei viola este princípio constitucional do país. Manifestantes contra a lei Nesta semana, ocorreu em frente ao prédio do Knesset, em Jerusalém, o primeiro protesto contra a nova lei, organizado pelo Movimento Reformista e pelo Conselho Rabínico Reformista de Israel. Em meio à mobilização, duas ativistas israelenses ouvidas pela RFI criticaram duramente a legislação. “É um projeto de destruição do povo palestino. A lei me envergonha, é a assinatura final deste projeto. Ela não se aplica a um cidadão israelense ou a um habitante de Israel, apenas aos palestinos. O país não entende o significado da palavra ‘lei’ como o resto do mundo”, disse Abigail Szor, 26 anos, ativista dos direitos humanos ligada à esquerda radical. “Após a aprovação revoltante da lei de execução, muitos de nós sentimos a necessidade de expressar nossa objeção e revolta. Esperamos que os países que ameaçaram sancionar Israel por causa deste projeto de lei finalmente cumpram suas promessas”, afirmou Sahar Vardi, 35, militante do movimento de esquerda Free Jerusalem.
Portugal avalia mudanças na Lei da Nacionalidade e critérios de perda da cidadania
O futuro da Lei da Nacionalidade em Portugal, que afeta diretamente milhares de imigrantes em situação irregular no país, será avaliado pelo Parlamento nesta quarta-feira (1º). Discussões sobre o tempo necessário para obter o benefício da cidadania e sobre a questão da criminalidade serão destaque. O debate sobre as alterações no texto após o veto do ex-presidente Marcelo Rebelo de Sousa será oficializado em plenário. No final do ano passado, a legislação foi revisada pelo Tribunal Constitucional do país. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Em dezembro passado, o Tribunal Constitucional de Portugal declarou que quatro pontos da chamada Lei da Nacionalidade, que restringe o acesso à cidadania portuguesa, eram inconstitucionais. Agora, o Parlamento terá que ajustar os trechos vetados do texto antes da lei ser submetida a uma nova votação. A norma mais polêmica considerada ilegítima pelo tribunal previa a perda da nacionalidade portuguesa para imigrantes que fossem condenados a penas de prisão superiores a dois anos. Esta questão da criminalidade está dividindo os partidos políticos do país. O PSD, partido de centro-direita liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, quer alterar o prazo de tolerância e deve propor a perda da cidadania apenas para quem for condenado a mais de seis anos de prisão. Para os sociais-democratas, a sanção ainda deixaria de ser aplicada – como previa a versão original - a crimes como tráfico de drogas, posse de armas proibidas, imigração ilegal e lenocínio - exploração da prostituição. André Ventura, líder do Chega, partido de extrema direita, rejeitou qualquer acordo e acusou a coalizão governamental de não estar preocupada com os riscos de segurança provocados pela imigração. Analistas políticos lembram que foi o Chega que fez emergir esses debates sobre imigração e criminalidade na história recente do país e que a discussão na Assembleia da República nesta quarta-feira não deixa de ser uma clara concessão do PSD à agenda do Chega. Vida em suspenso A advogada Ana Pacheco Araújo, especialista em imigração e direito internacional, conversou com a RFI e explicou que “as alterações na Lei da Nacionalidade deixam em suspenso a vida de milhares de pessoas que requereram esse direito ou a possibilidade desse direito baseada na segurança jurídica de uma lei, que vive sendo alterada inúmeras vezes ao longo de anos”. “Não temos a estabilidade jurídica da Lei da Nacionalidade. Ela é sistematicamente alterada e usada como política pública para angariar voto. Então, os impactos da imigração passaram a ser voto, e se tornou um debate político. Esta situação de politizar, praticamente anualmente, a Lei da Nacionalidade afeta a vida de milhares de pessoas, que muitas vezes só querem viver em um país onde possam se tornar cidadãos. E neste contexto, as pessoas acabam absolutamente perdidas sem saber como será o futuro”, concluiu Araújo. Mais restrição menos imigração Com as tempestades que atingiram Portugal no início do ano, a construção civil - que conta com 35% de trabalhadores estrangeiros, muitos deles brasileiros - ganhou uma pressão suplementar para reerguer as zonas destruídas pelas chuvas. Apesar do apelo de empresários e representantes patronais sobre a escassez de mão de obra e a absoluta necessidade dos imigrantes para os seus setores de atividade, as discussões para restringir a imigração seguem em pleno vapor. O endurecimento crescente da política migratória em Portugal é resultado da coalizão de centro-direita que governa o país com o apoio do partido Chega, de extrema-direita e segunda maior força no Parlamento português. O Partido Socialista, que governou o país de 2015 a 2024, manteve uma das políticas migratórias mais abertas da Europa; mas no momento, os socialistas são oposição e criticam o endurecimento das regras. No ano passado, o Conselho de Ministros estendeu o tempo obrigatório em território nacional para pedir a nacionalidade portuguesa de cinco para sete anos para brasileiros e cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e da União Europeia, e em até dez anos para outros imigrantes. Foi ainda determinado que as crianças que nascerem em Portugal só terão direito à cidadania se um dos pais viver legalmente no país há pelo menos cinco anos.
Trump oscila entre escalada e recuo na guerra contra o Irã em meio a riscos políticos e estratégicos
As explosões que deixaram áreas de Teerã sem eletricidade nesta terça-feira (31) voltam a expor o impasse estratégico no qual o presidente dos Estados Unidos se encontra. Mesmo após ameaçar “destruir” a infraestrutura energética iraniana caso as negociações não avancem, Trump teria dito a assessores que está disposto a encerrar a guerra contra o Irã. A manobra, no entanto, implicaria o risco político de parecer recuar diante de Teerã. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Entre autorizar operações terrestres de alto custo, como as discutidas na Ilha de Kharg, ou interromper uma ofensiva que inquieta mercados e aliados, Trump se vê cada vez mais limitado por uma guerra cujas consequências estratégicas se tornam difíceis de controlar. Segundo o Wall Street Journal, Trump poderia interromper sua campanha militar por acreditar que forçar a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, prolongaria o conflito "além do prazo de quatro a seis semanas" que ele imaginou ao embarcar na ofensiva aérea ao lado de Israel. Caso a diplomacia falhe, Trump planeja pedir a seus aliados na Europa e no Golfo que forcem a reabertura, disseram autoridades americanas ao jornal. Diante da imprevisibilidade do americano, a diplomacia internacional se reorganiza fora de Washington. Segundo apuração do site Político, o Japão tem atuado como canal indireto de comunicação com o Irã. O ministro das Relações Exteriores japonês, Toshimitsu Motegi, e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, já conversaram ao menos duas vezes desde o início da guerra. O movimento reflete preocupações diretas com energia. O Japão depende do Estreito de Ormuz para cerca de 90% do petróleo que consome e já iniciou a maior liberação de reservas estratégicas de sua história. A primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou que pode avançar diplomaticamente. “Vou avaliar o momento adequado para abrir negociações com base no interesse nacional, de forma abrangente”, disse ao indicar que considera dialogar diretamente com Teerã. Outro ator que entra nesse cenário é o Paquistão, que afirmou estar disposto a sediar negociações entre Estados Unidos e Irã nos próximos dias, após reuniões com líderes regionais. A iniciativa reforça a percepção de que os principais canais de diálogo estão se deslocando para fora da Casa Branca. Trump envia mensagens contraditórias Apesar dessas movimentações, o discurso do presidente Donald Trump segue marcado por idas e vindas, alternando sinais de negociação com ameaças de escalada. No domingo à noite, falando a jornalistas a bordo do Air Force One, Trump chegou a afirmar que já haveria uma espécie de mudança de regime no Irã. Segundo ele, “o regime foi destruído, eliminado, todos estão mortos” – uma declaração que não se confirma na prática. Já em entrevista ao Financial Times, o presidente elevou o tom e disse que considera inclusive assumir ativos estratégicos iranianos. “Talvez a gente tome a ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções”, afirmou, ao mencionar o principal polo de exportação de petróleo do país. Em uma publicação nas redes sociais, Trump foi ainda mais direto ao ameaçar destruir infraestrutura energética iraniana caso não haja acordo, incluindo usinas, campos de petróleo e a própria ilha de Kharg. Desconfiança em Teerã Do lado iraniano, o discurso é de desconfiança. Em um comunicado, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que há um descompasso entre discurso e prática. Segundo ele, “o inimigo fala em negociação em público, mas em segredo planeja um ataque terrestre”. O impasse também aparece nas propostas formais. Os Estados Unidos apresentaram um plano com cerca de 15 pontos que inclui o desmantelamento do programa nuclear iraniano, limites ao desenvolvimento de mísseis e a redução da atuação regional de Teerã, em troca do alívio de sanções. O Irã rejeitou a proposta e exige o fim imediato dos ataques, compensações pelos danos e garantias contra novas ofensivas, ampliando a distância entre as posições. Enquanto isso, a presença militar americana continua a crescer. Milhares de tropas foram mobilizadas para a região, incluindo cerca de 3.500 militares adicionais nos últimos dias. Ainda assim, analistas avaliam que uma invasão por terra seria altamente complexa e arriscada, com grande potencial de baixas.
Crise energética: Venezuela antecipa feriado e suspende atividades para reduzir consumo
Começa nesta segunda-feira (30) o feriado prolongado na Venezuela, decretado pela presidente Delcy Rodríguez como parte de um plano de economia de energia. A medida, que vai durar até o fim da Semana Santa, determina a suspensão das atividades do setor público e educacional. Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela. “Quero anunciar que decretei folga de segunda a sexta-feira para todo o setor de educação. Nossas crianças não devem ir à escola. Também haverá folga para os ministérios, porque isso faz parte do plano de economia de energia elétrica”, afirmou Rodríguez. O anúncio foi feito durante uma visita ao estado de Nueva Esparta, transmitida pela VTV, a emissora estatal. Segundo a presidente, a suspensão não se aplica a setores considerados essenciais, responsáveis pela prestação de serviços básicos. Rodríguez declarou, sem apresentar os dados, que o país registrou recentemente a “demanda [energética] mais alta em anos”, o que seria resultado do crescimento econômico do país. Plano de economia de energia A decisão ocorre após o anúncio, na semana anterior, de um programa de economia energética com duração prevista de 45 dias. Segundo Rodríguez, o período deve coincidir com um aumento das temperaturas em todo o país, por conta da “passagem perpendicular de raios solares de sul a norte, o que, na prática, significa que os raios do sol incidirão diretamente sobre a Venezuela”. Ainda de acordo com a presidente, o fenômeno deve pressionar o consumo de energia no país. Diante desse cenário, o governo recomendou a redução no uso de eletricidade, com orientações para moderar o uso do ar-condicionado e reduzir o uso desnecessário de aparelhos eletrônicos. Ao lado de autoridades do setor, Rodríguez afirmou que as sanções econômicas contra o país caribenho comprometem a recuperação do sistema elétrico e defendeu a retirada das restrições. “O bloqueio econômico impactou negativamente um serviço essencial para a população e, por isso, fazemos um pedido pelo fim das sanções contra nosso país, para que possamos recuperar plenamente esse serviço.” Crise energética e apagões Embora não tenha feito referência direta aos apagões, o anúncio ocorre após o aumento de relatos de falhas no fornecimento de energia em diferentes estados venezuelanos. As interrupções têm sido mais frequentes fora da capital, mas também há registros de interrupções em Caracas. No dia 20 de março, véspera do anúncio do plano de 45 dias, opositores denunciaram uma falha elétrica de grande escala que teria atingido diversos estados do oeste do país. “Novamente ocorre um apagão generalizado que afeta, até onde há informação, os estados de Táchira, Mérida, Trujillo, Barinas, Portuguesa, Lara e, obviamente, Zulia”, disse Juan Pablo Guanipa, do partido Primeiro Justiça, em suas redes sociais. Após o apagão, a deputada Nora Bracho, do partido Um Novo Tempo, defendeu o aumento de investimentos no setor e afirmou que “a crise do sistema elétrico nacional não pode continuar sendo tratada como um tema secundário". Na semana passada, novas denúncias foram apresentadas pela oposição. O partido Primero Justicia afirmou que a crise se intensificou nos últimos meses, com cortes de até oito horas por dia no estado de Zulia. Além da falta de investimentos no setor, a oposição também responsabiliza pelos apagões no país o que classifica como má gestão da Corpoelec, a estatal responsável pelo sistema elétrico
META e YouTube anunciaram que vão recorrer das recentes decisões da justiça americana
Vereditos históricos nos Estados Unidos colocam gigantes da tecnologia no centro de um debate global sobre responsabilidade digital. Em Los Angeles, um júri concluiu que a Meta e o YouTube devem pagar US$ 6 milhões a uma jovem que alegou desenvolver dependência das redes sociais ainda na adolescência, prejudicando sua saúde mental. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles A decisão ocorre logo após outro processo relevante: no estado do Novo México, a Meta foi condenada a US$ 375 milhões por permitir a exposição de conteúdos prejudiciais a menores. Agora, a grande questão é o que esses resultados podem significar para a transformação de todo um sistema de plataformas digitais e como a Justiça passa a analisar a responsabilidade das empresas. Nesta quinta-feira (26), o procurador-geral do estado de Maryland, Anthony G. Brown, emitiu um comunicado no qual destacou que vivemos um momento histórico com os resultados dos júris da Califórnia e do Novo México, embora as empresas ainda possam recorrer. “Esses veredictos são um acerto de contas há muito esperado para uma indústria que passou anos explorando as vulnerabilidades das crianças enquanto dizia aos pais que não havia motivos para se preocupar”, disse o procurador. Ele ainda ressaltou que o veredito é importante na luta para proteger as crianças de plataformas de redes sociais que são projetadas para explorá-las. “A ansiedade, a depressão e o vício que milhões de jovens estão enfrentando não são acidentes, são o resultado de escolhas deliberadas de design feitas por empresas que colocam o lucro acima da saúde mental dos jovens", escreveu o procurador-geral. Apoio bipartidário No Congresso dos Estados Unidos, cresce a pressão por uma regulamentação das plataformas digitais. Há apoio bipartidário no Senado, com parlamentares agora usando os dois casos como argumento para avançar no Kids Online Safety Act - projeto de lei dos Estados Unidos que busca aumentar a proteção de crianças e adolescentes na internet. Alguns senadores destacam a responsabilidade das empresas de tecnologia, comparando a situação à de indústrias historicamente questionadas, como a do tabaco, enquanto outros reforçam que é urgente proteger a saúde mental e o bem-estar dos jovens. Há uma mudança importante em curso. Durante muito tempo, as plataformas foram tratadas como intermediárias neutras. Agora, o foco começa a se deslocar: em vez de olhar apenas para o conteúdo publicado, a Justiça passa a examinar como essas plataformas são estruturadas, como seus sistemas são desenhados e de que forma esse modelo contribui para comportamentos de risco e isso representa um novo tipo de responsabilização. A resposta das empresas As empresas já anunciaram que vão recorrer, o que pode prolongar essas disputas e discussões por anos. Especialistas já estão prevendo que elas devem seguir alguns pilares como: Alegar que a lei federal (Seção 230) protege plataformas de responsabilidade pelo conteúdo de terceiros e que responsabilizá-las pelo design das plataformas abre um precedente perigoso; Argumentar que decisões sobre design e algoritmos podem ser interpretadas como restrição editorial, violando a Primeira Emenda da Constituição; Além de ainda contestar que não ficou comprovado que o design das plataformas causa diretamente problemas psicológicos. Independentemente do resultado final, esses casos já criam pressão, trazem discussões sobre o assunto, incentivam ações semelhantes e aumentam o custo reputacional para as plataformas. Também podem acelerar discussões legislativas sobre limites e obrigações no ambiente digital, tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo. O que está em jogo Mais do que indenizações, o que está em discussão é o próprio modelo das plataformas digitais e até que ponto é aceitável estruturar um serviço para capturar a atenção de forma intensiva, sabendo que isso pode ter efeitos negativos. Esses casos colocam em evidência uma tensão central do mundo digital e o equilíbrio entre inovação, lucro e responsabilidade social. Esses casos da Califórnia e do Novo México não são isolados. Há centenas de processos pendentes contra a Meta, YouTube e também Snapchat e TikTok relacionados a vício e danos à saúde mental, incluindo mais de 1.600 ações consolidadas. Espera-se que novas ações civis continuem surgindo, tanto nos EUA quanto internacionalmente, além de outras investigações regulatórias sobre segurança infantil, publicidade direcionada e proteção de dados. No entanto, é importante destacar que a proximidade do presidente Donald Trump com os magnatas das big techs traz ao mesmo tempo uma percepção de que essas empresas operam acima das regras. reforçando a percepção de que, apesar das críticas e dos processos, elas dificilmente enfrentarão consequências reais pelos impactos que causam, principalmente durante esse governo.
Amistoso entre Brasil e França é também um teste para a estrutura da Copa 2026 nos EUA
O amistoso entre Brasil e França, disputado nesta quinta-feira (26) em Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos, acontece em um momento de preocupação com a infraestrutura do país para a Copa do Mundo de 2026, que começa no dia 11 de junho. Leandra Felipe, correspondente da RFI em Boston. O confronto entre as duas seleções também funciona como um ensaio geral para a Copa, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Na cidade de Boston, autoridades já colocam em prática medidas para simular a operação do torneio, com mudanças nas rotas de transporte, reforço no número de trens e ajustes logísticos para lidar com o aumento do fluxo de torcedores. Trens extras estão sendo disponibilizados saindo da estação central de Boston diretamente para o Gillette Stadium, em Foxborough, que fica a cerca de 40 quilômetros da capital.O estádio, com capacidade para 64 mil pessoas, costuma enfrentar trânsito intenso em dias de grandes eventos, o que ainda levanta dúvidas sobre a eficiência das medidas adotadas. Comunidade brasileira organiza festa Fora de campo, o jogo movimenta a comunidade brasileira na região. Massachusetts abriga a segunda maior população brasileira dos Estados Unidos, o que contribui para a grande expectativa em torno da partida. Desde o início da semana, brasileiros vêm se organizando por redes sociais e grupos de WhatsApp para encontros próximos ao Gillette Stadium — sede do time de futebol americano New England Patriots. A torcida brasileira está preparando um "esquenta" no estilo americano de pré-jogo, o chamado “tailgate”, quando torcedores se reúnem nos estacionamentos para comer, beber e socializar antes da partida. Mas com um toque brasileiro: sai o hambúrguer e entra a picanha. O evento, que começa ao meio-dia, deve reunir torcedores com música, bandeiras e camisas da seleção, criando um ambiente festivo. França chega como favorita Dentro de campo, a França chega como favorita. É uma seleção mais consolidada, com resultados recentes fortes. O Brasil vem em fase de ajustes, e o amistoso também serve como teste para a equipe. Ainda assim, em um confronto desse nível, há expectativa de equilíbrio. O duelo também coloca frente a frente dois companheiros de Real Madrid: Vinícius Júnior e Kylian Mbappé, que protagonizam uma disputa por protagonismo dentro e fora de campo. Desafios logísticos e políticos preocupam A preparação para a Copa, no entanto, não se limita à organização dos jogos. Um impasse político em Washington levou a um shutdown parcial — quando parte do governo reduz serviços por falta de orçamento e mantém apenas atividades essenciais, mesmo sem pagamento. Nesse contexto, agentes da TSA, responsáveis pela segurança nos aeroportos, continuam trabalhando sem salário, e mais de 480 já deixaram o cargo desde o início da crise. Agora, faltando menos de três meses para a Copa, a chefe interina da TSA, Ha Nguyen McNeill, alertou em uma sessão do Congresso, nesta semana, que pode faltar pessoal a ponto de áreas de controle — como o raio-x antes do embarque — nem abrirem. A preocupação aumenta diante da expectativa de até 10 milhões de passageiros extras, enquanto o treinamento de novos agentes pode levar de quatro a seis meses.
Munique elege primeiro prefeito gay em meio a aumento da homofobia na Alemanha
O resultado da eleição municipal em Munique, na Alemanha, veio cercado de ineditismos. A terceira maior cidade e também capital do estado mais rico do país elegeu seu primeiro prefeito do Partido Verde. Dominik Krause, de 35 anos, quebrou uma hegemonia do partido de esquerda SPD que já durava 42 anos. Ele também se tornou o primeiro prefeito assumidamente gay da capital da Baviera em um contexto de aumento de casos de homofobia em toda a Alemanha. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha A eleição de Dominik Krause chama a atenção pelo fato de que sua sexualidade e vida privada em nenhum momento se tornaram um assunto durante a campanha. Krause nasceu em 1990 e pertence a uma geração que cresceu em um país muito mais favorável à diversidade sexual. Ele é formado em física pela Universidade Técnica de Munique e se assumiu gay aos 11 anos. Ele está noivo do médico Sebastian Müller, que conheceu ainda na adolescência, em uma aula de dança. No domingo à noite, quando a vitória de Krause já era certa, eles se beijaram no palco da festa de comemoração da vitória, protagonizando uma foto que estampou os portais de notícias em toda a Alemanha.Mas toda essa vida pessoal ficou de fora da campanha, mesmo sendo informações públicas e amplamente conhecidas. Krause era vereador na cidade desde 2014 e, em 2023, se tornou vice-prefeito na coalizão que governa a cidade. Ele parece ter se beneficiado de uma espécie de fadiga de materiais das gestões do Partido Social Democrata (SPD), que comandava a cidade há décadas, particularmente do prefeito Dieter Reiter, que estava no poder já há 12 anos.Na campanha, o prefeito eleito deu ênfase às ideias de ampliar áreas verdes e ciclovias na cidade, além de investir em moradia popular. Vale lembrar que Munique, ao contrário da maior parte da Baviera, é uma cidade com uma inclinação liberal de centro esquerda. Prefeitos gays de Berlim e Hamburgo Eleger um candidato gay já deixou de ser um tabu na Alemanha há muito tempo, mas nem sempre foi assim. O colunista do jornal Welt Rainer Haubrich propõe uma comparação com os primeiros prefeitos gays nas outras duas maiores cidades do país: Berlim e Hamburgo. As duas cidades elegeram homossexuais para seu cargo máximo ainda no começo do século, em um contexto bastante diferente, embora faça apenas 25 anos. Em Berlim, em 2001, Klaus Wowereit foi praticamente obrigado a sair do armário nos dias antes da eleição, quando soube que um jornal estaria prestes a publicar a informação. Foi quando, em um discurso, ele proferiu a frase que ficou conhecida: "Ich bin schwul, und das ist auch gut so." (“Eu sou gay, e isso é uma coisa boa”).Em Hamburgo, o prefeito Ole von Beust já estava em seu segundo ano de mandato, lá em 2003, quando foi chantageado pelo próprio vice-prefeito, ameaçando expor publicamente sua homossexualidade. O caso veio à tona e von Beust acabou obtendo apoio da população, que reelegeu seu partido para seguir na prefeitura. Como podemos ver, a homossexualidade de Dominik Krause, eleito neste domingo prefeito de Munique, teve contornos bem menos dramáticos e preconceituosos. Casos de homofobia em alta A Alemanha vive um paradoxo. Se tornou ao longo das últimas décadas um dos países mais tolerantes do mundo na questão da sexualidade, a ponto de isto não ser mais uma questão relevante nas eleições, mas 2025 registrou 2.048 crimes homofóbicos na Alemanha, o maior número da série histórica e que só aumenta desde 2017, com crescimento acentuado em 2023 e 2024. Desde o ano de 2010, o número de crimes homofóbicos aumentou 10 vezes em toda a Alemanha. O aumento de crimes homofóbicos acompanha o crescimento de popularidade de movimentos e partidos de extrema-direita no mundo e também na Alemanha. O discurso violento contra gays é comum nestes grupos.O secretário-geral do Partido Social Democrata alemão, Kevin Kühnert, disse em uma entrevista ao canal de TV Welt que evita andar de mãos dadas com seu parceiro em Berlim, justamente por causa deste aumento da violência. A própria chefe da polícia da capital alemã, em uma polêmica entrevista de 2024, aconselhou casais gay a terem cuidado em alguns bairros específicos da cidade. Em 2025, duas paradas do orgulho gay tiveram que ser canceladas por motivos de segurança, tanto em Regensburg quanto em Gelsenkirchen, onde havia ameaças de um islamita radical. E tem também movimentos políticos do governo conservador que está no poder. O plano de ação "Vida Queer" que visava melhorar a vida das pessoas LGBTQIA+ foi encerrado pelo atual chanceler Friedrich Merz. Este era o único projeto de financiamento nacional voltado para questões LGBTQIA+.
50 anos do golpe na Argentina: a ditadura que mais matou na América do Sul foi a que teve mais condenados
Em 24 de março de 1976, teve início a ditadura mais sanguinária da região com requintes de crueldade como o desaparecimento maciço de pessoas, voos da morte e roubo de bebês. A reação da sociedade civil também foi a mais veemente com uma rede poderosa de organismos de direitos humanos, incluindo Mães e Avós da Praça de Maio e mais de 1.200 condenados. Nesta terça-feira, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e partidos políticos de esquerda fazem uma gigantesca manifestação por Memória, Verdade e Justiça, mas também contra o governo de Javier Milei, acusado de bloquear acesso aos arquivos, desmantelar políticas públicas que permitem justiça e de promover uma reinterpretação do período. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Oficialmente denominada “Processo de Reorganização Nacional”, a ditadura militar que governou a Argentina entre 24 de março de 1976 e 10 de dezembro de 1983 aplicou um plano sistemático para sequestrar, torturar, roubar bebês, roubar bens, matar pessoas e desaparecer corpos até hoje procurados, vítimas de um terrorismo de Estado. O golpe militar foi justificado pela luta contra o comunismo no contexto da guerra fria, apoiado por setores conservadores e amparado pela doutrina da Segurança Nacional ditada pelos Estados Unidos. O plano sistemático contra opositores incluiu 814 centros clandestinos de prisão, tortura e morte, equivalentes a campos de extermínio, sendo o maior de todos a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), hoje um museu da memória, onde entraram cerca de cinco mil pessoas e saíram em torno de 250. Ricardo Coquet, de 73 anos, é um dos sobreviventes. Foi sequestrado em 10 de março de 1977 ao sair da famosa confeitaria Las Violetas de Buenos Aires. “Fui me encontrar com um primo que me daria roupa e algum dinheiro. Todos os nossos camaradas estavam a ser capturados. Ao sairmos, quando caminhávamos ao carro dele, passou um caminhão com vários armados que me sequestraram. Eu tinha uma pastilha de cianureto, como muitos de nós, para o caso de sermos presos. Tomei a pastilha e avisei-lhes que não me venceriam. Além de vários golpes, deram-me injeções para evitar o efeito. Estavam preparados”, recorda Ricardo à RFI, então militante da Juventude Trabalhadora Peronista. Ele foi levado para a ESMA, onde ficou até 3 de dezembro de 1978, quando ganhou “liberdade vigiada” após um acidente que lhe amputou quatro dedos na carpintaria do centro clandestino, onde realizava trabalhos sob regime de escravidão. “O pior de ser um sequestrado sob tortura é a loucura de viver a cada minuto sem saber se você estará vivo no minuto seguinte. As torturas eram choque elétrico e golpes. Uma semana na solitária; outra semana de golpes. Sempre queriam que eu entregasse os demais militantes”, conta. As vítimas denominadas pelos militares como “subversivos” eram, na sua maioria, militantes de movimentos e partidos de esquerda, estudantes universitários e sindicalistas. “O caso argentino baseou-se no desaparecimento forçado como método modalidade mais comum, mas teve modalidades únicas como os voos da morte e o roubo sistemático de bebês”, aponta à RFI o historiador e escritor uruguaio, Aldo Marchesi, autor de “Hacer la Revolución”, sobre grupos armados durante as ditaduras dos países do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai). Voos da Morte A Junta Militar que governava o país era consciente que não poderia manter milhares de pessoas presas, que não poderia fuzilar e enterrar tamanha quantidade de pessoas sem que o movimento ganhasse estado público e recebesse críticas internacionais, sobretudo do Vaticano. Já havia o exemplo de fuzilamentos por parte do regime de Franco, na Espanha, e de Pinochet, no Chile. Era preciso desaparecer com os corpos e, para isso, a modalidade criada logo no primeiro ano do regime foram os “voos da morte”. Os militares chamavam a modalidade de “traslados” porque os prisioneiros achavam que seriam transferidos para outro centro clandestino. Também eram conhecidos internamente como “voos de portas abertas”. Com a redemocratização, foram descobertos os voos nos quais aviões das Forças Armadas lançavam pessoas vivas, mas drogadas, ao rio da Prata e ao mar. Cada voo transportava entre 25 e 30 pessoas às quais se injetava pentotal sódico, uma substância que as deixava em estado de sonolência. Eram lançadas nuas para que, uma vez decompostos os corpos e comidos por peixes, não deixassem rastros. No entanto, vários corpos mutilados apareceram na margem uruguaia do rio da Prata, na costa atlântica do Uruguai e também em praias de localidades argentinas, sendo enterrados como desconhecidos em cemitérios locais. As primeiras autópsias em restos humanos recuperados foram feitas pelo médico legista Roberto León Dios em 1977. Quando trabalharia sobre o terceiro cadáver, recebeu a ordem militar de interromper o estudo. Misteriosamente, o médico faleceu 40 dias depois. As freiras francesas Alice Domond e Leonie Duquet e as Mães da Praça de Maio, Esthe
Dinamarca quer deportar refugiadas afegãs para o regime do Talibã
A Dinamarca se prepara para deportar 57 cidadãos afegãos que atualmente têm ordem de saída de seu território. A medida tem recebido críticas de organizações de direitos humanos do país escandinavo e, ocorre em meio ao endurecimento da política migratória na Europa. Fernanda Larsen, correspondente da RFI em Copenhague Segundo a Agência Dinamarquesa de Repatriação, menos de cinco dessas pessoas a serem deportadas são mulheres, mas o número exato não é divulgado por razões de segurança. Para viabilizar as deportações, o governo mantém diálogo com o regime do Talibã, em uma cooperação classificada como técnica. A iniciativa tem gerado reação de organizações de direitos humanos. “É inaceitável fazer um acordo com os talibãs sobre repatriação neste momento. Quando se descobre que há também mulheres entre eles, torna-se completamente incompreensível”, afirmou Paula Larrain, assessora sênior da Anistia Internacional Dinamarca. Mulheres sem direito Embora o governo tenha enfatizado que a medida tem como alvo estrangeiros com antecedentes criminais, dados do Serviço de Imigração mostram que pelo menos 11 dos 57 afegãos não foram condenados por nenhum crime. São pessoas que tiveram pedidos de asilo negados, mas que ainda assim podem ser deportadas. As autoridades não informam quantas dessas pessoas são mulheres, nem qual é exatamente a situação jurídica delas. O Afeganistão ocupa a última posição nos rankings internacionais de direitos das mulheres. No país, elas não podem estudar além do ensino básico, enfrentam restrições severas ao trabalho e não podem circular livremente sem um tutor masculino. “Eles passam do melhor país do mundo na lista para o pior. Esse é o salto mais longo que se pode dar” afirmou Jens Vesterlund Mathiesen, especialista da Academia de Defesa Dinamarquesa. Divisão política A proposta tem provocado divisão no cenário político dinamarquês. “É horrível pensar que a Dinamarca possa enviar mulheres de volta para os braços do Talibã”, disse Trine Pertou Mach, porta-voz da Aliança Vermelha-Verde. Já setores mais duros defendem a deportação independentemente do contexto. “Se você é um estrangeiro com antecedentes criminais, deve voltar para casa, independentemente de ser homem ou mulher”, afirmou o deputado Peter Skaarup. Mas governo mantém a posição de que não deve haver distinção de gênero. “No que me diz respeito, isso se aplica a todos que não têm residência legal na Dinamarca, sejam homens ou mulheres”, declarou o ministro da Imigração e Integração, Rasmus Stoklund. Imigração mais rígida A medida ocorre em meio ao endurecimento da política migratória no continente. Na cúpula da União Europeia realizada na última quinta-feira (19), em Bruxelas, a primeira-ministra Mette Frederiksen defendeu o reforço das fronteiras externas do bloco. “Nossa sociedade não consegue acomodar as pessoas que querem estar na Europa. Os problemas são muito grandes”, afirmou a primeira-ministra dinamarquesa.
Em clima polarizado, eleições eslovenas podem fortalecer direita europeia
A Eslovênia realiza neste domingo eleições parlamentares em um cenário de forte polarização política e tensão social crescente. O pleito, que definirá o governo pelos próximos quatro anos, ocorre em meio a um contexto internacional marcado por crises, avanço da extrema‑direita e conflitos geopolíticos recentes, elevando a expectativa sobre o resultado. Edison Veiga, de Bled para a RFI Brasil Um dos principais fatores que agitaram a campanha nos últimos dias foi a denúncia de possível interferência estrangeira. O governo esloveno afirmou que uma empresa privada israelense de espionagem teria visitado a capital, Ljubljana, diversas vezes nos últimos meses para produzir material com alegações de corrupção envolvendo integrantes da atual administração. O primeiro‑ministro Robert Golob, líder da coalizão de centro‑esquerda, reagiu publicamente, afirmando que não permitirá ingerência externa no processo democrático do país. Em meio à crise, ele suspendeu temporariamente sua agenda de campanha e viajou a Bruxelas em busca de apoio da União Europeia. O clima eleitoral é descrito como tenso. Há aumento da presença policial, inclusive em cidades pequenas, indicando preocupação com possíveis distúrbios. As pesquisas apontam empate técnico entre o partido governista, o Gibanje Svoboda (Movimento Liberdade), e a principal força de oposição, o SDS (Partido Democrático Esloveno), liderado pelo ex‑primeiro‑ministro Janez Janša. Levantamento recente indica 27,8% das intenções de voto para o grupo de Golob e 27,7% para a oposição. Além da disputa acirrada, a campanha tem sido marcada por agressividade incomum. Cartazes com mensagens anti-imigração e ataques políticos diretos têm sido registrados, assim como episódios de vandalismo contra materiais de campanha de ambos os lados. Em alguns casos, ações mais extremas chamaram atenção nas redes sociais, como a utilização de animais mortos em intervenções contra outdoors políticos. Participação eleitoral A participação eleitoral é outro ponto de atenção. Diferentemente do Brasil, o voto na Eslovênia é facultativo, o que torna o comparecimento às urnas um fator decisivo e imprevisível. Organizações da sociedade civil, como a Glas Ljudstva, têm promovido campanhas de conscientização para estimular a participação popular, destacando especialmente o impacto das eleições em áreas como a saúde pública. No campo ideológico, a disputa reflete tendências mais amplas observadas na Europa. O partido de Janez Janša é associado ao avanço de movimentos conservadores no continente e mantém proximidade com lideranças como o premiê húngaro Viktor Orbán. Sua retórica enfatiza valores tradicionais e críticas ao financiamento público de organizações civis. Já o governo de Robert Golob se posiciona dentro de um campo liberal democrático. Apesar das diferenças internas, analistas apontam que, em temas internacionais, as posições dos dois principais líderes não divergem de forma significativa. Ambos criticam ações recentes dos Estados Unidos no cenário global, manifestam reservas quanto ao conflito entre Rússia e Ucrânia e se posicionam contra a guerra na Faixa de Gaza. Com um eleitorado dividido e incertezas quanto à participação, o resultado da eleição permanece em aberto, reforçando o caráter imprevisível de um pleito que pode redefinir o rumo político da Eslovênia.
Impasse com Orbán e crise no Oriente Médio dominam cúpula da União Europeia
Líderes europeus tentam destravar ajuda de 90 bilhões de euros à Ucrânia enquanto buscam resposta diplomática para tensão no Estreito de Ormuz. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas O Conselho Europeu realiza nesta quinta-feira (19), em Bruxelas, uma cúpula marcada por divisões internas e pressões externas. Os 27 chefes de Estado e de governo do bloco discutem o veto da Hungria a um pacote de 90 bilhões de euros para a Ucrânia, além da escalada da crise no Oriente Médio, que já impacta o preço global da energia. O bloqueio imposto pelo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é o principal ponto de tensão do encontro. O pacote de ajuda a Kiev, previsto para os próximos dois anos, já havia sido aprovado anteriormente pelos líderes europeus, o que aumentou a irritação com a decisão de Budapeste de barrar o acordo na reta final. Nos bastidores, a avaliação é de que Orbán utiliza o tema como instrumento político em meio a uma campanha presidencial acirrada na Hungria, com eleições previstas para abril. O governo húngaro sustenta que a Ucrânia estaria atrasando os reparos no oleoduto Druzhba, responsável por abastecer o país com petróleo russo. Kiev nega e atribui os danos a ataques da Rússia. Para tentar contornar o impasse, a União Europeia propôs apoio técnico e financeiro para acelerar os trabalhos no oleoduto, além de uma inspeção independente. Estreito de Ormuz Outro tema central da cúpula é a crise no Oriente Médio, especialmente após o fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo. A situação elevou os preços da energia e aumentou a pressão sobre as economias europeias. A UE foi surpreendida por um pedido dos Estados Unidos para ajudar a reabrir o estreito, mas há forte resistência entre os países-membros a qualquer envolvimento militar direto. A possibilidade de ampliar a missão naval europeia na região foi descartada, principalmente por limitações legais e operacionais. Diante desse cenário, os líderes devem apostar em uma resposta diplomática. A reunião contará com a participação do secretário-geral da ONU, António Guterres, e a expectativa é de que sejam discutidas alternativas para garantir a segurança da navegação sem ampliar o conflito. Crise energética e outros temas A crise energética também ocupa lugar de destaque na agenda. Desde o início da guerra na Ucrânia, os preços da energia permanecem elevados, cenário agora agravado pelas tensões no Oriente Médio. O impacto vai além dos combustíveis e atinge diretamente a competitividade da indústria europeia. No entanto, não há consenso sobre como enfrentar o problema. Um dos principais pontos de divergência é o sistema europeu de comércio de emissões, o ETS. Parte dos países defende maior flexibilidade nas regras, argumentando que o mecanismo encarece a energia, enquanto outros consideram o sistema essencial para a transição climática. A Comissão Europeia tenta equilibrar essas posições, mantendo o ETS, mas prometendo ajustes para reduzir a volatilidade e seus efeitos sobre os preços. Além desses temas, os líderes também devem discutir medidas para reforçar a competitividade econômica do bloco, além de questões relacionadas à defesa e à migração. Na prática, porém, esses assuntos tendem a ficar em segundo plano diante das urgências políticas que dominam a cúpula.
Guerra no Oriente Médio pressiona inflação e deve adiar corte de juros nos EUA
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã já começa a produzir efeitos diretos na economia global, impactando também o banco central americano em um momento decisivo para a política monetária. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York. Em meio à escalada do conflito e à alta do preço do petróleo, a expectativa é que o Banco Central dos Estados Unidos mantenha os juros inalterados no anúncio que será feito nesta quarta-feira (18), adiando qualquer perspectiva de alívio para consumidores e empresas. A decisão ocorre em um cenário de incerteza crescente, no qual fatores geopolíticos passaram a pesar mais do que os indicadores tradicionais da economia. Segundo avaliação de analistas, a guerra no Oriente Médio alterou significativamente o panorama que vinha sendo monitorado pela autoridade monetária. A alta do petróleo e do gás pressiona a inflação e cria um dilema para o Banco Central: ao mesmo tempo em que há sinais de desaceleração econômica, o aumento dos custos de energia dificulta qualquer movimento de corte de juros. Na prática, a tendência é que o presidente do Banco Central, Jerome Powell, reforce uma postura cautelosa, mantendo as taxas estáveis enquanto a instituição avalia os efeitos desse novo choque no mercado de energia. Isso significa que o custo do crédito deve continuar elevado por mais tempo, afetando diretamente financiamentos de imóveis, veículos e outras formas de consumo. Espera e incerteza O cenário predominante entre economistas é de manutenção dos juros não apenas nesta reunião, mas também nos próximos meses. A autoridade monetária ainda tenta medir o impacto real da guerra sobre a economia americana. Se, por um lado, o petróleo caro tende a manter a inflação elevada, por outro, um choque prolongado pode desacelerar a atividade econômica e aumentar o desemprego, o que abriria espaço para cortes de juros no futuro. Neste momento, as projeções mais recentes indicam que uma eventual redução das taxas deve ocorrer apenas a partir de setembro, ou até mais tarde. Enquanto isso, os mercados acompanham de perto qualquer sinal do Banco Central sobre o impacto do conflito nas perspectivas de crescimento e inflação. O preço do petróleo segue próximo dos 100 dólares por barril, sem sinais claros de estabilização. Petróleo no centro da decisão A alta da energia se tornou o principal fator de preocupação para o Federal Reserve. O aumento dos preços pode elevar a inflação no curto prazo e, dependendo da duração do conflito, atingir também os chamados núcleos inflacionários, que excluem itens mais voláteis. Esse é justamente o cenário que a autoridade monetária tenta evitar. Caso a pressão se espalhe, o Banco Central pode ser obrigado a manter os juros elevados por ainda mais tempo. Por outro lado, parte do mercado avalia que se trata de um choque temporário de oferta, ligado diretamente à guerra, e não a um excesso de demanda na economia. O problema é que tudo depende da duração do conflito. Se a guerra se prolongar, o impacto tende a se acumular: consumidores reduzem gastos, empresas freiam contratações e o risco de desaceleração econômica aumenta. Nesse contexto, o petróleo deixa de ser apenas um fator de inflação e passa a representar também um risco para o crescimento, tornando a decisão das autoridades monetárias ainda mais complexa. Crédito imobiliário pressionado O impacto já é visível no mercado imobiliário. As taxas de hipoteca voltaram a subir, refletindo a expectativa de inflação mais alta e juros elevados por mais tempo. A média para financiamentos de 30 anos está em torno de 6,1%. Segundo Stephen Kates, analista financeiro do Bankrate, a decisão do banco central em si não deve alterar esse cenário no curto prazo. “Para quem quer comprar ou já tem imóvel, a reunião do Banco Central não muda a questão da acessibilidade no curto prazo”, afirma. Ele ressalta que o mais importante será o tom da comunicação da autoridade monetária. “O mercado reage mais às sinalizações do Banco Central do que à decisão em si, especialmente no caso das taxas de hipoteca, que acompanham os rendimentos de longo prazo”, explica. Pressão política no radar Além dos desafios econômicos, o Banco Central também enfrenta um momento de transição e pressão política. O mandato de Jerome Powell termina em 15 de maio, e o presidente Donald Trump indicou Kevin Warsh para assumir o comando da instituição. A nomeação, no entanto, está travada no Senado em meio a uma investigação do Departamento de Justiça envolvendo Powell, relacionada a declarações sobre a reforma de um prédio do Banco Central. Na semana passada, um juiz anulou duas intimações contra a instituição, em um revés para a investigação. Ainda assim, a promotora responsável afirmou que pretende recorrer da decisão. O episódio adiciona uma camada extra de incerteza em um momento já delicado. Entre guerra, inflação e disputas políticas, o Banco Central americano entra em uma de suas decisões mais complexas dos últimos anos, com impactos que devem ser sentidos m
Europa resiste à pressão de Trump para atuar no Estreito de Ormuz
Em meio à escalada da guerra envolvendo o Irã, a União Europeia evita ampliar missão naval no Golfo Pérsico, teme impactos econômicos e enfrenta novas tensões com os Estados Unidos. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas A guerra envolvendo o Irã provocou nas últimas horas uma forte pressão política sobre a Europa. Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exige maior apoio dos aliados ocidentais para garantir a segurança no transporte de petróleo no Estreito de Ormuz, cresce entre os europeus o temor de uma escalada militar e de impactos diretos na economia global. Em Bruxelas, ministros das Relações Exteriores dos 27 países da União Europeia se reuniram para discutir o tema. Apesar da pressão norte-americana, a maioria dos governos europeus tenta evitar qualquer envolvimento direto no conflito, justamente para não ampliar a crise. Nos bastidores diplomáticos, a percepção é de que uma intervenção mais ativa poderia dragar a Europa para o conflito e alimentar ainda mais a escalada militar no Oriente Médio. A liderança europeia também mantém uma posição dura em relação a Teerã. O bloco considera a Guarda Revolucionária Iraniana uma organização terrorista e defende uma mudança de regime no país. Ainda assim, há preocupação com os efeitos econômicos de uma guerra prolongada, especialmente por causa do risco de interrupção no transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do planeta. Operação naval não será ampliada Uma das principais discussões da reunião ocorrida na segunda-feira (16) em Bruxelas foi a possibilidade de ampliar a operação naval europeia na região. A missão, chamada Operação Aspides, foi criada em 2024 para proteger embarcações comerciais no Mar Vermelho após ataques realizados pelos Houthis, do Iêmen. Com sede na Grécia e atualmente equipada com três navios, a operação tem mandato focado na proteção da navegação comercial nessa região. A ideia discutida entre os países europeus era ampliar o escopo para proteger diretamente o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. A proposta, porém, não reuniu apoio suficiente entre os Estados-membros. Segundo a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, faltou “apetite político” entre os governos para expandir a operação. Diversos países, incluindo Alemanha, Espanha e Itália, já afirmaram que não têm planos imediatos para enviar novas embarcações à região. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, ressaltou que o mandato da missão Aspides está “claramente definido” para o Mar Vermelho e não inclui o Golfo Pérsico. Sanções e cooperação militar Entre as poucas medidas concretas anunciadas pela União Europeia está a adoção de novas sanções contra o Irã. O Conselho Europeu decidiu punir 16 cidadãos e três entidades iranianas acusados de violações de direitos humanos, incluindo a repressão a protestos ocorridos no início do ano. Outra iniciativa anunciada por Kaja Kallas envolve uma parceria com a Ucrânia. Segundo a diplomata, os mesmos drones usados por forças russas contra cidades ucranianas também têm sido empregados em ataques no Golfo. O Irã é considerado um dos principais fornecedores de drones para a Rússia na guerra contra a Ucrânia. A ideia da União Europeia é aproveitar o conhecimento militar desenvolvido por Kiev na defesa contra esses equipamentos para ajudar países do Golfo a enfrentar a ameaça. A chefe da diplomacia europeia também discutiu com o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, a possibilidade de tentar negociar um acordo semelhante ao firmado no Mar Negro durante a guerra na Ucrânia, que permitiu o escoamento de grãos ucranianos apesar do conflito. Mas a própria Kallas reconhece que a situação é mais complexa. Segundo ela, o Irã está “em guerra com a economia global”, o que torna uma negociação desse tipo extremamente difícil. Nova tensão entre Trump e a Otan A crise também reacendeu tensões dentro da Otan, que tem sua sede em Bruxelas. O presidente Donald Trump voltou a pressionar os aliados europeus para que contribuam com a proteção da navegação no Estreito de Ormuz. Trump chegou a afirmar que a aliança militar poderia enfrentar “um futuro muito ruim” caso os parceiros não ajudem a reabrir a rota marítima. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, declarou apoio aos Estados Unidos e alertou que o Irã pode se tornar uma ameaça também para a Europa. Ao mesmo tempo, ressaltou que ninguém discute neste momento a aplicação do Artigo 5º da aliança, que prevê defesa coletiva em caso de ataque a um país-membro. Apesar da resistência de vários aliados, Trump afirmou ter conversado por telefone com o presidente francês, Emmanuel Macron, e disse acreditar que a França poderá enviar ajuda para garantir a segurança na região. Entretanto, o almirante Thibault Possesse, comandante do grupo aéreonaval francês que opera atualmente no Mediterrâneo Oriental, declarou nesta terça-feira (17) à RFI não estar em contato com os americanos. "Hoje, não tenho qualquer
Decisão judicial alemã restringe acesso a mensagem de celular de investigados
Em um contexto global em que mensagens de celular são usadas cada vez mais como provas criminais, o Tribunal Federal de Justiça alemão restringiu nesta semana o direito de investigadores de vasculharem o histórico de mensagens de celular dos suspeitos. A decisão deve tornar o trabalho de investigação das autoridades policiais mais complicado, mas ilustra bem a histórica preocupação alemã com a privacidade de dados. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha A decisão é sobre um tipo de vigilância bem específico: quando a polícia ou o Ministério Público solicita à justiça um monitoramento das mensagens de um suspeito, o chamado “grampo”. A partir de agora, eles só poderão acessar as mensagens de bate papo-criadas a partir do início do monitoramento. Se os investigadores quiserem, por exemplo, usar o histórico de conversa do WhatsApp ou do Telegram de um investigado como provas, eles terão que pedir um outro tipo de autorização judicial, muito mais difícil de se obter e que é concedido apenas em alguns tipos de crime. O caso concreto que levou à esta decisão judicial aconteceu na cidade de Aurich, noroeste da Alemanha. Um homem foi condenado a vários anos de prisão por tráfico ilegal de medicamentos, mas acabou tendo a sentença parcialmente anulada porque, entre as provas, a polícia elencou mensagens de até 5 meses antes do início do monitoramento. Spywares estatais O direito alemão está passando por um movimento de reação a uma alteração do código penal feita em 2017. Na época, bastante motivada por ameaças de terrorismo, essa mudança no código penal autorizou investigadores a infiltrarem-se em celulares e computadores de suspeitos usando software de espionagem. Já no ano passado a justiça alemã decidiu que o uso indiscriminado dos chamados spywares são parcialmente inconstitucionais. Agora vem outra decisão tornando o monitoramento mais complicado. A decisão desta semana foi celebrada pela Ordem dos Advogados da Alemanha, que sempre considerou ilegal usar o histórico de mensagens dos investigados. Alemães e privacidade: uma questão histórica A Alemanha tem um histórico de conviver com regimes autoritários de vigilância, como o regime nazista, em que a polícia secreta do governo, a Gestapo, coletava informações sobre cidadãos e mantinha arquivos detalhados para perseguir opositores políticos ou grupos étnicos. Depois da Segunda Guerra Mundial ainda houve a Stasi, o Ministério para Segurança do Estado do regime socialista da Alemanha Oriental, que ficou conhecido por ter um dos sistemas de vigilância de cidadãos mais amplos da história. Nos dias atuais, a preocupação dos alemães em evitar que um regime desse tipo ocorra novamente se adaptou aos tempos da internet, e é por isso que o país se dedica tanto a questões como proteção de dados e privacidade online. Até mesmo uma consulta de dentista na Alemanha exige assinatura de um longo documento sobre privacidade de dados. Decisão do Censo de 1983 e GDPR A atual legislação da União Europeia de proteção de dados, conhecida pela sigla GDPR, foi fortemente inspirada em uma lei de 1970 do estado alemão de Hesse, que é considerada a primeira lei de proteção de dados do mundo. Depois disso, houve ainda a histórica decisão judicial conhecida como Decisão do Censo. Na primavera de 1983 estava previsto um censo da população alemã que pretendia coletar uma vasta gama de informações dos cidadãos. Houve uma reação popular e dos meios jurídicos que acabou levando o censo aos tribunais e a uma decisão histórica, dando origem ao princípio jurídico chamado “direito à autodeterminação informativa”. O censo acabou acontecendo só quatro anos depois, e de forma muito mais limitada.
Espanha amplia acesso à saúde pública para imigrantes sem residência legal
O governo espanhol aprovou um decreto que garante acesso à saúde pública para estrangeiros em situação irregular no país. A medida visa desburocratizar o atendimento médico e atender grupos mais vulneráveis. Ana Beatriz Farias de Oliveira, correspondente da RFI em Madri Aprovado recentemente pelo governo espanhol, um decreto que reforça a universalidade da saúde pública regula, entre outras coisas, o direito à assistência médica para estrangeiros que se encontram na Espanha sem residência legal. Uma das principais novidades trazidas pelo texto é a simplificação dos procedimentos administrativos. Entre as medidas de desburocratização, está a possibilidade de solicitar acesso ao sistema público de saúde por meio de uma declaração responsável, em que o solicitante afirma não ter cobertura médica por outros meios. O reconhecimento da residência habitual na Espanha também foi simplificado: além do registro formal de domicílio – conhecido no país como “empadronamiento” –, outros comprovantes poderão ser aceitos. É o caso de faturas de serviços básicos que estejam em nome do solicitante, por exemplo. Por outro lado, a nova norma também estabelece mecanismos de controle. Se o pedido de acesso ao sistema público de saúde for recusado ou for detectada qualquer inexatidão ou falsificação na declaração apresentada, poderá haver cobrança pelos serviços prestados. Acesso imediato Para evitar atrasos no atendimento, será emitido um documento provisório no momento da solicitação de acesso ao sistema de saúde. Com isso em mãos, o solicitante pode ter acesso imediato à assistência médica pública enquanto o seu pedido estiver sendo processado. A administração tem um prazo máximo de três meses para comunicar sua decisão ao requerente. Uma vez reconhecido, esse direito não expira até que a cobertura de saúde seja obtida por outros meios. A nova norma também prevê acesso imediato e efetivo aos serviços públicos de saúde para grupos que necessitam de proteção especial, independentemente da situação migratória. Entre eles, estão: menores de idade, gestantes, vítimas de violência, solicitantes de proteção internacional e pessoas com deficiência. Leia tambémEspanha aprova plano para regularizar meio milhão de imigrantes, a maioria latino-americanos Inclusão de espanhóis que vivem fora do país O decreto amplia ainda o acesso à saúde pública para espanhóis de origem que, vivendo no exterior, estejam de passagem pela Espanha. Antes, esse direito era restrito a pensionistas ou trabalhadores. Agora passa a incluir todos os espanhóis de origem e seus familiares, como cônjuges e filhos dependentes, desde que estes não tenham cobertura por acordos internacionais ou pela seguridade social. Além disso, a nova regra estabelece que pessoas isentas de pagar por medicamentos, por serem de baixa renda, também ficarão isentas de pagar por produtos de ortopedia e próteses. Medidas favoráveis à população migrante A simplificação da inclusão de imigrantes sem residência legal no sistema público de saúde espanhol vai ao encontro de outras medidas tomadas pelo governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez. Em janeiro deste ano, o executivo espanhol deu sinal verde para um plano que vai regularizar de maneira extraordinária a situação de cerca de 500 mil pessoas que vivem no país e se encontram em situação administrativa irregular. Para ser contemplado, o estrangeiro precisa ter chegado à Espanha até o dia 31 de dezembro de 2025, estar no país há pelo menos cinco meses no momento do pedido e não ter antecedentes criminais. Leia tambémNa contramão da política migratória europeia, Espanha aposta em inserção de estrangeiros pelo trabalho Segundo a ministra de Migrações, Elma Saiz, os pedidos de regularização poderão começar a ser apresentados a partir de abril. A reforma surge após uma iniciativa popular que reuniu mais de 600 mil assinaturas e contou com o apoio de cerca de 900 associações. Na Espanha, já foram realizados seis processos de regularização extraordinária antes. O último deles foi posto em prática em 2005, beneficiando mais de 500 mil pessoas. De acordo com a ministra de Migrações, a medida aplicada mais de 20 anos atrás foi um êxito, e teve um “enorme impacto positivo na sociedade e no conjunto do país”. Por outro lado, o plano atual sofre críticas da oposição conservadora e da extrema direita, com alguns de seus representantes acusando o governo de incentivar a imigração irregular. Hoje, mais de sete milhões de estrangeiros vivem na Espanha, e as estimativas são de que 840 mil estejam em situação irregular, segundo o centro de análises Funcas. Com a decisão de promover a regularização, o governo de Pedro Sánchez se destaca em relação a outros membros da União Europeia, já que, atualmente, outros países do bloco endurecem suas regras sob pressão da extrema direita.
Preço do petróleo recua após fala de Trump, que ameaça Irã com ataques 'vinte vezes mais fortes'
No 11º dia da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, os mercados globais reagiram a sinais contraditórios vindos da Casa Branca. Os preços do petróleo recuaram depois que o presidente americano, Donald Trump, afirmou que o conflito pode terminar “muito em breve”. Ao mesmo tempo, o líder republicano elevou o tom nas redes sociais ao advertir que qualquer tentativa do Irã de bloquear o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz provocaria uma resposta militar dos Estados Unidos “vinte vezes mais forte” do que as operações realizadas até agora. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York A escalada militar teve efeito imediato nos mercados de energia. Na segunda-feira (9), o barril de Brent, referência internacional do petróleo, chegou a ultrapassar US$ 100, atingindo o nível mais alto desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. Em determinado momento, o preço se aproximou de US$ 120, o que provocou quedas nas bolsas da Ásia e da Europa e pressionou também os índices em Wall Street. O movimento começou a se reverter depois das declarações de Trump sugerindo que a campanha militar pode estar próxima do fim. Com isso, o preço do Brent recuou e voltou para a faixa de US$ 99 o barril. Ao mesmo tempo, a Casa Branca tenta evitar uma nova disparada no preço da energia. Trump sugeriu que os Estados Unidos podem flexibilizar sanções contra alguns países para aumentar a oferta de petróleo no mercado internacional. O governo americano já autorizou, por exemplo, uma licença temporária de 30 dias para que a Índia compre petróleo russo de navios que estavam parados no mar. Mesmo assim, o presidente deixou claro que uma escalada no Golfo Pérsico continua sendo uma possibilidade. Segundo Trump, qualquer tentativa iraniana de interromper o fluxo de petróleo será respondida com força. A ameaça sobre o Estreito de Ormuz Em publicação nas redes sociais, Trump afirmou que os Estados Unidos não permitirão que o Irã “mantenha o mundo refém do petróleo”. Segundo ele, caso Teerã tente bloquear o Estreito de Ormuz, Washington reagirá com ataques “vinte vezes mais fortes” do que os realizados até agora. A declaração aumentou o temor de uma ampliação do conflito. O Estreito de Ormuz concentra uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta: cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo passa pela região, localizada entre o Irã e Omã. Analistas alertam que qualquer tentativa de bloqueio poderia provocar uma crise energética internacional e desencadear uma resposta militar ainda maior dos Estados Unidos e de seus aliados. Apesar das ameaças, Trump tem adotado um tom otimista sobre o andamento da guerra. O presidente descreveu a ofensiva, batizada de Operação Fúria Épica, como “uma das operações militares mais complexas e impressionantes já realizadas”. Segundo ele, a campanha seria uma espécie de “incursão de curto prazo” e estaria adiantada em relação ao cronograma. Trump chegou a afirmar que o conflito pode terminar “muito em breve”. Ainda assim, o presidente americano evitou declarar vitória. Ele disse que os Estados Unidos “já venceram de muitas maneiras, mas ainda não o suficiente”, e afirmou que a operação só será considerada concluída quando o Irã não tiver mais capacidade de atacar os Estados Unidos, Israel ou aliados americanos na região. O líder republicano também comentou a sucessão política em Teerã após a morte do aiatolá Ali Khamenei, nos primeiros dias do conflito. Trump criticou a escolha do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, dizendo estar “decepcionado” com a decisão e sugerindo que a mudança pode manter os mesmos problemas políticos no país. Israel já sinalizou que o novo líder iraniano também pode se tornar alvo militar, o que aumenta ainda mais a tensão. Ataque a escola aumenta pressão internacional Um dos episódios mais chocantes da guerra ocorreu na cidade iraniana de Minab. Um ataque que tinha como alvo uma base naval da Guarda Revolucionária acabou atingindo uma escola primária próxima, provocando a morte de dezenas de pessoas, muitas delas crianças. Imagens divulgadas pela agência iraniana Mehr e analisadas por investigadores independentes do grupo Bellingcat indicam que o local foi atingido durante uma série de bombardeios americanos. Segundo essas análises, o ataque teria sido realizado com um míssil Tomahawk, armamento utilizado pelas forças armadas dos Estados Unidos. Questionado sobre o caso, Trump afirmou que o episódio ainda está sob investigação. O presidente também sugeriu, sem apresentar provas, que o ataque poderia ter sido realizado pelo próprio Irã ou por “algum outro país”, argumentando que outros governos também possuem esse tipo de míssil. O caso aumentou a pressão internacional sobre Washington e intensificou as preocupações sobre vítimas civis no conflito. Seleção feminina do Irã pede proteção A guerra também tem repercussões humanitárias a milhares de quilômetros de distância do Oriente Médio. Um dos casos mais simbólicos envolve a seleção feminina de futebol
António Seguro assume a presidência de Portugal em meio ao polêmico uso de base militar pelos EUA
O socialista António José Seguro assumiu nesta segunda-feira (9) o cargo de Presidente da República Portuguesa, após a cerimônia de posse na Assembleia. Seguro, que teve uma vitória esmagadora no segundo turno das eleições, foi o candidato mais votado na história do país. A posse do novo chefe de Estado acontece em meio à polêmica autorização dada por Portugal para os EUA usarem a Base das Lajes, nos Açores, para escala de seus aviões militares envolvidos na guerra no Oriente Médio. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Em seu discurso de vitória, António José Seguro reiterou que será um presidente “livre e sem amarras” partidárias e que a prioridade em seu primeiro ano de mandato deverá ser a saúde e um pacto para o setor. O sucessor de Marcelo Rebelo de Souza, chamado de “Presidente dos afetos”, que construiu uma marca política singular nos últimos dez anos, sobe a rampa do Palácio de Belém em um contexto internacional conturbado. Atento às tensões geopolíticas, Seguro fará da defesa outra prioridade do início de seu mandato. O novo presidente é, sobretudo, apoiador de uma visão europeia da política de Defesa, e deve se posicionar a favor da manutenção das alianças na OTAN e na União Europeia. Política externa A princípio, o novo chefe de Estado português deve manter a linha da continuidade da política externa do país, sem rupturas com o histórico aliado norte-americano. Mas isso não significa que António Seguro simpatiza com as ações do presidente dos EUA, Donald Trump, pelo contrário. Ainda durante sua campanha, o então candidato presidencial ressaltou que “com certeza não foi por amor à liberdade e à democracia que Trump fez a intervenção na Venezuela.” Na época, Seguro também disse que deveria haver “soluções pacíficas para o Irã.” O ex-eurodeputado social-democrata e amigo próximo do novo presidente, Carlos Coelho, afirmou que, no entanto, “nunca vamos ouvir Seguro dizer o mesmo que Pedro Sánchez”. O chefe do governo espanhol, que tem criticado abertamente a atuação dos EUA no conflito do Oriente Médio, não autorizou o uso de estruturas na Espanha para ataques ao Irã. Na semana passada, Sánchez desmentiu as declarações da Casa Branca nas quais a Espanha teria concordado em cooperar militarmente com os EUA, e negou que aviões norte-americanos tenham sido detectados nas bases militares espanholas de Rota e Morón de la Frontera, no sul do país. Protesto em Açores Houve protestos recentes nos Açores, mais precisamente na ilha Terceira, onde fica a Base das Lajes. Os manifestantes fizeram um apelo para que Portugal rejeite o uso da base em qualquer operação militar que contribua para intensificar o conflito no Irã. Há uma incoerência na posição de Lisboa por causa da existência de voos anteriores à autorização formal do governo. Segundo o jornal Expresso, os EUA realizaram sete voos de reabastecimento nos Açores antes do sinal verde das autoridades portuguesas. O acordo “condicional” de Portugal só foi dado após os primeiros ataques dos EUA contra o Irã, assim como a declaração do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, que assegurou que o uso da Base das Lajes “não resultou de qualquer violação do direito internacional”. Enquanto isso, 15 aeronaves KC-Pegasus 46 com capacidade de abastecer aviões militares em pleno vôo, estão estacionadas na Base das Lajes e têm saído para missões diárias. Segundo o Ministério das Relações Exteriores de Portugal, o eventual uso da Base das Lajes na guerra em curso está sujeita a três requisitos: só pode ser utilizada em resposta a um ataque, em um quadro de defesa ou retaliação; a ação tem que ser necessária e proporcional; e só pode visar alvos militares. Para especialistas em direito internacional, é impossível verificar todas estas condições.
Abertura dos Jogos Paralímpicos de Inverno terá boicote de delegações e não contará com porta-bandeiras
Em meio à guerra na Ucrânia, a autorização para que atletas russos e bielorrussos compitam sob suas bandeiras gerou críticas. O Comitê Paralímpico Internacional decidiu que voluntários irão carregar as bandeiras de todos os países durante o desfile, justificando dificuldades de deslocamento entre as cidades dos Jogos. O Brasil também não participará presencialmente da cerimônia de abertura, por motivo de logística. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão Mais de 600 atletas, de 57 países, participam dos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Esta edição marca os 50 anos da primeira Paralimpíada de Inverno. Assim como nas Olimpíadas, as competições serão distribuídas entre diferentes cidades: Milão, Cortina d’Ampezzo e Tesero. Ao todo, são seis modalidades em disputa, no entre elas esqui alpino, snowboard e hóquei no gelo. Em Milão, são esperados cerca de 73 mil espectadores, segundo estimativa do Centro de Estudos da Confcommercio Milano, Lodi, Monza e Brianza. Os preços dos ingressos chamaram atenção por serem relativamente acessíveis: 89% dos bilhetes custam menos de 35 euros (R$ 214). Embora a abertura oficial esteja marcada para esta sexta-feira (6), algumas competições já começaram. Na quarta-feira (4) tiveram início as partidas de curling em cadeiras de rodas. A cerimônia de abertura será realizada na Arena de Verona, um anfiteatro romano do século I, considerado Patrimônio Mundial da UNESCO. O local também recebeu a cerimônia de encerramento das Olimpíadas. O tema será “Vida em Movimento”. O espetáculo busca destacar as transformações constantes ao longo da vida, segundo o diretor artístico do evento, Alfredo Accatino, em entrevista à agência italiana Adnkronos.Entre os artistas confirmados estão Stewart Copeland, baterista e um dos fundadores da banda The Police, e o DJ italiano Miky Bionic, considerado o primeiro DJ do mundo a se apresentar usando uma prótese robótica mioeletrônica, após perder o braço esquerdo em um acidente. Boicote à cerimônia de abertura Ao menos 13 países anunciaram um boicote à cerimônia de abertura como forma de protesto, após o Comitê Paralímpico Internacional autorizar atletas da Rússia e de Belarus a competirem representando seus países. Também está autorizado que o hino nacional seja tocado em caso de vitória.As delegações que anunciaram boicote são: Ucrânia, Canadá, Croácia, República Tcheca, Estônia, Finlândia, Alemanha, França, Letônia, Lituânia, Holanda, Reino Unido e Polônia. Alguns deles não enviarão representantes do governo para a cerimônia e outros não terão atletas participando do desfile. Nos Jogos de Inverno, participarão seis atletas russos e quatro bielorrussos. Desde a invasão russa à Ucrânia, em 2022, atletas desses países só podiam competir como neutros. Outra decisão também aumentou a tensão. Atletas ucranianos foram proibidos de usar o uniforme do país que traz estampado o mapa da Ucrânia, incluindo as regiões ocupadas pela Rússia. O comitê internacional considera que isso configura uma mensagem política, algo proibido nos Jogos. A delegação ucraniana precisou alterar os uniformes às pressas. Em meio a todo esse impasse, o Comitê Paralímpico decidiu que voluntários carregarão as bandeiras dos países durante o desfile de abertura. Segundo o comitê organizador, a decisão foi tomada porque a distância entre Verona e os locais de competição dificultaria a participação dos atletas. Ainda assim, imagens dos atletas com as bandeiras foram gravadas nas vilas olímpicas e serão exibidas nos telões durante a cerimônia. Por conta da distância, o Brasil também não participará presencialmente da cerimônia de abertura. A delegação está concentrada em Predazzo, no norte da Itália, e teria que se deslocar até Verona. O Comitê Paralímpico Brasileiro informou que a decisão foi tomada para preservar a preparação dos atletas, já que alguns deles competem já no sábado (7). Cristian Ribera é a principal aposta do Brasil para conquistar medalha inédita Nesta quarta participação em Jogos Paralímpicos de Inverno, o Brasil chega em um cenário favorável para levar a primeira medalha. O país terá a maior delegação da história. Serão nove atletas, que competirão em três modalidades: esqui cross-country, snowboard e biatlo. O favorito a medalha é Cristian Ribera, natural de Rondônia. Ele é campeão mundial da temporada 2024/2025 no esqui cross-country, na categoria para atletas cadeirantes ou com deficiência nas pernas. Cristian realizou o primeiro treino na pista de Tesero nesta semana. A primeira prova será na terça-feira (10), na disputa do sprint clássico. Depois, ele ainda participará da prova individual de 10km e de duas provas de revezamento misto. Esta será a terceira participação de Cristian em uma Paralimpíada. Ele nasceu com artrogripose, uma condição congênita que limita a mobilidade das articulações. Como no Brasil não há neve, ele começou a treinar utilizando esquis adaptados com rodas. Outro destaque da delegação brasileira é a paranaense Aline Roch
Escalada do conflito no Oriente Médio coloca União Europeia sob pressão
Tensão com os Estados Unidos, divisões internas e risco de crise energética desafiam a coesão política e estratégica do bloco europeu diante do conflito com o Irã. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas A União Europeia vive mais um momento de tensão interna em meio à escalada do conflito no Oriente Médio. A crise diplomática entre o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou uma reação em cadeia em Bruxelas e reacendeu o debate sobre a posição do bloco diante da guerra com o Irã. Inicialmente, a Espanha se viu relativamente isolada ao adotar uma postura firme contra as ações de Israel e dos Estados Unidos no território iraniano. A recusa de Madri em disponibilizar suas bases aéreas para operações norte-americanas levou Trump a ameaçar “encerrar” as relações comerciais entre os dois países. Não está claro o que essa intimidação significaria na prática, mas a resposta europeia foi imediata. A Comissão Europeia divulgou comunicado expressando solidariedade à Espanha e lembrando que, por meio da política comercial comum, está pronta para agir em defesa dos interesses do bloco. O presidente francês, Emmanuel Macron, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, também conversaram com Sánchez para reiterar apoio político. No Parlamento Europeu, no entanto, a divisão ficou evidente. Partidos de esquerda tentaram incluir na próxima semana plenária em Estrasburgo um debate intitulado “Ameaças e sanções dos EUA contra a Espanha”, mas a coalizão de legendas de direita bloqueou a proposta. Espanha isolada e o eixo cauteloso No campo diplomático, a Espanha permanece praticamente sozinha na oposição aberta à guerra. Já o eixo formado por Alemanha, França e Reino Unido tem adotado uma linha mais calculada. O chanceler alemão, Friedrich Merz, esteve na Casa Branca e presenciou, em silêncio, as ameaças de Trump ao governo espanhol. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou-se inicialmente a participar dos ataques, mas acabou permitindo o uso de bases britânicas pelos Estados Unidos. Trump chegou a ironizá-lo publicamente, afirmando que Starmer “não é nenhum Churchill”. Esse mesmo eixo condenou a retaliação iraniana e reiterou críticas ao regime de Teerã, sem endossar explicitamente os bombardeios norte-americanos e israelenses. A cautela reflete um dilema político: apoiar as ações de Trump e do primeiro-ministro israelense poderia ser interpretado como desrespeito ao direito internacional, princípio historicamente defendido pela União Europeia. Ao mesmo tempo, Washington continua sendo parceiro central para a defesa europeia por meio da Otan, o que limita a margem de manobra dos governos do bloco. Portugal também se posicionou de forma distinta da Espanha. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou apoio a Trump e autorizou o uso da base aérea de Lajes, nos Açores, pelas forças norte-americanas. Von der Leyen amplia protagonismo No alto escalão europeu, a crise também provocou movimentos inesperados. Pela primeira vez, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, manifestou-se a favor de uma mudança de regime no Irã, posição não endossada unanimemente pelos 27 Estados-membros. A declaração causou surpresa porque, formalmente, a política externa da União Europeia é conduzida pela chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa. Ao assumir essa posição, Von der Leyen foi acusada por opositores no Parlamento de extrapolar suas competências e tentar ampliar sua esfera de poder. O debate vai além da disputa institucional. Uma escalada prolongada pode elevar novamente os preços da energia, algo que já afetou duramente o continente após a invasão russa na Ucrânia. Também há receio de um novo fluxo de refugiados e de um desvio de foco num momento em que a prioridade estratégica europeia segue sendo o apoio a Kiev. Por enquanto, a Comissão Europeia afirma que não há impacto imediato na segurança do abastecimento e não prevê medidas emergenciais. Chipre no centro da tensão A situação se agravou com o ataque iraniano a uma base britânica no Chipre, país que integra a União Europeia e atualmente ocupa a presidência rotativa do Conselho da UE. Embora membro do bloco, o Chipre não faz parte da Otan. Caso queira acionar um mecanismo de defesa coletiva, teria de recorrer ao artigo 42.7 do tratado europeu. Grécia, França e Reino Unido já reforçaram a segurança na região, e Alemanha e Itália devem seguir o mesmo caminho. No âmbito da Otan, a Turquia informou que as defesas aéreas da aliança interceptaram um míssil iraniano direcionado ao seu espaço aéreo. A Polônia declarou que Teerã comete um erro ao estender a guerra a países que não o atacaram. Do lado iraniano, o governo afirma que qualquer participação direta da Europa no conflito terá resposta imediata.
Segurança europeia ganha destaque nas eleições da Dinamarca em meio à tensão no Oriente Médio
O tema entrou no centro do debate às vésperas das eleições marcadas para 24 de março, que vão definir o próximo primeiro-ministro do país. A discussão ocorre em meio à tensão no Oriente Médio e ao discurso do presidente francês Emmanuel Macron sobre dissuasão nuclear. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague Após confirmar que vai participar de treinamentos e atividades do programa de dissuasão nuclear proposto por Emmanuel Macron na última segunda-feira (02), a primeira-ministra Mette Frederiksen, do partido social-democrata, deixou claro que não haverá instalação de armas nucleares em território dinamarquês e que a cooperação não substitui o compromisso do país com a OTAN. Também será avaliado se os caças F-35 poderão integrar a estrutura de dissuasão da Aliança. O acordo envolve apenas a Dinamarca, e não se estende aos territórios autônomos da Groenlândia e das Ilhas Faroé. Nesta terça-feira (03), durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais, Mette Frederiksen falou sobre o assunto. “A Dinamarca é historicamente favorável ao desarmamento nuclear, mas existem países que possuem armas nucleares. Por isso, o governo decidiu estreitar a cooperação estratégica”, disse Mette Frederiksen. Popularidade em alta A decisão de Mette Frederiksen de antecipar as eleições que deveriam acontecer até junho deste ano, ocorre depois um período de tensão diplomática envolvendo a Groenlândia e declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Pesquisas recentes indicaram aumento na aprovação da primeira-ministra do partido de centro-esquerda Social-Democrata, o que pode ter influenciado o cálculo político. A campanha começou imediatamente após o anúncio. No mesmo dia foi realizado o primeiro debate entre os líderes dos principais partidos, organizado pelas duas maiores emissoras de televisão do país escandinavo. Processo eleitoral dinamarquês Atualmente, o país é governado por uma coalizão formada pelo partido de centro-esquerda Social-Democrata de Mette Frederiksen, pelo partido de centro-direita, Venstre, do atual Ministro da Defesa Troels Lund Poulsen e pelo partido de centro Moderados de Lars Løkke Rasmussen, que ocupa o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Os três líderes concorrem ao cargo de primeiro-ministro. No dia 24 de março serão escolhidos os 179 membros do Parlamento, incluindo dois representantes da Groenlândia e dois das Ilhas Faroé. O sistema eleitoral é baseado em votação em papel. Não há urnas eletrônicas. Os eleitores recebem em casa um cartão de votação enviado pelo correio. Na Dinamarca 4,3 milhões de eleitores estão aptos a votar. Para participar, é preciso ser cidadão dinamarquês e ter pelo menos 18 anos. Entre os principais temas da campanha estão segurança nacional, política externa, economia, custo de vida e imigração. Estrangeiros representam hoje cerca de 10% da população dinamarquesa, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística da Dinamarca. Taxação dos milionários A proposta de imposto sobre a riqueza partiu do "bloco vermelho", como são chamados os partidos de esquerda no Parlamento. O bloco é liderado pelo partido Social-Democratas e prevê a reintrodução de uma taxação sobre grandes fortunas, abolida em 1997. O modelo apresentado estabelece uma alíquota de 0,5% sobre patrimônios líquidos superiores ao equivalente de 20 milhões de reais e pode atingir cerca de 22 mil pessoas. Segundo estimativa divulgada por uma emissora de TV dinamarquesa, a família Kirk Kristiansen, controladora do grupo Lego, poderia pagar cerca de 1,2 bilhão de coroas por ano, aproximadamente 800 milhões de reais, caso o imposto seja aprovado. A proposta encontra resistência do "bloco azul", como são chamados os partidos conservadores do país, como o partido de centro-direita Venstre (Partido Liberal) que integra o atual governo de coalizão. “O Partido Liberal não participará de um governo que introduza um imposto sobre a riqueza" disse o líder do partido, Troels Lund Poulsen. A Confederação da Indústria Dinamarquesa também se manifestou contrária à proposta de campanha do bloco vermelho, como são chamados os partidos de esquerda no Parlamento. “O imposto pode empobrecer todos os dinamarqueses e não se trata de uma medida que afete apenas os mais ricos” afirmou o diretor Confederação da Indústria Dinamarquesa da Morten Høyer.
Na Casa Branca, Merz deve apresentar um apoio cético à operação no Irã
O chanceler alemão Friedrich Merz está em Washington nesta terça-feira (3) para sua segunda visita à Casa Branca desde que assumiu o cargo, há 10 meses. Quando a visita foi agendada, esperava-se que a guerra comercial e as tarifas impostas pelos Estados Unidos à Europa seriam o tema principal. Mas o ataque americano e israelense ao Irã no fim de semana deve se tornar o assunto dominante no encontro da manhã de hoje no Salão Oval, com a Alemanha manifestando um apoio reticente à operação militar no Oriente Médio. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha Pelo menos diante das câmeras, Friedrich Merz deve adotar a mesma postura que teve em seu pronunciamento no domingo, em Berlim. Merz não manifestou apoio explícito, mas disse que “não é hora de criticar nossos aliados, mas sim de permanecermos unidos”. O chanceler disse que o regime dos aiatolás é um regime terrorista responsável por décadas de opressão ao povo iraniano, relembrou o apoio sistemático do Irã à invasão russa à Ucrânia, e disse que o governo alemão, portanto, compartilha do “alívio de muitos iranianos com o fim iminente do regime de aiatolás”. Mas o que Merz deve discutir com Trump nos bastidores são as suas preocupações sobre o futuro do conflito. O alemão diz “não saber se o plano de promover mudanças políticas internas por meio de ataques militares terá sucesso”. Segundo ele, “comparações com o Afeganistão, o Iraque e a Líbia são apenas parcialmente relevantes, mas ilustram a real dimensão dos riscos a médio prazo”. E concluiu: “Nós, na Europa e na Alemanha, também teríamos que arcar com as consequências.” Alemanha rejeita participar do conflito Depois desta fala ambígua de Merz no domingo, ficou no ar a impressão de que havia possibilidade real de a Alemanha se envolver diretamente na guerra. Mas na tarde de segunda-feira (2), o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, achou por bem combater qualquer rumor, deixando claro que a Alemanha não se envolverá diretamente. O governo alemão acredita, no entanto, que o mundo vive “um momento em que o direito internacional tem pouco efeito”, lembrando que antes dos Estados Unidos e de Israel ignorarem estas regras, o próprio Irã violou por décadas o direito internacional, segundo as palavras do chanceler Merz. Imitação de Trump Até o fim da semana passada, Merz vinha se preparando para um embate encarniçado no Salão Oval, e anunciou a quem quisesse ouvir que traria respostas duras a Trump na guerra comercial e tarifária. O chanceler alemão foi encarregado pelos países do bloco europeu de levar uma proposta conjunta de todos em relação às altas tarifas, que vêm onerando as exportações europeias para os Estados Unidos, mesmo depois da decisão da Suprema Corte americana vetando parte dos impostos. Em um discurso na semana passada, Merz chegou a zombar de Trump e arrancou risadas do público ao fazer uma inesperada imitação do presidente americano, relatando que Trump teria ficado impressionado com a queda de 60% na concessão de asilo a imigrantes na Alemanha. Mas todo esse clima belicoso entre Merz e Trump arrefeceu com o novo contexto no Oriente Médio. Inclusive, desta vez, a Alemanha pelo menos foi informada do ataque militar ao Irã antes de ele ocorrer, ao contrário de junho do ano passado, quando o lado alemão só foi notificado após os ataques dos Estados Unidos e Israel às instalações nucleares iranianas. Merz “sem esperanças” sobre a Rússia Friedrich Merz deve reivindicar mais uma vez a participação da Alemanha e da União Europeia nas negociações por um cessar-fogo entre as duas partes e que tem sido feitas de forma isolada pelos Estados Unidos. Mas a verdade é que o governo alemão alimenta poucas esperanças não só de obter participação na negociação quase pessoal entre Trump e Putin, mas também de qualquer desfecho positivo para o conflito. Merz foi enfático em uma fala desta semana: qualquer diplomacia adicional com a Rússia é, neste momento, inútil, já que Putin teria dado sinais reiterados de desinteresse em qualquer cessar-fogo.
Trump defende ataques ao Irã e sinaliza mais mortes de soldados americanos em meio à escalada
No terceiro dia da operação militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o conflito se estende ao Líbano e a outros países da região que abrigam bases militares americanas. Essas localidades passaram a ser alvo de retaliações do regime islâmico e de aliados como o Hezbollah. Neste domingo (1), Donald Trump tentou justificar os ataques ao Irã, criticados por um terço dos americanos, afirmando que a ofensiva aérea busca garantir a segurança de longo prazo dos Estados Unidos. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Trump também preparou o terreno para a possibilidade de novas mortes de militares americanos e prometeu reagir às primeiras baixas. Em entrevista ao New York Times, o presidente declarou ter “três boas opções” para direcionar o Irã, sem revelar quais seriam. Em outra entrevista, à CBS News, afirmou que os bombardeios foram eficazes e abriram espaço para a diplomacia. Segundo ele, um acordo agora seria “muito mais fácil” porque, em suas palavras, o Irã estaria sendo “duramente atingido”. O presidente classificou os ataques como “um grande dia para os Estados Unidos e para o mundo” e disse que os iranianos demonstraram interesse em dialogar. Teerã, porém, descarta qualquer negociação com Washington para encerrar o conflito. O chanceler Abbas Araqchi rebateu a narrativa americana, afirmando à Al Jazeera que o Irã sempre esteve aberto ao diálogo, mas acusou os Estados Unidos de atacarem justamente durante negociações em andamento. Ele lembrou que, em 2015, Teerã firmou um acordo nuclear com grandes potências globais, posteriormente abandonado por Washington. Segundo Araqchi, esse histórico coloca em dúvida a credibilidade dos EUA quando se trata de negociações. O governo americano informou que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, concederão uma entrevista coletiva nesta segunda-feira (2) pela manhã, em Washington, para detalhar a operação militar contra o Irã. A coletiva ocorrerá às 8h (10h no horário de Brasília). Na terça-feira, Hegseth e Caine se reunirão com parlamentares do Congresso, acompanhados do secretário de Estado Marco Rubio e do diretor da CIA John Ratcliffe, para prestar esclarecimentos sobre os ataques. Rubio, inclusive, cancelou uma viagem que faria a Israel nesta semana devido à escalada do conflito. Manifestações agradecem a intervenção no Irã Além dos protestos contrários à ação militar americana, ocorreram manifestações em apoio à ofensiva e à morte do líder supremo do Irã. No sábado, iranianos-americanos foram às ruas em cidades como Los Angeles e Nova York para celebrar a morte do aiatolá Ali Khamenei, atribuída a ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel. Para parte da diáspora iraniana, o episódio representa um momento histórico que pode abrir caminho para uma mudança profunda no regime em Teerã. Em Los Angeles, manifestantes exibiram bandeiras da era monárquica, cartazes agradecendo Donald Trump e slogans pedindo a libertação do Irã. Em Nova York, centenas se reuniram perto da sede da ONU e marcharam até a Times Square. Muitos relataram emoção e esperança de que a morte do líder supremo marque o início de uma nova fase política no país. Reino Unido autoriza uso de bases militares O governo britânico confirmou neste domingo que autorizou os Estados Unidos a utilizarem bases militares do Reino Unido para ações de defesa contra o Irã. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Keir Starmer, que afirmou que a medida busca impedir o lançamento de mísseis iranianos, proteger civis e evitar riscos a vidas britânicas e de países não diretamente envolvidos no conflito. Pouco depois, o Ministério da Defesa do Reino Unido informou que um drone suspeito atingiu a base aérea de RAF Akrotiri, no Chipre, principal centro de operações britânico na região. Não houve vítimas. O secretário da Defesa, John Healey, declarou que mísseis balísticos teriam sido disparados em direção ao Chipre, informação negada pelo governo cipriota. O impacto mais imediato ocorreu no mercado de petróleo. Diante do temor de interrupções no Estreito de Hormuz — rota de cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente — o barril do Brent chegou a subir 13%, ultrapassando US$ 82, o maior nível em mais de um ano. A tensão também atingiu os mercados financeiros. As bolsas asiáticas abriram em queda nesta segunda-feira, com investidores reagindo ao risco de um conflito prolongado no Oriente Médio, após Trump declarar que os ataques podem continuar por semanas.
Milei consolida fase reformista pró-mercado com vitórias no Congresso sem resistência da oposição
O presidente argentino, Javier Milei, tem colecionado uma série de conquistas impensadas até três meses atrás, quando ainda enfrentava uma expressiva minoria parlamentar. Essa situação começou a ser revertida com o apoio de Donald Trump, que permitiu uma vitória contundente nas eleições legislativas de outubro. O impacto da estabilidade financeira e a fragmentação da oposição favoreceram a construção de uma maioria no Senado. Agora, Milei avança com uma bateria de iniciativas pró-mercado tão polêmicas quanto estruturais. No próximo domingo (1°), o presidente argentino irá ao Congresso para fazer um balanço da sua gestão e anunciar uma nova série de reformas que não encontram capacidade de resistência na oposição. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires O ex-presidente argentino Alberto Fernández (2019-2023) impediu o fechamento do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia em 2023, quando o presidente Lula pressionava pela conclusão das negociações. Fernández, assim como todos os governos peronistas dos últimos 25 anos, atendia aos interesses protecionistas de sindicatos e industriais. Javier Milei, assim como o ex-presidente Mauricio Macri, pensa o contrário e quer entrar para a história como líder regional do livre comércio. Para o acordo com a União Europeia, Milei conseguiu 69 votos dos 72 senadores de um Senado, até outubro passado, dominado pelo peronismo desde o retorno da Democracia em 1983. No entanto, foi o Uruguai o primeiro país a ratificar o acordo comercial nesta quinta-feira (26), apenas três horas antes da Argentina, mas houve uma artimanha: a Câmara de Deputados do Uruguai primeiro votou para depois debater. Votou em cinco minutos e depois debateu o acordo. Já o Senado argentino debateu durante quatro horas e votou depois em cinco minutos. Porém, três horas depois de ratificado o acordo, o presidente argentino promulgou a lei através de um decreto. “O presidente Milei acaba de assinar o decreto que promulga a lei de aprovação do acordo Mercosul-UE, sendo o primeiro país do Mercosul a promulgá-la”, anunciou nas redes sociais o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno. Agora, a Argentina quer ser o primeiro país a enviar a lei a Assunção, no Paraguai, país que exerce a Presidência temporária do Mercosul e que, por isso, deve ser o responsável por notificar a Comissão Europeia. “Esta promulgação permite à Comissão Europeia aprovar a aplicação provisória do acordo”, afirmou Quirno. Do outro lado do Rio da Prata, o chanceler uruguaio, Mario Lubetkin, mandou um recado aos europeus. “A pergunta que nós fazemos agora é: nós cumprimos a nossa parte e agora os nossos amigos europeus têm uma boa responsabilidade. Como agirão em consequência? Esperemos”, pressionou ao sair da votação à qual compareceu como espectador. Tanto o presidente da Argentina quanto o do Uruguai irão aos seus respectivos Congresso para um discurso de inauguração das sessões legislativas. O argentino Javier Milei irá no domingo, 1° de março; o uruguaio Yamandú Orsi irá na segunda-feira (2). Os dois querem anunciar que foram os primeiros a aprovar o acordo. Conflito ambiental com o acordo Mas logo depois dessa aprovação comercial com a União Europeia, o Senado argentino passou a debater uma lei que permite às mineradoras explorarem áreas próximas às geleiras, uma iniciativa rejeitada pelos ambientalistas. E justamente o acordo com a União Europeia diz que os países se comprometem a não diminuir o nível de proteção ambiental. O Senado argentino aprovou na noite de quinta-feira (26) um projeto que impulsiona a exploração de minérios em áreas próximas de geleiras, algo proibido pela lei de 2010 que protege essas reservas de água. Por 40 votos a favor, 31 contra e uma abstenção, os senadores avançaram com a iniciativa do presidente Milei que quer explorar jazidas de lítio, de cobre e de ouro nessas áreas com reservas estratégicas de recursos hídricos. Só nos dois anos de governo Milei, os projetos de mineração duplicaram de 160 a 325. Se a lei passar pela Câmara de Deputados, os projetos vão se multiplicar, mas o meio ambiente pode ser irreversivelmente afetado. Essa, no entanto, não é a única medida pró-mercado ‘custe o que custar’ do Congresso argentino sob controle de Milei. A mais polêmica é a reforma trabalhista que foi modificada na Câmara de Deputados e que, nesta sexta-feira (27), volta ao Senado para ser aprovada definitivamente. Reforma pró-empregador A chamada Lei de Modernização Trabalhista altera significativamente as condições de trabalho estabelecidas em 1974, gerando uma regressão dos direitos dos trabalhadores ao flexibilizar a jornada a favor do empregador. As jornadas de trabalho podem ser estendidas a até 12 horas diárias, na contramão do mundo que tem debatido a redução da carga horária. A base de cálculo para as indenizações em caso de demissões fica menor ao excluir o décimo-terceiro, as férias e os prêmios. As horas extras não precisam mais ser pagas com dinheiro. E o