
Season 1 · Episode 13
Sobre uma coisa engraçada que me aconteceu a caminho da sepultura (com Maria Sequeira Mendes)
Coisa Que Não Edifica Nem Destrói · Ricardo Araújo Pereira
December 6, 202333m 6s
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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre sepulturas hilariantes. Cita um bispo do século IV que gosta muito de medo. Depois, tenta convencer-nos de que um poeta inglês e um príncipe dinamarquês demonstram que é ajuizado rir da morte. No fim, conversa com a professora Maria Sequeira Mendes sobre um senhor de collants que fala com uma caveira. A não perder.
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Ricardo Araújo Pereira discorre chatamente sobre sepulturas hilariantes. Cita um bispo do século IV que gosta muito de medo. Depoistenta convencer-nos de que um poeta inglês e um príncipe dinamarquês demonstram que é ajuizado rir da morte. No fimconversa com a professora Maria Sequeira Mendes sobre um senhor de collants que fala com uma caveira. A não perder.Sobre uma coisa engraçada que me aconteceu a caminho da sepultura
A ideia de humor de cemitério exprime uma contradição ou descreve uma inclinação natural etalvezinevitável? Num livro chamado “Of Corpse” (jogo de palavras que não consigo traduzir) e que tem por subtítulo “Death and Humor in Folkore and Popular Culture”ou seja “a morte e o humor no folclore e na cultura popular”Richard E. Meyerprofessor de psicologia na Universidade da Califórniaescreve um ensaio intitulado «“PARDON ME FOR NOT STANDING”: Modern American Graveyard Humor»isto é«“Peço desculpa por não me levantar”: humor de cemitério americano moderno». O autor começa por reconhecer que o tom das inscrições gravadas nas pedras tumulares tem vindo a mudar. Houve um tempo em que o epitáfio mais popular dizia: “Hearken StrangerAs You Pass By/ As You Are Now So Once Was I/ As I Am Now So You Must Be/ Thus Think On Death And Follow Me” (“Escutaestranhoquando aqui passas / O que tu és agora eu fui em tempos / O que agora eu sou tu terás de ser / Por issopensa na morte e segue-me.”) Mas o autor dedicou-se a visitar alguns cemitérios americanos e recolheu epitáfios bastante diferentestais como o da srª. Helen Louise Jonesfalecida em 1995 em PortlandOregoncuja campa diz: “Isto não estava na minha agenda”. Ou o do sr. William Scott Gibsonque morreu em 1977 em LansdownePensilvânia: “Isto é realmente uma grande chatice”. E registou aindapor exemploa ideia do sr. Archie A. Arnoldfalecido em 1982 em Allen CountyIndianaque resolveu instalar um parquímetro de cada lado da sua pedra tumular – parquímetros expiradosevidentemente. O defunto já está a pagar multa.
Aos epitáfios destes anónimos podemos juntar os de pessoas famosascomo o de Mel Blanco actor que fazia as vozes de Bugs BunnyDaffy Duck e Porky Pig (“That’s allfolks!”)ou o do comediante britânico Spike Milligan (“Eu bem vos disse que estava doente”)ou ainda o do actor Jack Lemmoncuja campa exibe apenas a fraseescrita com o tipo de letra que costumamos ver nos créditos iniciais dos filmes“Jack Lemmon in”.
De um mortoesperamos que esteja calado. E supomos que esse silêncio exprime tristeza e medoque é o que a morte costuma inspirar. Numa das suas famosas homiliasSão João Crisóstomo faz o elogio do medoe é do medo da morte que está a falar. Diz
ele: “Vedes que vantagem advém do medo? Se o medo não fosse bomos pais não contratariam tutores sobre para os seus filhos; nem os legisladores enviariam magistrados para as cidades. O que pode ser mais severo do que o inferno? No entantonada é mais proveitoso do que o medo dele; pois é o medo do inferno que nos trará a coroa do reino. Onde há medonão há inveja; onde há medoo amor ao dinheiro não perturba; onde há medoa ira é apaziguadaa concupiscência maligna é reprimidae toda a paixão irracional é exterminada. E assim como numa casaonde há sempre um soldado armadonenhum ladrãonem arrombadornem qualquer malfeitor ousará aparecer; da mesma formaenquanto o medo se mantém senhor das nossas mentesnenhuma das paixões vis atacará facilmentemas todas se afastam e são banidassendo expulsas em todas as direcções pelo poder despótico do medo. E não apenas obtemos essa vantagem do medomas também outra que é muito maior. Poisde factonão apenas ele expulsa as nossas paixões malignasmas também introduz com grande facilidade todo o tipo de virtude. Onde há medohá zelo na caridadeintensidade na oraçãoe lágrimas calorosas e frequentese gemidos repletos de contrição. Pois nada consome o pecadoe faz a virtude aumentar e florescercomo um estado constante de temor. Portantoé impossível para aquele que não vive com medo agir correctamente; assim comopor outro ladoé impossível que o homem que vive com medo possa errar.” E acrescenta: “Se o medo não fosse algo bomCristo não teria dedicado discursos tão longos e frequentes ao tema do castigo e da vingança futura.”
Oraquem aproveita o momento da morte para fazer uma piada não está a comportar-se de acordo com a solenidade da ocasião. É gente que não sabe ser defunta. Mas se consideramos que rir na sepultura é absurdosomos forçados a perguntar se será só essa gargalhada que é absurda ou se são todas. Uma vez queao que me dizema minha morte é inevitávelnum certo sentido eu já estou na sepultura. Por issoquando rioé lá que estou a rir. Daí o título da autobiografia de Jack Douglaso autor de comédia americano: “A funny thing happened to me on my way to the grave”“uma coisa engraçada que me aconteceu a caminho da sepultura”. De toda a gente que ri se pode dizer: olhaali está uma
pessoa que vai a rir a caminho da cova. Não é menos absurdo do que um epitáfio jocoso.
*
Talvez o mais evidente parentesco entre humor e morte seja o factomuitas vezes assinaladode todas as caveiras sorrirem. E é possível que seja essa uma das razões para quenum dos momentos mais célebres da história da literaturaalguém faça uma reflexão sobre humor enquanto fala com uma caveira. É na primeira cena do quinto acto do Hamlet. O príncipe e o seu amigo Horácio estão a passar por um cemitério e vêem um coveiro a trabalhar. É um espectáculo macabro porqueenquanto ele abre uma sepulturaos ossos dos antigos ocupantes vão rolando para fora. Hamlet comenta:
[leitura 1]
E acrescenta:
[leitura 2]
Hamlet vai falar com o coveiroque a certa altura lhe diz:
[leitura 3]
Não sei se Hamlet está a ser sincero ou sarcásticomas esta é a melhor definição que eu conheço do trabalho do humorista. Fazer com que as pessoas se riam da seguinte ideia: por mais que façamvão morrer. Há quem pergunteprovavelmente bem: para que é que isso serve? Não tenho a certeza de saber responder. Há um poema muito famoso de Philip Larkinchamado “Aubade”. Fica aquidito pelo próprio poeta. https://www.youtube.com/watch?v=1ycRRE7ta70
Há várias coisas que me interessam neste poema. A palavra afraid (com medo) aparece uma veze fear (medo)três vezes – a última das quais sob a forma fear-furnace (medo-fornalha). Mas talvez a resposta à pergunta que formulei há pouco esteja nestes versos: “(…) Courage is no good: / It means not scaring others. Being brave / Lets no one off the grave. / Death is no different whined at than withstood.” Não há dúvida de que a coragem não isenta ninguém da sepulturae de que a morte não é diferente para os que a temem ou para os que a enfrentam e lhe resistem. Certo. Todos morrem. A morte não é diferente. Mas talvez a vida seja.
Talvez a vida seja mais vida para quem é capaz de se rir da morte do que para quem a teme.
Mais sobre isto após uma curta pausa.
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Foi o décimo terceiro episódio de Coisa Que Não Edifica Nem Destróium podcast original da SIC com sonoplastia de João Martinsmúsica de Rodrigo Leão e capa de Vera Tavares. Coordenação de Joana Belezadirecção de Daniel Oliveira. Eu sou o Ricardo Araújo Pereira e no próximo episódio vou discorrer chatamente sobre coisas leves e pesadas.ricardo araújo pereirashakespeareMaria Sequeira Mendescosia que não edifica nem destróihumorliteraturacomédiamortehamletmacbeth