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Especial ao vivo no Tribeca com Luísa Cruz e José Raposo: “Conhecemo-nos na banda. Era esta senhora ainda uma moçoila”

Especial ao vivo no Tribeca com Luísa Cruz e José Raposo: “Conhecemo-nos na banda. Era esta senhora ainda uma moçoila”

Geração 60 · Conceição Lino

November 10, 20251h 0mbonus

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Show Notes

No episódio do podcast Geração 60, gravado ao vivo no Tribeca Film Festival em Lisboa, Conceição Lino conversa com Luísa Cruz e José Raposo sobre infância, liberdade, arte e envelhecimento. Ambos recordam as origens e o impacto do 25 de Abril nas suas vidas, revelando como o teatro se torna um espaço de descoberta e de emancipação. Os atores partilham memórias de infância e refletem sobre o poder transformador da arte, a importância da empatia e o papel do riso como resistência. José Raposo vê a representação como um ato de amor e partilha, uma forma de estar no mundo que exige entrega e empatia. Luísa Cruz acrescenta que o trabalho do ator é um exercício de esquizofrenia controlada, uma fusão entre verdade e ilusão que só é possível se mantiver viva a criança interior. Para ambos, a criatividade nasce da inocência e da curiosidade. Nesta conversa com público, discutem as mudanças sociais e tecnológicas em Portugal, a perda de proximidade humana e o crescimento dos extremismos, e falam das famílias, da passagem do tempo e da forma como o palco os mantém vivos e curiosos. 

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Topics

Luísa Cruz 00:00:00 Esta fotografia sou euos meus irmãosou sejao meu irmão e a minha irmã e a minha mãedurante um passeio nos jardins do Palácio de Queluzporque nós nesta altura morávamos em QueluzQueluz dos anos 60 e eu penso que é uma imagem do que? Do que era. Daquilo que eu me lembro da minha famíliaquando eraquando era mesmo pequenaquando eu devia ter talvez um ano e meio aqui. Dois anostalvez dois anos. E são aquelas primeiras memórias dos cheiros das famílias. Lembro me perfeitamente de do cheiro deste jardimdo cheiro do buxo cortado o buxo e que são aquelas ervinhas que que fazem os jardins à francesaTudo cortadinho. E eu? um cheiro que me ficou para para a vida. E a esta. Esta cumplicidadeesta irmandade e a figura da minha mãeque infelizmente perdia muito cedomas que permanece aquiaquinesta fotografia. A fotografia é uma imagemmas é também ao mesmo tempocada vez que a vemos ela revivenão é mesmo? As pessoas que já não estão vivas entre nós ficam ali vivas para sempre. Luísa Cruz 00:01:32 E eu acho que isso é. Eu gosto de fotografiaJosé Raposo. A fotografia. José Raposo 00:01:39 A minharemete me também a este tempo e a esta altura. É uma fotografia exactamente do meu segundo aniversário. Fazia dois anos de idade e é em Angola onde eu nasci. Num enfimnum jardim de uma vivenda onde vivíamosmas que tem já ali alguns aspetos africanosque é não só o tipo de árvores e de coisas ali à volta. Mas prontoestou com os meus paisfoi lá que eu nasci e remete me também em relação aos cheiros. Sem dúvida que ficam Quem? Quem? Quem esteve em Áfricaquem passa por África sabe que tem todo o nome e umas características muito específicas. É a luminosidade e esses cheiros específicos e a noção do tempo. Todas essas coisas me ficaram. Sem dúvida. Não é nada do tempo da infância e adolescência. Multiple Speakers 00:02:30 Presente em cada espinha desfiada. Conceição Lino 00:02:35 Luísa Cruz nasceu a 6 de Março de 1962em Lisboa. Cresceu rodeada de gentenuma família e numa casa onde havia sempre lugar para mais alguém. Conceição Lino 00:02:46 Quando chegou a altura de escolher um percurso profissionalfoi a música que a encantoumas a decepção de não ter entrado no Conservatório Nacional abriu lhe as portas para outra arte maior representar. Entranhou se até hojesem nunca ter largado a paixão pela música de vários génerosdesde ópera a fado. Na vida privadaprefere a discrição. Na vida como atrizentrega se quanto pode a cada personagemseja qual for o projecto. Diz que essa entrega já lhe roubou momentos que não voltam mais. Masmais do que remoer o passadoprefere aprender com ele. José Raposo nasceu a 3 de Fevereiro de 1963em DundoAngola. A vivacidade que lhe conhecemos hoje já a tinha em criançaquando não sonhava que iria ser actormas tinha curiosidade por outros mundos e outras formas de vida. Vir de África à metrópolede férias eram sempre momentos felizes até se ter mudado definitivamente para o Portugal do continente europeuquando se tornou óbvio que o caminho seria a arte de representação. Foi fundador do Teatro Infantil de Lisboa e nunca mais parou. Conceição Lino 00:04:01 Teatrotelevisãocinemadobragens. Da comédia ao mais dramáticodo mais bonzinho ao mais vilãodo mais cómico ao mais triste. Fora do palco e dos ecrãsprefere não se levar muito a sério para fugir ao sofrimento. Eu sou a Conceição Lino e este é o Geração 60. Os meus entrevistados nasceram durante a ditadura e cresceram na democracia que lhes trouxe a oportunidade de poderem sonhar com todas as possibilidades. Tornaram se uma referência nas mais diversas áreas. Será que o mundo em que vivem hoje e o que esperavam? Multiple Speakers 00:04:44 DelaLaila? Multiple Speakers 00:04:52 Os preços têm uma nova subscrição que lhe dá acesso completo ao The New York Timescom actualidadejogosculinária e muito mais. E ainda os conteúdos exclusivos da SIC Notíciasincluindo o Directo Verticala nova e inovadora emissão que se adapta ao seu smartphone. Subscreva em Expresso Ponto PT Barra Digital Expresso Liberdade para pensar. Conceição Lino 00:05:16 Sejam muito bem vindos! Estamos aqui perante esta plateia ao vivo e eu gostava quejá que estamos aqui a falar da geração 60vamos falar das crianças que vocês foram. Conceição Lino 00:05:27 Luísa era uma criança. Vimos já uma criança com uns caracolinhosamorosa e continua. Por isso continua. Como é que era? Era assim uma criança tímida. Quem é que era a Luisinha? Era Luisinha? Luísa Cruz 00:05:40 Não era a Gigi? A Gigi? Por quê? Porque um primo meu não conseguia dizê los. Enfimficou Gigi. Acabou se a minha família e chama me toda. Gigi. ProntoA Gigi. Eu era euEu era eu era uma criança cheia de energia. Aheu acho que ia ser uma chatadesgraçada mesmoMas eu tinha mesmo muita energiamuita alegria e estava sempre aos pulos. Eu amarelava pelas portas e eu e o meu irmãoque também é cinco anos mais velho do que eutambém me provocava. E então fazíamos grandes brincadeiras dentro de casacom escadotes e colchões a fazer de escorregas e por aí fora. Portantoeu sempre tive muita energia física e como com estacom este irmão mais velhocinco anossempre fui muito Provocada a fazer coisas de rapazes também. Luísa Cruz 00:06:45 Claro que também aprendi a fazer crochê e tricô e a bordar. Conceição Lino 00:06:49 Que ainda dura até aos dias de hoje. Luísa Cruz 00:06:51 Simainda dura até aos dias de hoje e acho que me vai acompanhar para sempreporque é uma. É uma terapia óptima para tudopara tudopara tudo e mais uma meditaçãoUma. Conceição Lino 00:07:02 Uma miúda não é uma miúda com muita energiaimagino. Quer dizero mesmo com o Zé Raposo. Mas em Áfricao que é que? José Raposo 00:07:10 Mas olha. Conceição Lino 00:07:11 O que é que te fez essa experiência? Luísa Cruz 00:07:13 O que é que. Conceição Lino 00:07:13 O que é que isso marca? José Raposo 00:07:15 Obviamentepara toda a vida. Mas euao contrárioEu era super tímido. Conceição Lino 00:07:20 Muito tímido. Não eras agitadoNãonão andavas a. Luísa Cruz 00:07:23 Fazer. Conceição Lino 00:07:23 Patifarias. José Raposo 00:07:24 Nadanada. Era um miúdo super tímido. Agora tinha era Como é que eu ia dizer aquela? Aquela liberdade da da da da. Conceição Lino 00:07:34 Não tinhas. Luísa Cruz 00:07:35 Da natureza. José Raposo 00:07:36 Da natureza. Conceição Lino 00:07:36 Tinhas horas para estarem. José Raposo 00:07:38 Ali. Ali o tempo tinha o ali tínhamos tempo para ter tempoera uma noção diferente de tempo. José Raposo 00:07:44 E depois meu pai era o contabilista. Isto foi no Dundoque era uma companhiaque era a Diamang. Ele foi para lá como contabilista. Conceição Lino 00:07:52 Era uma zona mineiranão é? José Raposo 00:07:54 Sima zona dos diamantesnão sei quê e infelizmente não trouxe nem um bocadinho nem um bocadinhomas pronto. Mas o meu pai era. Luísa Cruz 00:08:03 Uma pessoa honesta. José Raposo 00:08:04 Uma pessoa honesta. Luísa Cruz 00:08:05 Na. José Raposo 00:08:06 Honestidade aquela. Mas pronto. Luísa Cruz 00:08:08 Opápronto. José Raposo 00:08:09 Então e o meu pai ia fazer os pagamentos aos trabalhadoresas sanzalasportanto os sítios onde eles viviam? E essas viagens? Embora eu fosse muito miúdotenho ainda uns laivos de lembranças fantásticas. Porquê? Por causa da selva e da natureza e essa ligação com os animais? Lembro me disso. Lembro me de ver os macacos nas árvores e tudo aquilo. Mas para caças Se isso tenho. Tenho aindafelizmentemas imagens muito bonitas dessa dessa infância. Tínhamos inclusivamente quase toda a gente tinha em casaalém dos cãezinhosum macaquinho ou doisou não sei o quê. José Raposo 00:08:47 Havia uma ligação com a natureza muitomuito próxima. Conceição Lino 00:08:50 Não fazias teatrinhosNão. José Raposo 00:08:52 Juro que era mesmo tímido. Isso foi mais tarde na escola. E que fazia? Nem sequer era. Eu nunca fui nem para estar. Eu nunca fui muito de. Nunca fui muito de macacadas. Eu não sei. Só imitava. Tinha a coisa de imitar os políticosas figuras conhecidas e tal. Isso prontotinha tido a minha graça perante os colegasmas era tímido. Sempre fui muito tímido. Conceição Lino 00:09:13 Então a tua adolescência depois foi já fora de Angola. José Raposo 00:09:18 Simainda fui para Luandaportanto os meus pais mudaram se para Luanda? Não. E para a cidade. Tinha eu para aí uns oito anos e depois é que até aos 13 ainda vivi lá em Luanda. Conceição Lino 00:09:30 Portantoquando disseram que tinham que se mudarquando é que foi? José Raposo 00:09:33 Bemisso foi. Prontodepois. Conceição Lino 00:09:34 Para ti foi. José Raposo 00:09:35 Bom. Tudo quer dizernem bom nem mauporque tinha 13tudo aquilo foi reifoi a revoluçãonão é verdade? Depoisguerra civiletc. José Raposo 00:09:45 Períodos complicados para as pessoas que estavam lá nessa altura. Conceição Lino 00:09:48 E tu já percebias o que estava a acontecer com essa. José Raposo 00:09:50 Idade. Simos meus pais ficavam me e eu percebia porque tudo se agitou de uma forma naturalcomo aconteceu a estas situações. E depois eu vim para cá mais cedo que os meus pais. Ou sejaeles mandaram me para cá para casa dos meus avós maternosporque isso estava a acontecer. Toda essa ebulição revolucionária que é naturalnão é? E eles quiseram. Quiseram proteger me ao mandar me para cá antes de virem eles. Conceição Lino 00:10:19 E euOnde é que andava a Luisa adolescente nessa altura? Luísa Cruz 00:10:23 Então onde é que tu estavas no. Conceição Lino 00:10:25 25 de Abril? José Raposo 00:10:26 Onde é que tu andavas? Conceição Lino 00:10:27 Nãoo Baptista-Bastos já cá. Luísa Cruz 00:10:31 Pois eu estava. Eu tinha 12 anos e portanto apercebi me muito bem do que é que estava a acontecer e apercebi me também do que é que antes estava a acontecer e as limitações que nós tínhamos durante esse período negro. E eu? Eu ia para a escola. Luísa Cruz 00:10:58 Lembro me perfeitamente de acordar nesse dia e o meu pai estar a ouvir o rádio e estar a ouvir aquela música que passava e saber quem. Conceição Lino 00:11:10 Depois do adeus? Luísa Cruz 00:11:11 Simsempresempre. E lembro me perfeitamente de ouvir o meu pai dizer assim ele a fazer a barba e a dizer assim Houve um golpe de estado. Pronto. E realmente tinha havido uma revolução. Eu ainda fui para a escola. A escola estava fechada. Voltei para casa e não sabia o que é que íamos viver a seguir. Mas sabia muito bem o que é que nós tínhamos vivido. Conceição Lino 00:11:40 Tinhas essa consciência? Luísa Cruz 00:11:41 Tinha a? Tinha. Tinha essa consciência? Tinha. Porquê? Porque tinha. Conceição Lino 00:11:48 Percebias que havia hesitaçãoReceio de certas conversas. Percebias isso à tua volta? Luísa Cruz 00:11:55 Com certeza. Desde pequenina não dizes o que é. O que é que o pai faz? Qual é a profissão do Pai? Tu não sabes isto. Porquê? O meu pai era tiera tipógrafoEle trabalhava em tipografias e portanto. Conceição Lino 00:12:09 Sabe se lá se ele depois não o fez. Conceição Lino 00:12:11 Não era. Luísa Cruz 00:12:12 Descoberto. Conceição Lino 00:12:12 Que ele andasse aí a imprimir coisas que não deviam. Luísa Cruz 00:12:16 Era um dos trabalhos mais arriscado. Feitos esses pecadosExactamente. Portantoeu nunca sabia para ouvir rádioBBCetc para se ouvir. Ainda me lembro da rádio que aquelas telefonias enormes era muito baixinho. Porquê? Porque se um vizinho ouvisse que nós estávamos a ouvir um programa de rádio estrangeiro ou a BBC podia podia ir falar não é com a PIDE e etc. E também para além dissopercebia que a minha mãea minha avóas minhas tiasetc. Tudo o que era mulherestudo o que eram mulheresnão tinham os mesmos direitossó tinham era de ver. E como é que tu não. Conceição Lino 00:13:09 Estavas por aí sendo mulher? Luísa Cruz 00:13:12 Até uma certa altura aceitava porque não tinha. Não tinha como compararnão é? Não tinha como comparar. E sentia que era uma injustiçamas não tinha como comparar. Portantoeu aprendi. Eu fui programada para ser uma boa mãeuma boa esposacontabilista familiar. Luísa Cruz 00:13:38 Pronto. Os crochêsos tricôsos bordadosa aprender a cozinhara tratar da casa. E fui programada assim. Conceição Lino 00:13:46 Até. Luísa Cruz 00:13:46 Depois. Conceição Lino 00:13:47 Foste sempre certinha. Luísa Cruz 00:13:48 Pois já não era isto que a sociedade queria de uma mulher ou de uma adolescente. E aí ficámos Então o que é que nós podemos ser? Esperaentão nós podemos ser tudo o que nós quisermos. Então já não podemos. Jájá podemos viajar sem a autorização do marido ou do paiou do irmão mais velho. As mulheres não podiam abandonar o paísnão podiam sair do país sem autorização. Conceição Lino 00:14:13 Já podias escolher profissões. Luísa Cruz 00:14:15 Portanto. Conceição Lino 00:14:15 Já podiaque eram diferentes desde essa altura. Luísa Cruz 00:14:18 Portantode repentenão foi só uma vida a acontecer. Eu tinha 12 anosportantoisto é a pré adolescência e todo um mundo que se abriuque se abriu para para todosmas para as mulheres. Eu penso que foi muito mais. Eu como mulhereu senti que fui muitomaismuitomuito maior a abertura. Luísa Cruz 00:14:41 Claro que também tive os meus tios. A voltar de Áfricade Angolacom com a roupa que tinham no corpo e com um saquinho de plásticodeixaram lá tudo e tiveram de vir a correr perceber. Apercebemo nos que as coisas não foram tão maravilhosas como como podiam ter sido feitas. Mas somos humanos e temostemos. Temos pressa também nestas ocasiõesde viver o momento. Como é que tu. Conceição Lino 00:15:16 Viveste esses tempos? E tu tinhas? Houve uma mudança na tua vida óbvia. Mas o que é que. O que é que tu eras enquanto adolescente? Em que é que tu te ocupava? Eras um aluno dedicado. Nãonão percebias estas tudo isto que aqui que a Luísa acabou de referir. José Raposo 00:15:33 Não vamos lá ver. Prontosão realidades diferentes. E como eu estava a dizer há bocado lá o 25 de Abrilo dia da Revolução chegou um dia levezinho. Obviamente a África não é. Depois é que se percebeu. Foi se percebendo tudo. O meu paio meu paisempre foi um um um antigo regimeum anti-salazarista ferrenho. Conceição Lino 00:15:54 E falava disso. Tu percebias. Não só percebeste mais tarde. José Raposo 00:15:58 Percebi mais tarde. Quer dizerassim que se deu o 25 de Abril. Obviamente que depoislá já com com liberdadese falou de se falaram das coisas mais abertamenteé lógico. Mas quer dizerpor exemplo. Conceição Lino 00:16:10 Portantoo teu pai não teria saudades do Salazar. José Raposo 00:16:13 Nãonão eraera. Era um homem contra o regime. Muito engraçado que muitas vezes com nota se os chamados retornados não é como porque eram os colonosera não sei o quê. Aquilo era tudo fascista. Conceição Lino 00:16:24 Estigmatizadoseja retornado ou não. José Raposo 00:16:27 É assim. Só que eu tenho uma capacidade de adaptação e quando cheguei a ouvir sem os meus paisvim para casa dos meus avós e senti uma diferença incrível da dosda ambiênciada maneira de serde estar aqui. Era tudo muito mais cinzentosem dúvidamuito mais. As pessoas eram mais fechadas. Luísa Cruz 00:16:45 As. José Raposo 00:16:46 Coisas. Há uma diferença grande nesse sentido. Mas prontoadaptei me facilmente. José Raposo 00:16:51 Não sofri bullying e coisas por ser retornado. Nãoisso já tinha 13 anos e não senti isso na escola e tudonão. Conceição Lino 00:16:59 Na escola onde quando. Luísa Cruz 00:17:00 Vocês se. Conceição Lino 00:17:00 Conheceramvocês foram colegas. José Raposo 00:17:02 Nós conhecemo nos na outra banda. Luísa Cruz 00:17:05 Exactamente em Almada. José Raposo 00:17:06 Nãonada. Andava esta moçoila Com a TAP Fallsnão é verdade? Luísa Cruz 00:17:13 E fazia parte do Centro Cultural de Almada. José Raposo 00:17:15 De Almadaexactamente. Luísa Cruz 00:17:16 Do grupo de música tradicional do Centro Cultural. José Raposo 00:17:20 Engraçado que eu fui para o grupo de teatro amador que era da dadodada. Luísa Cruz 00:17:27 Da Academia ou do Incrível. José Raposo 00:17:30 Almadense. Conceição Lino 00:17:30 Então foi nessa altura? Que idade é que vocês tinham. Luísa Cruz 00:17:32 Quando. Conceição Lino 00:17:33 Se conheceram? José Raposo 00:17:33 O tal de Almada? Mas eles e eles estavam a fazer. Luísa Cruz 00:17:36 Eles tinham a parte teatral de teatro. José Raposo 00:17:39 Estive lá. Nunca cheguei a estrear a peça. Estivemos anos a fazer aquilo. Era muito engraçado e fazíamos aqueles cabeçudos com papel e colamas não se. Luísa Cruz 00:17:47 Lembra. José Raposo 00:17:47 Exactamente exactamente. Mas conhecemo nos muito vagamente porque estávamos andávamos ali. Conceição Lino 00:17:55 Uns. José Raposo 00:17:55 Jovens ligados a que eu gostava muito da coisa da cultura e talpois. Conceição Lino 00:18:00 Queria ser ator nessa altura. José Raposo 00:18:02 Eu nãoela não. Ela estava nas músicas e eu? Eu sim. Conceição Lino 00:18:06 Tu já achavajá. José Raposo 00:18:07 Puxava o pezinho. Conceição Lino 00:18:08 Mas isso da representação entrou por porta. Veres na televisão de ires ao teatrode ver cinema. José Raposo 00:18:15 Meu pai era ator amador. Sempre foidesde desde novo ehouve logo um incentivo em relação a isso. E depois levava me ao teatroÉ verdade. Levava me ver as peçasprincipalmente da NA na Academia do Grupo de Campolideque estava primeiro ali sediado ali na Academia Almadensee tinham sempre um repertório fantásticonão é? E habituei meprontopor aía gostar muito. Mas depois foi uma questão. É uma história muito engraçadaque é uma verdadeira que a minha mãe nunca. A minha mãe queria que eu fosse para as caixas de depósitos e o meu pai dizia qualquer coisa e deixa te disso. E ela marcou me uma entrevista para a Caixa Geral de Depósitos no dia em que eu fui fazer o teste ao Teatro Haddock. José Raposo 00:18:58 Ou sejanão disse nada. Em vez de ir para a Caixafui para o teatro. Foi literalmente assim. Fiz o teste no teatro que fiquei. Minha mãe ficou muito tristemeu pai ficou todo contente e. Conceição Lino 00:19:08 Ficou mesmo contente. José Raposo 00:19:09 Ficou orgulhoso. Conceição Lino 00:19:11 Ele era confiante que isso seria o teu caminho. José Raposo 00:19:13 Simporque foi o que ele não conseguiu ser. Porque mais uma vez voltamos à ditadura no tempo do fascismo. Esta coisa de ser artista era muito mais. Era uma coisa. Conceição Lino 00:19:26 Simmais marginal. José Raposo 00:19:27 Sim. E era. Os marginaisos. Conceição Lino 00:19:30 Heróisas pessoas dalios boêmios. José Raposo 00:19:34 Sim. E elas foram para lá substitutas. Aquelas coisas todas. E o meu avôpai do meu pai na altura. Isto é engraçado porque a companhia de Rafael de Oliveira passou pelo Cartaxo. Era uma companhia que fazia grandes digressões. Que companhia extraordináriada qual falta contar a históriaporque foi muito importante no teatro português e no Cartaxo. O meu pai participou num espetáculo que eles pescavam pessoas das das terras para fazer determinados papéis e iam sei quem é o ator. José Raposo 00:20:03 É um papel engraçado. E o meu pai fez. Ficou. E eles convidaram me para ir com elespara continuar a seguir para Lisboa. O pai era há 16 anosacho eu e o meu paique era o meu avô. Nem pensar Isso. Conceição Lino 00:20:16 Essa vida. Luísa Cruz 00:20:17 De. Conceição Lino 00:20:17 Saltimbanco. José Raposo 00:20:18 Foi. Luísa Cruz 00:20:18 Meu paime. José Raposo 00:20:19 Disse. Nem pensar nissonunca. Conceição Lino 00:20:21 O teu pai disse te que vida de saltimbanco não alisa. Luísa Cruz 00:20:24 Disse me Nãonãoporque eu tinha outra outra vontade para além da música. Eu sempre gostei de medicinas alternativascomo se diz agora na altura. Imaginem anos. Conceição Lino 00:20:37 E se ainda era mais ainda. Ainda mais estranha. José Raposo 00:20:41 Mais estranha como ervas. Luísa Cruz 00:20:44 Simeu já era vegetariana e macrobiótica e sei látudo. Aos 14 anos já não interessa. E é uma pessoa muito estranha e eu gostei muito de de abordar tudo o que era a medicina alternativa na alturana altura e agora a acupuntura Shiatsu. Pronto. Só que não havia nada disso cá. Luísa Cruz 00:21:09 E éramos os doidosos totós. E eu não tinha dinheiro nem para ir para o Japãonem para ir até ao Algarvequanto mais a fazer um curso desses. De forma que isso também foi uma coisa que eu tive de pôr de lado e fiquei assim. O que é que eu faço da minha vidanão é? E por isso é que eu fui para a música porque tinha estudado clarinete e flauta transversal e adorava cantar. E era toda essa vertente que eu gostava e. E não entrei no Conservatóriocomo tu disseste no inícioe fiquei ali em compasso de esperasentada no no foyerna entrada do conservatórioa olhar para o resto dos dos cursos E e disse assim olhaolha teatroformação de atores. Vou ver o que é que isto. O que é que isto é? Só para não estar aqui sem fazer nada? Pronto. Conceição Lino 00:22:06 Foi isso. Uma ocupação temporária que deu. José Raposo 00:22:10 Nisto. Luísa Cruz 00:22:11 Já há algum tempo. Já são 40 anos. Pronto. José Raposo 00:22:15 Ainda bem que lá estava aquilo afixado na parede. José Raposo 00:22:17 E tu olhas. Luísa Cruz 00:22:18 E quem olha para os. José Raposo 00:22:19 Outros cursos? Luísa Cruz 00:22:20 Nãonão sei o que é que hoje seria da vida. Eu acho que foi. Nãonão. Não sei se foi o destino. Conceição Lino 00:22:27 Vocês gostam de trabalhar juntos agora? Estão a olhar para. Multiple Speakers 00:22:32 Ele Que horror! Não. Nós temos tudo. Nãonão vamos ver. Conceição Lino 00:22:37 Olhasão basicamente para essa expressão duas pestes de pessoas. Clarona novela. Multiple Speakers 00:22:42 Vitória. Verdade. Luísa Cruz 00:22:44 São até para. Conceição Lino 00:22:45 Nós que vocês conhecem pessoas assim como o Manuel Mendonça e a Carolina. Luísa Cruz 00:22:52 Sei lá. Conceição Lino 00:22:52 Sei sair que ela vai lá. Eu acho que hoje em dia. José Raposo 00:22:55 Basta ligar a televisão nos telejornais. Eise existemse existem. Luísa Cruz 00:23:01 É só abrir um livro de história tambémse quiserem também. Conceição Lino 00:23:05 Então vamos para pessoas que que nasceram nos anos 60. O que é que vos surpreende neste mundo em que estamos a viver? Vocês pensavam que seria tudo assim? Houve coisas que vocês não imaginaram e que vos surpreenderam pelo melhor e outras que afinal não. Luísa Cruz 00:23:24 Eu acho que houve uma grande evolução a vários níveis. Ao nível tecnológico entãonem se fala. Não é? Conceição Lino 00:23:34 Sonhavas estar a falar no meio de um monte com alguém e ver a cara da pessoa. E se isso para a nossa geração era uma coisa só da ficção científica. Luísa Cruz 00:23:45 A minha avó não nunca acreditou que o homem tivesse chegado à Luapor mais que bem também. Conceição Lino 00:23:50 Felizmente há pessoas agora que também não acreditam. Estamos nesse mundonão? Luísa Cruz 00:23:55 Mas o que é que era a televisão a preto e branco? Conceição Lino 00:24:00 Tudo o que é tecnológico tem de surpreender. Luísa Cruz 00:24:03 O máximo de tecnologia que havia na minha casa era uma telefonia e uma televisão a preto e branco. Tínhamos telefone. Conceição Lino 00:24:11 E prontotelefone para rodar. José Raposo 00:24:14 Pois. Conceição Lino 00:24:14 A conta e. Etc. Nós devorávamos os números com o som porque cada. Luísa Cruz 00:24:22 Um exactamente. Conceição Lino 00:24:22 Ao. José Raposo 00:24:22 Seu som. Conceição Lino 00:24:23 Portantoquando euquando me enganava a marcarpercebia pelo som se pusesse o três em vez do quatropor exemplo. Luísa Cruz 00:24:30 Portantohavia um. Por termos vivido uma parte da nossa vida sob a ditadura e com tudo de mau que isso teve. Luísa Cruz 00:24:41 E depois há liberdade total. O oposto não é? E logologoa seguir a issocom tanta vontade de se viver e de e de fazer tantas coisasobviamente que a nossa cabeça explodia de ideias e de possibilidades. Mas depois o que é que concretizámos? Muitas coisas. Concretizou se muitas coisas. Por exemplocasamento homossexual era uma coisa que nem. Conceição Lino 00:25:09 Nos passava. Luísa Cruz 00:25:11 Pela cabeça mesmo. Na altura nem. Conceição Lino 00:25:13 Se. Luísa Cruz 00:25:13 Falava. José Raposo 00:25:14 Só. Conceição Lino 00:25:15 Pela palavrajá fazia parte das pessoas. Luísa Cruz 00:25:18 Penso que estamos a evoluir em muitosmuitos níveis humanos também. Agoraem termos de humanidadeé preciso lutar. Conceição Lino 00:25:33 Para não perdermos. Luísa Cruz 00:25:34 Para não regredirpara não darmos passos atrás. Como dizia o Pasolini que ele dizia simé muito bom. O ser humano avançamas depois também tem esta tendência de parece que não quer ir para a frentetem de dar dois para trás para andar um para a frente e portanto aquilo que eu que eu acho que falta mesmo é cooperação. Acho que é uma palavra chave nos nossos dias e cooperarmos uns com os outros. Luísa Cruz 00:26:06 Ninguém está para isso. Está tudo a ver quem é que. Conceição Lino 00:26:10 Mete. Luísa Cruz 00:26:10 Mais ao bolsoquem é quem. Conceição Lino 00:26:12 Põe mais achas na. José Raposo 00:26:15 Fogueira. Luísa Cruz 00:26:16 Eno fundosem cooperação. Hoje não estávamos aquiporque se formos aos nossos antepassadoseles sobreviveram. Porque cooperaramporque cuidaram da saúde uns dos outrosporque inventaram juntos ou individualmente. Mas depois havia toda a comunidade que usufruía disso. José Raposo 00:26:33 Exatamente. Luísa Cruz 00:26:35 Portanto. Conceição Lino 00:26:38 Tu és um defensor da A democraciaclaromuito criticada nestes últimos tempos. A democracia. Tu que viste nascer. O que é que ela trouxe de bom? José Raposo 00:26:49 Como é que tudo isto que a Luísa disse e faço minhas as palavras dela hojenão seríamos nós? Olhanós estávamos aqui a falar assim tão abertamente? Nem pensar. Mas não tem. Não tem mesmo noção. Luísa Cruz 00:27:01 Três pessoas num passeio? José Raposo 00:27:02 Aiisso era crime? Não podiamnão podiam. Luísa Cruz 00:27:05 Era uma manifestação. Conceição Lino 00:27:06 Era uma junta. Luísa Cruz 00:27:06 Dispersardispersar. José Raposo 00:27:08 É importante dizer. Luísa Cruz 00:27:09 Não se podia ter. Conceição Lino 00:27:09 Aqueles. Luísa Cruz 00:27:10 Tiposaqueles. Conceição Lino 00:27:11 Isqueiros. Era gasolina. Luísa Cruz 00:27:14 Eera uma arma de. José Raposo 00:27:15 Fogo. Eu digo as coisas horríveismas. Aquilo foi a coisa mais horrível do mundo. E o fascismo é o autismo. Conceição Lino 00:27:23 A maneira como as pessoas viviamPorque em relação a muitas áreas da saúdeda educaçãonada disso. O país era muito miserável e muito pobre durante o tempo da ditadura. Luísa Cruz 00:27:39 Em Trás os Montes havia pessoas a trabalhar a terra com arados de pau que é Idade Médiamas eu acho que ainda é anterior à Idade Média. Conceição Lino 00:27:51 E havia pobres perseguidos quando acabavam as colheitas nos pomaresnas searas. Se fossem à procura dos últimos. Luísa Cruz 00:28:00 Grãozinhos. Conceição Lino 00:28:01 Pretoseram corridos com a polícia a cavalo ou a péou havia um clima de terror. Já falámos sobre sobre issomas sobre estes desafioso que é que te preocupa mais do que nós Estamos a viver deste momentoPresentes e coisas que tu vês e que achas? Eu não estava à espera disto. José Raposo 00:28:22 Acho que ninguém estava à espera de que está a acontecer desta formanão é? O que é que nós sabemos em termos políticosetc. José Raposo 00:28:26 Agora a Luísa estava a falar em cooperação. Que é que é exactamente isso que é necessário? É informação. Era preciso muita informaçãomas desde as escolas é uma coisa que não acontece e que estão a tentar que não aconteça cada vez mais. Porque? Porque as pessoas é. Vê se pelas suas opções políticas. Hoje em dia as pessoas não estão informadas do que é quedo que é que se passado que é que. Conceição Lino 00:28:51 Mas pior do que isso é achar em questão. José Raposo 00:28:53 Poisexactamente porque vão ver se nas redes sociais e tudo as pessoas falam de uma maneira com uma ignorância total. Luísa Cruz 00:28:59 E uma agressividade. José Raposo 00:29:01 Agressividade incrível. E isto é o que pretendem essas pessoas que pretendem voltar a dar os tais passos atrás. Luísa Cruz 00:29:07 Poismas connosco estão. Estão mal porque nós já levámos na cabeça e portantose for precisolevamos outra vez. E pronto. José Raposo 00:29:16 É isso mesmo. Luísa Cruz 00:29:17 Já andámos lá nas manifestaçõesnão é? Eu como o meu pai. Aideixa me só dizer este pormenor que eu acho que é interessantíssimo No meu bilhete de identidade antigoantes da antes do 25 de Abrilnós tínhamos todos os números a vermelho no bilhete de identidadeporque o meu pai esteve na manifestação do Humberto Delgadotoda a família estava marcada. Luísa Cruz 00:29:45 Mal puséssemos o pé fora do riscojá estávamos marcadoscarimbados. E isto é um clima de terror e um clima onde de prepotênciaonde onde não podíamos falar abertamente. E eu não estou para isto. Venha o que viereu não estou para isto. Conceição Lino 00:30:11 Vamos falar. Eu acho que já vos fizeram muitas vezes a pergunta sobre os papéis que vocês interpretam. A Luísa diz que gosta muito de estar sozinha e eu que gosta de estarporque se calhar estás poucas vezesporque vocês não andam sempre com outras pessoas atrás ou em cima ou dentro. Luísa Cruz 00:30:33 Também por causa disso. Mas eu sou. Eu reconheço que sou uma pessoa que gosto muito dos meus amigos e da minha família. E adoro e preciso. Mas preciso igualmente de estar sozinha. E nem sempre isso às vezes é bem compreendido. Não tenhonão sinto que a solidão não é uma coisa má para mimé uma coisa fundamental para mim. Mas sime porque o nosso trabalho temos sempre com pessoassempre a conhecer pessoassempre a falar. Luísa Cruz 00:31:07 Há sempre pessoas dentro de nóspersonagens e pessoas dentro de nós e fora de nós. Conceição Lino 00:31:12 É muita gente. E tu também gostas dos momentos sozinhoonde nunca acontece ou raramente esse espaço. Agora tens uma filha pequena. Duvido que consigas ter muito. José Raposo 00:31:23 Tempo. Conceição Lino 00:31:23 Sozinha. Antes disso tiveste os. José Raposo 00:31:25 Teus. Conceição Lino 00:31:26 Outros. José Raposo 00:31:26 Dois filhos? Claroclaro. Mas. Mas eu sou muito mais a Luísasabe? Eu sou muito mais de agregar pessoas para para para as tertúliaspara conversas. Eu gosto muito de almoços e jantares com pessoas com boa comida e com boas pessoas. Tudo ali enfardar e a falar Isso é que eu gosto. Gosto muitomas gosto das tertúlias. Eu promovo as. Eu tenho uma tertúlia neste momento que sou um pai e já vêm 50 e tal pessoas. Conceição Lino 00:31:51 Mas tertúlia digna desse nome. Simsim. José Raposo 00:31:54 É um jantar e ficamos até às tantas a falar. Conceição Lino 00:31:57 É isso. E ocasionalmente marcam uma. José Raposo 00:32:00 Vez. Conceição Lino 00:32:00 Por mês. José Raposo 00:32:01 Uma vez por mêsno mínimoporque eu acho que que lá estápor causa de tudo o que estávamos a falaré bom conversarespalhar a palavra. José Raposo 00:32:10 É bom trocar ideiasopiniões diferentesinclusivamente porque a discussão faz parte da vida. E eu? Eu gosto disso. Prontomas sempre com uma boa comida à mesa. Conceição Lino 00:32:21 Prontoisso é que nunca pode faltar. José Raposo 00:32:22 Aliássabes o que é que eu costumo dizer eu comecei no teatro com aquela ou aquele teste que eu fiz no Havocmas porque me disseram logo Epáisto é porreiroporque as digressõesas turnês em que além de passearmos e conhecermos o país de lés a léscome semas que em cada região vai se comendo. Conceição Lino 00:32:40 Se não estivessese não houvesse essa particularidadeo entusiasmo teria sido menor. Olharepresentarrepresentar. Achas que é mais um ato de amor ou de amor próprio? Ou também de amor próprio? José Raposo 00:32:57 Eu acho que são as duas coisassem dúvida. Masmas acima de tudoe isso é um ato de amor. E é sempre. Quando se fala nistonão é O que é que é o actor? O que é que é o representado? Tenho uma certa dificuldadeporque é uma coisa que é muito difícil de explicar. José Raposo 00:33:13 É uma coisa que é que se sente acima de tudonão é nós quando lá está. Luísa eu sou tímidomas a Luísa também não é de dar uma pessoa. Luísa Cruz 00:33:25 Eu disse que era uma criança cheia de energia e ainda sou. José Raposo 00:33:30 Não. Quando estás connoscoquando estamos a trabalharpor exemploé das pessoas mais divertidas do universo. A Luísa é engraçadíssima. É uma pessoa super inteligentecom um sentido de humor fabuloso. Estamos sempre todos muito felizes quando está presente a Luísa Cruz. Conceição Lino 00:33:47 Aliáseu tenho que te dizer quando te convidámos para estar aquique era com a Luísa. Tu disse isto. Eu adoro a Luísaclaro. Portantonem sei se o teu entusiasmo seria o mesmonão estivesse a Luísa. José Raposo 00:33:57 Mas pronto. Luísa Cruz 00:33:58 Mas eu também. Conceição Lino 00:33:59 Quando soube que a. Luísa Cruz 00:34:00 Ia com. Conceição Lino 00:34:00 O ZéAi estou igualÉ igual. José Raposo 00:34:04 A primeira vez que fizemos de marido e mulher nas novelas e nestas coisas e prontodamo nos lindamente. É assim. Conceição Lino 00:34:11 Vocês gostam de se ver ou não fazem isso? José Raposo 00:34:13 Nãoeu não vejo porque não. José Raposo 00:34:15 Eu digo sempre Era o que diziam o Nicolau Breyner. A mim me pagam para fazerNão é para ver se os dois vêem. Obrigado. Isso não. Olhaeu gosto de contracenar. O Luís é um exemplo. Conceição Lino 00:34:29 Monólogos não é contigo. José Raposo 00:34:32 Por acaso até agora fiz um. Fiz um tenhotenho. Conceição Lino 00:34:36 O Nunca estás sozinho. José Raposo 00:34:38 Tenho o ponto que está. Conceição Lino 00:34:40 A nunca se nunca. José Raposo 00:34:41 Dizer algo a ele. Não. Mas gosto muito mais assim da contracena. E quando se tem uma contracenanão é? Não é o Luís sabe. Não énão é. Não é estar aqui ou não estar. É a Luísaé a atriz que todos sabemos que ésque é. E contracenar com uma atriz desta dimensão. E epáolhaé como estás a ver. Estou me a estar a ver teatro e a senti lo ao mesmo tempo. Sei láeu não sei explicar. É maravilhoso porque quando há uma contracena tem que ser assim. O teatro só faz sentido assim quando há esse jogo. José Raposo 00:35:12 E é mágico. Luísa Cruz 00:35:14 Por outro ladoestar em palco e estarmos muito escondidos de nós próprios também parece um absurdo. Conceição Lino 00:35:23 Quando diz isso é porque sente a necessidade de estar protegida. Exige proteção. Luísa Cruz 00:35:27 Temos uma personagem também eestamos muito escondidos de nós epor termos uma personagempodemos ser e fazer coisas que nunca pensaríamos fazernem vivernem nem pensarnão é? E isso leva nos para um sítio que é ao mesmo tempo muito íntimocomo se fosse uma. Cada personagem nova e é um. É um caminho de uma floresta que ainda não percorremosnão é? E não queremos percorrer o mesmo caminhonão queremos fazer a personagem a esta é tão parecida com estamas não é o mesmo caminho. Temos de procurar sempre um ou outro caminho não faz mal que às vezes até pareça igualNão faz mal repetirmas se isso for um trampolim para uma coisa diferentee ao mesmo tempo um sítio muito escondido11 centro muito íntimo e ao mesmo tempo eu não sei explicar isto muito bemmas no último espetáculo que eu fui ver de teatroque foi no Porto com a grande atriz Emília Silvestreum texto que é sobre as memórias da Sarah Bernard. Luísa Cruz 00:36:49 Um texto muito bem escrito pelo Pedro Galiza. Há toda uma exposição do que é ser atoro que éo que é realmente istoque matéria prima é que nós é que nós moldamos e nossa e de fora. E o que nós pensamos e o que nós vemos e são os outros. E há uma mistura disso tudo que faz um bolo em que e em queem que nosque nos permite brincar. E esta palavra brincar aqui não é por acaso. Porque nósatoresquanto mais crianças criança formos. E isto foi óptimo teres começado também com uma fotografia de criança. Quanto mais criança nós formosmais disponíveis e mais verdadeiros e falsos somosporque no fundoé uma profissão esquizofrénica que nos obriga a ser verdadeirosporque senão o público. Conceição Lino 00:37:51 Não adere. Luísa Cruz 00:37:52 Aderenão acreditamas é falso e profundamente falso. Eu sei que quando estou a fazer uma personagem e aquilo é profundamente falsoeu não sou aquilo. Conceição Lino 00:38:01 Claronão é? Simsimsim. Mas a propósitoestás a falar de criança? Tu voltas a essa criança muitas vezes. Conceição Lino 00:38:07 Tu pensas que és essa pessoa para mim. Luísa Cruz 00:38:10 Se eu não voltar a essa criançase eu não voltar a um estado de disponibilidade infantilde aberturade surpresade deslumbramento. Não consigo. Porque como é que todas as. Conceição Lino 00:38:25 Criançasquando. Luísa Cruz 00:38:26 As crianças. Conceição Lino 00:38:27 Brincamquando vocês olhamquando vocês olham para trás? Já passou tempo? Como é que vocês lidam com isso? Luísa Cruz 00:38:34 Com o envelhecer. Conceição Lino 00:38:35 Com o envelhecercom o com o haver futuro? José Raposo 00:38:39 Nós não envelhecemos. E o que ela está a dizer? Eu também sou um puto. Eu. Conceição Lino 00:38:41 Ahpronto. Então esta pergunta é completamente despropositada. Peço imensa desculpa. Quer dizerpor fora assim as rugas. Luísa Cruz 00:38:48 Aiagora se calhar já não posso fazer um flic flac atrás como. Conceição Lino 00:38:51 O. Luísa Cruz 00:38:51 Faziaporque eu fui ginastamas pronto. Mas aquilo que se sente é uma essência. É uma criança sime ainda bem que não é? Claro que sim. Ainda bem. Senão não conseguimos fazersenão não conseguimos. José Raposo 00:39:09 Não ralham só com a minha filha que não podia comigo. Mas é verdade. É literalmente verdade. Digo eu só faço asneiras e coisas básicasaquelas que os miúdos fazem ainda agora. Conceição Lino 00:39:19 Olhamas é um dos papéis mais difíceis. Essa é ser pai ou é o A e o mais prazeroso. José Raposo 00:39:25 E isso é o mais prazeroso. Portantonão vejo. A dificuldade não existe quando existe tantoquando o prazer se sobrepõe a tudo issonão é? Não é? Conceição Lino 00:39:35 E agora estás a trabalhar com os teus dois filhos mais velhos. Portantotu és pai lá no meio ou és só profissional? José Raposo 00:39:42 NãoPelo contrário. Levo na cabeça porque o Miguel é que é o encenador e o autor. Foi ele que escreveu E os rapazeso. Conceição Lino 00:39:51 Teatro de variedades. José Raposo 00:39:53 Simexatamente. Fizeste isto? Não sei quê. Não podesporque isto não é assim. Conceição Lino 00:39:56 Eu fiz para fazeres de outra maneira. José Raposo 00:39:58 Exatamente. Eu respeito perfeitamente. Como é evidenteA alma é uma criação dele e é para isso mesmo que existem os senadores e os eu. José Raposo 00:40:09 Eles são. Pronto. Claro que são meus filhosEu sou suspeitomas eles são fantásticos. Os dois. Eles são umsão os colegassabem? As pessoas. Luísa Cruz 00:40:19 São. José Raposo 00:40:19 Mesmoporque além de serem belíssimos atoressão muito completos. Estou sempre a dizersão melhores do que eu. E a João também dizia isso também porque eles cantamdançamrepresentamescrevem e. Luísa Cruz 00:40:30 São uns doces. E depois são duas pessoas fantásticas e. Conceição Lino 00:40:33 Tudo por causa de tudo. De vez em quando acho quando digo a pensar porque a mãe já cá não está. Eles só te têm a ti e já não têm a mãe. Isso acontece. José Raposo 00:40:43 Eles tinham uma ligação muitomuito forte com a com a João. Era uma coisa umbilicalera uma. Ela era uma mãe galinha. Conceição Lino 00:40:49 Com a Maria João Abreumaravilhosa. José Raposo 00:40:52 Artística e. Conceição Lino 00:40:54 Pessoa também. José Raposo 00:40:54 Pessoa também uma pessoa fora de série. Também é sabido istonão é? E perderam. Realmente foi muito. Portanto57 anosuma pessoaenfimnão faz sentido nenhum. José Raposo 00:41:06 E tinha ainda essa ligaçãoainda por cima com os nossos netos que tinham. Portantoisto foi há três anos e eles agora têm 09h08e eu só seis anos. Sim. Havia ali uma grande ligação também Um familiar com quem? Com o RicardoCom os miúdoscom aquilo tudo. E prontofoi uma tragédia. Mas e ele? Simclaro que se sentemobviamentealiásneste espetáculo. Conceição Lino 00:41:28 Mas tu sentes isso tudo a eles agora só me tem a mim. Isso ocorre só no dia a dia? José Raposo 00:41:34 Não? Simmas felizmente não. Não me tem só a mim. Porque o outro avôque era o marido da João quando ela faleceuo Joãoque é uma pessoa extraordinária e tem dar lhes um grande apoio tambémmesmo com os miúdos e tudoe até em termos da proximidademoram próximos e continua a haver uma relação muito forte E mesmo com a frontecom a avócom a tiacom as pessoas da famíliauniram se ainda mais que é naturalobviamente que depois destadesta faltaum mas é o que é quando se perde alguém. José Raposo 00:42:09 Há sempre ali uma ou uma falha. Nósneste espetáculo falamos. Chama se mesmo um reality show Os Repousos 3027. Porque o Miguel fez ali uma miscelânia. A Luísa já viu a peça dos Raposos do passadoo de agora e do presente até 3027. Como é que se dá? Como é muito engraçado. É uma coisa da cabeça delemuito engraçada. E tem também lá algumas imagens nossas. Luísa Cruz 00:42:36 É muito bonito porque eles partilham imagensvídeos da. Quando das férias. José Raposo 00:42:45 Férias. Conceição Lino 00:42:46 Da vidados Raposos. Luísa Cruz 00:42:47 Dos Raposo com a Maria João e é muito emocionante e Emotivo e ao mesmo tempo vê se esse 3027. José Raposo 00:43:00 1027. Luísa Cruz 00:43:01 Mas vemos de onde é que aquilo vem. Conceição Lino 00:43:03 Vem então mas vem dessadessa ligação fortíssima e da e também do facto de de de de vocês os terem protegido tambémenquanto enquanto filhos da vossa própria situação. E eu gostava que me falasses da teu papel de mãe. Não é só o José Raposo que tem três filhostambém és mãe. Já agoratambém imagino que sejas tão maravilhosaque sejas tão orgulhosa como uma. Luísa Cruz 00:43:35 Mulher da Maria que vai fazer agora em Janeiro30 anos. Ela que sofreu um bocadinho comigo e tu sabes o que é que eu vou dizer das ausências por causa da nossa profissãocomo em outras tantas profissões. Conceição Lino 00:43:54 E ela é generosa. Agoraao compreender porque é que isso aconteceu. Luísa Cruz 00:43:58 Falámos sobre isso. Ela compreende. Eu continuo a pensar que se calhar não teria feito da mesma forma. Enfimjá jáexorcismos. Tudo aquilo que tínhamos para deitar fora as culpas. Já chorámosjá rimos. Conceição Lino 00:44:15 Mas se calhar não sentes às vezes que o papel como mãe é mais difícil ter linhas orientadoras do que quando estás com uma personagem qualquer? Luísa Cruz 00:44:26 Claro que simporque com uma personagem eu dominoeu sei o que é que quero fazer e o que me deixam fazer dentro daquilo. Conceição Lino 00:44:34 Que me deixam. Luísa Cruz 00:44:35 Fazer. Não é com uma pessoanão é bem assim com uma pessoa que está a cresceruma pessoa que também precisa de orientaçãoque também não percebe muito bem ainda o que é que está aqui a fazerquesão os pais que têm de fazer esse. Luísa Cruz 00:44:52 Tenho de lhes dar essas balizasessasessas. Orientações. E eu acho que não sei. Tenho a tendência para pensar assimMas que sou melhor atriz do que mãenão seiela o dirá. José Raposo 00:45:13 Porque tudoMulher? Porquê? Luísa Cruz 00:45:16 Porque não. Conceição Lino 00:45:16 Estive. Luísa Cruz 00:45:17 Presente em Não façam chorarPorque não estive presente numa altura que eu acho que era muito necessária para a minha filha e. Mas também por motivos profissionaiseu tive de me deslocar para o Porto e portanto foi aqui uma conjuntura toda. O meu marido estava sem trabalhohouve aqui uma. Conceição Lino 00:45:40 Mas ela agora é uma jovem adulta e falas com ela. Claro que sim. Quais são? Tudo tu dás? Dás contigo a pensar nos valores que a tua família transmitiu e a perceberes que conseguiste que esses valores estejam na tua filha. Luísa Cruz 00:45:55 Ela própria diz ela própria não é super. É ótimoé maravilhoso. E ela diz Eu ainda bem que eu tive estes pais. Eu acho que isso é o melhor que uma pessoa pode ouvir. Ainda bem. Luísa Cruz 00:46:09 ProntoPara além de a melhor mãe do mundoaquelas coisas. Conceição Lino 00:46:14 Que eles. Luísa Cruz 00:46:14 Dizem ainda querer vir dormir. Conceição Lino 00:46:16 Comigo. Luísa Cruz 00:46:18 Mãeainda quero um colinho quando não sei o quê. E eu? Eu tenho. Eu sinto que tenho ali umauma amigauma mulheruma uma amiga e acho que prontonão foi 100%mas foi quase. Conceição Lino 00:46:33 Acham que quando olham para a geração dos vossos filhos pensando no vosso crescimentoestá mais difícil para esta geração? algumas coisas que não foram tão difíceis para vocês. O que é. Luísa Cruz 00:46:46 Case? Profissões? José Raposo 00:46:48 Profissões? Simcasa perfeitamente. Emprego tudo. Nós sabemos que isto não. Isto está como está. Não vale a pena discriminar muitas coisasmas é verdade. Luísa Cruz 00:46:57 Nós quando tínhamos o empregodepois não temos. Acaba aqui. Mas depois havia outra. José Raposo 00:47:02 Coisaoutra coisa qualquer. Luísa Cruz 00:47:03 Casa. Então está bem. Então olhaeu agora vou mudar para este. Quantas vezes é que tu mudaste? Prontoentão eu também foi exactamente essas vezes? José Raposo 00:47:10 Pois certamente nãoMas é mais difícil. José Raposo 00:47:13 Eu penso que sim. Hoje em dia pelas as as oportunidades não são tantas e ainda por cima prontocada vez há mais gente no mundonão é? Mas mas não se facilita assim tanto como isso os senhores que decidem e que mandam. Conceição Lino 00:47:29 Mas olhatu tens uma filha mais pequeninarodeada de actores. A mãe delaa Sara Barradasdiz tudo à vossa volta é tudo a cor. Tu gostavas que ela fosse engenheira bioquímica? José Raposo 00:47:41 Não gostava que ela fosse. Conceição Lino 00:47:43 Para a engenharia. José Raposo 00:47:44 Eu gostava que ela fosse atrizaliás. E gostavas mesmo? Gostava. Conceição Lino 00:47:47 Claro que. José Raposo 00:47:47 Sim. Sabes que isso é a grande contradição. Alguns colegas. Tu não venhas para istoque isto é muito complicado. Entãose a pessoa énão se escolheu. Conceição Lino 00:47:56 Se a pessoa gosta e adora. José Raposo 00:47:58 E. Conceição Lino 00:47:59 Essa é o segredo? Não é claro. José Raposo 00:48:01 Entãose eu acho issoporque não? Agoraalguma coisa que os meus filhos são actoresos dois. Eu sempre lhes disse sempredesde o início. José Raposo 00:48:10 Para játem de ter jeito para a coisa. Não venham cánão tem jeitonão vale a pena issoIsso eu aconselho. Eu percebo. Nada. Não vai. Vai para outra coisa qualquer. Tem que se ter esse domesse talento. Quer queiramos quer nãonas artes tem. Tem que se ter algo que que que defina a sua vocaçãoé óbvio. Agoradepois simclaro. Se escolherem se tem esse domisso tem que se trabalharelas têm que estudartêm que trabalharetc. E eles demonstraram isso muito cedoque tinham essa. Luísa Cruz 00:48:41 De trabalhar sempre. José Raposo 00:48:42 Sempreeu sei. Conceição Lino 00:48:43 Mas todas vocês têm essa ansiedade do trabalho seguinte. José Raposo 00:48:46 Eu sou muito a Luísasabe? Eu sou um mandrião impressionante. Sou. Sou muito preguiçoso. Sou horrível. Sou o pior exemplo para quem está. Às vezes vêm ter comigo. Olha como é que é isto? Conceição Lino 00:48:56 Se calhar há aqui gente que veio a ouvir estes dois atores à espera de indicações. José Raposo 00:49:02 E. Conceição Lino 00:49:02 Sugestões. Luísa Cruz 00:49:03 Ao contrário do Zéeu sou picuinhas. Não estou a dizer este de ou este. Falta este que ou estou a pôr um eu a mais. Sou muito picuinhas. Conceição Lino 00:49:14 E é verdade. Luísa Cruz 00:49:15 Que. Conceição Lino 00:49:15 Quando foi durante a pandemia que tu continuaste a trabalhar como se estivesse tudo a funcionar normalmente em casa. Luísa Cruz 00:49:24 É verdadeestava com a minha filhaainda estava a viver comigo. Eu ouvi imensas aulas de espanhol que quer fazer parte do curso dela. Ela fez arqueologiamas agora é babysitter. E simeu continuei. Fiz muitas coisas em crochê e em tricô. Também foi bom. Foi uma espécie de férias e estiveste. Conceição Lino 00:49:55 A estudar papéis. Estiveste a ensaiar. Luísa Cruz 00:49:58 O que não. Mas estive a ler aquele tempo que nós nunca temos para ler. Estive a lerli imensos livrosli artigoslinão sei quantos livros é que eu li durante a pandemia e depois comecei a trabalhar porque entretanto fizemos a segunda temporada da novela da Nazaré e e fomos cheios de testes e cotonetes por dentro. Conceição Lino 00:50:27 Do nariz. Luísa Cruz 00:50:28 Esses dias todos os diastodos os dias. Mas fizemos a segunda temporada da Nazaré. Simtodos muito longe. Aliásdeve ver se. Conceição Lino 00:50:39 Agora a distância. Percebe se. Não falam assim nem dão beijos. José Raposo 00:50:44 Exatamente. Os beijos não era uma forma qualquer de que que eles arranjaram do de dos beijos? Quais? Luísa Cruz 00:50:50 Nãonão. Se não havia beijonão fazer. Conceição Lino 00:50:53 Mas dizem tu que és muitoque és mandriãodigamos assim. Mas as coisas quando te aparecem não que não fogesvais lá. José Raposo 00:51:03 Ou nãoclaro. Aliáseu fiz sempre muita coisa junta dobragensteatrotelevisão e équando estou a trabalhar. Claro que gostoé evidentemas sou preguiçoso no sentido do. Desde que a Luísa estava a dizer. Conceição Lino 00:51:19 Da ambição Não. José Raposo 00:51:21 Nãonão sou. Faz parte da nossa profissão ser ambicioso. Mas eu não. Não é coisa. Luísa Cruz 00:51:28 Do perfeccionismo. José Raposo 00:51:29 Do perfeccionismoe vocês só mandariam pronto. José Raposo 00:51:31 E a verdade é horrível. É um defeitoeu assumo. Eunão tenho. Lá está. Então estarão aqui jovens tendentes a às artesàs coisas. E eu sou um péssimo exemplo. Masmas também sou verdadeironão sou. Não digo numa boa e não sei quê. Eu odeio aquela coisa que os actores mais gostamque é ensaiar. Eu não tenho paciênciasei. Conceição Lino 00:51:55 Olhaeu queroeu gosto e o que tu gostas é o que eu gosto. E depois os normais. José Raposo 00:52:00 Gostam. Conceição Lino 00:52:00 Eu sei. Luísa Cruz 00:52:01 Prontoestamos bem. Mas o processo de descobrirde ir ao tapetede voltar os exercícios. José Raposo 00:52:08 Odeio aquelas coisas dos exercícios mimimi Agora faz jacaré. Não. Conceição Lino 00:52:13 Nãonão é bem issomas. Luísa Cruz 00:52:15 Mas por exemploagora no nono Portono Teatro Nacionalonde estou e ensaiar uma peçatemos aulas de voz. E é tão bom porque a voz já não é a mesma. Portantoagora como é que eu estou em relação à minha voz falada? Conceição Lino 00:52:31 Portantoé bom teres essas ideiasesta. Luísa Cruz 00:52:33 Reciclagemestaestas noções de que para ele não faz sentido nenhum. Óptimo. Também por isso é que nós nos damos bem. José Raposo 00:52:40 Também não é assim. Eu e a Luísaisto é em primeira mãovou dizer isto. Nós estamos sempre a dizer os doistemos que fazer um espetáculo. Luísa Cruz 00:52:47 É verdadeporque. José Raposo 00:52:49 Adoramos cantar a Luísaque canta primorosamente bem. Conceição Lino 00:52:52 E tem um disco de fado. José Raposo 00:52:54 Eu sei e é lírica e. Conceição Lino 00:52:57 Tudo. Luísa Cruz 00:52:57 E tudo não é nada. José Raposo 00:52:58 E depois queremos fazer. Queremos fazer um espetáculo que vamos ainda prepará lo os dois. Conceição Lino 00:53:04 Eu acho isso maravilhoso vocês estarem aqui a assumirem esse compromisso. Há anos. Luísa Cruz 00:53:08 Que estamos a falar. Conceição Lino 00:53:09 Disto antes. Luísa Cruz 00:53:10 Nãonão se entusiasmemporque há anos. Conceição Lino 00:53:13 Que está a. José Raposo 00:53:13 Passar. Quando é que estreará? Mas e aí? Como? Ainda por cima é com ela? Claro que vou ter que trabalharObviamente não. Conceição Lino 00:53:21 Então esperaEu posso. Luísa Cruz 00:53:23 Ter de adoptaradoptar também o teu sistemaensaiar e só um bocadinho e só depois experimentar como é que. Conceição Lino 00:53:29 Se trabalha. José Raposo 00:53:30 Agora as residênciasagora quer dizer já aquela coisa da residênciametem se todos numa casa a ensaiar e taldesde que haja convívio. Conceição Lino 00:53:38 E comercial e comida. José Raposo 00:53:40 E comida. Conceição Lino 00:53:41 E comidatu vais para as residências. José Raposo 00:53:44 Agora não. Para mimo essencial de uma residência é a gastronomia. Conceição Lino 00:53:49 E o contacto com os outros. José Raposo 00:53:50 A pessoa pode ir ensaiando e comendoou pescandosei láqualquer coisa. E olhahouve uma peça que eu ensaiei porque era o produtor. Depois os meus. Conceição Lino 00:54:02 Filhos tiveste de ensaiar. José Raposo 00:54:03 Tive que dizer vamos ensaiarmas vamos para a praia. E foi. Fomos para uma praia ali perto da zona do Guincho. Mas e aquela? Não. Conceição Lino 00:54:15 Ai a Ericeira. José Raposo 00:54:19 Não. Lá em cima o não é o cabo. Luísa Cruz 00:54:22 Cabo da. José Raposo 00:54:23 Roca. Conceição Lino 00:54:23 Cabo próximo de onde ele foi? José Raposo 00:54:27 Era uma praia que tinha que se ir a pé para as rochas e que é maravilhoso. E ali ninguém me chateava e pá! E dávamos mergulhos e íamos lendo um bocadinho e levávamos comida e mais não sei quê. José Raposo 00:54:37 Ou sejapara mim os ensaios têm que ser também uma brincadeira dentro daquilo que se estava e não uma coisa que seja chata. Às vezes também dependedos encenadores e das propostas. Às vezes é uma coisa que se torna um bocadinho chataa não ser que tem que ser aquilo para que determinada peça existe. Luísa Cruz 00:54:56 Por exemplose estás a. Não sei se já fizestemas eu já fiz Correia e Correiatudo em alexandrinos. Portantonão podes falhar a palavra porque está em rima etem de ser assim. José Raposo 00:55:11 Até que. Conceição Lino 00:55:12 Ponto? Bome agora? Depois é porque a conversa pode continuar durante vocês podem continuar mais. José Raposo 00:55:17 E. Conceição Lino 00:55:18 Mais 01h00 a falar destedesta bestadestas destas vossas. Prontojá não temos de terminar. Eu gostava que antes de terminarmos já vocês já falaram de algumas das preocupações que têm. Gostava que terminássemos com uma. Luísa Cruz 00:55:33 Nota de optimismo. Conceição Lino 00:55:35 A nota de optimismo. Uma nota para podermos ser optimistas Mas qual é a vossa? Luísa Cruz 00:55:41 Eu estou otimista em relação à próxima peça que vou estrear. Conceição Lino 00:55:44 Isso parece me bemmas para quem não tem de fazer essa peçatens alguma coisa a acrescentar? Luísa Cruz 00:55:50 Eu penso que aquilo que eu disse em relação à cooperaçãoque é muito aborrecido e dá muito trabalhomas para mimneste momento é a palavra chave para se poder viver um bocadinho melhorestarmos atentos a como é que podemos mergulharmergulhar também na vida dos outros e melhorar a vida dos outroscomeçando pela minhanão é? Isso para mim é uma preocupação. Não só porque tenho uma filha que quer avançar com a vida e temos muitos obstáculos como. Parade uma forma geralacreditarmos na humanidade. Porque se não houversese continuarmos a ver os telejornais e desligarmos a televisão e não tivermos nada de bom para fazer connoscocom os outros há sempre a depressão terrível. É isto. E agora vou dizer é muito fácil assim dominar as massasnão é? É muito fácil dominar um povo assim. Um povo deprimidodoenteque só acha que aquilo é que é o povo descontente. Luísa Cruz 00:57:05 E isto está dentro de nós. Está mesmo é uma questão de atitude. E como não fumo mais. Acabou. É uma atitude que se toma. Podemos ser felizesPodemos ser mais felizesmas não é. A felicidade é refletida. Podemos ser felizes todos se cooperarmos uns com os outros. José Raposo 00:57:25 Olha eu esta dica maravilhosa da Luísa. Eu não direi melhor e sim esta palavra. Conceição Lino 00:57:31 Acrescentar. Luísa Cruz 00:57:32 O petisco. José Raposo 00:57:34 Cooperaçãocooperaçãoum convite. Conceição Lino 00:57:37 Inclusive. José Raposo 00:57:39 Acho que é uma coisa. Luísa Cruz 00:57:41 Tens toda a razãotens toda a razão. Conceição Lino 00:57:43 Eu mas tu és um optimista. Se isso fosse mais uma razão para poderes partilhar como é que tu consegues ser assim? José Raposo 00:57:50 Olhatentem fazer por exemplo patuscadas. Simisso também é uma questãomas onde é que sabes que é uma? Isto parece uma mas é verdadeporque as pessoas são obrigadasobrigam se sim umas às outras. Conceição Lino 00:58:04 A estar umas com as outras e a serem felizes. Luísa Cruz 00:58:06 É uma. Conceição Lino 00:58:07 Forma de ser. José Raposo 00:58:07 Forma de se ser feliz e de com opiniões contrárias. José Raposo 00:58:11 Engraçado que eueu é que escolho mesmo as pessoas. Olhavais entrar no grupo não sei quêponho as pessoas no grupo e escolho as porquê este pensa um pouco diferente daquele Isto vai ser giro. Encontrá los ali e ser motivo de uma de uma discussão salutar para para que as coisas fiquem melhores para a pessoa que se calhar está pior. Ou sejaacho que o convívio é é uma forma maravilhosa de. Conceição Lino 00:58:36 É a tua forma de estarque é levar este a sérionão levando a sério. Luísa Cruz 00:58:42 Por favorvejamouçamfaçam cultura. José Raposo 00:58:48 Leiam. Luísa Cruz 00:58:49 Leiamvão ver exposiçõesVou ver cinema. Provoquem se. Não deixem o cérebro amarfanhar se. José Raposo 00:59:00 Até porqueem termos sexuais a coisa corre muito melhor quando quando a pessoa está maislibertem mais e. Luísa Cruz 00:59:08 Mais ideiasfica com mais ideias. José Raposo 00:59:10 Por exemplo. Conceição Lino 00:59:11 E assim terminamos. Foi uma belíssima conversa. Obrigadaobrigadaobrigada. José Raposo 00:59:19 Obrigada. Multiple Speakers 00:59:22 Obrigada. Bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla. Multiple Speakers 00:59:30 Bla bla bla bla. Multiple Speakers 00:59:38 O Expresso tem uma nova subscrição que lhe dá acesso completo ao The New York Timesa nova e inovadora emissão que se adapta ao seu smartphone. 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